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quinta-feira, 10 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 10,16-23

 


Entre Lobos com a presença  do Paráclito: O Discipulado Profético em Tempos de Cinismo Espiritual

Evangelho de Mateus 10,16-23, proclamado na Sexta-feira da 14ª Semana do Tempo Comum, dá continuidade imediata ao trecho proclamado no dia anterior (Mateus 10,7-15). Depois de enviar os Doze para anunciar que o Reino dos Céus está próximo, curar os enfermos, libertar os oprimidos e viver a gratuidade da missão, Jesus aprofunda o sentido desse envio. Se, no primeiro momento, o foco estava no anúncio e na confiança providente, agora o Mestre revela o preço da fidelidade ao Evangelho. A missão não será marcada apenas pelos frutos, mas também pela oposição, pela rejeição e pela perseguição. Assim, o Discurso Missionário deixa claro que proclamar o Reino implica entrar em conflito com as estruturas que se alimentam da injustiça, do medo e da violência. Esse texto é proclamado todos os anos na liturgia ferial, permanecendo como um dos mais desconcertantes e proféticos discursos de Jesus sobre a missão. Parte dele (Mateus 10,17-22) também é lida na Festa de Santo Estêvão, em 26 de dezembro, porque o primeiro mártir da Igreja realizou de modo exemplar aquilo que Jesus havia anunciado: foi entregue aos tribunais, testemunhou diante das autoridades e entregou a própria vida por causa do nome de Cristo (cf. At 6–7). Nos Evangelhos sinóticos, esse ensinamento encontra paralelo em Lucas 21,12-19, proclamado na Quarta-feira da 34ª Semana do Tempo Comum, dentro do Discurso Escatológico, quando a liturgia dirige o olhar da Igreja para a perseverança nos tempos finais. O texto correspondente de Marcos 13,9-13, por sua vez, é amplamente utilizado no Comum dos Mártires, destacando que o testemunho cristão amadurece precisamente quando a fidelidade ao Evangelho encontra resistência e perseguição. Ao contrário das fantasias triunfalistas de um discipulado confortável, Jesus nos desinstala: "Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos" (Mt 10,16). A metáfora não é decorativa, mas profundamente reveladora. O discípulo não é enviado para dominar, conquistar ou impor-se pelos critérios do mundo, mas para testemunhar o Reino com a força da mansidão, da prudência e da fidelidade. A missão cristã não se mede pelo sucesso aparente, mas pela perseverança no amor, mesmo quando isso implica enfrentar hostilidade e sofrimento.

Nesse breve, mas densíssimo trecho, somos iniciados na gramática do Reino,   uma linguagem marcada pelo paradoxo: ternura que enfrenta, amor que denuncia, prudência que discerne, simplicidade que resiste e esperança que não se deixa vencer pelo medo. Aqui, a leveza do Espírito contrasta com a aspereza do mundo, e a missão revela-se como uma travessia entre fidelidade e risco, sustentada pela certeza de que, quando as forças humanas se esgotam, é o próprio Espírito do Pai quem fala por meio daqueles que permanecem fiéis (cf. Mt 10,19-20).ssa missão, porém, não emerge no vácuo. O pretexto imediato do texto é o envio dos doze apóstolos em missão (Mt 10,5-15). Eles são investidos de autoridade sobre os espíritos impuros, chamados a curar os doentes, ressuscitar os mortos, purificar os leprosos e expulsar demônios (Mt 10,8). Mas, antes que o entusiasmo espiritual os envolva num idealismo irreal, Jesus os coloca diante da concretude: haverá perseguições, prisões, ódio e até rupturas familiares (Mt 10,17-22). A missão não é um show de fé performática, mas uma travessia dura num mundo marcado pela resistência à verdade. A hermenêutica aqui nos convida a ver que esta palavra não foi apenas para os Doze, mas é endereçada à Igreja de todos os tempos, especialmente quando ela deseja ser fiel ao Evangelho, e não cúmplice de poderes.

