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segunda-feira, 9 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 5, 13-16.

O texto de Mateus 5,13-16 é proclamado no 5º Domingo do Tempo Comum do Ano A, no ciclo dominical, e também na terça-feira da 10ª semana do Tempo Comum sendo a continuação do Evangelho  da segunda-feira anterior. Ele faz parte do célebre Sermão da Montanha e traz imagens que sintetizam a vocação pública e transformadora dos discípulos de Jesus: ser sal da terra e luz do mundo. Não se trata de um chamado à superioridade, mas à responsabilidade.
Jesus usa  duas das imagens mais conhecidas do Evangelho: o sal da terra e a luz do mundo. Essas metáforas sintetizam a identidade e a missão dos discípulos de Jesus. Não são títulos honoríficos nem privilégios espirituais. São responsabilidades assumidas diante de Deus e da história. Ao ouvirmos Jesus declarar: “Vós sois o sal da terra” e “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13-14), somos colocados diante de uma afirmação surpreendente. Jesus não diz que os discípulos deverão tornar-se sal ou que precisarão conquistar a condição de luz. Ele afirma que já são. A identidade precede a missão. Antes de qualquer atividade existe uma vocação; antes de qualquer obra existe uma graça recebida; antes de qualquer mérito existe um chamado.

Essa observação é fundamental para compreender o Sermão da Montanha. Mateus constrói cuidadosamente o caminho que conduz até essas palavras. Desde o início do Evangelho, Jesus é apresentado como o novo Moisés. Assim como Moisés foi ameaçado pelo faraó, Jesus é perseguido por Herodes ainda criança (Mt 2,13-18). Assim como Israel atravessou o deserto, Jesus é conduzido ao deserto e vence as tentações que haviam derrotado o povo antigo (Mt 4,1-11). Em seguida, inicia sua missão na Galileia (Mt 4,12-17), região frequentemente desprezada pelas elites religiosas de Jerusalém. Esse detalhe possui profundo significado teológico. Mateus mostra que a luz de Deus começa a brilhar precisamente nas periferias. Antes que os discípulos sejam chamados luz do mundo, Cristo é apresentado como a luz prometida pelos profetas. O evangelista cita Isaías: “O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz” (Mt 4,16; Is 9,1-2). A luz não nasce da capacidade humana. Ela é recebida daquele que é a verdadeira luz que ilumina todo ser humano (Jo 1,9).

Ao subir à montanha para ensinar (Mt 5,1), Jesus realiza um gesto carregado de significado bíblico. Nas Escrituras, as montanhas são lugares de encontro com Deus e de revelação: 

  •  No Sinai, Moisés recebeu a Lei (Ex 19–20). 
  • No Carmelo, Elias enfrentou os falsos profetas (1Rs 18). 
  • No Horeb, Deus manifestou-se na brisa suave (1Rs 19,12). 
Agora, Jesus sobe à montanha para revelar o coração do Pai e apresentar o modo de vida próprio do Reino.

O Sermão da Montanha começa com as Bem-aventuranças (Mt 5,3-12). Elas descrevem quem são os discípulos: pobres em espírito, mansos, misericordiosos, promotores da paz, famintos de justiça e perseverantes na perseguição. Em seguida, Jesus mostra para que eles existem. Não são chamados a refugiar-se do mundo, mas a servir ao mundo. Desde Abraão, a lógica da eleição divina é missionária: Deus chama para enviar, escolhe para servir e abençoa para que outros sejam abençoados (Gn 12,1-3). A espiritualidade bíblica jamais foi uma fuga da realidade. A fé autêntica conduz ao encontro da história concreta, dos dramas humanos, das alegrias e sofrimentos do povo. Por isso, as imagens escolhidas por Jesus possuem uma dimensão profundamente pública. O sal existe para os alimentos. A luz existe para os ambientes. Ambos cumprem sua missão em benefício dos outros. O sal possuía enorme riqueza no mundo antigo, era  muito mais do que um simples tempero, o sal era um bem precioso. Servia para conservar alimentos, purificar, fortalecer alianças e integrar diversos ritos religiosos e até mesmo  já foi usado  como pagamento  a palavra salario tem sua origem no prefixo sal e  contexto  bíblico:  

  • Levítico 2,13, Deus determina que todas as ofertas sejam apresentadas com sal. 
  • Números 18,19 aparece a expressão “aliança perpétua de sal”. 
  • 2 Crônicas 13,5 a relação entre Deus e seu povo é descrita como uma “aliança de sal”.

Na mentalidade semita, o sal simbolizava permanência, fidelidade, preservação e incorruptibilidade. Quando Jesus afirma que seus discípulos são o sal da terra, está dizendo que eles devem tornar visível a fidelidade de Deus em meio a uma humanidade frequentemente marcada pela injustiça, pela violência e pela corrupção das relações humanas. O discípulo é chamado a preservar aquilo que é verdadeiramente humano quando tudo parece caminhar para a degradação da dignidade, da solidariedade e da verdade.

A advertência de Jesus surge imediatamente: “Mas se o sal perder o sabor, com que lhe será restituído o sabor?” (Mt 5,13). A pergunta permanece inquietante. O problema não é apenas o mundo perder seus referenciais éticos. O problema é quando a própria comunidade de fé perde sua identidade e passa a reproduzir as mesmas lógicas de dominação, prestígio e interesses particulares que deveria questionar. Essa preocupação aproxima Jesus da grande tradição profética de Israel. Amós denunciou um culto desligado da justiça: “Corra antes o direito como água e a justiça como um rio perene” (Am 5,24). Isaías condenou uma religiosidade incapaz de defender os vulneráveis: “Aprendei a fazer o bem. Procurai o direito. Corrigi o opressor” (Is 1,17). Miqueias resumiu a vontade divina em uma síntese admirável: “Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus” (Mq 6,8). Jesus situa-se nessa mesma tradição. Sua preocupação não é preservar instituições por si mesmas, mas manter viva a fidelidade ao projeto de Deus. O sal perde sua função quando a religião se acomoda ao poder, quando a fé é transformada em mercado, quando o Evangelho é reduzido a espetáculo ou quando a espiritualidade deixa de produzir misericórdia.

A Comunidade  vive o  enfrentamento  para transmitir a fé  e  podem, em determinados momentos, preocupar-se mais com sua própria preservação do que com sua missão original. Quando isso acontece, o serviço é substituído pelo prestígio, o testemunho pelo poder e a missão pela autopreservação. Ser sal da terra significa resistir à deterioração ética da sociedade e, ao mesmo tempo, vigiar para que a própria comunidade cristã não perca sua capacidade de testemunhar o Reino. Significa conservar viva a memória da justiça em um mundo frequentemente seduzido pela acumulação, pela exclusão e pela violência. As civilizações  de ontem ds hoje construíram   e constroem sua identidade por meio de símbolos compartilhados, e o sal está entre os símbolos mais universais da experiência humana. Em diferentes culturas, ele representa aquilo que preserva relações, sustenta a convivência e dá sabor à existência. Nesse sentido, uma vida sem sentido torna-se uma vida sem sabor. Uma sociedade sem solidariedade torna-se uma sociedade sem sabor. Uma religião sem compaixão torna-se uma religião sem sabor. O Evangelho convida os discípulos a devolverem sabor à existência humana através da justiça, da fraternidade, da misericórdia e da esperança. Vivemos em uma época marcada por extraordinários avanços tecnológicos, mas também por profundas crises de sentido. Multiplicam-se as conexões digitais enquanto muitos experimentam crescente solidão. Expandem-se os recursos materiais enquanto aumentam a ansiedade, o esgotamento emocional e a sensação de vazio. Cresce a capacidade de comunicação e, paradoxalmente, diminui a qualidade dos vínculos humanos. Nesse contexto, o chamado de Jesus permanece atual. O discípulo é chamado a devolver sabor à vida coletiva, ajudando a reconstruir relações de confiança, laços de solidariedade e horizontes de esperança. O Evangelho não oferece uma fuga da realidade, mas uma forma profundamente humana de habitá-la.

