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segunda-feira, 23 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 1,57-66.80 – Solenidade da Natividade de São João Batista

Entre Elias e João, entre o fogo e o Jordão, caminhamos com os olhos no Reino e os pés firmes na história.

A narrativa de Lucas 1,57-66.80, proclamada na Solenidade do Nascimento de São João Batista, ocupa um lugar singular no Novo Testamento. A Igreja celebra o nascimento de apenas três pessoas: Jesus Cristo, Maria e João Batista. Esse fato, por si só, revela a importância única daquele que seria o precursor do Messias, a voz que prepara os caminhos do Senhor. Seu nascimento não é apenas um acontecimento familiar extraordinário, mas um sinal de que Deus continua agindo na história humana, especialmente quando tudo parece marcado pela esterilidade, pelo silêncio e pela impossibilidade. Lucas apresenta João como fruto da fidelidade divina às promessas. Em um contexto no qual Isabel carregava o peso social da esterilidade e Zacarias experimentava o silêncio imposto por sua incredulidade, Deus faz florescer a vida onde a sociedade enxergava fracasso e abandono. O nascimento do menino provoca espanto, alegria e questionamentos entre os vizinhos: “O que virá a ser este menino?” (Lc 1,66). A pergunta não se dirige apenas ao futuro de João, mas aponta para a ação surpreendente de Deus, que frequentemente escolhe os pequenos, os esquecidos e os improváveis para realizar seus desígnios.

Mais do que narrar um nascimento, Lucas apresenta o surgimento de uma vocação profética destinada a marcar a transição entre as promessas da antiga aliança e sua realização em Jesus Cristo. João nasce para preparar caminhos, despertar consciências e convocar o povo à conversão. Sua vida será um sinal permanente de que Deus não se acomoda às estruturas religiosas cristalizadas nem aos mecanismos de poder que produzem exclusão e injustiça. Sua voz surgirá no deserto, longe dos centros de influência, anunciando que o Reino de Deus está próximo e exigindo uma transformação concreta da vida. Ao contemplarmos o nascimento de João Batista, somos convidados a reconhecer que Deus continua levantando vozes proféticas em tempos de conformismo, silêncio e acomodação. A pergunta feita pelos vizinhos de Isabel permanece atual e desafiante para cada geração de cristãos:

  • Que tipo de testemunhas estamos formando para anunciar o Evangelho em nosso tempo 

O nascimento de João Batista, tal como narrado por Lucas, não é apenas o relato de um milagre doméstico em meio a um casal idoso e estéril. É o sinal de que Deus continua intervindo na história por vias inesperadas, rompendo a lógica da esterilidade espiritual, social e institucional. Zacarias, que emudece por sua incredulidade, e Isabel, que carregava em si o estigma do silêncio social, tornam-se os primeiros porta-vozes de uma nova economia da graça. A realização da promessa não se dá pela força humana, mas pela fidelidade divina que escolhe os humildes, os esquecidos, os que não contam nas genealogias do poder (cf. 1Cor 1,27-28).

Ao insistirem no nome “João”  que significa “Deus é misericordioso”, os pais rejeitam a tradição onomástica patriarcal. Esse gesto aparentemente simples já inaugura uma ruptura: Deus começa a escrever uma nova história que não se curva às convenções familiares nem aos caprichos religiosos. O nome de João é um sinal de que o agir de Deus não é herança biológica, mas vocação profética. E essa vocação começa não no centro, mas na periferia; não no palácio ou no Templo, mas no deserto. O menino cresce longe das estruturas corrompidas, em lugar de silêncio e liberdade, onde não há templos nem altares luxuosos, mas há céu aberto, pão simples e escuta radical. 

É nesse deserto que ressoa a voz de Isaías, o profeta do exílio e da esperança: “Voz do que clama no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas!” (Is 40,3).

Essa voz não surge de improviso. João é chamado desde o ventre. Ainda em gestação, ele é o primeiro a reconhecer a presença do Messias  e não com palavras, mas com o estremecimento do corpo (cf. Lc 1,41). A primeira teofania joanina acontece no encontro entre duas mulheres, Maria e Isabel, dois ventres grávidos de promessa e revolução (cf. Lc 1,39-45).  João salta, vibra, dança no útero, como que proclamando: “Ele está aqui!”. Antes de pregar no Jordão, João já profetiza no ventre, reconhecendo Aquele que viria depois dele, mas que é antes de tudo. Esse encontro intrauterino não é apenas afeto familiar; é o início de uma missão que se cumpre com crescente consciência: “Eu não o conhecia, mas para que Ele fosse manifestado a Israel, vim batizando com água” (Jo 1,31). João, mesmo crescendo no deserto, permanece conectado ao Mistério. Quando enfim vê Jesus caminhando à beira do Jordão, ele exclama, com a precisão de quem esperou uma vida inteira por aquele momento: Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” (Jo 1,29).

Da criança que saltou no ventre ao profeta que aponta o Cordeiro, há um fio invisível de fidelidade e escuta. João não age por conveniência ou prestígio; ele reconhece, indica e se retira: “É necessário que Ele cresça, e que eu diminua” (Jo 3,30).

Essa transição, contudo, não foi sem tensões. Os próprios evangelhos registram que, em determinado momento, os discípulos de João questionam Jesus (cf. Lc 7,18-23), revelando que a passagem do profetismo joanino ao seguimento do Messias não se deu de forma homogênea. Alguns grupos continuaram a seguir João mesmo após sua morte, mantendo seu batismo e sua memória profética. Tradições extracanônicas  como as Homilias Clementinas, de provável origem judaico-cristã e hoje consideradas literatura apócrifa  preservam ecos de uma rivalidade entre os seguidores dos “dois profetas”. Ainda que envoltas em linguagem simbólica, essas narrativas revelam uma tensão real entre movimentos que disputavam o sentido da fidelidade ao Deus de Israel. 

