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domingo, 27 de agosto de 2023

Um olhar no texto de São Mateus 16,13-20 / 21º Domingo do Tempo Comum .

No 21º Domingo do Tempo Comum, Ano A, a liturgia da Igreja Católica Romana reúne quatro textos que, lidos em conjunto, formam uma verdadeira escola bíblica sobre autoridade, serviço, humildade, mistério e Reino de Deus: Isaías 22,19-23; Salmo 137(138); Romanos  11,33-36 e  o evangelho  de  Mateus,13-20

  • A primeira leitura, Isaías 22,19-23:  apresenta a substituição de Sebna por Eliaquim e a entrega da chave da casa de Davi como sinal de uma responsabilidade recebida e não de uma propriedade pessoal. 
  • O Salmo 137(138),1-2a.2bc-3.6.8bc; proclama a fidelidade de Deus e recorda que o Senhor, embora excelso, olha para o humilde. 
  • A segunda leitura, Romanos 11,33-36: interrompe a argumentação de Paulo para transformar teologia em contemplação: “Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus!”.
  • Evangelho de Mateus 16,13-20: nos leva a Cesareia de Filipe, onde Jesus pergunta aos discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15). A unidade entre essas leituras é profunda. Isaías fala da chave confiada a um administrador; o salmista apresenta o Deus que olha para os pequenos; Paulo lembra que ninguém possui o pensamento de Deus; Mateus mostra Pedro recebendo as chaves do Reino. A Palavra, portanto, não está simplesmente ensinando quem pode exercer autoridade. Está perguntando para que existe a autoridade, de quem ela procede, diante de quem ela responde e o que acontece quando seres humanos transformam uma missão recebida em instrumento de poder.

Na liturgia da Igreja Católica Romana, Mateus 16,13-20 é proclamado integralmente neste 21º Domingo do Tempo Comum do Ano A. Seu núcleo aparece também em outras celebrações importantes da tradição católica, especialmente na Solenidade dos Santos Pedro e Paulo, em 29 de junho, quando Mateus 16,13-19 ocupa lugar central, e na Festa da Cátedra de São Pedro, em 22 de fevereiro, ligada à memória do ministério petrino e também  Mateus 16,13-23 é proclamado na 5ª-feira da 18ª semana do Tempo. Os Evangelhos de Marcos e Lucas preservam a mesma tradição fundamental em Marcos 8,27-30,    proclamado na Quinta-feira da 6ª Semana do Tempo Comum e no 24º Domingo do Tempo Comum (Ano B) e Lucas 9,18-21 proclamado no 12º Domingo do Tempo Comum (Ano C) e na Sexta-feira da 25ª Semana do Tempo Comum, com diferenças de redação e acentos teológicos próprios. Nas demais Igrejas cristãs históricas, como as tradições ortodoxas, anglicanas, luteranas, reformadas e metodistas, essa passagem também pertence ao patrimônio fundamental da fé cristã, embora sua distribuição litúrgica varie conforme cada calendário e lecionário. A pergunta de Jesus, entretanto, ultrapassa qualquer calendário. Ela atravessa a história da Igreja porque nenhuma geração pode simplesmente herdar uma resposta pronta. Cada geração precisa responder novamente quem Jesus é e, sobretudo, que tipo de vida nasce quando essa resposta deixa de ser apenas uma fórmula religiosa e passa a orientar a existência.

O lugar onde Jesus faz essa pergunta não é indiferente. Cesareia de Filipe estava situada ao norte da Galileia, próxima às nascentes do Jordão, numa região marcada pela presença da cultura helenística, por antigas tradições religiosas e pela influência política de Roma. A cidade recebeu o nome de Cesareia em honra ao imperador, enquanto o governante local Filipe acrescentou seu próprio nome. Era um espaço onde religião, política, cultura e poder conviviam de maneira estreita. O ambiente estava povoado por referências religiosas pagãs, incluindo o culto relacionado a Pan, e pelo imaginário político do império. Ali, títulos, símbolos e monumentos afirmavam quem possuía poder. César representava a autoridade imperial; os governantes locais administravam territórios sob sua influência; os santuários expressavam diferentes formas de religiosidade. Nesse cenário, Jesus pergunta quem dizem ser o Filho do Homem. A questão não é apenas espiritual. Ela toca o problema da identidade, da autoridade e da esperança de um povo submetido a estruturas de dominação. Mas o Evangelho não começa essa pergunta em Cesareia. Mateus prepara o leitor por meio de acontecimentos decisivos: 