É justamente a partir dessa perspectiva que a segunda imagem utilizada por Jesus adquire toda a sua força: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,14). Se o sal fala da presença transformadora que atua discretamente na realidade, a luz fala da manifestação visível do Reino de Deus na história humana. A imagem da luz atravessa toda a Escritura e constitui um dos símbolos mais profundos da ação de Deus na história. A própria criação começa quando Deus pronuncia sua primeira palavra criadora: “Faça-se a luz” (Gn 1,3). Durante a caminhada do Êxodo, o povo é conduzido pela coluna luminosa que atravessa a noite do deserto (Ex 13,21),  os  Salmos celebram a Palavra divina como “lâmpada para os pés” e “luz para o caminho” (Sl 119,105), Isaías anuncia que o Servo do Senhor será constituído “luz das nações” (Is 49,6) e no Evangelho de João, Cristo é apresentado como a luz verdadeira que ilumina todo ser humano (Jo 1,9), e o próprio Jesus declara: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não caminhará nas trevas” (Jo 8,12).

Quando Jesus afirma aos discípulos: “Vós sois a luz do mundo”, está compartilhando com eles a sua própria missão. A Igreja não possui luz própria. Assim como a lua reflete a luz do sol, a comunidade cristã reflete a luz de Cristo. Sua missão não consiste em produzir uma luminosidade autônoma, mas em tornar visível a presença daquele que é a verdadeira luz. Essa observação possui profundas consequências espirituais e pastorais. Ao longo da história, comunidades cristãs foram frequentemente tentadas a buscar visibilidade sem testemunho, influência sem serviço e prestígio sem compromisso com o Evangelho. Contudo, a luz cristã não brilha pelo poder que acumula, mas pelo amor que oferece. Sua autoridade nasce da coerência. Sua credibilidade nasce do serviço. Sua força nasce da fidelidade.

Por isso Jesus acrescenta: “Não se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma vasilha, mas sobre o candeeiro, onde ela brilha para todos os que estão na casa” (Mt 5,15). A imagem era facilmente compreendida pelos ouvintes do século I. Nas pequenas casas da Palestina, uma única lâmpada iluminava todo o ambiente. Escondê-la significaria anular sua finalidade. Da mesma forma, a fé cristã não foi dada para permanecer escondida. Embora possua uma dimensão pessoal e interior indispensável, ela também possui uma dimensão pública, social e comunitária. O Evangelho é chamado a iluminar as relações familiares, os ambientes de trabalho, a educação, a cultura, a economia, a política e todas as dimensões da convivência humana.

É nesse contexto que Jesus conclui: “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16).

A expressão merece atenção. Jesus não afirma: “para que admirem vocês”. O centro não é o discípulo. O centro é Deus. As boas obras não existem para construir reputações religiosas nem para alimentar vaidades espirituais. O verdadeiro testemunho conduz as pessoas ao reconhecimento da ação divina. A exegese do texto revela um detalhe significativo. A expressão “boas obras” refere-se não apenas a ações moralmente corretas, mas a ações belas, nobres e capazes de revelar concretamente a presença de Deus na história. O discípulo evangeliza não somente pelo que diz, mas pela forma como vive.

Nesse ponto, Jesus retoma a grande tradição profética de Israel. O profeta não era apenas alguém que anunciava acontecimentos futuros. Era alguém que iluminava o presente com a luz de Deus e denunciava as trevas da injustiça e apontava caminhos de esperança. A comunidade cristã é chamada a exercer essa mesma missão profética no interior da sociedade. A luz do Evangelho torna-se visível quando os excluídos são acolhidos, quando a dignidade humana é defendida, quando os esquecidos são lembrados, quando a verdade prevalece sobre a mentira e quando a misericórdia vence a indiferença. A autenticidade da fé não é medida apenas pela intensidade das práticas religiosas, mas pela capacidade de produzir vida, justiça e compaixão.

Em linguagem contemporânea, Jesus alerta contra duas tentações permanentes. 

  • A primeira é a irrelevância: o sal que perde o sabor. 
  • A segunda é a invisibilidade: a luz escondida. Uma comunidade que deixa de servir ao mundo torna-se irrelevante. Uma comunidade que deixa de testemunhar torna-se invisível.

Ao contrário, quando os discípulos vivem as Bem-aventuranças, tornam-se naturalmente sal e luz. A mansidão, a misericórdia, a promoção da paz, a fome e sede de justiça e a solidariedade com os que sofrem produzem um testemunho que nenhuma estratégia de marketing religioso consegue substituir. O mundo contemporâneo não necessita apenas de discursos religiosos. Necessita de sinais concretos do Reino de Deus. Necessita de homens e mulheres cuja existência revele que outro modo de viver é possível. Pessoas que demonstrem, através de suas escolhas, que a fraternidade pode vencer o egoísmo, que a verdade pode resistir à mentira e que a esperança pode sobreviver mesmo em tempos difíceis.

A força dessas palavras torna-se ainda mais impressionante quando observamos quem estava ouvindo Jesus. Não eram governantes, sacerdotes influentes ou membros das elites econômicas. Eram pescadores, agricultores, mulheres simples, trabalhadores anônimos e pessoas frequentemente ignoradas pelos centros de poder. É  justamente a elas que Jesus declara: “Vós sois o sal da terra” e “Vós sois a luz do mundo”.

Essa afirmação permanece profundamente revolucionária. Em uma sociedade que costuma medir o valor das pessoas pelo dinheiro, pela influência ou pela visibilidade, o Evangelho proclama que a verdadeira transformação da história frequentemente nasce dos pequenos gestos realizados por pessoas aparentemente comuns. Uma mãe que educa seus filhos na honestidade, um trabalhador que recusa a corrupção, um jovem que escolhe a verdade em vez da mentira, uma comunidade que acolhe os vulneráveis ou uma pessoa que permanece fiel à justiça mesmo quando isso lhe custa caro: tudo isso é luz brilhando no mundo.

O Reino de Deus cresce também através da fidelidade cotidiana, dos gestos silenciosos de amor e das pequenas sementes de esperança lançadas no solo da história. Deus continua agindo através de pessoas concretas, frágeis e limitadas, transformando a realidade a partir de dentro. Mas existe ainda uma dimensão fundamental desse texto que precisa ser aprofundada. Jesus não fala apenas a indivíduos isolados. Ele fala a uma comunidade inteira. O pronome utilizado é plural: “Vós sois”.

A missão é pessoal, mas nunca individualista. O testemunho cristão possui uma dimensão essencialmente comunitária. É justamente essa dimensão que nos conduz à reflexão sobre a vocação dos cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade.

A dimensão comunitária presente no “vós sois” de Jesus ajuda a compreender um aspecto fundamental da missão cristã que recebeu especial atenção na Igreja contemporânea: a vocação dos cristãos leigos e leigas. As palavras do Sermão da Montanha não foram dirigidas a um grupo restrito de especialistas da religião, mas a uma comunidade de discípulos formada por homens e mulheres inseridos na vida cotidiana, nas relações familiares, no trabalho e na convivência social. O chamado para ser sal da terra e luz do mundo pertence a todo o povo de Deus. Essa compreensão recebeu novo impulso com o Concílio Vaticano II. Ao refletir sobre a identidade da Igreja, os padres conciliares recordaram que todos os batizados participam da missão de Cristo. A evangelização não é responsabilidade exclusiva do clero ou da vida religiosa. Ela pertence a toda a Igreja.

