segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 15,1-2.10-14.

A liturgia da Igreja Católica Romana proclama o Evangelho de Mateus 15,1-2.10-14 na terça-feira da 18ª Semana do Tempo Comum, dentro do caminho espiritual das celebrações feriais em que a comunidade cristã é conduzida a aprofundar o mistério de Cristo e a compreender progressivamente as exigências do Reino de Deus. Nesse período do Tempo Comum, a Igreja contempla Jesus como aquele que revela o verdadeiro rosto do Pai e conduz seus discípulos para além de uma religiosidade marcada apenas por práticas externas, chamando-os a uma conversão profunda do coração. O texto paralelo de Marcos 7,1-23 também possui lugar importante na liturgia. Nas missas feriais da 5ª Semana do Tempo Comum, a Igreja proclama Marcos 7,1-13 na terça-feira e Marcos 7,14-23 na quarta-feira, apresentando a mesma controvérsia entre Jesus, os fariseus e os escribas sobre a verdadeira fonte da pureza. Nas celebrações dominicais do Ano B, Marcos 7,1-8.14-15.21-23 é proclamado no 22º Domingo do Tempo Comum, oferecendo à assembleia uma reflexão sobre a relação entre tradição, consciência e fidelidade a Deus. Outras tradições cristãs históricas, como as Igrejas Ortodoxas, Anglicanas, Luteranas e demais comunidades que conservam calendários litúrgicos baseados nos Evangelhos Sinóticos, também acolhem essa passagem como um texto fundamental para o discernimento entre uma fé autêntica e uma religiosidade reduzida à aparência. O texto de Mateus 15,1-2.10-14 não apresenta apenas um debate sobre costumes religiosos do século I. Ele revela um dos conflitos centrais da missão de Jesus: a tensão entre uma religião que pode se prender às estruturas externas e a fé que nasce da transformação interior realizada por Deus. A pergunta dos fariseus e escribas não é simplesmente sobre lavar ou não lavar as mãos, mas sobre o modo como o ser humano compreende sua relação com Deus. A questão profunda é saber se as tradições religiosas permanecem como caminhos que conduzem à vida ou se podem transformar-se em obstáculos quando são colocadas acima da misericórdia. Jesus está profundamente enraizado na história de Israel. Ele não aparece como alguém que despreza a Lei, os profetas ou a tradição de seu povo. Pelo contrário, afirma: "Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir" (Mt 5,17). A novidade de Cristo está em revelar o sentido pleno da vontade divina, mostrando que toda prática religiosa deve estar orientada pelo amor a Deus e ao próximo. A fidelidade verdadeira não consiste apenas em preservar formas externas, mas em permitir que a Palavra de Deus transforme a existência.

Para compreender a força dessa passagem, é necessário observar o contexto narrativo que a antecede. O capítulo 14 de Mateus apresenta uma sequência de acontecimentos que revelam o modo como Jesus manifesta o Reino. João Batista é assassinado por denunciar a corrupção moral do poder de Herodes Antipas (Mt 14,1-12). O profeta que preparou o caminho do Messias torna-se testemunha da verdade até o fim. Sua morte revela que a palavra de Deus frequentemente confronta interesses políticos, privilégios e estruturas injustas. Depois desse episódio, Jesus alimenta uma multidão no deserto (Mt 14,13-21). O gesto da multiplicação dos pães recorda a ação de Deus no Êxodo e revela que o Reino não é uma realidade distante da vida concreta. Deus preocupa-se com a fome, com a necessidade e com a dignidade das pessoas. Jesus não oferece apenas ensinamentos espirituais; Ele manifesta uma presença que cura, alimenta e restaura.

Em seguida, Jesus caminha sobre as águas (Mt 14,22-33), revelando sua autoridade sobre o caos e o medo, e cura os enfermos em Genesaré (Mt 14,34-36), mostrando uma santidade que não se afasta da fragilidade humana, mas aproxima-se dela para comunicar vida. Essa sequência prepara o leitor para compreender o contraste presente em Mateus 15: enquanto Jesus se aproxima das dores humanas, alguns líderes religiosos aproximam-se preocupados com questões externas de pureza. O conflito, portanto, não acontece entre fé e ausência de fé. Jesus não está diante de pessoas que rejeitam Deus, mas diante de pessoas religiosas que interpretam a fidelidade de uma maneira diferente. O Evangelho apresenta uma pergunta sempre atual: é possível defender a religião e, ao mesmo tempo, afastar-se do coração de Deus?

Os fariseus e escribas que vêm de Jerusalém representam uma autoridade religiosa reconhecida. Jerusalém era o centro espiritual do judaísmo do período, cidade do Templo e símbolo da identidade religiosa de Israel. A pergunta dirigida a Jesus possui caráter de fiscalização: "Por que teus discípulos transgridem a tradição dos antigos? Pois não lavam as mãos quando comem?" (Mt 15,2). No contexto judaico do primeiro século, a questão das mãos não estava relacionada principalmente à higiene, mas às práticas de pureza ritual desenvolvidas pela tradição dos anciãos. Essas interpretações buscavam proteger a observância da Lei, criando aplicações detalhadas para a vida cotidiana. O termo grego utilizado por Mateus para tradição é "parádosis" (παράδοσις), aquilo que foi transmitido, recebido e conservado.

A tradição, em si mesma, possui valor. A própria fé cristã nasce de uma tradição recebida e transmitida: "Eu vos transmiti aquilo que eu mesmo recebi" (1Cor 15,3). O problema não está em conservar a memória da fé, mas em transformar interpretações humanas em absolutos, colocando-as acima da Palavra de Deus. Quando uma tradição deixa de conduzir à misericórdia, à justiça e ao amor, ela perde sua finalidade. Por isso Jesus responde com uma denúncia profética: "Por que também vós transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição?" (Mt 15,3). Ele não permanece no nível da discussão ritual, mas revela a questão ética que está por trás dela. Como exemplo, menciona o mandamento de honrar pai e mãe (Ex 20,12; Dt 5,16), mostrando que nenhuma prática religiosa pode justificar o abandono das responsabilidades fundamentais com a vida humana.

A crítica de Jesus está em plena continuidade com a tradição profética de Israel. Os profetas sempre denunciaram uma religião separada da justiça. Isaías proclama: "Aprendei a fazer o bem, procurai o direito, socorrei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva" (Is 1,17). Amós anuncia: "Quero ver o direito correndo como água e a justiça como um rio permanente" (Am 5,24). Miqueias resume a vontade de Deus: "Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus" (Mq 6,8)..Jesus, portanto, não destrói a religião de Israel, mas revela sua verdadeira finalidade. Ele recorda que Deus nunca desejou um culto separado da compaixão. A adoração autêntica sempre conduz ao cuidado com o outro, especialmente com aqueles que sofrem.

Quando chama a multidão e afirma: "Escutai e compreendei" (Mt 15,10), Jesus utiliza uma linguagem profundamente ligada à espiritualidade bíblica. Escutar, no sentido das Escrituras, não significa apenas ouvir, mas acolher uma palavra que transforma a vida. O grande mandamento de Israel começa com o chamado: "Escuta, Israel" (Dt 6,4). Jesus convida a uma escuta mais profunda, capaz de ultrapassar aparências e alcançar a vontade de Deus. A questão da pureza possuía grande importância na organização religiosa e social do mundo bíblico. As categorias de puro e impuro ajudavam Israel a preservar sua identidade, mas também poderiam ser utilizadas para estabelecer fronteiras de exclusão. Toda sociedade cria símbolos de pertencimento; o problema surge quando essas fronteiras deixam de proteger a vida e passam a justificar superioridade, rejeição ou indiferença..Jesus realiza uma mudança decisiva ao deslocar a pureza do exterior para o interior. O ser humano não se afasta de Deus apenas pelo contato com determinadas realidades externas, mas pelas escolhas que nascem de um coração fechado ao amor. A verdadeira impureza nasce daquilo que destrói a comunhão com Deus e com o próximo.

O coração, na compreensão bíblica, não representa apenas o campo dos sentimentos. O termo hebraico "lev" indica o centro da pessoa, onde estão a consciência, a vontade, a memória e as decisões fundamentais. Por isso a sabedoria bíblica afirma: "Guarda teu coração, porque dele brotam as fontes da vida" (Pr 4,23)..A mensagem de Jesus conduz a humanidade para uma profunda conversão interior. O problema fundamental não está apenas nas ações visíveis, mas nas raízes invisíveis que orientam essas ações. O Evangelho revela que Deus deseja transformar o coração humano para que a vida inteira seja renovada..A transformação do coração anunciada por Jesus encontra suas raízes nas grandes promessas proféticas de Israel. Jeremias havia anunciado uma nova aliança na qual Deus não escreveria sua vontade apenas em tábuas de pedra, mas no interior da pessoa humana: "Porei minha lei no seu íntimo e a escreverei em seu coração" (Jr 31,33). Ezequiel utiliza uma imagem ainda mais forte ao proclamar a ação renovadora de Deus: "Dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei um coração de carne" (Ez 36,26). Jesus, portanto, não apresenta uma novidade desligada da história bíblica, mas realiza a esperança de uma humanidade reconciliada interiormente com Deus.

Essa visão possui uma profunda dimensão antropológica. A Bíblia compreende o ser humano como uma realidade integrada, na qual pensamentos, desejos, escolhas e ações estão unidos. A violência, a injustiça e a indiferença não aparecem de forma repentina; frequentemente são frutos de processos interiores alimentados por egoísmo, medo, ressentimento ou desejo de dominação. Jesus revela que a transformação do mundo começa também pela transformação da pessoa e a  compreensão do  fato  dialoga com a psicologia humana. As atitudes externas geralmente revelam valores, convicções e afetos cultivados no interior. Uma pessoa pode construir uma imagem religiosa diante da sociedade e, ao mesmo tempo, carregar no íntimo sentimentos contrários ao amor de Deus. Por isso Jesus critica uma espiritualidade baseada apenas na aparência. A verdadeira conversão exige sinceridade diante de Deus e diante de si mesmo.

O livro do Gênesis já apresenta essa realidade no relato das origens. O pecado humano começa como uma ruptura interior da confiança em Deus (Gn 3,1-19). Antes de ser uma ação externa, ele nasce de uma interpretação equivocada sobre Deus e sobre a própria liberdade humana. A história de Caim aprofunda essa reflexão quando Deus pergunta: "Onde está teu irmão Abel?" (Gn 4,9). A pergunta divina atravessa toda a história porque nenhuma espiritualidade pode ser considerada verdadeira quando ignora o sofrimento do outro e  a  perspectiva aparece na pregação de Jesus. No Sermão da Montanha, Ele aprofunda o sentido do mandamento "não matarás", mostrando que a raiz da violência também está na ira, no desprezo e na incapacidade de reconhecer a dignidade do irmão (Mt 5,21-22). O Reino de Deus não transforma apenas comportamentos visíveis, mas modifica a maneira como o ser humano olha, pensa e se relaciona.

