sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O PRESBITÉRIO NÃO É PALANQUE

A Eucaristia está acima das nossas bandeiras ideológicas, das disputas partidárias e das paixões eleitorais. Há alguns dias, recebemos o áudio de parte de uma pregação realizada por um presbítero em uma paróquia de uma das dioceses do Brasil, na qual, ao abordar  tematica sobrenaa eleições , ele toma  partido  de certo candidato e determinado partido político, chegou-se a propor a negação da Sagrada Comunhão aos militantes e eleitores de um dos partidos. O conteúdo dessa fala nos provocou não apenas pela gravidade da proposta, mas principalmente pela necessidade de perguntar, com serenidade e responsabilidade, se tal compreensão encontra respaldo no Evangelho, na tradição da Igreja, no Magistério e no Direito Canônico. Não nos cabe julgar a intenção pessoal daquele sacerdote, nem presumir sua formação ou suas motivações; cabe-nos, porém, examinar aquilo que foi publicamente afirmado e confrontá-lo com a fé que professamos. Não fazemos isso para defender candidato, partido ou corrente ideológica, muito menos para transformar uma divergência política em conflito religioso, mas porque entendemos que há momentos em que o silêncio diante de determinadas práticas pode acabar confundindo o Evangelho com interesses humanos. A Igreja tem o dever de formar consciências, anunciar a verdade, defender a dignidade humana e denunciar toda forma de injustiça, a própria CNBB ja se posicionou sobre apoio a esse ou aquele  candidato. E preciso  ter consciência  que Eucaristia não pode ser convertida em instrumento de disputa eleitoral, nem o altar em espaço de enquadramento político dos fiéis. Cristo não se entrega à Igreja para que sua mesa seja transformada em fronteira entre os que pertencem a este ou àquele partido, mas para reunir um povo chamado à conversão, à comunhão, à justiça e à caridade. É justamente por amor à Igreja, à Eucaristia e respeito à missão dos ministros ordenados que desejamos refletir sobre essa questão, recordando que o presbítero é chamado a servir a Cristo e ao seu povo, e não a transformar o lugar sagrado em extensão de qualquer palanque. É a partir dessa inquietação, iluminada pelo Evangelho e pelo ensinamento da própria Igreja, que nasce esta reflexão.

Há momentos em que a Igreja precisa voltar ao silêncio diante do altar para ouvir novamente aquilo que o Evangelho diz antes que nossas paixões políticas comecem a falar, a Eucaristia não nasceu de uma disputa eleitoral, não foi instituída para consagrar projetos de poder nem pode ser transformada em instrumento de pressão sobre a consciência dos fiéis. Ela nasce na noite em que Jesus foi entregue: naquela mesa estavam discípulos que ainda não compreendiam plenamente a cruz, aquele que o negaria e aquele que o trairia; mesmo assim, Jesus tomou o pão, deu graças, partiu-o e entregou-o, dizendo: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós” (Lc 22,19). A Eucaristia nasce, portanto, do amor que se entrega quando o poder humano já prepara a violência, e não da lógica de quem divide as pessoas entre as que merecem estar à mesa e as que devem ser afastadas dela.

É preciso  lembrar  que o Catecismo da Igreja Católica apresenta a Eucaristia como memorial da Páscoa de Cristo, sacrifício sacramental, presença real, banquete pascal, sinal de unidade e vínculo de caridade (CIC 1322-1323; 1362-1367; 1382-1383) e na celebração eucarística, a Igreja não celebra uma ideia, uma ideologia ou uma identidade política, mas o próprio mistério de Cristo morto e ressuscitado. Quem se aproxima da mesa do Senhor não recebe uma bandeira, recebe Cristo; e quem serve o altar não recebe autoridade para transformar o Sacramento em instrumento de uma preferência eleitoral. Isso não significa banalizar a Comunhão, pois a santidade da Eucaristia exige fé, conversão e exame de consciência. São Paulo advertiu severamente a comunidade de Corinto sobre o modo indigno de participar da Ceia do Senhor (1Cor 11,27-29), e o Catecismo ensina que quem tem consciência de pecado grave deve receber previamente o sacramento da Reconciliação (CIC 1385). A Igreja, portanto, não relativiza a dignidade do Sacramento; justamente porque a Eucaristia é santa, sua disciplina não pode ser substituída por critérios inventados segundo circunstâncias eleitorais. O Catecismo ensina que a consciência é o núcleo mais secreto da pessoa, onde ela se encontra a sós com Deus, e afirma o dever de formá-la de acordo com a verdade e o bem (CIC 1776-1782). Essa consciência não é uma licença para chamar de bom tudo aquilo que desejamos, pois precisa ser educada pela Palavra de Deus, pela razão, pela prudência, pelo ensino da Igreja, pela oração e pelo discernimento responsável (CIC 1783-1789). Entretanto, precisamente por ser lugar de responsabilidade diante de Deus, ela não pode ser sequestrada por uma autoridade humana. O ministro ordenado deve ajudar o fiel a formar sua consciência na verdade, não ocupar o lugar daquele que, diante de Deus, responderá pelos próprios atos. Essa distinção torna-se ainda mais necessária quando a política entra no espaço litúrgico, porque uma opinião pronunciada numa conversa particular não possui o mesmo peso de uma afirmação feita no ambão durante a celebração por alguém investido do ministério ordenado

Acreditamos  que o referido  padre  conhece  o Código de Direito Canônico  que estabelece que todo batizado a quem o direito não proíba pode e deve ser admitido à sagrada Comunhão (cân. 912), enquanto o cân. 915 trata de situações jurídicas e morais determinadas, entre elas os excomungados e interditados após a imposição ou declaração da pena e aqueles que obstinadamente perseveram em pecado grave manifesto. Esse cânon não confere ao ministro poder discricionário para criar, segundo sua avaliação política pessoal, novas causas de exclusão da Comunhão. Uma preferência partidária, por si mesma, não constitui causa canônica autônoma de impedimento à Eucaristia. Isso não significa que escolhas políticas sejam moralmente neutras em qualquer circunstância: um partido pode ser criticado, uma candidatura pode ser rejeitada, uma proposta política pode ser considerada incompatível com princípios fundamentais da fé e determinadas decisões públicas podem exigir sério discernimento moral. A Igreja possui o direito e o dever de anunciar a verdade moral, defender a dignidade humana, denunciar a injustiça e formar as consciências; o que não pode fazer é transformar esse dever em substituição da consciência pessoal ou em uma espécie de sanção sacramental fundada simplesmente na escolha eleitoral.  

Diante  da assembleia  litúrgica  o ministro  ordenado   recebe uma autoridade que ultrapassa a pessoa que as pronuncia, razão pela qual o ministro precisa discernir não apenas se determinada opinião corresponde à sua convicção pessoal, mas também se a maneira de apresentá-la corresponde à missão pastoral que recebeu. O presidente  da assembleia  é ministro da Palavra, dos sacramentos e da comunhão eclesial, não proprietário da consciência dos fiéis;  o bispo é um  servidor da comunhão e da verdade, não autoridade eleitoral,  a sua  autoridade pastoral existe para conduzir à verdade e à liberdade dos filhos de Deus, e não para fabricar dependências políticas. Quando o ministro passa de formador da consciência a substituto da consciência, o serviço pastoral corre o risco de degenerar  o próprio  ministério  e vocação. O ministro ordenado é pastor, não proprietário da fé; a diocese, a paróquia deve ser comunidade de discípulos, não comitê eleitoral; o ambão é lugar de anúncio do Evangelho, não palanque; e o altar é lugar do sacrifício de Cristo, não território de qualquer projeto político.

Mateus 21,28-32 proclamdo no 26⁰  domingo do Tempo Comum  do ano.A ajuda a perceber a gravidade dessa inversão. A parábola dos dois filhos está inserida num confronto de Jesus com as autoridades religiosas e nasce de uma pergunta sobre autoridade. Jesus não oferece uma classificação eleitoral dos bons e dos maus; confronta uma religiosidade que pode dizer “sim” com os lábios e, entretanto, recusar a vontade do Pai com a própria vida. A pergunta decisiva não é “de que lado vocês estão?”, mas qual dos dois fez a vontade do pai. O critério do Evangelho é a obediência concreta à vontade de Deus, não a identidade pública que reivindicamos. Utilizar essa passagem para estabelecer uma fronteira partidária na Eucaristia seria inverter sua direção, transformando uma palavra de conversão em instrumento de classificação eleitoral. O Evangelho desinstala tanto o pecador que precisa converter-se quanto o religioso que acredita já estar justificado; não entrega ao discípulo uma régua para medir o outro, mas uma palavra que começa por nós mesmos. Essa perspectiva está em plena sintonia com a compreensão da Igreja sobre sua relação com a comunidade política. A Gaudium et Spes ensina que a Igreja não se confunde com a comunidade política nem está ligada a qualquer sistema político determinado, reconhecendo a autonomia de ambas em seus respectivos campos e, ao mesmo tempo, sua responsabilidade diante da pessoa humana e do bem comum. Essa autonomia não significa uma Igreja indiferente à política; significa uma Igreja livre. Uma Igreja livre não é uma Igreja silenciosa, mas uma Igreja capaz de falar a todos porque não pertence inteiramente a nenhum grupo. Pode denunciar a corrupção quando aparece no adversário e quando aparece no aliado, condenar a mentira quando favorece aqueles de quem gostamos e quando favorece aqueles de quem discordamos, defender a vida humana desde sua origem até a morte natural e, simultaneamente, denunciar a fome, a violência, a exploração, a tortura, a guerra, o abandono, a miséria e todas as formas pelas quais a dignidade humana é ferida.

A Lumen Gentium recorda que a Igreja é, em Cristo, “como que o sacramento, ou seja, o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (LG 1). Essa afirmação possui consequências concretas para a vida eclesial: se a Igreja é sinal de unidade, suas diferenças políticas não podem transformar-se em mecanismos permanentes de desumanização. A pluralidade legítima dos fiéis não precisa desaparecer diante do altar, mas precisa encontrar ali um limite: ninguém pode fazer da própria posição política um critério absoluto para reconhecer quem pertence ou não ao Corpo de Cristo. São Paulo exprime essa realidade de modo ainda mais concreto: “há um só pão, nós, embora muitos, somos um só corpo” (1Cor 10,17). A Eucaristia manifesta sacramentalmente essa comunhão, e por isso instrumentalizá-la para produzir exclusões políticas contradiz a própria realidade que o Sacramento celebra.

A fé cristã também não permite reduzir a pessoa à sua utilidade eleitoral. Em Mateus 25, Jesus não pergunta ao faminto em quem ele votou antes de oferecer-lhe alimento, nem pergunta ao estrangeiro qual era sua ideologia antes de acolhê-lo; o critério apresentado é concreto: dar de comer ao faminto, de beber ao sedento, acolher o estrangeiro, vestir quem está nu, cuidar do enfermo e visitar o preso (Mt 25,31-46). A Doutrina Social da Igreja traduz essa responsabilidade em princípios como dignidade da pessoa humana, bem comum, solidariedade, subsidiariedade e participação, reconhecendo que a política pertence à vida humana e pode ser lugar de serviço. Os fiéis leigos são chamados a atuar na ordem temporal segundo sua consciência cristã, buscando justiça, paz, liberdade, dignidade humana e bem comum. A Nota Doutrinal sobre a participação dos católicos na vida política reconhece a legítima pluralidade de opções políticas entre os fiéis, ao mesmo tempo em que recorda que essa pluralidade não significa relativizar os princípios morais fundamentais.