O evangelho de João responde a essa tensão com delicadeza teológica. Ao omitir o batismo de Jesus por João e colocar nos lábios do Batista o reconhecimento definitivo — “Eu vi e dou testemunho de que este é o Filho de Deus” (Jo 1,34), a comunidade joanina evita o conflito, honra a memória do profeta e afirma: João não é a luz, mas veio para dar testemunho da luz (Jo 1,8). Em tempos de disputas eclesiais por autoridade, influência e “paternidade espiritual”, essa atitude é pedagógica: o verdadeiro profeta sabe quando é hora de sair de cena.

A trajetória de João ecoa a de Elias, o profeta do fogo que confrontou a idolatria e desmascarou a aliança perversa entre religião e política nos tempos de Acab e Jezabel (cf. 1Rs 17–19). Ambos vivem à margem, alimentam-se com o mínimo, vestem-se sem ostentação (cf. Mt 3,4), e mantêm distância dos palácios e dos privilégios. Eles não pregam para agradar, mas para despertar. Elias denunciou o adultério espiritual de Israel; João denunciou o adultério moral e político de Herodes (cf. Mt 14,3-4). E ambos pagaram caro por isso. Mas como afirmou Jesus, João é o Elias que devia vir (cf. Mt 11,14; Lc 1,17) — não como repetição literal, mas como encarnação do mesmo espírito de denúncia, justiça e fidelidade ao Deus da Aliança.

A tradição patrística leu João Batista como ponte entre as duas margens da revelação. Agostinho o compreendeu como o último profeta da antiga ordem e o primeiro a apontar o Cordeiro de Deus, sinalizando a chegada do Reino. Orígenes via em seu batismo uma pedagogia divina de transição: não é o fim da Lei, mas o caminho para a Graça. João não substitui Elias; ele o atualiza. Não é reencarnação, mas reinauguração. Seu profetismo não é repetição de fórmulas, mas resposta viva ao contexto concreto. Ele denuncia não só pecados individuais, mas as estruturas que sustentam a injustiça. Sua voz exige conversão real, ética, comunitária e histórica não apenas ajustes morais privados.

Essa ousadia não está ausente do magistério atual da Igreja. O Papa Francisco, em Evangelii Gaudium, recorda que a missão evangelizadora não pode se restringir à conservação de estruturas estéreis, mas deve ser ousada, movida pelo Espírito, uma Igreja “em saída”, que prefere os riscos da rua à estagnação das sacristias (EG 49). João já encarnava essa dinâmica muito antes. Não esperava que o povo fosse ao Templo: foi ao deserto, ao Jordão, às margens do sistema religioso (cf. Lc 3,2-3). Seu batismo era um choque de realidade, um grito contra a acomodação, uma convocação ao recomeço. Preparar o caminho do Senhor não era um slogan espiritual, mas uma convocação ética à transformação da vida e da sociedade. 

Na mesma linha, Laudate Deum denuncia as alianças espúrias entre destruição ambiental, economia extrativista e falsas espiritualidades que sacralizam o lucro. João, com sua vida austera e sua palavra incisiva, é um contraponto vivo às religiões do mercado e aos pregadores de paletó e microfone dourado. Muitos dos que hoje falam em nome de Deus o fazem a serviço do capital, da violência simbólica e do negacionismo. Propagam uma teologia que justifica o ódio aos pobres (cf. Am 2,6-7), a exclusão das mulheres, a criminalização dos indígenas e dos migrantes (cf. Ex 23,9). Essa teologia do lucro é o novo Baal de nossos dias. E, como Elias e João, somos chamados a confrontá-la com coragem e fidelidade.

A espera pela segunda vinda de Cristo não pode ser passiva, adormecida em rituais e dogmas fossilizados. A verdadeira espera é ativa, comprometida com os sinais do Reino (cf. Mt 25,31-46). É tempo de conversão encarnada, que se expressa em compromisso com os que sofrem, com os que são silenciados, com os que resistem. Como João, precisamos ser voz que clama no deserto dos sistemas religiosos esvaziados e das democracias corroídas. Como Elias, devemos incendiar os falsos altares com a verdade do Reino (cf. 1Rs 18,38-39). Não há boa nova sem denúncia do que aprisiona. Não há batismo verdadeiro sem transformação da realidade.

Lucas conclui dizendo que João “crescia e se fortalecia em espírito” (Lc 1,80), e isso não se refere a um desenvolvimento individualista, mas à maturidade espiritual que nasce da escuta profunda e da resistência fiel. Em tempos de fé diluída e religiosidade performática, crescer em espírito significa resistir ao comodismo, denunciar as idolatrias (cf. 1Jo 5,21), manter-se fiel mesmo que isso custe a cabeça (cf. Mc 6,27-28). O martírio de João não é acidente de percurso: é consequência da coerência. 

O Reino não virá com palmas, cruzes douradas ou slogans triunfalistas. O Reino vem com justiça (cf. Is 11,1-5), com verdade (cf. Sl 85,11), com a coragem de João e o fogo de Elias. Entre o deserto e o Jordão, entre o grito e o martírio, entre o ventre e a cruz, somos chamados a preparar caminhos onde a vida possa florescer — ainda que custe tudo.

Lucas encerra o relato afirmando que João “crescia e se fortalecia em espírito, e vivia nos desertos até o dia de sua manifestação a Israel” (Lc 1,80). Não se trata apenas de crescimento biológico ou amadurecimento pessoal, mas da formação de uma consciência profundamente enraizada na escuta de Deus e livre das seduções do poder. O deserto torna-se a escola onde o profeta aprende a distinguir a voz do Senhor do ruído das ideologias, dos interesses religiosos e das falsas seguranças humanas.

Também hoje vivemos cercados por desertos: desertos de sentido, de justiça, de solidariedade e de esperança, multiplicam-se discursos religiosos que falam de Deus, mas silenciam diante da pobreza, da violência, da destruição da criação e da exclusão dos mais vulneráveis. Nesse contexto, o nascimento de João Batista continua sendo uma interpelação à Igreja e à sociedade. Deus segue suscitando homens e mulheres capazes de preparar caminhos para o Reino, denunciar os ídolos de seu tempo e anunciar que outro mundo é possível porque Deus permanece fiel à sua promessa.

