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terça-feira, 10 de março de 2026

Geopolítica de Boteco e Bombas Importadas

O Brasil acordou esses dias com aquela sensação estranha de quem entrou numa peça de teatro escrita por um roteirista bêbado de geopolítica. De um lado, as facções criminosas que nasceram nos subterrâneos sociais do país, paridas por presídios superlotados, alimentadas por desigualdade histórica e por um Estado que sempre foi muito eficiente para proteger patrimônio e muito incompetente para proteger gente. Do outro lado, o império de botas limpas, discursos civilizatórios e drones bem calibrados, olhando o mapa da América Latina como quem observa um tabuleiro de War. E no meio disso tudo, uma parte barulhenta da extrema direita brasileira vibrando como torcida organizada diante da possibilidade de que o xerife do planeta resolva “organizar” o quintal alheio. Existe um tipo curioso de patriotismo no Brasil. O patriota que bate continência para bandeira estrangeira. Ele grita “Brasil acima de tudo”, mas vive esperando autorização do norte para saber o que pensar, o que defender e até quem deve ser o inimigo da semana. É o nacionalismo de joelhos, uma devoção tropical ao império que se fantasia de soberania enquanto entrega o controle do debate público a interesses estrangeiros.
De repente, lá de Washington surge mais uma etiqueta geopolítica pronta para exportação. Terrorismo. Uma palavra pesada que funciona como chave mestra da política internacional. Quando essa palavra aparece, fronteiras ficam mais flexíveis, soberanias ficam mais negociáveis e mísseis passam a ser considerados ferramentas diplomáticas. O PCC e o Comando Vermelho entram nesse radar como se fossem fenômenos súbitos, quase meteorológicos, e não produtos históricos de décadas de abandono social, sistema prisional brutal e políticas públicas improvisadas. Curioso é ver homens engravatados em gabinetes a milhares de quilômetros discutindo o destino de bairros que nunca pisaram nem no Google Street View. Para eles, a periferia latino-americana é uma abstração cartográfica. Um espaço onde conceitos como “segurança hemisférica” e “estabilidade regional” podem ser aplicados com a frieza de um relatório estratégico. Traduzido para o português das favelas, esse vocabulário elegante costuma significar helicóptero sobrevoando telhados de zinco, sirene cortando madrugada e mais uma estatística no noticiário da manhã.
A verdade incômoda é que o Brasil produziu, ao longo de décadas, o ambiente perfeito para o surgimento dessas organizações: 
  •  O Comando Vermelho nasce nos anos 1970 na prisão da Ilha Grande, no encontro improvável entre presos comuns e presos políticos que compartilharam experiências de organização coletiva dentro de um sistema carcerário brutal.
  •  O PCC surge nos anos 1990, no rastro sangrento do massacre do Carandiru, quando o Estado mostrou de forma brutal como tratava seus próprios cidadãos encarcerados. 
Essas facções não brotaram do nada. Elas cresceram no terreno fértil da desigualdade urbana, da ausência de políticas públicas e de um modelo de segurança que prefere reagir com violência a prevenir com justiça. No fundo, o Brasil decidiu governar suas periferias com abandono administrativo e operações policiais espetaculares para a televisão.
O Estado brasileiro tem dificuldade histórica em entregar escola, saneamento e transporte digno. Mas helicóptero blindado ele aprende a comprar rapidinho. Para a favela quase sempre há orçamento para bala. Biblioteca costuma faltar.
E no meio dessa discussão toda existe um silêncio que diz muito. As milícias. Esse fenômeno tão brasileiro que parece mistura de coronelismo antigo com empreendedorismo criminal moderno. Grupos armados formados por policiais, ex-policiais e agentes de segurança que descobriram um modelo de negócios extremamente lucrativo. Controlam territórios inteiros cobrando taxa de gás, taxa de transporte, taxa de internet, taxa de segurança e taxa de silêncio. É o crime organizado que fez concurso público. Um feudalismo armado instalado dentro das cidades. Mas curiosamente, quando o assunto vira terrorismo internacional, esses grupos desaparecem do debate com a elegância de quem conhece muito bem os corredores do poder. Talvez porque miliciano não atravesse fronteiras com cocaína. Ele atravessa gabinetes. Ele financia campanha eleitoral, escolhe vereador, influencia deputado e negocia com quem estiver no governo. É o tipo de criminalidade que aprende rápido a usar gravata.
No fundo, a chamada guerra às drogas nunca foi uma guerra contra drogas. Foi uma guerra contra territórios pobres.
Existe também uma hipocrisia estrutural que raramente aparece nos discursos oficiais. Os países pobres produzem e transportam. Os países ricos consomem e lavam o dinheiro. Enquanto jovens negros morrem nas periferias latino-americanas e lotam presídios superlotados, bilhões de dólares do narcotráfico circulam tranquilamente por bancos internacionais, paraísos fiscais e investimentos imobiliários. A cocaína é combatida nas favelas com fuzil, mas é purificada no sistema financeiro com planilhas, advogados caros e reuniões discretas em arranha-céus climatizados. O combate global às drogas costuma ser muito rigoroso com os pobres e curiosamente indulgente com o sistema financeiro.
Enquanto isso, parte da extrema direita brasileira observa esse cenário com entusiasmo quase infantil. Porque se os Estados Unidos classificarem facções brasileiras como terrorismo internacional, imediatamente surgirá o discurso de que finalmente alguém teve coragem de enfrentar o crime. E se o governo brasileiro levantar qualquer questionamento sobre soberania ou consequências dessa classificação, virá o velho refrão de que o país virou cúmplice de criminosos. É um truque político antigo. Reduzir problemas sociais complexos a slogans morais simples. Funciona bem em época eleitoral, rende curtidas nas redes sociais e exige pouquíssimo esforço intelectual.
O império, por sua vez, tem longa experiência nesse tipo de pedagogia geopolítica. A América Latina conhece bem esse roteiro. Primeiro vem o diagnóstico moral. Depois as sanções econômicas. Depois os conselhos militares. Depois os helicópteros. A democracia chega sempre escoltada por fuzileiros navais e contratos de reconstrução. Chile, Guatemala, Panamá, Nicarágua, República Dominicana, Haiti. Cada país guarda alguma cicatriz dessa tradição de intervenções que sempre chegam embaladas em discursos sobre liberdade e estabilidade.
No final das contas, o Brasil continua preso na mesma encruzilhada histórica. A violência nasce da desigualdade, cresce no abandono e depois é tratada como espetáculo militar. As facções viram inimigo absoluto. As milícias viram detalhe inconveniente. A extrema direita transforma medo em combustível eleitoral. E o império continua exercendo o privilégio histórico de decidir quem é terrorista e quem é aliado estratégico.
Enquanto isso, a periferia segue sendo bombardeada todos os dias. Não por drones estrangeiros, mas por pobreza, racismo estrutural, ausência de Estado e hipocrisia política. Esse tipo de bomba não aparece em relatórios internacionais. Não ameaça mercados, não atravessa fronteiras e não incomoda os donos do poder.
Ali, nas vielas e nos bairros esquecidos das grandes cidades, a vida continua acontecendo longe das teorias geopolíticas. Ali onde o Estado costuma chegar primeiro com fuzil e só muito depois, quando chega, com direitos.

