“Ouvistes que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Eu, porém, vos digo: não enfrenteis quem é malvado; ao contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a outra.”
(Mateus 5,38-39)
Para refletirmos sobre Mateus 5,38-42, é interessante recordar que este ensinamento de Jesus ocupa um lugar de destaque na vida litúrgica da Igreja. A passagem em que o Mestre convida seus discípulos a romperem a lógica da vingança “não resistais ao malvado” e “oferece a outra face” é proclamada regularmente tanto na liturgia diária quanto na liturgia dominical. No ciclo anual, ela é lida na Segunda-feira da 11ª Semana do Tempo Comum; já no ciclo dominical, aparece inserida na leitura mais ampla de Mateus 5,38-48, proclamada no 7º Domingo do Tempo Comum do Ano A. A mesma mensagem ecoa no Evangelho de Lucas, dentro do Sermão da Planície (Lc 6,27-38), sendo proclamada na Quinta-feira da 23ª Semana do Tempo Comum e também no 7º Domingo do Tempo Comum do Ano C.
Essa repetida presença no calendário litúrgico revela a importância que a Igreja atribui a este ensinamento. Longe de ser uma proposta de passividade diante da injustiça, Jesus apresenta um caminho de resistência ativa que rompe o ciclo da violência e da revanche. Em uma sociedade marcada pelo princípio do “olho por olho e dente por dente”, o Reino de Deus inaugura uma nova lógica, fundada na misericórdia, na dignidade humana e na força transformadora do amor. Ao ouvirmos essas palavras, somos convidados a examinar nossas relações, nossas reações diante das ofensas e nossa disposição de construir uma convivência marcada não pela retaliação, maspela reconciliação e pela justiça que nasce do amor.Jesus, ao dizer essas palavras no Sermão da Montanha, está rompendo com uma lógica jurídica que já atravessava séculos. A chamada Lex Talionis, “olho por olho, dente por dente” não nasce originalmente da tradição hebraica revelada, mas sim da civilização mesopotâmica, mais precisamente do Código de Hamurábi, redigido por volta de 1750 a.C. Esse código, um dos mais antigos conjuntos de leis escritos, expressava uma visão de justiça baseada na equivalência da punição. O artigo 196 dizia com clareza: “Se um homem destruir o olho de outro homem, destruir-se-á o seu olho.” Esse princípio seria posteriormente incorporado à legislação mosaica, como vemos em Êxodo 21,24 “olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé” e também em Levítico 24,20 e Deuteronômio 19,21. A intenção original dessas passagens não era estimular a violência, mas conter a vingança desproporcional, tão comum nas culturas tribais da Antiguidade. Era, de certo modo, um avanço civilizatório. No entanto, mesmo esse avanço já revelava suas falhas: a justiça, ainda que escrita, não era cega ela via a classe social do acusado e da vítima. Prova disso é que, no próprio Código de Hamurábi, a aplicação da pena variava conforme a classe da pessoa envolvida. Se um homem nobre causasse um dano a outro nobre, sofreria a pena conforme a regra. Mas se causasse o mesmo dano a um pobre, bastava pagar uma indenização. Se fosse o pobre a ofender o rico, era punido com toda severidade. A desigualdade não era exceção, mas parte da estrutura legal. Assim como hoje, o peso da lei recaía sobre os ombros dos pequenos, enquanto os poderosos, com posses e influência, escapavam por frestas abertas pelas próprias regras. A lei existia, mas a justiça, não para todos..
É neste contexto que a palavra de Jesus se torna escandalosa. Quando ele diz “Eu, porém, vos digo...”, não está apenas reinterpretando a lei; está fundando uma nova ordem ética, a partir do Reino de Deus. A proposta de Cristo é profundamente subversiva: interromper o ciclo da violência, não por resignação, mas por uma resistência ativa e profética, que desarma o agressor sem assumir sua lógica. Oferecer a outra face, caminhar a segunda milha, dar a túnica, são gestos que desestabilizam o opressor, pois negam a ele a reciprocidade da violência e o forçam a confrontar a própria injustiça, revelando sua crueldade, mas sem que o oprimido perca sua dignidade. Jesus não propõe submissão, mas liberdade interior. Ele não está dizendo “aceite tudo”, mas: não se torne aquilo que você combate. O apóstolo Paulo, inspirado nesta ética do Reino, vai reforçar essa mesma espiritualidade: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem” (Romanos 12,21). E antes disso, já havia afirmado: “A ninguém pagueis o mal com o mal... se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos” (Romanos 12,17-18). Paulo reconhece a dificuldade, mas aponta o caminho..Ao longo da história, cristãos e não cristãos que acolheram o espírito dessa mensagem mudaram o mundo:
Gandhi, profundamente inspirado pelo Sermão da Montanha, afirmou: “Se todos os livros sagrados se perdessem, mas restasse o Sermão da Montanha, nada estaria perdido.” Sua luta contra o Império Britânico não se fez com armas, mas com jejum, resistência civil e dignidade. Gandhi foi um hindu que compreendeu e viveu melhor que muitos cristãos batizados o que significa “dar a outra face”.