A pergunta dos vizinhos de Isabel continua ecoando através dos séculos:  “O que virá a ser este menino?” (Lc 1,66). Talvez a questão deva ser ampliada para nossas comunidades e para cada um de nós: 

  • Que tipo de discípulos estamos nos tornando?
  •  Seremos apenas consumidores de religião ou testemunhas do Evangelho? 
  • Teremos a coragem de João para apontar o Cristo e denunciar aquilo que desfigura a vida?
 O Reino de Deus continua procurando vozes que clamem no deserto, mãos que preparem caminhos e corações dispostos a diminuir para que Cristo cresça. A verdadeira grandeza de João não esteve em sua fama, mas em sua fidelidade. E é essa mesma fidelidade que o Evangelho continua exigindo de todos aqueles que desejam seguir Jesus.

DNonato – Teólogo do Cotidiano



domingo, 11 de dezembro de 2022

Um Olhar no texto de Mateus 11, 2-11 - terceiro Domingo do advento

 


Chegamos ao domingo róseo, à espera com alegria, saber esperar o tempo de Deus é algo complicado, as demoras de Deus, embora saibamos que Deus nunca demora em nos atender.    Iniciamos a semana com um brilho a menos para os brasileiros, afinal a seleção despachada pela Croácia, depois de um jogo de 120 minutos é algo que os milhões de técnicos de futebol no Brasil explicam com facilidade e sabedoria nunca vista e sem mencionar que o atual mandatário dos Pais rompeu o silêncio tentando traçando um paralelo sobre a sua saída, citando o apoio popular para sua possibilidade de não passar faixa para o eleito no pleito de 2022 que na segunda-feira será diplomado o presidente eleito no ultimo pleito junto com o vice em pais que ainda tem gente abraçando caminhão e ainda olhando para realidade na hora votar o teto de gastos com o furo gigante aqueles que eram contra ficaram a favor e aqueles que eram a favor agora são contra, políticos brasileiros que estão preocupados com tudo menos com o povo, vale tanto para um lado como para outro.  Há 20 dias para o ano de 2023 a imprensa fala que temos um rombo nas contas publicas,  graças atual administração do pais que vai faltar dinheiro na áreas essenciais da pátria  (saúde, educação,  INSS etc.).

Nesta realidade que somos convidados a celebrar esse terceiro domingo do Advento com as seguintes leituras: Isaías 35, 1-6a.10; Salmo 145 (146) com a resposta Vinde, Senhor, e salvai-nos; São Tiago 5, 7-10 e o evangelho São Mateus 11, 2-11

Como sempre iremos meditar o evangelho, não é que as demais leituras não mereça nossa reflexão, mas de forma geral e por motivo óbvio meditemos o evangelho, o nosso texto tem a característica refletir de forma livre é apenas um seta que indica uma possível reflexão e não temos a pretensão de impor o nosso ponto de vista ou tão pouco estamos aqui escrevendo em nome de algum grupo pastoral ou Igreja.  Estamos  nos aproximando  do Natal e nas semana passada tivemos a pregação falando da chegada do Messias e hoje temos a ação desse Messias, a exemplo de outros compatriotas de Jesus o Batista trazia em sua pregação um messias que traria o fogo, mas também realizaria sinais, curar os cegos, fazer paralítico andar, curar os leprosos, fazer com que os surdos ouçam ressuscitar os mortos e o principal anunciar aos pobres que o "Reino" da justiça e da paz chegou.

O evangelho de hoje temos duas partes. A primeira a confirmação do messianismo de Jesus apresenta aos discípulos de João a sua ação dentro da perspectiva do profeta Isaias: “os cegos veem, os aleijados andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as boas-novas são pregadas aos pobres” e a segunda parte o reconhecimento da missão e da pessoa do Batista.   
Neste tempo de mídias sociais onde se postam tanta coisa somos chamados a refletir e checar as informações antes de repassar, foi isso que os discípulos de João vieram fazer junto a Jesus, existem milhares e Igrejas que apresentam um Cristo de acordo com seu interesse, alguns falam e valorizam o milagre narrados na bíblia, outros um Cristo ativista político e ainda aquele que trazem um Cristo líder religioso e omisso diante da realidade, mas de fato Jesus é bem maior que todas as leituras limitadas dele, Ele é uma proposta de mudança de vida e nesse caso voltamos na semana passada no texto Um Olhar no texto de Mateus 3, 1-12 - Segundo Domingo do advento que apela para nossa conversão, Jesus deve ser um presença  salvadora  e libertadora; Ele  não esta a serviço desse ou daquele grupo religioso ou político e diante de uma casta que se escondem  Jesus apresenta  seu projeto do Reino que  é a boas nova pregadas aos pobres, pois muitos pregam  um Cristo apático da realidade. Somos chamados a abrir nossos ouvidos surdos para os gritos pedindo pão de milhares de brasileiros, supera nossa cegueira religiosa, ideológica política e ver a realidade de milhares de pessoa nas filas do osso, ainda somos convidados a romper com paralisia de um sistema político engessado pelos desejos e vontades dos eleitos, romper com esse modelo de classes que usam o evangelho para benefícios próprio, ficam pregando e criticando o bife de ouro no Qatar, mas aqui na sua realidade estão preocupados em manter a sua estrutura de poder, com mesa farta e com uma visão empresarial da comunidade, visando o lucro, segundo o modelo de Judas.

