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terça-feira, 4 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 15,21-28

A perícope de Mateus 15,21-28, que narra o encontro de Jesus com a mulher cananeia, ocupa um lugar significativo na vida litúrgica da Igreja. No Lecionário Romano, essa passagem é proclamada na quarta-feira da 18ª Semana do Tempo Comum e a  sua íntegra, no 20º Domingo  Tempo Comum do Ano A. A tradição paralela conservada em Marcos 7,24-30 é proclamada na quinta-feira da 5ª Semana do Tempo Comum.  Além dessas celebrações, o texto inspira frequentemente retiros, encontros missionários, catequeses e momentos de formação cristã dedicados à universalidade da salvação, à fé perseverante e à missão da Igreja junto aos povos. Nas Igrejas Ortodoxas, embora o ordenamento das leituras siga tradições litúrgicas próprias, essa narrativa permanece presente no ciclo de proclamação dos Evangelhos de Mateus e Marcos como expressão da abertura do Reino de Deus a todas as nações. Também as Igrejas Anglicana, Luterana, Metodista e Reformada, por meio do Lecionário Comum Revisado, acolhem essa passagem em alguns domingos após Pentecostes. A permanência desse texto nas diversas tradições cristãs revela que ele toca uma das questões fundamentais da fé bíblica: como Deus atravessa as fronteiras construídas pelos seres humanos para manifestar sua misericórdia universal.   O encontro entre Jesus e a mulher cananeia não é apenas uma narrativa sobre uma cura milagrosa. Trata-se de uma revelação profunda sobre a identidade de Deus, sobre a missão de Cristo e sobre a transformação necessária da própria comunidade religiosa. A mulher estrangeira, considerada distante da aliança de Israel, torna-se aquela que manifesta uma fé capaz de surpreender os discípulos e provocar uma mudança de compreensão sobre o alcance do Reino. Ela aparece como testemunha de que Deus não pode ser aprisionado por fronteiras étnicas, culturais, religiosas ou sociais. Sua presença no Evangelho denuncia toda tentativa humana de controlar a graça e revela que a misericórdia divina sempre ultrapassa os limites que estabelecemos.  

O episódio encontra-se imediatamente após um dos confrontos mais decisivos entre Jesus e os fariseus. Em Mateus 15,1-20, os mestres da Lei questionam os discípulos por não seguirem determinadas tradições de purificação ritual antes das refeições. A resposta de Jesus é profundamente profética. Ele não rejeita a tradição enquanto expressão da fé de Israel, mas denuncia quando ela se transforma em instrumento de superioridade religiosa e deixa de conduzir ao amor de Deus e ao cuidado com o próximo. Citando Isaías 29,13, afirma: "Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim". O problema não está nos ritos exteriores, mas na distância entre a prática religiosa e a transformação interior. Jesus revela que a verdadeira impureza não vem de fora para dentro, mas nasce do coração humano, onde podem surgir homicídios, injustiças, adultérios, mentiras e toda forma de maldade.  

Essa sequência narrativa possui grande importância teológica. Depois de denunciar uma religião preocupada apenas com pureza externa, Jesus dirige-se justamente para uma região considerada impura pelos setores religiosos de Israel. A mudança geográfica é também uma mudança simbólica. Jesus atravessa uma fronteira que muitos religiosos preferiam manter fechada. O caminho para Tiro e Sidônia representa o movimento do próprio Deus em direção à humanidade excluída. O Reino anunciado por Jesus não se limita aos espaços considerados sagrados pelos homens, porque a presença de Deus não depende das barreiras construídas pelas sociedades humanas.  As regiões de Tiro e Sidônia, cidades fenícias localizadas ao norte da Galileia, próximas ao Mar Mediterrâneo. Eram centros comerciais importantes, marcados pela circulação de povos, mercadorias, culturas e religiões. O mundo mediterrâneo antigo era profundamente plural, mas também marcado por intensas divisões sociais e religiosas. A identidade de um povo estava frequentemente ligada à separação entre aqueles que pertenciam ao grupo e aqueles considerados estrangeiros.  

As duas cidades  carregavam uma história complexa. Sidônia foi a origem de Jezabel, esposa do rei Acab, cuja influência fortaleceu o culto a Baal em Israel, provocando uma grave crise religiosa narrada em 1 Reis 16-21. Entretanto, a relação entre Israel e essas cidades nunca foi apenas de oposição. Hirão, rei de Tiro, colaborou com Davi e Salomão na construção do Templo de Jerusalém, conforme 2 Samuel 5,11 e 1 Reis 5. Os profetas Isaías, Jeremias, Ezequiel e Amós denunciaram a arrogância, a exploração econômica e o orgulho dessas cidades, especialmente quando a riqueza produzia injustiça e desprezo pelos pequenos.  

Portanto, quando Jesus entra nesse território, ele não está simplesmente visitando uma região estrangeira. Ele está entrando em um espaço carregado de memórias, conflitos e preconceitos. Seu gesto revela que o Reino de Deus não pode ser reduzido às fronteiras religiosas de um grupo. O Deus de Israel continua fiel à sua aliança, mas essa fidelidade sempre teve uma dimensão universal. Desde Abraão, a promessa era que todas as famílias da terra seriam abençoadas (Gênesis 12,3).  

Mateus identifica a personagem como uma "mulher cananeia". Marcos, ao narrar o mesmo acontecimento, utiliza outra expressão: "uma mulher grega, siro-fenícia de nascimento" (Mc 7,26). Essa diferença é importante para compreender a intenção de cada evangelista. 

  • Marcos escreve para comunidades com forte presença de cristãos vindos do mundo gentílico e destaca sua origem cultural.
  •  Mateus, porém, recupera conscientemente o termo "cananeia", uma palavra carregada de memória histórica. No Antigo Testamento, os cananeus representavam os povos que habitavam a terra antes da formação de Israel e eram frequentemente associados aos inimigos da aliança.  

Ao utilizar essa expressão, Mateus cria um contraste teológico profundo. Aquela que simboliza alguém considerado distante das promessas torna-se exemplo de fé para aqueles que deveriam reconhecer primeiro o Messias. O evangelista não pretende reforçar preconceitos contra os estrangeiros. Pelo contrário, deseja mostrar que a graça de Deus alcança justamente aqueles que os sistemas humanos costumam colocar à margem. A mulher cananeia representa todos aqueles que, ao longo da história, foram considerados indignos, impuros ou incapazes de participar plenamente da vida religiosa.  

Ela aproxima-se de Jesus clamando: "Senhor, Filho de Davi, tem piedade de mim. Minha filha está horrivelmente atormentada por um demônio" (Mt 15,22). Suas palavras são uma profunda profissão de fé. Ela chama Jesus de Senhor, reconhecendo sua autoridade. Chama-o de Filho de Davi, reconhecendo nele o Messias esperado por Israel. É significativo que uma estrangeira perceba aquilo que muitos membros do povo escolhido ainda não haviam compreendido.   Sua oração começa com um pedido de misericórdia. Ela não apresenta méritos, não reivindica privilégios, não exige reconhecimento. Ela simplesmente confia na compaixão de Jesus. Essa atitude está no centro de toda espiritualidade bíblica. Deus revela seu próprio nome a Moisés dizendo: "O Senhor, Deus misericordioso e compassivo, lento para a ira e rico em amor" (Ex 34,6). Os Salmos repetem constantemente que a misericórdia do Senhor permanece para sempre. O profeta Oseias anuncia que Deus deseja misericórdia e não sacrifícios (Os 6,6), palavra que Jesus retomará em Mateus 9,13 e 12,7.  

A mulher cananeia compreende algo essencial: antes de qualquer estrutura religiosa, existe o coração misericordioso de Deus. A relação com o Senhor não nasce do orgulho de quem se considera merecedor, mas da humildade de quem reconhece sua necessidade de graça.   Sua filha está "atormentada por um demônio". No contexto bíblico, essa linguagem expressa a realidade do mal que aprisiona e desumaniza. Os Evangelhos apresentam as libertações realizadas por Jesus como sinais da chegada do Reino, pois o Filho de Deus veio destruir as obras do mal (1Jo 3,8). A ação demoníaca simboliza tudo aquilo que rompe a comunhão, destrói a dignidade e impede a pessoa de viver plenamente sua vocação humana.  

Essa dimensão continua profundamente atual. Hoje as forças que desumanizam aparecem em diferentes formas: violência, fome, exploração, racismo, guerras, dependências que escravizam, discursos de ódio, manipulações políticas, desigualdades estruturais e todas as situações em que seres humanos deixam de ser reconhecidos como filhos e filhas de Deus. A libertação trazida por Cristo não é apenas interior. Ela alcança a pessoa inteira e suas relações sociais.  A  reação inicial de Jesus diante do clamor da mulher causa estranhamento: "Ele, porém, não lhe respondeu palavra alguma" (Mt 15,23). Esse silêncio de Cristo constitui uma das experiências mais profundas da espiritualidade bíblica. A Sagrada Escritura conhece o sofrimento daqueles que buscam Deus e não encontram imediatamente uma resposta. Jó atravessa a dor perguntando por que Deus permanece em silêncio diante de sua angústia. Muitos salmos transformam essa experiência em oração: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Sl 22,2). Os profetas também conhecem o tempo da espera e da aparente ausência divina. O próprio Jesus, na cruz, assumirá esse clamor humano ao rezar o Salmo 22.  

