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sábado, 29 de novembro de 2025

Um outro olhar sobre Mateus 24,37-44, 1⁰ domingo do Advento


O Primeiro Domingo do Advento abre silenciosamente o novo ano litúrgico. É como se a Igreja respirasse fundo, novamente, e recomeçasse seu caminho através do tempo sagrado. Entramos no Ano A, no qual Mateus será o grande companheiro de jornada. A liturgia, com sua pedagogia ancestral e sempre nova, recorda que o tempo não é círculo vazio, nem cronologia indiferente; é kairós, tempo carregado de Presença, tempo que Deus toca. Por isso, a tradição organiza o ano em ciclos — A, B, C — para que a comunidade cristã, no ritmo dos Evangelhos, seja educada pela Palavra enquanto caminha o Evangelho de João é proclamado nas grabdss  datas  anualmente. Neste início, ressoam Isaías 2,1-5, depois o Salmo 121(122),1-9, em seguida Romanos 13,11-14a, e finalmente Mateus 24,37-44, queja refltimos uma vez em novembro de 2022. A Palavra, como arco que atravessa séculos, ergue diante de nós um horizonte de vigilância, esperança e conversão profunda.

Isaías inaugura o sonho: povos acorrem ao monte do Senhor, espadas tornam-se relhas, lanças viram foices — e a humanidade aprende o caminho da paz. Em Romanos, Paulo reforça que “já é hora”: a noite vai adiantada, o dia se aproxima, e viver na luz significa abandonar as obras que obscurecem o coração. Quando chegamos a Mateus 24,37-44, sentimos a vibração escatológica que amarra tudo: Jesus pede vigilância, lucidez, sensibilidade espiritual. Não como ameaça, mas como convite a viver desperto em meio a um mundo que adormece nas ilusões.

O Evangelho começa evocando os “dias de Noé”. É uma imagem poderosa. A hermenêutica judaica entende Noé não apenas como um personagem histórico, mas como símbolo da geração que perdeu o senso do sagrado, que normalizou o caos, que naturalizou a violência estrutural e a insensibilidade. A sociedade pré-diluviana não era marcada por pecados “extraordinários”, mas pela mais terrível das atitudes: a indiferença. Comer, beber, casar, negociar, empreender — tudo isso é legítimo, mas, quando vivido sem consciência, sem ética, sem memória dos vulneráveis, sem abertura ao Outro, transforma-se em anestesia espiritual. O Evangelho não condena o cotidiano, mas o cotidiano vivido sem transcendência.

A antropologia bíblica revela que “dias de Noé” é expressão que aponta para uma humanidade desconectada de sua vocação, vivendo apenas no chrónos, no tempo repetitivo, consumido pela roda do imediato. Jesus convoca ao kairós, ao tempo que rasga o cronológico e introduz a novidade de Deus. Assim como o dilúvio veio não para destruir arbitrariamente, mas para revelar a verdade que ninguém mais queria enxergar, a vinda do Filho do Homem não é catástrofe, mas revelação. O que estava oculto aparece; o que parecia sólido mostra sua fragilidade; o que era idolatrado revela sua inconsistência.

A psicologia profunda ajuda a compreender essa cena: quando uma sociedade se fixa em rotinas de sobrevivência sem sentido, cria defesas psíquicas coletivas que evitam o encontro consigo mesma. Mecanismos de negação, repressão, fuga — tudo isso aparece nos “dias de Noé”. A sociologia da religião aponta que, quando a fé é reduzida à funcionalidade, ela se torna mecanismo de acomodação ao sistema, não força de transformação. É o que Jesus denuncia: a normalidade perversa que impede a percepção do essencial.

Os símbolos do texto são ricos. Dois homens no campo: campo é lugar de produção, economia, esforço, construção de futuro. Duas mulheres no moinho: moinho é lugar de repetição, cotidiano, sustento básico da vida. Os personagens são pares simétricos, mas não idênticos: representam o cotidiano em sua ambiguidade. Um é levado, outro deixado — não como punição moralista, mas como revelação da diferença entre quem vive desperto e quem vive anestesiado. A distinção não é externa; é interna. Não se trata de Deus separando bons e maus, mas do próprio coração revelando sua disposição ou sua recusa.