DNonato - Só um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco



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domingo, 4 de janeiro de 2026

Direito, Poder e Medo: A Lógica do Império Norte-Americano

A virada do século XXI foi marcada por um evento que redefiniu brutalmente a geopolítica global e abriu caminho para uma nova forma de dominação internacional: os atentados de 11 de setembro de 2001 contra as Torres Gêmeas, em Nova York. A tragédia humana foi real e incontestável. Milhares de vidas foram ceifadas em um ato de violência que chocou o mundo. Contudo, sua apropriação política foi imediata. A dor virou narrativa. A narrativa virou doutrina. E a doutrina virou licença para a guerra. Desde então, a chamada “guerra ao terror” e a prisão seletiva de líderes considerados inconvenientes — como Nicolás Maduro — expressam uma mesma lógica imperial: a substituição do direito internacional por uma pedagogia do medo, da punição exemplar e da submissão geopolítica.

Em nome do combate a um “inimigo invisível”, difuso, elástico e permanentemente redefinível, os Estados Unidos inauguraram uma era de exceção global. A Doutrina Bush, o Patriot Act e a lógica do “ataque preventivo” não apenas ampliaram poderes de vigilância e repressão; dissolveram fronteiras jurídicas, relativizaram a soberania dos Estados e normalizaram práticas antes consideradas crimes: invasões sem mandato da ONU, assassinatos seletivos por drones, prisões ilegais, sequestros extrajudiciais, sanções econômicas coletivas e a suspensão sistemática do direito internacional. O que antes era exceção tornou-se regra. A guerra deixou de ser resposta extrema e passou a ser método ordinário de governo.

Instaurou-se, assim, um regime jurídico-político global no qual a exceção não é mais provisória, mas estrutural. A soberania passou a ser definida não pelo direito, mas pela capacidade de decidir quem pode ser punido fora da lei. A “guerra ao terror” não produziu apenas conflitos armados; produziu uma nova gramática do poder, na qual a legalidade é flexível para o império e rígida para os demais. O direito internacional foi esvaziado por dentro e substituído por uma moral de força travestida de segurança.