O cristão, portanto, não precisa encontrar um partido que reproduza perfeitamente toda a riqueza da fé católica, porque a realidade política é contingente, complexa e histórica; diferentes estratégias podem ser propostas para alcançar determinados bens sociais, e cidadãos igualmente comprometidos com sua fé podem chegar a conclusões políticas diferentes. O Magistério forma e ilumina a consciência, mas não transforma cada questão temporal contingente numa única solução partidária obrigatória. Ao mesmo tempo, liberdade política não significa indiferença moral: existem princípios fundamentais da dignidade humana que não podem ser abandonados em nome da conveniência eleitoral. É justamente por isso que nenhuma ideologia possui o Evangelho inteiro e toda forma de radicalização política que sacralize o líder, absolutize a nação, transforme adversários em inimigos absolutos, legitime a violência ou utilize a religião para conferir caráter sagrado a um projeto humano precisa ser examinada à luz do Evangelho. Essa crítica não pertence exclusivamente a um campo ideológico: pode dirigir-se à direita, à esquerda, ao centro ou a qualquer movimento que transforme mentira, violência, corrupção, intolerância ou desumanização em instrumentos de poder.

Há  um  conflito real  quando o  relativo passa a ocupar o lugar do absoluto,  quando uma bandeira política se transforma em símbolo quase religioso, um líder passa a ser tratado como salvador, a pátria é apresentada como realidade acima de toda crítica, o adversário deixa de ser reconhecido como pessoa ou a mentira passa a ser tolerada porque protege “os nossos”. Quando símbolos cristãos são utilizados para conferir legitimidade espiritual a projetos de poder, a religião deixa de iluminar a política e corre o risco de ser capturada por ela. A Escritura conhece essa tensão: 

  • Natã enfrentou Davi (2Sm 12,1-13)
  •  Elias enfrentou Acab diante da injustiça cometida contra Nabot (1Rs 21)
  • Amós levantou sua voz contra aqueles que esmagavam os pobres (Am 2,6-7; 5,11-15)
  •  Isaías denunciou os que promulgavam leis injustas e privavam os pobres de seus direitos (Is 10,1-2)
  •  João Batista confrontou Herodes (Mc 6,17-20). 
O profeta não pergunta primeiro de que lado está o poder; pergunta se o poder está submetido à justiça de Deus. Jesus também recusou a lógica da dominação. Quando Pedro desembainhou a espada, ordenou que a guardasse (Mt 26,52); quando alguns discípulos quiseram fazer descer fogo do céu sobre aqueles que não haviam recebido Jesus, foram repreendidos (Lc 9,51-56); quando os discípulos discutiam sobre poder e grandeza, Jesus colocou o serviço no centro: “entre vós não deverá ser assim” (Mt 20,26). O cristianismo não pode utilizar o nome daquele que lavou os pés dos discípulos para justificar a lógica da dominação e  a cruz é ainda mais radical: Cristo não venceu derramando o sangue de seus inimigos, mas entregando o próprio sangue. O mártir cristão não é aquele que mata por uma causa religiosa, mas aquele que permanece fiel a Cristo mesmo quando sofre violência. A cruz não fornece autorização para matar; o sangue de Cristo não pode ser utilizado para santificar o sangue humano.

Antes de ser eleitor, simpatizante, militante, conservador ou progressista, cada ser humano permanece criatura de Deus, portador de uma dignidade que nenhuma disputa eleitoral pode retirar e o outro não deixa de ser pessoa porque vota diferente ou  o adversário político não perde sua dignidade porque defende ideias que consideramos equivocadas. A crítica às ideias pode ser firme, contudo  a desumanização da pessoa é incompatível com a antropologia cristã. O Evangelho exige algo mais difícil do que escolher um inimigo: exige conversão, reconhecimento da verdade quando ela vem de alguém de quem discordamos e rejeição da mentira mesmo quando pronunciada por alguém de quem gostamos. Exige denunciar a injustiça quando atinge o adversário e quando ameaça o aliado, amar o próximo quando o próximo pensa diferente e levar a sério as palavras de Cristo: “Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem” (Mt 5,44).

Olhando para Maria e  lendo o Magnificat  que  crituca a religião domesticada pelo poder. Seu canto proclama que Deus derruba os poderosos de seus tronos, exalta os humildes, sacia os famintos e despede os ricos de mãos vazias (Lc 1,52-53). O Magnificat não pertence a uma legenda partidária; pertence ao Evangelho e recorda que nenhum poder humano é absoluto, pois Deus não pode ser colocado como avalista de nossas ambições. Talvez seja justamente disso que a Igreja precise lembrar em tempos de polarização:

  •  Cristo não morre para produzir vencedores e vencidos dentro de sua Igreja, mas para reconciliar.
  •  Não morre para que seus discípulos aprendessem a odiar melhor seus adversários, mas para que aprendessem a amar até mesmo aqueles que os perseguem
  • Não entrega seu Corpo para que construíssemos muros em torno da mesa, mas para que, recebendo o mesmo pão, aprendêssemos a reconhecer que pertencemos a um único Corpo.

Toda  a comunidade cristã se reúne em torno da Eucaristia e  o eleitor A  encontra o eleitor B,  o pobre encontra o rico, o conservador encontra o progressista, o que pensa como nós encontra aquele que pensa diferente  e todos permanecem diante do mesmo Senhor. Nenhum deles se torna proprietário de Cristo,  a Eucaristia não elimina as diferenças legítimas, mas impede que essas diferenças sejam transformadas em motivo de desumanização. Por isso, nenhuma preferência eleitoral pode ocupar o lugar da fé, nenhum líder político pode receber aquilo que pertence somente a Cristo, nenhuma ideologia pode transformar-se em critério absoluto de pertença eclesial e nenhum partido pode reivindicar a Eucaristia como território próprio. O cristão pode participar legitimamente de um partido; nenhum partido pode apropriar-se de Cristo. Pode exercer sua liberdade eleitoral sem transformar sua escolha contingente em dogma, pode combater ideias sem transformar aquele que pensa diferente em inimigo de Deus e pode participar da vida pública sem entregar à política aquilo que pertence ao Evangelho.

A Eucaristia não elimina a responsabilidade política do cristão; ela a purifica e a envia para a vida concreta, onde o discípulo deve buscar justiça, verdade, reconciliação e cuidado com os vulneráveis. A política pode ser lugar de serviço, mas não pode tornar-se objeto de adoração; a fé pode iluminar a política, mas a política não pode capturar a fé. Diante do altar, nossas bandeiras precisam baixar não porque nossas convicções deixem de existir, mas porque nenhuma delas é absoluta. Ali não está a vitória de um grupo sobre outro, mas o memorial daquele que se entregou; não está a consagração de um projeto de poder, mas a presença daquele que veio servir; não está uma fronteira entre os puros e os impuros, entre os nossos e os outros, mas o chamado permanente à conversão. Quando Cristo é colocado acima das bandeiras, a Igreja permanece livre para anunciar o Evangelho a todos, inclusive aos que pensam de maneira diferente. 

Quando as bandeiras humanas se erguem acima de Cristo, a Igreja corre o risco de esquecer sua origem, sua missão e sua liberdade; por isso, o presbitério, confiado ao ministério ordenado, deve permanecer lugar de serviço, de escuta da Palavra e de celebração do mistério da fé, preservado das disputas eleitorais que passam com o tempo. A Eucaristia pertence ao Senhor e manifesta sacramentalmente o amor daquele que se entrega por todos e reúne os dispersos em um só Corpo, e nenhum partido, nenhuma preferência política ou projeto de poder pode apropriar-se daquilo que Deus confiou à sua Igreja. As eleições passarão, os governos mudarão, os partidos se reorganizarão e as bandeiras que hoje parecem invencíveis serão recolhidas pelo próprio curso da história; permanecerá, porém, aquele que é “o mesmo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8), diante de quem toda autoridade humana encontra seu limite e toda consciência é chamada à verdade. Que a Igreja não entregue sua liberdade às paixões de nenhuma época, não permita que o altar seja capturado pelos interesses dos homens e não transforme a comunhão dos filhos de Deus em instrumento de qualquer disputa terrena; que permaneça de pé, como sentinela do Evangelho, anunciando a verdade quando for conveniente e quando for incômodo, defendendo os pequenos quando tiver apoio e quando estiver sozinha, denunciando a injustiça venha ela de onde vier e recordando aos poderosos que nenhum trono é eterno diante do Reino de Deus. Aquele que na noite em que foi entregue não ofereceu aos seus discípulos uma bandeira para conquistar o mundo, mas seu próprio Corpo para a vida do mundo, continua sendo o centro da fé e da missão da Igreja; por isso, a Eucaristia permanecerá acima das disputas eleitorais, como presença viva de Cristo que se entrega, reúne, alimenta, reconcilia e envia seu povo para testemunhar o Evangelho no coração da história. 

Quando as vozes dos poderes deste mundo finalmente se calarem, permanecerá a voz do Senhor, e diante dele toda a Igreja reconhecerá que a única vitória que não passa é aquela que nasce da cruz e conduz à vida. A Ele, Senhor da Igreja e da história, pertencem toda honra e toda glória, agora e pelos séculos dos séculos. Amém.

DNonato - Cristão  e Eleitor  Brasileiro 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 10,1-12

A passagem de Lucas 10,1-12 é proclamada na liturgia  na quinta-feira da 26ª semana do Tempo Comum no calendário litúrgico da Igreja Católica Romana  oferece uma chave particularmente fecunda para compreendê-la. Na liturgia ferial, ela é acompanhada por Jó 19,21-27 e pelo Salmo 27, formando um tríptico espiritual em que o sofrimento humano, a confiança no Redentor e a missão dos discípulos se iluminam mutuamente.

  •  A Igreja escuta primeiro a voz de Jó, ferido, incompreendido e quase esmagado pela existência, que, apesar de tudo, proclama sua esperança no Redentor.
  •  Escuta o salmista afirmar que o Senhor é luz, salvação e fortaleza

E finalmente encontra Jesus enviando discípulos para levar paz, cuidado e anúncio às cidades e casas e texto do Evangelho também  é proclamado   no 14⁰  Domingo do Tempo Comum, no Ano C, Lucas 10,1-12.17-20 também é proclamado na festa de alguns Apóstolos. Jesus não envia seus discípulos para conquistar territórios religiosos, controlar consciências ou construir prestígio institucional, mas para caminhar entre pessoas concretas, anunciar a proximidade do Reino, curar feridas e testemunhar uma paz que nasce de Deus.

Lucas apresenta esse envio depois de uma decisão fundamental de Jesus: “Quando se completaram os dias de sua assunção, ele tomou resolutamente o caminho de Jerusalém” (Lc 9,51) logo após o chamado do evangelho proclamado  no dia anterior Lucas 9, 57-62 . Essa informação é decisiva para a hermenêutica da passagem. O caminho dos discípulos nasce do caminho do próprio Cristo. Eles não inventam a missão; participam de uma missão que já está em movimento. Jesus havia enviado os Doze em Lucas 9,1-6, concedendo-lhes autoridade sobre demônios e enfermidades e enviando-os para proclamar o Reino de Deus. Agora, em Lucas 10, amplia o círculo e envia outros discípulos, dois a dois, diante dele, para toda cidade e lugar onde ele próprio deveria ir. O Evangelho revela assim que a missão não é privilégio de uma pequena elite religiosa. O anúncio do Reino exige uma comunidade inteira mobilizada. A Igreja não existe para contemplar a própria imagem, mas para preparar caminhos para aquele que vem.