João ficou em duvida sobre a pessoa de Jesus, muitas das vezes temos as nossas crises de fé, nos questionamos sobre a presença de Deus diante do câncer de uma criança, diante da morte de alguém que amamos e até mesmo diante do mal e da injustiça que muitos nos fazem.  Os fatos apresentados por Jesus é algo que respondeu os anseios dos seguidores de João e voltando as leituras do Cristo que vem no natal, não podemos esquecer que ele veio pobre, que Ele assumiu o manto dos excluídos e aqui vale a pena citar Papa Francisco:  

“Só a humildade nos abre à experiência da verdade, da alegria genuína, do conhecimento que conta”. Sem humildade, estamos “desligados”, somos excluídos da compreensão de Deus, da compreensão de nós mesmos. É preciso ser humilde para nos compreendermos a nós mesmos, e mais ainda para compreender Deus. Aceitam a humildade de procurar, de se pôr a caminho, de perguntar, de arriscar, de cometer erros... Cada homem, no íntimo do seu coração, é chamado a procurar Deus: todos nós temos aquela inquietação e o nosso trabalho consiste em não apagar aquela inquietação, mas deixá-la crescer, pois é a inquietação de procurar Deus; e, com a sua própria graça, pode encontrá-lo. Façamos nossa a oração de Santo Anselmo (1033-1109): «Senhor, ensinai-me a procurar-vos”. Mostrai-vos, quando vos procuro. Não posso procurar-vos se não me ensinardes; nem encontrar-vos se não vos mostrardes. Que eu vos procure, desejando-vos e vos deseje procurando-vos! Que eu vos encontre, procurando-vos e vos ame, encontrando-vos! ”[1]

A segunda parte Jesus apresenta João como o maior dos profetas, sabemos que João era filho de um sacerdote do baixo clero e dentro da lógica era para o mesmo ser um sacerdote, mas ele rompe com essa estrutura sendo percussor do Messias, precisamos romper com as estruturas engessadas que nos limitam.  João mesmo tendo visto o Espírito Santo de descer no batismo de Jesus, faz a pergunta essencial se ele era o Messias diante das nossas praticas de fé devemos nos questionar e refletir sobre as nossas escolhas diárias se de fato estamos fazendo a obra de Jesus ou apenas reproduzindo os ritos.

 

sábado, 3 de dezembro de 2022

Um Olhar no texto de Mateus 3, 1-12 - Segundo Domingo do advento

 

Estamos no último mês de 2022 para muitos é um ano de realizações para outros um ano que não deve ser lembrando, mas como todo ano que tem eleição para presidente, também tem copa de mundo e esse ano com gosto de festa natalina, o Brasil esta jogando e como sempre resgata o nosso orgulho de usar o verde e amarelo, sem ser confundido com uma pessoa que diz que entende de política, mas apela até para os ETs para reverter uma eleição legal, sem mencionar a viagem do filho do presidente atual com a desculpa que foi para apresentar a situação do Brasil para algumas autoridades, pior que ele ir é ele apresentar meia dúzia de pendrives dizendo que esta lá com um compromisso diplomático, talvez se ele assumisse como todo ser humano, ele esta de férias, de folga e foi lá sim para torce pela seleção, afina ele também é brasileiro, mas isso não é nada com convocação de atiradores esportivos os CACs para não permitir a diplomação do presidente e do vice eleitos no próximo dia 12 e ainda a prisão de um advogado pichador em Brasília, a Holanda e Argentina nas quartas de finais da Copa do mundo  e  nessa semana  as empresas começam a pagar a metade do 13º salário, pois nem tudo é noticia ruim, sem esquecer a eliminação da Alemanha na Copa do Mundo de futebol. Vãmos nós para liturgia desse 2º domingo do advento quando acendemos a segunda vela da nossa coroa que simboliza a fé de Abraão e dos outros Patriarcas, a quem foi anunciada a Terra Prometida,  (recordamos que cada vela tem um sentido) a primeira vela lembra o perdão concedido a Adão e Eva; a terceira lembra a alegria do rei Davi que recebeu de Deus a promessa de uma aliança eterna  e  a quarta recorda os Profetas que anunciaram a chegada do Salvado. (Leia  sobre a coroa do advento)

As leituras de hoje neste domingo: Isaias 11, 1-10; Salmo 71 (72) com a resposta: Nos dias do Senhor nascerá à justiça e a paz para sempre; Romanos 15, 4-9 e  Mateus 3,1-12[1] que vamos nos aprofunda,  sem intenção de impor uma linha de reflexão, faça também sua meditação partindo dos  quatro pressupostos:  texto, contexto, pretexto e a nossa realidade vivida e nesse contexto  João Batista é apresentado  como um homem vestido com roupas rústicas sem a preocupação de morar em palácios, sendo antagônico aos lideres religiosos que dizem falar em nome de Jesus com pregação  dienheristas e  com vestes caríssimas  ostentando um autoridade através de imagens e  cascas de mãos dadas com o poder deste mundo, revelando mais de fariseus que de fato discípulos de Jesus Cristo, sem nenhum compromisso com o “Reino”  não deixe de o texto da 1ª semana do advento

O evangelho de Mateus traz para nós o projeto e um “Reino” sendo oposição à ideia de um império que impõem a força sua presença. O projeto anunciado por João para quem ouve é algo que assusta, pois a sua fala contra a hipocrisia religiosa que também hoje se apresentam em nossas comunidades, condições que muitas das vezes os cristãos invocam para si, por participar de cultos, por ter essa ou aquela posição dentro da comunidade, e ainda a preocupação de João não era esta de mãos dadas com os grandes do seu tempo. João Batista não invoca para si o protagonismo ou tão pouco uma posição maior apontando o papel de Jesus, anunciando uma solução escatológica para aqueles que se acham maiores ou melhores que outros. A mensagem da liturgia de hoje é que precisamos nos converte e não adianta ter todos os sacramentos da Igreja, ler a bíblia, rezar etc. O convite do Batista é para rompimento de uma espiritualidade ritualística, normativa e construir uma nova cultura superando o discurso de ódio e da pratica de fé que escravista fanática e de estrelismo. Precisamos estar antenados com toda a mensagem do evangelho de Mateus que nos chama para vivermos a pratica do Reino, onde somos todos filhos do mesmo Pai, amados igualmente independente das nossas opções políticas, religiosas etc.