O silêncio de Deus não significa ausência ou rejeição. Muitas vezes ele revela um processo de amadurecimento da fé. Existe uma diferença entre uma fé baseada apenas em respostas imediatas e uma fé que permanece mesmo quando atravessa a escuridão. A psicologia da experiência religiosa mostra que os momentos de crise, dúvida e silêncio podem se tornar espaços de crescimento espiritual, nos quais a pessoa abandona uma relação infantil com Deus e aprende a confiar profundamente em sua presença.   Os discípulos, porém, revelam uma dificuldade diferente. Eles não parecem preocupados com a dor daquela mãe, mas com o incômodo provocado pelo seu grito. "Despede-a, pois vem gritando atrás de nós" (Mt 15,23). Essa atitude revela uma tentação permanente das comunidades religiosas: transformar aqueles que sofrem em um problema a ser afastado, em vez de reconhecê-los como presença que interpela a própria fé.   O Evangelista escreve essa narrativa também para sua própria comunidade. A Igreja nascente precisava compreender que a missão de Jesus não poderia ficar limitada a um grupo étnico ou cultural. Os discípulos ainda carregavam antigas fronteiras de pensamento. Eles precisavam aprender que seguir Cristo significa aproximar-se daqueles que a sociedade considera distantes.  

A Bíblia inteira apresenta Deus como aquele que escuta o clamor dos pequenos. No Êxodo, Deus afirma: "Eu ouvi o clamor do meu povo no Egito" (Ex 3,7). Os profetas denunciam constantemente a indiferença diante do sofrimento humano. Isaías afirma que o verdadeiro culto consiste em defender o direito do oprimido, fazer justiça ao órfão e proteger a causa da viúva (Is 1,17). Amós denuncia uma religião que celebra festas e sacrifícios enquanto pratica injustiça: "Corra o direito como água e a justiça como um rio perene" (Am 5,24).  A mulher cananeia coloca a comunidade cristã diante de uma pergunta permanente: será que ouvimos realmente o grito daqueles que sofrem ou apenas buscamos uma religião confortável, organizada e protegida das dores do mundo?  

Jesus então responde: "Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mt 15,24). Essa afirmação precisa ser compreendida dentro da história da salvação. Jesus não está negando a universalidade do Reino, mas afirmando a fidelidade de Deus às promessas feitas a Israel. O Messias nasce dentro de uma história concreta, de um povo concreto, de uma tradição concreta.   A eleição de Israel nunca foi um privilégio fechado, mas uma missão. Deus chama Abraão para que nele sejam abençoadas todas as famílias da terra (Gn 12,3). O profeta Isaías anuncia que o servo do Senhor será "luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra" (Is 49,6). O projeto de Deus sempre apontou para a humanidade inteira.  

O Evangelho de Mateus desenvolve progressivamente essa abertura. Após o episódio da mulher cananeia, Jesus realiza uma multiplicação dos pães em território gentílico (Mt 15,32-39). Depois, Pedro faz sua profissão de fé em Cesareia de Filipe, uma região marcada pela diversidade religiosa (Mateus 16,13-20 proclamado na quinta-feira da 18ªsemanadoTempoComum). No final do Evangelho, o Ressuscitado envia os discípulos: "Ide, portanto, fazei discípulos todos os povos" (Mt 28,19).   A missão universal da Igreja nasce dessa passagem da exclusividade para a comunhão. Deus não abandona Israel, mas revela que sua promessa sempre foi maior do que qualquer fronteira humana.  

A mulher, porém, continua perseverante. Ela aproxima-se, prostra-se diante de Jesus e faz uma oração ainda mais simples: "Senhor, ajuda-me" (Mt 15,25). Toda a sua existência está concentrada nessa súplica. Ela não tem argumentos de poder, não possui posição social, não pertence ao grupo religioso dominante. Ela tem apenas a confiança de quem ama e sofre.  

A Bíblia apresenta diversas orações semelhantes:

A verdadeira oração não depende da quantidade de palavras, mas da profundidade da confiança.   A resposta seguinte de Jesus permanece uma das passagens mais difíceis dos Evangelhos: "Não é bom tirar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos" (Mt 15,26). Uma leitura superficial poderia interpretar essa frase como uma aceitação dos preconceitos contra os estrangeiros. Entretanto, essa interpretação entra em conflito com toda a mensagem de Jesus.  

O termo utilizado por Mateus no original grego possui o sentido de pequenos cães domésticos, não dos animais selvagens frequentemente desprezados no mundo antigo. Além disso, a própria narrativa mostra que Jesus conduz um processo pedagógico. O diálogo revela a mentalidade existente e conduz os discípulos a uma compreensão maior da missão messiânica.   A mulher não responde com revolta, mas com uma fé extraordinariamente inteligente: "Sim, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos" (Mt 15,27). Ela não aceita ser excluída da misericórdia divina. Sua resposta revela que a graça de Deus não é limitada. A abundância do amor divino é tão grande que existe lugar para todos.  

A mulher compreende algo que muitas vezes esquecemos: Deus não precisa negar alguém para acolher outro. A lógica humana frequentemente funciona pela competição, pela escassez e pela exclusão. A lógica do Reino funciona pela partilha, pela comunhão e pela abundância.  Nesse momento Jesus revela a grandeza daquela fé: "Mulher, grande é a tua fé. Seja feito como queres" (Mt 15,28). É uma das maiores afirmações de reconhecimento feitas por Jesus nos Evangelhos. Em Mateus 8,5-13, ele também elogia a fé de um centurião romano, outro estrangeiro. O evangelista constrói uma profunda ironia: aqueles que estavam mais próximos da tradição religiosa nem sempre reconhecem o Messias, enquanto pessoas consideradas distantes revelam uma confiança admirável.  

A salvação não depende de origem étnica, posição social, título religioso ou proximidade institucional. Ela nasce da abertura do coração à graça de Deus.  A cura acontece à distância. Jesus não precisa tocar a menina para libertá-la. Sua palavra atravessa fronteiras geográficas, culturais e religiosas. Essa característica possui profundo significado teológico. A Palavra de Cristo não está presa a lugares, estruturas ou privilégios humanos. Ela alcança onde a necessidade humana se encontra.  

Paulo compreenderá essa realidade ao afirmar que Cristo "é a nossa paz, aquele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de separação" (Ef 2,14). A mulher cananeia torna-se antecipação da humanidade reconciliada em Cristo.   Essa abertura continuará presente na Igreja primitiva. Em Atos 10, Pedro entra na casa de Cornélio, um pagão, e precisa superar suas próprias barreiras culturais. Depois da experiência do Espírito Santo, afirma: "Reconheço de fato que Deus não faz acepção de pessoas" (At 10,34). Em Atos 15, no Concílio de Jerusalém, a comunidade cristã discerne que os povos gentios não precisam abandonar sua identidade cultural para pertencer plenamente a Cristo.  

Aquilo que Jesus realiza simbolicamente no encontro com a mulher cananeia torna-se uma decisão concreta da Igreja missionária. O Espírito Santo conduz a comunidade a compreender que o Evangelho não é propriedade de um grupo, mas dom oferecido a todos e a tradição cristã percebeu desde cedo a profundidade espiritual desse encontro. Os Padres da Igreja contemplaram na mulher cananeia uma imagem da humanidade que busca Deus para além das fronteiras estabelecidas pelos homens. 

  • Santo Agostinho via nela a figura dos povos gentios que seriam incorporados ao povo da nova aliança pela fé. 
  • São João Crisóstomo admirava especialmente sua perseverança, porque ela não abandona a esperança diante do silêncio ou das dificuldades, mas transforma cada obstáculo em oportunidade de aproximar-se ainda mais de Cristo. 
  • Orígenes interpretava sua atitude como símbolo da alma humana que, purificada pelo sofrimento, aprende a confiar plenamente na misericórdia divina.  

Essa leitura espiritual não elimina o sentido histórico do texto, mas revela sua profundidade permanente. A mulher cananeia não é apenas uma personagem do passado. Ela representa todos aqueles que, em diferentes épocas, aproximam-se de Deus carregando dores, feridas e esperanças, muitas vezes vindos de lugares considerados distantes pelas estruturas religiosas.  .A própria Igreja compreendeu nessa narrativa sua vocação missionária. 

  • A Constituição Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, afirma que a Igreja é, em Cristo, "como sacramento, isto é, sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano". Essa afirmação impede uma compreensão fechada da comunidade cristã. A Igreja não existe para construir barreiras espirituais, mas para ser sinal da reconciliação oferecida por Deus.  
  • A Constituição Gaudium et Spes recorda que as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias das pessoas de hoje, sobretudo dos pobres e daqueles que sofrem, são também as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos discípulos de Cristo. A mulher cananeia ensina exatamente isso: a dor humana deve tornar-se uma questão espiritual para a comunidade de fé.  
  • A Constituição Dei Verbum, especialmente ao tratar da interpretação da Escritura, recorda que a Palavra de Deus deve ser compreendida considerando o contexto histórico, os gêneros literários e a unidade de toda a revelação. Por isso, Mateus 15 jamais pode ser usado para justificar exclusões. A direção da revelação bíblica é exatamente contrária: Deus conduz continuamente seu povo para uma compreensão mais ampla de sua misericórdia.  

Sabemoa que todas as sociedades criam fronteiras simbólicas, existem aqueles que pertencem ao grupo e aqueles que são vistos como estrangeiros. Essas fronteiras podem produzir identidade, mas também podem gerar preconceito e violência. A religião, quando perde sua centralidade em Deus, pode transformar diferenças humanas em justificativas para exclusão.  Jesus realiza o movimento oposto. Ele atravessa fronteiras,  aproxima-se dos considerados impuros, escuta quem era ignorado e  reconhece a fé onde muitos não esperavam encontrá-la. A verdadeira identidade do povo de Deus não nasce da rejeição do outro, mas da acolhida da misericórdia.   Por isso, toda comunidade cristã precisa perguntar continuamente se suas estruturas aproximam as pessoas de Cristo ou se criam obstáculos para aqueles que buscam Deus. A Igreja deixa de manifestar o Reino quando transforma tradições humanas, costumes culturais ou estruturas institucionais em muros que impedem o encontro com a graça.  

É preciso compreender que toda experiência religiosa corre o risco de ser utilizada como instrumento de poder. Quando isso acontece, a fé deixa de libertar e passa a justificar privilégios. Jesus denuncia essa deformação em Mateus 23, quando critica líderes religiosos que colocam pesados fardos sobre os outros, mas não praticam aquilo que ensinam.  