A Constituição Dogmática Lumen Gentium ensina que os leigos participam da missão sacerdotal, profética e régia de Cristo. Isso significa que sua presença no mundo não é um elemento secundário da vida eclesial. É parte constitutiva da própria missão da Igreja. Os ambientes da cultura, da educação, da política, da ciência, da economia, das artes, da comunicação social e da vida familiar não são espaços estranhos ao Evangelho. São lugares onde a luz de Cristo é chamada a brilhar.

No contexto brasileiro, essa visão recebeu uma formulação particularmente significativa através do Documento 105 aprovado em 2016 na 54ª Assembleia  Geral  da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, intitulado Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade: Sal da Terra e Luz do Mundo. Ao recorrer diretamente a Mateus 5,13-16, os bispos reafirmaram que a vocação laical encontra sua inspiração mais profunda nas palavras do próprio Jesus..O documento recorda que os leigos e leigas não são meros auxiliares ocasionais das atividades pastorais. São sujeitos eclesiais, discípulos missionários e protagonistas da evangelização. Sua missão ultrapassa os limites das estruturas internas da Igreja e alcança as realidades concretas onde a vida humana acontece. É ali que o sal deve preservar. É ali que a luz deve iluminar.

Essa compreensão possui raízes profundas na história do cristianismo. Desde os tempos apostólicos, a expansão do Evangelho ocorreu principalmente através de homens e mulheres comuns que testemunhavam sua fé no cotidiano. Famílias transformaram suas casas em espaços de acolhimento. Trabalhadores anunciaram Cristo em seus ambientes profissionais. Comerciantes levaram a Boa-Nova para novas cidades. Pais e mães transmitiram a fé às novas gerações. Muito antes da construção das grandes estruturas eclesiásticas, a Igreja crescia porque existiam discípulos que viviam como sal e luz nas realidades mais simples da vida. Essa dimensão continua atual. O Reino de Deus avança quando a vida cotidiana é iluminada pelo Evangelho. Avança quando a honestidade prevalece sobre a corrupção, quando a solidariedade vence a indiferença e quando a dignidade humana é defendida contra todas as formas de exclusão.

Ao mesmo tempo, essa missão não pode ser confundida com a busca de privilégios religiosos ou formas de dominação. Ao longo da história, sempre existiu a tentação de instrumentalizar a fé para justificar interesses particulares, legitimar exclusões ou sustentar projetos de poder. Jesus recusou esse caminho. Seu Reino não é construído pela imposição, mas pelo serviço. Não cresce pela força, mas pela verdade. Não se estabelece pela dominação, mas pelo amor.

Essa advertência continua atual. A luz do Evangelho não pertence a ideologias, nacionalismos ou projetos de poder. Ela pertence ao Reino de Deus. Sempre que a fé é utilizada para alimentar intolerâncias, justificar preconceitos ou negar a dignidade humana, corre-se o risco de obscurecer aquilo que deveria iluminar. Por outro lado, quando os cristãos se colocam ao lado dos que sofrem, quando defendem a vida, promovem a paz, acolhem os excluídos e trabalham pela justiça, tornam visível a presença de Cristo na história. O Reino manifesta-se quando os famintos são alimentados, os pobres são acolhidos, os esquecidos são lembrados e os feridos pela vida reencontram sua dignidade.

Por isso, a pergunta deixada por Mateus 5,13-16 não é apenas individual. É também comunitária e eclesial: 

  • Como nossas comunidades estão sendo sal da terra? 
  • Como estão sendo luz do mundo
  • Nossa presença torna a sociedade mais humana, mais fraterna e mais próxima do projeto de Deus?

A resposta passa necessariamente pela conversão. A palavra utilizada por Jesus é metanoia, termo grego que indica uma profunda mudança de mentalidade, de coração e de direção. 

  • Não basta ter sido luz em algum momento do passado. 
  • Não basta recordar tempos em que a comunidade cristã exerceu influência positiva na sociedade. Cada geração precisa redescobrir continuamente sua missão.

A história da Igreja revela essa tensão permanente entre fidelidade e acomodaçã e em muitos momentos, comunidades cristãs tornaram-se sinais luminosos de esperança. Fundaram escolas, hospitais, universidades, obras sociais e iniciativas de promoção humana. Defenderam os pobres, acolheram os marginalizados e anunciaram a dignidade da pessoa humana em contextos de violência e opressão. Em outros momentos, porém, também experimentaram crises provocadas pelo clericalismo, pela busca de privilégios, pela proximidade excessiva com o poder e pela incoerência entre o anúncio e a prática. O próprio Evangelho não esconde essa possibilidade. A advertência sobre o sal que perde o sabor e a luz que deixa de iluminar permanece sempre atual.

Por isso, quando refletimos sobre Mateus 5,13-16, não devemos perguntar apenas o que está errado na sociedade. Devemos perguntar também como está nosso testemunho? 

  1. Uma comunidade que anuncia a fraternidade, mas cultiva divisões, enfraquece sua luz.
  2. Uma comunidade que fala de misericórdia, mas pratica exclusões, perde seu sabor.
  3. Uma comunidade que proclama a justiça, mas permanece indiferente ao sofrimento humano, obscurece o brilho do Evangelho.

Nesse sentido, o Sermão da Montanha permanece extraordinariamente atual. As Bem-aventuranças constituem o coração desse projeto de vida. O sal e a luz são suas consequências naturais.

  • Quem vive a misericórdia torna-se luz.

  • Quem promove a paz torna-se luz.
  • Quem tem fome e sede de justiça torna-se luz.
  • Quem permanece fiel ao amor mesmo em meio às dificuldades torna-se luz.
  • Quem se recusa a reproduzir a lógica do ódio, da violência e da exclusão torna-se sal da terra.

O mundo contemporâneo continua necessitando dessa luminosidade. Há muita informação, mas nem sempre há sabedoria. Há muitos discursos, mas nem sempre há verdade. Existem avanços tecnológicos impressionantes, mas persistem a fome, a desigualdade, a violência e inúmeras formas de sofrimento. Diante dessa realidade, Jesus não pede aos seus discípulos que sejam famosos, poderosos ou influentes. Pede algo muito mais exigente: que sejam fiéis. Porque uma pequena quantidade de sal ainda pode transformar uma refeição inteira. E uma pequena chama ainda pode romper a escuridão de uma grande noite.

Essa esperança atravessa toda a história da salvação. Deus frequentemente escolhe aquilo que parece pequeno para realizar grandes transformações. Escolheu Abraão, um peregrino sem terra. Escolheu Moisés, um homem inseguro diante de sua missão. Escolheu Davi, o menor entre seus irmãos. Escolheu profetas vindos das periferias da sociedade. Escolheu pescadores da Galileia para anunciar o Evangelho ao mundo. O Reino de Deus continua crescendo dessa maneira: silenciosamente, discretamente, mas com uma força capaz de transformar a história.

Por isso, ninguém deve considerar insignificante sua contribuição. Uma palavra de esperança pode mudar uma vida, um gesto de solidariedade pode restaurar uma dignidade ferida., uma atitude de justiça pode inspirar uma comunidade inteira e uma presença acolhedora pode revelar a misericórdia de Deus.

O Evangelho não exige que cada discípulo resolva todos os problemas do mundo. Exige que seja fiel no lugar onde foi chamado a viver. Ao final desta reflexão, permanecem ecoando duas  perguntas de Jesus:

  1. Se o sal perder o sabor, quem lhe devolverá o sabor?
  2. Se a luz for escondida, quem iluminará a casa?

O Evangelho responde não com teorias, mas com um chamado. Que cada discípulo redescubra sua vocação. Que cada comunidade reencontre sua missão. Que os cristãos leigos e leigas assumam cada vez mais sua responsabilidade missionária na Igreja e na sociedade. Que o povo de Deus continue sendo presença transformadora nos lugares onde a vida acontece. O mundo continua necessitando de sal que preserve a dignidade humana. Continua necessitando de luzes que apontem caminhos de justiça, compaixão e esperança. Continua necessitando de comunidades que testemunhem, por palavras e ações, que o Reino de Deus já está presente no meio de nós.