  


João é apenas uma seta que aponta o Cristo, ele é o instrumento de preparação e toda sua pregação envolve as figuras do deserto um lugar de manifestação do Deus Libertador, as sua vestimentas remete a figura de Elias (Reis 1: 8) com o seu modo de vida e sua relação com a multidão que necessita de uma liderança profética e o ele representa o pregador que rompeu com a estrutura de poder do templo, pregando no deserto, questionando aqueles que estavam na direção do templo. João representa uma oposição à hipocrisia religiosa, a sua mensagem de conversão ainda hoje deve ecoar em nossos corações e hoje  anunciada  a vinda de Jesus  no tempo   litúrgico do advento nos preparamos para o natal de 2022 anos após o nascimento de Jesus.

A maior qualidade de João era ter consciência do seu papel como percussor de Jesus e assumir esse papel com vocação de sua vida e missão fazendo sempre a vontade de Deus, não tem medo de ser duro não esta preocupado e ter plateia ou seguidores fanatizados lhe dando razão e aqui ele anuncia o batismo de fogo sendo antagônico ao batismo de água que ele fazia.

Sabemos que a simbologia do fogo trazida no texto aqui remete ação de Deus com o batismo, o fogo sempre é vista como uma revelação de Deus nos tempos bíblicos, mas também aparece na escatologia como ação purificadora de Deus: Jó 21, 18Salmo 1, 4Isaías 17,13Oséias 13,13. Isaías 5,24; 41,152 Tessalonicenses 1,8-9 ; Marcos 9,48  e Mateus 25,41 .

Texto

Fato (Revelação de Deus)

Êxodo 3,2

 A sarça ardente onde Deus se revela a Moises

Ezequiel 1,4, 13

A glória de Deus se revela

2 Reis 6:17

A presença de Deus

Deuterônimo. 4,24

 A santidade de Deus

Zacarias 13, 9

 O julgamento de Deus

Isaías 66,15-16

 A ira de Deus contra o pecado

Mateus 3,11 e Atos 2, 3.

A imagem da Terceira Pessoa da Trindade

 

Esta chegando o Natal e esse texto nos ajuda a pensar nas nossas hipocrisias religiosas e serve para nos alerta que Deus sabe das nossas trapaças de uma oração sem compromisso com a vida, uma religião do emocional longe da realidade de um país de 33 milhões de pessoas que passam fome, dos milhares de desempregados e todos os excluídos abandonados ao longo do caminho.  Os canalhas que usam a religião para viver no luxo com culto das aparências sempre estarão em nosso meio e João anuncia que sua hora irá chegar, não adiantará invocar a filiação ou condição para escapar do juízo de Deus.



[1]  O Texto também aparece nos sinóticos Mc 1.1-8; Lc 3.1-20 e você percebe o traços em Jo 1.19.28


domingo, 27 de novembro de 2022

Um Olhar no texto de Mateus 24, 37-44 - Primeiro Domingo do advento

 


O final de mais um ano civil esta chegando e já celebramos na última semana o fim do ano litúrgico para os católicos e para melhor compreender o mistério do Cristo a Igreja celebra durante todo o ano civil seus tempos, talvez você não saiba mais a liturgia da Igreja se divide em quatro tempos: advento, tempo comum, quaresma e páscoa com cores e motivação, com o ciclo de leituras que se divide em A, B, C nos domingos e no meio de semana temos a divisão de anos pares e impares, ainda temos o ciclo de leitura comum dos santos que é outro assunto.

Tempo litúrgico

Cor

Motivação

·        Advento

roxa

Preparação para vinda do Cristo

·        Tempo comum

verde

Celebrar o cotidiano do Cristo

·        Quaresmas

roxo

Preparação para páscoa

·        Páscoa

Branco 

Celebramos a ressurreição

 Sem esquecer que temos ainda o uso das cores próprias que nos remetem o mistério celebrado e calendários de leituras têm dois três ciclos

Ciclo – ano

Leitura do evangelho

·        Dominical A

 Evangelho de Mateus todo o tempo comum

·        Dominical B

 Evangelho de Marcos todo o tempo comum

·        Dominical C

Evangelho de Lucas todo o tempo comum

·        Semanal

 Divide-se em anos Pares e impares

·        Comum dos Santos e mártires

Fazem-se leituras especificas do evangelho que remete a vida dos santos e mártires

·        De Nossa Senhora

 Fazem-se leituras especificas do evangelho que remete a Nossa Senhora

Ainda temos o Evangelho de João que é proclamado nos tempos de Natal e Páscoa. Vamos nós para entender as cores

Cor

Sentido

·        Verde

 Celebramos o Cristo no seu cotidiano é maior tempo litúrgico dividido em duas partes antes da quaresma e depois da Páscoa, sendo sinal de esperança.

·        Roxo

 Usado nos Advento, na quaresma, na celebração de exéquias, no atendimento das confissões e representa contrição.

·        Branco,

Amarelo ou dourado

 Traz a memória da Festa, alegria. Usadas em Batizados, na ordenação, nos casamentos, nas festas dos santos, no tempo de natal e páscoa.

·        Vermelho

 Remete ao Espírito Santo (não ao comunismo), nas celebrações do sacramento da confirmação e ao martírio é usada nas festas dos mártires, no domingo de pentecostes.

·        Rosa ou Róseo

Usada no terceiro domingo do advento e no quarto domingo da páscoa, nos recorda penitencia com a alegria.

A liturgia é um ciclo onde celebramos: a vida, a morte, a ressurreição e ascensão do Senhor professamos o retorno glorioso Dele, por isso os recursos das cores e de toda pedagogia com a finalidade de revelar esse mistério ao mundo e para melhor entender aquilo que é  celebrado no tempo antes do natal aconselhamos a seguinte leitura O Tempo do Advento, Adventus ou Advenire.

  Após essa observação vamos  fazer uma breve memória de alguns fatos ocorridos nesta semana, pois liturgia é o espaço onde devemos trazer a memória e os fatos da vida e apresenta-los diante de Deus no seu altar.  Nesta semana o Partido derrotado no segundo turno da eleição brasileira,  trouxe a tona uma denuncia de urnas fraudadas, algo insustentável e aqui vale a pena citar a frase do “perdeu Mané! Não amola” e ainda os grupos que estão nas vias federais e nas frentes dos quartéis estão partindo para violência, queimando caminhões e provocando certo terror, tentam de toda forma levar a eleição para um terceiro turno  somos  solidários com todos os munícipes de Aracruz que nos deixa enlutados e preocupados que ideologia é essa.