Em Lucas 4,16-30 proclamado  na segunda-feira da 22ª semana do Tempo Comum e na  3º Domingo do Tempo Comum do ano C, Jesus apresenta sua missão como anúncio de libertação aos pobres, aos cativos e aos oprimidos. Em Mateus 25,31-46 proclamado na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, encerrando o Ano Litúrgico, e também na Segunda-feira da 1ª Semana da Quaresma,  identifica sua própria presença nos famintos, sedentos, estrangeiros, enfermos e presos. A mulher cananeia pertence exatamente ao grupo daqueles que a sociedade frequentemente coloca nas margens. Seu grito revela que Deus continua presente onde muitos preferem não olhar.  

Aimda podemos perceber outra dimensão desse encontro. A perseverança daquela mulher nasce do amor. Ela não insiste por orgulho, mas porque carrega o sofrimento da filha. O amor por outra pessoa torna-se força espiritual e  sua experiência se repete na vida de tantas mães e pais que lutam diariamente pela vida dos filhos, enfrentando doenças, violência, pobreza, abandono e tantas formas de sofrimento.  .Sua oração também denuncia uma religiosidade centrada apenas em benefícios pessoais. Ela não busca riqueza, status ou poder, ela busca vida. O Evangelho confronta, assim, uma espiritualidade reduzida ao consumo religioso, na qual Deus é tratado como instrumento para satisfazer desejos individuais. A fé verdadeira nasce da relação com Deus e se expressa no amor concreto pelo outro.  

Os profetas de Israel sempre denunciaram uma religião separada da justiça. 

  • Isaías afirma que o verdadeiro jejum consiste em libertar os oprimidos, repartir o pão com o faminto e acolher o pobre sem abrigo (Is 58). 
  • Amós rejeita celebrações religiosas quando não são acompanhadas pela prática da justiça (Am 5,21-24). 
  • Miqueias resume a vontade de Deus: "Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus" (Mq 6,8).  

Jesus continua essa tradição profética. A mulher cananeia mostra que Deus escuta aqueles que permanecem nas margens das estruturas religiosas, econômicas e sociais.  .Essa mensagem permanece atual na reflexão da Igreja latino-americana.

  •  Medellín (1968) denunciou a realidade de pobreza como uma situação que clama por transformação. 
  • Puebla (1979) reafirmou a opção preferencial pelos pobres como consequência do seguimento de Jesus. 
  • Santo Domingo (1992) aprofundou o compromisso missionário diante das mudanças culturais. 
  • Aparecida (2007) recordou que os discípulos missionários são chamados a reconhecer Cristo nos rostos daqueles cuja dignidade é negada.  

A CNBB, em seus documentos pastorais, mantém essa mesma perspectiva ao afirmar que evangelizar envolve defender a vida, promover a justiça, proteger os direitos humanos e construir uma sociedade baseada na solidariedade.  Por isso, a fé cristã não pode ser instrumentalizada para projetos de dominação política ou social. Quando a religião é usada para alimentar ódio, justificar privilégios, transformar adversários em inimigos absolutos ou conquistar poder, ela se afasta da lógica do Evangelho.   A chamada teologia da prosperidade também precisa ser discernida criticamente quando transforma a relação com Deus em uma troca comercial, como se a bênção divina fosse resultado de pagamento ou sucesso econômico. Jesus nasceu pobre, viveu entre os pobres e afirmou: "Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus" (Lc 6,20)?. da mesma forma, uma teologia do domínio que identifica o Reino de Deus com projetos de conquista política ou controle cultural contradiz o cauminho de Cristo. Jesus reina a partir da cruz, do serviço e da entrega. Ele afirma: "O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (Mc 10,45) e o  clericalismo também precisa ser confrontado pelo Evangelho. Quando o ministério se transforma em privilégio, quando a autoridade substitui o serviço e quando a posição institucional vale mais que a escuta do sofrimento humano, a missão cristã é deformada. A mulher cananeia não era discípula oficial, não possuía reconhecimento religioso, mas tornou-se exemplo de fé para os próprios seguidores de Jesus.  

Também é necessário discernir toda aproximação entre cristianismo e projetos autoritários ou ideologias de extrema direita quando estas absolutizam o poder, promovem exclusão, incentivam violência, alimentam preconceitos ou transformam a religião em instrumento de disputa política. O Evangelho não pertence a nenhuma ideologia. Ele julga todas as ideologias à luz da dignidade humana, da justiça e da misericórdia.  Isso não significa que os cristãos devam ser indiferentes diante da realidade social. Pelo contrário. A fé exige compromisso com a vida, com a paz, com os pobres, com os migrantes, com a criação e com todos aqueles que sofrem.  

A mesa mencionada pela mulher cananeia possui também uma dimensão sacramental. As migalhas que caem da mesa apontam para uma realidade maior: a mesa definitiva do Reino. Na Eucaristia, Cristo reúne pessoas diferentes em um único corpo e o pão partido manifesta uma humanidade reconciliada. Não existem lugares privilegiados diante do altar segundo critérios de riqueza, origem ou poder.  .Essa mesa encontra sua plenitude no banquete anunciado pelo profeta Isaías para todos os povos (Is 25,6-9) e na celebração das núpcias do Cordeiro (Ap 19,9). Deus não oferece uma graça limitada. Sua misericórdia é abundante e universal.  

Vivemos um tempo marcado por desigualdades, crises ambientais, guerras, violência, intolerância religiosa, polarizações e manipulação das consciências. Ainda hoje a mulher cananeia caminha pelas nossas cidades. Ela está nos pobres esquecidos, nos migrantes rejeitados, nas vítimas da violência, nas crianças sem futuro, nos idosos abandonados, nos trabalhadores explorados e em todos aqueles cujo sofrimento muitas vezes incomoda mais do que provoca solidariedade.  

A pergunta do Evangelho permanece diante da Igreja: vamos repetir a atitude dos discípulos, pedindo que esses gritos sejam afastados, ou permitiremos que o clamor dos sofredores transforme nossa maneira de viver a fé?  .A mulher cananeia revela que a verdadeira fé nasce quando a misericórdia vence o preconceito. Ela mostra que Deus não pode ser aprisionado por fronteiras humanas. O Cristo que caminhou para Tiro e Sidônia continua caminhando para as periferias humanas de cada tempo. Ele continua ouvindo aqueles que ninguém deseja ouvir.  

Que sua oração se torne também a oração da Igreja: "Senhor, Filho de Davi, tem piedade de nós". Tem piedade quando construímos muros onde deveríamos construir pontes. Tem piedade quando preferimos nossas estruturas ao serviço. Tem piedade quando esquecemos os pobres e os excluídos.  .Que o Espírito Santo nos conceda uma fé semelhante àquela mulher, uma fé humilde, perseverante e aberta à misericórdia. Assim a Igreja será verdadeiramente sinal do Reino anunciado pelos profetas, realizado em Jesus de Nazaré e continuamente renovado na história pelo amor de Deus, para que toda a humanidade experimente a justiça, a paz e a comunhão que vêm do Deus da vida.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 2 de agosto de 2026

Continuemos Gentis, Iluminados e Iluminadores

  • Padre Zezinho Scj, a gratidão de um discípulo formado pela sua missão 

A GOTA D’ÁGUA 

Pe Zezinho scj

A partir do próximo domingo , dia 2 de agosto silenciarei na internet,  na qual  entrei a conselho de bispos e de um  irmão de congregação .   Apenas conversarei com meus 100 catequistas da WhatsApp . Devo isso a eles !   Não sei se voltarei às outras redes sociais .   Cansei de ser chamado “câncer da Igreja”  por pregar a Teologia da Libertação devidamente  corrigida por São João Paulo II em carta de 9.4.1986  sendo eu discípulo do advogado e sociólogo  Padre Dehon ,  lutei em defesa da Doutrina Social da Igreja ( DSI) .   Outros irmãos de outra corrente social gritaram  mais alto do que eu !  Foram 60 anos tentando dialogar sobre catequese católica ! 

Minha simples resposta paterna sobre o jeito de pregar ao microfone virou confronto político e discórdia entre católicos de  diferente corrente e postura pastoral ! 

Não fiquei padre para ouvir o que ouvi e li  no dia 19 de julho ! Quem postou aquele confronto e a maneira como foi postado quis me cancelar e alcançou   seu objetivo !  Reitero minha opinião de que a catequese deve ser sempre gentil , mesmo dizendo verdades exigentes .  

Padre Zezinho scj

Poucas frases conseguem resumir tão bem uma vida inteira. Foi com essas palavras que José Fernandes Oliveira  o Padre Zezinho, SCJ, anunciou, no dia 2 de agosto, Dia das Vocações Sacerdotais, que encerrava sua atuação nas redes sociais leia o texto acima. Não é um gesto de desistência, nem um adeus à missão. É a decisão serena de quem sabe que o Evangelho não depende de uma plataforma para continuar transformando vidas. Os meios de comunicação mudam; a missão permanece. Ao ler sua mensagem, senti tristeza, mas, acima de tudo, gratidão. Gratidão porque sua despedida das redes sociais não representa um silêncio. Quem evangelizou durante tantas décadas por meio da música, dos livros, dos artigos, da rádio, da televisão, das palestras e dos retiros jamais deixará de falar. Sua voz continuará ecoando nas comunidades, nas famílias, nas salas de catequese, nas igrejas e no coração de milhões de pessoas..Na verdade, aquela breve mensagem soou como um verdadeiro testamento espiritual. Padre Zezinho recordou que o púlpito é um lugar sagrado; que o microfone católico existe para anunciar Jesus Cristo, nunca para espalhar ódio, humilhação ou condenação; que o Evangelho pode ser anunciado com firmeza sem perder a delicadeza; e que a verdade nunca precisa ser agressiva para permanecer verdade. 

