O Brasil acordou esses dias com aquela sensação estranha de quem entrou numa peça de teatro escrita por um roteirista bêbado de geopolítica. De um lado, as facções criminosas que nasceram nos subterrâneos sociais do país, paridas por presídios superlotados, alimentadas por desigualdade histórica e por um Estado que sempre foi muito eficiente para proteger patrimônio e muito incompetente para proteger gente. Do outro lado, o império de botas limpas, discursos civilizatórios e drones bem calibrados, olhando o mapa da América Latina como quem observa um tabuleiro de War. E no meio disso tudo, uma parte barulhenta da extrema direita brasileira vibrando como torcida organizada diante da possibilidade de que o xerife do planeta resolva “organizar” o quintal alheio. Existe um tipo curioso de patriotismo no Brasil. O patriota que bate continência para bandeira estrangeira. Ele grita “Brasil acima de tudo”, mas vive esperando autorização do norte para saber o que pensar, o que defender e até quem deve ser o inimigo da semana. É o nacionalismo de joelhos, uma devoção tropical ao império que se fantasia de soberania enquanto entrega o controle do debate público a interesses estrangeiros.
De repente, lá de Washington surge mais uma etiqueta geopolítica pronta para exportação. Terrorismo. Uma palavra pesada que funciona como chave mestra da política internacional. Quando essa palavra aparece, fronteiras ficam mais flexíveis, soberanias ficam mais negociáveis e mísseis passam a ser considerados ferramentas diplomáticas. O PCC e o Comando Vermelho entram nesse radar como se fossem fenômenos súbitos, quase meteorológicos, e não produtos históricos de décadas de abandono social, sistema prisional brutal e políticas públicas improvisadas. Curioso é ver homens engravatados em gabinetes a milhares de quilômetros discutindo o destino de bairros que nunca pisaram nem no Google Street View. Para eles, a periferia latino-americana é uma abstração cartográfica. Um espaço onde conceitos como “segurança hemisférica” e “estabilidade regional” podem ser aplicados com a frieza de um relatório estratégico. Traduzido para o português das favelas, esse vocabulário elegante costuma significar helicóptero sobrevoando telhados de zinco, sirene cortando madrugada e mais uma estatística no noticiário da manhã.
A verdade incômoda é que o Brasil produziu, ao longo de décadas, o ambiente perfeito para o surgimento dessas organizações:
O Comando Vermelho nasce nos anos 1970 na prisão da Ilha Grande, no encontro improvável entre presos comuns e presos políticos que compartilharam experiências de organização coletiva dentro de um sistema carcerário brutal.
O PCC surge nos anos 1990, no rastro sangrento do massacre do Carandiru, quando o Estado mostrou de forma brutal como tratava seus próprios cidadãos encarcerados.
Essas facções não brotaram do nada. Elas cresceram no terreno fértil da desigualdade urbana, da ausência de políticas públicas e de um modelo de segurança que prefere reagir com violência a prevenir com justiça. No fundo, o Brasil decidiu governar suas periferias com abandono administrativo e operações policiais espetaculares para a televisão.
O Estado brasileiro tem dificuldade histórica em entregar escola, saneamento e transporte digno. Mas helicóptero blindado ele aprende a comprar rapidinho. Para a favela quase sempre há orçamento para bala. Biblioteca costuma faltar.
E no meio dessa discussão toda existe um silêncio que diz muito. As milícias. Esse fenômeno tão brasileiro que parece mistura de coronelismo antigo com empreendedorismo criminal moderno. Grupos armados formados por policiais, ex-policiais e agentes de segurança que descobriram um modelo de negócios extremamente lucrativo. Controlam territórios inteiros cobrando taxa de gás, taxa de transporte, taxa de internet, taxa de segurança e taxa de silêncio. É o crime organizado que fez concurso público. Um feudalismo armado instalado dentro das cidades. Mas curiosamente, quando o assunto vira terrorismo internacional, esses grupos desaparecem do debate com a elegância de quem conhece muito bem os corredores do poder. Talvez porque miliciano não atravesse fronteiras com cocaína. Ele atravessa gabinetes. Ele financia campanha eleitoral, escolhe vereador, influencia deputado e negocia com quem estiver no governo. É o tipo de criminalidade que aprende rápido a usar gravata.
No fundo, a chamada guerra às drogas nunca foi uma guerra contra drogas. Foi uma guerra contra territórios pobres.
