Palavra direta, cortante, luminosa, mas que, em tempos de confusão entre fé e ideologia, se torna ainda mais necessária. Jesus, o Cristo de Deus, não é apolítico nem neutro: Ele confronta estruturas, derruba pretensões, desmascara aparências. Seu Evangelho jamais se acomodou ao poder opressor, nem ao acúmulo de privilégios, nem à sacralização da desigualdade. Ao contrário: a Boa Nova é um golpe na lógica dos impérios, antigos e modernos, seculares ou religiosos.
A perícope de Mateus 6,19-23 é proclamada na liturgia da Igreja Católica Romana na sexta-feira da 11ª Semana do Tempo Comum anualmente semdo a semana da continuodade da leitura do Sermão da Montanha sendo a continuidade do texto da quarta-feira e no sinóticos aparece em Lucas 12,32-48 no 19º Domingo do Tempo Comum , atravessando todo o calendário litúrgico cristão. Ecos desta passagem aparecem nas memórias de santos que viveram a pobreza evangélica e em celebrações que destacam o discipulado cristão. Nas Igrejas Ortodoxas, nas Igrejas Orientais Católicas, na Comunhão Anglicana, nas Igrejas Luteranas históricas e em outras tradições cristãs que seguem lecionários litúrgicos, o ensinamento sobre os tesouros, o coração e a luz interior ocupa lugar importante na formação espiritual dos fiéis. Trata-se de um texto que ultrapassa épocas, culturas e sistemas religiosos porque toca uma das questões mais profundas da condição humana: o que ocupa o centro da nossa existência. Ao ouvir Jesus dizer: “Não acumuleis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e onde os ladrões arrombam e roubam. Ao contrário, acumulai para vós tesouros no céu” (Mt 6,19-20), não estamos diante de uma simples exortação moral contra a riqueza. O Evangelho aborda a orientação fundamental da vida humana. As perguntas que podemos fazer são decisivas;
- Não é quanto alguém possui, mas em quem ou em que deposita sua confiança?
- O que governa nossos desejos, escolhas, medos e esperanças?
- O que buscamos preservar quando tudo o mais se torna incerto?
Essa questão acompanha a história bíblica desde suas origens. O relato do Gênesis apresenta o ser humano criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26-27), chamado a viver numa relação de confiança com o Criador. A ruptura provocada pelo pecado consiste precisamente na tentativa de encontrar autonomia absoluta fora de Deus. A serpente promete um caminho de autossuficiência: “Sereis como deuses” (Gn 3,5). Desde então, a história humana é marcada pela tentação de substituir Deus por outras seguranças.. A narrativa de Caim e Abel (Gn 4,1-16) mostra como a idolatria afeta também as relações humanas. Quando o coração se fecha à fraternidade, o outro deixa de ser irmão e passa a ser rival. A pergunta de Deus “Onde está teu irmão Abel?” (Gn 4,9) atravessa toda a Escritura e recorda que a relação com Deus nunca pode ser separada da relação com o próximo.
Para compreender plenamente Mateus 6,19-23, é necessário situar a passagem dentro do Sermão da Montanha (Mt 5–7), uma das mais importantes sínteses do ensinamento de Jesus. Antes de falar dos tesouros, Jesus proclamou as Bem-aventuranças, apresentou os discípulos como sal da terra e luz do mundo, aprofundou o verdadeiro sentido da Lei e denunciou uma religiosidade baseada na aparência e na busca de reconhecimento público.
A localização da perícope é significativa. O ensinamento sobre os tesouros surge logo após a crítica à esmola exibicionista, à oração feita para ser vista e ao jejum transformado em espetáculo religioso. Jesus revela que a lógica da acumulação não se limita aos bens materiais. Também pode manifestar-se na busca de prestígio moral, influência religiosa ou reconhecimento social. Assim como alguém pode transformar o dinheiro em ídolo, também pode transformar sua reputação religiosa em objeto de adoração. Essa crítica insere-se na grande tradição profética de Israel:
- Isaías denuncia aqueles que honram Deus apenas com os lábios enquanto seu coração permanece distante (Is 29,13). e condenava aqueles que “ajuntam casa a casa e campo a campo” (Is 5,8).