Ao recordar os Boanerges, os "filhos do trovão", que desejaram fazer cair fogo do céu sobre aqueles que pensavam diferente, Padre Zezinho trouxe à memória a resposta do próprio Jesus, que repreendeu aquele espírito de intolerância. Em tempos marcados por radicalismos, polarizações e discursos violentos, essa reflexão é profundamente evangélica e extraordinariamente atual. Ela nos lembra que o discípulo de Cristo não é chamado a vencer discussões, mas a testemunhar o amor que brota do Evangelho..  Ao longo de mais de seis décadas de ministério sacerdotal, Padre Zezinho permaneceu fiel a esse princípio. Sacerdote do Sagrado Coração de Jesus, compositor, escritor, comunicador, pregador e catequista, tornou-se um dos maiores evangelizadores que a Igreja no Brasil conheceu. Sua missão ultrapassou fronteiras. Suas músicas foram traduzidas, gravadas e cantadas por inúmeras comunidades. Seus livros formaram gerações de catequistas, ministros, religiosos, seminaristas, padres e leigos. Seus artigos ensinaram milhares de pessoas a pensar a fé, enquanto seus programas de rádio levaram esperança a incontáveis famílias.

Mais do que produzir canções ou escrever livros, Padre Zezinho ajudou a traduzir para a linguagem do povo a riqueza do Concílio Vaticano II. Mostrou, com palavras simples e profunda fidelidade ao Magistério da Igreja, que ela é chamada a ser Mãe e Mestra, missionária, acolhedora, misericordiosa e profundamente humana. Ensinou que fidelidade ao Evangelho jamais significa intolerância e que a verdade de Cristo caminha sempre de mãos dadas com a caridade..Por isso, sua despedida das redes sociais não é um ponto final. É apenas o encerramento de uma etapa de uma história que continuará sendo escrita na vida daqueles que foram formados por sua missão.

Particularmente  cheguei à Igreja Católica aos 17 anos de idade, na década de 1990. Era um jovem em busca de ideal, de um projeto,  na verdade  buscava Deus,  precisava  de respostas e de um sentido para a vida,  como tantos outros, procurava algo que desse direção à minha existência. Foi na Igreja que encontrei Jesus Cristo e, pouco tempo depois, tive a graça de ser chamado para servir como Ministro da Palavra. Começava ali uma caminhada de fé, de estudo, de oração e de serviço ao povo de Deus..Naquele tempo, eu ainda não imaginava quantas pessoas Deus colocaria em meu caminho para ajudar na minha formação. Entre todas elas, uma ocupa um lugar muito especial: Padre Zezinho.

Conheci primeiro sua voz. Depois vieram as músicas, os livros, os artigos, os LPs, naquele tempo  ainda  era os LPs e as reflexões. Sem perceber, eu estava sendo catequizado por um sacerdote que conseguia unir profundidade teológica, fidelidade à Igreja, amor à Sagrada Escritura, sensibilidade humana, compromisso social e uma linguagem simples, acessível e profundamente cristã..Com o passar dos anos, compreendi que Padre Zezinho nunca foi apenas um compositor,  mas um educador da fé e  nunca foi apenas um cantor.  Ele é  um catequista,  também  nunca foi apenas um escritor,  na  verdade  é  um mestre que ajudava e ajuda  o povo de Deus a pensar, rezar e viver o Evangelho.

Foi por meio de sua obra que descobri uma verdade que levo comigo até hoje: a música também pode evangelizar, pode formar consciências, ensinar teologia, despertar vocações, fortalecer famílias, alimentar a esperança e aproximar as pessoas de Jesus Cristo. Sem exagero, posso dizer que minha formação como jovem católico, como Ministro  leigo comprometido com a Igreja foi profundamente marcada pela riqueza espiritual, humana e catequética de sua missão. Foi ela que ajudou a moldar minha maneira de compreender a fé, viver a Igreja e anunciar o Evangelho.  Foi justamente por isso que, ao saber de sua despedida das redes sociais, senti a necessidade de escrever estas palavras. Não apenas para agradecer por sua trajetória, mas para testemunhar que sua missão continua viva na história de inúmeras pessoas.

 Jamais imaginei que Deus ainda me concederia uma graça maior: encontrá-lo pessoalmente. Antes desse encontro, porém, sua obra já havia se tornado presença constante na minha caminhada de fé. E  sua  obra carrega um convite à conversão, à oração e ao compromisso com o Evangelho. Suas músicas não são apenas melodias bonitas, mas verdadeiras reflexões sobre Deus, sobre a vida humana e sobre a missão cristã no mundo e sem  perceber, fui sendo formado também por suas canções, que acompanharam diferentes momentos da minha história de fé.

Como não  agradecer  ao Mestre Padre Zezinho SCj  as musicas, os textos  aa reflexões  e tudo mais. Como não  lembrar de; 

  • "Maria de Minha Infância"  que despertou em mim um profundo amor filial pela Mãe de Jesus. Por meio daquela canção, Maria deixou de ser apenas uma personagem da história da salvação para tornar-se uma presença materna na minha vida espiritual. 
  •  "Mãe do Céu Morena"  que  me abriu um novo horizonte. A curiosidade despertada por essa música levou-me a conhecer a história de Nossa Senhora de Guadalupe, sua aparição a São Juan Diego e a riqueza espiritual da Padroeira das Américas..Com o passar dos anos, essa descoberta transformou-se em devoção. Hoje, com alegria, posso dizer que sou guadalupano. Minha devoção à Virgem de Guadalupe nasceu, em grande parte, porque essa  canção abriu meu coração para conhecer essa manifestação tão bonita do amor de Deus através de Maria. Talvez Padre Zezinho jamais tenha imaginado quantas histórias semelhantes nasceram por causa dessa música. Na minha vida, ela foi muito mais do que uma composição: tornou-se um caminho de evangelização.
  • "Oração pela Família"  ensinou-me que a família é uma verdadeira Igreja doméstica, onde o amor, o diálogo, o perdão e a oração sustentam a vida cotidiana. Em tempos de tantas dificuldades para as famílias, essa canção continua lembrando que a presença de Deus dentro do lar é fonte de força e esperança.
  • "Família do Brasil" ampliou meu olhar, mostrando que o Evangelho não se limita às paredes de nossas casas. A família cristã também possui uma responsabilidade diante da sociedade, chamada a promover o cuidado com o próximo, a solidariedade e o compromisso com o bem comum.
  • "Jovem Galileu". Nela encontrei um Jesus próximo, humano e amigo, capaz de caminhar ao lado dos jovens e continuar fazendo o mesmo convite de sempre: "Vem e segue-me." Não era um Cristo distante, mas o Mestre que chama cada pessoa para uma vida nova.
  • Cristo Inconstante e Meu Cristo Jovem, lançado em dois  LPs de reflexão, obras que guardo com especial carinho. Elas ajudaram-me a compreender que seguir Jesus exige conversão permanente.
São músicas que não oferecem uma fé superficial, mas provoca perguntas, desperta  a consciência e convida  a um cristianismo autêntico, no qual aquilo que professamos precisa estar unido àquilo que vivemos.  Padre Zezinho também me ensinou que a espiritualidade cristã não pode ignorar o sofrimento humano.

  •  Em "País Paraplégico", conheci uma dimensão muito pessoal de sua história. Ao transformar a experiência vivida com seus pais em uma reflexão sobre dignidade, perseverança, amor e esperança, mostrou que a dor, quando iluminada pela fé, pode tornar-se testemunho.
  • Em "Briga com Deus", encontrei uma das mais belas expressões da dor humana transformada em oração. Ao narrar o sofrimento de pais que perderam um filho, mostrou que a fé não elimina as lágrimas nem proíbe as perguntas. Como Jó, Jeremias e tantos salmistas, também podemos apresentar nossas dores diante de Deus. Essa canção ensinou-me que até o silêncio de Deus pode se transformar em lugar de encontro com Ele.

Outras músicas ampliaram meu olhar sobre as exigências do Evangelho. 

  • " Mais um Irmão" despertou em mim a consciência de que seguir Cristo significa defender a vida, promover a paz e reconhecer a dignidade de toda pessoa humana. 
  • "Menores Abandonados" fez-me compreender que a opção pelos pequenos, pelos pobres e pelos esquecidos pertence ao coração da Boa-Nova anunciada por Jesus.
  • "A Verdade Vos Libertará" e "A Verdade é Bem Maior" ensinaram-me que a verdade do Evangelho está acima de nossas preferências pessoais, ideológicas ou partidárias. Cristo continua sendo a Verdade que liberta e conduz à verdadeira liberdade.
Em muitos momentos da minha vida no silêncio vem a mente 

  • "Estou Pensando em Deus" transformou-se em oração. 
  • "Chuva no Telhado" mostrou-me que Deus também se revela na simplicidade do cotidiano,  quando  chove e estou bem abrigafo e meu irmão  sem um lugar para  morar,  nos pequenos gestos e no silêncio.
  •  "Quando Jesus Passar" fortaleceu minha esperança, lembrando-me de que um encontro verdadeiro com Cristo é capaz de transformar completamente uma existência.
  • "Amar Como Jesus Amou" tornou-se, para mim, uma síntese do próprio Evangelho: não existe verdadeira espiritualidade cristã sem amor, porque o amor é o caminho deixado por Jesus.
Entre tantas canções, "Utopia" ocupa um lugar especial me faz lembrar do meu pai, da minha mae  e irmãs e irmãos.  As  canções  alimentaram  em mim o sonho de uma Igreja mais fraterna, misericordiosa, missionária e fiel ao Evangelho; uma Igreja que dialoga sem perder sua identidade, acolhe sem abandonar a verdade e anuncia Cristo sem transformar o altar em tribunal.

Na  mensagem com que Padre Zezinho se despede das redes sociais, reconheci exatamente essa mesma esperança. É a continuidade de tudo aquilo que ele sempre cantou, escreveu e testemunhou ao longo da vida e  é  assim que compreendo que Padre Zezinho nunca escreveu simplesmente canções religiosas. Fez teologia em linguagem popular, transformou poesia em catequese, música em evangelização e arte em formação humana e cristã.  Milhões de pessoas aprenderam a rezar, a amar a Igreja e a seguir Jesus Cristo por meio de sua missão e  posso afirma que: Eu sou uma delas.