Paulo desenvolve essa compreensão ao afirmar: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para discernirdes a vontade de Deus" (Rm 12,2). A conversão cristã não é simplesmente adequação moral a determinadas normas, mas uma nova forma de existir orientada pelo Espírito Santo..Os grandes mestres da tradição cristã compreenderam essa dimensão interior do Evangelho. 

  • Santo Agostinho refletiu profundamente sobre a busca humana por sentido ao afirmar que o coração permanece inquieto enquanto não encontra sua verdadeira orientação em Deus. Sua reflexão revela que muitas crises espirituais nascem quando o ser humano coloca realidades limitadas no lugar do absoluto e busca nelas uma plenitude que elas não podem oferecer.
  • São João Crisóstomo, ao comentar os Evangelhos, insistia que não existe verdadeira devoção a Deus quando a pessoa permanece indiferente diante da pobreza e do sofrimento humano. Para ele, a celebração religiosa perde seu sentido quando não conduz à caridade concreta. Essa interpretação permanece atual diante de uma religiosidade que pode valorizar manifestações externas e, ao mesmo tempo, esquecer aqueles que vivem situações de abandono.
  • Orígenes desenvolveu uma leitura espiritual da Escritura mostrando que a Palavra de Deus não deve ser recebida apenas como uma norma exterior, mas como uma força capaz de iluminar o interior humano. A Bíblia não revela somente quem é Deus; ela também revela quem somos nós diante dele e quais áreas da existência precisam ser transformadas.

A compreensão encontra confirmação nas cartas do Novo Testamento. A Carta de Tiago afirma: "A religião pura e sem mancha diante de Deus consiste em cuidar dos órfãos e das viúvas em suas tribulações e guardar-se da corrupção do mundo" (Tg 1,27). João também ensina: "Quem possui os bens deste mundo e vê seu irmão necessitado, mas fecha o coração, como permanecerá nele o amor de Deus?" (1Jo 3,17). O Evangelho de Mateus, portanto, confronta uma das grandes tentações da experiência religiosa: separar a fé da vida concreta. É possível possuir discursos religiosos, defender tradições e participar de práticas espirituais sem permitir que o coração seja realmente transformado. Jesus recorda que a autenticidade da fé aparece nos frutos produzidos na existência.

 A advertência possui grande importância para compreender a religião enquanto fenômeno humano e social. As tradições religiosas possuem capacidade de gerar solidariedade, esperança e sentido comunitário. Ao mesmo tempo, podem sofrer deformações quando seus símbolos são utilizados para controle, exclusão ou busca de poder. A religião permanece fiel à sua vocação quando conduz à liberdade interior e ao compromisso com a vida..O próprio Jesus denuncia esse risco ao confrontar lideranças religiosas que haviam transformado a autoridade espiritual em instrumento de prestígio. No capítulo 23 de Mateus, Ele critica aqueles que colocam cargas pesadas sobre os outros sem ajudá-los a carregar (Mt 23,4), que procuram reconhecimento público (Mt 23,5-7) e que impedem as pessoas de aproximarem-se do Reino de Deus (Mt 23,13). E a  denúncia continua atual diante do clericalismo, entendido como uma deformação da autoridade eclesial quando o serviço se transforma em privilégio e a liderança passa a ser exercida como domínio. O próprio Jesus estabelece outro modelo: "Quem quiser tornar-se grande entre vós, seja aquele que serve" (Mc 10,43). A autoridade cristã nasce da entrega, da escuta e da proximidade com o povo.

A passagem de Mateus também ilumina o discernimento necessário diante da instrumentalização da religião na sociedade contemporânea. A fé possui consequências públicas e deve participar da construção do bem comum, mas não pode ser reduzida a instrumento de disputa de poder. Quando símbolos religiosos são utilizados para legitimar interesses particulares, a mensagem do Evangelho corre o risco de ser substituída por projetos humanos..Jesus rejeitou essa lógica desde o início de sua missão. Nas tentações do deserto, Ele recusou utilizar poder, prestígio ou domínio como caminhos para cumprir sua missão (Mt 4,1-11). Sua autoridade nasce da fidelidade ao Pai e do serviço aos irmãos. A cruz revela uma forma de poder completamente diferente daquela oferecida pelos sistemas humanos: o poder do amor que se entrega.

Por isso, Mateus 15 oferece um critério para avaliar toda expressão religiosa: aquilo que produz misericórdia, justiça, reconciliação e cuidado com a vida está em sintonia com o coração de Deus; aquilo que gera ódio, exclusão, desprezo e desumanização contradiz a lógica de Cristo, ainda que utilize linguagem religiosa..A fé cristã não pode ser confundida com projetos de superioridade espiritual ou cultural. Jesus não construiu uma comunidade baseada na rejeição dos outros, mas no acolhimento daqueles que buscavam vida nova. Ele aproximou-se dos marginalizados, tocou os excluídos, acolheu pecadores e revelou que ninguém está fora do alcance da misericórdia divina. Olhando  texto  da perícope  de Mateus 15: Deus não olha apenas para aquilo que aparece diante dos olhos humanos, mas para o coração. A verdadeira santidade não está em criar distância dos outros, mas em permitir que o amor de Deus transforme a maneira como vemos, acolhemos e servimos cada pessoa.

A palavra de Jesus sobre a verdadeira pureza conduz diretamente à missão da Igreja no mundo. Se a origem das ações humanas está no coração, então a evangelização não pode limitar-se à transmissão de normas ou à preservação de estruturas. A missão cristã consiste em permitir que o encontro com Cristo transforme pessoas, comunidades e realidades sociais. O Evangelho não é uma proposta de fuga da história, mas uma força de renovação dentro da própria história humana. O Concílio Vaticano II aprofundou essa compreensão ao recordar que a Igreja deve interpretar permanentemente os sinais dos tempos à luz da Palavra de Deus. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes afirma que as alegrias, esperanças, tristezas e angústias da humanidade são também as da Igreja. Essa afirmação rompe com uma visão religiosa fechada em si mesma. Uma comunidade cristã fiel ao Evangelho não pode permanecer indiferente diante da fome, da pobreza, da violência, da exclusão e das feridas que atingem a dignidade humana.

  • A Constituição Dogmática Lumen Gentium apresenta a Igreja como povo de Deus, chamado à comunhão e à participação na missão de Cristo. Essa visão recorda que todos os batizados possuem responsabilidade na construção do Reino. A fé cristã não pode ser reduzida a uma experiência reservada apenas a ministros ou especialistas religiosos. O Espírito Santo age em todo o povo de Deus e chama cada discípulo a testemunhar o Evangelho na realidade concreta.
  • A Constituição Dei Verbum oferece uma chave fundamental para compreender a relação entre Escritura e vida. A Palavra de Deus não é um conjunto de frases isoladas utilizadas para defender interesses humanos, mas um diálogo vivo entre Deus e a humanidade. A interpretação bíblica exige respeito ao contexto histórico, ao sentido do texto e à tradição da Igreja. A Escritura não deve ser manipulada para confirmar ideologias, mas acolhida como Palavra que julga, ilumina e converte.

Na América Latina, essa consciência adquiriu uma expressão profética própria. A Conferência de Medellín, ao aplicar o espírito do Concílio Vaticano II à realidade latino-americana, chamou a Igreja a reconhecer as estruturas que produzem pobreza e injustiça. Puebla aprofundou a opção preferencial pelos pobres como dimensão essencial da missão evangelizadora. Santo Domingo e Aparecida reafirmaram o chamado para uma Igreja missionária, próxima das periferias humanas e comprometida com a vida dos mais vulneráveis.

  • O Documento de Aparecida recorda que o encontro com Jesus Cristo transforma discípulos em missionários. A fé não pode ser reduzida a uma busca individual de conforto espiritual, pois o verdadeiro encontro com Cristo conduz ao serviço. Uma Igreja que anuncia o Reino precisa estar presente onde a vida está ameaçada, reconhecendo o rosto de Jesus nos pobres, nos excluídos e nos que sofrem.

A perspectiva ajuda a compreender os desafios religiosos do presente. Algumas expressões da chamada teologia da prosperidade podem reduzir a relação com Deus a uma lógica de recompensa material, como se a fé fosse um instrumento para garantir sucesso econômico e realização individual. Essa visão corre o risco de substituir o Evangelho da graça por uma mentalidade de troca. Jesus, porém, anuncia uma vida marcada pela partilha, pelo serviço e pela solidariedade. Ele afirma: "A vida de alguém não consiste na abundância dos bens" (Lc 12,15)..O centro da fé cristã permanece a cruz de Cristo. O Filho de Deus não revela o amor dominando, acumulando ou impondo-se sobre os outros, mas entregando a própria vida. O gesto do lava-pés resume essa lógica do Reino: "Eu vos dei o exemplo, para que façais como eu vos fiz" (Jo 13,15). A grandeza cristã não está no poder sobre pessoas, mas na capacidade de servir..É  preciso   discernir quando a linguagem religiosa é utilizada para justificar projetos de controle ou dominação. A chamada teologia do domínio, quando transforma a missão cristã em busca de influência política ou superioridade cultural, distancia-se do caminho de Jesus. O Reino de Deus não cresce pela imposição, mas pelo testemunho. A autoridade de Cristo nasce da humildade, da verdade e da misericórdia.

A relação entre fé e política exige igualmente discernimento. Os cristãos são chamados a participar da construção da sociedade e defender a dignidade humana, mas a religião não pode ser transformada em instrumento de manipulação partidária ou legitimação de projetos autoritários. Quando o nome de Deus é usado para alimentar ódio, exclusão ou desprezo por grupos humanos, ocorre uma profunda contradição com o Evangelho. Jesus nunca anunciou um Reino baseado na eliminação do outro. Sua prática foi marcada pela aproximação dos marginalizados, pela cura dos enfermos, pelo perdão aos pecadores e pela defesa dos pequenos. Por isso, toda expressão religiosa que se aproxima de discursos de intolerância, violência ou desumanização precisa ser confrontada pela mensagem de Cristo.

