Por: DNonato – Leigo católico, graduado em História, exercendo o sacerdócio comum dos fiéis¹
“Esforçai-vos, não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna” (Jo 6,27).
A cena de João 6,22-29, proclamada na segunda-feira da terceira semana da Páscoa da liturgia romana, não é apenas um relato de deslocamento geográfico da multidão, mas um deslocamento hermenêutico que o próprio Jesus provoca. O texto se situa no dia seguinte à multiplicação dos pães, um sinal que, no quarto evangelho, não é fim em si mesmo, mas linguagem que aponta para uma realidade mais profunda. A multidão atravessa o mar em busca de Jesus, mas Jesus atravessa o coração da multidão com sua palavra. No nível exegético, o verbo “procurar” aparece carregado de ambiguidade. Não se trata de uma busca contemplativa ou de adesão de fé, mas de uma procura funcional. O sinal foi reduzido ao seu efeito imediato. O pão multiplicado, que deveria remeter ao dom gratuito de Deus e à revelação messiânica, foi interpretado como solução pragmática para a fome material. Jesus desmonta essa leitura ao afirmar que eles não compreenderam o “sinal”. No Evangelho de João, sinal não é milagre no sentido espetacular, mas mediação reveladora. Quem se fixa no pão, perde o sentido do sinal; quem lê o sinal, encontra o mistério.
A fala de Jesus desloca o eixo da compreensão: “Esforçai-vos não pelo alimento que perece, mas pelo alimento que permanece para a vida eterna”. Aqui aparece uma tensão fundamental entre δύο modos de existência. De um lado, o alimento que perece, ligado à lógica da necessidade imediata, da sobrevivência e, muitas vezes, da instrumentalização da fé. De outro, o alimento que permanece, que não anula a dimensão material, mas a integra numa economia de sentido mais ampla, orientada para a vida plena.
A tradição bíblica já havia preparado esse horizonte. Em Êxodo 16, o maná no deserto revela um Deus que sustenta, mas também educa. O povo não aprende apenas a comer, mas a confiar. A murmuração não era somente por falta de pão, mas expressão de uma crise mais profunda de memória e fé. Amós 8,11 radicaliza essa percepção ao denunciar uma fome que ultrapassa o biológico: a ausência da Palavra como critério de vida. A fome, portanto, é uma categoria teológica e antropológica.
Sob o olhar da antropologia, a fome é um fenômeno total, como você indicou. Ela atravessa corpo, psique e cultura. Não se trata apenas de carência calórica, mas de uma estrutura de desejo. O ser humano é um ser faminto de sentido. Busca reconhecimento, pertencimento, amor, justiça. Quando essas dimensões são negadas ou distorcidas, a fome se desloca e se manifesta de formas substitutivas, muitas vezes consumistas, ideológicas ou religiosas.
A hermenêutica desse texto, aplicada ao contexto contemporâneo, revela sua força crítica. Vivemos em uma sociedade marcada por múltiplas fomes. Há a fome concreta que persiste nas periferias e que denuncia a falência de estruturas econômicas excludentes. Há a fome de justiça diante da desigualdade e da violência. Há a fome de sentido em meio à fragmentação cultural e ao esvaziamento simbólico. E há também uma fome manipulada, explorada por discursos religiosos que transformam o Evangelho em produto de consumo, prometendo soluções imediatas e reduzindo a fé a mecanismo de satisfação.
Jesus recusa ser instrumentalizado por qualquer projeto que reduza o Reino de Deus a resposta imediatista. Ele não nega o pão, mas recusa que o pão seja o fim último. A sua proposta é mais exigente: deslocar o desejo humano do imediato para o essencial, do perecível para o permanente. Isso exige conversão hermenêutica. Ler os sinais, e não apenas consumir seus efeitos.
Do ponto de vista litúrgico, a proclamação desse texto no tempo pascal não é acidental. A Igreja o coloca após a celebração da Ressurreição para lembrar que a fé pascal não se sustenta em entusiasmos passageiros nem em benefícios imediatos. O Ressuscitado não é um fornecedor de soluções, mas o sentido último da existência. A Eucaristia, que está no horizonte desse capítulo, não é apenas alimento ritual, mas participação na vida do próprio Cristo, que se dá como pão verdadeiro.
A provocação permanece aberta.
Que fome nos move?
Estamos buscando apenas o que resolve o hoje ou estamos nos abrindo ao que sustenta a vida em sua totalidade? A resposta não é abstrata. Ela se revela nas escolhas concretas, na forma como nos relacionamos com o outro, com Deus e com a realidade. Onde a fome é reduzida ao imediato, o humano se empobrece. Onde a fome é iluminada pela Palavra, ela se torna caminho de encontro com o Deus que não apenas alimenta, mas dá sentido.
– Para uns, Jesus deveria ser um libertador social, um revolucionário a serviço das causas populares.
– Para outros, Jesus é quase um gerente moral, defensor da ordem, da família tradicional e dos bons costumes.