Nos Estados Unidos, Martin Luther King Jr., pastor batista e teólogo, levou adiante essa ética em sua luta contra o racismo. Marchou, pregou, foi preso e ameaçado e nunca revidou com ódio. Dizia: “A escuridão não pode expulsar a escuridão; só a luz pode. O ódio não pode expulsar o ódio; só o amor pode.” Sua fidelidade ao Evangelho não era ingênua: era politicamente eficaz. Sua fé mudou leis e consciências. Ele viveu o Evangelho como cruz, e por isso foi martirizado como Cristo.
No Brasil, Dom Helder Câmara resistiu à ditadura com o Evangelho como escudo. Nunca incitou à violência, mas denunciou o sistema opressor. Dizia: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que são pobres, me chamam de comunista.” Sua opção pelos pobres não era ideológica, mas evangélica. Caminhava com os humildes, sem medo dos poderosos.
Dorothy Stang, religiosa assassinada no Pará por defender os camponeses e a floresta, lia as bem-aventuranças momentos antes de ser morta. Foi fiel até o fim. A irmã Dorothy mostrou que a não violência não é passividade: é fidelidade escandalosa ao Cristo dos pobres.
Oscar Romero, arcebispo mártir de El Salvador, foi assassinado enquanto celebrava a Missa. Denunciava os crimes da elite e do Estado. Nunca pregou o ódio, mas a justiça do Reino. Sua morte revelou que o Evangelho, quando vivido com radicalidade, se torna intolerável para os senhores deste mundo..
A lógica do “olho por olho” ainda vive, infelizmente, nos sistemas penais e nas ideologias de morte. A pena de morte, por exemplo, ainda é aplicada em muitos países entre eles, regimes islâmicos com interpretação radical da Sharia, e também Estados dos EUA sob forte influência da extrema direita cristã. Nesses contextos, a punição é irreversível, mesmo quando se descobre depois que o acusado era inocente. Uma justiça sem misericórdia se torna uma máquina de matar.
Hoje, vemos com preocupação como certas lideranças religiosas inclusive cristãs defendem armamentismo, extermínio de “bandidos”, e clamam por penas duríssimas em nome de Deus. Transformam a cruz em fuzil, o púlpito em palanque ideológico. Essa religião punitivista nega o Cristo que morreu perdoando seus algozes, e rebaixa a fé à ideologia..Jesus nos oferece outra estrada: a do perdão, da reconciliação e da justiça restaurativa. Ele não veio revogar a Lei, mas levá-la à plenitude (cf. Mt 5,17). E a plenitude da Lei é o amor (cf. Rm 13,10). Ele não nos convida à neutralidade, mas a uma militância que resiste sem matar, que enfrenta o mal sem repetir sua lógica. Essa ética do Reino exige uma conversão do coração e das estruturas. É preciso abandonar o desejo de vingança e buscar a justiça que repara e liberta.
Como disse Jesus, “se a vossa justiça não for maior do que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mateus 5,20). A justiça do Reino não é medida por leis, mas por misericórdia. E a misericórdia verdadeira não ignora o mal, mas o transforma..A espiritualidade que brota do Sermão da Montanha não é alienada, mas revolucionária. Não se trata de sofrer calado, mas de resistir com amor. O mundo não será salvo pela espada, mas pela cruz. Como afirmou o profeta Isaías, descrevendo o Servo Sofredor: “Maltratado, humilhou-se, e não abriu a boca. Como cordeiro levado ao matadouro” (Isaías 53,7). Foi assim que o mal foi vencido não com mais violência, mas com entrega.
Essa mesma profecia messiânica já havia sido anunciada em Isaías 2,4, quando o profeta vislumbra o dia em que Deus julgará com justiça entre as nações, e então “transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices. Uma nação não levantará espada contra outra, e não se aprenderá mais a fazer guerra.” Aqui, Isaías nos apresenta o projeto de Deus: a superação da lógica bélica, do castigo, da punição e da morte, substituída por um mundo onde as ferramentas da guerra são convertidas em instrumentos de cultivo, paz e vida.