E toda vez que alguém escolhe amar em vez de odiar, servir em vez de dominar, construir em vez de destruir, reconciliar em vez de dividir, uma pequena luz se acende na história. E onde a luz de Cristo brilha, mesmo discretamente, as trevas jamais têm a última palavra.

"Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus" (Mt 5,16).

Prof. DNonato – Teólogo do cotidiano.


domingo, 1 de junho de 2025

Um breve olhar sobre João 16,29-33


No  coração do discurso de despedida do Evangelho segundo Evangelho de João, a perícope de João 16,29-33 ocupa um lugar decisivo dentro da tradição litúrgica da Igreja. Na liturgia da Igreja Católica Apostólica Romana, este texto é proclamado na segunda-feira da sétima semana da Páscoa, imediatamente antes da grande oração sacerdotal de Jesus narrada no capítulo 17 de João, dentro da caminhada espiritual que conduz a comunidade ao Pentecostes. A leitura surge exatamente quando a Igreja contempla a tensão entre ausência e promessa, entre cruz e ressurreição, entre medo humano e fidelidade divina. Nas tradições orientais históricas, especialmente na Igreja Ortodoxa, o texto é relido dentro da espiritualidade pascal que insiste na vitória do Ressuscitado sobre os poderes da morte e do caos. Em comunidades anglicanas, luteranas e reformadas históricas, João 16 aparece frequentemente ligado às leituras sobre perseguição, perseverança e esperança escatológica. A passagem, portanto, não é apenas memória da última ceia, mas anúncio permanente para uma Igreja chamada a atravessar a história sem abandonar a esperança. Precisamos   lembrar  sempre  a mensagem  de Jesus: 
“No mundo tereis tribulações. Mas tende coragem! Eu venci o mundo.” (Jo 16, 33)

O contexto imediato da narrativa revela uma atmosfera de despedida carregada de densidade espiritual. Desde João 13, após o lava-pés, Jesus conduz os discípulos a uma compreensão nova do discipulado. O Mestre que “sabia que o Pai tudo colocara em suas mãos” (Jo 13,3) ajoelha-se diante dos discípulos como servo, rompendo radicalmente com toda lógica de poder religioso ou político. O Reino anunciado por Jesus não se estrutura pela dominação, mas pela kenosis, pelo esvaziamento de si, conforme canta o antigo hino cristológico de Filipenses 2,6-11: “aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo”. A pedagogia joanina conduz lentamente os discípulos a compreenderem que seguir Jesus significa participar desse movimento de entrega, abandono confiante e amor radical. Quando os discípulos afirmam “Agora falas claramente e não usas mais figuras” (Jo 16,29), demonstram acreditar que finalmente compreenderam o Mestre. Contudo, a resposta de Jesus possui força profundamente profética: “Credes agora? Eis que vem a hora em que vos dispersareis” (Jo 16,31-32). A pergunta de Cristo funciona quase como um espelho espiritual, revelando a fragilidade escondida por trás do entusiasmo religioso. Os discípulos creem sinceramente, mas ainda não passaram pela experiência da noite escura, ainda não atravessaram o escândalo da cruz anunciado em João 12,24: “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica sozinho; mas se morre, produz muito fruto”.

Essa tensão percorre toda a Escritura. Em Êxodo 14, o povo afirma confiar em Deus ao sair do Egito, mas diante do Mar Vermelho entra em desespero. Em 1Reis 19, Elias, o grande profeta do Carmelo, foge aterrorizado para o deserto após ameaças de Jezabel. Em Jeremias 20, o profeta chega a amaldiçoar o dia de seu nascimento diante da perseguição sofrida por causa da Palavra. Em Jonas 4, o profeta não suporta a misericórdia divina para com Nínive. A Bíblia inteira desmonta idealizações superficiais da fé, porque a experiência de Deus nunca elimina automaticamente a fragilidade humana; frequentemente a expõe, purifica e transforma. A antropologia bíblica presente em João 16 revela precisamente essa condição humana marcada por medo, dispersão e ambiguidade. Pedro promete fidelidade absoluta em João 13,37: “Darei minha vida por ti”. Poucas horas depois, negará Jesus diante de servos e soldados (Jo 18,15-27). A Escritura não esconde as fraquezas dos discípulos porque o Evangelho não é propaganda religiosa, mas revelação da graça agindo dentro da precariedade humana. Paulo compreenderá profundamente isso quando escreve em 2Coríntios 12,9: “Minha graça te basta, porque é na fraqueza que a força se manifesta plenamente”. No mundo antigo mediterrâneo, honra e vergonha eram categorias sociais fundamentais. Ser abandonado pelos discípulos às vésperas da prisão representava humilhação extrema. Contudo, Jesus não constrói sua identidade sobre aprovação social. “Não estou só, porque o Pai está comigo” (Jo 16,32). Mesmo cercado pela solidão humana, Cristo permanece em comunhão com o Pai, recordando o Salmo 27,10: “Ainda que meu pai e minha mãe me abandonem, o Senhor me acolherá”.

A palavra “mundo” em João 16,33 possui enorme densidade teológica. O termo grego kosmos aparece no quarto Evangelho tanto como realidade amada por Deus quanto como sistema que rejeita a luz. “Deus amou tanto o mundo que entregou seu Filho unigênito” (Jo 3,16), mas também “o mundo os odiou porque eles não são do mundo” (Jo 17,14). O “mundo” que Cristo vence não é a criação em si, mas a ordem histórica organizada contra o projeto do Reino, sustentada por estruturas de violência, mentira, exploração e idolatria denunciadas pelos profetas. Jesus vive sob o domínio do Império Romano, sistema sustentado por militarismo, tributação opressiva e concentração de poder. A chamada pax romana era garantida pela espada, e as crucificações públicas funcionavam como instrumentos de terror político. Nesse contexto, anunciar um Reino baseado no amor aos inimigos (Mt 5,44), no perdão (Lc 23,34) e na misericórdia representava profunda subversão histórica. Quando Jesus diz “Eu venci o mundo”, não fala como César ou qualquer conquistador imperial. Sua vitória acontece precisamente na cruz, lugar máximo da humilhação social..A cruz, para judeus e romanos, era escândalo absoluto. Deuteronômio 21,23 afirmava: “Maldito todo aquele que for suspenso no madeiro”. Para Roma, crucificados eram inimigos do império. Contudo, Deus transforma exatamente o instrumento de vergonha em sinal de redenção. Aqui se cumpre a lógica paradoxal já anunciada em Isaías 53, onde o Servo Sofredor carrega as dores do povo. O triunfo de Cristo não se constrói sobre cadáveres alheios, mas sobre a própria entrega. Isso desmonta radicalmente toda teologia do domínio, toda espiritualidade de conquista e toda ideologia religiosa que busca legitimar poder através da violência. Em Mateus 20,25-28, Jesus afirma claramente: “Os chefes das nações as dominam... entre vós não deverá ser assim”. O Evangelho estabelece oposição direta entre a lógica imperial e a lógica do Reino. Contudo, ao longo da história, setores cristãos frequentemente traíram essa palavra, aliando-se a projetos de dominação política, colonialismo e exclusão social. Hoje, em muitos contextos, símbolos cristãos são instrumentalizados por movimentos autoritários e extremistas que promovem intolerância, armamentismo, nacionalismo excludente e ódio ideológico. O nome de Jesus é utilizado para justificar violência contra pobres, migrantes, indígenas, negros, mulheres e minorias sociais. Tal deformação representa profunda negação do Evangelho.