O número dos enviados aparece como setenta em alguns manuscritos e setenta e dois em outros. A diferença textual não altera o núcleo da narrativa, mas a amplitude simbólica permanece importante. A tradição bíblica conhece setenta anciãos associados a Moisés em Números 11,16-25 e apresenta em Gênesis 10 uma relação das nações que compõem o horizonte humano conhecido pela tradição israelita. Lucas parece ampliar simbolicamente o horizonte missionário. O Evangelho não está destinado a um pequeno grupo fechado. A promessa feita a Abraão de que todas as famílias da terra seriam alcançadas pela bênção (Gn 12,3) começa a ganhar dimensão missionária. Isaías havia contemplado povos caminhando para a luz de Deus (Is 2,2-4; 60,1-3), e Jesus agora envia discípulos para atravessar cidades, fronteiras sociais e ambientes culturais. O Reino não se fecha dentro de uma fronteira religiosa.

Entretanto, antes de falar sobre métodos missionários, Jesus apresenta uma realidade inquietante: “A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos” (Lc 10,2). A imagem agrícola possui profunda densidade bíblica. A colheita pode representar o tempo do julgamento, como em Joel 4,13, mas também pode expressar a reunião dos frutos amadurecidos pela ação de Deus. Jesus percebe diante de si uma humanidade sedenta de sentido. O problema não é ausência de pessoas procurando vida, mas escassez de trabalhadores dispostos a servir. Por isso, a primeira orientação é oração: “Pedi ao Senhor da colheita que mande trabalhadores para a sua colheita”. O sujeito último da missão continua sendo Deus. Nenhum pregador é dono do Evangelho. Nenhum sacerdote, bispo, líder religioso ou comunidade pode apropriar-se do Reino como propriedade particular. A Igreja administra um mistério que não lhe pertence.

Depois vem uma imagem desconcertante: “Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos” (Lc 10,3). Jesus não promete segurança institucional, domínio cultural ou triunfo político. O discípulo é enviado vulnerável. Essa vulnerabilidade não significa covardia diante da injustiça, mas rejeição da lógica predatória. O cordeiro não se transforma em lobo para cumprir sua missão. A Igreja perde sua identidade quando combate a violência reproduzindo a violência, quando responde ao ódio com outro ódio, quando transforma adversários em inimigos absolutos ou quando usa Deus para justificar agressões. Jesus já havia repreendido a tentativa de recorrer à espada em sua defesa (Mt 26,52) e afirmado diante de Pilatos: “Meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36), não significando que seu Reino seja indiferente à história, mas que não opera segundo a lógica dos poderes coercitivos. O envio sem bolsa, alforje e sandálias deve ser compreendido dentro da realidade da missão itinerante antiga. Não é uma condenação simplista dos recursos materiais, mas uma pedagogia da dependência. O discípulo não chega como conquistador. Ele precisa receber hospitalidade. Precisa sentar-se à mesa. Precisa ouvir. Precisa aceitar a vulnerabilidade de depender do outro. Isso é teologicamente profundo porque impede que a missão se transforme em exercício de superioridade. Quem anuncia também precisa receber. Quem evangeliza também precisa ser evangelizado pela realidade encontrada. A hospitalidade torna-se espaço de encontro. Em Lucas, a mesa possui enorme importância teológica: 

  • Jesus come com pecadores (Lc 5,29-32)
  •  Aceita hospitalidade de Marta e Maria (Lc 10,38-42)
  • Entra na casa de Zaqueu (Lc 19,1-10) 
  • Depois da ressurreição, torna-se reconhecido no partir do pão (Lc 24,30-35). 

O Reino chega também através de uma mesa compartilhada. O primeiro anúncio dentro da casa é “Paz a esta casa” (Lc 10,5). Não se trata de uma fórmula superficial. O conceito bíblico de shalom envolve integridade, reconciliação, segurança, justiça e vida em plenitude. O discípulo chega oferecendo paz, não medo. Essa palavra confronta uma religiosidade baseada na ameaça permanente, na manipulação da culpa e na exploração da fragilidade humana. Jeremias denuncia profetas que proclamavam “paz, paz” quando não havia paz (Jr 6,14). Isaías ensina que o jejum agradável a Deus envolve romper as cadeias da injustiça, repartir o pão com o faminto e acolher o necessitado (Is 58,6-8). Tiago afirma que desejar paz a quem está faminto sem oferecer alimento é uma fé morta (Tg 2,15-17). A paz cristã nunca pode ser utilizada para esconder estruturas que produzem sofrimento.

Por isso Jesus acrescenta: “Curai os doentes que nela houver e dizei-lhes: O Reino de Deus está próximo” (Lc 10,9). Palavra e ação permanecem inseparáveis. O anúncio do Reino precisa tocar a vida concreta. Em Lucas 4,18-19, Jesus apresenta sua missão mediante a linguagem de Isaías: boa notícia aos pobres, libertação aos cativos, recuperação da vista e liberdade aos oprimidos. Em Lucas 7,22, as curas e o anúncio aos pobres aparecem como sinais da ação messiânica. A evangelização, portanto, não pode ser reduzida à transmissão de fórmulas religiosas. Se o Evangelho é anunciado, mas os vulneráveis continuam abandonados, alguma coisa essencial foi perdida. A cura bíblica também possui dimensão social: reintegrar pessoas excluídas, devolver dignidade, romper estigmas e permitir que alguém volte a participar da comunidade.

Hoje ainda  existem milhões de pessoas cercadas por comunicação e, ao mesmo tempo, mergulhadas em solidão. Existem famílias destruídas pela violência, trabalhadores submetidos à precarização, populações empurradas para as margens urbanas, crianças expostas à fome e à violência, idosos esquecidos, migrantes tratados como ameaça, jovens atravessados por ansiedade e crise de sentido. Há sociedades tecnologicamente avançadas que continuam incapazes de distribuir dignidade. Existe riqueza suficiente para alimentar multidões, mas permanecem pessoas sem o necessário. O problema contemporâneo não é simplesmente escassez; frequentemente é concentração, indiferença e incapacidade política e social de colocar a vida acima da acumulação. Lucas 10 pergunta à Igreja onde estão seus pés diante dessas feridas. .Jesus não envia os discípulos para conquistar consciências, fabricar dependentes ou controlar votos. A missão cristã não pode confundir evangelização com propaganda ideológica. A consciência humana possui dignidade diante de Deus. Jesus chama, ensina, confronta e convida, mas não cria uma espiritualidade baseada na coerção. Em João 8,11, diante da mulher acusada, ele não banaliza o pecado, mas também não permite que a pessoa seja reduzida à sua culpa. Em Marcos 10,42-45, contrapõe a lógica do Reino à lógica dos governantes que dominam os povos: entre os discípulos, quem quiser ser grande deve servir. A autoridade cristã encontra sua legitimidade no serviço, não na capacidade de controlar.

Quando uma cidade rejeita os enviados, Jesus ordena que sacudam o pó dos pés e continuem. Esse gesto possui dimensão profética. O discípulo não controla a liberdade de quem escuta. A missão inclui a possibilidade da recusa. A Igreja precisa recuperar essa liberdade porque uma fé que necessita de coerção já perdeu a confiança na força da Palavra. Ezequiel é enviado a uma casa rebelde e Deus lhe diz que, quer ouçam, quer deixem de ouvir, saberão que houve profeta entre eles (Ez 2,5). Paulo e Barnabé, em Atos 13,46-51, diante da rejeição, seguem adiante. O Evangelho não depende da aprovação universal. A verdade não precisa ser imposta para ser verdadeira.

A advertência sobre Sodoma, em Lucas 10,12, tampouco pode ser usada como instrumento de maldição contra adversários. Sodoma tornou-se símbolo bíblico de corrupção e violência, mas Ezequiel oferece uma interpretação particularmente importante: “Eis qual foi a culpa de Sodoma: orgulho, fartura de pão e despreocupada tranquilidade, mas não amparava o pobre e o necessitado” (Ez 16,49). A denúncia profética revela que o pecado não está somente em atos individuais, mas também em estruturas de indiferença. Uma sociedade que possui abundância e permite que pessoas sejam descartadas precisa escutar novamente essa palavra. A fé não pode ser uma cortina colocada diante da desigualdade.

É nesse ponto que a primeira leitura de Jó ilumina profundamente o Evangelho. Jó pergunta por que seus amigos o tratam como culpado quando ele está sofrendo e clama: “Eu sei que o meu Redentor está vivo” (Jó 19,25). O sofrimento humano não é automaticamente prova de culpa. Essa afirmação precisa ser ouvida numa sociedade que frequentemente responsabiliza a vítima por sua própria dor. 

  • O pobre é acusado de não ter se esforçado
  • O dependente é reduzido ao vício
  • A mulher violentada é interrogada sobre sua conduta
  • O desempregado é culpabilizado por sua situação
  • O doente é julgado moralmente. 

Jó rompe essa lógica. O sofrimento exige proximidade, não acusação. E Lucas 10 envia discípulos justamente para lugares onde pessoas precisam encontrar paz, cuidado e esperança. O Salmo proclamado nesse contexto recorda que o Senhor é luz, salvação e fortaleza. A fé bíblica não nega a escuridão; atravessa-a. O discípulo não é enviado porque possui todas as respostas, mas porque recebeu uma esperança que precisa tornar-se serviço. A comunidade cristã deve ser lugar onde a pessoa ferida possa respirar novamente, onde a verdade não seja usada para esmagar, onde a correção não destrua a dignidade e onde a misericórdia não seja confundida com permissividade. A profecia cristã denuncia o pecado justamente porque acredita na possibilidade de conversão. 

A passagem, portanto, não oferece somente um programa missionário. Ela apresenta uma antropologia espiritual,  o ser humano precisa de sentido, vínculo, reconhecimento, esperança e justiça. Uma Igreja que oferece apenas respostas religiosas prontas, sem escutar a experiência humana, corre o risco de produzir dependência em vez de maturidade. O discípulo entra na casa, escuta, recebe hospitalidade, anuncia, cura e parte e não ocupa a casa. Não se torna proprietário da consciência alheia. Essa imagem deveria provocar profundo exame de consciência nas comunidades cristãs. Ministro ordenado é pastor, não proprietário. Líder religioso é servidor, não soberano. Comunidade é lugar de comunhão, não comitê de interesses. A autoridade cristã só permanece evangélica quando se deixa julgar pelo Cristo servidor.

O Reino de Deus está próximo. Essa frase não aponta simplesmente para um acontecimento futuro. O Reino começa a aparecer quando a realidade humana é tocada pela justiça de Deus. Aproxima-se quando uma criança deixa de passar fome, quando uma vítima encontra proteção, quando uma família encontra reconciliação, quando um trabalhador recebe dignidade, quando alguém discriminado recupera sua voz, quando uma comunidade rompe com o racismo, quando uma liderança abandona a vaidade, quando uma religião deixa de manipular e começa a formar consciências livres, responsáveis e solidárias. O Reino aproxima-se quando a misericórdia se torna prática. Mateus 25,31-46 mostra que o encontro com o necessitado possui dimensão escatológica. Não existe neutralidade diante da fome, da violência e da humilhação humana. Por isso Lucas 10 permanece uma palavra incômoda. Jesus continua caminhando à frente, e os discípulos precisam caminhar atrás dele. A Igreja não é chamada a ocupar o lugar de Cristo, mas a preparar seus caminhos. Somos enviados como cordeiros, não como lobos; como servidores, não como dominadores; como hóspedes, não como proprietários; como testemunhas, não como donos da verdade. O mundo continua sendo uma grande colheita, marcada por sofrimento e esperança. Há casas esperando paz, pessoas esperando cuidado, consciências procurando sentido e sociedades necessitando de justiça. A pergunta decisiva não é quantas pessoas frequentam nossos templos, mas que transformação acontece porque o Evangelho passou por nossas vidas. Que o Senhor da colheita nos livre da religião vazia, da vaidade espiritual, da manipulação e da indiferença. 