A exegese do texto revela que a advertência de Jesus sobre ser entregue a tribunais, açoitado nas sinagogas e levado diante de governadores (v.17-18) não é paranoia religiosa, mas um retrato da tensão entre o anúncio do Reino e os poderes estabelecidos, tanto religiosos quanto políticos. O termo “sinagogas” sugere conflitos intra-religiosos, o que já nos remete à crítica necessária ao clericalismo  esse modo de organizar o poder eclesiástico como domínio, e não como serviço. A perseguição anunciada por Jesus não vem apenas de fora, mas também de dentro, quando a fé é domesticada, usada como ferramenta de opressão ou como escudo contra a mudança. Como o profeta Jeremias, os discípulos são enviados “como cordeiros mansos ao matadouro” (Jr 11,19), carregando nos ombros não o peso da glória, mas da fidelidade.

É nessa perspectiva que a antropologia bíblica encontra aqui sua radicalidade: Deus escolhe enviar “ovelhas”, não predadores. A fragilidade do missionário não é uma falha estratégica, mas parte da lógica do Reino. O discípulo é alguém que assume a condição da vulnerabilidade, que se deixa habitar pela força do Espírito para transformar o mundo sem reproduzir os mecanismos do poder. A recomendação de ser “prudentes como serpentes e simples como pombas” (Mt 10,16) é um binômio essencial à missão: discernimento e pureza, astúcia e candura, firmeza e ternura. Trata-se de uma espiritualidade lúcida, que compreende a complexidade do mundo sem se deixar seduzir por sua lógica cínica.

Essa espiritualidade lúcida é também profundamente teológica. A missão se sustenta na promessa de que o Espírito Santo falará pelos discípulos (Mt 10,20), desmontando qualquer pretensão de protagonismo ou glória pessoal. O missionário não é um empreendedor religioso nem um influenciador de Deus, mas um vaso de barro (cf. 2Cor 4,7), um canal de um amor que não se curva diante do ódio. Evangelizar não é repetir fórmulas, mas deixar-se guiar por uma Palavra viva que se encarna nas situações concretas. Como ensina Paulo VI na Evangelii Nuntiandi, “o homem contemporâneo escuta mais facilmente as testemunhas do que os mestres” (EN 41).

O Papa Francisco, agora parte do legado profético da Igreja, recordou em sua caminhada que “a missão é uma paixão por Jesus e, simultaneamente, uma paixão pelo seu povo” (Evangelii Gaudium 268). É o Espírito que transforma a perseguição em profecia, o medo em testemunho, o silêncio em anúncio. Sem Ele, a missão seria apenas ativismo ideológico; com Ele, é kenosis e pentecostes. E como o Papa afirmou com clareza em Evangelii Gaudium, a Igreja missionária não pode ser autorreferencial ou mundana, mas “ferida e suja por sair às periferias”, pois “prefere uma Igreja acidentada a uma Igreja doente por se fechar” (EG 49).

Dentro dessa encarnação concreta da Palavra, a missão adquire contornos sociológicos. O Evangelho denuncia toda tentativa de colonizar a fé com ideologias. A perseguição, aqui, não vem apenas da parte de governos estrangeiros ou sistemas ateus, mas de estruturas religiosas e políticas que deturpam a mensagem evangélica. A aliança entre setores do cristianismo e a extrema direita é uma dessas distorções: quando a fé se torna legitimadora de discursos excludentes, nacionalismos teocráticos e políticas anti-evangélicas, ela deixa de ser Boa Nova para os pobres (cf. Lc 4,18) e passa a ser instrumento de opressão. Quando a fé se converte em arma cultural, ela trai o Evangelho e se torna instrumento de exclusão. Em nome de “valores cristãos”, muitos constroem muralhas ideológicas que isolam, em vez de pontes que reconciliam. O cristianismo político que idolatra pátria, mercado e autoridade militar não é o de Jesus de Nazaré, mas o de César.

Esse mesmo desvio aparece na teologia da prosperidade e do domínio,  que vê na riqueza e na influência social os sinais da bênção divina. Jesus não promete aplausos, mas perseguição. Não promete likes, mas cruzes. A ideia de que a fé garante sucesso pessoal é incompatível com o Cristo que prepara seus discípulos para serem rejeitados. Essa teologia, popularizada por pregadores digitais e movimentos que vendem um “deus-vitrine”, é o oposto da lógica evangélica: ela evita o escândalo da cruz e propõe um Cristo sem espinhos, um discipulado sem risco, uma Igreja sem profetismo.