O Afeganistão foi o primeiro laboratório dessa nova ordem. Sob o argumento de combater a Al-Qaeda, os Estados Unidos invadiram um país já devastado por décadas de conflitos — muitos deles alimentados pelo próprio financiamento norte-americano aos mujahidin nos anos 1980, quando esses grupos eram tratados como “aliados estratégicos” na luta contra a União Soviética. A ironia histórica é cruel: aliados tornam-se inimigos quando deixam de ser úteis. Não há princípios permanentes, apenas conveniência imperial. Vinte anos depois, após milhares de mortos, bilhões gastos e um país destruído, o Talibã voltou ao poder, expondo o fracasso político, moral e estratégico da ocupação.

O Iraque veio em seguida, sustentado pela farsa das “armas de destruição em massa”, jamais encontradas. A mentira foi suficiente para destruir um Estado inteiro, desmontar instituições, incendiar conflitos sectários e desestabilizar todo o Oriente Médio. Centenas de milhares de civis morreram. Milhões foram deslocados. O terrorismo, longe de ser derrotado, foi alimentado. O inimigo era invisível, mas o petróleo era concreto. Oleodutos, contratos bilionários, privatizações forçadas e lucros astronômicos para empresas do complexo industrial-militar falaram mais alto que qualquer discurso sobre democracia ou direitos humanos.

A guerra, nesse contexto, não é apenas decisão política; é também cadeia produtiva. Corporações armamentistas, empresas de segurança privada, construtoras e setores energéticos transformaram conflitos em oportunidades de negócio. O Estado passou a operar como gestor da violência lucrativa. A política externa foi capturada por interesses corporativos, e a morte tornou-se item contábil. O neoliberalismo, longe de ser apenas um modelo econômico, revelou-se um sistema que precisa do caos para avançar.

Esse padrão não é episódico; é estrutural. Os Estados Unidos não guerreiam apenas por segurança, mas por hegemonia econômica, energética e geopolítica. A democracia funciona como verniz ideológico. Quando se raspa a superfície, emergem o Consenso de Washington, o neoliberalismo armado e a captura do Estado por interesses privados. A guerra torna-se política pública, e a exceção jurídica, instrumento permanente de governo.

É nesse horizonte que a América Latina precisa ser compreendida. A Guerra Fria, no continente, não foi apenas um embate ideológico entre capitalismo e socialismo, mas um vasto laboratório de intervenções. Sob a Doutrina Monroe e a Doutrina de Segurança Nacional, os Estados Unidos financiaram, treinaram e legitimaram ditaduras militares no Brasil, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Guatemala, El Salvador e Nicarágua. A Escola das Américas formou torturadores. A Operação Condor articulou sequestros, assassinatos e desaparecimentos em escala continental. Os arquivos hoje abertos confirmam: democracia nunca foi prioridade quando os interesses estavam garantidos.

Com o fim das ditaduras, não veio a soberania plena. A repressão militar foi substituída pela coerção econômica. Dívida externa, ajustes estruturais, privatizações predatórias e submissão a organismos financeiros internacionais mantiveram os Estados latino-americanos dependentes e vulneráveis. O controle deixou de ser exercido apenas pelos quartéis e passou a operar pelos mercados.

É dessa memória ferida que emerge o chavismo. Hugo Chávez não foi um acidente histórico, mas um sintoma. Um grito vindo das periferias de Caracas contra um modelo econômico que produzia riqueza para poucos e miséria para muitos. A Venezuela, embora riquíssima em petróleo, convivia com pobreza estrutural, corrupção sistêmica e exclusão social profunda. O Caracazo de 1989 foi o sinal inequívoco do colapso do neoliberalismo imposto.

Chávez deu voz aos humilhados e enfrentou simbolicamente o império. Houve avanços sociais reais, especialmente em saúde e educação, impulsionados pela renda petrolífera. Contudo, o processo carregava contradições graves: concentração de poder, personalização da política, militarização crescente do Estado, enfraquecimento institucional e dependência quase absoluta do petróleo. O enfrentamento ao neoliberalismo não foi acompanhado pela construção de um modelo democrático sólido, plural e sustentável.

A ascensão de Nicolás Maduro marca o momento mais frágil desse projeto. Sem o carisma de Chávez, enfrentando a queda do preço do petróleo, sanções econômicas severas e uma oposição radicalizada, Maduro optou pelo endurecimento autoritário como estratégia de sobrevivência. A crise humanitária se agravou, milhões migraram, o discurso revolucionário distanciou-se da vida concreta do povo. Há responsabilidades internas evidentes: repressão, corrupção, sufocamento de dissidências — inclusive à esquerda —, fechamento do diálogo e erosão democrática. Reconhecê-las é necessário. A crítica ao imperialismo não pode servir de álibi para o silenciamento das contradições internas.