O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, denuncia o risco do mundanismo espiritual, quando a fé passa a buscar prestígio, segurança institucional ou reconhecimento humano em vez de anunciar o Evangelho. A Igreja é chamada a ser uma comunidade em saída, capaz de escutar as dores do mundo e aproximar-se das periferias existenciais..

  • Na Encíclica Laudato Si', Francisco mostra que a crise ecológica possui uma raiz espiritual. Um coração humano dominado pelo desejo de possuir e controlar transforma a criação em objeto de exploração. O cuidado com a casa comum está ligado à defesa dos pobres, pois são os mais frágeis aqueles que mais sofrem com a degradação ambiental.
  • Em Fratelli Tutti, o Papa apresenta a fraternidade como resposta à cultura da indiferença e da divisão. Essa mensagem encontra profunda sintonia com Mateus 15, pois Jesus revela que a maior impureza não está nas coisas externas, mas em um coração incapaz de reconhecer o outro como irmão.

A passagem de Mateus continua, portanto, como uma pergunta dirigida à Igreja e a cada discípulo: nossas práticas religiosas revelam o rosto de Cristo ou apenas preservam aparências? Nossas tradições conduzem à misericórdia ou criam barreiras? Nossa fé produz serviço ou busca privilégios?

A conversão proposta por Jesus é uma transformação integral. Não basta mudar discursos; é necessário renovar atitudes. Não basta defender valores cristãos; é preciso viver o amor que esses valores anunciam. Não basta falar sobre Deus; é necessário permitir que Deus transforme a forma como tratamos as pessoas e assumimos a realidade. A verdadeira pureza cristã é um coração reconciliado com Deus e aberto ao próximo. É uma vida libertada do egoísmo, da violência e da indiferença. É a capacidade de olhar a humanidade com os olhos de Cristo e reconhecer que cada pessoa possui uma dignidade que nasce do próprio Criador..Assim, Mateus 15,1-2.10-14 permanece como uma palavra profética para o nosso tempo. Ele chama a Igreja a uma renovação permanente, recordando que a tradição só permanece viva quando conduz ao amor, que a autoridade só é cristã quando se torna serviço e que a religião só revela Deus quando produz misericórdia.

A voz de Jesus continua atravessando a história: "Escutai e compreendei". O convite permanece para que a fé deixe de ser apenas aparência e se transforme em vida concreta. O mundo não necessita apenas de discursos religiosos, mas de testemunhas capazes de revelar, através de suas atitudes, o rosto daquele que veio para que todos tenham vida em abundância (Jo 10,10). "Quero misericórdia e não sacrifício" (Mt 9,13; 12,7). Essa palavra resume o coração do Evangelho. Deus procura uma humanidade reconciliada, uma Igreja servidora e discípulos comprometidos com a justiça, a fraternidade e a esperança. Quando a misericórdia ocupa o centro, a religião reencontra sua verdadeira vocação: revelar ao mundo o amor transformador de Deus.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 2 de agosto de 2026

Continuemos Gentis, Iluminados e Iluminadores

  • Padre Zezinho Scj, a gratidão de um discípulo formado pela sua missão 

A GOTA D’ÁGUA 

Pe Zezinho scj

A partir do próximo domingo , dia 2 de agosto silenciarei na internet,  na qual  entrei a conselho de bispos e de um  irmão de congregação .   Apenas conversarei com meus 100 catequistas da WhatsApp . Devo isso a eles !   Não sei se voltarei às outras redes sociais .   Cansei de ser chamado “câncer da Igreja”  por pregar a Teologia da Libertação devidamente  corrigida por São João Paulo II em carta de 9.4.1986  sendo eu discípulo do advogado e sociólogo  Padre Dehon ,  lutei em defesa da Doutrina Social da Igreja ( DSI) .   Outros irmãos de outra corrente social gritaram  mais alto do que eu !  Foram 60 anos tentando dialogar sobre catequese católica ! 

Minha simples resposta paterna sobre o jeito de pregar ao microfone virou confronto político e discórdia entre católicos de  diferente corrente e postura pastoral ! 

Não fiquei padre para ouvir o que ouvi e li  no dia 19 de julho ! Quem postou aquele confronto e a maneira como foi postado quis me cancelar e alcançou   seu objetivo !  Reitero minha opinião de que a catequese deve ser sempre gentil , mesmo dizendo verdades exigentes .  

Padre Zezinho scj

Poucas frases conseguem resumir tão bem uma vida inteira. Foi com essas palavras que José Fernandes Oliveira  o Padre Zezinho, SCJ, anunciou, no dia 2 de agosto, Dia das Vocações Sacerdotais, que encerrava sua atuação nas redes sociais leia o texto acima. Não é um gesto de desistência, nem um adeus à missão. É a decisão serena de quem sabe que o Evangelho não depende de uma plataforma para continuar transformando vidas. Os meios de comunicação mudam; a missão permanece. Ao ler sua mensagem, senti tristeza, mas, acima de tudo, gratidão. Gratidão porque sua despedida das redes sociais não representa um silêncio. Quem evangelizou durante tantas décadas por meio da música, dos livros, dos artigos, da rádio, da televisão, das palestras e dos retiros jamais deixará de falar. Sua voz continuará ecoando nas comunidades, nas famílias, nas salas de catequese, nas igrejas e no coração de milhões de pessoas..Na verdade, aquela breve mensagem soou como um verdadeiro testamento espiritual. Padre Zezinho recordou que o púlpito é um lugar sagrado; que o microfone católico existe para anunciar Jesus Cristo, nunca para espalhar ódio, humilhação ou condenação; que o Evangelho pode ser anunciado com firmeza sem perder a delicadeza; e que a verdade nunca precisa ser agressiva para permanecer verdade. 

Ao recordar os Boanerges, os "filhos do trovão", que desejaram fazer cair fogo do céu sobre aqueles que pensavam diferente, Padre Zezinho trouxe à memória a resposta do próprio Jesus, que repreendeu aquele espírito de intolerância. Em tempos marcados por radicalismos, polarizações e discursos violentos, essa reflexão é profundamente evangélica e extraordinariamente atual. Ela nos lembra que o discípulo de Cristo não é chamado a vencer discussões, mas a testemunhar o amor que brota do Evangelho..  Ao longo de mais de seis décadas de ministério sacerdotal, Padre Zezinho permaneceu fiel a esse princípio. Sacerdote do Sagrado Coração de Jesus, compositor, escritor, comunicador, pregador e catequista, tornou-se um dos maiores evangelizadores que a Igreja no Brasil conheceu. Sua missão ultrapassou fronteiras. Suas músicas foram traduzidas, gravadas e cantadas por inúmeras comunidades. Seus livros formaram gerações de catequistas, ministros, religiosos, seminaristas, padres e leigos. Seus artigos ensinaram milhares de pessoas a pensar a fé, enquanto seus programas de rádio levaram esperança a incontáveis famílias.

Mais do que produzir canções ou escrever livros, Padre Zezinho ajudou a traduzir para a linguagem do povo a riqueza do Concílio Vaticano II. Mostrou, com palavras simples e profunda fidelidade ao Magistério da Igreja, que ela é chamada a ser Mãe e Mestra, missionária, acolhedora, misericordiosa e profundamente humana. Ensinou que fidelidade ao Evangelho jamais significa intolerância e que a verdade de Cristo caminha sempre de mãos dadas com a caridade..Por isso, sua despedida das redes sociais não é um ponto final. É apenas o encerramento de uma etapa de uma história que continuará sendo escrita na vida daqueles que foram formados por sua missão.

Particularmente  cheguei à Igreja Católica aos 17 anos de idade, na década de 1990. Era um jovem em busca de ideal, de um projeto,  na verdade  buscava Deus,  precisava  de respostas e de um sentido para a vida,  como tantos outros, procurava algo que desse direção à minha existência. Foi na Igreja que encontrei Jesus Cristo e, pouco tempo depois, tive a graça de ser chamado para servir como Ministro da Palavra. Começava ali uma caminhada de fé, de estudo, de oração e de serviço ao povo de Deus..Naquele tempo, eu ainda não imaginava quantas pessoas Deus colocaria em meu caminho para ajudar na minha formação. Entre todas elas, uma ocupa um lugar muito especial: Padre Zezinho.

Conheci primeiro sua voz. Depois vieram as músicas, os livros, os artigos, os LPs, naquele tempo  ainda  era os LPs e as reflexões. Sem perceber, eu estava sendo catequizado por um sacerdote que conseguia unir profundidade teológica, fidelidade à Igreja, amor à Sagrada Escritura, sensibilidade humana, compromisso social e uma linguagem simples, acessível e profundamente cristã..Com o passar dos anos, compreendi que Padre Zezinho nunca foi apenas um compositor,  mas um educador da fé e  nunca foi apenas um cantor.  Ele é  um catequista,  também  nunca foi apenas um escritor,  na  verdade  é  um mestre que ajudava e ajuda  o povo de Deus a pensar, rezar e viver o Evangelho.

Foi por meio de sua obra que descobri uma verdade que levo comigo até hoje: a música também pode evangelizar, pode formar consciências, ensinar teologia, despertar vocações, fortalecer famílias, alimentar a esperança e aproximar as pessoas de Jesus Cristo. Sem exagero, posso dizer que minha formação como jovem católico, como Ministro  leigo comprometido com a Igreja foi profundamente marcada pela riqueza espiritual, humana e catequética de sua missão. Foi ela que ajudou a moldar minha maneira de compreender a fé, viver a Igreja e anunciar o Evangelho.  Foi justamente por isso que, ao saber de sua despedida das redes sociais, senti a necessidade de escrever estas palavras. Não apenas para agradecer por sua trajetória, mas para testemunhar que sua missão continua viva na história de inúmeras pessoas.

 Jamais imaginei que Deus ainda me concederia uma graça maior: encontrá-lo pessoalmente. Antes desse encontro, porém, sua obra já havia se tornado presença constante na minha caminhada de fé. E  sua  obra carrega um convite à conversão, à oração e ao compromisso com o Evangelho. Suas músicas não são apenas melodias bonitas, mas verdadeiras reflexões sobre Deus, sobre a vida humana e sobre a missão cristã no mundo e sem  perceber, fui sendo formado também por suas canções, que acompanharam diferentes momentos da minha história de fé.