Um adolescente de 16 anos, vestido de macacão e chapéu camuflados, uma máscara com sorriso de caveira e um cinto repleto de munição, pega duas armas do pai (policial, que defende a temática Deus, Pátria e Família), uma arma de serviço, outra, particular e parte para uma jornada de ódio colocando em prática uma ideologia de morte. Foi em duas escolas de Aracruz, interior do Espírito Santo, matou quatro pessoas e feriu pelo menos outras 10. Entre as vítimas fatais, três professoras e uma menina de 12 anos.

Seria essa a ideia de Deus Pátria e Família que muitos se apegam para defender o uso, e posse das armas?

Deixemos essa interrogação para todos e mergulhemos no mistério da liturgia de hoje que é a seguinte: Isaías 2, 1-5 Salmo 121 (122) Refrão: Vamos com alegria para a casa do Senhor; Romanos 13, 11-14 e o evangelho de São Mateus 24, 37-44.  Como sempre vamos olhar meditar sobre o evangelho.


O Evangelho nos chama esta vigilante e vivendo de forma reta o projeto de vida plena, respondendo  a uma pergunta intima; como Jesus faria no meu lugar? Nessa ou naquela situação? 
Somos chamados a tomar uma posição na vida, mas de acordo com a bussola do evangelho proclamado. Muitos falam de tal arrebatamento, contudo o evangelho de hoje fala da volta do Senhor e não tem como saber o dia nem a hora, a comunidade vivia ansiosa pela volta do senhor, diante dos fatos que vivemos e aquilo que proclamamos no domingo passado  Lucas: 23,35-43  de nada vai valer tanta beleza diante da realidade escatológica que nos reserva o fim dos tempos.  Somos chamados esta prontos para esse encontro seja onde estivermos. Jesus faz uma alusão à vida despreocupada de muitos em relação à salvação vivendo a realidade do tenho que trabalham, tenho uma festa e por fim estou muito ocupado para falar com Deus uma hora semanal na comunidade, abrindo a mão da vida eterna. Pessoas adormecidas para Deus só recordam do sagrado quando o mundo traz as consequências da falta de tempo, o dono da casa que é a nossa vida deve esta acordado.

Jesus no evangelho fala da vigilância,  na  espera da salvação e que  não podemos aceitar uma espiritualidade emocional, dos resultados financeiros na conta da Igreja com a teologia da prosperidade ou empresarial, um evangelho só de milagres e curas ou tão pouco um culto que vira um mero espetáculo, aula de conhecimento teológico etc. essa é a proposta de Jesus, uma vivência encarnada na realidade dos excluídos e a margem do caminho.
O inicio do novo ano litúrgico nos ajuda a refletir que se faz necessário recomeçar a vida, e para isso precisamos nos encontrar com Jesus menino que vem no natal, a liturgia de hoje nos chama atenção para ativismo seja ele profissional, pastoral ou familiar, não tiramos um tempo para refletir, meditar e contemplar tudo que temos ou somos e terminamos com a fala do Papa Francisco no ângelus de 03 de julho de 2022:

 «Podem elaborar-se planos pastorais perfeitos, programar projetos bem elaborados, organizar-se até os mínimos detalhes; podem convocar-se multidões e ter muitos meios; mas se não houver disponibilidade para a fraternidade, a missão evangélica não avança».

Precisamos estar vigilantes, sem estrelismos.



sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O Tempo do Advento, Adventus ou Advenire.

O termo Advento vem do latim adventus, derivado do verbo advenire (“chegar”, “aproximar-se”). No mundo romano, adventus podia indicar tanto a visita anual de uma divindade pagã ao seu templo — quando se acreditava que, durante a festa, o deus permanecia espiritualmente entre os seus fiéis — quanto a chegada solene de uma autoridade imperial para assumir um cargo ou receber honras públicas. 