Depois de tantos anos de caminhada ouvindo suas músicas, lendo seus livros e sendo formado por suas reflexões, Deus concedeu-me uma graça que guardo com profundo carinho: conhecer pessoalmente Padre Zezinho. Nas celebrações do Jubileu de Ouro da criação da Diocese de Nova Iguaçu em 2010, tive a alegria de participar de um momento que jamais esquecerei. Fui responsável por conduzi-lo ao local do show comemorativo daquele jubileu e traze-lo,  esta no palco fazendo a algumas fotos pra Diocese. Para muitos, poderia parecer apenas uma tarefa de organização, mas para mim, porém, foi um presente de Deus.

Ali, eu não estava simplesmente acompanhando um sacerdote conhecido em todo o Brasil, estava convivendo, ainda que por poucas horas, com alguém que já fazia parte da minha história de fé muito antes daquele encontro. As canções que marcaram minha juventude, os livros que alimentaram minha formação e as reflexões que tantas vezes iluminaram meu caminho agora ganhavam o rosto de uma pessoa que eu podia ouvir, observar e conhecer de perto, e era mesmo padre, alguém  perto  e real.  Ele não  é  personagem  de palco, ele é   único 

Aqueles  dias ficaram  gravado em minha memória não apenas pelo evento, pelo palco ou pela multidão que aguardava sua chegada, mas, sobretudo, pelos momentos simples que compartilhamos. Sentamo-nos à mesma mesa no café da manhã, no almoço e no jantar,  nao teve ego de pop star. Foi justamente nessa convivência cotidiana que confirmei aquilo que durante tantos anos havia percebido em suas obras. Por trás do compositor admirado, do escritor reconhecido e do evangelizador que alcançou milhões de pessoas havia um sacerdote simples, acolhedor e profundamente humano. Ele conversava com naturalidade, tratava todos com respeito e demonstrava uma serenidade que não precisava de discursos para se revelar, a simplicidade que transparecia em suas músicas também estava presente em seus gestos.

Guardo com especial carinho uma lembrança daquele café da manhã. Em razão do diabetes, Padre Zezinho comentou sobre os cuidados com a alimentação e disse, de maneira muito espontânea, que o açúcar era um veneno no café da manhã e que todo excesso acaba fazendo mal. À primeira vista, parecia apenas uma observação sobre hábitos alimentares,  no entanto, aquela frase carregava uma sabedoria que ia muito além da mesa, quando tomo café e coloco açúcar. Lembro dessa frase e naquele instante compreendi, mais uma vez, que a fé cristã toca a vida concreta. Ela se manifesta também nas pequenas escolhas, no equilíbrio, na prudência, no cuidado consigo mesmo e com os outros...Era a mesma coerência que eu encontrava em seus livros e canções: um Evangelho vivido no cotidiano, sem artificialismos, sem espetáculo e sem distância da realidade.

Ao final daquele dia, saí com uma certeza ainda mais profunda: A grandeza de uma pessoa não se mede apenas pelo número de livros escritos, de discos gravados ou de pessoas que a conhecem. Mede-se, sobretudo, pela maneira como ela trata quem está ao seu lado quando os holofotes não estão acesos.

O Padre Zezinho que encontrei naquele jubileu era exatamente o mesmo que eu conhecia por meio de suas músicas: um homem de fé, sensível ao sofrimento humano, apaixonado por Jesus Cristo e comprometido com a missão de evangelizar..Não havia diferença entre o sacerdote do palco e o sacerdote da mesa; entre o comunicador admirado e o homem simples do convívio cotidiano. Essa coerência talvez seja um dos maiores testemunhos que sua vida oferece à Igreja e por isso, quando  leio a  sua decisão de deixar as redes sociais, lembrei-me imediatamente daquele dia. Compreendi que os instrumentos de comunicação podem mudar, mas o testemunho permanece. As redes sociais deixam de receber suas publicações, mas sua presença continua viva em cada comunidade que canta suas músicas, em cada catequista que utiliza seus livros, em cada jovem que reencontra a esperança por meio de suas palavras e em cada família que aprende, com suas canções, que amar é o caminho do Evangelho.

Sua  vida inteiramente dedicada a Cristo não termina quando uma atividade chega ao fim. Ela continua produzindo frutos na existência de todos aqueles que foram alcançados pelo testemunho de quem viveu para anunciar o Reino de Deus. É por isso que Padre Zezinho não está encerrando uma missão. Apenas conclui uma etapa de um ministério que continuará ecoando na memória, na fé e no coração de milhões de pessoas.

Ao chegar ao fim desta homenagem, percebo que ela fala tanto sobre Padre Zezinho quanto sobre a ação de Deus na minha  vida  e daqueles que ele ajudou a formar. Quando olho para minha própria caminhada, reconheço que muitas das sementes lançadas em meu coração chegaram por meio de sua missão.  Deus serviu-se de suas canções, de seus livros, de seus artigos e de seu testemunho sacerdotal para fortalecer minha fé, ampliar minha compreensão do Evangelho e ensinar-me que seguir Jesus Cristo é um caminho de conversão permanente.  Ao longo de mais de seis décadas de ministério sacerdotal, Padre Zezinho mostra  a milhares de pessoas que é possível anunciar a verdade sem abrir mão da caridade, defender a fé sem transformar o altar em tribuna de ataques e exercer uma voz profética sem perder a ternura.

Vivemos  tempos em que tantos utilizam a religião para alimentar divisões, ressentimentos e intolerâncias, seu testemunho permanece como um convite a redescobrir o coração do Evangelho: o amor de Deus manifestado em Jesus Cristo. Foi ouvindo suas canções, lendo seus livros e acompanhando suas reflexões que compreendi, cada vez mais, que a Igreja é chamada a ser sinal de comunhão, misericórdia e esperança. Uma Igreja que acolhe sem relativizar a verdade, que corrige sem humilhar, que evangeliza sem condenar e que jamais deixa de enxergar, em cada pessoa, um filho amado de Deus. Essa talvez seja uma das maiores marcas de sua missão. Padre Zezinho nunca apresentou um cristianismo baseado no medo, na agressividade ou na exclusão. Sempre apontou para uma fé profundamente humana porque profundamente enraizada no Evangelho. Por isso, sua voz continuará necessária, mesmo que já não esteja presente diariamente nas redes sociais.

Obrigado, Padre Zezinho, por tudo o que o senhor plantou na Igreja do Brasil e além de suas fronteiras, pelas canções que se transformaram em oração, pelos livros que se transformaram em formação, pelos artigos que despertaram reflexão, pelas palavras que iluminaram consciências e pelo testemunho sacerdotal que mostrou que é possível permanecer fiel a Cristo sem perder a simplicidade, a sensibilidade e a humanidade,  por ter ajudado a formar minha caminhada de fé desde aquele jovem de dezessete anos que chegou à Igreja em busca de sentido para a vida e encontrou, no serviço como Ministro da Palavra, uma vocação de leigo comprometido com o Reino de Deus. 

Obrigado!

Hoje, olhando para trás, reconheço, com profunda gratidão, que uma parte importante dessa história também foi construída pela sua presença. Peço ao Sagrado Coração de Jesus, a quem Padre Zezinho consagrou sua vida como religioso dehoniano, que continue sustentando sua saúde, sua paz e sua missão. Peço também à Virgem de Guadalupe, cuja devoção floresceu em meu coração por meio de uma de suas canções, que continue intercedendo por sua caminhada com ternura de Mãe.

Padre Zezinho deixa as redes sociais, mas permanece onde sempre esteve: na memória agradecida da Igreja, nas comunidades que continuam cantando suas músicas, nos catequistas que formam novas gerações, nas famílias que rezam inspiradas por suas composições e no coração de milhões de pessoas que aprenderam, por meio de sua missão, que anunciar Jesus Cristo é anunciar também a misericórdia, a verdade e o amor.

Os verdadeiros evangelizadores não desaparecem quando deixam os holofotes. Permanecem vivos nas vidas que ajudaram a transformar, na fé que despertaram, nas vocações que inspiraram e nas sementes do Reino que lançaram ao longo do caminho.

Muito obrigado, Padre Zezinho.

Que Deus continue abençoando sua vida e recompense, com a abundância de sua graça, todo o bem que o senhor realizou e continua realizando na Igreja. E que suas palavras, que atravessaram gerações e chegaram ao coração de tantas pessoas, continuem ecoando como um convite para todos nós:

"Continuemos gentis, iluminados e iluminadores."

DNonato - Ainda aprendendo a amar como Jesus amou.

domingo, 26 de julho de 2026

Depois do "Amém": onde continua a Eucaristia?


"Uma religião de missa dominical, mas de semanas injustas não agrada ao Deus da Vida." A provocação de São Óscar Romero não diminui a grandeza da Eucaristia; ao contrário, convida-nos a descobrir sua verdade mais profunda. A celebração do Corpo e Sangue de Cristo não se esgota na liturgia, mas desdobra-se na vida. O "Amém" pronunciado diante do altar precisa tornar-se um "sim" concreto à justiça, à misericórdia e ao amor ao próximo.