Em Mateus 25,31-46, Cristo se identifica explicitamente com os famintos, presos, estrangeiros e marginalizados. O critério do juízo final não é identidade religiosa formal, mas prática concreta da misericórdia. “Tive fome e me destes de comer.” O Jesus dos Evangelhos não legitima projetos de supremacia religiosa ou cultural. Ele se aproxima dos leprosos (Mc 1,40-45), conversa com samaritanos (Jo 4), acolhe pecadores públicos (Lc 19,1-10), defende mulheres marginalizadas (Jo 8,1-11) e denuncia hipocrisias religiosas (Mt 23). A sociologia da religião ajuda a compreender como instituições religiosas podem tornar-se instrumentos de controle social quando se afastam da lógica profética. Em Amós 5,21-24, Deus rejeita cultos vazios desconectados da justiça: “Quero ver o direito brotar como fonte”. Isaías 58 denuncia jejuns que ignoram a opressão dos pobres. Miqueias 6,8 resume a vontade divina em “praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus”. Jesus se insere plenamente nessa tradição profética. Sua crítica ao Templo em Marcos 11,15-17 não é rejeição da espiritualidade, mas denúncia de uma religião transformada em mercado e mecanismo de exploração.

Essa crítica permanece profundamente atual diante da mercantilização contemporânea da fé. A teologia da prosperidade transforma Deus em garantidor de sucesso financeiro. O sofrimento é interpretado como fracasso espiritual. A pobreza deixa de ser consequência de estruturas injustas e passa a ser apresentada como falta de fé. Tal lógica contradiz frontalmente o Evangelho. Em Lucas 6,20, Jesus proclama: “Felizes vós, os pobres”. Em Tiago 2,5, lemos: “Não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé?”. O Novo Testamento inteiro insiste na centralidade dos pequenos e vulneráveis. A tradição da Igreja retomou continuamente essa dimensão social do Evangelho. O Concílio Vaticano II, especialmente em Gaudium et Spes, afirma que as alegrias e sofrimentos da humanidade são também os da Igreja. A Lumen Gentium recorda que a Igreja é povo peregrino, não estrutura de poder autossuficiente. A Evangelii Gaudium denuncia “uma economia que mata”. Em Laudato Si', o Papa Francisco relaciona crise ambiental e injustiça social, mostrando como os pobres são os primeiros a sofrer as consequências da destruição da criação. Os documentos do CELAM aprofundam essa consciência histórica. Medellín denunciou estruturas de pecado presentes na América Latina. Puebla reafirmou a opção preferencial pelos pobres. Aparecida insistiu numa Igreja missionária em saída. A CNBB frequentemente recorda que evangelizar implica compromisso concreto com dignidade humana, justiça social e defesa da vida. João 16,33 ressoa profundamente nesse horizonte: “No mundo tereis tribulações”. Jesus não promete imunidade ao sofrimento; prepara os discípulos para perseguições. Em João 15,20 já advertira: “Se perseguiram a mim, também perseguirão a vós”. Paulo e Barnabé repetirão em Atos 14,22: “É preciso passar por muitas tribulações para entrar no Reino de Deus”. O discipulado cristão jamais foi caminho de triunfalismo confortável. A cruz permanece centro incontornável da fé.
A psicologia contemporânea reconhece que sociedades marcadas por insegurança e medo frequentemente buscam líderes autoritários e discursos religiosos simplificadores. O fundamentalismo oferece respostas fáceis para realidades complexas. Contudo, o Evangelho conduz exatamente no sentido contrário. Jesus não manipula multidões pelo medo. Ele convida à liberdade interior. Em João 8,32 afirma: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. A verdade do Evangelho nunca serve à opressão; sempre conduz à dignidade humana. Também o clericalismo constitui profunda deformação do discipulado. Em Marcos 10,42-45, Jesus afirma que quem quiser ser o primeiro deve tornar-se servo de todos. Contudo, ao longo da história, estruturas eclesiais frequentemente reproduziram modelos autoritários. O Papa Francisco insiste repetidamente que o clericalismo infantiliza o povo de Deus e transforma ministério em privilégio. O lava-pés de João 13 continua sendo correção permanente contra qualquer espiritualidade de poder.

A geografia simbólica do Evangelho também ilumina a reflexão. Jerusalém representa simultaneamente centro da fé e lugar da rejeição profética. Jesus sobe conscientemente para Jerusalém sabendo o que o espera. Em Lucas 13,34 lamenta: “Jerusalém, Jerusalém, tu que matas os profetas”. A cidade santa torna-se símbolo ambíguo da humanidade capaz de acolher e rejeitar Deus. Essa ambiguidade continua presente em toda experiência religiosa contemporânea. Igrejas podem tornar-se espaços de libertação ou mecanismos de opressão. A figura de Maria aos pés da cruz em João 19,25 possui enorme força espiritual. Enquanto muitos fogem, ela permanece. Maria encarna a fidelidade silenciosa que resiste mesmo sem compreender plenamente o mistério. Sua presença recorda as mulheres discípulas mencionadas em Marcos 15,40-41, que permanecem próximas de Jesus quando quase todos os outros desapareceram. A espiritualidade cristã autêntica nasce dessa permanência amorosa junto aos crucificados da história.

Hoje, os crucificados continuam presentes. Crianças famintas, povos indígenas expulsos de suas terras, refugiados atravessando fronteiras, jovens negros mortos nas periferias, mulheres vítimas de violência, idosos abandonados, trabalhadores explorados, vítimas do tráfico humano e da devastação ambiental. Em Mateus 25, Cristo continua dizendo: “Tudo o que fizestes a um destes pequeninos foi a mim que o fizestes”. Não existe espiritualidade pascal sem solidariedade histórica. Paulo escreve em Romanos 8,35-39: “Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação? Angústia? Perseguição?”. A resposta é profundamente joanina: nada pode destruir a comunhão inaugurada pelo Ressuscitado. Contudo, essa esperança não produz alienação. Pelo contrário, gera compromisso radical com a transformação da realidade. Em Tiago 2,17 lemos: “A fé sem obras é morta”. O Evangelho jamais permite separar espiritualidade de justiça. A vitória de Cristo sobre o mundo não significa fuga da história, mas transfiguração da história. Em Apocalipse 21, João contempla “um novo céu e uma nova terra”. A esperança cristã aponta para plenitude futura, mas já começa agora em cada gesto de misericórdia, justiça e reconciliação. Cada vez que alguém escolhe o amor em vez do ódio, a partilha em vez da acumulação, o perdão em vez da vingança, a vida em vez da violência, o Reino se manifesta silenciosamente. Por isso, João 16,29-33 continua sendo palavra profundamente necessária para nosso tempo. Vivemos uma época marcada por crises múltiplas: colapso ambiental, desigualdade extrema, polarização política, manipulação digital, fundamentalismos religiosos e perda de sentido existencial. Muitos procuram salvadores autoritários, messianismos políticos ou espiritualidades narcísicas incapazes de enfrentar a dor do mundo. Contudo, Cristo continua dizendo: “Tende coragem! Eu venci o mundo”. Essa coragem não nasce da arrogância dos vencedores, mas da esperança dos que permanecem fiéis em meio à escuridão. É a coragem de Maria junto à cruz, a coragem de Pedro restaurado após negar o Mestre, a coragem de Paulo preso cantando hinos na prisão (At 16,25), a coragem dos mártires antigos e contemporâneos, a coragem dos pobres que continuam lutando por dignidade, das mães que enterram filhos vítimas da violência estrutural, de quem resiste ao ódio sem abandonar a ternura. No fim, a pergunta de Jesus permanece ecoando sobre toda a Igreja e sobre cada discípulo: “Credes agora?”. Não como condenação, mas como convite à profundidade. A fé verdadeira nasce quando desaparecem as ilusões triunfalistas e resta apenas a confiança perseverante naquele que atravessou a morte sem abandonar o amor. O Ressuscitado continua carregando as marcas dos cravos porque a glória cristã nunca apaga a memória dos crucificados.