Não por acaso, a crítica se estende à teologia do “eu sozinho com Deus”, tão presente nas espiritualidades digitais e individualistas. O discipulado cristão é comunitário, enraizado em uma Igreja que sofre, caminha, erra e acerta em conjunto. O “evangelho do quarto fechado”, quando desconectado do corpo eclesial, corre o risco de se tornar mera espiritualidade narcisista. O Jesus de Mateus envia seus discípulos em missão pública, e não os convida ao isolamento devocional. Evangelizar é correr riscos, expor-se, comprometer-se com o bem comum.

A dimensão psicológica do discipulado, por sua vez, se torna evidente na forma como Jesus reconhece os medos e as inseguranças que acompanham a missão. Ser entregue à morte por familiares (Mt 10,21), ser odiado por todos (Mt 10,22) e ainda assim perseverar, exige uma estrutura interior ancorada na confiança profunda. A promessa: “Não vos preocupeis com o que haveis de dizer...” (Mt 10,19), alivia a angústia e nos reconecta à certeza de que não estamos sós. A fé genuína não é fuga, mas força. Não é máscara, mas coragem de ser. Não é anestesia, mas chama acesa no meio da noite.

Numa sociedade que idolatra a performance e teme a vulnerabilidade, o discipulado se torna um gesto filosófico contra o niilismo. Perseverar, aqui, não é apenas resistir a ataques externos, mas sustentar um sentido diante da banalidade. O discípulo que permanece fiel torna-se, por sua vida, uma crítica viva ao vazio existencial de uma cultura que celebra o imediato e teme o eterno. A missão cristã, como nos sugere Mateus, é uma vida vivida entre tensões: entre o já e o ainda não, entre o Reino anunciado e o mundo que resiste, entre a ternura e o confronto. A perseverança “até o fim” (Mt 10,22) não é um estoicismo estéril, mas uma fidelidade ativa, uma esperança que não se curva. O amor de Cristo é o critério que julga todas as outras fidelidades. A missão é, portanto, existência dialética: leveza do Espírito em meio ao peso do mundo.

Assim, Jesus não nos promete imunidade, mas presença. Não nos livra dos lobos, mas caminha conosco entre eles. A Igreja que se quer fiel a este Evangelho precisa abandonar os palcos e voltar às ruas, sair dos palácios e voltar aos casebres, deixar de querer influenciar e voltar a amar. O futuro da missão não está nos algoritmos, mas na carne. Não está nas estratégias de marketing, mas na conversão do coração. A Igreja que evangeliza é a que ouve o clamor dos pobres, que se deixa ferir pelas dores do povo e que se recusa a ser cúmplice de sistemas que matam.

Por isso, hoje, mais do que nunca, somos chamados a viver um discipulado que una prudência e simplicidade, coragem e humildade, lucidez e compaixão. Jesus não envia seus discípulos para conquistar poder, buscar prestígio ou construir impérios religiosos, mas para tornar visível o Reino de Deus em meio às contradições da história. A fidelidade ao Evangelho inevitavelmente confronta toda lógica de opressão, violência, hipocrisia e idolatria do poder. Por isso, o verdadeiro discípulo não negocia a verdade, mas também não responde ao ódio com mais ódio; vence o mal com o bem (cf. Rm 12,21), permanecendo firme na força do Espírito

Que o Espírito do Pai fale em nós e por meio de nós (cf. Mt 10,20), para que nossas palavras sejam expressão da Boa-Nova e nossas atitudes se tornem uma liturgia cotidiana do Reino. E, se a verdade do Evangelho nos custar incompreensões, rejeições ou perseguições, que jamais percamos a esperança. Afinal, a promessa de Cristo permanece viva: "Quem perseverar até o fim, esse será salvo" (Mt 10,22). Entre os lobos, sejamos o sinal do Cordeiro; em meio às trevas, testemunhas da luz; e, num mundo marcado pelo medo e pela violência, homens e mulheres cuja vida proclame, antes mesmo das palavras, que o amor de Deus continua sendo a última e definitiva palavra da história.