Na Eucaristia, Cristo não apenas se oferece ao Pai no sacrifício da nova e eterna Aliança; Ele se entrega inteiramente à humanidade como alimento de vida eterna (cf. Jo 6,51). No altar, realiza-se o mistério do amor levado ao extremo (cf. Jo 13,1): Aquele que entregou seu corpo na cruz continua a oferecer-se à sua Igreja para que ela viva de sua própria vida. Ao comungar, os fiéis não recebem apenas um alimento espiritual ou um consolo para a alma; recebem o próprio Cristo Ressuscitado, sua vida, seu Espírito, sua missão e seu modo de amar. A comunhão eucarística, portanto, não é um ato de devoção intimista, mas uma profunda configuração com Jesus, que faz da Igreja o seu Corpo vivo na história. Como ensina Santo Agostinho, "recebei o que sois e tornai-vos aquilo que recebeis."  E por isso que toda celebração eucarística culmina com o envio: "Ide em paz e o Senhor vos acompanhe." A liturgia não termina; ela transborda para a vida. O "Ide" não é uma fórmula de encerramento, mas um mandato missionário. Quem participou da mesa do Senhor é enviado a prolongar sua presença no mundo, fazendo da própria existência uma liturgia vivida, na qual a fé se traduz em caridade, a adoração em serviço e a comunhão em compromisso com os irmãos. Não há verdadeira participação na Eucaristia sem disposição para amar, servir, reconciliar, partilhar e defender a dignidade humana.

Essa íntima unidade entre culto e vida atravessa toda a Sagrada Escritura. Desde o Antigo Testamento, os profetas denunciaram uma religiosidade que multiplicava sacrifícios, mas permanecia indiferente ao sofrimento do próximo. O problema nunca foi o culto em si, mas um culto vazio, incapaz de gerar conversão e justiça. Por isso, Isaías faz ecoar uma das mais severas advertências de Deus ao seu povo:

  • "De que me serve a multidão de vossos sacrifícios?... Aprendei a fazer o bem; procurai o direito; socorrei o oprimido; fazei justiça ao órfão; defendei a causa da viúva" (Is 1,11.17).

A crítica profética não rejeita a liturgia; purifica-a. Ela recorda que o Deus que acolhe o incenso do templo é o mesmo que escuta o clamor do pobre, do órfão, da viúva e do estrangeiro. Toda celebração que não conduz à misericórdia e à justiça torna-se contraditória. A Eucaristia, ápice do culto cristão, realiza plenamente essa exigência: ela une inseparavelmente a mesa do altar e a mesa da vida, a adoração de Deus e o amor concreto ao próximo e Amós é ainda mais contundente:

  • "Eu detesto as vossas festas... Antes corra o direito como as águas e a justiça como um rio perene" (Am 5,21.24).

Não se trata de rejeitar o culto, mas de purificá-lo. O verdadeiro culto agrada a Deus quando transforma o coração e a sociedade. Jesus assume plenamente essa tradição profética. Ao citar Oseias, declara:

  • "Quero misericórdia e não sacrifício" (Mt 9,13; 12,7).

No julgamento final, narrado por Mateus (25,31-46), Ele identifica sua própria presença nos famintos, sedentos, estrangeiros, nus, enfermos e encarcerados. O Cristo adorado na Eucaristia é o mesmo Cristo encontrado nos crucificados da história. Há um detalhe significativo no Evangelho de João. Diferentemente dos Sinópticos, João não narra as palavras da instituição da Eucaristia na Última Ceia. Em seu lugar, apresenta o gesto do lava-pés (Jo 13,1-15). A escolha não é casual. O evangelista mostra que participar da mesa de Cristo significa aprender seu estilo de vida: abaixar-se diante do irmão, servir sem buscar prestígio e fazer do amor concreto a linguagem da fé. A liturgia conduz inevitavelmente ao serviço.

Essa mesma preocupação aparece em São Paulo. Ao escrever aos cristãos de Corinto, ele censura uma comunidade que celebrava a Ceia do Senhor enquanto tolerava divisões e humilhações contra os pobres:

  • "Quando vos reunis, já não é a Ceia do Senhor que comeis" (1Cor 11,20).

A denúncia é impressionante. Não era a fórmula da celebração que estava errada, mas a incoerência entre o altar e a vida. A Eucaristia perdia seu sentido porque a comunhão havia sido rompida entre os irmãos. Desde os primeiros séculos, a Igreja compreendeu essa inseparabilidade. A Didaqué, um dos mais antigos escritos cristãos, exorta os fiéis a partilhar também os bens materiais, pois quem recebeu os bens eternos não pode fechar o coração às necessidades do próximo.

Santo Inácio de Antioquia chama a Eucaristia de "remédio de imortalidade". Mas esse remédio não cura apenas a relação entre Deus e o ser humano; cura também as relações humanas marcadas pelo egoísmo, pela violência e pela exclusão.

São João Crisóstomo adverte com impressionante atualidade: "Queres honrar o Corpo de Cristo? Não o desprezes quando o vires nu. Não o honres aqui na igreja com vestes de seda, enquanto lá fora o abandonas sofrendo frio e nudez."

Santo Agostinho sintetiza a identidade da Igreja ao afirmar: "Recebei o que sois e tornai-vos aquilo que recebeis."  Quem recebe o Corpo de Cristo torna-se chamado a ser Corpo de Cristo para o mundo.

São Basílio Magno vai ainda mais longe: "O pão que guardas pertence ao faminto; o manto que conservas no armário pertence ao que está sem roupa."

Esses Padres da Igreja não opõem oração e compromisso social. Pelo contrário: mostram que a oração verdadeira desemboca inevitavelmente na partilha e na justiça. E  magistério contemporâneo mantém essa mesma linha. São Paulo VI, na Mysterium Fidei, recorda que a participação na Eucaristia impele os cristãos à prática da caridade.

São João Paulo II, na Ecclesia de Eucharistia, afirma que não existe celebração eucarística autêntica sem um compromisso concreto de amor ao próximo.

Bento XVI, na Sacramentum Caritatis, ensina que a união com Cristo implica necessariamente a união com todos aqueles pelos quais Ele entregou sua vida. E, na encíclica Deus Caritas Est, escreve uma frase que permanece desafiadora: "Uma Eucaristia que não se traduza em amor concretamente vivido é, em si mesma, fragmentária."

Francisco amplia essa compreensão ao afirmar, na Evangelii Gaudium, que a fé autêntica sempre possui um profundo desejo de transformar o mundo, promover a dignidade humana e deixar a sociedade melhor do que a encontrou (EG 183). Para ele, evangelização e promoção da dignidade humana não são caminhos paralelos, mas dimensões inseparáveis da mesma missão.

Essa visão encontra expressão também na Doutrina Social da Igreja. A dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade e a opção preferencial pelos pobres não são temas periféricos nem concessões às ideologias. São consequências da Encarnação e da Eucaristia. Se Cristo se faz pão para todos, ninguém pode ser tratado como descartável. Se o Senhor reúne todos na mesma mesa, nenhuma forma de exclusão pode ser aceita como normal. Por isso, o maior perigo talvez não seja abandonar a Eucaristia, mas reduzi-la a uma devoção intimista. Multiplicam-se procissões, horas santas, congressos eucarísticos e momentos de adoração. Tudo isso é profundamente valioso e faz parte da riqueza espiritual da Igreja. Contudo, quando o Corpo de Cristo é venerado no ostensório, mas ignorado nas vítimas da fome, do desemprego, da corrupção, da violência, do racismo, da exploração, das migrações forçadas e de tantas outras injustiças, algo essencial da mensagem cristã fica incompleto.

Não existe oposição entre adoração e compromisso. Quanto mais autêntica for a adoração, mais profunda será a conversão do coração. Quem permanece longamente diante do Santíssimo aprende a reconhecer o mesmo Cristo nos rostos concretos dos pobres, dos enfermos, dos idosos esquecidos, das crianças abandonadas, das mulheres vítimas de violência, dos migrantes e de todos aqueles cuja dignidade é ferida. A procissão mais importante comece justamente quando a procissão termina. O ostensório retorna ao sacrário, mas milhares de cristãos deixam a igreja levando Cristo em suas próprias vidas. Cada discípulo torna-se uma custódia viva, chamado a manifestar no cotidiano aquilo que contemplou no altar.

No fim, talvez descubramos que Aquele diante de quem nos ajoelhávamos na Eucaristia era o mesmo que nos esperava nas periferias da existência, nos rostos feridos da humanidade e nos clamores silenciosos dos esquecidos. Então compreenderemos que São Óscar Romero tinha razão ao afirmar que "uma religião de missa dominical, mas de semanas injustas não agrada ao Deus da Vida." Não porque Deus despreze a liturgia, mas porque a Eucaristia jamais pode ser reduzida a um rito: ela é comunhão que se faz missão, adoração que se transforma em serviço, sacramento que se prolonga na caridade, na justiça e na defesa da dignidade humana..  A missa não termina com a bênção final; ela apenas muda de lugar. O altar se estende às ruas, às casas, aos ambientes de trabalho, às periferias existenciais e a todos os lugares onde a vida clama por esperança. É ali que o pão repartido se torna solidariedade, que a verdade vence a mentira, que a justiça derrota a opressão, que o perdão rompe o ciclo da violência e que cada pessoa é reconhecida como imagem e semelhança de Deus.. 

Somente quando o "Amém" pronunciado diante do Corpo de Cristo continua sendo vivido no corpo ferido dos irmãos, a Eucaristia alcança toda a sua plenitude. É então que a adoração se torna testemunho, a comunhão se faz compromisso e a Igreja revela, no coração do mundo, a presença viva de seu Senhor.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

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sábado, 5 de julho de 2025

Um olhar em Lucas 10,1-12.17-20 - 14º domingo do tempo comum

 


A missão do Reino: entre envio, compromisso e subversão do sistema

A liturgia deste 14º Domingo do Tempo Comum propõe as seguintes leituras: Isaías 66,10-14; Salmo 65(66),1-3a.4-5.6-7a.16.20 (R. 1); Gálatas 6,14-18 e o Evangelho de Lucas 10,1-12.17-20, que guia nossa reflexão que  aparece a mesma  cena em Mateus 9,32-38 é proclamado na liturgia da Igreja na terça-feira da 14ª Semana do Tempo Comum e  Marcos 6,34-44, proclamado na terça-feira depois da Epifania 

Nessa passagem  o Jesus envia setenta e dois discípulos em missão. Este gesto, situado no caminho para Jerusalém (cf. Lc 9,51), é mais do que um deslocamento geográfico: é um deslocamento teológico, antropológico e político. Trata-se de um movimento de ruptura com os modelos de poder religiosos e imperiais. A narrativa lucana não descreve apenas uma ação evangelizadora em sentido espiritualista ou desencarnado. Ao contrário: revela um chamado à transformação concreta da vida e da sociedade. Jesus, que é o próprio Reino em movimento, envia discípulos não para dominar, mas para anunciar a paz; não para impor doutrina, mas para curar feridas; não para condenar, mas para semear presença amorosa em um mundo desfigurado pela opressão.