Essa visão de Isaías é a mesma que se realiza em Jesus: o Cristo não pegou em armas, mas tomou a cruz. Ele não feriu ninguém, mas foi ferido por todos. Seu caminho não destrói o inimigo, mas oferece redenção até ao que o trai. Ao transformar a espada em arado, Jesus nos convida a trocar a lógica da vingança pela da fecundidade, a construir pontes no lugar de muros, a semear justiça no lugar da violência.
E é por esse caminho que a Igreja deve andar: desarmada, fiel, compassiva. Não se trata de ser fraco, mas de ser forte o suficiente para não precisar revidar. A verdadeira força do Evangelho está na capacidade de perdoar, amar os inimigos e romper o ciclo do ódio. Por isso, hoje e sempre, Jesus nos diz: “Eu, porém, vos digo...”, convidando-nos a escolher, a cada dia, o caminho da vida sobre a lógica da morte.
Neste domingo
nossa solidariedade aos familiares e amigos de Marcelo Arruda que na sua festa
de 50 anos foi alvejado e veio óbito por causa de sua opção política
partidária, nosso olha para realidade deve ser um pedido pela paz e direito
legitimo de se manifesta seja de direita ou esquerda e talvez nesse momento se
faça necessário reler a mensagem da CNBB de 22 de abril de 2022.
ؓNestes tempos, faz-se urgente escutar as vozes de tantos que,
vitimados por variadas formas de violência, clamam por justiça e paz. Esta
realidade não pode ser naturalizada. É impossível aceitar o extermínio de
irmãos e irmãs. Seus corpos sem vida clamam por justiça e responsabilização.
Suas memórias e seus sonhos de paz devem permanecer vivos entre nós. A
desigualdade social, gerada pela concentração de renda, os conflitos
religiosos, o ataque sistemático aos territórios dos povos tradicionais, o
desprezo e o rechaço aos migrantes e o flagelo da fome são algumas das formas
da violência estrutural visibilizada nos tempos de hoje. Urge não fechar os
olhos diante da loucura da corrida armamentista no Brasil. O número de
caçadores, atiradores e colecionadores de armas de fogo (CACs), aumentou 325%
de 2018 a 2021. “O gasto com armas é um escândalo, suja o coração, suja a
humanidade” (Papa Francisco, 21 de março de 2022), particularmente quando
alimentado por discursos fundamentalistas, inclusive religiosos, que
transformam adversários em inimigos e comprometem a fraternidade. A violência
precisa ser estancada. Diante de tantas situações que nos envergonham, nós,
bispos do Conselho Permanente da CNBB, voltamos a erguer nossa voz para
denunciar a violência e solidariamente clamar por paz. Unimo-nos a todas as
pessoas e entidades que, de coração sincero, se empenham nessa direção. Enxergamos
nesse esforço o Espírito do Deus da Vida que não nos permite desanimar, nem nos
deixa enredar pelas artimanhas do mal, por mais astuciosas e aparentemente
convincentes que possam ser. A vida é o maior dom! Cuidar responsavelmente da
vida implica trabalhar artesanalmente pela paz (Papa Francisco, Fratelli Tutti,
225), a justiça social e o bem comum, sempre no respeito pelas diferenças,
valorizando a liberdade religiosa e a verdade, dialogando até a exaustão, pois
tudo isso é condição para a verdadeira paz.”.
Dito isto vamos juntos ver as leituras
deste domingo: 1ª leitura Genesis 18,1-10; Salmo de resposta 14 (15)
com Refrão Quem habitará Senhor, no vosso santuário? 2ª
Leitura Colossenses 1,24-28 e o Evangelho Lucas 10,38-42 que nos
convidam hospitalidade e ao acolhimento neste 16º domingo do tempo
comum. As leituras nos sugerem uma acolhida e o reconhecimento da
vontade e Deus em nossas vidas, fazendo uma experiência do discipulado e da
escuta do projeto de Deus.
Aqui vale pena lembra-se de uma entrevista do
Papa Francisco que diz: “... quem pensa em ser protagonista ou empresário da
missão, com todos os seus bons propósitos e as suas declarações de intenção
muitas vezes termina por não atrair ninguém” [1]. Nesse campo queremos lembra que todo mover da Igreja deve ser
por causa do Cristo e aqui anda recordamos outra frase de Francisco no Brasil
com os jovens da Argentina; "As paróquias, as instituições foram feitas
para sair. Se não saem, viram uma ONG, e a Igreja não deve ser uma ONG” [2] e nesse mesmo encontro o Papa Francisco nos recordou que
e a Igreja não é uma organização assistencial, uma empresa ou uma ONG, tudo
haver hoje com uma espiritualidade do fazer ou do produzir para sermos vistos.