Esse paralelismo encontra eco profundo em Amós 5,18-24, onde o profeta denuncia o povo que deseja o “dia do Senhor” sem compreender que esse dia revela injustiças, desmonta privilégios e expõe a religião vazia. Isaías 2 também ressoa aqui: somente quem caminha na luz aprende a transformar armas em instrumentos de vida. Em Sabedoria 18, vemos a surpresa da noite em que Deus intervém, trazendo libertação aos oprimidos e desestabilizando os poderosos. Em 1 Tessalonicenses 5,1-6, Paulo reforça a mesma imagem: o “ladrão de noite” não é ameaça, mas metáfora da irrupção inesperada da graça. E em Apocalipse 3,1-3, a vigilância é apresentada como condição para manter a dignidade do coração. A Escritura forma um grande mosaico no qual vigilância significa despertar humano, despertar ético, despertar espiritual.

O símbolo do “ladrão que chega de noite” é um dos mais provocadores. Jesus toma a figura de um transgressor para expressar o modo pelo qual Deus rompe nossa ilusão de controle. João Crisóstomo dizia que Deus “nos surpreende para nos salvar de nós mesmos”, e Gregório de Nissa compreendia a vigilância como êxodo interior, deslocamento constante que impede a alma de se endurecer. Agostinho, ao refletir sobre o tempo nas Confissões (XI), afirma que a alma é distensão, tensão contínua, e que viver desperto é habitar esse fluxo com sensibilidade. O “ladrão” é aquele que rasga nossas seguranças falsas, desmonta nossas construções narcisistas e nos devolve à realidade. O Advento, nesse sentido, é a estação da vulnerabilidade que se abre à visita inesperada.

Aqui emerge criticamente um paralelo necessário com o clericalismo. O “dono da casa” que acha que controla tudo, que organiza a religião para servir a si mesmo, que administra o sagrado como se fosse propriedade exclusiva, é imagem clara do líder religioso que esquece que Deus é livre. O ladrão que invade é o próprio Deus, subvertendo estruturas rígidas, desmontando sacralidades possessivas, rompendo com poderes que domesticam o Evangelho. O clericalismo teme o Deus-ladrão, pois prefere a religião que garante privilégios. Mas o Advento proclama que Deus chega sem pedir permissão.

As teologias da prosperidade, do domínio e do individualismo são variações modernas da mesma anestesia dos “dias de Noé”. Elas transformam a fé em produto, culto em espetáculo, espiritualidade em mecanismo de autopromoção. São versões religiosas da lógica neoliberal que promete ascensão pessoal enquanto desumaniza o coletivo. Ao idealizarem um Deus que legitima riqueza, sucesso e conquista, acabam apagando o Deus bíblico, que se revela na fragilidade, no deserto, na noite, no encontro inesperado. E ao pregarem “domínio espiritual” sobre territórios, cidades e estruturas, sequestram o Evangelho para justificar projetos autoritários. A fé como mercadoria é justamente a paródia da vigilância: vende a sensação de segurança, mas impede o coração de despertar.

Em contraste, a vigilância evangélica é sempre ética, sempre pública, sempre comunitária. Romanos 13 recorda que “a salvação está mais perto do que quando abraçamos a fé”, chamando à responsabilidade histórica: renunciar à desordem interior e vestir as armas da luz. São Paulo fala de uma vigilância que se traduz em escolhas concretas: justiça, sobriedade, cuidado com o próximo. O Advento, portanto, não é tempo de fuga espiritualista, mas de compromisso com a transformação real da sociedade. Na linguagem da Gaudium et Spes, especialmente nos números 63 a 66, a Igreja é chamada a discernir os sinais dos tempos e a confrontar tudo o que desumaniza — estruturas econômicas injustas, políticas excludentes, discursos de ódio, manipulações religiosas. Em Evangelii Gaudium, Francisco denuncia claramente a “economia que mata” e a “mundanidade espiritual” que torna líderes religiosos autossuficientes e insensíveis. Em Fratelli Tutti, a vigilância se converte em fraternidade ativa, em atenção aos encontros e desencontros (n. 215), em compromisso com o bem comum e com a democracia como espaço de proteção dos mais fracos.