Como não  agradecer  ao Mestre Padre Zezinho SCj  as musicas, os textos  aa reflexões  e tudo mais. Como não  lembrar de; 

  • "Maria de Minha Infância"  que despertou em mim um profundo amor filial pela Mãe de Jesus. Por meio daquela canção, Maria deixou de ser apenas uma personagem da história da salvação para tornar-se uma presença materna na minha vida espiritual. 
  •  "Mãe do Céu Morena"  que  me abriu um novo horizonte. A curiosidade despertada por essa música levou-me a conhecer a história de Nossa Senhora de Guadalupe, sua aparição a São Juan Diego e a riqueza espiritual da Padroeira das Américas..Com o passar dos anos, essa descoberta transformou-se em devoção. Hoje, com alegria, posso dizer que sou guadalupano. Minha devoção à Virgem de Guadalupe nasceu, em grande parte, porque essa  canção abriu meu coração para conhecer essa manifestação tão bonita do amor de Deus através de Maria. Talvez Padre Zezinho jamais tenha imaginado quantas histórias semelhantes nasceram por causa dessa música. Na minha vida, ela foi muito mais do que uma composição: tornou-se um caminho de evangelização.
  • "Oração pela Família"  ensinou-me que a família é uma verdadeira Igreja doméstica, onde o amor, o diálogo, o perdão e a oração sustentam a vida cotidiana. Em tempos de tantas dificuldades para as famílias, essa canção continua lembrando que a presença de Deus dentro do lar é fonte de força e esperança.
  • "Família do Brasil" ampliou meu olhar, mostrando que o Evangelho não se limita às paredes de nossas casas. A família cristã também possui uma responsabilidade diante da sociedade, chamada a promover o cuidado com o próximo, a solidariedade e o compromisso com o bem comum.
  • "Jovem Galileu". Nela encontrei um Jesus próximo, humano e amigo, capaz de caminhar ao lado dos jovens e continuar fazendo o mesmo convite de sempre: "Vem e segue-me." Não era um Cristo distante, mas o Mestre que chama cada pessoa para uma vida nova.
  • Cristo Inconstante e Meu Cristo Jovem, lançado em dois  LPs de reflexão, obras que guardo com especial carinho. Elas ajudaram-me a compreender que seguir Jesus exige conversão permanente.
São músicas que não oferecem uma fé superficial, mas provoca perguntas, desperta  a consciência e convida  a um cristianismo autêntico, no qual aquilo que professamos precisa estar unido àquilo que vivemos.  Padre Zezinho também me ensinou que a espiritualidade cristã não pode ignorar o sofrimento humano.

  •  Em "País Paraplégico", conheci uma dimensão muito pessoal de sua história. Ao transformar a experiência vivida com seus pais em uma reflexão sobre dignidade, perseverança, amor e esperança, mostrou que a dor, quando iluminada pela fé, pode tornar-se testemunho.
  • Em "Briga com Deus", encontrei uma das mais belas expressões da dor humana transformada em oração. Ao narrar o sofrimento de pais que perderam um filho, mostrou que a fé não elimina as lágrimas nem proíbe as perguntas. Como Jó, Jeremias e tantos salmistas, também podemos apresentar nossas dores diante de Deus. Essa canção ensinou-me que até o silêncio de Deus pode se transformar em lugar de encontro com Ele.

Outras músicas ampliaram meu olhar sobre as exigências do Evangelho. 

  • " Mais um Irmão" despertou em mim a consciência de que seguir Cristo significa defender a vida, promover a paz e reconhecer a dignidade de toda pessoa humana. 
  • "Menores Abandonados" fez-me compreender que a opção pelos pequenos, pelos pobres e pelos esquecidos pertence ao coração da Boa-Nova anunciada por Jesus.
  • "A Verdade Vos Libertará" e "A Verdade é Bem Maior" ensinaram-me que a verdade do Evangelho está acima de nossas preferências pessoais, ideológicas ou partidárias. Cristo continua sendo a Verdade que liberta e conduz à verdadeira liberdade.
Em muitos momentos da minha vida no silêncio vem a mente 

  • "Estou Pensando em Deus" transformou-se em oração. 
  • "Chuva no Telhado" mostrou-me que Deus também se revela na simplicidade do cotidiano,  quando  chove e estou bem abrigafo e meu irmão  sem um lugar para  morar,  nos pequenos gestos e no silêncio.
  •  "Quando Jesus Passar" fortaleceu minha esperança, lembrando-me de que um encontro verdadeiro com Cristo é capaz de transformar completamente uma existência.
  • "Amar Como Jesus Amou" tornou-se, para mim, uma síntese do próprio Evangelho: não existe verdadeira espiritualidade cristã sem amor, porque o amor é o caminho deixado por Jesus.
Entre tantas canções, "Utopia" ocupa um lugar especial me faz lembrar do meu pai, da minha mae  e irmãs e irmãos.  As  canções  alimentaram  em mim o sonho de uma Igreja mais fraterna, misericordiosa, missionária e fiel ao Evangelho; uma Igreja que dialoga sem perder sua identidade, acolhe sem abandonar a verdade e anuncia Cristo sem transformar o altar em tribunal.

Na  mensagem com que Padre Zezinho se despede das redes sociais, reconheci exatamente essa mesma esperança. É a continuidade de tudo aquilo que ele sempre cantou, escreveu e testemunhou ao longo da vida e  é  assim que compreendo que Padre Zezinho nunca escreveu simplesmente canções religiosas. Fez teologia em linguagem popular, transformou poesia em catequese, música em evangelização e arte em formação humana e cristã.  Milhões de pessoas aprenderam a rezar, a amar a Igreja e a seguir Jesus Cristo por meio de sua missão e  posso afirma que: Eu sou uma delas.

Depois de tantos anos de caminhada ouvindo suas músicas, lendo seus livros e sendo formado por suas reflexões, Deus concedeu-me uma graça que guardo com profundo carinho: conhecer pessoalmente Padre Zezinho. Nas celebrações do Jubileu de Ouro da criação da Diocese de Nova Iguaçu em 2010, tive a alegria de participar de um momento que jamais esquecerei. Fui responsável por conduzi-lo ao local do show comemorativo daquele jubileu e traze-lo,  esta no palco fazendo a algumas fotos pra Diocese. Para muitos, poderia parecer apenas uma tarefa de organização, mas para mim, porém, foi um presente de Deus.

Ali, eu não estava simplesmente acompanhando um sacerdote conhecido em todo o Brasil, estava convivendo, ainda que por poucas horas, com alguém que já fazia parte da minha história de fé muito antes daquele encontro. As canções que marcaram minha juventude, os livros que alimentaram minha formação e as reflexões que tantas vezes iluminaram meu caminho agora ganhavam o rosto de uma pessoa que eu podia ouvir, observar e conhecer de perto, e era mesmo padre, alguém  perto  e real.  Ele não  é  personagem  de palco, ele é   único 

Aqueles  dias ficaram  gravado em minha memória não apenas pelo evento, pelo palco ou pela multidão que aguardava sua chegada, mas, sobretudo, pelos momentos simples que compartilhamos. Sentamo-nos à mesma mesa no café da manhã, no almoço e no jantar,  nao teve ego de pop star. Foi justamente nessa convivência cotidiana que confirmei aquilo que durante tantos anos havia percebido em suas obras. Por trás do compositor admirado, do escritor reconhecido e do evangelizador que alcançou milhões de pessoas havia um sacerdote simples, acolhedor e profundamente humano. Ele conversava com naturalidade, tratava todos com respeito e demonstrava uma serenidade que não precisava de discursos para se revelar, a simplicidade que transparecia em suas músicas também estava presente em seus gestos.

Guardo com especial carinho uma lembrança daquele café da manhã. Em razão do diabetes, Padre Zezinho comentou sobre os cuidados com a alimentação e disse, de maneira muito espontânea, que o açúcar era um veneno no café da manhã e que todo excesso acaba fazendo mal. À primeira vista, parecia apenas uma observação sobre hábitos alimentares,  no entanto, aquela frase carregava uma sabedoria que ia muito além da mesa, quando tomo café e coloco açúcar. Lembro dessa frase e naquele instante compreendi, mais uma vez, que a fé cristã toca a vida concreta. Ela se manifesta também nas pequenas escolhas, no equilíbrio, na prudência, no cuidado consigo mesmo e com os outros...Era a mesma coerência que eu encontrava em seus livros e canções: um Evangelho vivido no cotidiano, sem artificialismos, sem espetáculo e sem distância da realidade.

Ao final daquele dia, saí com uma certeza ainda mais profunda: A grandeza de uma pessoa não se mede apenas pelo número de livros escritos, de discos gravados ou de pessoas que a conhecem. Mede-se, sobretudo, pela maneira como ela trata quem está ao seu lado quando os holofotes não estão acesos.

O Padre Zezinho que encontrei naquele jubileu era exatamente o mesmo que eu conhecia por meio de suas músicas: um homem de fé, sensível ao sofrimento humano, apaixonado por Jesus Cristo e comprometido com a missão de evangelizar..Não havia diferença entre o sacerdote do palco e o sacerdote da mesa; entre o comunicador admirado e o homem simples do convívio cotidiano. Essa coerência talvez seja um dos maiores testemunhos que sua vida oferece à Igreja e por isso, quando  leio a  sua decisão de deixar as redes sociais, lembrei-me imediatamente daquele dia. Compreendi que os instrumentos de comunicação podem mudar, mas o testemunho permanece. As redes sociais deixam de receber suas publicações, mas sua presença continua viva em cada comunidade que canta suas músicas, em cada catequista que utiliza seus livros, em cada jovem que reencontra a esperança por meio de suas palavras e em cada família que aprende, com suas canções, que amar é o caminho do Evangelho.

Sua  vida inteiramente dedicada a Cristo não termina quando uma atividade chega ao fim. Ela continua produzindo frutos na existência de todos aqueles que foram alcançados pelo testemunho de quem viveu para anunciar o Reino de Deus. É por isso que Padre Zezinho não está encerrando uma missão. Apenas conclui uma etapa de um ministério que continuará ecoando na memória, na fé e no coração de milhões de pessoas.

Ao chegar ao fim desta homenagem, percebo que ela fala tanto sobre Padre Zezinho quanto sobre a ação de Deus na minha  vida  e daqueles que ele ajudou a formar. Quando olho para minha própria caminhada, reconheço que muitas das sementes lançadas em meu coração chegaram por meio de sua missão.  Deus serviu-se de suas canções, de seus livros, de seus artigos e de seu testemunho sacerdotal para fortalecer minha fé, ampliar minha compreensão do Evangelho e ensinar-me que seguir Jesus Cristo é um caminho de conversão permanente.  Ao longo de mais de seis décadas de ministério sacerdotal, Padre Zezinho mostra  a milhares de pessoas que é possível anunciar a verdade sem abrir mão da caridade, defender a fé sem transformar o altar em tribuna de ataques e exercer uma voz profética sem perder a ternura.