Que  Jesus nos envie.e nos conceda coragem profética para denunciar aquilo que destrói a dignidade humana e  também  nos conceda  a humildade suficiente para reconhecer nossas próprias contradições. E que, caminhando com Jesus, possamos entrar nas estradas de nosso tempo anunciando não uma religião de medo, mas a Boa Nova que cura, reconcilia, liberta e devolve esperança: o Reino de Deus está próximo. 

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 27 de setembro de 2026

Um breve olhar sobre Lucas 9,46-50.

A liturgia da 26ª segunda-feira do Tempo Comum  no trás Lucas 9,46-50 no calendário romano. O Evangelho é proclamado depois da primeira leitura de Jó 1,6-22 e do Salmo 16(17), e aparece imediatamente depois de Lucas 9,43b-45, proclamado no sábado anterior, quando Jesus anuncia novamente que o Filho do Homem será entregue às mãos dos homens. Essa sequência litúrgica é importante porque impede que a discussão dos discípulos sobre quem seria o maior seja lida como um episódio isolado. Lucas coloca a disputa por grandeza imediatamente depois do anúncio da paixão, criando um contraste deliberadamente desconcertante: 

  • Enquanto Jesus fala de entrega, os discípulos pensam em posição
  • Enquanto o Mestre anuncia vulnerabilidade, eles discutem precedência
  • Enquanto Jesus caminha para Jerusalém e para a cruz, seus seguidores ainda carregam dentro de si uma expectativa de poder. 
O calendário litúrgico, portanto, permite perceber uma unidade narrativa que o leitor poderia perder se separasse artificialmente os episódios. Outras tradições cristãs históricas organizam suas leituras de maneira diferente, pois não existe um único lecionário utilizado por todas as Igrejas, mas a diversidade dos calendários não elimina a convergência fundamental em torno da tradição evangélica: Jesus redefine a grandeza, deslocando-a do domínio sobre os outros para a capacidade de acolher, servir e colocar-se junto daqueles que não ocupam posições de prestígio. Lucas conduz o leitor até essa cena por um caminho cuidadosamente construído. Em Lucas 9,1-6, proclamado na quarta-feira da 25ª semana do Tempo Comum, Jesus envia os Doze para anunciar o Reino de Deus e curar os enfermos. Em Lucas  9,10-17, a multidão faminta coloca diante dos discípulos uma necessidade concreta que eles não podem simplesmente transferir para outro lugar. O problema do pão passa a fazer parte da missão e em Lucas  9,18-22 na sexta-feira da 25ªsemanadoTempoComum, Pedro reconhece Jesus como o Cristo, mas imediatamente precisa aprender que o Messias não corresponde às expectativas triunfalistas que poderiam acompanhar esse título logo após Lucas 9, 7-9 quando Herode deseja saber quem é Jesus. 
Jesus ao  anunciar sua paixão, a cruz e a necessidade de perder a vida para encontrá-la tal contexto ocorre  com os discípulos  logo apos lucas  9,28-36, a transfiguração manifesta a glória do Filho, mas a experiência da glória não elimina o caminho do sofrimento. Logo depois, quando todos estão admirados com as obras realizadas por Jesus, ele declara que o Filho do Homem será entregue às mãos dos homens. É exatamente nesse momento que os discípulos começam a discutir sobre quem seria o maior. A sequência revela uma contradição profundamente humana: Jesus está ensinando uma lógica de entrega, enquanto eles ainda raciocinam segundo uma lógica de posição. O Evangelho não esconde essa imaturidade porque não pretende construir uma imagem idealizada dos primeiros discípulos. Ao contrário, mostra homens que amam Jesus, recebem uma missão e, simultaneamente, precisam permitir que sua maneira de pensar seja transformada pelo caminho do Mestre.

Lucas  ao afirma que surgiu entre eles uma discussão sobre qual deles seria o maior,  não se trata simplesmente de uma curiosidade sobre cargos ou funções. A pergunta revela uma forma de construir identidade por meio da comparação. A pessoa deseja saber quem é perguntando onde está em relação aos outros, a grandeza passa a depender da posição ocupada numa escala de reconhecimento e  esse mecanismo não pertence apenas ao mundo antigo. Ele continua presente na experiência humana contemporânea, nas relações familiares, profissionais, políticas, religiosas e digitais. A comparação pode produzir competição permanente porque o valor pessoal passa a depender da superioridade percebida diante de alguém. 

  • Em vez de perguntar quem sou e para que existo, o indivíduo passa a perguntar se é mais reconhecido, mais influente, mais inteligente, mais rico, mais importante ou mais próximo do centro do poder do que os outros. 

A disputa dos discípulos, portanto, possui uma dimensão antropológica e psicológica profunda. Eles não estão apenas discutindo posições; estão tentando estabelecer seu próprio valor dentro do grupo. A linguagem bíblica do coração ajuda a compreender a profundidade dessa questão, na Escritura, o coração não é apenas o lugar dos sentimentos, mas o centro da pessoa, onde desejos, decisões, projetos e orientações fundamentais se articulam. 

  • Jeremias 17,10 apresenta Deus como aquele que perscruta o coração e examina os pensamentos.
  • O Salmo 139 afirma que Deus conhece os caminhos humanos antes mesmo que sejam plenamente expressos. 
Jesus, portanto, não precisa apenas corrigir o comportamento externo dos discípulos. Ele precisa atingir a fonte interior da disputa. A ambição pode aparecer revestida de linguagem religiosa e até de aparência de serviço. Alguém pode pregar para ser admirado, estudar para humilhar quem sabe menos, coordenar para controlar, servir para acumular reconhecimento ou ocupar um ministério para transformar uma responsabilidade comunitária em território pessoal. A autoridade, entretanto, não é apresentada por Jesus como um mal em si mesma. Toda comunidade necessita de responsabilidades, organização, liderança e discernimento. O problema começa quando a missão se transforma em propriedade, quando a autoridade deixa de ser serviço e passa a funcionar como mecanismo de autopromoção, imunidade ou domínio sobre a consciência dos outros. É nesse contexto que Jesus realiza um gesto simples e profundamente subversivo. Ele toma uma criança, coloca-a junto de si e utiliza aquela presença para ensinar aos discípulos o que significa ser grande. Para compreender o gesto, é necessário evitar uma leitura sentimental que simplesmente projete sobre o mundo antigo a imagem moderna da criança como centro afetivo da família. No ambiente mediterrâneo do primeiro século, a criança dependia profundamente dos adultos e possuía pouca autonomia social, econômica e jurídica. Não representava prestígio, poder ou capacidade de retribuição. Sua condição era marcada pela dependência. Por isso, o gesto de Jesus não deve ser reduzido à ideia abstrata de que crianças são inocentes e, por isso, devemos imitá-las. O ponto narrativo é mais radical: Jesus coloca no centro alguém que não ocupava o centro. Ele introduz na discussão sobre grandeza uma pessoa cuja posição social não conferia prestígio. Aquele que os discípulos provavelmente não escolheriam como referência para uma disputa de poder torna-se a chave para compreender a grandeza no Reino de Deus.

Jesus não responde à pergunta sobre quem é o maior colocando alguém acima dos demais; ele coloca uma criança no meio deles e, assim, muda a própria pergunta. Essa inversão é essencial. O Reino de Deus não cria uma competição religiosa mais sofisticada na qual os humildes competem para demonstrar quem é o mais humilde. Jesus desmonta a própria lógica que transforma a dignidade em uma escala de superioridade. A criança torna-se sinal de uma condição que exige acolhimento, cuidado e responsabilidade. A grandeza passa a ser medida não pelo domínio exercido sobre aqueles que estão abaixo, mas pela disposição de aproximar-se daqueles que não possuem poder para oferecer prestígio em troca. Por isso, a palavra de Jesus sobre receber uma criança em seu nome possui uma profundidade cristológica. Quem recebe uma criança em nome de Jesus recebe o próprio Jesus, e quem recebe Jesus recebe aquele que o enviou. A cadeia da acolhida revela uma teologia da presença e da missão: o enviado não está separado daquele que o envia. Acolher aquele que não pode retribuir torna-se, portanto, uma forma concreta de acolher o próprio Deus. A lógica atravessa toda a Escritura. 

  • Êxodo 3,7-10, Deus escuta o clamor dos escravizados e envia Moisés para libertá-los. 
  • Isaías 58,6-7, o culto agradável ao Senhor está ligado ao rompimento das opressões, à partilha do pão e ao cuidado com quem sofre. 
  • Amós 5,21-24 denuncia uma religiosidade que celebra solenidades enquanto tolera injustiça e exige que a justiça corra como água. 
  • Miquéias 6,8 resume a vontade de Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com o Senhor. 
  • No Magnificat, Maria proclama que Deus derruba poderosos de seus tronos e eleva os humildes. 
  • Em Lucas 4,18-19, Jesus apresenta sua missão em termos de boa notícia aos pobres, libertação aos cativos e restauração aos oprimidos.
 A criança de Lucas 9 pertence, portanto, à mesma gramática bíblica da inversão pela qual Deus revela sua presença justamente onde a lógica do prestígio tende a enxergar pouca importância. Quando Jesus afirma que o menor entre todos é grande, ele não está simplesmente criando uma nova tabela de posições. Ele está questionando o próprio princípio segundo o qual o valor humano depende do lugar ocupado diante dos outros. 

  • Marcos 9,33-37 torna explícita a relação entre o primeiro lugar e o serviço, afirmando que quem deseja ser o primeiro deve ser o último e servo de todos. 
  • Mateus 18,1-5 aproxima a pergunta sobre quem é o maior da criança e relaciona essa questão à conversão e à acolhida dos pequenos.
 Lucas possui sua própria ênfase narrativa: coloca a criança ao lado de Jesus e estabelece uma relação entre acolhida, missão e representação daquele que enviou o Filho. As diferenças entre os Evangelhos não precisam ser apagadas em uma harmonização artificial. Marcos enfatiza o serviço, Mateus aprofunda a conversão comunitária e a responsabilidade pelos pequenos, enquanto Lucas relaciona a acolhida do pequeno com a própria acolhida de Jesus e do Pai. As três tradições preservam, entretanto, a mesma ruptura fundamental com uma mentalidade baseada no prestígio. A grandeza cristã, desse modo, não consiste em ocupar uma posição superior, mas em assumir uma existência orientada para o outro. Isso muda também a compreensão da autoridade. O Evangelho não elimina autoridade, liderança ou organização; ele redefine sua finalidade. A autoridade cristã encontra sua legitimidade quando protege, serve, orienta, corrige com justiça, presta contas e cria condições para que os outros cresçam. Quanto maior a responsabilidade, maior deveria ser a disposição para servir e para responder diante daqueles que dependem daquela autoridade. Em Marcos 10,42-45, Jesus contrapõe o modelo dos governantes que dominam ao caminho do Filho do Homem que serve. Em João 13,1-17, o lava-pés transforma essa lógica em gesto corporal. O poder, no Evangelho, não desaparece; ele é convertido em serviço. Quando uma função religiosa passa a funcionar como privilégio, blindagem pessoal ou instrumento de dependência, ela se distancia da lógica apresentada pelo próprio Cristo.