A sociologia crítica da religião ajuda a entender que muitos grupos vivem vigilantes não por virtude, mas por sobrevivência. A juventude periférica, os trabalhadores informais, as mulheres negras que carregam múltiplos pesos, as pessoas em situação de rua — todos vigiam, mas vigiando contra a violência, contra o medo, contra a fome. O Evangelho redimensiona essa vigilância: não a elimina, mas a transforma em esperança. Deus não ignora os corpos que dormem com um olho aberto; Ele se faz presente na madrugada deles.

O Advento é tempo de madrugada. Não a madrugada do desespero, mas a madrugada bíblica em que “das profundezas clamo a ti, Senhor” (Sl 130), e onde “as misericórdias se renovam a cada manhã” (Lm 3,22-23). É madrugada grávida, como diziam os Padres do Deserto: silêncio úmido em que o coração aprende a esperar. Em Isaías 21, o sentinela grita: “Vem a manhã, mas também a noite”. A vigilância cristã é exatamente isso: habitar o intervalo entre noite e dia, permanecendo atentos ao modo pelo qual Deus atravessa a história.

No final, tudo se liga: dois homens no campo, duas mulheres no moinho, o ladrão de noite, os dias de Noé — tudo aponta para a mesma convocação. Deus chega não quando estamos preparados, mas quando estamos verdadeiros. O Advento inaugura um ano novo que não é calendário, mas conversão. Em um mundo saturado de vozes que vendem futuro, Jesus chama à vigilância que lê o presente com olhos purificados. Em uma sociedade que idolatra controle, Ele chega como ladrão. Em um tempo que anestesia a alma com excesso de ruídos, Ele fala no silêncio maduro. Em meio a discursos religiosos que prometem poder, Ele convida ao despojamento. Em um planeta ferido por violências e desigualdades, Ele abre o sonho de Isaías: um mundo onde nenhuma espada encontre mais corpo, e onde todo coração encontre caminho. No primeiro domingo do Advento, tudo começa de novo. E começa no escuro, porque é no escuro que a luz tem mais força. Nós caminhamos, como diz o salmo, “alegres, porque nos disseram: vamos à casa do Senhor”. Não caminhamos sozinhos. Caminhamos despertos. Caminhamos vigilantes. Caminhamos com esperança que não adormece.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 12, 14-21

 

Na pedagogia da Liturgia da Igreja Católica, os Evangelhos Sinóticos não apenas narram os acontecimentos da vida de Jesus, mas os distribuem ao longo do Ano Litúrgico de modo a revelar, sob perspectivas complementares, a riqueza de sua missão salvífica. Assim, a mesma tradição evangélica é contemplada em diferentes contextos, permitindo que a Igreja aprofunde progressivamente o mistério de Cristo. O trecho de Mateus 12,14-21, proclamado no sábado da 15ª Semana do Tempo Comum, apresenta Jesus retirando-se diante da conspiração dos fariseus e identifica nele o Servo do Senhor anunciado por Isaías (Is 42,1-4), cuja força se manifesta na mansidão, na misericórdia e na fidelidade ao projeto do Pai. Em paralelo, Marcos 3,7-12, proclamado na quinta-feira da 2ª Semana do Tempo Comum, destaca a multidão que acorre a Jesus e sua autoridade sobre os espíritos impuros, evidenciando o alcance universal de sua ação libertadora. Já Lucas 6,17-19, lido na terça-feira da 23ª Semana do Tempo Comum, introduz o Sermão da Planície, ressaltando o poder vivificante que emanava de Cristo e restaurava todos os que dele se aproximavam. Dessa forma, a liturgia oferece uma leitura harmoniosa dessas perícopes, revelando um único Cristo que, pela palavra, pela compaixão e pela cura, manifesta o Reino de Deus e convida os discípulos a seguirem o caminho do serviço, da justiça e da misericórdia.

Em um mundo saturado de ruídos, onde a visibilidade é vista como essencial, onde o número de likes, curtidas ou seguidores em redes sociais se tornou sinônimo de validação de uma ideia ou de caráter, e onde a fé é frequentemente reduzida a produto de consumo, somos convocados a proclamar o trecho de Mateus 12,14-21, que ressoa como uma contra-narrativa profética e radicalmente subversiva a esse tipo de busca que nos atravessa. No texto, Jesus não se apresenta como herói triunfante ou líder populista. Ele não assume os modos performáticos da religião-espetáculo nem os esquemas de dominação do poder político-religioso. Sua presença se impõe justamente por não se impor: Ele cura em silêncio, retira-se diante da conspiração, sustenta a esperança sem apagar a chama quase extinta dos corações esmagados. O evangelista, ao citar Isaías 42,1-4, não apenas confirma Jesus como o Servo anunciado, mas também traça um itinerário teológico que desvela uma nova lógica messiânica: a força que se revela na vulnerabilidade, a justiça que brota da mansidão, o Espírito que age não na histeria das praças, mas na intimidade do coração ferido 