O episodio de hoje acontece na casa dos
amigos de Jesus, ou seja, eram pessoas muito próximas do Mestre (era casa de
Marta e Maria) irmãs do amigo Lázaro de Betânia referidas em Jo 11,1-40 e Jo
12,1-3 foi um ponto de apoio para o Mestre no seu caminho rumo a
Jerusalém. Jesus viaja com uma comitiva e para acolher toda essa
gente Marta devia estar desesperada para servi o melhor para esse grupo e Maria
se senta aos pés do Mestre[3] para ouvi-lo e aqui vale a pena refletir que as mulheres
não tinham o direito de aprender (não podiam ser discípulas), por questão
cultural até Marta se dirige a Jesus para que Ele tome uma posição e obrigue
que a sua irmã vá ajuda-la. Aqui temos dois modelos de espiritualidade, que
muitas das vezes são colocados em conflitos. Pedimos um espaço para trazer um
fato que vivemos a um tempo atrás que podemos contar. Fomos até uma
Igreja para conhecer e no primeiro dia na paroquia o
Padre nos perguntou na porta da Igreja quando iriamos se torna
dizimista dele, (não da Igreja) e na segunda vez que lá estivemos foi
feita a mesma pergunta e não voltamos para não ter o desprazer de responde-lo
de forma deselegante, talvez o nosso problema seja os excessos no
fazer ou rezar e se encontramos o equilíbrios e com testemunho
coerente seremos cristãos de verdade. Um grupo só
reza e vai a Igreja outro só faz e esquece-se de acolher o ensinamento e a
vontade de Deus. Podemos pedir apoio ao texto da ressurreição de
Lazaro[4] quando as irmãs sabem que o Mestre se aproxima, Maria
fica em casa e Marta vai ao encontro e faz uma profissão de fé similar a de
Pedro reconhecendo a Filiação divina de Jesus.
Uma das criticas de Jesus é a necessidade do
fazer, fazer, e fazer e se esquece de parar e refletir e ouvir a voz de Deus e
aqui vale para todos os lideres religiosos que vivem e se preocupa com
resultado final e ainda citando o Papa Francisco: [5] A Igreja cresce por atração, atração. E a transmissão da
fé se dá com o testemunho, até o martírio. Marta e Maria são exemplos de
mulheres que fieis a Jesus por mais que muitos tentam transforma uma em vilã
aqui não há espaço para isso.
Outro dia íamos para o trabalho dentro de um
trem cheio lia uns artigos preparando essa reflexão e olhando somente para o
celular a nossa frente tinha um homem com um terço na mão rezando em silêncio e
só pudemos nota-lo quando íamos descer na estação do nosso destino e talvez que
nos falte como participantes da Igreja seja o respeito e ser gratos por aqueles
que estão na ação pastoral, por aqueles que rezam que fazem a intercessão e
ainda mais juntar esses dois lados. Não podemos transforma toda
missa em missa com benção do santíssimo ou toda missa um espaço para falar dos
problemas sociais que cercam nossas Igrejas, se faz necessário juntar forças o
agir de Marta e Maria, aqui não existe mais ou menos. Problema de
Marta foi querer impor a irmã seu ritmo o seu jeito de agir e aqui vale a pena
lembrar citar[6]
Tudo
tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do
céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de
arrancar o que se plantou; Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de
derrubar, e tempo de edificar; Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de
prantear, e tempo de dançar; Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar
pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar; Tempo de
buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora; Tempo
de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz. Que
proveito tem o trabalhador naquilo em que trabalha? Tenho visto o trabalho
que Deus deu aos filhos dos homens, para com ele os exercitarem. Tudo fez
formoso em seu tempo; também pôs o mundo no coração do homem, sem que este
possa descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até ao fim. Já tenho
entendido que não há coisa melhor para eles do que alegrar-se e fazer bem
na sua vida; E também que todo o homem coma e beba, e goze do bem de todo
o seu trabalho; isto é um dom de Deus. Eu sei que tudo quanto Deus faz
durará eternamente; nada se lhe deve acrescentar, e nada se lhe deve
tirar; e isto faz Deus para que haja temor diante dele
1 - Papa Francisco na
entrevista ao livro-entrevista intitulado "Sem Ele não podemos
fazer nada" do jornalista Gianni Valente