- Amós condena celebrações religiosas desvinculadas da justiça social (Am 5,21-24) e criticava os que viviam no luxo enquanto ignoravam a miséria do povo (Am 6,1-7).
- Miqueias resume a vontade divina em três exigências fundamentais: praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus (Mq 6,8) e denunciava os que se apoderavam das terras dos pobres (Mq 2,1-2).
O contexto histórico reforça a radicalidade das palavras de Jesus. A Palestina do século I vivia sob a dominação romana, marcada por profundas desigualdades econômicas. Grandes proprietários concentravam terras, enquanto muitos camponeses enfrentavam endividamento, perda de propriedades e formas precárias de sobrevivência. Os impostos exigidos pelo Império, pelas autoridades locais e pelo sistema do Templo agravavam ainda mais a situação. Nesse cenário, o acúmulo de riqueza não era apenas uma questão privada. Frequentemente estava ligado a mecanismos concretos de exploração e exclusão. As denúncias dos antigos profetas continua atuais
Quando menciona a traça, a ferrugem e os ladrões, Jesus utiliza imagens familiares aos seus ouvintes. Vestes finas podiam ser destruídas por insetos, alimentos armazenados deterioravam-se e casas de barro podiam ser facilmente arrombadas. Aquilo que parecia seguro revelava-se vulnerável. A sabedoria bíblica já havia refletido amplamente sobre essa fragilidade. O Salmo 49 recorda que ninguém leva suas riquezas para além da morte. O Salmo 62 adverte: “Mesmo que as riquezas aumentem, não ponhais nelas o coração” (Sl 62,11). O Eclesiastes contempla a transitoriedade das realizações humanas e questiona uma existência construída apenas sobre o acúmulo..Essas advertências tocam uma realidade universal. O ser humano sabe que é mortal, frágil e vulnerável. Por isso procura construir formas de segurança. Muitas delas são legítimas. O problema surge quando tais seguranças assumem caráter absoluto e passam a ocupar o lugar que pertence somente a Deus.
É nesse contexto que Jesus pronuncia uma das afirmações mais profundas do Evangelho: “Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6,21). Na tradição bíblica, o coração não representa apenas os sentimentos. É o centro da pessoa, o lugar das decisões, da consciência, da memória e da vontade. O tesouro revela aquilo que consideramos indispensável para viver, aquilo que organiza nossas prioridades e orienta nossas escolhas..A palavra grega thēsauros designa tanto um depósito material quanto algo de valor inestimável. O problema não está necessariamente na posse dos bens, mas em sua absolutização. Quando qualquer realidade criada ocupa o lugar reservado ao Criador, nasce a idolatria. O ser humano passa a buscar numa criatura aquilo que somente Deus pode oferecer plenamente.
Essa dinâmica percorre toda a história da salvação:
- O bezerro de ouro (Ex 32) representa a tentativa de transformar Deus em algo manipulável.
- Jeremias denuncia aqueles que abandonam a fonte de água viva para cavar cisternas rachadas (Jr 2,13).
- Ezequiel fala dos ídolos instalados no próprio coração (Ez 14,3).
Na cultura bíblica, o olho simboliza a maneira como a pessoa percebe e interpreta o mundo. Ver não significa apenas captar imagens, mas compreender a realidade. O termo grego haplous, traduzido por “simples”, pode significar íntegro, sincero, generoso ou indiviso. O olho simples é o olhar livre das distorções produzidas pela ganância, pela inveja e pelo egoísmo. É o olhar orientado para Deus e iluminado pelos valores do Reino. Por outro lado, o “olho mau” designa a visão marcada pela avareza, pela mesquinhez e pela incapacidade de partilhar. Trata-se de um olhar que transforma pessoas em instrumentos, reduz relações humanas a interesses e mede tudo segundo critérios de utilidade.
Jesus realiza aqui um profundo diagnóstico espiritual:
- O tesouro molda o coração; o coração molda o olhar; o olhar orienta toda a existência. Quando o coração está dominado pelos ídolos, a própria percepção da realidade torna-se obscurecida. A pessoa perde a capacidade de reconhecer a verdade, a justiça e a presença de Deus.