Sabemos que Mateus escreve para uma comunidade judaico-cristã marcada pelo conflito, pela exclusão das sinagogas e pela crescente marginalização social e religiosa. Diante da tentação de responder à violência com violência, à exclusão com ressentimento, o evangelista apresenta um Messias que rompe com os ciclos de poder. Ele é o “ebed” de Isaías — não o servo domesticado pelas estruturas, mas aquele que realiza a missão de Deus, portador da justiça hesed (compassiva), fiel à aliança com os vulneráveis. Na tradição profética, justiça é sempre mais do que legalismo; é um movimento histórico e espiritual que reconduz os pobres ao centro, um ato de reparação. Jesus encarna essa justiça na forma de ternura radical, revelando um Deus que não apaga o que resta, mas reanima o que resiste. O gesto de Jesus ao se retirar (v.15), longe de um recuo estratégico, é expressão de uma sabedoria messiânica que recusa o espetáculo e a lógica do embate direto. Ele não se deixa capturar pela provocação dos fariseus — que, segundo o versículo anterior (v.14), tramam sua morte. Essa decisão ecoa outras passagens como João 7,30 e João 8,59, onde sua recusa em ser capturado é sinal da liberdade interior de quem não é regido pelas expectativas alheias, mas pela obediência ao tempo do Pai. O tempo de Jesus é o kairós,  o tempo propício da revelação,  não o cronograma dos poderes religiosos ou da ansiedade popular. Seu ministério não é gerenciado por métricas de popularidade, mas orientado pela fidelidade ao desígnio divino.

Marcos 3,6 e Lucas 6,11 reiteram o mesmo cenário conspiratório: fariseus e herodianos unindo-se contra Jesus, representando a aliança profana entre religião e Estado, fé e dominação. Essa convergência de interesses revela a ameaça que Jesus representa não como um agitador político, mas como um portador de outro mundo possível. A ameaça do Reino é sua lógica alternativa, não violenta, que subverte os alicerces do poder. Jesus não nega a política; Ele a redime pela ética do cuidado. Ele denuncia o sistema sem replicá-lo, propondo uma justiça não-retributiva, que não premia os justos segundo os méritos, mas acolhe os que ainda respiram, mesmo que com dificuldade. Seu gesto de silêncio é um gesto político, profundamente desestabilizador para os que se sustentam pelo espetáculo e pelo controle. Esse silêncio é também um gesto espiritual. A teologia apofática do Oriente cristão  vivida na tradição hesicasta e formulada pelos Padres Capadócios reconhece o silêncio como linguagem plena de sentido. O Cristo que não grita é o Logos que se revela no não dito, aquele que, como diria Gregório de Nissa, “é compreendido não quando é explicado, mas quando é contemplado”. A mansidão do Servo é, portanto, uma manifestação teológica: revela o ser de Deus como amor que não se impõe, mas se oferece. Sua justiça é epifania do Reino, não decreto de condenação. Ele não quebra a cana rachada,  expressão hebraica que evoca a ternura de Deus diante do fraco (cf. Isaías 57,15), nem apaga o pavio que fumega, símbolo da vida quase apagada, mas ainda viva, que o sistema despreza.

O Servo que cura e se esconde é antítese do pregador de palco, do influencer da fé que monetiza a esperança e manipula a vulnerabilidade alheia. Jesus não transforma milagres em propaganda. Ele cura e ordena silêncio. Em João 6,15, quando o povo quer fazê-lo rei após o milagre dos pães, Ele se retira para o monte;  gesto profundamente significativo: Jesus rejeita o coroamento pelo poder, mesmo quando este é oferecido pela multidão fascinada. Ele não quer súditos, mas discípulos; não busca aplausos, mas conversão. Sua mística é do escondimento, não da autopromoção. Sua pedagogia é da paciência, não da pressa dos resultados. Na perspectiva da psicologia existencial e da antropologia da fé, o Servo revela a força do cuidado com o fragmentado. A cana rachada e o pavio que fumega não são figuras decorativas, mas existências reais: os que vivem em burnout espiritual, os que já não creem, os que foram usados pela religião e descartados. Jesus não desiste deles. Ele os carrega, como o pastor que, em Isaías 40,11, conduz ternamente as ovelhas com filhotes. Há uma sabedoria terapêutica no agir de Jesus: Ele não força a cura, mas respeita o ritmo de cada ferida. Ele não invade, mas visita. Sua presença é como a brisa suave em 1Reis 19,12, onde Deus se revela não no terremoto ou no fogo, mas no murmúrio sutil.