Jesus escapa de todas essas reduções. Ele não se deixa instrumentalizar pelas expectativas messiânicas de cunho político nem pelas projeções moralistas de um líder religioso funcional à ordem estabelecida. Ele oferece a si mesmo como alimento que permanece. Convida à fé, não ao consumo. Ao compromisso, não ao conforto. Quando conseguimos atravessar a lógica estreita da polarização, não por fuga da realidade política, mas por submetê-la ao horizonte maior do Reino de Deus, entramos numa dinâmica profundamente paulina de configuração com Cristo. Em Carta aos Gálatas 2,20, o apóstolo não propõe uma anulação da subjetividade, mas uma reconfiguração da existência: “Já não sou eu quem vive, é Cristo que vive em mim”. Trata-se de uma mística encarnada, onde o “eu” não desaparece, mas é descentralizado. A vida passa a ser vivida “na fé do Filho de Deus”, isto é, numa confiança ativa que se traduz em prática histórica.
Essa afirmação, proclamada liturgicamente em diversos contextos do Tempo Comum e também evocada em itinerários catequéticos, precisa ser lida à luz do conflito vivido pela comunidade da Galácia: tensões identitárias, disputas de interpretação da Lei e tentativas de instrumentalizar o Evangelho. Paulo reage não com neutralidade, mas com um deslocamento radical: o centro não é a ideologia religiosa nem o sistema cultural, mas a vida de Cristo que se manifesta na carne do discípulo. Aqui, a hermenêutica nos obriga a reconhecer que superar polarizações não significa ausência de posicionamento, mas fidelidade a um critério mais profundo: o Reino. Evangelho de João ao qual situa-se no coração do chamado “discurso do Pão da Vida” (Jo 6,22-59), proclamado na liturgia do Tempo Pascal, especialmente na 3ª semana da Páscoa, no ciclo ferial. Em particular, João 6,22-29 é proclamado na segunda-feira da 3ª semana da Páscoa, dentro de um itinerário mistagógico que conduz a comunidade a compreender a presença do Ressuscitado como alimento que sustenta a vida nova inaugurada pela Ressurreição de Jesus.
Nesse contexto, a multidão busca Jesus após a multiplicação dos pães, mas sua motivação é ambígua. A análise exegética do texto grego revela uma tensão fundamental. Quando Jesus afirma “trabalhai não pelo alimento que perece, mas pelo alimento que permanece para a vida eterna” (Jo 6,27), o verbo utilizado é ergázesthe, indicando uma ação contínua, um labor existencial. Não se trata de um esforço meritório no sentido moralista, mas de uma adesão progressiva ao mistério do Filho.
A hermenêutica joanina exige compreender que o “pão do céu” não é apenas um símbolo cultual, mas uma categoria cristológica. À luz do prólogo joanino, “o Verbo se fez carne” (Jo 1,14), e é precisamente essa encarnação que fundamenta a possibilidade de comunhão. Alimentar-se de Cristo significa assimilar sua forma de existir, internalizar sua lógica de doação. Trata-se de uma transformação ontológica que desloca o sujeito do eixo do egoísmo para a lógica do dom.
A tradição teológica, especialmente em Tomás de Aquino, insiste que a Eucaristia é medicina, não recompensa. Essa compreensão rompe com qualquer espiritualidade elitista ou meritocrática. E na mesma linha, Papa Francisco recupera a densidade social do sacramento ao afirmar que não basta adorar o Corpo de Cristo no altar sem reconhecê-lo no corpo ferido dos pobres. Aqui, a exegese encontra a realidade histórica, e a teologia se torna ética encarnada.
Na história da Igreja, essa intuição ganha densidade concreta na vida de Francisco de Assis. Sua opção pela pobreza não foi um gesto romântico, mas uma leitura radical do Evangelho. Ao abraçar o leproso, ele realiza uma verdadeira reinterpretação hermenêutica do Cristo eucarístico: aquele que é adorado sob as espécies do pão é o mesmo que sofre na carne marginalizada. Francisco compreendeu que não basta falar de Deus aos pobres, mas que é necessário configurar-se a Cristo pobre.
Essa leitura ganha urgência no contexto brasileiro contemporâneo. As contradições sociais expõem uma ferida aberta. A realidade de fome, exclusão e abandono não é uma abstração sociológica, mas uma negação concreta da lógica eucarística. Quando pessoas disputam ossos para sobreviver, quando a dignidade é reduzida à sobrevivência, o discurso religioso que não se compromete torna-se ideologia vazia.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil tem reiterado que a centralidade do pobre não é opcional. O Documento de Aparecida afirma que a opção preferencial pelos pobres é uma exigência da fé cristológica. Isso significa que não há verdadeira compreensão de Cristo sem compromisso histórico com os crucificados da história.
Mas é necessário evitar tanto a redução ideológica quanto a neutralidade cúmplice. A polarização que divide entre rótulos simplistas não responde ao clamor do Evangelho. Jesus não se alinha a projetos de poder, mas também não se omite diante da injustiça. Sua proposta é mais exigente: uma conversão integral que transforma estruturas a partir de sujeitos transformados.
