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domingo, 15 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 5,38-42

 “Ouvistes que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Eu, porém, vos digo: não enfrenteis quem é malvado; ao contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a outra.” 

(Mateus 5,38-39)








Para refletirmos sobre Mateus 5,38-42, é interessante recordar que este ensinamento de Jesus ocupa um lugar de destaque na vida litúrgica da Igreja. A passagem em que o Mestre convida seus discípulos a romperem a lógica da vingança  “não resistais ao malvado” e “oferece a outra face” é proclamada regularmente tanto na liturgia diária quanto na liturgia dominical. No ciclo anual, ela é lida na Segunda-feira da 11ª Semana do Tempo Comum; já no ciclo dominical, aparece inserida na leitura mais ampla de Mateus 5,38-48, proclamada no 7º Domingo do Tempo Comum do Ano A. A mesma mensagem ecoa no Evangelho de Lucas, dentro do Sermão da Planície (Lc 6,27-38), sendo proclamada na Quinta-feira da 23ª Semana do Tempo Comum e também no 7º Domingo do Tempo Comum do Ano C.

Essa repetida presença no calendário litúrgico revela a importância que a Igreja atribui a este ensinamento. Longe de ser uma proposta de passividade diante da injustiça, Jesus apresenta um caminho de resistência ativa que rompe o ciclo da violência e da revanche. Em uma sociedade marcada pelo princípio do “olho por olho e dente por dente”, o Reino de Deus inaugura uma nova lógica, fundada na misericórdia, na dignidade humana e na força transformadora do amor. Ao ouvirmos essas palavras, somos convidados a examinar nossas relações, nossas reações diante das ofensas e nossa disposição de construir uma convivência marcada não pela retaliação, maspela reconciliação e pela justiça que nasce do amor.Jesus, ao dizer essas palavras no Sermão da Montanha, está rompendo com uma lógica jurídica que já atravessava séculos. A chamada Lex Talionis, “olho por olho, dente por dente”  não nasce originalmente da tradição hebraica revelada, mas sim da civilização mesopotâmica, mais precisamente do Código de Hamurábi, redigido por volta de 1750 a.C. Esse código, um dos mais antigos conjuntos de leis escritos, expressava uma visão de justiça baseada na equivalência da punição. O artigo 196 dizia com clareza: “Se um homem destruir o olho de outro homem, destruir-se-á o seu olho.” Esse princípio seria posteriormente incorporado à legislação mosaica, como vemos em Êxodo 21,24  “olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé”  e também em Levítico 24,20 e Deuteronômio 19,21. A intenção original dessas passagens não era estimular a violência, mas conter a vingança desproporcional, tão comum nas culturas tribais da Antiguidade. Era, de certo modo, um avanço civilizatório. No entanto, mesmo esse avanço já revelava suas falhas: a justiça, ainda que escrita, não era cega  ela via a classe social do acusado e da vítima. Prova disso é que, no próprio Código de Hamurábi, a aplicação da pena variava conforme a classe da pessoa envolvida. Se um homem nobre causasse um dano a outro nobre, sofreria a pena conforme a regra. Mas se causasse o mesmo dano a um pobre, bastava pagar uma indenização. Se fosse o pobre a ofender o rico, era punido com toda severidade. A desigualdade não era exceção, mas parte da estrutura legal. Assim como hoje, o peso da lei recaía sobre os ombros dos pequenos, enquanto os poderosos, com posses e influência, escapavam por frestas abertas pelas próprias regras. A lei existia, mas a justiça, não para todos..