Que não sejamos uma comunidade fascinada pelo poder, mas apaixonada pelo Reino. Que não troquemos o Evangelho pela idolatria política, econômica ou ideológica. Que não transformemos Jesus em bandeira de guerra cultural. Que sejamos capazes de permanecer junto aos feridos da história como o próprio Cristo permaneceu conosco. Porque somente quem atravessa a cruz com o Senhor compreenderá verdadeiramente o sentido de sua vitória. E então perceberemos que vencer o mundo não significa dominar pessoas, acumular riquezas ou conquistar influência, mas permanecer fiel ao amor até o fim. Como escreveu Paulo em Gálatas 2,20: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”. A verdadeira vitória cristã acontece quando o amor do Crucificado começa a transformar nossas relações, nossas comunidades e nossa própria história.

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DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, indigente do sagrado.



terça-feira, 27 de maio de 2025

Um breve olhar sobre João 16,12-15

“Ainda tenho muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora. Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade.” (Jo 16,12-13)
Esta palavra de Jesus, pronunciada no contexto da ceia e da despedida, não é apenas um consolo espiritual, mas um ato profético. Ele anuncia que o Espírito Santo virá como presença ativa e provocadora, guiando-nos à verdade total — uma verdade que não é propriedade de ninguém, nem se acomoda ao conforto dos poderosos. Trata-se da verdade que liberta (Jo 8,32), que desmascara os ídolos, que revela o coração de Deus: um coração de comunhão, justiça e misericórdia.

No ciclo litúrgico da Igreja Católica Romana, este trecho do Evangelho de João é proclamado na quarta-feira  da  sexta  semana  do Tempo Pascal e na Solenidade da Santíssima Trindade no ano C.  É o ápice da pedagogia litúrgica joanina: o Ressuscitado já não está visivelmente presente, mas sua ausência aparente abre espaço para a irrupção do Espírito. Em tradições orientais, especialmente na liturgia bizantina, este mesmo horizonte é celebrado no Pentecostarion, onde a Igreja contempla a expansão da vida ressuscitada através do Espírito. Em comunidades reformadas, o texto integra o ciclo pós-pascal como afirmação da continuidade da presença de Cristo por meio do Paráclito. Em todas as tradições históricas, há um consenso teológico profundo: João 16,12-15 é texto de transição pneumatológica, onde a cristologia se abre à pneumatologia sem dissolução, mas em continuidade dinâmica.

A perícope de João 16,12-15 deve ser lida dentro do grande bloco joanino dos discursos de despedida (Jo 13–17), uma construção literária e teológica de altíssima densidade simbólica. O contexto imediato é o cenáculo, após o gesto do lava-pés (Jo 13,1-15), que já havia invertido as estruturas de poder ao colocar o Mestre na posição de servo. O discurso de Jesus se dirige a discípulos em estado de choque existencial, incapazes de compreender a proximidade da cruz (Jo 13,36-38). O texto, portanto, nasce da tensão entre revelação e incompreensão, entre excesso de sentido e limitação humana.

Do ponto de vista exegético, o versículo 12 introduz uma pedagogia da gradualidade: “muitas coisas ainda tenho a dizer-vos”. O verbo grego legō aqui não indica apenas comunicação verbal, mas transmissão de revelação. Contudo, a incapacidade dos discípulos (ou ouk dynasthe bastazein arti) não é moral, mas ontológica e histórica. Trata-se da condição humana diante do excesso do mistério. A antropologia bíblica reconhece que o ser humano é finito, processual, e necessita de mediação histórica para acessar a profundidade da revelação.

O versículo 13 introduz a figura central: o Espírito da Verdade. Em grego, to pneuma tēs alētheias não designa apenas uma força impessoal, mas uma presença pessoal em relação intratrinitária. A expressão “conduzirá” (hodēgēsei) remete ao imaginário do Êxodo e do deserto (cf. Ex 13,21), onde Deus guia seu povo em processo de libertação. Assim, o Espírito joanino é novo Êxodo hermenêutico: ele conduz não apenas geograficamente, mas epistemologicamente, introduzindo a comunidade na interpretação plena da revelação.

A “verdade plena” (pasan tēn alētheian) não é adição de conteúdos, mas aprofundamento existencial da revelação já dada em Cristo. Isso se confirma no versículo 14: “Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e vos anunciará”. Aqui, a hermenêutica joanina atinge seu ponto mais elevado: o Espírito não cria uma nova mensagem, mas atualiza a verdade do Filho. Trata-se de uma circularidade trinitária da revelação: tudo vem do Pai (Jo 16,15), passa pelo Filho e é interiorizado pelo Espírito na comunidade.

Este dinamismo é inseparável da teologia joanina da revelação progressiva. Em Jo 2,22, após a ressurreição, os discípulos “recordaram-se” e “creram na Escritura”. Em Jo 14,26, o Espírito “recordará tudo o que Jesus disse”. A memória (anamnesis) torna-se categoria teológica fundamental: compreender a verdade é entrar em processo de rememoração interpretativa guiada pelo Espírito.

Se ampliarmos a leitura com os Evangelhos Sinóticos, percebemos convergências importantes. Em Mateus 10,20, o Espírito fala nos discípulos perseguidos; em Marcos 13,11, ele inspira palavras em contextos de julgamento; em Lucas 12,12, ele ensina o que dizer. Contudo, em João, o Espírito não apenas inspira discurso, mas conduz à profundidade da verdade. Lucas enfatiza a missão, Marcos a perseverança escatológica, Mateus a defesa diante da perseguição, enquanto João enfatiza a interiorização hermenêutica da revelação.

Historicamente, o Evangelho de João reflete comunidades cristãs do final do século I, possivelmente marcadas por expulsão das sinagogas (cf. Jo 9,22; 16,2) e por tensões internas. O Espírito da Verdade surge, nesse contexto, como fundamento de identidade teológica e resistência comunitária. Em termos sociológicos, trata-se de uma comunidade em processo de diferenciação religiosa, que precisa reinterpretar sua memória fundadora à luz de novas circunstâncias. O pano de fundo do mundo mediterrâneo romano é decisivo. Trata-se de uma sociedade estratificada, imperial, com economia baseada em tributação, clientelismo e hierarquias rígidas. A linguagem joanina do Espírito da Verdade, nesse contexto, opera como contra-narrativa simbólica: enquanto o Império Roma reivindica verdade através da pax romana e da ordem imperial, João afirma uma verdade que não pode ser controlada por estruturas políticas.

A antropologia cultural ajuda a compreender que “verdade” no mundo antigo não era apenas categoria lógica, mas relacional e comunitária. Verdade é aquilo que sustenta coesão social e identidade. O Espírito, portanto, não apenas informa, mas reconfigura comunidades. A psicologia da religião permite aprofundar outro nível: a incapacidade dos discípulos de compreender (Jo 16,12) expressa resistência psíquica diante da ruptura de expectativas messiânicas triunfalistas. Jesus crucificado contradiz as imagens religiosas de poder. O Espírito atua como processo de reconfiguração cognitiva e afetiva, permitindo integrar a cruz como revelação e não como escândalo.

Quando ampliamos a leitura com o Antigo Testamento, a figura do Espírito da Verdade encontra raízes profundas. Em Isaías 11,2, o Espírito do Senhor repousa sobre o Messias como espírito de sabedoria e discernimento. Em Ezequiel 36,26-27, Deus promete um novo coração e um espírito novo. Em Jeremias 31,33, a lei será inscrita no interior. João retoma essas tradições e as radicaliza: o Espírito não apenas escreve a lei, mas conduz à compreensão plena do Verbo encarnado.