O número setenta e dois remete, na tradição judaica, à totalidade das nações da terra (cf. Gn 10, segundo a Septuaginta), revelando que a missão do Reino é universal, inclusiva e transgressora de fronteiras. É uma resposta escancarada ao nacionalismo religioso e às castas clericais que monopolizavam o acesso ao sagrado. O envio em duplas também denuncia o individualismo religioso e político. Não há missionário solitário no Reino. Evangelizar é caminhar com alguém, dividir o fardo, celebrar a esperança e resistir à tentação do “salvador da pátria” — herança messiânica invertida que muitos pastores e políticos alimentam hoje com seus projetos autoritários.

A palavra de Jesus — “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos” (Lc 10,2) — não é apenas um chamado vocacional. É uma denúncia. O campo da vida está repleto de injustiças, violências, angústias existenciais e estruturas excludentes. A escassez de trabalhadores não é apenas quantitativa, mas qualitativa: faltam agentes pastorais e políticos que realmente encarnem a missão como serviço aos pobres — e não como carreira ou palanque. O sistema não forma trabalhadores da messe, mas gestores da ordem. Por isso, o pedido de oração ao “Senhor da messe”: essa missão não se sustenta na força, mas na entrega radical de quem vive a fé como compromisso social e espiritual inseparáveis.

A frase “Eis que vos envio como cordeiros entre lobos” (Lc 10,3) revela o caráter de enfrentamento da missão. A Boa Nova de Jesus não é compatível com o império, com a acumulação, com o clericalismo, nem com a indiferença institucionalizada. Os lobos são reais: milícias ideológicas, religião a serviço do lucro, discursos de ódio que tomam púlpitos e parlamentos. E os cordeiros são os que, mesmo sem armas, desafiam o sistema com coragem e doçura. Aqui ressoa o testemunho do pastor e deputado Henrique Vieira, que afirmou no Congresso:  “A fé cristã, se for fiel ao Evangelho de Jesus, precisa ser crítica contra toda forma de opressão. A cruz de Cristo não pode ser símbolo de dominação, mas sim de libertação. A espiritualidade que não se encarna na luta pelos direitos humanos é alienação religiosa.”

É nesse chão de luta e ternura que a missão acontece. Oferecer paz, como Jesus instrui, não é apenas gesto de boas maneiras. No mundo bíblico, shalom é mais do que ausência de guerra: é justiça restaurada, terra partilhada, dignidade integral. Dizer “a paz esteja nesta casa” (Lc 10,5) é dizer: que haja comida, saúde, direitos, memória e alegria. Ao mesmo tempo, Jesus ensina o discernimento: se a paz não for acolhida, os discípulos devem seguir adiante. O Reino não se impõe — mas também não se submete à lógica da dominação.

A paz, no Evangelho, é sempre convite, não imposição. Jesus reconhece a liberdade do outro: “Se ali morar um amigo da paz, a vossa paz repousará sobre ele; senão, voltará para vós” (Lc 10,6). Em Apocalipse 3,20, o Ressuscitado declara: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir, entrarei...” — até Deus espera ser acolhido. A paz do Reino não é a paz do império, nem da conveniência. Ela nasce da justiça (cf. Is 32,17), floresce no diálogo e se sustenta na liberdade amorosa. Quando a fé se transforma em controle, e a paz é usada para silenciar a dor ou impor conformismo, o que se instala não é o Reino, mas a caricatura violenta dele.

Ainda hoje, proliferam as teologias do domínio e da prosperidade — que afirmam que a fé verdadeira gera poder, status e riqueza — distorcendo gravemente o Evangelho. Jesus envia os discípulos com as mãos vazias: “Não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias” (Lc 10,4), e ele mesmo vive na pobreza radical: “O Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lc 9,58). Em Mateus 6,24, adverte: “Ninguém pode servir a dois senhores: a Deus e ao dinheiro”. Em Lucas 6,24, lamenta: “Ai de vós, os ricos, porque já tendes vossa consolação!”. Paulo também é claro: “Tendo o que comer e com que nos vestir, fiquemos satisfeitos” (1Tm 6,8), e adverte: “Os que querem ficar ricos caem na tentação e em muitos desejos insensatos e funestos” (1Tm 6,9). O Evangelho não condena a riqueza em si, mas a idolatria da riqueza — especialmente quando travestida de bênção. O Reino é herança dos mansos (Mt 5,5), e o caminho do discipulado é o do esvaziamento (cf. Fl 2,6-7): serviço, partilha, cuidado — não dominação.

Lucas relata que os discípulos retornam alegres com os frutos da missão, dizendo que até os espíritos maus se submetem. Mas Jesus relativiza esse êxito: “Alegrai-vos, antes, porque vossos nomes estão escritos no céu” (Lc 10,20). A verdadeira alegria não está no sucesso, mas na comunhão com Deus. A missão não é espetáculo, é entrega. Não é troféu, é relação.

A Palavra deste domingo precisa atravessar nossas estruturas eclesiais, sociais e políticas. Missão que não se encarna nas realidades históricas é farsa. O Documento de Aparecida já afirmava: “Não podemos evangelizar sem antes olharmos com compaixão e escutarmos o grito dos pobres” (DAp 391). E o Papa Francisco, na Evangelii Gaudium, denuncia que a “economia que mata”, o clericalismo e o fechamento em si mesmos impedem a missão (cf. EG 53-60). Evangelizar hoje é resistir ao racismo estrutural, à LGBTQfobia, ao machismo teológico, ao ecocídio e à banalização da vida.

Henrique Vieira expressa isso com beleza e coragem:  “O Evangelho não é de direita nem de esquerda, mas ele sempre estará à esquerda do opressor. Estará com o pobre, com a mulher, com a criança negra, com a travesti na rua, com o indígena em sua aldeia, com o povo que sofre.”

A missão é, portanto, subversiva. Vai às periferias geográficas e existenciais. Cria laços, derruba muros. Cura feridas, devolve nome e rosto aos descartados. Rompe com o clericalismo que transforma fé em ritualismo e o púlpito em balcão. E desafia a extrema-direita que sequestra os símbolos cristãos para legitimar armas, violência e opressão.

Jesus nos envia como cordeiros — vulneráveis, sim, mas inflamados de esperança. Com pés descalços e coração ardente. Que sejamos como os setenta e dois: missionários da paz, anunciadores de um Reino que é pão partilhado, afeto refeito, justiça plantada e alegria que não se mede por poder, mas por presença.

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DNonato – Teólogo do Cotidiano

terça-feira, 10 de junho de 2025

Um breve olhar sobte Mateus 10, 7-13

 

“Ide e proclamai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar.” (Mt 10,7-8)

O texto de Mateus 10,7-13, que meditamos na Memória de São Barnabé, celebrada em 11 de junho, e que também retorna em outros momentos do Ano Litúrgico, como no Sábado da 10ª Semana do Tempo Comum e na Quinta-feira da 14ª Semana do Tempo Comum, apresenta um dos núcleos mais profundos da espiritualidade missionária cristã. Jesus dirige aos discípulos uma ordem clara e urgente:

“Anunciai que o Reino dos Céus está próximo. Dai de graça o que de graça recebestes.”

Não se trata apenas de uma recomendação para um grupo específico de discípulos do primeiro século, mas de um chamado permanente que atravessa os tempos e alcança toda a Igreja. Para compreender melhor a riqueza desse ensinamento, é importante olhar também para os relatos paralelos de Marcos 6,7-13 e Lucas 9,1-6, nos quais encontramos o mesmo envio missionário sob diferentes perspectivas. A Igreja, ao nos permitir revisitar esses textos em diversas ocasiões, recorda-nos que a missão não é um acontecimento isolado, mas uma dimensão constitutiva da vida cristã.

Observemos:

  • Em Marcos, Jesus envia os Doze dois a dois, conferindo-lhes autoridade sobre os espíritos impuros e ensinando-os a confiar radicalmente em Deus.
  • Em Lucas, a ênfase recai sobre o anúncio do Reino e o cuidado dos enfermos, mostrando que a evangelização não se reduz a palavras, mas se manifesta em gestos concretos de libertação, cura e restauração da dignidade humana.

Ao reunir os testemunhos de Mateus, Marcos e Lucas, a Igreja nos recorda que a missão permanece sempre atual. Jesus continua enviando seus discípulos para anunciar a proximidade do Reino em um mundo marcado por desigualdades, exclusões, individualismos e falsas seguranças. O verdadeiro operário da colheita é aquele que caminha com simplicidade, vive da confiança em Deus, promove a paz, cuida dos mais frágeis e testemunha, por palavras e ações, que o Reino dos Céus já começou a florescer entre nós. É importante recordar que, em Mateus, a expressão “Reino dos Céus” corresponde ao que Marcos e Lucas chamam de “Reino de Deus”. Trata-se de uma forma judaica reverente de evitar pronunciar diretamente o nome divino. Assim, quando Jesus anuncia a proximidade do Reino dos Céus, proclama a presença ativa e transformadora de Deus na história humana.

Em Mateus 10,7-13, observamos um envio missionário que espelha o total desprendimento dos discípulos em relação a tudo aquilo que as estruturas mundanas consideram indispensável. Este envio não é uma simples instrução sobre técnicas de pregação, mas uma orientação profundamente profética que questiona as lógicas de poder, acumulação e dominação. O Reino dos Céus que se aproxima não é uma promessa de evasão da realidade nem um acontecimento reservado para um futuro distante. É uma realidade que começa a se manifestar já no presente, onde a vida vence a morte, a misericórdia supera a exclusão e a esperança se impõe sobre o desespero.