DNonato – Teólogo do Cotidiano


quarta-feira, 9 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 10, 7-15

 

“É Preciso Continuar: missão, denúncia e fidelidade no seguimento de Jesus”

O Evangelho de Mateus 10,7-15, proclamado na quinta-feira da 14ª Semana do Tempo Comum, apresenta um dos momentos decisivos da narrativa de Mateus. Depois de percorrer cidades e povoados anunciando o Reino, curando os enfermos e libertando os oprimidos, Jesus dá um passo fundamental: chama os Doze e os envia em missão. A obra do Reino deixa de depender exclusivamente da presença física do Mestre e passa a se prolongar na vida daqueles que acolheram seu chamado. O discipulado torna-se missão, e a missão torna-se sinal concreto da continuidade da presença de Cristo no mundo. Esse envio possui paralelos importantes nos Evangelhos Sinóticos. Em Marcos 6,7-13, o envio dos Doze é proclamado na quinta-feira da 4ª Semana do Tempo Comum e também no 15º Domingo do Tempo Comum (Ano B). Já Lucas 9,1-6 é proclamado na quarta-feira da 25ª Semana do Tempo Comum. Embora cada evangelista destaque aspectos próprios, os três convergem em um ponto essencial: a missão nasce da autoridade recebida de Jesus, é vivida no despojamento e encontra sua credibilidade não no poder humano, mas na fidelidade ao Reino de Deus. O Evangelho  de hoje  e a  continuação  do  Evangelho  de  ontem  que traz  a escolmhas  dos apóstolos  Mateus  10, 1-7. Jesus ao contemplar as multidões "cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor" (Mt 9,36), Jesus é movido por profunda compaixão. O verbo grego splagchnízomai expressa uma comoção que brota das entranhas, revelando que a missão cristã não nasce de estratégias pastorais nem de projetos institucionais, mas do coração misericordioso de Deus diante do sofrimento humano. Por isso, anunciar o Reino significa tornar visível, na história concreta, a compaixão do próprio Cristo. O envio dos Doze não pertence apenas ao passado, mas permanece como paradigma da missão cristã: uma missão marcada pela gratuidade, pelo despojamento, pela proximidade com os pobres, pela coragem profética e pela fidelidade ao Reino, mesmo diante da rejeição e da perseguição

Mateus 10, 7-15 do Evangelho segundo Mateus é um dos momentos de virada na narrativa do evangelista. Jesus, que até aqui curava, pregava e denunciava pessoalmente, passa a delegar essa tarefa a outros, chamando os Doze e os enviando. Esse envio não é meramente funcional, mas profundamente teológico e pedagógico. Não é sobre delegação de tarefas, mas sobre extensão da presença do Reino no mundo através de corpos concretos, frágeis, humanos, peregrinos. A missão cristã, nesse contexto, não nasce de uma estratégia, mas de uma compaixão visceral. No capítulo anterior, Jesus vê as multidões exaustas e abatidas (Mt 9,36), e move-se de splagchnízomai, verbo que expressa não um sentimento superficial, mas um estremecimento nas entranhas. Da compaixão nasce a missão. Isso já denuncia toda espiritualidade que vê o mundo como ameaça, que se retrai, que se tranca em sacristias ou se refugia em redes sociais buscando apenas conforto ou confirmação ideológica. O Evangelho lança para fora. Envia. Impulsiona. E envia para dentro do mundo real, não para bolhas de consenso nem para palcos de autoafirmação.

O anúncio “O Reino dos Céus está próximo” (Mt 10,7) não é mera previsão escatológica, mas afirmação de um tempo novo que irrompe no hoje. Essa proximidade do Reino não é territorial nem cronológica, mas existencial e política. O Reino não é um lugar, mas uma presença, uma lógica nova, uma inversão dos poderes e dos valores. O Reino é o contrário do império, é o oposto da dominação. Em Marcos 1,15, Jesus diz: “O tempo se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho.” Já em Lucas 17,21, afirma que “o Reino de Deus está no meio de vós.” Portanto, a missão é tornar esse Reino visível no tecido da vida. A missão cristã é o gesto de tornar o invisível do Reino em carne, gesto, justiça, pão, afeto, denúncia e transformação. Não é um anúncio abstrato, mas encarnado na vida concreta das pessoas. Por isso, não há missão sem política, sem ética, sem cuidado, sem pedagogia.