É neste contexto que a palavra de Jesus se torna escandalosa. Quando ele diz “Eu, porém, vos digo...”, não está apenas reinterpretando a lei; está fundando uma nova ordem ética, a partir do Reino de Deus. A proposta de Cristo é profundamente subversiva: interromper o ciclo da violência, não por resignação, mas por uma resistência ativa e profética, que desarma o agressor sem assumir sua lógica. Oferecer a outra face, caminhar a segunda milha, dar a túnica, são gestos que desestabilizam o opressor, pois negam a ele a reciprocidade da violência e o forçam a confrontar a própria injustiça, revelando sua crueldade, mas sem que o oprimido perca sua dignidade. Jesus não propõe submissão, mas liberdade interior. Ele não está dizendo “aceite tudo”, mas: não se torne aquilo que você combate. O apóstolo Paulo, inspirado nesta ética do Reino, vai reforçar essa mesma espiritualidade: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem” (Romanos 12,21). E antes disso, já havia afirmado: “A ninguém pagueis o mal com o mal... se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos” (Romanos 12,17-18). Paulo reconhece a dificuldade, mas aponta o caminho..Ao longo da história, cristãos e não cristãos que acolheram o espírito dessa mensagem mudaram o mundo:
  •  Gandhi, profundamente inspirado pelo Sermão da Montanha, afirmou: “Se todos os livros sagrados se perdessem, mas restasse o Sermão da Montanha, nada estaria perdido.” Sua luta contra o Império Britânico não se fez com armas, mas com jejum, resistência civil e dignidade. Gandhi foi um hindu que compreendeu  e viveu  melhor que muitos cristãos batizados o que significa “dar a outra face”.
  • Nos Estados Unidos, Martin Luther King Jr., pastor batista e teólogo, levou adiante essa ética em sua luta contra o racismo. Marchou, pregou, foi preso e ameaçado  e nunca revidou com ódio. Dizia: “A escuridão não pode expulsar a escuridão; só a luz pode. O ódio não pode expulsar o ódio; só o amor pode.” Sua fidelidade ao Evangelho não era ingênua: era politicamente eficaz. Sua fé mudou leis e consciências. Ele viveu o Evangelho como cruz, e por isso foi martirizado como Cristo. 
  • No Brasil, Dom Helder Câmara resistiu à ditadura com o Evangelho como escudo. Nunca incitou à violência, mas denunciou o sistema opressor. Dizia: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que são pobres, me chamam de comunista.” Sua opção pelos pobres não era ideológica, mas evangélica. Caminhava com os humildes, sem medo dos poderosos.
  • Dorothy Stang, religiosa assassinada no Pará por defender os camponeses e a floresta, lia as bem-aventuranças momentos antes de ser morta. Foi fiel até o fim. A irmã Dorothy mostrou que a não violência não é passividade: é fidelidade escandalosa ao Cristo dos pobres. 
  • Oscar Romero, arcebispo mártir de El Salvador, foi assassinado enquanto celebrava a Missa. Denunciava os crimes da elite e do Estado. Nunca pregou o ódio, mas a justiça do Reino. Sua morte revelou que o Evangelho, quando vivido com radicalidade, se torna intolerável para os senhores deste mundo..
A lógica do “olho por olho” ainda vive, infelizmente, nos sistemas penais e nas ideologias de morte. A pena de morte, por exemplo, ainda é aplicada em muitos países  entre eles, regimes islâmicos com interpretação radical da Sharia, e também Estados dos EUA sob forte influência da extrema direita cristã. Nesses contextos, a punição é irreversível, mesmo quando se descobre depois que o acusado era inocente. Uma justiça sem misericórdia se torna uma máquina de matar.

Hoje, vemos com preocupação como certas lideranças religiosas inclusive cristãs defendem armamentismo, extermínio de “bandidos”, e clamam por penas duríssimas em nome de Deus. Transformam a cruz em fuzil, o púlpito em palanque ideológico. Essa religião punitivista nega o Cristo que morreu perdoando seus algozes, e rebaixa a fé à ideologia..Jesus nos oferece outra estrada: a do perdão, da reconciliação e da justiça restaurativa. Ele não veio revogar a Lei, mas levá-la à plenitude (cf. Mt 5,17). E a plenitude da Lei é o amor (cf. Rm 13,10). Ele não nos convida à neutralidade, mas a uma militância que resiste sem matar, que enfrenta o mal sem repetir sua lógica. Essa ética do Reino exige uma conversão do coração e das estruturas. É preciso abandonar o desejo de vingança e buscar a justiça que repara e liberta.

Como disse Jesus, “se a vossa justiça não for maior do que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mateus 5,20). A justiça do Reino não é medida por leis, mas por misericórdia. E a misericórdia verdadeira não ignora o mal, mas o transforma..A espiritualidade que brota do Sermão da Montanha não é alienada, mas revolucionária. Não se trata de sofrer calado, mas de resistir com amor. O mundo não será salvo pela espada, mas pela cruz. Como afirmou o profeta Isaías, descrevendo o Servo Sofredor: “Maltratado, humilhou-se, e não abriu a boca. Como cordeiro levado ao matadouro” (Isaías 53,7). Foi assim que o mal foi vencido  não com mais violência, mas com entrega.

Essa mesma profecia messiânica já havia sido anunciada em Isaías 2,4, quando o profeta vislumbra o dia em que Deus julgará com justiça entre as nações, e então “transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices. Uma nação não levantará espada contra outra, e não se aprenderá mais a fazer guerra.” Aqui, Isaías nos apresenta o projeto de Deus: a superação da lógica bélica, do castigo, da punição e da morte, substituída por um mundo onde as ferramentas da guerra são convertidas em instrumentos de cultivo, paz e vida.