Enquanto certas teologias promovem um Cristo triunfalista, recompensador, que opera como um CEO da fé e distribuidor de bênçãos em troca de sacrifícios financeiros, o Evangelho nos apresenta um Messias pobre, discreto, sem beleza exterior, como Isaías 53 descreve. Ele não nos livra do sofrimento pela força, mas caminha conosco nele. Sua missão não é eliminar a dor, mas transformá-la em lugar de encontro com o Deus vulnerável. A vitória do Servo não é de ordem bélica, mas pascal: ela passa pela cruz. Apocalipse 5,6 reforça esse paradoxo: é o Cordeiro como que imolado, não o leão rugidor, quem rompe os selos da história.  

A crítica social aqui é sutil, mas aguda. Enquanto os líderes religiosos disputam púlpitos e os políticos manipulam símbolos sagrados, o Servo caminha entre os esquecidos. Ele não busca “likes” nem está em busca de seguidores para seu canal. Ele não realiza lives de milagres nem vende produtos ungidos. Sua espiritualidade não é uma vitrine, mas um abrigo. Como nos lembra Paulo Freire, o silêncio pode ser um grito: um grito de denúncia, mas também de anúncio. Jesus anuncia outro modo de ser e viver, uma fé que não se compra, uma esperança que não se vende, um Deus que não se presta ao espetáculo. Essa espiritualidade do Servo nos convoca a uma revisão profunda da Igreja e de suas lideranças. São João Crisóstomo já denunciava os perigos do clericalismo que transforma ministros em tiranos. O Concílio Vaticano II, especialmente na Lumen Gentium, aponta que a Igreja é sacramento de salvação na medida em que se faz serva. O Papa Francisco retomou com vigor esse chamado, alertando que “o clericalismo é um câncer na Igreja”, uma perversão do Evangelho. Jesus não se veste de púrpura nem exige reverências; Ele se ajoelha para lavar os pés. Toda autoridade que não serve, trai o Servo.

Hoje, a cana rachada são os corpos negros tombados pela violência policial, os povos indígenas exilados de suas terras, os pobres criminalizados, os migrantes afogados, os LGBTQIA+ excluídos dos templos, as mulheres caladas pela estrutura patriarcal. O pavio que fumega são os que ainda sonham, resistem, crêem apesar da Igreja. São aqueles que, como o povo no deserto, caminham entre murmúrios e manás, sustentados por um Deus que não grita, mas escuta. É com eles que o Servo caminha.  O Messias que se cala e se retira é, portanto, o mesmo que grita nas entrelinhas da história. Seu silêncio é revelação. Sua fragilidade é força. Sua justiça é ternura. Ele não brada, mas carrega. Não exclui, mas reconcilia. Não julga, mas cura. E quando vier em glória  e virá , não será com exércitos nem cortejos, mas com as chagas de quem amou até o fim. Que Ele nos encontre entre os pavios que ainda fumegam, entre as canas que ainda querem se reerguer. Que Ele nos reconheça entre os servos, não entre os senhores. E nos diga, com voz mansa: “Estivestes comigo…” (Mateus 25,40).

À luz dessas diferentes proclamações litúrgicas, torna-se evidente que a missão de Jesus não se fundamenta na busca do poder, da visibilidade ou do prestígio, mas na fidelidade silenciosa ao projeto do Pai. Em Mateus, contemplamos o Servo manso que não quebra a cana rachada nem apaga o pavio que ainda fumega; em Marcos, o Libertador cuja autoridade vence o mal sem recorrer à violência; e, em Lucas, o Senhor cuja presença comunica vida e restauração aos que dele se aproximam. Juntas, essas perspectivas revelam um Messias que transforma a história pela compaixão, pela justiça e pelo serviço. Em um tempo marcado pelo espetáculo, pelo individualismo e pela instrumentalização da fé, o Evangelho continua a desafiar a Igreja e cada discípulo a testemunhar uma espiritualidade que privilegia o cuidado dos mais frágeis, rejeita toda forma de clericalismo e de autorreferencialidade e faz da misericórdia o critério da verdadeira autoridade. Assim, a vitória do Servo permanece atual: não é a vitória dos poderosos, mas a do amor que serve; não a dos que dominam, mas a dos que permanecem fiéis ao Reino até o fim.