Existe também uma hipocrisia estrutural que raramente aparece nos discursos oficiais. Os países pobres produzem e transportam. Os países ricos consomem e lavam o dinheiro. Enquanto jovens negros morrem nas periferias latino-americanas e lotam presídios superlotados, bilhões de dólares do narcotráfico circulam tranquilamente por bancos internacionais, paraísos fiscais e investimentos imobiliários. A cocaína é combatida nas favelas com fuzil, mas é purificada no sistema financeiro com planilhas, advogados caros e reuniões discretas em arranha-céus climatizados. O combate global às drogas costuma ser muito rigoroso com os pobres e curiosamente indulgente com o sistema financeiro.
Enquanto isso, parte da extrema direita brasileira observa esse cenário com entusiasmo quase infantil. Porque se os Estados Unidos classificarem facções brasileiras como terrorismo internacional, imediatamente surgirá o discurso de que finalmente alguém teve coragem de enfrentar o crime. E se o governo brasileiro levantar qualquer questionamento sobre soberania ou consequências dessa classificação, virá o velho refrão de que o país virou cúmplice de criminosos. É um truque político antigo. Reduzir problemas sociais complexos a slogans morais simples. Funciona bem em época eleitoral, rende curtidas nas redes sociais e exige pouquíssimo esforço intelectual.
O império, por sua vez, tem longa experiência nesse tipo de pedagogia geopolítica. A América Latina conhece bem esse roteiro. Primeiro vem o diagnóstico moral. Depois as sanções econômicas. Depois os conselhos militares. Depois os helicópteros. A democracia chega sempre escoltada por fuzileiros navais e contratos de reconstrução. Chile, Guatemala, Panamá, Nicarágua, República Dominicana, Haiti. Cada país guarda alguma cicatriz dessa tradição de intervenções que sempre chegam embaladas em discursos sobre liberdade e estabilidade.
No final das contas, o Brasil continua preso na mesma encruzilhada histórica. A violência nasce da desigualdade, cresce no abandono e depois é tratada como espetáculo militar. As facções viram inimigo absoluto. As milícias viram detalhe inconveniente. A extrema direita transforma medo em combustível eleitoral. E o império continua exercendo o privilégio histórico de decidir quem é terrorista e quem é aliado estratégico.
Enquanto isso, a periferia segue sendo bombardeada todos os dias. Não por drones estrangeiros, mas por pobreza, racismo estrutural, ausência de Estado e hipocrisia política. Esse tipo de bomba não aparece em relatórios internacionais. Não ameaça mercados, não atravessa fronteiras e não incomoda os donos do poder.
Ali, nas vielas e nos bairros esquecidos das grandes cidades, a vida continua acontecendo longe das teorias geopolíticas. Ali onde o Estado costuma chegar primeiro com fuzil e só muito depois, quando chega, com direitos.
DNonato - Só um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco
Na pedagogia da Liturgia da Igreja Católica, os Evangelhos Sinóticos não apenas narram os acontecimentos da vida de Jesus, mas os distribuem ao longo do Ano Litúrgico de modo a revelar, sob perspectivas complementares, a riqueza de sua missão salvífica. Assim, a mesma tradição evangélica é contemplada em diferentes contextos, permitindo que a Igreja aprofunde progressivamente o mistério de Cristo. O trecho de Mateus 12,14-21, proclamado no sábado da 15ª Semana do Tempo Comum, apresenta Jesus retirando-se diante da conspiração dos fariseus e identifica nele o Servo do Senhor anunciado por Isaías (Is 42,1-4), cuja força se manifesta na mansidão, na misericórdia e na fidelidade ao projeto do Pai. Em paralelo, Marcos 3,7-12, proclamado na quinta-feira da 2ª Semana do Tempo Comum, destaca a multidão que acorre a Jesus e sua autoridade sobre os espíritos impuros, evidenciando o alcance universal de sua ação libertadora. Já Lucas 6,17-19, lido na terça-feira da 23ª Semana do Tempo Comum, introduz o Sermão da Planície, ressaltando o poder vivificante que emanava de Cristo e restaurava todos os que dele se aproximavam. Dessa forma, a liturgia oferece uma leitura harmoniosa dessas perícopes, revelando um único Cristo que, pela palavra, pela compaixão e pela cura, manifesta o Reino de Deus e convida os discípulos a seguirem o caminho do serviço, da justiça e da misericórdia.