A segunda cena de Lucas 9,46-50 parece mudar de assunto, mas na verdade revela a mesma raiz espiritual. João informa que os discípulos encontraram alguém expulsando demônios em nome de Jesus e tentaram impedi-lo porque ele não caminhava com eles. O problema agora não é apenas quem é o maior dentro do grupo, mas quem possui o direito de agir fora dele. Primeiro os discípulos querem saber quem ocupa o primeiro lugar entre os seus; depois querem impedir alguém que não pertence ao círculo. Em ambos os casos aparece a mesma tentação de controlar a definição de quem importa, quem pertence e quem pode participar da ação de Deus. A expressão “não anda conosco” é reveladora porque desloca o centro da missão: em vez de perguntarem se uma pessoa está libertando alguém do sofrimento, preocupam-se com sua vinculação ao grupo. Jesus rejeita essa lógica. O bem realizado por outro não precisa carregar a assinatura dos discípulos para ser reconhecido como bem. A questão não significa que Jesus esteja ensinando ausência de discernimento. O Novo Testamento conhece a necessidade de examinar os espíritos, avaliar ensinamentos e distinguir verdade de engano. Primeira João 4,1, por exemplo, recomenda que os espíritos sejam provados. Paulo também oferece critérios para discernir a vida comunitária e seus frutos. O problema é transformar discernimento em monopólio. Discernir significa avaliar segundo a verdade e os frutos; monopolizar significa presumir que somente aquilo que passa pelo nosso controle pode ser legítimo. Lucas 9,50 preserva uma palavra de Jesus que impede essa captura da ação de Deus: “quem não é contra vós é a vosso favor”. A fidelidade a Cristo não significa controlar tudo aquilo que Deus pode realizar por meio de pessoas que não pertencem ao nosso círculo.

Essa advertência possui grande força para as comunidades cristãs contemporâneas. Toda religião organizada corre o risco de transformar fidelidade em propriedade. Um ministério pode tornar-se território pessoal, um carisma pode transformar-se em marca, uma liderança pode exigir dependência emocional e uma estrutura religiosa pode começar a agir como se Deus estivesse obrigado a respeitar suas fronteiras institucionais. O problema torna-se ainda mais grave quando a linguagem espiritual é utilizada para capturar a consciência. A autoridade religiosa pode ser apresentada como vontade divina, a discordância pode ser chamada de rebeldia, perguntas legítimas podem ser tratadas como falta de fé e vítimas podem ser silenciadas em nome da preservação da instituição. Nesse ponto, a religião deixa de conduzir a pessoa à liberdade diante de Deus e começa a produzir dependência diante de líderes.

Jesus oferece outro caminho. Ele não permite que seu nome seja transformado em propriedade privada ou em cabo eleitoral de A ou B. Sua missão não é criar uma elite religiosa capaz de controlar o acesso ao sagrado, mas anunciar e manifestar o Reino de Deus. A comunidade cristã precisa, portanto, aprender a discernir sem controlar, corrigir sem humilhar, exercer autoridade sem dominar e proteger a verdade sem fabricar donos de Deus. O Evangelho não autoriza ninguém a colocar-se no lugar da consciência do outro. A fé cristã pode orientar, ensinar e corrigir, mas não deve transformar o nome de Deus em instrumento para impedir a responsabilidade pessoal, a investigação honesta e a dignidade humana.  Jesus viveu em uma sociedade mediterrânea estruturada por relações de honra e vergonha, patronagem, hierarquias familiares, diferenças econômicas e formas religiosas de pertencimento. A Galileia e a Judeia estavam inseridas no mundo político do Império Romano, embora apresentassem configurações locais complexas e diferentes níveis de administração e autonomia. Nesse universo, honra pública constituía importante forma de capital social. Ser reconhecido como maior significava possuir precedência, voz, influência e capacidade de estabelecer relações favoráveis. A pergunta dos discípulos não é, portanto, uma curiosidade psicológica desligada do mundo social. Ela participa de uma cultura em que posição e dignidade frequentemente se confundiam. Jesus interrompe essa associação. Ele não afirma que responsabilidades sejam desnecessárias, mas recusa a ideia de que uma pessoa seja mais digna porque ocupa uma posição superior.

Ainda hoje a grandeza pode ser medida por seguidores nas redes sociais, patrimônio, visibilidade, cargo, títulos, influência política, proximidade com pessoas poderosas, consumo ou capacidade de produzir audiência. A atenção tornou-se uma espécie de moeda social. Nesse ambiente, o outro pode deixar de ser próximo para tornar-se concorrente, e o valor da pessoa pode ser calculado segundo aquilo que ela consegue produzir, exibir ou devolver. A lógica de Lucas 9 nos obriga a perguntar quem permanece invisível quando construímos nossas prioridades. A pessoa em situação de rua pode ser vista apenas como problema urbano; o migrante pode ser reduzido a estatística; o trabalhador precarizado pode ser lembrado somente quando sua ausência interrompe algum serviço; a criança vítima de violência pode desaparecer do debate quando sua história deixa de produzir audiência. A criança colocada por Jesus no centro da cena questiona precisamente uma sociedade que tende a conceder visibilidade proporcionalmente ao poder de quem aparece. E essa inversão também desafia a incoerência de uma sociedade que afirma proteger os vulneráveis enquanto tolera fome, abandono, violência, exploração, racismo, desigualdade e falta de oportunidades. Uma comunidade pode construir estruturas religiosas grandiosas e permanecer indiferente ao sofrimento cotidiano. Pode falar continuamente sobre família e ignorar crianças expostas à violência. Pode defender a vida em linguagem abstrata e, ao mesmo tempo, não se comprometer com as condições concretas necessárias para que a vida floresça. Tiago 2,14-17 pergunta qual é o valor de uma fé que deseja paz ao necessitado, mas não oferece aquilo de que ele precisa para viver. A nossa  fé  não devia  permitir a  separação  entre o culto e a justiça. A fé não pode funcionar como anestesia diante das estruturas que produzem sofrimento.

A Igreja necessita de ministérios, responsabilidades, organização e autoridade. O problema aparece quando a função se converte em privilégio, quando a autoridade passa a significar imunidade à correção, quando a voz de quem sofre é considerada menos digna de escuta simplesmente porque não possui cargo ou título, ou quando uma instituição protege sua imagem em detrimento da verdade. Jesus coloca uma criança ao lado de si, e esse gesto estabelece uma medida para o exercício do poder. Quanto maior a responsabilidade, maior deveria ser a disposição para proteger os vulneráveis, prestar contas e ouvir aqueles que possuem menos voz. A autoridade cristã não deveria perguntar primeiro quantas pessoas obedecem, mas quantas pessoas encontram proteção, dignidade, liberdade e espaço para crescer.

A narrativa de Lucas mostra que essa conversão não acontece de uma vez e em  Lucas 9,51, Jesus toma a decisão de caminhar para Jerusalém. O caminho do Messias será marcado por rejeição, sofrimento, morte e ressurreição. A discussão sobre grandeza ocorre, portanto, diante de uma cruz que os discípulos ainda não conseguem compreender. Mais tarde, em Lucas 22,24-27, já próximo da paixão, eles voltam a discutir sobre quem seria o maior. Jesus responde novamente que está entre eles como aquele que serve e essa repetição é teologicamente importante porque mostra que o discipulado é um processo. Os discípulos recebem a missão, experimentam o poder de anunciar, presenciam milagres, reconhecem Jesus como Messias e, mesmo assim, continuam carregando estruturas de pensamento incompatíveis com o caminho da cruz. O Novo Testamento não esconde esse processo. A comunidade apostólica aprende, erra, discerne, entra em conflito e precisa ser corrigida. Essa honestidade impede tanto a arrogância institucional quanto o desespero diante das fragilidades humanas. A pergunta profética que nasce de Lucas 9,46-50, portanto, não é simplesmente quem ocupa o primeiro lugar. A pergunta mais profunda é:

  •  Quem está sendo colocado no centro quando decidimos, distribuímos recursos, exercemos autoridade e definimos quem merece ser ouvido.
  1.  Uma paróquia pode possuir muitas atividades e ainda estar organizada em torno da visibilidade de poucos
  2.  Um movimento pode denunciar injustiças externas e reproduzir autoritarismo internamente
  3. Uma liderança pode falar constantemente sobre humildade e produzir dependência. 
  4. Uma instituição pode defender a dignidade humana em seus documentos e tratar pessoas concretas como inconvenientes quando elas ameaçam sua imagem. 
O Evangelho exige que também examinemos o modo como utilizamos o poder quando ele passa por nossas mãos, não basta denunciar o poder quando está nas mãos dos adversários, a pergunta de Jesus torna-se especialmente séria quando o poder está do nosso lado..Também é necessário reconhecer o mecanismo que sustenta muitas dessas disputas. A comparação oferece ao indivíduo uma maneira aparentemente simples de definir seu valor: 

  • Sou alguém porque sou mais reconhecido do que outro. 
  • porque tenho mais influência.
  • porque minha opinião pesa mais
  •  porque pertenço a um grupo considerado superior. 
O problema é que essa identidade precisa ser constantemente defendida. Quem constrói seu valor sobre superioridade precisa encontrar continuamente alguém que esteja abaixo. O Evangelho rompe esse mecanismo ao substituir a pergunta “sou maior que quem?” por outra completamente diferente: “a quem estou servindo?”. A primeira pergunta constrói identidade por comparação; a segunda constrói identidade por responsabilidade. Na lógica de Jesus, a maturidade não consiste em vencer a competição pela humildade, mas em deixar de precisar da competição para saber quem somos. Por isso, Lucas 9,46-50 permanece como palavra de juízo e também como palavra de esperança. 

  • É juízo contra a soberba que transforma serviço em autopromoção, contra a religião que fabrica donos de Deus, contra a instituição que esquece os pequenos e contra a comunidade que confunde unidade com uniformidade. 
  • Mas é também esperança porque Jesus não abandona os discípulos por causa de sua imaturidade. Ele os educa. Coloca o pequeno no centro, amplia o horizonte da missão e ensina que o bem não precisa carregar nossa assinatura para ser reconhecido como bem. 
O Reino de Deus cresce quando pessoas encontram libertação, quando vítimas são ouvidas, quando famintos recebem pão, quando crianças são protegidas, quando pobres recuperam dignidade e quando comunidades aprendem a servir sem exigir aplausos. O contraste entre Lucas 9,43b-45 e Lucas 9,46-50 continua sendo  uma das imagens mais fortes para compreender o discipulado cristão. Jesus anuncia que será entregue, enquanto os discípulos discutem quem será o maior. O Filho do Homem caminha em direção à vulnerabilidade, enquanto seus seguidores ainda imaginam a grandeza como posição. A cruz revela, então, o verdadeiro critério da autoridade cristã. O Cristo que será entregue não conquista sua grandeza dominando os outros, mas oferecendo-se por eles. Por isso, qualquer autoridade cristã que se afaste radicalmente da lógica da entrega perde o centro cristológico de sua própria legitimidade. A cruz não é apenas um acontecimento do passado; ela é também o critério pelo qual o poder cristão deve ser julgado.

