Na segunda-feira da 18ª Semana do T.empo Comum, a liturgia nos apresenta o episódio de Jesus caminhando sobre as águas Mateus 14,22-36, à primeira vista, isso pode causar estranheza, pois, na sequência habitual do Lecionário nos anos B dedicada a leitura do Evangelho de Marcos e C dedicada ao evangelho de Lucas, essa perícope é proclamada na terça-feira, enquanto a segunda-feira é dedicada ao relato da multiplicação dos pães Mateus 14,13-21 e proclamada na segunda-feira da 18ª semanado Tempo Comum. Essa alteração ocorre quando o Ano A dos domingos coincide com o dos dias de semana. Como o Evangelho do 18º Domingo do Tempo Comum já proclama a multiplicação dos pães, a Igreja evita repetir o mesmo texto na segunda-feira e prossegue diretamente para a narrativa da terça-feira da 18ª semanadoTempoComum. Trata-se de uma adaptação pedagógica do Lecionário, que preserva a riqueza da proclamação dominical e, ao mesmo tempo, mantém a continuidade do capítulo 14 de Mateus. Essa opção litúrgica possui também um profundo significado teológico. Somos conduzidos imediatamente da mesa da abundância para a travessia da tempestade, o mesmo Jesus que alimenta a multidão é aquele que obriga os discípulos a entrarem na barca e seguirem para a outra margem. O verbo grego anankázō ("obrigar", "compelir"), empregado por Mateus (14,22), revela que não se trata de um simples convite, mas de um imperativo: os discípulos precisam partir, mesmo sem compreender plenamente o caminho. A cena se desenrola durante a noite. A barca encontra-se no meio do mar, o vento é contrário e Jesus ainda não está visivelmente com eles. Na tradição bíblica, o mar simboliza as forças do caos e da morte (cf. Sl 74,13-14; Is 51,9-10), enquanto a travessia representa o caminho da fé, marcado por provações e amadurecimento. A ausência momentânea de Jesus não significa abandono, mas torna-se uma pedagogia espiritual: é nas noites escuras da existência que os discípulos são chamados a confiar na presença daquele que, mesmo invisível, continua conduzindo a história.
Então na sequência a liturgia estabelece uma ligação inseparável entre os dois episódios. O milagre do pão desemboca na prova da fé, a providência experimentada na multiplicação prepara os discípulos para enfrentar os ventos contrários. Aquele que sacia a fome do povo é o mesmo Senhor que caminha sobre as águas, vence o caos e revela sua identidade divina. A mesa da abundância conduz à travessia da confiança, ensinando que a fé amadurece quando reconhecemos Cristo não apenas no pão repartido, mas também nas tempestades da vidaNeste cenário hostil, Jesus se aproxima, mas os discípulos não o reconhecem. O medo distorce o olhar. Acham que é um fantasma. É sempre assim: quando estamos dominados pelo medo, até Jesus nos parece ameaça. A resposta dele, porém, é imediata: "Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!" (Mt 14,27). O "Sou eu" (ἐγώ εἰμι) evoca o nome de Deus revelado a Moisés na sarça ardente (Ex 3,14). É mais do que uma autodeclaração de identidade; é uma epifania. Jesus se revela como o Deus presente na tempestade, Aquele que domina o caos e atravessa conosco as noites escuras da história.
Pedro, então, pede para ir ao encontro dele sobre as águas. É um pedido ousado, expressão de uma fé que deseja caminhar além da segurança da barca. Jesus consente. Pedro caminha. Mas, ao sentir a força do vento, se atemoriza e começa a afundar. O medo paralisa, afunda, derruba. Pedro grita: "Senhor, salva-me!". Jesus estende a mão, segura-o e diz: "Homem fraco na fé, por que duvidaste?" (Mt 14,31). A travessia exige confiança. Duvidar é tirar os olhos de Jesus e fixá-los no vento. Mas, mesmo na dúvida, o grito por salvação é escutado, e a mão de Jesus nos alcança. Esse grito ressoa hoje nos recantos mais dolorosos da Igreja: nos silêncios cúmplices diante dos abusos, nas liturgias desconectadas da vida, nas alianças que trocam o Evangelho pelo prestígio político. É o grito de um corpo eclesial que precisa mais do que reformas administrativas: precisa reaprender a gritar por salvação. A fé que se recusa a sair da margem para permanecer em portos seguros torna-se cúmplice do sistema, como os sacerdotes e levitas que evitam o ferido à beira do caminho (cf. Lc 10,31-32), a religião que não se lança à travessia transforma o Evangelho em retórica, e não em revolução.