A ordem para não levar ouro, prata, alforje, duas túnicas, sandálias ou bastão (Mt 10,9-10) é um gesto simbólico de despojamento, mas também de denúncia. Denúncia de uma religiosidade acumuladora, que transforma o anúncio em espetáculo, a fé em produto e os pobres em plateia. Esse Evangelho não cabe nos templos suntuosos, nem nos programas religiosos que vendem promessas e milagres com estética de marketing. A pobreza evangélica não é miséria, mas liberdade. É a condição para que o anúncio não seja confundido com autoajuda, com coaching espiritual ou com propaganda ideológica. E, no entanto, vemos hoje igrejas digitais disputando mercado de almas, influencers da fé negociando sua “marca pessoal”, comunidades de culto-show que se especializam em oferecer experiências emocionais intensas mas desconectadas da vida real. A missão cristã é radicalmente contrária a essa lógica. Não se trata de “bombar” no Instagram ou no TikTok com frases piedosas, mas de mergulhar na realidade sofrida do povo e aí tornar presente o Reino que liberta, cura e transforma. Como afirmou o Papa Francisco em sua Evangelii Gaudium, “prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas a uma Igreja enferma pelo fechamento e pela comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (EG 49).

O envio missionário também é um antídoto contra o clericalismo. Jesus envia os Doze, mas depois também os 72 (Lc 10,1-12), num gesto que quebra toda hierarquização eclesiástica. O envio é para todos. O batismo é a fonte da missão. E essa missão é para todos os tempos, em todos os lugares, especialmente os mais feridos e esquecidos. O clericalismo transforma a missão em monopólio eclesiástico. Reduz o Evangelho à gestão dos sacramentos, como se a salvação fosse um serviço a ser distribuído por funcionários do sagrado. É essa lógica que transforma comunidades vivas em agências religiosas e presbíteros em burocratas. Contra isso, o Evangelho recorda que o envio é feito a partir da proximidade, da vulnerabilidade, da compaixão e do risco. Os enviados são frágeis, mas portadores de uma força que não vem deles. São como ovelhas no meio de lobos (Mt 10,16), porque o Evangelho verdadeiro incomoda os poderes deste mundo.

A fé individualista, hoje amplamente difundida, também é frontalmente desmentida por esse texto. Muitos cristãos querem viver uma fé “personalizada”, com devoções que sirvam aos seus afetos e necessidades, mas sem compromisso com a comunidade, com os pobres, com os conflitos do mundo. É uma fé gourmet, feita sob medida, sem exigência de conversão. Mas Jesus envia em grupo, para casas, para cidades, para relações. A missão é interpessoal, comunitária, encarnada. Uma fé que não se transforma em compromisso histórico é pura evasão espiritual. E ainda pior: é autoengano. Não são poucos os que querem anunciar o Evangelho “para os confins da Terra” mas não olham o morador de rua em sua calçada, nem escutam o grito dos famintos da sua cidade, nem se deixam afetar pela dor das mães negras que enterram seus filhos vítimas do genocídio racista. Missões internacionais são bonitas nas redes sociais, mas o Reino começa no chão que pisamos. Não há missão verdadeira que não comece pelo território, pela vizinhança, pelo cotidiano. Como dizia Dom Adriano Hipólito, “o céu começa aqui”. E o aqui é o agora, com suas contradições, suas lutas, seus corpos feridos.

Dom Adriano Hipólito, terceiro bispo de Nova Iguaçu, foi uma dessas testemunhas encarnadas do Evangelho do Reino. Durante os anos de chumbo da ditadura civil-militar no Brasil, sua voz profética ecoou em favor dos pobres, dos trabalhadores, dos perseguidos, dos que viviam nas favelas e nos cortiços esquecidos pelas estruturas do poder. Seu pastoreio não era de gabinete, mas de chão, de periferia, de denúncia. Essa fidelidade ao Reino custou caro: Dom Adriano foi sequestrado em 1976 por militares, espancado e deixado nu em uma estrada, após se recusar a deixar a diocese por pressão do regime. Sua catedral, símbolo da fé encarnada no povo, foi alvo de um atentado a bomba — expressão cruel do quanto o anúncio do Reino incomoda as estruturas de morte. Sua vida é uma leitura viva de Mateus 10: enviado despojado, exposto ao risco, fiel até o fim à Palavra de Jesus. Nele se cumpre o que o Documento 105 da CNBB nos recorda: “A missão é anúncio profético do Reino de Deus, que transforma a história” (Doc. 105, n. 23), e por isso, inevitavelmente, confronta as forças de opressão, inclusive quando essas se disfarçam de religião ou de segurança institucional.