Que este Evangelho atravesse nossas consciências como palavra viva e revele as disputas escondidas em nosso coração, as estruturas que produzem pequenos e as formas religiosas pelas quais tentamos transformar Deus em instrumento de poder. Que a Igreja tenha coragem de renunciar ao prestígio que não nasce do serviço e reconheça a ação de Deus onde a vida está sendo restaurada, mesmo quando essa ação não acontece dentro das fronteiras que gostaríamos de controlar. Que nossas comunidades sejam conhecidas não pelo tamanho de seus templos, pela celebridade de seus líderes, pela força de suas marcas ou pela quantidade de pessoas que conseguem reunir, mas pela maneira como acolhem aqueles que nada podem oferecer em troca. A grandeza cristã não se encontra acima do outro, mas junto dele; não se mede pela quantidade de pessoas que obedecem, mas pela quantidade de vidas que encontram espaço para respirar, crescer e recuperar dignidade. Na  verdade, Jesus não apenas responde à pergunta dos discípulo e as nossas; ele desmonta a pergunta quando ela nasce de uma lógica de competição. A criança colocada no centro revela que o Reino não começa quando os poderosos aprendem a parecer humildes, mas quando aqueles que normalmente seriam empurrados para a margem passam a ser vistos, ouvidos e acolhidos. A segunda cena amplia a mesma revelação ao mostrar que Deus não pode ser aprisionado pelas fronteiras de um grupo. Assim, o Evangelho confronta simultaneamente nossa necessidade de superioridade e nossa necessidade de controle. Ele nos chama a abandonar a obsessão por estar acima e a desenvolver a disposição de estar junto. Diante do Deus revelado em Jesus, toda autoridade encontra sua verdade quando se faz serviço, toda fé encontra sua autenticidade quando produz misericórdia e toda comunidade encontra sua grandeza quando sabe acolher o pequeno. A pergunta permanece diante de cada discípulo e de cada comunidade: quem estamos colocando no centro e quem estamos empurrando para a margem? A resposta será encontrada menos em nossas palavras religiosas do que na maneira como usamos o poder, tratamos os vulneráveis, reconhecemos o bem realizado por outros e organizamos nossa própria vida. Enquanto Jesus caminha para a entrega de si, o discípulo é convidado a abandonar a disputa por posição e aprender, pouco a pouco, que no Reino de Deus a verdadeira grandeza não consiste em estar acima de alguém, mas em tornar-se presença de cuidado, justiça e misericórdia junto daqueles que o mundo insiste em considerar pequenos.

DNonato - Teólogo do Cotidiano. 

sábado, 26 de setembro de 2026

Um olhar sobre São Mateus 21,28-32 ./ 26º Domingo do Tempo Comum .

 

A liturgia do 26º Domingo do Tempo Comum, Ano A e a..seguinte: Ezequiel 18,25-28; Salmo 24,4bc-5.6-7.8-9 (R. 6a); Filipenses 2,1-11 e  Mateus 21,28-32 também  proclamado  na terça-feira  da 3ª semana do Tempo do advnto  e  coloca diante de nós uma pergunta que atravessa as quatro leituras: Onde se manifesta verdadeiramente a vontade de Deus?

  • Ezequiel 18,25-28 enfrenta a acusação de que o caminho do Senhor seria injusto e responde afirmando a responsabilidade humana. O justo que abandona a justiça e o pecador que abandona o mal não permanecem definidos para sempre pelo passado. Deus considera o caminho assumido e a possibilidade real de conversão.  Os profetas nunca permitiram que o culto fosse utilizado como substituto da justiça. Jesus permanece dentro dessa tradição e a leva ao seu ponto máximo. Deus não se deixa impressionar pela aparência religiosa quando a vida contradiz aquilo que os lábios proclamam.
  • Salmo 24(25) transforma essa certeza em súplica: “Recordai, Senhor meu Deus, vossa ternura e compaixão”. O salmista reconhece que precisa aprender novamente as veredas do Senhor. O Salmista  oferece a atitude espiritual necessária para essa conversão: “Mostrai-me, Senhor, vossos caminhos”. Essa oração pressupõe humildade. Quem pede para aprender reconhece que ainda não sabe tudo. A pessoa religiosa corre sempre o risco de confundir conhecimento sobre Deus com conhecimento da vontade de Deus. Pode dominar textos, doutrinas, fórmulas e tradições e, ainda assim, permanecer incapaz de reconhecer o caminho quando Deus o apresenta diante dela. O salmista pede que Deus o ensine porque sabe que a fidelidade é um caminho, não uma posse.
  • Filipenses 2,1-11 revela o rosto concreto dessa vontade divina em Cristo, que não se apega ao privilégio, mas assume a condição de servo e obedece até a cruz.  Paulo aprofunda essa questão mostrando qual é a forma desse caminho. Cristo não utiliza sua condição para dominar. Ele se esvazia, assume a condição de servo e obedece até a morte. A verdadeira autoridade cristã passa pelo serviço. Isso ilumina diretamente a questão do clericalismo. O problema não está na existência de ministérios ou responsabilidades dentro da Igreja, mas quando o serviço se transforma em privilégio, controle e superioridade. Jesus estabelece outro princípio em Marcos 10,42-45: entre seus discípulos, quem quiser ser grande deve tornar-se servidor. Em João 13,1-15, o Mestre lava os pés.
Mateus 21,28-32 reúne essas perspectivas na parábola dos dois filhos. Um diz não, mas depois vai; o outro diz sim, mas não vai. A questão decisiva não é aquilo que se declara, mas aquilo que a vida realiza. O autor  do primeiro  evangelho  situa a parábola num momento particularmente tenso do ministério de Jesus. Ele já entrou em Jerusalém, foi aclamado pelas multidões, confrontou a estrutura do Templo e agora enfrenta diretamente os sumos sacerdotes e os anciãos. Em Mateus 21,23, eles perguntam: “Com que autoridade fazes estas coisas?”. A pergunta não é meramente teológica. Trata-se de uma disputa sobre autoridade, legitimidade e controle do espaço religioso. Jesus responde remetendo-os a João Batista. Se reconhecessem que o batismo de João vinha de Deus, teriam de reconhecer sua própria resistência à conversão. Se o negassem, entrariam em conflito com o povo. Diante do “não sabemos”, Jesus conta a parábola. O contexto revela seu caráter profético. Ele não está oferecendo uma lição abstrata sobre boas maneiras, mas confrontando uma religião que pode conhecer a linguagem da vontade de Deus sem praticá-la.

A vinha, nesse cenário, possui enorme densidade simbólica. Israel conhecia a imagem da vinha como representação do povo de Deus. Isaías 5 apresenta a vinha cuidadosamente plantada pelo Senhor que, em vez de frutos bons, produz injustiça. O Salmo 79(80) compara Israel à videira que Deus tirou do Egito e plantou. Jeremias 2,21 utiliza a mesma imagem para denunciar a infidelidade do povo. Quando Jesus fala em trabalhar na vinha, portanto, seus ouvintes percebem imediatamente a referência à aliança. A vinha não é um espaço de contemplação passiva. É o lugar onde a fidelidade precisa produzir frutos. Trabalhar nela significa assumir responsabilidade pela obra de Deus no mundo. É nesse ponto que a parábola atinge sua força. 

  • O primeiro filho recebe o chamado e responde: “Não quero”. Sua resposta é áspera, mas honesta. Depois, porém, arrepende-se e vai. 
  • O segundo responde de maneira respeitosa: “Sim, senhor”, mas não cumpre o que prometeu. 
O verbo utilizado para a mudança do primeiro filho indica uma reconsideração, uma mudança interior que produz uma ação diferente. A Bíblia conhece profundamente essa experiência. 

  • Moisés resiste ao chamado em Êxodo 3 e 4.
  •  Jeremias sente-se incapaz em Jeremias 1,6
  • Jonas foge em Jonas 1,3
  • Pedro nega Jesus e depois é restaurado em João 21,15-19. 
A Escritura não considera a resistência boa, mas também não transforma o erro inicial em destino definitivo. A graça permite recomeçar. Essa é uma das grandes esperanças do texto. O primeiro filho não é apresentado como modelo porque disse não, mas porque não ficou prisioneiro do próprio não. Ele mudou de caminho. Ezequiel 18 oferece a mesma perspectiva: Deus não reduz uma pessoa ao seu passado. O pecador que abandona sua injustiça encontra novamente o caminho da vida. A conversão bíblica não consiste apenas em sentir culpa. É mudança de direção. É permitir que a verdade alcance as escolhas concretas.

O segundo filho representa um perigo diferente. Seu problema não é a palavra errada, mas a palavra correta sem consequência. Ele sabe responder como se espera que um bom filho responda. Seu “sim” preserva a aparência de fidelidade, mas não modifica sua vida. É exatamente essa tensão que Jesus denuncia em outros momentos. Em Mateus 7,21, afirma: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai”. Em Mateus 15,8, retomando Isaías 29,13, denuncia aqueles que honram a Deus com os lábios enquanto o coração permanece distante. Lucas 6,46 formula a mesma pergunta: “Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos digo?”. Tiago 2,17 afirmará que uma fé sem obras está morta. Não se trata de opor fé e obras, como se a salvação pudesse ser comprada pelo desempenho humano. Trata-se de compreender que a fé verdadeira produz uma existência transformada. A ação não compra a graça; manifesta sua fecundidade. O problema do segundo filho é uma religião que permanece no discurso. Ele diz sim, mas não entra na vinha.

Jesus então produz o escândalo maior: “Os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus”. A frase não transforma o pecado em virtude. Publicanos e prostitutas não são apresentados como moralmente superiores. O que Jesus destaca é que eles acolheram a pregação de João e mudaram de caminho, enquanto aqueles que se consideravam guardiões da religião permaneceram fechados à conversão. A crítica de Jesus é dirigida à falsa segurança religiosa. Aqui a parábola se aproxima fortemente da tradição profética. 

  • Isaías 1,11-17 rejeita um culto abundante quando a injustiça permanece
  • Amós 5,21-24 denuncia festas religiosas acompanhadas da opressão dos pobres
  • Miqueias 6,8 resume a vontade de Deus em praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente. 

Por isso, Mateus 21 também é uma palavra para a própria Igreja. Não basta falar de Cristo; é necessário assumir sua forma de vida. Uma comunidade pode possuir liturgias belas, doutrina elaborada, estruturas eficientes e grande capacidade de comunicação e ainda permanecer distante da vinha. A pergunta é sempre a mesma: onde estão os frutos? A autoridade cristã precisa ser reconhecida pelo serviço, pela capacidade de escutar, pela defesa dos vulneráveis e pela disposição de corrigir seus próprios erros..A vinha é também o mundo concreto, não podemos reduzir sua imagem a uma experiência espiritual privada. É na vinha da história que estão os pobres, os trabalhadores explorados, as famílias atingidas pela violência, os idosos abandonados, os migrantes, os que vivem sem moradia, os enfermos, os presos, os que sofrem discriminação e aqueles cuja existência perdeu sentido. Mateus 25,31-46 apresentará precisamente esse critério: a relação com os famintos, sedentos, estrangeiros, enfermos e presos torna-se critério do encontro com Cristo.

A fé cristã não pode permanecer indiferente diante da desigualdade, também não pode transformar a pobreza em sinal automático de fracasso espiritual. A Escritura jamais autoriza uma associação simplista entre sofrimento e culpa. O livro de Jó já desmonta essa interpretação, e Jesus a rejeita em João 9,1-3. Da mesma forma, o Evangelho não apresenta riqueza como prova automática da bênção divina. Jesus afirma em Mateus 6,24 que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Em Lucas 12,15 adverte contra a ganância. Quando a religião promete prosperidade como consequência mecânica da fé, corre o risco de transformar Deus em instrumento de sucesso individual e de culpar o pobre por sua própria condição.

A crítica à religião vazia precisa alcançar também o individualismo. O Pai chama os filhos para uma vinha comum. Não existe aqui uma espiritualidade construída apenas para benefício pessoal. Filipenses 2 pede que os discípulos não ajam por competição ou vanglória, mas considerem também o bem do outro. A lógica de Cristo contradiz uma sociedade na qual cada pessoa é estimulada a competir por reconhecimento, dinheiro, influência e visibilidade. O Evangelho propõe outra grandeza: aquela que se expressa no serviço. Essa palavra possui também uma dimensão pública. A fé cristã não determina automaticamente escolhas partidárias, mas possui consequências éticas. Quem reconhece Deus como Pai não pode permanecer indiferente à dignidade dos seres humanos. Quem confessa Cristo como Senhor precisa confrontar qualquer forma de poder que transforme pessoas em objetos descartáveis. Os profetas denunciaram reis, sacerdotes, comerciantes e sistemas que enriqueciam à custa dos vulneráveis. Jesus continua essa tradição quando coloca os pequenos no centro do Reino.