Santo Agostinho comentava que "a barca é figura da Igreja; o mar, do mundo; e o vento, das tentações. Quando a caridade esfria, o barco se agita" (In Iohannis Evangelium Tractatus, 2), a cena não é só eclesial, também não só pessoal. Cada um de nós é Pedro, cada um de nós precisa ousar sair da barca, arriscar-se na direção de Jesus e, ao sentir o peso do vento e das ondas, aprender a gritar: "Senhor, salva-me!". Ninguém caminha sobre as águas sem medo e ninguém é salvo sem confiar na graça e misericórdia .
Os relatos de Mateus 14,22-36 e Marcos 6,45-52 proclamado quarta-feira após a Solenidade da Epifania do Senhor, quarta-feira após epifania que apresenta a travessia como consequência direta da multiplicação dos pães , enfatizando o afastamento de Jesus para o monte e a permanência dos discípulos no mar agitado. Em ambos, Jesus caminha sobre as águas e acalma os discípulos. No entanto, Mateus é o único que insere o episódio de Pedro tentando caminhar sobre as águas, sublinhando o drama pessoal da fé em crise, o grito por salvação e o toque da mão de Jesus, um detalhe com alto valor teológico e simbólico. Lucas não narra este episódio. Já João, que não é sinótico, relata o mesmo acontecimento (Jo 6,16-21) com seu estilo próprio: omite o episódio de Pedro e acentua que a barca chegou “imediatamente” ao destino ao acolherem Jesus, símbolo joanino da presença que realiza a travessia. Cada evangelista oferece, assim, uma lente própria: Marcos destaca o endurecimento do coração dos discípulos, João acentua a presença reveladora de Jesus, e Mateus foca na fé que se arrisca e vacila, mas é sustentada pelo Senhor. O mar agitado também habita a interioridade humana. Há noites em que a fé parece diluir-se na ansiedade, em que o rosto de Deus desaparece sob as brumas da dúvida. Como ensina São João da Cruz, essas são noites purificadoras, onde o silêncio de Deus é mais presença do que ausência, mais fogo do que ausência de luz. A travessia do lago continua sendo a travessia da Igreja e de cada discípulo. Depois do pão partilhado, chega a hora da confiança; depois do entusiasmo da multidão, vem a noite da fé. O Evangelho nos recorda que os milagres não eliminam as tempestades, mas revelam Quem caminha conosco em meio a elas. Cristo não promete um mar sem ventos, mas a sua presença no coração da tormenta.
Também hoje a Igreja enfrenta ondas violentas: a tentação do poder, o clericalismo, os escândalos que ferem a credibilidade do Evangelho, a indiferença diante dos pobres e a sedução de ideologias que instrumentalizam a fé. Nesse cenário, a resposta não está em permanecer ancorados em portos seguros, mas em voltar o olhar para Cristo. Quando a comunidade fixa os olhos apenas nas ondas da crise, afunda no medo; quando os fixa no Senhor, reencontra a coragem para continuar a travessia. Cada um de nós é chamado a descer da barca das falsas seguranças, enfrentar as águas da própria história e aprender que a fé não é ausência de medo, mas confiança que permanece apesar dele. E, quando as forças faltarem, basta repetir a oração mais sincera do Evangelho: "Senhor, salva-me!". A mão de Cristo continua estendida. Ele não abandona quem vacila, mas sustenta quem, mesmo entre dúvidas e lágrimas, persevera em buscá-lo.
Que esta Palavra nos ensine a atravessar as noites da vida com esperança, certos de que Aquele que venceu o caos continua dizendo à sua Igreja e a cada um de nós: "Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!" (Mt 14,27). Essa é a certeza que transforma a tempestade em caminho, o medo em confiança e a travessia em encontro com o Senhor. Avancemos, mesmo com o medo nos ombros. Caminhemos, mesmo com as águas sob os pés. A barca está viva, porque Aquele que caminha sobre o caos ainda diz: "Coragem! Sou eu!" E sua mão continua estendida. Que ninguém se iluda com calmarias compradas; que todos se deixem curar pelas travessias que tocam. E que a fé, entre ventos e ondas, permaneça como travessia que salva.
DNonato - Teólogo do Cotidiano

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