Vivemos  tempos em que tantos utilizam a religião para alimentar divisões, ressentimentos e intolerâncias, seu testemunho permanece como um convite a redescobrir o coração do Evangelho: o amor de Deus manifestado em Jesus Cristo. Foi ouvindo suas canções, lendo seus livros e acompanhando suas reflexões que compreendi, cada vez mais, que a Igreja é chamada a ser sinal de comunhão, misericórdia e esperança. Uma Igreja que acolhe sem relativizar a verdade, que corrige sem humilhar, que evangeliza sem condenar e que jamais deixa de enxergar, em cada pessoa, um filho amado de Deus. Essa talvez seja uma das maiores marcas de sua missão. Padre Zezinho nunca apresentou um cristianismo baseado no medo, na agressividade ou na exclusão. Sempre apontou para uma fé profundamente humana porque profundamente enraizada no Evangelho. Por isso, sua voz continuará necessária, mesmo que já não esteja presente diariamente nas redes sociais.

Obrigado, Padre Zezinho, por tudo o que o senhor plantou na Igreja do Brasil e além de suas fronteiras, pelas canções que se transformaram em oração, pelos livros que se transformaram em formação, pelos artigos que despertaram reflexão, pelas palavras que iluminaram consciências e pelo testemunho sacerdotal que mostrou que é possível permanecer fiel a Cristo sem perder a simplicidade, a sensibilidade e a humanidade,  por ter ajudado a formar minha caminhada de fé desde aquele jovem de dezessete anos que chegou à Igreja em busca de sentido para a vida e encontrou, no serviço como Ministro da Palavra, uma vocação de leigo comprometido com o Reino de Deus. 

Obrigado!

Hoje, olhando para trás, reconheço, com profunda gratidão, que uma parte importante dessa história também foi construída pela sua presença. Peço ao Sagrado Coração de Jesus, a quem Padre Zezinho consagrou sua vida como religioso dehoniano, que continue sustentando sua saúde, sua paz e sua missão. Peço também à Virgem de Guadalupe, cuja devoção floresceu em meu coração por meio de uma de suas canções, que continue intercedendo por sua caminhada com ternura de Mãe.

Padre Zezinho deixa as redes sociais, mas permanece onde sempre esteve: na memória agradecida da Igreja, nas comunidades que continuam cantando suas músicas, nos catequistas que formam novas gerações, nas famílias que rezam inspiradas por suas composições e no coração de milhões de pessoas que aprenderam, por meio de sua missão, que anunciar Jesus Cristo é anunciar também a misericórdia, a verdade e o amor.

Os verdadeiros evangelizadores não desaparecem quando deixam os holofotes. Permanecem vivos nas vidas que ajudaram a transformar, na fé que despertaram, nas vocações que inspiraram e nas sementes do Reino que lançaram ao longo do caminho.

Muito obrigado, Padre Zezinho.

Que Deus continue abençoando sua vida e recompense, com a abundância de sua graça, todo o bem que o senhor realizou e continua realizando na Igreja. E que suas palavras, que atravessaram gerações e chegaram ao coração de tantas pessoas, continuem ecoando como um convite para todos nós:

"Continuemos gentis, iluminados e iluminadores."

DNonato - Ainda aprendendo a amar como Jesus amou.

Um breve olhar sobre Mateus 14,22-36

 "Travessia e grito: quando o Evangelho exige sair da margem"

Na segunda-feira da 18ª Semana do T.empo Comum, a liturgia nos apresenta o episódio de Jesus caminhando sobre as águas Mateus 14,22-36, à primeira vista, isso pode causar estranheza, pois, na sequência habitual do Lecionário nos anos B dedicada a leitura  do Evangelho  de Marcos  e C dedicada ao evangelho  de Lucas, essa perícope é proclamada na terça-feira, enquanto a segunda-feira é dedicada ao relato da multiplicação dos pães Mateus  14,13-21 e proclamada na segunda-feira da 18ª semanado Tempo Comum. Essa alteração ocorre quando o Ano A dos domingos coincide com o dos dias de semana. Como o Evangelho do 18º Domingo do Tempo Comum já proclama a multiplicação dos pães  a Igreja evita repetir o mesmo texto na segunda-feira contudo o.referido texto volta na versão  reduzida  no 19⁰ Domingo  do Tempo  Comum  no ano A e prossegue diretamente para a narrativa da terça-feira  da 18ª semanadoTempoComum. Trata-se de uma adaptação pedagógica do Lecionário, que preserva a riqueza da proclamação dominical e, ao mesmo tempo, mantém a continuidade do capítulo 14 de Mateus. Essa opção litúrgica possui também um profundo significado teológico. Somos conduzidos imediatamente da mesa da abundância para a travessia da tempestade,  o mesmo Jesus que alimenta a multidão é aquele que obriga os discípulos a entrarem na barca e seguirem para a outra margem. O verbo grego anankázō ("obrigar", "compelir"), empregado por Mateus (14,22), revela que não se trata de um simples convite, mas de um imperativo: os discípulos precisam partir, mesmo sem compreender plenamente o caminho. A cena se desenrola durante a noite. A barca encontra-se no meio do mar, o vento é contrário e Jesus ainda não está visivelmente com eles. Na tradição bíblica, o mar simboliza as forças do caos e da morte (cf. Sl 74,13-14; Is 51,9-10), enquanto a travessia representa o caminho da fé, marcado por provações e amadurecimento. A ausência momentânea de Jesus não significa abandono, mas torna-se uma pedagogia espiritual: é nas noites escuras da existência que os discípulos são chamados a confiar na presença daquele que, mesmo invisível, continua conduzindo a história.

Então na sequência  a liturgia estabelece uma ligação inseparável entre os dois episódios. O milagre do pão desemboca na prova da fé,  a providência experimentada na multiplicação prepara os discípulos para enfrentar os ventos contrários. Aquele que sacia a fome do povo é o mesmo Senhor que caminha sobre as águas, vence o caos e revela sua identidade divina. A mesa da abundância conduz à travessia da confiança, ensinando que a fé amadurece quando reconhecemos Cristo não apenas no pão repartido, mas também nas tempestades da vidaNeste cenário hostil, Jesus se aproxima, mas os discípulos não o reconhecem. O medo distorce o olhar. Acham que é um fantasma. É sempre assim: quando estamos dominados pelo medo, até Jesus nos parece ameaça. A resposta dele, porém, é imediata: "Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!" (Mt 14,27). O "Sou eu" (ἐγώ εἰμι) evoca o nome de Deus revelado a Moisés na sarça ardente (Ex 3,14). É mais do que uma autodeclaração de identidade; é uma epifania. Jesus se revela como o Deus presente na tempestade, Aquele que domina o caos e atravessa conosco as noites escuras da história.

Pedro, então, pede para ir ao encontro dele sobre as águas. É um pedido ousado, expressão de uma fé que deseja caminhar além da segurança da barca. Jesus consente. Pedro caminha. Mas, ao sentir a força do vento, se atemoriza e começa a afundar. O medo paralisa, afunda, derruba. Pedro grita: "Senhor, salva-me!". Jesus estende a mão, segura-o e diz: "Homem fraco na fé, por que duvidaste?" (Mt 14,31). A travessia exige confiança. Duvidar é tirar os olhos de Jesus e fixá-los no vento. Mas, mesmo na dúvida, o grito por salvação é escutado, e a mão de Jesus nos alcança. Esse grito ressoa hoje nos recantos mais dolorosos da Igreja: nos silêncios cúmplices diante dos abusos, nas liturgias desconectadas da vida, nas alianças que trocam o Evangelho pelo prestígio político. É o grito de um corpo eclesial que precisa mais do que reformas administrativas: precisa reaprender a gritar por salvação. A fé que se recusa a sair da margem para permanecer em portos seguros torna-se cúmplice do sistema, como os sacerdotes e levitas que evitam o ferido à beira do caminho (cf. Lc 10,31-32), a religião que não se lança à travessia transforma o Evangelho em retórica, e não em revolução.

Santo Agostinho comentava que "a barca é figura da Igreja; o mar, do mundo; e o vento, das tentações. Quando a caridade esfria, o barco se agita" (In Iohannis Evangelium Tractatus, 2),  a  cena não é só eclesial, também  não  só  pessoal. Cada um de nós é Pedro, cada um de nós precisa ousar sair da barca, arriscar-se na direção de Jesus e, ao sentir o peso do vento e das ondas, aprender a gritar: "Senhor, salva-me!". Ninguém caminha sobre as águas sem medo e  ninguém é salvo sem confiar na graça  e misericórdia .

Os relatos de Mateus 14,22-36 e Marcos 6,45-52 proclamado quarta-feira após a Solenidade da Epifania do Senhor, quarta-feira após  epifania que apresenta a travessia como consequência direta da multiplicação dos pães , enfatizando o afastamento de Jesus para o monte e a permanência dos discípulos no mar agitado. Em ambos, Jesus caminha sobre as águas e acalma os discípulos. No entanto, Mateus é o único que insere o episódio de Pedro tentando caminhar sobre as águas, sublinhando o drama pessoal da fé em crise, o grito por salvação e o toque da mão de Jesus,  um detalhe com alto valor teológico e simbólico. Lucas não narra este episódio. Já João, que não é sinótico, relata o mesmo acontecimento (Jo 6,16-21) com seu estilo próprio: omite o episódio de Pedro e acentua que a barca chegou “imediatamente” ao destino ao acolherem Jesus,  símbolo joanino da presença que realiza a travessia. Cada evangelista oferece, assim, uma lente própria: Marcos destaca o endurecimento do coração dos discípulos, João acentua a presença reveladora de Jesus, e Mateus foca na fé que se arrisca e vacila, mas é sustentada pelo Senhor. O mar agitado também habita a interioridade humana. Há noites em que a fé parece diluir-se na ansiedade, em que o rosto de Deus desaparece sob as brumas da dúvida. Como ensina São João da Cruz, essas são noites purificadoras, onde o silêncio de Deus é mais presença do que ausência, mais fogo do que ausência de luz. A travessia do lago continua sendo a travessia da Igreja e de cada discípulo. Depois do pão partilhado, chega a hora da confiança; depois do entusiasmo da multidão, vem a noite da fé. O Evangelho nos recorda que os milagres não eliminam as tempestades, mas revelam Quem caminha conosco em meio a elas. Cristo não promete um mar sem ventos, mas a sua presença no coração da tormenta.