Em um mundo saturado de ruídos, onde a visibilidade é vista como essencial, onde o número de likes, curtidas ou seguidores em redes sociais se tornou sinônimo de validação de uma ideia ou de caráter, e onde a fé é frequentemente reduzida a produto de consumo, somos convocados a proclamar o trecho de Mateus 12,14-21, que ressoa como uma contra-narrativa profética e radicalmente subversiva a esse tipo de busca que nos atravessa. No texto, Jesus não se apresenta como herói triunfante ou líder populista. Ele não assume os modos performáticos da religião-espetáculo nem os esquemas de dominação do poder político-religioso. Sua presença se impõe justamente por não se impor: Ele cura em silêncio, retira-se diante da conspiração, sustenta a esperança sem apagar a chama quase extinta dos corações esmagados. O evangelista, ao citar Isaías 42,1-4, não apenas confirma Jesus como o Servo anunciado, mas também traça um itinerário teológico que desvela uma nova lógica messiânica: a força que se revela na vulnerabilidade, a justiça que brota da mansidão, o Espírito que age não na histeria das praças, mas na intimidade do coração ferido
Sabemos que Mateus escreve para uma comunidade judaico-cristã marcada pelo conflito, pela exclusão das sinagogas e pela crescente marginalização social e religiosa. Diante da tentação de responder à violência com violência, à exclusão com ressentimento, o evangelista apresenta um Messias que rompe com os ciclos de poder. Ele é o “ebed” de Isaías — não o servo domesticado pelas estruturas, mas aquele que realiza a missão de Deus, portador da justiça hesed (compassiva), fiel à aliança com os vulneráveis. Na tradição profética, justiça é sempre mais do que legalismo; é um movimento histórico e espiritual que reconduz os pobres ao centro, um ato de reparação. Jesus encarna essa justiça na forma de ternura radical, revelando um Deus que não apaga o que resta, mas reanima o que resiste. O gesto de Jesus ao se retirar (v.15), longe de um recuo estratégico, é expressão de uma sabedoria messiânica que recusa o espetáculo e a lógica do embate direto. Ele não se deixa capturar pela provocação dos fariseus — que, segundo o versículo anterior (v.14), tramam sua morte. Essa decisão ecoa outras passagens como João 7,30 e João 8,59, onde sua recusa em ser capturado é sinal da liberdade interior de quem não é regido pelas expectativas alheias, mas pela obediência ao tempo do Pai. O tempo de Jesus é o kairós, o tempo propício da revelação, não o cronograma dos poderes religiosos ou da ansiedade popular. Seu ministério não é gerenciado por métricas de popularidade, mas orientado pela fidelidade ao desígnio divino.
Marcos 3,6 e Lucas 6,11 reiteram o mesmo cenário conspiratório: fariseus e herodianos unindo-se contra Jesus, representando a aliança profana entre religião e Estado, fé e dominação. Essa convergência de interesses revela a ameaça que Jesus representa não como um agitador político, mas como um portador de outro mundo possível. A ameaça do Reino é sua lógica alternativa, não violenta, que subverte os alicerces do poder. Jesus não nega a política; Ele a redime pela ética do cuidado. Ele denuncia o sistema sem replicá-lo, propondo uma justiça não-retributiva, que não premia os justos segundo os méritos, mas acolhe os que ainda respiram, mesmo que com dificuldade. Seu gesto de silêncio é um gesto político, profundamente desestabilizador para os que se sustentam pelo espetáculo e pelo controle. Esse silêncio é também um gesto espiritual. A teologia apofática do Oriente cristão vivida na tradição hesicasta e formulada pelos Padres Capadócios reconhece o silêncio como linguagem plena de sentido. O Cristo que não grita é o Logos que se revela no não dito, aquele que, como diria Gregório de Nissa, “é compreendido não quando é explicado, mas quando é contemplado”. A mansidão do Servo é, portanto, uma manifestação teológica: revela o ser de Deus como amor que não se impõe, mas se oferece. Sua justiça é epifania do Reino, não decreto de condenação. Ele não quebra a cana rachada, expressão hebraica que evoca a ternura de Deus diante do fraco (cf. Isaías 57,15), nem apaga o pavio que fumega, símbolo da vida quase apagada, mas ainda viva, que o sistema despreza.
O Servo que cura e se esconde é antítese do pregador de palco, do influencer da fé que monetiza a esperança e manipula a vulnerabilidade alheia. Jesus não transforma milagres em propaganda. Ele cura e ordena silêncio. Em João 6,15, quando o povo quer fazê-lo rei após o milagre dos pães, Ele se retira para o monte; gesto profundamente significativo: Jesus rejeita o coroamento pelo poder, mesmo quando este é oferecido pela multidão fascinada. Ele não quer súditos, mas discípulos; não busca aplausos, mas conversão. Sua mística é do escondimento, não da autopromoção. Sua pedagogia é da paciência, não da pressa dos resultados. Na perspectiva da psicologia existencial e da antropologia da fé, o Servo revela a força do cuidado com o fragmentado. A cana rachada e o pavio que fumega não são figuras decorativas, mas existências reais: os que vivem em burnout espiritual, os que já não creem, os que foram usados pela religião e descartados. Jesus não desiste deles. Ele os carrega, como o pastor que, em Isaías 40,11, conduz ternamente as ovelhas com filhotes. Há uma sabedoria terapêutica no agir de Jesus: Ele não força a cura, mas respeita o ritmo de cada ferida. Ele não invade, mas visita. Sua presença é como a brisa suave em 1Reis 19,12, onde Deus se revela não no terremoto ou no fogo, mas no murmúrio sutil.