Essa visão de Isaías é a mesma que se realiza em Jesus: o Cristo não pegou em armas, mas tomou a cruz. Ele não feriu ninguém, mas foi ferido por todos. Seu caminho não destrói o inimigo, mas oferece redenção até ao que o trai. Ao transformar a espada em arado, Jesus nos convida a trocar a lógica da vingança pela da fecundidade, a construir pontes no lugar de muros, a semear justiça no lugar da violência.

E é por esse caminho que a Igreja deve andar: desarmada, fiel, compassiva. Não se trata de ser fraco, mas de ser forte o suficiente para não precisar revidar. A verdadeira força do Evangelho está na capacidade de perdoar, amar os inimigos e romper o ciclo do ódio. Por isso, hoje e sempre, Jesus nos diz: “Eu, porém, vos digo...”, convidando-nos a escolher, a cada dia, o caminho da vida sobre a lógica da morte.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


quinta-feira, 12 de junho de 2025

Um breve olhar sobre sobre Mateus 5,27-32.

 



O Evangelho de Mateus 5,27-32, proclamado liturgicamente na sexta-feira da 10ª semana do Tempo Comum nos anos ímpares e no sábado após a Quarta-feira de Cinzas, nos convida a revisitar com seriedade — mas também com misericórdia — a radicalidade evangélica proposta por Jesus diante do adultério e do repúdio. Jesus não suaviza a exigência do Reino. Ao contrário, Ele a aprofunda e a desloca do comportamento externo para o interior do coração: “Todo aquele que olhar para uma mulher com desejo impuro já cometeu adultério com ela em seu coração.” A proposta de Jesus é de conversão e não de exclusão; de cura e não de punição — uma visão de libertação que se contrapõe à opressão e à condenação.

Essa radicalidade, no entanto, tem sido mal interpretada por setores moralistas e clericais da Igreja que, ao longo da história, instrumentalizaram a moral sexual para controlar, excluir e condenar. Muitos desses grupos — especialmente os ligados à extrema-direita religiosa e política — usam esse trecho do Evangelho como arma para julgar os outros e reforçar uma doutrina de exclusão. Esquecem-se, porém, de que Jesus nunca usou a Lei para oprimir, mas para libertar.

O moralismo religioso tem se tornado uma caricatura da santidade, reduzindo a ética cristã à normatividade sexual e silenciando os pecados sociais — os verdadeiros adultérios contra o Evangelho: corrupção, exploração, injustiça, racismo, violência, ganância, misoginia, discriminação de gênero. Esses, sim, são pecados estruturais que ferem profundamente a dignidade humana e traem a aliança com Deus. E, no entanto, são frequentemente ocultados por líderes religiosos que preferem fazer guerra cultural em torno do corpo alheio enquanto escondem os pecados do sistema — e os abusos do próprio clero. Isso perpetua um outro adultério: trair o Cristo vivo para se aliar ao César da vez.

Entre os grupos mais vulnerabilizados por esse moralismo excludente estão os casais em segunda união. Estes irmãos e irmãs, muitas vezes afastados da participação sacramental e pastoral, carregam o estigma de um “adultério permanente”, como se o Evangelho não fosse caminho de reconciliação e acolhida. A interpretação legalista do texto de Mateus leva muitos a afirmar que não há salvação para quem se separou e formou uma nova família. Isso não é doutrina — é farisaísmo, pura e simplesmente.

O Papa Francisco, em Amoris Laetitia, rompe com essa lógica punitiva ao afirmar que “ninguém pode ser condenado para sempre, porque essa não é a lógica do Evangelho” (AL 297). A exortação convida a um discernimento pastoral atento, compassivo e pessoal, no qual se considera não apenas a norma, mas a história concreta, as limitações e as possibilidades de crescimento no amor de cada pessoa.

A fidelidade evangélica não se mede pela rigidez da lei, mas pela busca sincera da justiça, da misericórdia e da verdade. Como afirmou São João XXIII na abertura do Concílio Vaticano II: “Hoje a Igreja prefere usar o remédio da misericórdia ao invés de brandir as armas da severidade.”

Essa distorção moralista não nasce do Evangelho, mas do clericalismo — um sistema de poder piramidal e autorreferencial, que se apropria da Palavra para manter controle sobre os corpos, os afetos e as consciências, especialmente das mulheres. Sacrifica a compaixão em nome da ortodoxia, silencia a profecia com obediência cega. O resultado? Uma Igreja que fecha as portas a quem mais precisa: os pobres, os divorciados, os feridos, os pecadores — justamente os preferidos de Jesus.