Essa é a vitória do Servo: não a dos tronos, mas a da cruz. Não a dos gritos, mas a do silêncio que salva.


DNonato - Teólogo do Cotidiano 

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terça-feira, 8 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 10,1-7

 
“Chamados pelo nome, enviados com compaixão: contra o Evangelho do poder”

Nesta Quarta-feira da 14ª Semana do Tempo Comum, a liturgia nos apresenta o Evangelho de  Mateus,1-7, no qual Jesus chama os Doze discípulos pelo nome, concede-lhes autoridade sobre os espíritos impuros e os envia em missão como sinal concreto da proximidade do Reino de Deus. Não se trata de um chamado genérico, massificado ou meramente funcional. O discipulado nasce da intimidade com Cristo, da escuta de sua Palavra e da confiança depositada por Ele em cada pessoa. Cada nome pronunciado por Jesus carrega uma história, com suas fragilidades, potencialidades e promessas, revelando que a missão é sempre um chamado pessoal antes de ser uma tarefa. Esse mesmo envio missionário possui paralelos importantes nos outros Evangelhos: em  Marcos ,13-19, proclamado na sexta-feira da 2ª Semana do Tempo Comum, destaca-se a escolha dos Doze para estarem com Jesus antes de serem enviados; e em  Lucas 9,1-6, proclamado na quarta-feira da 25ª Semana do Tempo Comum, sobressai o envio missionário com autoridade para anunciar o Reino e curar os enfermos. Juntos, esses textos revelam que a missão da Igreja nasce do encontro com Cristo e se realiza no anúncio, no serviço e no testemunho do Reino de Deus.

O chamado não é para o estrelato religioso, nem para animar plateias digitais com frases de efeito ou milagres espetaculares. É envio para os caminhos poeirentos da Galileia, onde a dor dos esquecidos clama, onde a doença isola e onde os "perdidos da casa de Israel" esperam por pastores com cheiro de povo. A missão, como se verá, é sinal da compaixão encarnada, jamais do espetáculo. Ao contemplarmos esse momento do envio, somos também provocados: que tipo de presença temos sido no mundo? De que modo nossas palavras e gestos têm anunciado o Reino — ou nos distraído com outras agendas? Que Evangelho temos proclamado: o das Bem-Aventuranças ou o da autopromoção piedosa?

É nesta tensão entre chamado pessoal e envio comunitário, entre nome e missão, que se abre a meditação que segue.

No início do capítulo 10 de Mateus, Jesus não apenas convoca doze discípulos: ele os chama pelo nome — e, ao nomeá-los, os envia com um rosto. Esse gesto simples e íntimo carrega uma força teológica e antropológica profunda. Nomear é reconhecer a dignidade de alguém, afirmar sua identidade, sua história, seu corpo, sua alma. Na tradição bíblica, chamar pelo nome é investir sentido na existência do outro. Assim foi com Adão (Gn 3,9), com Moisés na sarça (Ex 3,4), com Samuel ainda menino (1Sm 3,4), e ecoa em Isaías: “Eu te chamei pelo nome, tu és meu” (Is 43,1). E em João 10,3: “As ovelhas escutam a sua voz. Ele chama cada uma pelo nome e as conduz para fora.” A autoridade de Jesus é a de quem conduz para fora do cativeiro, do legalismo, da religião do medo. Sua voz não grita: convoca. Não impõe: atrai. E essa voz continua a ressoar hoje, chamando pelo nome aqueles que foram esquecidos pelas estruturas. O chamado de Jesus não é genérico, nem estatístico: é pessoal, afetuoso, comprometido. Deus não nos chama como números nem consumidores de sacramentos, mas como filhos e filhas com rosto, lágrimas e sonhos. Deus nos chama com o nome bordado na própria veste. Cada chamado é como uma costura de sentido feita com os fios da misericórdia sobre a carne ferida do mundo.