Mas seria fácil usar essa crítica contra os outros. A parábola não permite essa fuga. Jesus pergunta: “Que vos parece?”. A pergunta devolve o espelho ao ouvinte. Podemos denunciar a hipocrisia religiosa e permanecer hipócritas em nossas relações. Podemos falar de justiça e praticar pequenas injustiças quando nos convêm. Podemos defender a misericórdia e conservar ressentimentos. Podemos condenar o poder alheio e desejar poder para nós mesmos. Podemos dizer que acreditamos no Evangelho e escolher diariamente aquilo que contradiz sua lógica. Por isso o primeiro filho permanece como sinal de esperança. Ele nos recorda que mudar é possível. A graça não elimina a liberdade humana, mas a desperta. Ezequiel 18 afirma que o caminho pode ser refeito. O Salmo pede que Deus ensine novamente suas veredas. O Evangelho mostra alguém que inicialmente recusou, mas depois entrou na vinha. A conversão cristã não é perfeição instantânea. É disponibilidade para mudar quando a verdade nos alcança.

Mateus também estabelece uma ligação profunda com João Batista. Jesus afirma que os publicanos e as prostitutas acreditaram em João. O profeta havia anunciado em Mateus 3,8: “Produzi frutos que mostrem conversão”. A palavra frutos é fundamental. A conversão precisa tornar-se visível. Não porque Deus necessite de provas para amar, mas porque uma transformação verdadeira alcança a existência concreta. Zaqueu, em Lucas 19,1-10, é um exemplo claro. Seu encontro com Jesus produz mudança na relação com o dinheiro e com aqueles que havia prejudicado. O arrependimento se torna reparação. A sequência das parábolas da vinha em Mateus 20 e 21 aprofunda essa perspectiva. Em Mateus 20, os trabalhadores são chamados em diferentes horários e recebem a generosidade do proprietário. Em Mateus 21,28-32, a questão passa a ser a resposta ao chamado. Em 21,33-46, a vinha torna-se cenário de conflito entre os responsáveis e o proprietário. Mateus constrói uma progressão teológica: a graça chama, a pessoa responde e a responsabilidade pode ser acolhida ou rejeitada. A vinha pertence ao Pai. Ninguém recebe autorização para apropriá-la como propriedade particular.

Essa perspectiva é especialmente importante para uma Igreja que vive em sociedades marcadas por disputas de poder. Nenhuma instituição religiosa possui Deus. Nenhum grupo possui o monopólio da verdade. Nenhuma liderança está acima da necessidade de conversão. A tradição cristã não existe para blindar seus representantes contra a Palavra, mas para submetê-los continuamente à Palavra. A comunidade precisa preservar sua memória, mas também permitir que o Evangelho julgue suas práticas. A parábola também impede a criação de uma nova elite moral. Depois de ouvir Jesus, ninguém pode concluir que agora os marginalizados são automaticamente bons e os religiosos automaticamente maus. O texto não cria uma inversão permanente de privilégios. Ele desmonta a lógica do privilégio. Publicanos e prostitutas entram antes porque acolheram a conversão; os líderes permanecem fora porque recusaram o chamado. A questão continua sendo a resposta à Palavra. O mesmo Evangelho que denuncia os religiosos também chama os marginalizados à transformação. A misericórdia não elimina a verdade, e a verdade não elimina a misericórdia.

Podemos  resumir  a liturgia  de  de hoje assim:  Ezequiel anuncia a possibilidade de mudança,  no Salmo pede que Deus ensine o caminho, em Filipenses mostra esse caminho configurado em Cristo servo e Mateus pergunta quem realmente o percorre. As leituras não são peças isoladas. Formam uma pedagogia espiritual. Deus chama, a pessoa precisa responder, a resposta deve tornar-se prática e a prática precisa assumir a forma do serviço. A palavra final, portanto, não é condenação, mas convocação. O Pai continua dizendo: “Filho, vai trabalhar hoje na vinha”. Hoje. Não amanhã. Não quando estivermos plenamente preparados. Não quando a sociedade estiver perfeita. Não quando a Igreja estiver livre de todas as suas contradições. A missão acontece agora. O Reino precisa de mãos disponíveis no meio de uma história marcada por sofrimento e esperança.

Alguma   vezes   já dizemos  não  e o Evangelho nos  anuncia que ainda podemos  voltar e  talvez outros tenham dito sim muitas vezes. O Evangelho lhes pergunta se seus pés acompanharam seus lábios.  Ainda existem comunidades cansadas, instituições feridas e pessoas decepcionadas e a Palavra não permite o cinismo. A vinha continua aberta. O desafio de hoje  é deixar que o “sim” se torne existência, que a oração produza misericórdia, que a liturgia produza compromisso, que a doutrina produza responsabilidade, que a fé produza justiça e que a esperança produza coragem. Jesus de Nazaré continua diante de nós perguntando: “Que vos parece?”. 

A resposta mais verdadeira não será encontrada em nossas declarações religiosas, mas no lugar onde colocamos nossos pés. A vinha está diante de nós e ali está o pobre que precisa de dignidade, o ferido que precisa de cuidado, o injustiçado que precisa de justiça, o pecador que precisa de uma possibilidade de recomeçar e também a própria Igreja, que precisa continuamente converter-se ao Evangelho que anuncia. Dizer sim é importante, mas entrar na vinha é indispensável.  O Reino de Deus não se constrói com palavras vazias, ele cresce quando homens e mulheres permitem que a Palavra se transforme em vida. Por isso, se ontem dissemos não, ainda podemos mudar. Se hoje dizemos sim, precisamos caminhar  e se percebemos que permanecemos parados, a graça ainda nos chama. O Pai não desistiu da vinha. A última palavra continua sendo um chamado à conversão, à justiça, à misericórdia e ao serviço. O Evangelho não nos pergunta simplesmente o que pensamos sobre Deus. Pergunta o que fazemos depois de ouvi-lo. E talvez seja exatamente aí que começa a verdadeira fé.


DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

QUANDO A FÉ ENTRA NA POLÍTICA: O EVANGELHO COMO CRITÉRIO

  • Entre o Evangelho e o palanque: o que a fé exige do cristão

Como membros da Igreja Católica, não podemos o transformar a nossa   fé em silêncio diante de propostas políticas que, quando confrontadas com o: Evangelho, o Catecismo da Igreja Católica, o Direito Canônico e o Magistério, entram em conflito com princípios fundamentais da fé cristã; da mesma maneira, porém, não podemos transformar a Igreja em partido, o altar em palanque ou Jesus Cristo em instrumento de propaganda eleitoral. O Direito Canônico reconhece ao fiel leigo o direito e, segundo sua competência, conhecimento e preeminência, também o dever de manifestar aos Pastores sua opinião sobre aquilo que diz respeito ao bem da Igreja, sempre preservando a integridade da fé e dos costumes, a reverência devida aos Pastores e o bem comum (Cân. 212 §3), enquanto o Cân. 225 §2  recordamos  aos leigos sua missão de impregnar a ordem temporal com o espírito do Evangelho; portanto, examinar projetos políticos à luz da fé não significa transformar a Igreja em partido, mas exercer a responsabilidade cristã de discernir aquilo que pode favorecer ou ferir a dignidade humana e o bem comum. É nesse horizonte que precisam ser examinadas algumas propostas apresentadas por Flávio Bolsonaro em seu plano de governo para 2027–2030. O documento propõe: 

  •  Reduzir de 18 para 16 anos a maioridade penal e estabelecer que maiores de 14 anos sejam punidos por crimes graves, como estupro, tráfico, tortura e assassinato.
  • Prevê ainda a criação de cinco novos presídios federais de segurança máxima.
  • 500 mil novas vagas no sistema prisional e uma política de endurecimento penal.
  •  Defende a implementação da chamada castração química para criminosos que abusam de mulheres e crianças. 
Essas propostas não são invenções de adversários: estão expressamente registradas no próprio plano de governo divulgado pelo candidato e também foram documentadas pela imprensa ao analisar o programa. Ele não apresenta propostas para gerar empregos, construir universidades ou implementar projetos que de fato combatam o avanço da violência. Trata-se apenas de combater a violência com mais violência, sem qualquer estratégia, só  tal discurso ja fere a doutrina  cristã.  Contudo,  é preciso reconhecer, antes de qualquer crítica, aquilo que a própria Igreja reconhece: o Estado tem autoridade e dever de proteger a sociedade, combater o crime, defender as vítimas, impedir a ação de organizações criminosas e aplicar penas proporcionais aos delitos. O Catecismo não ensina impunidade; ao contrário, afirma que a autoridade pública pode recorrer à pena para compensar a desordem introduzida pela culpa, preservar a ordem pública e a segurança das pessoas e contribuir para a emenda do culpado (CIC 2266). O próprio Compêndio do Catecismo recorda que a legítima defesa da sociedade pode constituir grave dever, mas acrescenta que a violência não deve ultrapassar aquilo que é necessário, enquanto a pena deve ser proporcional à gravidade do delito e contribuir para a emenda do culpado e  é  justamente nesse ponto que começa o discernimento cristão sobre as propostas de endurecimento penal:

  •  Qual é a finalidade da justiça? Se a justiça se transforma exclusivamente em punição, se o encarceramento passa a ser apresentado como resposta quase única ao crime e se a linguagem pública passa a tratar o infrator apenas como alguém que precisa ser eliminado da sociedade, corre-se o risco de esquecer aquilo que a Doutrina Social da Igreja coloca no centro do bem comum: a pessoa humana. O Catecismo ensina que o bem comum é constituído por condições sociais que permitem às pessoas alcançar mais plenamente sua realização e afirma que a autoridade pública deve respeitar os direitos fundamentais e inalienáveis da pessoa, porque “a ordem das coisas deve estar subordinada à ordem das pessoas, e não o contrário” (CIC 1905-1912).
Por isso, uma política firme contra o crime não precisa ser uma política de vingança, assim como uma política de misericórdia não pode ser uma política de impunidade. A vítima precisa ser protegida, o criminoso precisa responder por seus atos e a sociedade precisa ser defendida, mas aquele que praticou o mal não deixa de ser pessoa humana. São João Paulo II, na Evangelium Vitae, recordou que até mesmo a pena deve oferecer ao réu a possibilidade de se corrigir e redimir, e o Papa Leão XIV retomou essa compreensão em maio de 2026 ao afirmar: 

  • Diante da luta contra o crime organizado, que a verdadeira justiça não pode contentar-se apenas com a punição, devendo incluir reeducação, misericórdia e plena reintegração dos infratores na sociedade, porque o respeito pela dignidade inerente a cada pessoa, inclusive daqueles que cometeram crimes, exclui a pena de morte, a tortura e todas as formas de punição cruel ou degradante.
Essa perspectiva é particularmente importante quando se fala de adolescentes. A Igreja não estabeleceu uma idade penal específica que permita afirmar simplesmente que a redução da maioridade de 18 para 16 anos seja, por si mesma, uma violação de uma norma católica; seria intelectualmente desonesto atribuir à doutrina aquilo que ela não estabelece. Entretanto, quando um projeto propõe que adolescentes a partir dos 14 anos sejam tratados penalmente como adultos em determinados crimes, a proposta pode e deve ser examinada à luz da antropologia cristã, da dignidade da pessoa, da capacidade de mudança, da finalidade medicinal da pena e da obrigação de buscar a reintegração social. O Evangelho não pergunta apenas “qual foi o crime?”, mas também “o que faremos com essa pessoa depois que ela cumprir sua pena?”. Afinal, quando Jesus diz que veio “para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10), Ele não estabelece uma doutrina de impunidade, mas revela uma concepção de humanidade na qual a vida e a possibilidade de conversão jamais devem ser tratadas como descartáveis. 