A tradição profética é decisiva para compreender o tom de João 16. Os profetas sempre denunciaram a religião vazia, o culto sem justiça (Is 1,11-17; Am 5,21-24; Mq 6,6-8). O Espírito da Verdade, em João, prolonga essa crítica: não há separação entre revelação e justiça. A verdade divina é inseparável da transformação social.

 O Concílio Vaticano II, especialmente em Dei Verbum, afirma que a compreensão da revelação cresce na Igreja sob a ação do Espírito. Lumen Gentium define a Igreja como povo peregrino guiado pelo Espírito. Gaudium et Spes amplia essa perspectiva ao afirmar a solidariedade da Igreja com as alegrias e angústias da humanidade. Aqui se percebe continuidade com João: o Espírito não é propriedade da hierarquia, mas princípio vital de todo o povo de Deus.

Na América Latina, os documentos de Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007) aprofundam essa hermenêutica histórica. Medellín interpreta a realidade como “situação de injustiça estrutural” que clama por libertação. Puebla afirma a opção preferencial pelos pobres como critério teológico. Aparecida reconhece que a escuta do Espírito se dá na vida dos povos marginalizados. O Espírito da Verdade, portanto, não pode ser separado da história concreta dos pobres.

A dimensão crítica do texto joanino torna-se evidente quando confrontada com formas de religião instrumentalizada. O uso da fé como ferramenta político-partidária contradiz diretamente a dinâmica do Espírito, que não se submete a estruturas de poder. Quando o nome de Deus é usado para legitimar exclusão, violência ou autoritarismo, ocorre uma inversão teológica grave: o Espírito é substituído por ídolos ideológicos.

O clericalismo, denunciado repetidamente no magistério contemporâneo, especialmente por Francisco, é uma estrutura que bloqueia a escuta do Espírito. Ele transforma ministério em poder, serviço em privilégio, discernimento em controle. Nesse sistema, a verdade deixa de ser processo e se torna posse institucional. A teologia da prosperidade, por sua vez, distorce profundamente a lógica joanina. Ela substitui a verdade como revelação do amor crucificado por uma lógica de sucesso material. Em contraste, João apresenta a glória como cruz (Jo 12,23-24). O Espírito da Verdade conduz precisamente a essa inversão: onde o mundo vê fracasso, Deus revela sentido.

O Espírito conduz à plenitude da verdade, o que aponta para a consumação final da história em Deus (Ap 21,1-5). Contudo, essa escatologia não é evasiva, mas histórica: ela se realiza na transformação concreta das relações humanas.  O Espírito joanino oferece não uniformidade ideológica, mas unidade relacional na diversidade. Ele não elimina conflito, mas o integra em processo de discernimento comunitário.

A crise ecológica atual também pode ser relida à luz de Romanos 8,19-22, onde toda a criação geme aguardando libertação. O Espírito da Verdade é também Espírito da criação, que sustenta a vida contra forças de destruição. A destruição ambiental, portanto, não é apenas questão técnica, mas teológica.

É  preciso  reconhecer que João 16 não autoriza fechamento dogmático, mas abertura permanente ao discernimento. A verdade plena não é posse, mas caminho. A Igreja, enquanto comunidade guiada pelo Espírito, é chamada a permanente conversão. Conclui-se que João 16,12-15 constitui um dos textos mais densos da teologia cristã, onde cristologia, pneumatologia, eclesiologia e escatologia convergem. O Espírito da Verdade não apenas explica Jesus, mas torna possível viver sua realidade na história. Ele não substitui o Cristo, mas o torna presente de forma dinâmica. Assim, a fé cristã não pode ser reduzida a um sistema imóvel de fórmulas, decretos ou certezas petrificadas no medo. A revelação de Deus em Jesus Cristo, iluminada continuamente pelo Espírito da Verdade, permanece viva, dinâmica e encarnada na travessia concreta da história humana. Ser conduzido pelo Espírito significa aceitar o permanente chamado à conversão do coração, da consciência e das estruturas; significa reconhecer que ninguém possui plenamente a verdade, porque toda verdade autêntica conduz ao mistério infinito de Deus, que sempre ultrapassa nossas definições, nossos interesses e nossos controles religiosos.

O Espírito Santo não conduz a Igreja ao fechamento, mas ao discernimento; não à arrogância espiritual, mas à humildade profética; não à idolatria das tradições humanas, mas à fidelidade radical ao Evangelho vivo de Jesus de Nazaré. Por isso, a Igreja permanece fiel ao seu Senhor não quando transforma a fé em fortaleza ideológica, tribunal moralista ou instrumento de poder, mas quando se deixa ferir pelo clamor dos pobres, iluminar pela Palavra, inquietar pela justiça e mover pela compaixão. A verdade do Evangelho não floresce em ambientes de medo, autoritarismo e exclusão, mas onde a misericórdia rompe muros, onde a dignidade humana é defendida e onde a vida é colocada acima dos interesses do mercado, do prestígio religioso ou dos projetos de dominação. A promessa do Espírito da Verdade continua ecoando no coração da história como resistência contra toda forma de mentira sacralizada. Em um mundo marcado por desigualdades brutais, manipulações ideológicas, nacionalismos religiosos, discursos de ódio e espiritualidades vazias de humanidade, o Evangelho continua sendo chamado à conversão radical da existência. O Espírito segue denunciando os altares erguidos ao dinheiro, ao poder e à violência; segue derrubando máscaras religiosas que escondem injustiças; segue falando através das vítimas da história, dos crucificados do nosso tempo, dos pobres, dos migrantes, dos povos originários, das mães que choram seus filhos assassinados, dos esquecidos que o sistema insiste em tornar invisíveis.

Porque o Espírito da Verdade não habita na religião usada para legitimar privilégios, mas na comunhão que reparte o pão; não se manifesta no triunfalismo dos que se consideram donos de Deus, mas no serviço humilde dos que lavam os pés da humanidade ferida; não sustenta projetos de morte travestidos de moralidade religiosa, mas gera vida onde tudo parece condenado ao abandono. O Deus Trino revelado por Jesus não é cúmplice dos impérios da exclusão, nem aliado dos poderosos que esmagam os pequenos. Ele continua caminhando na história como presença libertadora, reunindo os dispersos, restaurando os feridos e convocando a humanidade à fraternidade. Por isso, viver segundo o Espírito é tornar-se sinal do Reino em meio às contradições do mundo. É resistir à normalização da injustiça. É recusar a indiferença diante do sofrimento humano. É manter viva a esperança mesmo quando os poderes da morte parecem dominar a história. É compreender que a santidade cristã não consiste em fugir do mundo, mas em mergulhar nele com a coragem profética do Evangelho, carregando a cruz da solidariedade, da verdade e da justiça.

E enquanto a história humana continua atravessada por dores, conflitos e esperanças, o Espírito segue conduzindo silenciosamente a criação inteira para sua plenitude em Deus. Como afirma Paulo, “a criação geme em dores de parto” (Rm 8,22), aguardando o dia em que toda opressão será vencida e toda lágrima será enxugada (Ap 21,4). Nesse horizonte, a fé cristã permanece peregrina, sempre inacabada, sempre chamada a discernir novamente os sinais dos tempos (Mt 16,3), sempre convidada a recomeçar a partir do amor. Até que Cristo seja tudo em todos (Cl 3,11), até que Deus seja tudo em todos (1Cor 15,28), e a verdade plena do Reino finalmente resplandeça não como doutrina fria, mas como comunhão universal de justiça, misericórdia, paz e vida eterna.