Também hoje a Igreja enfrenta ondas violentas: a tentação do poder, o clericalismo, os escândalos que ferem a credibilidade do Evangelho, a indiferença diante dos pobres e a sedução de ideologias que instrumentalizam a fé. Nesse cenário, a resposta não está em permanecer ancorados em portos seguros, mas em voltar o olhar para Cristo. Quando a comunidade fixa os olhos apenas nas ondas da crise, afunda no medo; quando os fixa no Senhor, reencontra a coragem para continuar a travessia. Cada um de nós é chamado a descer da barca das falsas seguranças, enfrentar as águas da própria história e aprender que a fé não é ausência de medo, mas confiança que permanece apesar dele. E, quando as forças faltarem, basta repetir a oração mais sincera do Evangelho: "Senhor, salva-me!". A mão de Cristo continua estendida. Ele não abandona quem vacila, mas sustenta quem, mesmo entre dúvidas e lágrimas, persevera em buscá-lo.

Que esta Palavra nos ensine a atravessar as noites da vida com esperança, certos de que Aquele que venceu o caos continua dizendo à sua Igreja e a cada um de nós: "Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!" (Mt 14,27). Essa é a certeza que transforma a tempestade em caminho, o medo em confiança e a travessia em encontro com o Senhor. Avancemos, mesmo com o medo nos ombros. Caminhemos, mesmo com as águas sob os pés. A barca está viva, porque Aquele que caminha sobre o caos ainda diz: "Coragem! Sou eu!" E sua mão continua estendida. Que ninguém se iluda com calmarias compradas; que todos se deixem curar pelas travessias que tocam. E que a fé, entre ventos e ondas, permaneça como travessia que salva.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 


sábado, 1 de agosto de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 14,13-21 - 18⁰ Domingo do Tempo Comum.

A liturgia do 18º Domingo do Tempo Comum (Ano A) nos apresenta um conjunto de leituras profundamente articuladas entre si: Isaias 55,1-3; Salmo 144(145),8-9.15-16.17-18 (R. cf. 16); Romanos 8,35.37-39 e Mateus 14,13-21. Longe de constituírem textos independentes, elas formam uma única catequese sobre o Deus da Aliança, que escuta o clamor dos famintos, permanece fiel ao seu povo e, em Jesus Cristo, inaugura o banquete messiânico onde ninguém é excluído. A liturgia conduz a assembleia por um itinerário teológico que parte do convite gratuito à vida proclamado por:  Isaías, passa pelo testemunho do Deus providente cantado pelo salmista, encontra Paulo em Romanos a certeza de um amor que jamais abandona os seus e alcança sua plenitude no gesto de Jesus que parte o pão no deserto. A abundância prometida pelos profetas torna-se realidade na pessoa de Cristo, verdadeiro Pão da Vida, antecipando a Eucaristia e o banquete definitivo do Reino.

A perícope de Mateus 14,13-21 já foi objeto de outras reflexões em nosso blog, como Um breve olhar sobre Lucas 9,11b-17 , Corpus Christi: a Eucaristia que se faz compromisso e Um breve olhar sobre João 6,1-15 (2025), bem como em nosso canal no YouTube. Vale recordar ainda que esse mesmo Evangelho é proclamado na segunda-feira da 18ª Semana do Tempo Comum. No Ano A, porém, ele ocupa o lugar central da celebração dominical, evidenciando a importância teológica desse relato na caminhada da Igreja e na pedagogia litúrgica que conduz progressivamente ao discurso do Pão da Vida.

  • A primeira leitura Isaías 55,1-3:  pertence ao chamado Segundo Isaías (Is 40–55), escrito nos últimos anos do exílio babilônico. Israel atravessa uma das maiores crises de sua história. Jerusalém encontra-se destruída, o Templo foi reduzido a ruínas e o povo experimenta o drama da perda da terra, da identidade e da esperança. É justamente nesse contexto de aparente fracasso que o profeta anuncia uma palavra de extraordinária esperança: "Vós todos que tendes sede, vinde às águas; vós que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei." A força desse convite está precisamente em sua gratuidade. Água, vinho, leite e pão não designam apenas bens materiais, mas tornam-se símbolos da vida plena oferecida por Deus. A água representa a vida que brota gratuitamente da fidelidade divina; o vinho recorda a alegria messiânica; o leite simboliza o alimento que faz crescer; o pão aponta para a comunhão restaurada entre Deus e seu povo. O Senhor oferece aquilo que ninguém pode adquirir pelo mérito ou pelo dinheiro: a renovação da Aliança. O profeta denuncia, ao mesmo tempo, a ilusão daqueles que "gastam dinheiro naquilo que não alimenta e o salário naquilo que não sacia" (Is 55,2). Essa crítica ultrapassa o contexto do exílio e alcança todas as épocas. Também hoje homens e mulheres investem suas energias em bens incapazes de responder à sede mais profunda do coração humano. O consumismo, o individualismo, a absolutização do mercado, a busca incessante por prestígio e poder prometem felicidade, mas não conseguem saciar a fome de sentido, de justiça, de comunhão e de transcendência.Sob a perspectiva hermenêutica, Isaías anuncia o grande banquete escatológico prometido pelos profetas (cf. Is 25,6-9), quando Deus reunirá todos os povos ao redor de sua mesa. Essa promessa encontra sua realização em Jesus Cristo. Aquele que convida gratuitamente para comer e beber torna-se, no Evangelho, o próprio alimento oferecido ao mundo. A mesa anunciada por Isaías prepara a mesa do Reino inaugurada por Jesus.
  • O Salmo 145(144) prolonga essa esperança ao apresentar o verdadeiro rosto de Deus. "Todos os olhos esperam em vós, e vós lhes dais no tempo certo o alimento." O salmista não contempla apenas um Deus criador, mas um Deus cuidador, cuja grandeza manifesta-se na misericórdia. Os atributos repetidos ao longo do salmo, misericordioso, compassivo, paciente e cheio de amor, retomam a antiga profissão de fé de Israel (cf. Ex 34,6), revelando que o Senhor governa o mundo não pela força opressora dos impérios, mas pela fidelidade à sua Aliança. O centro da composição encontra-se na afirmação: "Abris a vossa mão e saciais os desejos de todos os viventes." Enquanto os poderosos fecham as mãos para acumular riquezas e preservar privilégios, Deus abre as mãos e reparte vida. O salmo torna-se, assim, verdadeira preparação para o Evangelho. Em Mateus, Jesus também abrirá as mãos para tomar os pães, elevar os olhos ao céu, pronunciar a bênção, partir o alimento e distribuí-lo à multidão. A providência celebrada pelo salmista torna-se visível na ação concreta do Filho.
  • A segunda leitura Romanos 8,35.37-39:  encerra uma das mais profundas reflexões paulinas sobre a vida nova em Cristo. Depois de apresentar a ação libertadora do Espírito Santo, Paulo proclama uma certeza que sustentou gerações de cristãos perseguidos: "Quem nos separará do amor de Cristo?" O Apóstolo não ignora a realidade do sofrimento. Pelo contrário, menciona tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo e espada. Entre essas experiências aparece a fome, realidade que voltará ao centro da narrativa evangélica. Entretanto, Paulo afirma que nenhuma dessas situações possui a última palavra. A vitória cristã não nasce do êxito humano nem da prosperidade material, mas da fidelidade irrevogável de Deus. "Somos mais que vencedores" significa que o amor de Cristo permanece invencível mesmo quando tudo parece perdido. A cruz, que aos olhos do mundo representa derrota, torna-se manifestação definitiva da vitória do amor. Essa convicção prepara o Evangelho: o Cristo cujo amor jamais abandona seu povo será aquele que verá a multidão faminta e recusará deixá-la entregue ao abandono.
Chegamos, assim, ao Evangelho de Mateus 14,13-21. A narrativa inicia-se imediatamente após o relato do martírio de João Batista (Mt 14,1-12). Essa proximidade não é casual. Mateus constrói um vigoroso contraste entre dois banquetes que representam dois projetos de sociedade. De um lado encontra-se o banquete de Herodes Antipas. Celebrado dentro do palácio, cercado por autoridades, marcado pelo luxo, pela ostentação, pela manipulação política e pelo abuso do poder, esse banquete termina com a morte do profeta João Batista texto proclamado no sábado da 17ªsemana do Tempo Comum. O poder imperial alimenta seus privilégios à custa da vida dos inocentes. Do outro lado está o banquete de Jesus. Celebrado no deserto, entre os pobres, os enfermos, os excluídos e os famintos, ele culmina na vida abundante oferecida gratuitamente a todos. Enquanto Herodes preserva seu poder eliminando o profeta, Jesus revela que o verdadeiro poder consiste em servir, curar, acolher e alimentar. Esse contraste permanece atual. Também hoje convivem dois modelos de sociedade e de Igreja. De um lado, estruturas marcadas pelo privilégio, pela autorreferencialidade, pela lógica do poder e da exclusão; de outro, o Reino inaugurado por Cristo, onde a autoridade se expressa no serviço e a grandeza se manifesta na capacidade de repartir a vida.

Jesus ao receber a notícia da morte de João Batista, Jesus retira-se para um lugar deserto. Esse gesto não deve ser interpretado como medo ou fuga. Na tradição bíblica, o deserto é o espaço privilegiado da revelação de Deus. 

  • Foi no deserto que Israel aprendeu a depender exclusivamente do Senhor
  •  Foi no deserto  que Moisés encontrou sua vocação
  •  No deserto Elias reencontrou a esperança
  • No deserto  que  Jesus venceu as tentações antes de iniciar sua missão pública. 
O deserto representa, ao mesmo tempo, provação, purificação e renovação. Há ainda um significado mais profundo. Mateus apresenta Jesus como o novo Moisés que inaugura um novo Êxodo, se Moisés conduziu Israel da escravidão do Egito rumo à terra prometida, Jesus conduz a humanidade da escravidão do pecado para a liberdade do Reino. No antigo Êxodo, Deus alimentou seu povo com o maná (Ex 16); agora, no novo Êxodo, o próprio Filho torna-se o alimento que sustenta a caminhada do novo povo de Deus. O deserto deixa de ser lugar de escassez para transformar-se em espaço da superabundância da graça. Quando a multidão descobre para onde Jesus havia ido, segue-o a pé. A tentativa de recolhimento transforma-se em nova manifestação da misericórdia divina,  Mateus afirma que, ao ver aquela multidão, Jesus "encheu-se de compaixão por ela e curou os seus doentes" (Mt 14,14).