Com a tradução da Bíblia para o latim na Vulgata, adventus tornou-se o termo clássico para designar a vinda de Cristo: primeiro, sua encarnação no tempo; depois, sua vinda gloriosa ao final da história. Assim, uma antiga palavra pagã foi transfigurada em linguagem de fé, ganhando densidade escatológica e simbólica.A escolha do período do Advento também dialoga com o universo cultural antigo. No hemisfério norte, o Natal coincide com o solstício de inverno, quando a noite atinge seu auge e, lentamente, a luz começa a crescer. Povos antigos celebravam esse retorno da claridade como sinal de vida e renovação. Nesse contexto, cultos solares se desenvolveram, como os ritos ligados ao deus Mitra, associado à luz e à vitória sobre as trevas — ainda que não haja prova conclusiva de que seu nascimento fosse exatamente em 25 de dezembro, seus rituais celebravam a renovação da luz nessa época do ano. No século III, o imperador Aureliano oficializou a festa do Sol Invictus, celebrada justamente em 25 de dezembro, exaltando o sol invencível que renasce após a longa noite. Quando a Igreja escolheu essa mesma data para celebrar a Natividade, não absorveu cultos pagãos, mas reinterpretou o simbolismo cósmico: se o sol renascia no inverno, Cristo era proclamado como a verdadeira luz que brilha nas trevas (Jo 1,5), o “Sol nascente que vem nos visitar” (Lc 1,78). Assim, o Advento e o Natal cristão assumiram o simbolismo da luz que retorna, mas de modo teológico e redentor.
Para a Igreja Católica, o Advento marca o início do Ano Litúrgico: quatro semanas de preparação, alegria, vigilância e esperança. A comunidade se coloca numa postura dupla: lembrar o nascimento de Jesus em Belém e esperar sua vinda gloriosa. A tradição de montar o presépio sem o Menino até a noite de 24 de dezembro exprime essa espera amorosa. No calendário cristão, o Advento corresponde às quatro semanas que antecedem o Natal e convida à conversão, à fraternidade e à paz.
Os primeiros traços de um período de preparação para o Natal aparecem no Sínodo de Saragoça (380), na Espanha, que prescrevia três semanas de preparação para a Epifania — festa que, naquele tempo, incluía também a Natividade. No século V, São Perpétuo, bispo de Tours, estabeleceu três dias de jejum antes do Natal. No mesmo período surgiu a “Quaresma de São Martinho”, um jejum de quarenta dias iniciado após a festa de São Martinho. No final do século VI, São Gregório Magno (590-604) redigiu o primeiro ofício estruturado do Advento; o Sacramentário Gregoriano contém as primeiras missas próprias desse tempo litúrgico. No século IX, o Advento foi fixado em quatro semanas, como testemunha uma carta do Papa Nicolau I aos búlgaros. Já no século XII, o jejum foi suavizado, cedendo lugar à abstinência. Ainda que as práticas fossem penitenciais, a intenção da Igreja era cultivar a expectativa ardente pela vinda do Salvador e orientar os cristãos para a parusia, a vinda gloriosa de Cristo ao fim dos tempos. Por isso tantos mosaicos medievais representam o trono do Pantocrator vazio: é um trono que se prepara para ser ocupado.
As Igrejas orientais também celebram o Advento, embora com características próprias. A preparação possui forte acento ascético, mas sem abarcar toda a amplitude escatológica presente na liturgia romana. No rito bizantino, destaca-se, no domingo anterior ao Natal, a comemoração dos patriarcas, de Adão a José, esposo de Maria. No rito siríaco, as semanas que precedem o Natal são chamadas “Semanas das Anunciações”, evocando o anúncio a Zacarias, a Anunciação a Maria, a Visitação, o nascimento de João Batista e o anúncio a José.
No Ocidente, o Advento assumiu seu sentido mais amplo. No primeiro domingo, Cristo se apresenta não como o Menino frágil de Belém, mas como o Senhor glorioso que virá com poder para julgar os vivos e os mortos. O Evangelho recorda os sinais escatológicos: “Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas…” (Lc 21,25). No segundo domingo, surge a imponente figura de João Batista, anunciando conversão. No terceiro domingo, o domingo Gaudete, a liturgia se alegra: “Alegrai-vos sempre no Senhor… O Senhor está perto!” Os paramentos rosados sinalizam essa alegria em meio à vigilância. No quarto domingo, Maria aparece como “estrela da manhã”, aquela que anuncia a chegada do verdadeiro Sol de Justiça. Textos como Gl 4,4 (“na plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho”) e Mc 1,15 (“o tempo se cumpriu”) iluminam essa espera.

A Coroa do Advento

A Coroa do Advento, hoje tão presente nas igrejas e casas, tem origem relativamente recente. Surgiu em 1833, em Hamburgo, quando o pastor luterano Johann Heinrich Wichern (1808–1881) acolheu crianças órfãs e de rua na Rauhes Haus (“Casa Rústica”). Para marcar a proximidade do Natal, pendurou no teto uma roda de carroça e, a cada dia do Advento, acendia velas, criando um clima de esperança e luz. As crianças chamavam esse momento de “Meditação das Velas”. Originalmente, essa roda tinha 24 velas: uma para cada dia até o Natal, que proporcionava uma contagem diária e iluminava a esperança das crianças. Com o passar do tempo, para adaptação a residências e igrejas menores, a coroa foi reduzida a quatro velas, cada uma representando um domingo do Advento. Em 1840, acrescentaram ramos verdes; daí nasceu a primeira Coroa de Advento luterana. Como nas casas particulares não havia espaço para a versão com 24 velas, adotou-se a forma menor, com quatro velas — uma para cada domingo.
A coroa traz uma rica simbologia:
Forma circular: representa o amor eterno de Deus e a união entre Deus e o ser humano.
Ramos verdes: sinal da esperança e da vida que permanece mesmo no inverno; evocam a perseverança da fé.
Fita vermelha: símbolo do amor de Deus e da ação do Espírito Santo.
Bolas: representam os frutos do Espírito Santo.
Quatro velas: marcam o avanço da luz sobre as trevas.
  • 1ª vela: o perdão dado a Adão e Eva.
  • 2ª vela: a fé de Abraão e dos patriarcas.
  • 3ª vela: a alegria da promessa feita a Davi.
  • 4ª vela: os profetas que anunciaram o Salvador

As cores variam entre as tradições: verde, roxa, rosa e branca; ou roxa, vermelha, rosa e verde; na Europa, predominam velas vermelhas. No início, usavam-se velas roxas pela penitência e a vela rosa para o domingo Gaudete.
A Coroa do Advento nos acompanha, luz após luz, rumo à claridade plena da noite de Natal, quando Cristo — verdadeira luz que brilha nas trevas — nasce no coração da humanidade.
Quando nos aproximamos do Natal, é importante recordar que a data de 25 de dezembro não surgiu inicialmente como registro histórico do nascimento de Jesus, mas como uma escolha teológica e simbólica. Na Antiguidade, essa época marcava o solstício de inverno no hemisfério norte, o momento em que a luz começa a vencer as longas noites. Esse período era celebrado em diversas culturas, incluindo as festas ao deus Mitra e ao Sol Invictus, cultos muito difundidos no Império Romano. O dia 25 de dezembro, chamado Dies Natalis Solis Invicti — o “nascimento do Sol invencível” — destacava a ideia de que a escuridão não tem a última palavra. Quando os cristãos passaram a celebrar o nascimento de Cristo nessa data, não foi por sincretismo, mas para afirmar que Jesus é a verdadeira luz que brilha nas trevas, como proclama João 1,5. Não é o sol mitraico que vence a noite: é Cristo, o Sol que não se põe.
No entanto, quando olhamos para os indícios históricos e bíblicos, percebemos que Jesus provavelmente não nasceu em dezembro. Alguns elementos apontam para uma época mais próxima da primavera da Palestina, ou seja, entre março e abril. Lucas menciona que havia pastores no campo durante a noite cuidando dos rebanhos (Lc 2,8), algo improvável no rigor do inverno judeu, quando o frio e as chuvas impediam essa prática. Além disso, cálculos ligados ao turno sacerdotal de Zacarias (pai de João Batista), descrito em Lucas 1,5 e comparado com as escalas do Antigo Testamento, sugerem que Maria teria concebido Jesus por volta de junho, o que situaria o nascimento nove meses depois, entre março e abril. Isso não diminui o sentido espiritual do Natal, mas nos lembra que a fé cristã não depende de datas fixas, e sim do mistério da Encarnação, que transforma toda a história.
É justamente o Advento que nos ajuda a compreender essa dinâmica: trata-se de um tempo de espera, vigilância e esperança, não de uma simples contagem regressiva para uma festa. A liturgia proclama que Deus vem continuamente, que a luz nasce em cada gesto de justiça, que a encarnação continua acontecendo na vida dos pequenos e dos pobres. Assim, integrar o simbolismo do solstício, da vitória da luz, com a profundidade teológica do Advento e com o realismo histórico do nascimento de Jesus, nos leva a uma compreensão mais rica: o Natal não é uma data, é um acontecimento; não celebra apenas o que ocorreu, mas o que continua a ocorrer; não é um mito solar, é a revelação de Deus que entra no tempo humano e o renova desde dentro.