Os profetas frequentemente descrevem a idolatria como cegueira espiritual. Isaías fala de um povo que possui olhos, mas não vê (Is 6,9-10). Jeremias e Ezequiel repetem a mesma denúncia. O Salmo 115 afirma que aqueles que adoram ídolos acabam tornando-se semelhantes a eles. Quem adora o dinheiro passa a enxergar tudo através do lucro. Quem adora o poder tende a interpretar as pessoas como instrumentos de seus projetos. Essa percepção permanece extremamente atual. Vivemos numa sociedade marcada por abundância de informações, mas nem sempre por sabedoria. Redes sociais, sistemas de propaganda e mecanismos de manipulação da opinião pública influenciam profundamente a forma como percebemos a realidade. Muitas vezes somos levados a enxergar apenas aquilo que confirma nossas convicções prévias. O resultado pode ser uma crescente incapacidade de reconhecer a complexidade do mundo e a dignidade daqueles que pensam de maneira diferente.
Por isso o Evangelho convida a uma conversão do olhar. O discípulo é chamado a enxergar a realidade a partir da perspectiva do Reino de Deus. Isso significa reconhecer a dignidade dos pobres, dos migrantes, dos doentes, dos idosos, dos marginalizados e de todos aqueles que a cultura dominante tende a tornar invisíveis. A tradição bíblica associa a verdadeira visão à misericórdia. Quando Deus escolhe Davi, adverte Samuel: “O homem vê as aparências, mas o Senhor vê o coração” (1Sm 16,7). Jesus reproduz esse olhar divino ao aproximar-se dos excluídos, dos pecadores e dos desprezados de seu tempo. Ele vê pessoas onde outros enxergam apenas categorias sociais.
Essa conversão interior possui consequências concretas para a vida social. O Evangelho não separa espiritualidade e compromisso histórico. Um coração transformado produz novas formas de convivência, novas prioridades econômicas e novas relações humanas. Por isso a comunidade cristã nascente procurou viver a partilha e a solidariedade. Os Atos dos Apóstolos testemunham que muitos colocavam seus bens a serviço da comunidade para que ninguém passasse necessidade (At 2,44-45; 4,32-35). Não se tratava de uma teoria econômica, mas da expressão concreta de uma fé que reconhecia Deus como verdadeiro tesouro.
- São Paulo advertirá que a avareza é uma forma de idolatria (Cl 3,5).
- São Tiago denunciará os ricos que acumulam enquanto exploram trabalhadores (Tg 5,1-6).
- São João perguntará: “Se alguém possui bens deste mundo e vê seu irmão passar necessidade, mas fecha-lhe o coração, como pode permanecer nele o amor de Deus?” (1Jo 3,17).
O Concílio Vaticano II recordou que as alegrias e sofrimentos dos pobres são também as alegrias e sofrimentos dos discípulos de Cristo. A Doutrina Social da Igreja reafirmou continuamente a dignidade humana, a solidariedade e o bem comum como exigências inseparáveis da fé.
O Evangelho de hoje adverte e nós alerta contra outras formas de idolatria. A religião pode ser transformada em instrumento de poder. O ministério pode degenerar em privilégio. A fé pode ser utilizada para justificar exclusões, intolerâncias ou projetos de dominação. Os profetas já denunciavam um culto separado da justiça. Jesus retomou essa crítica ao confrontar formas de religiosidade que valorizavam mais a aparência do que a misericórdia. Nesse ora contexto toda a comunidade cristã deve examinar continuamente onde está seu tesouro. A Igreja reencontra sua autenticidade quando permanece próxima dos pobres, dos sofredores e dos esquecidos. Sua força não está no poder, no prestígio ou na influência social, mas na fidelidade ao Cristo servo, pobre e crucificado. Uma diocese em que seu bispo repreende um leigo por chamar um padre pelo nome e exige que os padres cobrem dos fiéis tal tratamento, já sabemos que o Evangelho esta sdulterado
Num horizonte ainda mais amplo, Mateus 6,19-23 toca uma das grandes crises da modernidade: a crise de sentido. A cultura contemporânea frequentemente promete felicidade através do consumo, da acumulação e da busca incessante de novas conquistas. Entretanto, nenhuma realidade finita é capaz de responder plenamente à sede de infinito presente no coração humano. O Eclesiastes já percebia essa verdade ao contemplar a fragilidade das riquezas, dos prazeres e das realizações humanas. Séculos depois, Santo Agostinho expressaria a mesma intuição ao afirmar que o coração humano permanece inquieto enquanto não repousa em Deus.