Ao falar do adultério como realidade que começa no coração, Jesus desconstrói a moral aparente dos fariseus e aponta para uma conversão que é interior, mas também social. Ele não veio condenar a sexualidade, mas libertá-la do uso egoísta e opressor. A sexualidade, em sua plenitude e beleza, é dom de Deus — não deve ser reduzida a um campo de culpa e repressão. A perversão não está no desejo, mas na instrumentalização do outro, na negação da alteridade, na ruptura da justiça amorosa.

Num mundo onde a infidelidade estrutural ao Reino se expressa em sistemas que exploram corpos, destroem famílias pela fome e perpetuam violências cotidianas, a Igreja precisa levantar sua voz profética. No entanto, parte dela permanece calada — ou cúmplice —, encantada com o poder, com alianças políticas espúrias e com a idolatria da tradição.

É urgente uma pastoral que olhe para os casais em segunda união não com os olhos de um tribunal, mas com os olhos de Jesus diante da mulher adúltera (cf. Jo 8,1-11): “Ninguém te condenou? Eu também não te condeno. Vai, e não peques mais.” Esse gesto nos ensina que a fidelidade maior é à dignidade humana, e que a justiça do Reino se realiza não na condenação, mas na reintegração. Casais em segunda união muitas vezes demonstram maturidade afetiva, compromisso, amor profundo, dedicação aos filhos — sinais claros de uma nova vida que deve ser acolhida e discernida, não rechaçada sumariamente. Como recorda o Concílio Vaticano II em Gaudium et Spes (n. 24): “O ser humano só se realiza plenamente no dom sincero de si mesmo.” A sexualidade e o matrimônio são espaços onde esse dom se concretiza. Negar esse dom é negar a força reconciliadora da graça.

Portanto, a leitura de Mateus 5,27-32, celebrada nas liturgias da 10ª semana do Tempo Comum dos anos ímpares e no sábado após a Quarta-feira de Cinzas, deve ser entendida não como uma ameaça punitiva, mas como um convite radical à integridade amorosa, à responsabilidade relacional e à misericórdia ativa.

A Igreja não pode ser guardiã do moralismo, mas deve ser serva do Evangelho, profética diante dos poderes que violentam a dignidade humana e maternal diante das fragilidades dos seus filhos e filhas. Uma Igreja que se cala diante das injustiças sociais, mas grita contra os pecadores frágeis, é cúmplice dos fariseus de ontem e de hoje.

O Evangelho exige mais: exige justiça com ternura, verdade com caridade, fidelidade com liberdade. E, sobretudo, exige uma conversão pastoral que devolva a cada pessoa — inclusive aos casais em segunda união — o direito de participar plenamente da vida e do amor de Deus, sem medo, sem vergonha, sem exclusão.

O moralismo clerical não apenas oprime os corações, mas constrói uma Igreja que é fortaleza de exclusão, e não hospital de cura. A palavra de Jesus — “Aquele que estiver sem pecado, atire a primeira pedra” (cf. Jo 8,7) — precisa ser vivida com a mesma coragem com que se deve denunciar os abusos clericais que violentam corpos e consciências. A Igreja que deseja ser fiel ao Evangelho precisa ser radicalmente misericordiosa, atenta aos sinais dos tempos — especialmente à desigualdade estrutural que oprime milhões e perpetua uma religiosidade vazia, que serve mais aos poderosos do que ao Reino de Deus.

Nos documentos do Magistério, como Evangelii Gaudium (n. 235), o Papa Francisco insiste: é preciso uma conversão pastoral preocupada em gerar frutos de misericórdia, cuidado com os pobres e inclusão dos feridos. Ao contrário da rigidez de uma moral que separa, a Igreja deve viver o amor que une, a graça que cura, a justiça que liberta. Na visão ecumênica que deve orientar a Igreja, a busca pela unidade não se faz pela uniformidade de pensamento, mas pela acolhida mútua. A reflexão sobre o adultério deve, portanto, ser ampliada para além da condenação de atos isolados, considerando a estrutura social que envolve cada pessoa, suas histórias de dor, seus processos de cura e reintegração.

O Reino de Deus — onde os últimos serão os primeiros — exige que a Igreja seja esse lugar de acolhida para todos, sem exceção.

O desafio é grande, mas o caminho da misericórdia e da justiça nunca foi fácil. Que a Igreja, à luz do Evangelho de Mateus, se permita transformar-se, não apenas na celebração de ritos, mas na construção de uma comunidade que seja verdadeiramente sal da terra e luz do mundo.

Isso exige coragem profética — a mesma de Jesus —, que nos exorta a não temer os poderosos, a desafiar o clericalismo e a moral sexual excludente, e a denunciar, com firmeza e clareza, toda religiosidade que, em vez de aproximar de Deus, distancia os pobres da esperança do Reino.



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DNonato – Teólogo do Cotidiano, Na esperança de uma Igreja libertadora, misericordiosa e profética