Nesse sentido, sua figura ressoa como eco necessário da reflexão que ontem publicamos sobre Mateus 10,1-7, onde já se indicava que o início da missão não se dá na segurança do templo nem no conforto da neutralidade, mas no movimento de Jesus que vê, sente compaixão e envia. Lá, destacamos que a missão não nasce do poder, mas da sensibilidade. Aqui, vemos que essa sensibilidade, quando levada às últimas consequências, gera perseguição, mas também fidelidade. Ontem, lembrávamos que os primeiros enviados são discípulos que oram e se comprometem; hoje, vemos que esse compromisso se torna um corpo a corpo com a história. O envio é o mesmo, a Palavra é a mesma, o risco é real — e o Reino é urgente. É preciso continuar.

A missão, portanto, é inseparável da denúncia profética. Jesus não manda seus discípulos bajular autoridades, nem adaptar o anúncio à expectativa do mercado religioso. Ele os manda com autoridade, mas sem garantias. Com a força da Palavra, mas com a vulnerabilidade do despojamento. Isso confronta diretamente a teologia da prosperidade, que prega um Evangelho de sucesso, poder e vitória, quando o próprio Cristo viveu a cruz, a rejeição, a pobreza e a perseguição. O Evangelho da cruz não é derrota, mas denúncia e fidelidade. Não é derrota porque o Ressuscitado é aquele que passou pela morte sem pactuar com o sistema de morte. Não é vitória conforme o mundo entende. É triunfo do amor que não cede ao ódio, da justiça que não se curva à violência, da fé que não serve ao império.

Jesus não promete aceitação, mas resistência. O gesto de sacudir o pó dos pés (Mt 10,14) é símbolo dessa liberdade: a missão não é colonização, nem barganha. É anúncio gratuito. O pó sacudido é a recusa de uma religiosidade que se vende para ser aceita. Também hoje, muitas igrejas se calam sobre temas espinhosos para não desagradar seus financiadores, seus seguidores, suas bolhas ideológicas. O medo de perder curtidas, fiéis ou prestígio silencia o profetismo e promove um cristianismo domesticado, submisso às estruturas de poder — seja político, seja eclesial. Jesus não tolera isso. O Reino não pode ser usado para legitimar projetos autoritários, nacionalismos religiosos ou práticas excludentes. A extrema-direita que se traveste de cristã não é continuadora da missão de Cristo, mas de seus algozes. Jesus foi perseguido por denunciar as alianças entre religião e império. Não morreu por ser inofensivo, mas por ser perigoso para o sistema.

Diante disso, somos convocados a uma escolha clara. Ou somos cristãos do sistema, que adaptam o Evangelho às conveniências do mercado e da ideologia, ou somos discípulos do Reino, que aceitam ser rejeitados por fidelidade à Palavra. Não se pode servir a dois senhores (Mt 6,24). Ou se serve ao Reino com a radicalidade de quem deixa tudo e vai (Mc 10,28), ou se serve à manutenção de estruturas estéreis, templos vazios de vida e cheios de vaidades. O envio missionário, como nos mostra o Evangelho, é antes de tudo um êxodo pessoal e comunitário: sair de si mesmo, deixar a segurança do conhecido, atravessar desertos e ir ao encontro do outro, mesmo quando esse outro representa o confronto, a incompreensão ou a rejeição.

A missão não é uma opção entre muitas. É a essência da fé. E essa missão começa aqui, agora, com os pés empoeirados, as mãos vazias e o coração abrasado. O céu começa aqui, dizia Dom Adriano, e começa onde alguém tem a coragem de anunciar, com ternura e firmeza, que outro mundo é possível — e já começou em Jesus. É preciso continuar. Não se trata apenas de repetir fórmulas, mas de fazer ecoar a palavra que liberta: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres” (Lc 4,18). Esta mesma unção não é privilégio do Cristo histórico, mas missão confiada a cada batizado, como Pedro recordará: “Deus ungiu Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, e Ele andou fazendo o bem e curando todos os que estavam dominados pelo diabo” (At 10,38). A missão cristã é, pois, fazer o bem, curar, libertar, denunciar, consolar, confrontar — não no abstrato, mas na carne viva do povo.