É precisamente nesse ponto que o ensinamento de Jesus alcança sua maior profundidade. O problema fundamental não é econômico nem político, embora possua implicações nessas áreas. Trata-se de uma questão espiritual:
- Qual é o fundamento último da existência? Onde depositamos nossa esperança?
- O que permanece quando os sucessos desaparecem e as seguranças humanas falham?
A resposta de Jesus é clara. Existe um tesouro que a traça não destrói, que a ferrugem não corrói e que nenhum ladrão pode roubar. Esse tesouro é a comunhão com Deus manifestada no amor ao próximo. É a justiça praticada mesmo quando parece inútil. É a misericórdia oferecida sem esperar recompensa. É a fidelidade silenciosa dos que permanecem ao lado dos crucificados da história. É a esperança daqueles que acreditam que o Reino de Deus continua germinando no meio das contradições do mundo. Mateus 6,19-23 revela que a verdadeira batalha espiritual acontece no coração humano. O tesouro que escolhemos determina nossas prioridades, molda nosso olhar e orienta nossas decisões. Quando riquezas, poder, prestígio ou mesmo a religião ocupam o lugar de Deus, surgem a cegueira espiritual e a ruptura da fraternidade. Quando, porém, Deus se torna o verdadeiro tesouro, o olhar é iluminado pela misericórdia, a vida se abre à justiça e o discípulo aprende a reconhecer Cristo nos pobres, nos vulneráveis e nos esquecidos da história.
O episódio do jovem rico (Mt 19,16-22; Lc 18,18-23 e Mc 10,17-22; ) aprofunda de modo existencial a questão de Mateus 6,19-23: ali, o tesouro não é apenas uma ideia, mas uma decisão concreta diante do seguimento de Jesus. O jovem, marcado por sinceridade religiosa e observância da Lei, encontra o limite de sua liberdade precisamente quando é chamado a desprender-se das seguranças que estruturavam sua identidade. “Foi-se embora triste, porque tinha muitos bens” (Mc 10,22): a tristeza revela não apenas apego material, mas uma interioridade dividida, incapaz de abandonar o centro de gravidade que não é Deus. São João Crisóstomo interpreta essa cena com aguda severidade pastoral, insistindo que o problema não está na posse, mas na escravidão interior que ela produz; para ele, a riqueza torna-se perigosa quando deixa de ser instrumento e passa a dominar o coração, impedindo a abertura à graça e à comunhão. Nessa leitura, o jovem não perde apenas uma oportunidade moral, mas revela a tragédia espiritual de quem reconhece o bem, mas não consegue aderir a ele plenamente, permanecendo preso a um olhar obscurecido pela segurança do que possui.
Onde está o tesouro do Reino, ali floresce a verdadeira liberdade. Onde floresce a verdadeira liberdade, torna-se possível amar. E onde o amor se torna realidade, Cristo Ressuscitado continua vivo, caminhando entre os pobres, consolando os feridos, denunciando as injustiças, reconciliando os divididos e anunciando que o amor de Deus permanece mais forte que todos os impérios, mais duradouro que todas as riquezas e mais luminoso que todas as trevas deste mundo. Que nosso coração esteja, pois, no Reino e não no trono. Que a Igreja de Jesus volte a ser tenda entre os pobres, casa para os feridos e semente do Reino. Não queremos tronos, queremos serviço. Não buscamos poder, mas compaixão. Não marchamos com os impérios, mas com os crucificados da história. Porque “onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade” (2Cor 3,17).
Amém.
DNonato – Teólogo do Cotidiano


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