 
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DNonatp– Graduado em História, teólogo do cotidiano, Em escuta ao Espírito que desinstala, em comunhão com o Deus que se faz pobre, em marcha com o povo que resiste

domingo, 8 de maio de 2022

Um olhar no texto de João 10,27-30 ; 4º Domingo de Páscoa / Domingo do Bom Pastor

O quarto domingo da Páscoa celebramos o domingo do Bom Pastor  e todos sabemos que  é Jesus é o ‘Bom Pastor’ e neste ano de 2022  sendo o segundo domingo do mês de maio é dedicado as mães que, como o Bom Pastor, ama e é capaz de doar sua vida por amor por seus filhos e mesmo assim nos cabe recorda. Não há nenhum outro nome pelo qual devamos ser salvos,  Atos  4, 12. As leituras de propostas para o dia de hoje é o texto de:  Atos 13,14.43-52, Salmo 99 (100) Nós somos o povo de Deus, somos as ovelhas do seu rebanho, Apocalipse 7,9.14b-17  com  o evangelho  proposto para hoje: João  10,27-30 que apresenta Jesus como o Bom Pastor, nesse tempo onde muitos invocam pra   si a condição de pastor que manda  imprimir bíblias com suas imagens, pastores que intermediam  ações entre o governo federal e municípios, sem mencionar pastores que invocam pra si um direito a uma posição acima dos outros cristãos se esquecendo da proposta evangélica de Jesus  (Mateus 20,17-28) e que Jesus sendo o Bom Pastor assume a natureza de Cordeiro de Deus para salvar todo rebanho do Pai e esses pastores que  invocam os estatutos, normas e direito para manter suas  vantagens financeiras  estão longe do modelo proposto por Jesus. 
Para alguns a figura do Pastor e da ovelha fica no campo das ideias  pois poucas pessoas conhecem  de perto uma ovelha e aqui vale a pena   olhar   para as características das ovelhas.  São animais sensíveis e inteligentes e são capazes de  identificar os outros integrantes do rebanho, garantindo uma memória de excelência, enquanto para nós leigos as ovelhas são todas iguais, o Pastor consegue identificar e chamar pelo nome cada uma  e somos chamados a exemplo de Jesus e inspirados no modelo das mães a cuidar uns dos outros,  pois somos ovelhas de único rebanho onde Jesus é o Bom Pastor.
Se parte de um rebanho não  pode e não deve ser uma anulação da natureza e personalidade  dos membros do rebanho, mas também não podemos  navegar para um individualismo egocêntrico que fere os princípios da vida em comunidade com espiritualidade individualista celebrando e vivendo tudo numa relação no singular eu esquecendo o nós, o coletivo. Ser discípulo de Jesus  envolve a capacidade de rever as atitudes e se deixar conduzir pela ação do Espirito, e seguir plenamente o Caminho, a Verdade e a Vida, a relação com Deus e com as pessoas e não deve ser uma troca de  favores ou interesse. Diante de um mundo,  onde tudo envolve o lucro e a ideia de obter vantagens.  Jesus inaugura um cuidado sem a busca do interesse do lucro. Diante dos maus pastores preocupados o quanto  as ovelhas pode lhe conceder de lucro, como manter a estrutura de poder,   onde ele como pastor poderá obter os benefícios da  função de ser Pastor,  perdendo a noção de sua própria identidade se tornando um gestor/gerente de empresa, deixando a função de mediador.  Pastores que pensam no rebanho como fonte de renda se comportam como  verdadeiros mercenários:  de bíblia na mão,  de batina, báculo e ate mesmo de  mitra preocupados com legalismo ritual,  com moralismo hipócrita  e com finanças perdendo o sentido pastoral da função confiada pelo Rebanho. Jesus antes de ser visto pela tradição cristã como o Bom Pastor ele foi chamado de Cordeiro de Deus por João Batista  em João 1,29 e nesse sentido que  ver alguns que se dizem Pastores com privilégios e justificativas absurdas  para suas escolhas se faz necessário recorda o Pastor/Cordeiro de Deus que se entrega por amor e no amor.  
Para exemplificar  recordamos o Papa Francisco na  missa do Crisma em 28 de março de 2013  na sua homilia disse:  

  •      "Quem não sai de si mesmo, em vez de ser mediador, torna-se pouco a pouco um intermediário, um gestor. A diferença é bem conhecida de todos: o intermediário e o gestor “já receberam a sua recompensa”. É que, não colocando em jogo a pele e o próprio coração, não recebem aquele agradecimento carinhoso que nasce do coração; e daqui deriva precisamente a insatisfação de alguns, que acabam por viver tristes, padres tristes, e transformados numa espécie de colecionadores de antiguidades ou então de novidades, em vez de serem pastores com o “cheiro das ovelhas” – isto vo-lo peço: sede pastores com o “cheiro das ovelhas”, que se sinta este –, serem pastores no meio do seu rebanho e pescadores de homens. É verdade que a chamada crise de identidade sacerdotal nos ameaça a todos e vem juntar-se a uma crise de civilização; mas, se soubermos quebrar a sua onda, poderemos fazer-nos ao largo no nome do Senhor e lançar as redes. É um bem que a própria realidade nos faça ir para onde, aquilo que somos por graça, apareça claramente como pura graça, ou seja, para este mar que é o mundo atual onde vale só a unção – não a função – e se revelam fecundas unicamente as redes lançadas no nome d’Aquele em quem pusemos a nossa confiança: Jesus."

Existe uma diferença enorme entre gestor,  mediador, pastor e o mercenário. O texto de hoje  nos convida a olhar e contemplar  a   missão do Pastor  Jesus (Cristo)  que dar vida às ovelhas com  Nicodemos nos convida a um novo nascimento (João 3,3.5-6).  Muitos sonham e querem usurpar e agir na pessoa do Pastor, esquece que somos todos chamados  a  escuta a voz do Pastor e segui-lo. aderindo ao projeto de Jesus, se entregando a exemplo de Jesus em uma vida de amor e doação (João 10,27) 

A imagem do Pastor não é uma imagem inventada ou criada para atrair um grupo especifica, a imagem   traz uma referência a Davi que  era o pastor  e sendo um Bom Pastor  defendia o rebanho do seu Pai Jessé( 1 Samuel  17,34-35) e ainda se  refere a ideia dos exilados  de Ezequiel 34, sem deixar de fora Moisés, Jacó, Davi, Amós, Abel e muitos outros eram pastores.  Resumido Jesus  revela sua  natureza que era reunir, proteger o redil do Pai. O único e verdadeiro Pastor é Jesus Cristo  e somos todos ovelhas e não podemos esquecer isso, alguns membros da comunidade exercem  ministério e serviço junto a comunidade e não podem  perde de vista essa  referência, a exemplo do Mestre entregar sua vida de forma livre e espontânea, sem ritualismos ou exigência sendo um   com Jesus.

 Uma das marcas das Ovelhas e ter necessidade de esta em um  grupo onde se estabelece uma relação de amizade e familiar onde Deus é Pai com profundo Amor de Mãe   que guarda e protege seu povo nesse domingo do Bom Pastor celebrar a vocação da mães não existe analogia melhor, pois não existe uma  palavra um gesto ou ação que explique o amor de uma mãe e essa lógica que deveria  ser usada pelos pastores e  para concluir trazemos o texto de  Apocalipse da Liturgia de hoje Apocalipse 7,9.14b-17 que nos recorda que o Cordeiro será o Pastor 

  • Eu, João, vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão. Um dos Anciãos tomou a palavra para me dizer: «Estes são os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro. Por isso estão diante do trono de Deus, servindo-O dia e noite no seu templo. Aquele que está sentado no trono abrigá-los-á na sua tenda. Nunca mais terão fome nem sede, nem o sol ou o vento ardente cairão sobre eles. O Cordeiro, que está no meio do trono, será o seu pastor e os conduzirá às fontes da água viva. E Deus enxugará todas as lágrimas dos seus olhos».