“Como invocarão aquele em quem não creram? E como crerão se não ouviram falar dele? E como ouvirão se não houver quem pregue?” (Rm 10,14). A pergunta de Paulo aos Romanos continua urgente hoje. Não podemos nos calar. Não podemos permanecer neutros diante das cruzes modernas, dos sepulcros caiados com aparência de piedade e cheios de podridão (Mt 23,27), das instituições que vendem indulgências eletrônicas em nome de um deus fabricado. A Palavra de Deus é “mais cortante que espada de dois gumes” (Hb 4,12), e quem a anuncia verdadeiramente, como nos lembra Jeremias, tem “um fogo ardente encerrado nos ossos” (Jr 20,9). Esse fogo arde, incomoda, inquieta — mas também ilumina e transforma.

É hora de reacender esse fogo, não com raiva, mas com coragem. Não com ódio, mas com lucidez. Não com palavras de efeito, mas com fidelidade. Não com entretenimento litúrgico, mas com amor que se traduz em justiça. Porque a vinha ainda está sendo explorada pelos violentos (Mt 21,33-46), mas o dono da vinha não está ausente. Porque o Reino ainda é como fermento na massa (Mt 13,33), pequeno, escondido, mas cheio de potência. E porque, apesar de tudo, “a Palavra de Deus não está algemada” (2Tm 2,9). Como os setenta e dois do Evangelho de Lucas 10,1-12.17-20 ,proclamado no 14ª domingo do tempo comum do  ano "C", como os doze de Mateus, como os mártires da história e os profetas de ontem e de hoje, somos chamados a ir, anunciar, libertar, denunciar e semear.

Mateus 10,7-15 permanece extraordinariamente atual porque recorda que a missão da Igreja não consiste em preservar estruturas, conquistar espaços de poder ou disputar influência cultural, mas em tornar presente o Reino de Deus onde a vida está ameaçada. Jesus envia discípulos despojados, livres das amarras do prestígio e da lógica da acumulação, para que o anúncio seja reconhecido não pela força dos recursos, mas pela força do amor que cura, liberta e restitui a dignidade humana. Os relatos paralelos de Marcos 6,7-13 e Lucas 9,1-6 reforçam essa mesma convicção: a missão nasce de Cristo, é sustentada por sua autoridade e exige confiança na providência de Deus. Em todos os Sinóticos, o discípulo é chamado a sair de si mesmo para fazer do Evangelho uma presença concreta na história. Também hoje, a Igreja é continuamente convidada a escolher entre duas lógicas: a do Reino ou a do poder; a da compaixão ou da indiferença; a do serviço ou do privilégio; a da profecia ou do silêncio conveniente. O Evangelho não autoriza neutralidade diante da injustiça nem permite reduzir a fé a uma experiência intimista ou mercantilizada. A missão continua sendo caminhar com os pés empoeirados, as mãos disponíveis e o coração inflamado pelo Espírito, anunciando que Deus permanece próximo dos pobres, dos esquecidos e dos que têm fome de justiça.

Por isso, a ordem de Jesus continua ecoando através dos séculos: "Pelo caminho, anunciai: o Reino dos Céus está próximo" (Mt 10,7). Essa proximidade depende, ainda hoje, da coragem de homens e mulheres que fazem do Evangelho uma prática de misericórdia, justiça, reconciliação e esperança. Enquanto houver quem acolha esse envio, a Palavra continuará livre, o Reino continuará crescendo como fermento na massa, e a missão da Igreja permanecerá viva na história, até que Deus seja tudo em todos (cf. 1Cor 15,28). A colheita é grande, e os trabalhadores são poucos (Mt 9,37). Mas os que vão, mesmo com medo, mesmo em silêncio, mesmo chorando, voltarão trazendo os feixes (Sl 126,6). Porque aquele que começou em nós a boa obra, há de levá-la a termo (Fl 1,6). É preciso continuar.

DNonato - Teólogo do cotidiano