Por isso, a missão transcende o mero anúncio verbal. Ela se concretiza em ações que restauram pessoas e comunidades. Em paralelo com Marcos 6,12-13, vemos que os discípulos não apenas pregavam a conversão, mas também expulsavam demônios e curavam enfermos, ungindo-os com óleo. Na linguagem bíblica, esses gestos representam mais do que milagres isolados. Revelam a ação libertadora de Deus contra todas as forças que escravizam o ser humano. Curar os doentes e expulsar os demônios significa confrontar tudo aquilo que produz sofrimento, exclusão, alienação e morte. O Reino anunciado por Jesus toca os corpos feridos, as consciências oprimidas e as relações sociais rompidas. A expressão “o Reino dos Céus está próximo” não significa apenas que algo está para acontecer. Em Mateus, a proximidade do Reino indica a presença ativa de Deus na história através da pessoa e da missão de Jesus. O Reino se torna visível quando os pobres recuperam sua dignidade, quando os marginalizados são acolhidos, quando a justiça floresce e quando a paz substitui a violência. Evangelizar, portanto, não consiste apenas em transmitir doutrinas, mas em tornar presente a ação transformadora de Deus no mundo.

O envio dos apóstolos também sublinha a dependência absoluta da providência divina. Jesus ordena que não levem ouro, prata ou cobre, nem acumulem recursos para garantir a própria segurança. Essa orientação possui uma dimensão espiritual profunda e, ao mesmo tempo, uma crítica contundente à lógica da autossuficiência e da acumulação. O discípulo é chamado a confiar em Deus e a reconhecer que sua missão não depende do poder econômico, do prestígio social ou da influência política.

Essa palavra adquire especial relevância em um contexto no qual a fé, por vezes, é reduzida a instrumento de ascensão econômica ou sucesso individual. A proposta de Jesus segue caminho oposto. O Reino de Deus não é mercadoria. Não pode ser comprado, vendido ou manipulado para benefício próprio.nA ordem “dai de graça o que de graça recebestes” denuncia toda tentativa de transformar a experiência religiosa em negócio, privilégio ou instrumento de poder. O Evangelho é dom antes de ser tarefa. Quem recebeu gratuitamente a misericórdia de Deus é chamado a compartilhá-la gratuitamente.

A confiança radical na providência divina encontra eco nas palavras de Jesus em Mateus 6,25-34, quando ele convida seus discípulos a não viverem dominados pela ansiedade em relação ao alimento, à roupa ou às necessidades materiais. O Pai conhece aquilo de que seus filhos precisam. Da mesma forma, Lucas 10,4 reforça essa lógica missionária ao ordenar: “Não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias”. Em ambos os textos, a mensagem é clara: a missão não nasce da segurança dos bens acumulados, mas da confiança naquele que conduz a história. 

A confiança na providência divina não conduz os discípulos ao isolamento nem à indiferença diante da realidade. Pelo contrário, abre-os ao encontro com as pessoas e com as comunidades que encontrarão pelo caminho. Por isso, Jesus ordena que, ao entrarem numa casa, ofereçam a sua paz. Essa saudação não constitui um simples gesto de cortesia ou um cumprimento convencional. Trata-se da comunicação de um dom que procede do próprio Deus e que exige acolhida. A paz anunciada pelos discípulos é a paz do Reino, uma paz que restaura relações, reconcilia pessoas e inaugura novas formas de convivência.

Quando Jesus afirma que, caso a casa seja digna, a paz repousará sobre ela, mas, se não for acolhida, retornará aos discípulos, revela que o Reino jamais se impõe pela força. Deus respeita a liberdade humana. A paz oferecida torna-se, assim, um sinal que interpela consciências e desafia cada pessoa a posicionar-se diante da Boa Nova. Essa compreensão encontra eco nas palavras de Jesus em João 14,27: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá”. A paz cristã não é mera ausência de conflitos nem simples tranquilidade individual. É fruto da justiça, da reconciliação e da restauração da dignidade humana. Ela floresce onde existe abertura para ouvir a Palavra e acolher o Reino como dom de Deus.

Nesse sentido, a hospitalidade ultrapassa os limites de um costume cultural. Ela torna-se elemento fundamental da missão. A acolhida do mensageiro representa a acolhida da própria mensagem, enquanto a rejeição manifesta resistência ao projeto libertador de Deus. Ao longo da história bíblica, os profetas experimentaram essa realidade. Muitos foram perseguidos exatamente porque denunciaram sistemas de opressão e injustiça. As palavras de Jesus sobre Jerusalém em Mateus 23,37 recordam essa dramática resistência ao chamado divino.

Por essa razão, a evangelização autêntica não pode ser reduzida a um discurso espiritual desvinculado da realidade concreta. O anúncio do Reino possui implicações sociais, econômicas e humanas. A missão que nasce do Evangelho busca restaurar a vida onde ela foi ferida, devolver esperança aos desanimados, dignidade aos excluídos e voz aos silenciados. Contudo, o Evangelho une inseparavelmente:  a conversão pessoal e a transformação das estruturas injustas. Uma sem a outra torna-se incompleta. O Reino de Deus transforma corações e, por meio deles, transforma também as relações sociais.

Nessa perspectiva, diversos teólogos da América Latina, entre eles Gustavo Gutiérrez, insistiram que a missão cristã possui uma dimensão libertadora inseparável do compromisso com os pobres e com a justiça. Essa compreensão também nos leva a uma necessária crítica ao clericalismo e às formas de religião que se distanciam do Evangelho. Sempre que a fé é utilizada como instrumento de dominação, acumulação de privilégios ou manutenção de poderes, contradiz-se o caminho indicado por Jesus.

O envio dos discípulos sem ouro, prata ou recursos acumulados revela que a força da missão não reside no prestígio institucional, mas na fidelidade ao Reino. A Igreja existe para servir, não para dominar; para anunciar a Boa Nova, não para preservar privilégios. Essa crítica não é nova. O próprio Jesus denunciou com firmeza uma religiosidade reduzida a aparências externas, quando afirmou: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mt 15,8-9). E retomando o profeta Oséias, declarou: “Quero misericórdia e não sacrifícios” (Os 6,6; Mt 9,13; 12,7).

A verdadeira espiritualidade não se limita a ritos ou discursos. Ela se expressa em práticas concretas de misericórdia, acolhimento, partilha e compromisso com a vida. É uma espiritualidade encarnada na história, capaz de reconhecer a presença de Deus nos pobres, nos sofredores e nos marginalizados..Hoje, o testemunho de São Barnabé torna-se particularmente significativo. Conhecido como “filho da consolação”, Barnabé destacou-se por sua capacidade de acolher, reconciliar e construir pontes. Foi ele quem acreditou em Paulo quando muitos ainda o viam com desconfiança.

Além disso, Atos 4,36-37 nos informa que Barnabé vendeu um campo que possuía e entregou o valor aos apóstolos para o serviço da comunidade. Sua vida torna-se um exemplo concreto do desprendimento, da confiança e da partilha que Jesus propõe em Mateus 10..Sua trajetória demonstra que a missão cristã não consiste em erguer muros, mas em criar comunhão; não em excluir, mas em integrar; não em buscar prestígio, mas em servir. Barnabé soube reconhecer a ação de Deus onde outros enxergavam apenas ameaça ou fracasso.

Mateus 10,7-13 nos convida, portanto, a uma fé profundamente encarnada e comprometida com a realidade. Não se trata apenas de alimentar a esperança de uma vida futura, mas de colaborar, já agora, com a transformação das condições que negam a dignidade humana e obscurecem os sinais do Reino..Que a nossa fé jamais se acomode diante da injustiça, nem se torne cúmplice da opressão, da indiferença ou da exclusão. Que seja uma fé viva e encarnada, capaz de curar feridas, acolher os rejeitados, defender os vulneráveis e anunciar a esperança em meio às dores da história.

Que saibamos reconhecer o rosto de Cristo nos pobres, nos marginalizados, nos enfermos, nos migrantes, nos esquecidos e em todos aqueles cuja dignidade é negada pelos mecanismos de poder deste mundo..O testemunho de São Barnabé, dos profetas de Israel, dos apóstolos, dos mártires da justiça e das vozes proféticas que atravessaram os séculos recorda-nos que o Evangelho não é uma ideologia religiosa nem um instrumento de privilégio, mas uma força transformadora que irrompe na história para gerar vida, reconciliação e libertação.

O Reino de Deus torna-se visível sempre que: 

  1.  A Misericórdia vence o egoísmo, 
  2. A Partilha supera a acumulação, 
  3. A Fraternidade derrota a exclusão, 
  4.  A Verdade desmascara a mentira 
  5. A  Vida triunfa sobre todas as formas de morte.

A missão confiada por Jesus continua atual e urgente. Cada cristão é chamado a ser sinal da presença amorosa de Deus no mundo, não apenas por palavras, mas por escolhas concretas de solidariedade, justiça e serviço. Anunciar o Reino é construir pontes onde existem muros, gerar esperança onde reina o desânimo, defender a dignidade onde prevalece a humilhação e testemunhar, com a própria vida, que outro mundo é possível quando Deus ocupa o centro da existência humana.

Que, a exemplo de São Barnabé e de tantos discípulos e apóstolos de ontem e de hoje, sejamos homens e mulheres capazes de encorajar, reconciliar e servir. Que caminhemos com simplicidade, confiando na providência divina e colocando nossos dons a serviço da vida. E que, ao anunciar gratuitamente o que gratuitamente recebemos, nos tornemos colaboradores da obra de Deus, para que seu Reino de justiça, paz, fraternidade e amor continue florescendo no coração da humanidade e nas realidades concretas da história.

DNonato — Teólogo do cotidiano, discípulo do Reino em construção