O verbo grego utilizado pelo evangelista, splagchnízomai, exprime uma compaixão que brota das entranhas, indicando uma comoção profunda diante do sofrimento alheio, não se trata de um sentimento passageiro ou de uma emoção superficial. A compaixão de Jesus traduz a própria misericórdia de Deus que se torna ação concreta. No Evangelho, sentir compaixão significa curar, alimentar, libertar e devolver dignidade aos que foram feridos pela vida como no caso do Bom Samaritano 

Essa compaixão prepara o grande sinal que está prestes a acontecer, entretanto, a multiplicação dos pães não recorda apenas o maná do Êxodo. Ela dialoga também com o episódio do profeta Eliseu (2Rs 4,42-44), quando vinte pães de cevada alimentam cem homens e ainda sobra alimento, conforme a palavra do Senhor: "Comerão e ainda sobrará." Mateus mostra que Jesus supera Eliseu. O profeta alimenta cem pessoas com vinte pães; Jesus alimenta cerca de cinco mil homens, além das mulheres e crianças, com apenas cinco pães e dois peixes. Mais do que um milagre extraordinário, trata-se da revelação de que, em Cristo, todas as promessas do Antigo Testamento encontram sua plenitude. A compaixão de Jesus logo encontra um obstáculo concreto: a fome da multidão. Ao cair da tarde, os discípulos apresentam uma solução aparentemente sensata: "Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida" (Mt 14,15). A proposta revela uma lógica muito presente também em nossos dias: diante de um problema coletivo, transfere-se a responsabilidade para cada indivíduo. A preocupação não é construir comunhão, mas encaminhar cada pessoa para resolver sozinha sua necessidade. A resposta dos discípulos nasce da racionalidade do mercado, onde o alimento é mercadoria e quem não possui recursos permanece excluído. Jesus rompe radicalmente essa lógica ao responder: "Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer" (Mt 14,16). Essas palavras constituem o centro teológico de toda a narrativa. Antes de realizar qualquer milagre, Jesus forma seus discípulos. O Reino de Deus não admite neutralidade diante da fome, da injustiça e do sofrimento humano. A comunidade dos discípulos é chamada a assumir corresponsabilidade pela vida dos irmãos. A missão da Igreja nunca consiste apenas em anunciar verdades, mas em tornar visível a misericórdia de Deus através de gestos concretos. Essa palavra continua ecoando na Igreja do século XXI. Diante das novas formas de pobreza, da fome, das migrações forçadas, das guerras, da crise ambiental, da exclusão social, do desemprego estrutural e das desigualdades produzidas por sistemas econômicos excludentes, Cristo continua dizendo aos seus discípulos: "Dai-lhes vós mesmos de comer". Não basta denunciar estruturas injustas; é preciso tornar-se instrumento da providência divina, fazendo da comunidade cristã um espaço onde ninguém seja descartado. 

Os discípulos respondem: "Só temos aqui cinco pães e dois peixes." O advérbio "só" revela uma mentalidade dominada pela lógica da escassez. Aos olhos humanos, aquilo que possuem é insignificante diante da imensidão da necessidade. Jesus, porém, não pergunta pelo que falta. Ele acolhe aquilo que existe. O Reino de Deus começa sempre a partir do pouco colocado nas mãos do Senhor. Deus não espera abundância para agir; transforma a fragilidade humana em lugar de manifestação da sua graça. Também é significativo que Jesus não produza o alimento sem a participação humana. Ele poderia criar o pão diretamente, mas escolhe receber aquilo que os discípulos possuem. Deus realiza sua obra envolvendo homens e mulheres na construção do Reino. A graça não elimina a responsabilidade humana; ao contrário, desperta-a e a transforma. O milagre nasce quando o pouco deixa de ser motivo de medo e passa a ser oferta generosa. 

Os cinco pães podem recordar simbolicamente os cinco livros da Torá, fundamento da fé de Israel, os dois peixes receberam diversas interpretações na tradição patrística, sendo vistos como referência aos Profetas e aos Escritos ou ainda às duas naturezas de Cristo, plenamente humano e plenamente divino. Embora Mateus não explicite esse simbolismo, sua narrativa conduz o leitor a reconhecer que Jesus leva à plenitude toda a história da revelação. Nele convergem a Lei, os Profetas e todas as promessas da antiga Aliança. Jesus ordena então que a multidão se sente sobre a relva,  esse detalhe, aparentemente secundário, possui enorme riqueza teológica. A relva recorda imediatamente o Salmo 23: "Em verdes pastagens me faz repousar". Jesus manifesta-se como o verdadeiro Pastor prometido pelos profetas (cf. Ez 34), aquele que reúne o rebanho disperso, conduz seu povo ao descanso e oferece alimento abundante.

O Evangelho de Marcos acrescenta uma informação significativa: as pessoas foram organizadas em grupos de cem e de cinquenta (Mc 6,39-40). Essa organização recorda a estrutura estabelecida por Moisés durante a caminhada do Êxodo (Ex 18,21-25). Assim como Israel foi organizado para que todos fossem cuidados, também a comunidade reunida por Jesus não é uma multidão desordenada, mas um povo organizado em fraternidade. Sob o olhar sociológico, essa organização revela que o Reino de Deus não nasce do improviso nem do individualismo. A comunhão exige participação, corresponsabilidade e estruturas que favoreçam o cuidado mútuo. A caridade cristã não pode limitar-se ao assistencialismo ocasional. Ela precisa gerar comunidades capazes de promover justiça, fortalecer vínculos e garantir que cada pessoa encontre seu lugar na vida comum. Segue então o gesto central da narrativa: "Tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu, pronunciou a bênção, partiu os pães e os deu aos discípulos, e os discípulos os distribuíram às multidões" (Mt 14,19). O gesto de elevar os olhos ao céu revela que toda vida procede do Pai. Antes de olhar para a insuficiência dos recursos, Jesus contempla a abundância da graça divina. A bênção pronunciada recorda a tradicional oração judaica sobre o pão, reconhecendo que tudo pertence a Deus. O alimento nunca deve ser visto apenas como fruto do esforço humano, mas como dom da criação confiado à responsabilidade de todos. O verbo utilizado por Mateus para indicar a bênção é o grego eulogēsen ("abençoou"). Já o Evangelho de João, ao narrar o mesmo episódio (Jo 6,11), emprega o verbo eucharistēsas ("deu graças"), do qual deriva a palavra "Eucaristia". As duas tradições não se opõem; completam-se. A bênção transforma-se em ação de graças, e a ação de graças conduz naturalmente ao dom de si mesmo. A Igreja reconheceu nesses gestos uma clara antecipação da Ceia do Senhor.

Os quatro verbos:  tomar, abençoar, partir e distribuir  reaparecem na Última Ceia (Mt 26,26), na refeição de Emaús (Lc 24,30) e na vida da Igreja primitiva (At 2,42). Desde os primeiros séculos, a tradição cristã compreendeu que a multiplicação dos pães aponta para a Eucaristia. O centro do milagre não está simplesmente na multiplicação material dos alimentos, mas na lógica do pão partido. O pão guardado permanece alimento; o pão repartido torna-se sacramento do Reino. A Eucaristia, portanto, jamais pode ser reduzida a um ato devocional desligado da vida concreta. O Corpo de Cristo recebido no altar exige tornar-se Corpo de Cristo na história. Celebrar a fração do pão implica assumir compromisso com os famintos, os pobres, os excluídos e todos aqueles cuja dignidade foi ferida.

Essa compreensão atravessa toda a tradição patrística. São João Crisóstomo advertia que não se pode honrar Cristo no altar enquanto Ele permanece abandonado nos pobres. São Basílio Magno afirmava que o pão guardado pertence ao faminto e a roupa acumulada pertence a quem dela necessita. Santo Agostinho exortava continuamente os fiéis: "Recebei o que sois e tornai-vos aquilo que recebeis". A Eucaristia transforma não apenas o pão e o vinho, mas também a comunidade reunida, fazendo dela o Corpo vivo de Cristo no mundo. Essa compreensão explica por que a Igreja nascente unia inseparavelmente a fração do pão e a partilha dos bens (At 2,42-47). Da mesma forma, em Atos 6,1-7, quando surgem conflitos na distribuição dos alimentos às viúvas, os Apóstolos instituem os Sete para o serviço das mesas. Palavra e mesa pertencem à mesma missão. Evangelizar e cuidar dos necessitados não constituem atividades concorrentes, mas dimensões inseparáveis da única missão da Igreja. Na vida em sociedade a refeição ocupa lugar central em praticamente todas as culturas. Comer juntos significa estabelecer alianças, criar pertencimento, fortalecer identidades e reconhecer o outro como membro da mesma comunidade. A mesa é um dos primeiros espaços onde o ser humano aprende a confiança, a reciprocidade e a partilha. Jesus ressignifica profundamente esse símbolo universal. Sua mesa rompe as fronteiras estabelecidas pela religião, pela política e pela economia. Nela há lugar para pobres e ricos, pecadores e justos, homens e mulheres, crianças, doentes e estrangeiros. O banquete do Reino não exclui ninguém; ao contrário, reúne aqueles que a sociedade frequentemente separa.

Na realidade social  e pessoal  a fome ultrapassa a dimensão biológica, ela produz insegurança, medo, ansiedade, humilhação e perda da esperança. Quem vive permanentemente ameaçado pela escassez tende a desenvolver mecanismos de defesa baseados na acumulação e na competição. Jesus rompe esse ciclo ao despertar uma lógica diferente: a confiança. Quando o pouco é colocado nas mãos de Deus, desaparece o medo que aprisiona e nasce a liberdade para repartir. O verdadeiro milagre acontece também no interior do ser humano, quando o coração deixa de viver segundo a lógica da posse para viver segundo a lógica do dom. Todos comem e ficam satisfeitos. Mateus utiliza um verbo que indica saciedade plena. Não se trata apenas de matar a fome imediata, mas de experimentar a abundância própria das promessas messiânicas. Depois da refeição, Jesus ordena que sejam recolhidos os pedaços que sobraram. Nada deve ser desperdiçado. A abundância do Reino não autoriza o desperdício; ao contrário, educa para o cuidado, para a responsabilidade e para a gratidão diante dos dons recebidos.

São recolhidos doze cestos cheios. O número doze representa as doze tribos de Israel e manifesta que Jesus reúne novamente o povo da Aliança em torno do verdadeiro Pastor. Surge o novo Israel, não fundamentado na exclusão ou no privilégio, mas na comunhão em torno do Messias. Essa primeira multiplicação diferencia-se da segunda, narrada em Mateus 15,32-39, realizada em território predominantemente gentílico. Ali aparecem sete cestos, número associado à universalidade e à plenitude. Aqui, os doze cestos recordam que as promessas feitas a Israel encontram seu cumprimento em Cristo, preparando sua abertura a todas as nações. Assim, a multiplicação dos pães revela-se muito mais que um prodígio extraordinário. Ela constitui um verdadeiro programa de vida para a Igreja: uma comunidade que vence a lógica da escassez pela confiança em Deus, substitui o acúmulo pela partilha, organiza a esperança em fraternidade e faz da Eucaristia um compromisso permanente com a justiça, a misericórdia e a dignidade de toda pessoa humana. 