A mesma necessidade de discernimento aparece na proposta de castração química. O combate à violência sexual, especialmente contra crianças e mulheres, é uma obrigação gravíssima do Estado e ninguém que leve o Evangelho a sério pode minimizar o sofrimento das vítimas. Entretanto, quando uma intervenção corporal é utilizada como instrumento punitivo, surge uma questão moral que não pode ser resolvida apenas pelo sentimento de revolta provocado pelo crime. O Catecismo ensina que, fora das indicações médicas estritamente terapêuticas, mutilações e esterilizações diretamente procuradas são moralmente problemáticas e contrárias ao respeito pela integridade corporal (CIC 2297). São João Paulo II, na Evangelium Vitae, também incluiu as mutilações e os tormentos corporais entre as práticas que atentam contra a integridade da pessoa humana. Portanto, uma medida dessa natureza exige um exame sério de proporcionalidade, finalidade, integridade corporal e dignidade humana, sem que a gravidade do crime seja usada para dispensar o discernimento moral. 

É nesse mesmo horizonte que devemos falar da defesa da vida. A Igreja Católica é inequívoca quanto ao aborto provocado: o Catecismo ensina que a vida humana deve ser respeitada e protegida desde a concepção e afirma que o aborto direto, querido como fim ou como meio, é gravemente contrário à lei moral (CIC 2270-2272). São João Paulo II, na Evangelium Vitae, foi igualmente explícito ao ensinar que a eliminação direta e voluntária de um ser humano inocente é sempre gravemente imoral, fundamentando essa doutrina na Sagrada Escritura, na Tradição e no Magistério. O Papa Leão XIV reafirmou em janeiro de 2026 que a Igreja rejeita o aborto e acrescentou algo que não deveria ser esquecido quando o tema entra no debate político: a resposta social deve proteger cada nascituro e, simultaneamente, oferecer apoio efetivo e concreto às mulheres para que possam acolher a vida, criticando a utilização de recursos públicos para eliminar a vida em vez de apoiar mães e famílias. Isso nos obriga a fazer uma pergunta que muitas vezes desaparece das discussões políticas: 

  • O que leva uma mulher a procurar um aborto? 

Pode haver medo, abandono, violência, pressão familiar, pobreza, falta de apoio, desespero, uma gravidez decorrente de abuso ou a sensação de que não existe ninguém disposto a ajudá-la. Nada disso transforma o aborto em algo moralmente lícito segundo a doutrina católica, porque a dignidade do nascituro permanece inviolável; porém, compreender a situação concreta da mulher é indispensável para que a resposta cristã não se transforme simplesmente em condenação. A defesa da vida precisa alcançar também a mãe, a criança, a família e as condições sociais que cercam aquela gravidez, porque o Evangelho não manda apenas dizer “não mate”; manda também “amai-vos uns aos outros” (Jo 13,34), “levai os fardos uns dos outros” (Gl 6,2) e “aprendei a fazer o bem, procurai a justiça, socorrei o oprimido” (Is 1,17).  Nesse  contexto   que justamente  a passagem da mulher adúltera, em João 8, não pode ser esquecida quando falamos de pecado, responsabilidade e misericórdia. Aquela mulher foi colocada diante de Jesus por pessoas que já haviam decidido sua condenação, mas Jesus não transformou o pecado em virtude nem declarou que o adultério era moralmente correto; ao contrário, depois de impedir a execução da sentença, disse: “Eu também não te condeno. Vai e não peques mais” (Jo 8,11). Antes disso, havia perguntado: “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (Jo 8,7). Eis o coração do Evangelho: Jesus não relativiza a verdade, mas também não reduz a pessoa ao pecado cometido; Ele oferece misericórdia sem negar a conversão, oferece perdão sem abolir a responsabilidade e oferece uma nova possibilidade de vida a quem havia caído. Ser contra o aborto sem gerar políticas que promovem  a dignidade  humana  é  puro  farisaísmo(Mt 23,23-24). Essa mesma lógica precisa orientar nossa compreensão da justiça criminal. 

  • Podemos condenar moralmente o ato sem destruir a pessoa.
  • Podemos responsabilizar o criminoso sem negar sua dignidade.
  • Podemos e devemos proteger  a vítima sem transformar o agressor em alguém definitivamente sem possibilidade de redenção.
São João Paulo II expressou isso com clareza na Evangelium Vitae, ao explicar que mesmo a pena aplicada ao culpado deve estar ordenada à justiça, à proteção da sociedade e à possibilidade de correção e redenção. O Papa Leão XIV, em 2026, retomou esse princípio ao afirmar que a verdadeira justiça não pode se limitar à punição e deve apostar também na reeducação e na reintegração. É também por isso que não se pode misturar, de maneira simplista, aborto e pena de morte como se fossem moralmente idênticos. A Igreja trata cada questão em seu próprio contexto. O aborto direto é condenado porque elimina deliberadamente uma vida humana inocente e indefesa; já a pena de morte possui uma história doutrinal própria e, na formulação atual do Catecismo, tornou-se inadmissível, porque a Igreja reconhece que existem meios eficazes de proteger a sociedade sem retirar definitivamente do culpado a possibilidade de redenção. O Catecismo, no n. 2267, afirma precisamente essa inadmissibilidade, enquanto a Evangelium Vitae de São João Paulo II já havia apontado para a necessidade de abandonar a pena capital sempre que a proteção da sociedade pudesse ser alcançada por meios não sanguinários. No Brasil de 2026, a violência que atinge desproporcionalmente as populações negra e periférica,  impulsionada por disputas do tráfico, ação de milícias e abusos em operações policiais, gera frequentes debates sobre segurança pública, levando críticos a apontar que o apoio de figuras políticas, como o senador Flávio Bolsonaro e seus seguidores, a ações policiais letais e ao endurecimento penal contraria preceitos éticos do Evangelho, que priorizam a inviolabilidade da vida (Ex 20, 13; Mt19, 18), o amor ao próximo (João 13, 34), a igualdade de todos perante Deus (Gl 3, 28) e a defesa da justiça em favor dos mais vulneráveis (Pr 31:8-9).

Há ainda uma questão que merece atenção especial porque toca diretamente a relação entre fé e poder político.  O senador  candidato afirmou publicamente que, se eleito, pretende declarar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. O cristão não precisa negar a profissão de fé em Jesus Cristo como Senhor; pelo contrário, “Jesus Cristo é o Senhor” é uma das confissões centrais da fé cristã (Fl 2,11). O problema começa quando a linguagem da fé é transformada em instrumento de legitimação de um projeto político, porque Jesus não precisa de decreto presidencial para ser Senhor e seu Reino não pode ser reduzido à lógica de um Estado, de um partido ou de uma candidatura. O próprio Cristo disse:  “O meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36), e também ensinou: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mc 12,17). Isso não significa afastar o cristão da vida pública; significa impedir que o nome de Cristo seja sequestrado por qualquer projeto de poder. A pergunta cristã, portanto, não deveria ser apenas:

  • Quem pronuncia mais vezes o nome de Jesus, mas quem está disposto a deixar que o Evangelho julgue suas próprias decisões.

Quando Jesus fala do julgamento das nações, não pergunta quem colocou seu nome em um decreto, quem carregou sua bandeira ou quem fez mais discursos religiosos; Ele apresenta como critério a relação concreta com o faminto, o sedento, o estrangeiro, o nu, o doente e o preso: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40). É essa palavra que precisa interpelar qualquer projeto político que invoque Jesus Cristo, porque o bem comum, segundo o Catecismo, não pode ser reduzido à segurança ou à ordem pública: ele exige respeito à pessoa, justiça, solidariedade e condições sociais que permitam às pessoas alcançar sua realização.

Atualmente   devido a proposta  do tal decreto do Senhorio de   Jesus no Brasil   voltou  a internet a afirmação de que o candidato  a presidência  tem  um projeto para retirar de  Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil e declarar Jesus Cristo como único Padroeiro do Brasil, até o momento o referido  nega tal  ideia. (não podemos esquecer  que também negou qualquer  relação  com   banqueiro e tem saído  na imprensa  notícias de dinheiro pego, de mensagem e até  passeio no avião  do dono do master).  Contudo, podemos  afirmar  que há  um  projeto associado a esse rumor é o PL 2.623/2007, de autoria do então deputado Professor Victório Galli historicamente um forte aliado de primeira  hora da família Bolsonaro e atual  candidato  a deputado Federal  no Mato Grosso. Embora   o candidato  a presidência  tenha negado tal  proposta atualmente e a Câmara dos Deputados registra que o projeto foi arquivado em 22 de agosto de 2008, depois de rejeitado quanto ao mérito, e esclarece que a proposta pretendia substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.  Para os evangélicos  radicais é  preciso  afirmar  que no caso de Nossa Senhora Aparecida, a própria fé católica impede uma oposição artificial entre Maria e Jesus: 

  • Maria não é Deus, não substitui Cristo e não compete com Ele; é criatura, serva do Senhor e Mãe de Jesus, e sua própria palavra aponta para o Filho: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5).
  •  O Magnificat proclama: “Todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1,48), mas toda a grandeza de Maria está precisamente em sua relação com Deus e com Cristo. 
  • Na tradição católica, Maria conduz ao Filho; não ocupa o lugar do Filho.
Por isso, o cristão precisa ter coragem para examinar os projetos políticos à luz do Evangelho:
  • Sem transformar o Evangelho em instrumento de partido, precisa defender a vida 
  • Sem abandonar a mulher em situação de sofrimento, precisa defender as vítimas sem negar a possibilidade de conversão do criminoso, precisa buscar segurança 
  • Sem transformar a justiça em vingança e precisa rejeitar tanto a instrumentalização política da fé quanto a mentira utilizada contra adversários.
 A fé cristã não autoriza escolher apenas os versículos que confirmam nossas preferências: 

  • O mesmo Cristo que diz “não matarás” também manda amar os inimigos
  • O mesmo Cristo que perdoa manda “não peques mais”
  • O mesmo Cristo que acolhe o pecador denuncia a hipocrisia
  • O mesmo Cristo que anuncia misericórdia exige justiça
O Cristo que se apresenta como Senhor se identifica com os pequenos e vulneráveis. E, quando alguém afirma falar em nome de Jesus, a pergunta decisiva não deveria ser simplesmente “ele fala de Jesus?”, mas “ que suas decisões concretas fazem com a dignidade humana, com os pobres, com as crianças, com as mulheres, com as vítimas, com os presos, com os jovens e com aqueles que precisam de uma segunda oportunidade?” A resposta cristã não pode ser construída pela paixão partidária, mas pelo Evangelho, pela Tradição, pelo Magistério e pela verdade. Jesus Cristo não é cabo eleitoral, o Evangelho não é programa partidário, a cruz não é bandeira de campanha e o nome de Deus não pode ser utilizado para santificar aquilo que o próprio  e o  evangelho nos manda discernir. Cristo é o Senhor. E justamente por isso nenhum partido, nenhum candidato e nenhum projeto de poder pode transformar Jesus em propriedade sua. Quem realmente proclama que Jesus é Senhor não precisa sequestrar o nome de Cristo para um projeto político; precisa permitir que o próprio Cristo julgue, corrija e transforme suas escolhas. Porque, no fim, não será o discurso religioso que dará testemunho de nossa fé, mas aquilo que fizermos com os nossos irmãos e irmãs, especialmente os menores, os frágeis, os esquecidos e aqueles que a sociedade já decidiu abandonar.
DNonato - Teólogo do Cotidiano