Esse chamado não brota do alto de uma torre doutrinária nem da lógica meritocrática. Surge da compaixão. No capítulo anterior, Jesus vê as multidões e se comove (Mt 9,36). O pré-texto hermenêutico da missão é a dor do povo — não o poder, não o prestígio, não a autopromoção. É da ferida que brota a missão. E é exatamente por isso que ela é incompatível com os projetos religiosos que transformam o Evangelho em palanque político, em vitrine espiritual ou em escada de ascensão social.

Mateus afirma que Jesus deu autoridade aos discípulos (Mt 10,1). Mas essa autoridade, não é o domínio sobre os outros, e sim o serviço à vida. Não é o poder que se impõe de fora, mas a força que brota de dentro, do ser tocado pela compaixão. Trata-se de expulsar os demônios que humilham os corpos, de curar as feridas que adoecem as almas, de libertar os corações tomados pela desesperança. Aqui não há espaço para o autoritarismo eclesiástico nem para o clericalismo que transforma o altar em trono. Trata-se de uma autoridade que nasce da compaixão e se expressa no cuidado. Como dizia João Crisóstomo: “Não é pelo poder que o pastor se impõe, mas pela vida que ele conduz.” A autoridade cristã é santidade visível, não cargo; é cuidado, não controle. O Evangelho é incompatível com qualquer forma de dominação — inclusive aquela que se disfarça de piedade, como vemos nas teologias do domínio e da prosperidade, que, no fundo, substituem o Reino de Deus por um império de interesses. É preciso nomear o que nos afasta do Evangelho: há uma teologia do sucesso que tem tomado o nome de Jesus em vão. Essa teologia, vestida com roupas novas, mas com o coração velho, afirma que Deus abençoa com riqueza, status, vitórias, aplausos. Prega um Cristo coach, um Deus investidor, um Reino com estética de shopping. Essa teologia, mesmo quando envernizada de carismatismo ou estética litúrgica tradicional, não passa de idolatria moderna: adora a si mesma, transforma o pobre em culpado e o rico em abençoado. Não há lugar nesse Evangelho para o Crucificado.

Jesus envia os discípulos às ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt 10,6). Ele não os lança ao mundo com ambições colonizadoras,  como tantas missões na história fizeram, convertendo povos à força e confundindo Evangelho com civilização, mas os devolve ao próprio povo, ao seu chão, aos seus dramas. O Evangelho não tem bandeira nacional, nem projeto de hegemonia religiosa. Onde há colonização, não há Boa Nova. Onde há supremacia, não há discipulado. O Cristo missionário foi refugiado ,  não imperador. A pedagogia divina começa pelo próximo, pelo irmão, pelo vizinho ferido. E aqui também ressoa uma crítica necessária àqueles que sonham com missões na África, na Ásia, nos “grandes campos”, mas ignoram a dor de quem dorme sob a marquise do templo, de quem passa fome no ponto de ônibus, de quem sofre violência doméstica na casa ao lado. A missão não é fuga. É enraizamento. É fidelidade ao chão. O verdadeiro missionário não precisa de passaporte: ele precisa de compaixão. Como recorda a Conferência de Aparecida, “a missão é paradigma de toda a vida eclesial” (DAp, 370). Missão é comunhão, não expansão; é o Evangelho feito pele.

Nos sinóticos, a radicalidade da missão se repete (Mc 6,7-13; Lc 9,1-6). Levar quase nada, depender da hospitalidade, anunciar a conversão. Não há luxo, não há glamour, não há espetáculo. Há simplicidade. Mas o que vemos hoje são muitos “missionários” que recusam esse caminho: constroem impérios, acumulam riquezas, desfilam em programas de TV, vivem cercados por seguranças e filtros de Instagram. 

E o que anunciam? 

Um evangelho-mercadoria, que promete bênçãos para quem “faz aliança com Deus”, como se o amor divino fosse produto de contrato, e não de graça. Não basta ter milhões de seguidores se não se é seguidor do Crucificado. A missão não é show com plateia, nem performance para agradar multidões. Não é discurso viral, é vida entregue. A missão não se mede por engajamento, mas por compromisso. Em tempos de fé-espetáculo, muitos confundem carisma com carisma de palco. Pensam que missão é presença digital, que espiritualidade é filtro, e que discipulado se mede por curtidas. O Reino não precisa de influencers  precisa de testemunhas.