Por isso, a pergunta permanece como eixo hermenêutico e existencial: por que buscamos Jesus. A narrativa joanina revela que a fé autêntica não nasce da conveniência, mas do reconhecimento de quem Ele é. Quando a multidão pergunta “o que devemos fazer”, Jesus responde deslocando o foco da ação para a relação: “a obra de Deus é que creiais naquele que Ele enviou” (Jo 6,29). Crer, aqui, não é mera adesão intelectual, mas entrega existencial.
A resposta de Jesus continua atual. Esforçar-se pelo alimento que não se perde implica um caminho contínuo de conversão, discernimento e prática. A fé não é evento isolado, mas processo histórico. Alimentar-se de Cristo é tornar-se, progressivamente, pão repartido. É sair da lógica do acúmulo e entrar na dinâmica da partilha. É permitir que a Eucaristia transborde do altar para a vida.
E aqui está o ponto decisivo. Ou a fé se traduz em prática concreta de justiça e compaixão, ou ela se reduz a ritualismo estéril. O Cristo que se oferece como pão não legitima estruturas de exclusão. Ele as confronta. E quem se alimenta dele é inevitavelmente enviado a fazer o mesmo.
Como viver isso?
– Quando lutamos contra o desânimo, mas insistimos na esperança: estamos buscando o alimento eterno.
– Quando escutamos com paciência, mesmo cansados: estamos nos tornando pão.
– Quando repartimos o pouco que temos com quem tem ainda menos: somos sinais de Cristo.
– Quando abrimos mão da vaidade religiosa para construir pontes de reconciliação: o Evangelho floresce.
Essa mesma chave ilumina o capítulo 6 do Evangelho de João, frequentemente proclamado ao longo da 3ª semana da Páscoa. Ali, após a multiplicação dos pães (Jo 6,1-15) e o discurso do pão da vida (Jo 6,22-59), Jesus confronta uma multidão que o busca por interesses imediatos. A exegese do texto revela uma crítica severa à fé utilitarista: “Vós me procurais não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes saciados” (Jo 6,26). O pão repartido não é espetáculo nem assistencialismo; é sinal sacramental de uma lógica nova, a lógica da doação.
Por isso, afirmar que “o mundo precisa menos de discursos e mais de gestos” não é anti-intelectualismo, mas uma retomada da coerência bíblica entre palavra e prática. Na tradição profética (cf. Is 58; Am 5), Deus rejeita uma religião desvinculada da justiça. No Evangelho, essa crítica se radicaliza: não basta dizer “Senhor, Senhor” (Mt 7,21), é necessário fazer a vontade do Pai, que se concretiza no cuidado com os pobres, na partilha e na construção de relações reconciliadas.
A distinção entre “seguidores” e “discípulos” também é central. No contexto joanino, muitos seguem Jesus enquanto Ele corresponde às suas expectativas; poucos permanecem quando sua palavra exige conversão (Jo 6,66-69). O discípulo, por sua vez, é aquele que entra no dinamismo da imitação, não uma cópia superficial, mas uma assimilação existencial.
É nesse ponto que a tradição espiritual se encontra com a prática histórica. Francisco de Assis encarnou essa passagem de forma concreta: sua oração pela paz não era abstração, mas despojamento, reconciliação e proximidade com os últimos. No entanto, à luz de uma leitura crítica contemporânea, sociológica e teológica, é necessário purificar a ideia de paz de qualquer conotação alienante. A paz bíblica (shalom) não é ausência de conflito, mas plenitude de vida, fruto da justiça (cf. Is 32,17).
Por isso, ao ampliar sua oração, não se trata de suavizá-la, mas de radicalizá-la:
- Que sejamos instrumentos de uma paz que confronte a injustiça e não que a encubra.
- Que nossa mansidão não seja cumplicidade com a opressão.
- Que nossa fé não seja refúgio intimista, mas fermento no meio da massa (Mt 13,33).
- Que o pão repartido seja também denúncia das estruturas que produzem a fome.
Assim, viver “Cristo em nós” não é uma experiência intimista desconectada do mundo, mas uma existência pascal, atravessada por conflitos, comprometida com a história e orientada por uma esperança que não se rende às ideologias nem ao vazio religioso.
"Senhor, permite que sejamos alimento na vida de nossos irmãos e irmãs; que a nossa vida desperte em cada pessoa a fome de justiça, de fraternidade; e, sobretudo, que juntos possamos superar a alienação político-religiosa. Que a religião vá além do papel de ópio — como afirmou um teórico — e seja, antes, alimento que fortalece e nos conduz à vida."
Que a nossa fé não seja só resposta ao estômago vazio, mas ao coração faminto de sentido. E que, ao buscarmos o alimento que permanece, sejamos nós mesmos um sinal de esperança para os que têm fome – de pão, de paz e de Deus.
¹ Cf. 1Pd 2,9; Lumen Gentium, 10: Pelo batismo, os fiéis tornam-se participantes do sacerdócio de Cristo, sendo chamados a oferecer a Deus, em toda parte, um culto espiritual e a testemunhar o Evangelho com a vida. O exercício deste sacerdócio se manifesta na participação ativa na liturgia, na oração, na prática das virtudes e no testemunho cristão na família, no trabalho e na sociedade


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