Um detalhe  sobre a liturgia 
A liturgia dominical, especialmente durante o Advento, revela a dinâmica profunda da fé cristã: não se trata apenas de uma reunião ritual semanal, mas de um tempo privilegiado em que a Igreja manifesta memória e esperança, lembrando continuamente a presença de Cristo no tempo e na história. Cada domingo do Advento tem um foco litúrgico específico, que ajuda a comunidade a entrar gradualmente no mistério da Encarnação.

Primeiro domingo do Advento – Vigilância e escatologia:
O primeiro domingo nos convida a estar atentos à vinda de Cristo. Nos textos do Ano A, a primeira leitura de Isaías (2,1-5) apresenta a profecia do Reino de Deus como meta da história, enquanto o Evangelho de Mateus (24,37-44) exorta a vigiar, pois o Filho do Homem virá inesperadamente. No Ano B, o profeta Jeremias (33,14-16) lembra a fidelidade de Deus às promessas, e o Evangelho de Marcos (13,33-37) reforça a necessidade de vigilância constante. No Ano C, Sofonias (3,14-18) proclama alegria na presença do Senhor, e o Evangelho de Lucas (21,25-28.34-36) apresenta sinais cósmicos e sociais, chamando à oração vigilante.

Segundo domingo do Advento – Conversão e preparação do coração:
O segundo domingo foca na preparação interior e na conversão, com destaque para a figura de João Batista. No Ano A, Isaías (11,1-10) anuncia o Messias que trará justiça, enquanto Mateus (3,1-12) mostra João preparando os caminhos do Senhor. No Ano B, Baruc (5,1-9) exorta Jerusalém a se alegrar e a se purificar, e Marcos (1,1-8) apresenta João batizando e chamando à penitência. No Ano C, Malaquias (3,1-4) anuncia o mensageiro do Senhor, e Lucas (3,1-6) relata João preparando o povo, tornando retas as veredas do Senhor.

Terceiro domingo do Advento – Gaudete: alegria e esperança:
O terceiro domingo expressa a alegria da proximidade de Cristo. No Ano A, Sofonias (3,14-18) e Filipenses (4,4-7) chamam à alegria em Deus, enquanto Mateus (11,2-11) destaca o papel de João e a realização das promessas divinas. No Ano B, Isaías (35,1-6a.10) e Tiago (5,7-10) enfatizam a esperança e a paciência, com Marcos (1,1-8) recordando a preparação para a chegada do Senhor. No Ano C, Isaías (61,1-2a.10-11) e 1 Tessalonicenses (5,16-24) celebram a ação de Deus no mundo, e Lucas (1,39-45. 1,46-49) nos apresenta Maria como exemplo de alegria e confiança no Senhor. Este domingo é marcado pelo paramento cor-de-rosa, sinal da alegria em meio à vigilância.

Quarto domingo do Advento – Maria e a plenitude da promessa:
O quarto domingo destaca Maria como modelo de escuta e acolhimento da vontade de Deus, apontando para o Natal. No Ano A, Miquéias (5,2-5a) anuncia o nascimento do Messias em Belém, e Mateus (1,18-24) narra a anunciação a José. No Ano B, 2 Samuel (7,1-5.8b-12.14a.16) recorda a promessa davídica, e Lucas (1,26-38) apresenta a Anunciação a Maria. No Ano C, Isaías (7,10-14) profetiza o Emanuel, e Lucas (1,39-45) mostra Maria visitando Isabel, preparando a chegada de Jesus.

O ritmo dominical não é apenas cronológico, mas simbólico: cada celebração torna presente, de modo sacramental e comunitário, a vinda de Cristo, convidando os fiéis a se colocar numa atitude de espera ativa e vigilante. A liturgia integra memória, ação e esperança: enquanto recorda fatos históricos da salvação, ilumina o presente e projeta a comunidade para a plenitude escatológica, quando Cristo virá em sua glória.

Além disso, os textos bíblicos proclamados nos domingos do Advento, alternando profecias do Antigo Testamento e evangelhos do Novo, conectam passado, presente e futuro, criando um fio contínuo de significado: o Senhor que prometeu vir, que se encarnou em Jesus e que voltará no final dos tempos. A coroa do Advento, com suas velas acesas a cada domingo, se torna um sinal visual dessa liturgia viva, lembrando a comunidade de que a fé não é apenas intelectual, mas se manifesta em vigilância, alegria e ação concreta no mundo.
Em suma, a liturgia dominical durante o Advento nos ensina que esperar é também agir: esperar a luz de Cristo é deixar que ela ilumine nossas atitudes, nossas relações e nossa história pessoal e comunitária. Cada domingo é, portanto, um convite à transformação interior, à conversão contínua e à alegria confiante, mesmo em meio às trevas do mundo, porque Cristo — a verdadeira Luz — já vem nos visitar.
DNonato - Teólogo do Cotidiano