Jesus, no entanto, forma um grupo plural: Pedro, Mateus, Simão, Judas  diferentes, contraditórios, humanos. A missão é feita de diversidade, não de padronização. O Reino de Deus não homogeneíza. Respeita os temperamentos, valoriza as histórias, acolhe a diferença. O problema das igrejas não é a variedade de dons, mas a imposição de modelos clericalizados de ser cristão. Há mulheres proféticas sendo silenciadas por estruturas patriarcais. Há jovens com sede de justiça sendo acusados de rebeldia por padres autoritários. Há leigos e leigas vivendo o Evangelho nas ruas, mas sendo excluídos do altar por não “vestirem adequadamente”. Isso é religião do controle. Não é Boa Nova.

O Concílio Vaticano II, pela Lumen Gentium (n. 33), reforça que os leigos são chamados à santificação do mundo “a partir de dentro”. Não como figurantes da missa, mas como sujeitos da missão. Isso desmonta a religião que se esconde atrás do rito para não se comprometer com a vida. O clericalismo denunciado com vigor pelo Papa Francisco,  é a caricatura da Igreja do Evangelho: cria distância entre o povo e seus ministros, transforma o altar em balcão, a missão em privilégio. É contra isso que o Evangelho nos envia.

E nos envia hoje. Psicologicamente, a missão é um ato de cura mútua. Pedagogicamente, é um exercício de empatia. Filosoficamente, é uma escolha ética. Antropologicamente, é um retorno à nossa vocação de comunhão. O Reino de Deus não acontece num paraíso futuro, mas na encarnação presente. Onde há pão partilhado, onde há ferida curada, onde há opressor confrontado, aí o Reino pulsa.

Por isso, o anúncio do Reino não pode ser cúmplice das estruturas de opressão. Não pode pedir silêncio diante da injustiça. Não pode abençoar a violência nem justificar o poder dos dominadores. A missão de Jesus é incompatível com a extrema direita religiosa, com sua cruz vazia de amor e seu Cristo sem povo. A missão do Evangelho é ferida, é cruz, é serviço. Não é palco, nem palco político, nem altar enfeitado por vaidades.

Se escutamos esse Evangelho hoje, é porque ainda há multidões sem pastor. Ainda há ovelhas perdidas. Ainda há nomes esquecidos que precisam ser chamados de novo. E talvez sejamos nós os chamados. Com nossas contradições e limitações, mas também com nosso desejo sincero de amar como Jesus amou. O nome esquecido é também o trauma não acolhido, a identidade ferida, a vocação abortada pelas violências da história. Quando Deus chama, Ele resgata mais que a pessoa: resgata a história da pessoa. Missão é também dizer ao outro: “Teu nome ainda tem lugar no coração de Deus.”

À luz de Mateus 10,1-7, compreendemos que a missão não começa quando atravessamos fronteiras, mas quando permitimos que Jesus pronuncie novamente o nosso nome. Antes de enviar, Ele chama; antes de confiar uma missão, forma discípulos; antes do anúncio, estabelece uma relação de comunhão. É hora de partir. Mas partir com a identidade que Deus nos deu, e não com os títulos, prestígios ou máscaras que o mundo impõe. Partir com um coração que conhece suas próprias feridas, mas que, por isso mesmo, é capaz de exercer misericórdia e compaixão. Partir não como donos da verdade, mas como testemunhas daquele que nos encontrou primeiro. Jesus envia os discípulos com simplicidade, lembrando que a força da missão não está no poder, nas estruturas ou nos privilégios, mas na autoridade que nasce da comunhão com Ele e na fidelidade ao Evangelho. Não é preciso carregar o peso de doutrinas vazias, nem buscar reconhecimento para parecer santo. O Reino de Deus se torna presente quando a Boa-Nova é anunciada com a vida, quando o olhar acolhe, a palavra consola, o gesto liberta e a esperança vence o medo.

Essa continua sendo a missão da Igreja e de todo discípulo: anunciar que o Reino dos Céus está próximo, porque o próprio Cristo continua caminhando com o seu povo.

Esse é o chamado.

Essa é a missão.

Esse é o Evangelho.


✍🏼 DNonato – Teólogo do Cotidiano