A mensagem da multiplicação dos pães ultrapassa o contexto histórico da Galileia e continua interpelando a Igreja e a sociedade contemporânea. Em um mundo marcado por profundas desigualdades, não falta alimento para a humanidade; falta justiça na distribuição, compromisso político com o bem comum e solidariedade efetiva entre os povos. O Evangelho denuncia a lógica da acumulação que concentra riquezas nas mãos de poucos enquanto milhões vivem privados do necessário para uma existência digna. Essa denúncia encontra um significativo paralelo na parábola do rico insensato (Lc 12,13-21), proclamada no 18º Domingo do Tempo Comum do Ano C. Embora pertençam a contextos litúrgicos diferentes, ambas as passagens dialogam profundamente. Enquanto o rico constrói celeiros cada vez maiores para garantir sua segurança, Jesus, no deserto, ensina que a verdadeira segurança nasce da confiança em Deus e da partilha. O rico da parábola fala apenas consigo mesmo. Seu vocabulário é dominado pelos pronomes possessivos: "meus frutos", "meus celeiros", "meus bens". O outro simplesmente não existe. A lógica da acumulação destrói a capacidade de reconhecer o próximo. Na multiplicação dos pães ocorre exatamente o contrário: o alimento deixa de ser propriedade para tornar-se comunhão. A abundância nasce quando o pouco deixa de ser protegido e passa a ser repartido, essa oposição permanece extremamente atual. Vivemos numa cultura marcada pelo individualismo, pelo consumismo, pela competição e pela mercantilização das relações humanas. O sucesso costuma ser medido pela capacidade de acumular, enquanto a pobreza é frequentemente interpretada como fracasso individual. O Evangelho desmonta essa lógica ao afirmar que a dignidade humana está acima do lucro e que os bens da criação possuem uma destinação universal, princípio reafirmado continuamente pela Doutrina Social da Igreja.

Cada  vez  temos uma religião que se permite a  instrumentalização da fé. Quando a religião transforma Deus em meio para obtenção de riqueza, prestígio ou poder, perde sua dimensão profética e deixa de anunciar o Reino para legitimar interesses particulares. A chamada teologia do lucro do sucesso  financeiro  corre o risco de reduzir a graça à lógica da recompensa econômica, como se a bênção divina pudesse ser medida pelo patrimônio acumulado. Contra essa mentalidade, o Papa Francisco denunciava  "a adoração do antigo bezerro de ouro que encontrou uma versão nova e cruel no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano" (Evangelii Gaudium, 55). Sua crítica não é dirigida à legítima atividade econômica, mas a um sistema que transforma pessoas em objetos descartáveis e submete toda a vida à lógica do lucro.  Na mesma direção, o Concílio Vaticano II ensina que "a economia deve estar a serviço da pessoa humana" (Gaudium et Spes, 63). Esse princípio permanece profundamente atual diante da fome, da concentração de renda, da precarização do trabalho, do desemprego estrutural e das novas formas de exclusão social que ferem a dignidade de milhões de pessoas.

Os Padres da Igreja compreenderam que a Eucaristia possui consequências sociais inevitáveis. 

  • São Basílio Magno afirmava: "O pão que guardas pertence ao faminto; o manto que conservas no armário pertence ao que está sem roupa"
  • São João Crisóstomo insistia que não existe verdadeira adoração quando o Cristo presente no altar é ignorado no pobre.
  • Santo Agostinho exortava continuamente: "Tornai-vos aquilo que recebeis". A Eucaristia não transforma apenas o pão e o vinho; transforma aqueles que dela participam, fazendo da comunidade o Corpo vivo de Cristo na história.
Essa era precisamente a experiência da Igreja nascente: "Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e colocavam tudo em comum" (At 2,44-46). Não se tratava de um sistema econômico imposto, mas da consequência natural da conversão produzida pelo Evangelho. A comunhão com Cristo gerava comunhão entre os irmãos. A partilha não era uma estratégia social, mas expressão concreta da fé celebrada.  O gesto  de comer juntos continua sendo um dos atos mais importantes da construção da identidade humana, desde as sociedades mais antigas, a mesa representa pertencimento, hospitalidade, reconciliação e reconhecimento mútuo. Quem é convidado para a mesa deixa de ser estranho e torna-se membro da comunidade. Jesus recupera esse significado original ao transformar a refeição num espaço de inclusão. Em sua mesa há lugar para pecadores, pobres, doentes, estrangeiros e marginalizados. O Reino rompe as fronteiras erguidas pela religião, pela política, pela economia e por todas as formas de discriminação.  Alimentar alguém significa muito mais do que suprir uma necessidade biológica. A fome prolongada destrói vínculos, produz medo, ansiedade, humilhação e desesperança. Ao alimentar a multidão, Jesus restaura também sua dignidade, devolve-lhe confiança e recria laços comunitários. O verdadeiro milagre não consiste apenas na multiplicação do pão, mas na multiplicação da esperança, da solidariedade e da confiança mútua.

Mateus também aponta ainda para sua dimensão escatológica,  o banquete no deserto antecipa o grande banquete anunciado por Isaías (Is 25,6-9), quando o Senhor preparará para todos os povos uma mesa abundante, destruirá a morte para sempre e enxugará as lágrimas de todos os rostos. Jesus realiza antecipadamente essa promessa, revelando que o Reino de Deus já começou a manifestar-se na história, embora aguarde sua plenitude. Essa esperança reaparece nas palavras do próprio Cristo (Mt 8,11) e alcança sua expressão definitiva no Apocalipse: "Nunca mais terão fome nem sede" (Ap 7,16). Cada celebração eucarística torna presente essa promessa futura. A mesa do Senhor é antecipação do Reino definitivo, onde toda lágrima será enxugada, toda injustiça será vencida e ninguém será excluído da comunhão com Deus. Por isso, a Eucaristia jamais pode ser reduzida a um rito intimista ou desvinculado da realidade histórica. Como ensina o Concílio Vaticano II, ela é "fonte e ápice de toda a vida cristã" (Lumen Gentium, 11). Sendo fonte, alimenta a missão; sendo ápice, conduz toda a vida ao encontro com Cristo. Não existe verdadeira espiritualidade eucarística sem compromisso concreto com a justiça, a paz, a reconciliação e a dignidade humana.  

A liturgia deste domingo conduz-nos do convite universal de Isaías ao banquete messiânico realizado por Jesus. O Deus que oferece gratuitamente a água da vida, que abre as mãos para alimentar todas as criaturas e cujo amor jamais abandona seu povo manifesta-se plenamente em Cristo, o verdadeiro Pão da Vida. A multiplicação dos pães revela que Deus continua respondendo às fomes da humanidade, mas escolhe fazê-lo através de mãos humanas dispostas a repartir e a ordem de Jesus permanece atual e continua ecoando na consciência da Igreja: "Dai-lhes vós mesmos de comer". Esse imperativo não é dirigido apenas aos Doze, mas a toda comunidade cristã. Ele interpela paróquias, comunidades, movimentos, pastorais, famílias e cada batizado. Não basta celebrar a Eucaristia; é necessário tornar-se Eucaristia, fazendo da própria vida um pão repartido em favor dos irmãos.

Vivemos  tempos marcados pela cultura do descarte, pelo clericalismo, pela autorreferencialidade e pela instrumentalização da religião, o Evangelho recorda que a Igreja nasce ao redor da mesa de Jesus, e não dos palácios do poder. Sua credibilidade não depende da riqueza que acumula, da influência política que conquista ou do prestígio social que alcança, mas da fidelidade ao Cristo que parte o pão, serve os pequenos e devolve dignidade aos excluídos. O banquete de Herodes continua presente em algumas paróquias,  palácios episcopais onde o poder elimina profetas, silencia vozes críticas, transforma pessoas em instrumentos e protege privilégios e o  banquete de Jesus continua acontecendo sempre que a comunidade escolhe a compaixão em vez da indiferença, a partilha em vez da acumulação, a fraternidade em vez da competição e o serviço em vez da dominação. O contraste entre esses dois banquetes continua sendo um critério de discernimento para a Igreja: ou ela se deixa seduzir pela lógica do poder, ou permanece fiel ao Reino inaugurado por Cristo.

Cada Eucaristia é também um envio missionário. Ao recebermos o Corpo de Cristo, assumimos a missão de sermos seu Corpo no mundo. A mesa do altar prolonga-se na mesa da vida; o pão consagrado exige o pão repartido; a comunhão celebrada exige comunhão vivida. A verdadeira adoração não termina com a bênção final, mas continua nas ruas, nas periferias, nos hospitais, nas escolas, nos locais de trabalho, nas famílias e em todos os espaços onde a vida clama por justiça, misericórdia e esperança. Essa verdade torna-se ainda mais exigente à luz de Mateus 25,31-46. No julgamento final, Jesus revela que o critério da autenticidade da fé é o amor concretizado nas obras de misericórdia: dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, acolher o estrangeiro, vestir o nu, cuidar do enfermo e visitar o preso. O Cristo que se entrega como Pão da Vida sobre o altar é o mesmo Cristo que continua faminto nas periferias, nos esquecidos, nas vítimas da injustiça e em todos aqueles cuja dignidade é negada. Não reconhecer Cristo no pobre é esvaziar o sentido da própria Eucaristia.

Celebrar a Eucaristia, portanto, é aceitar tornar-se pão repartido para o mundo e não existe culto agradável a Deus sem compromisso com a vida, assim como não existe verdadeira caridade sem sua fonte em Cristo. A liturgia prolonga-se na história; o altar continua nas ruas; o Corpo de Cristo recebido na comunhão pede para ser reconhecido e servido no corpo sofredor dos irmãos. Somente assim a Igreja será verdadeiramente sinal do Reino inaugurado por Jesus: uma comunidade que vence a lógica da escassez pela abundância do amor, substitui o poder pelo serviço, faz da mesa eucarística uma escola de fraternidade e anuncia, por palavras e obras, que Deus continua abrindo as mãos para saciar a fome de toda a humanidade, até o dia em que todos participarão do banquete eterno do Reino.

DNonato  -  Teólogo do Cotidiano