Mas nada disso legitima a encenação imperial da prisão de Maduro pelos Estados Unidos. Não se trata de defendê-lo, mas de afirmar um princípio elementar: nenhuma potência tem o direito de se colocar como tribunal universal. Os Estados Unidos jamais aceitaram submeter-se plenamente ao Tribunal Penal Internacional, mas exigem obediência jurídica dos outros. Essa assimetria revela que, sob o império, a lei internacional é seletiva.

A prisão seletiva é método recorrente. Ela não busca justiça; busca pedagogia. Ensina aos demais o preço da desobediência. O mesmo mecanismo aparece na perseguição a Julian Assange, nas extradições assimétricas, nas sanções que punem povos inteiros. A punição não é jurídica; é política.

Guantánamo permanece como símbolo máximo dessa ruptura civilizacional. Uma prisão fora do direito, em território ocupado, onde pessoas ficaram décadas sem acusação formal, sem julgamento e sem garantias legais. Um campo de exceção moderno que expõe o colapso ético do discurso democrático ocidental. Como falar em direitos humanos com Guantánamo aberto? Como celebrar prisões seletivas como atos civilizatórios?

A seletividade moral se repete nas alianças. Ditaduras são toleradas quando garantem petróleo, rotas comerciais e estabilidade para o capital. A Arábia Saudita, regime brutal, responsável por assassinatos políticos e pela devastação do Iêmen, jamais foi tratada como ameaça à democracia. Ditadores só se tornam problema quando desobedecem.

No plano global, a invasão da Ucrânia pela Rússia é criminosa e deve ser denunciada sem relativizações. Trata-se de uma violação clara do direito internacional. Contudo, a indignação seletiva do Ocidente compromete sua credibilidade. Onde estavam as sanções quando o Iraque foi invadido? Onde estava a comoção quando drones norte-americanos matavam famílias inteiras no Oriente Médio? Se o crime depende do passaporte de quem o comete, não é justiça — é propaganda.

O cerco a Taiwan revela que o mundo vive uma nova Guerra Fria, agora multipolar. Não se trata de disputa ideológica, mas de controle de tecnologia, semicondutores, dados, rotas marítimas e cadeias produtivas. Estados Unidos e China disputam poder. Os valores são retórica. O risco de escalada militar é estrutural — e, como sempre, os povos pagarão a conta.

Na América Latina, o velho fantasma do comunismo volta a ser agitado. A extrema-direita recicla o discurso do narcoterrorismo para criminalizar políticas sociais, movimentos populares e governos eleitos. Trata-se da atualização da doutrina da guerra interna. Não se combate o crime organizado com slogans ideológicos, mas com justiça social, políticas públicas e redução das desigualdades que o próprio capitalismo produz.

Enquanto isso, o neoliberalismo permanece blindado. Não é tratado como ideologia, mas como natureza. Seus fracassos são naturalizados; suas vítimas, culpabilizadas. Ele opera como uma teologia secular: transforma o mercado em dogma, a austeridade em virtude e o sofrimento social em sacrifício necessário. Questioná-lo vira heresia. Aceitá-lo, mesmo diante do colapso social e climático, vira “realismo”.

A verdade incômoda é que muitos conflitos contemporâneos têm raízes diretas na disputa por recursos naturais — petróleo, gás, lítio, água, rotas estratégicas e tecnologia. Controle energético significa poder. A democracia só é invocada quando serve a esse objetivo. Quando atrapalha, é descartada.

A história ensina que impérios não caem por falta de força militar, mas por excesso de arrogância. Roma, Espanha, Inglaterra — todos ruíram corroídos por dentro. Os Estados Unidos acumulam guerras, sanções e alianças espúrias que corroem sua autoridade moral. Isso não absolve autoritarismos rivais nem romantiza regimes opressivos de outro sinal ideológico. Obriga, porém, a romper com a narrativa infantil que divide o mundo entre “bons” e “maus” conforme a conveniência do mercado.

O maior perigo do nosso tempo não é o comunismo, nem o terrorismo, nem a China ou a Rússia. O maior perigo é a normalização de um mundo em que a lei serve aos fortes, a guerra vira virtude e a prisão seletiva substitui tribunais. Quando a força define a justiça, o problema não é a ausência de democracia — é o excesso de império. Enquanto essa lógica não for enfrentada, novos inimigos invisíveis continuarão sendo fabricados, novas guerras legitimadas, novos povos sacrificados. E, como sempre, serão os povos — e não os impérios — que pagarão o preço.

Prof. DNonato – Graduado em História