Enquanto certas teologias promovem um Cristo triunfalista, recompensador, que opera como um CEO da fé e distribuidor de bênçãos em troca de sacrifícios financeiros, o Evangelho nos apresenta um Messias pobre, discreto, sem beleza exterior, como Isaías 53 descreve. Ele não nos livra do sofrimento pela força, mas caminha conosco nele. Sua missão não é eliminar a dor, mas transformá-la em lugar de encontro com o Deus vulnerável. A vitória do Servo não é de ordem bélica, mas pascal: ela passa pela cruz. Apocalipse 5,6 reforça esse paradoxo: é o Cordeiro como que imolado, não o leão rugidor, quem rompe os selos da história.
A crítica social aqui é sutil, mas aguda. Enquanto os líderes religiosos disputam púlpitos e os políticos manipulam símbolos sagrados, o Servo caminha entre os esquecidos. Ele não busca “likes” nem está em busca de seguidores para seu canal. Ele não realiza lives de milagres nem vende produtos ungidos. Sua espiritualidade não é uma vitrine, mas um abrigo. Como nos lembra Paulo Freire, o silêncio pode ser um grito: um grito de denúncia, mas também de anúncio. Jesus anuncia outro modo de ser e viver, uma fé que não se compra, uma esperança que não se vende, um Deus que não se presta ao espetáculo. Essa espiritualidade do Servo nos convoca a uma revisão profunda da Igreja e de suas lideranças. São João Crisóstomo já denunciava os perigos do clericalismo que transforma ministros em tiranos. O Concílio Vaticano II, especialmente na Lumen Gentium, aponta que a Igreja é sacramento de salvação na medida em que se faz serva. O Papa Francisco retomou com vigor esse chamado, alertando que “o clericalismo é um câncer na Igreja”, uma perversão do Evangelho. Jesus não se veste de púrpura nem exige reverências; Ele se ajoelha para lavar os pés. Toda autoridade que não serve, trai o Servo.
Hoje, a cana rachada são os corpos negros tombados pela violência policial, os povos indígenas exilados de suas terras, os pobres criminalizados, os migrantes afogados, os LGBTQIA+ excluídos dos templos, as mulheres caladas pela estrutura patriarcal. O pavio que fumega são os que ainda sonham, resistem, crêem apesar da Igreja. São aqueles que, como o povo no deserto, caminham entre murmúrios e manás, sustentados por um Deus que não grita, mas escuta. É com eles que o Servo caminha. O Messias que se cala e se retira é, portanto, o mesmo que grita nas entrelinhas da história. Seu silêncio é revelação. Sua fragilidade é força. Sua justiça é ternura. Ele não brada, mas carrega. Não exclui, mas reconcilia. Não julga, mas cura. E quando vier em glória e virá , não será com exércitos nem cortejos, mas com as chagas de quem amou até o fim. Que Ele nos encontre entre os pavios que ainda fumegam, entre as canas que ainda querem se reerguer. Que Ele nos reconheça entre os servos, não entre os senhores. E nos diga, com voz mansa: “Estivestes comigo…” (Mateus 25,40).
À luz dessas diferentes proclamações litúrgicas, torna-se evidente que a missão de Jesus não se fundamenta na busca do poder, da visibilidade ou do prestígio, mas na fidelidade silenciosa ao projeto do Pai. Em Mateus, contemplamos o Servo manso que não quebra a cana rachada nem apaga o pavio que ainda fumega; em Marcos, o Libertador cuja autoridade vence o mal sem recorrer à violência; e, em Lucas, o Senhor cuja presença comunica vida e restauração aos que dele se aproximam. Juntas, essas perspectivas revelam um Messias que transforma a história pela compaixão, pela justiça e pelo serviço. Em um tempo marcado pelo espetáculo, pelo individualismo e pela instrumentalização da fé, o Evangelho continua a desafiar a Igreja e cada discípulo a testemunhar uma espiritualidade que privilegia o cuidado dos mais frágeis, rejeita toda forma de clericalismo e de autorreferencialidade e faz da misericórdia o critério da verdadeira autoridade. Assim, a vitória do Servo permanece atual: não é a vitória dos poderosos, mas a do amor que serve; não a dos que dominam, mas a dos que permanecem fiéis ao Reino até o fim.
Essa é a vitória do Servo: não a dos tronos, mas a da cruz. Não a dos gritos, mas a do silêncio que salva.