  • Jesus alimentou multidões famintas, curou doentes: Mateus 14, a multiplicação dos pães mostra que a compaixão precede a organização religiosa, 
  • Aproximou-se dos marginalizados: Mateus 15, Jesus afirma que a impureza verdadeira procede do coração e não simplesmente das mãos ou dos alimentos e no encontro com a mulher cananeia, a fronteira entre “dentro” e “fora” é atravessada pela fé e pela misericórdia
  •  enfrentou interpretações religiosas que haviam perdido a centralidade da misericórdia;  Mateus 16,1-4, os líderes religiosos pedem um sinal, mas demonstram incapacidade de interpretar os sinais já presentes diante deles. 
A pergunta sobre quem Jesus é surge depois de tudo aquilo que ele realizou e, por isso, não pode ser respondida de maneira abstrata. O Cristo precisa ser reconhecido também pelo modo como vive, serve e se relaciona com as pessoas. Não é possível confessar Jesus e, ao mesmo tempo, ignorar sua atitude diante dos pobres, dos estrangeiros, dos doentes, dos pecadores e daqueles que a religião oficial facilmente poderia considerar indignos.
Em Cesareia de Filipe, Jesus pergunta aos discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (Mt 16,13). As respostas revelam que o povo percebia nele uma presença profundamente profética: João Batista, Elias, Jeremias ou algum dos profetas (Mt 16,14). Nenhuma dessas respostas é absurda. João Batista havia denunciado a corrupção moral do poder; Elias simbolizava a resistência profética contra a idolatria e a submissão aos interesses dos poderosos; Jeremias representava o profeta ferido pela própria missão e comprometido com a verdade mesmo quando ela produzia sofrimento. Jesus é reconhecido dentro dessa tradição, mas não se reduz a ela.
Então Pedro confessa: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). “Cristo” significa Messias, o Ungido. A confissão está correta, mas ainda precisa ser compreendida em profundidade. Pedro reconhece o título, porém ainda não entende o conteúdo da missão messiânica. Mateus deixa isso evidente porque, imediatamente depois da profissão de fé, Jesus anuncia que deverá ir a Jerusalém, sofrer, ser morto e ressuscitar (Mt 16,21). Pedro reage: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Isso jamais te acontecerá!” (Mt 16,22). E Jesus responde com uma das repreensões mais duras dirigidas a um discípulo: “Tu não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens” (Mt 16,23).
A tensão é teologicamente decisiva. O mesmo Pedro que confessa corretamente Jesus como Cristo demonstra, poucos instantes depois, que ainda precisa aprender que tipo de Messias Jesus é. Ele deseja o Cristo, mas não aceita o caminho da cruz. Primeiro reconhece a identidade; depois tenta corrigir a missão. Primeiro recebe a revelação; em seguida manifesta uma lógica incompatível com ela. Mateus não apresenta essa contradição como um acidente psicológico de Pedro, mas como uma advertência permanente à comunidade cristã.
É possível professar uma cristologia correta e construir uma prática incompatível com o Evangelho. É possível desejar um Cristo que confirme nossos projetos, proteja nosso grupo, derrote nossos adversários e legitime nossas certezas, mas rejeitar o Cristo que serve, acolhe, perdoa, confronta a hipocrisia, toca o impuro, alimenta o faminto e entrega a própria vida. Por isso, Mateus 16,13-28 deve ser lido como uma sequência: a confissão de Jesus como Messias está inseparavelmente ligada ao anúncio da paixão e ao chamado ao discipulado. O Messias não será definido pela conquista do poder, mas pela entrega. Como afirma Jesus: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10,45).
É justamente nesse ponto que a primeira leitura, Isaías 22,19-23, ilumina o Evangelho. O contexto de Isaías 22,15-18 é importante. Sebna ocupa uma posição elevada na administração do reino, mas o profeta denuncia nele a tentação de transformar função em prestígio. Sua responsabilidade será entregue a Eliaquim, sobre quem será colocada “a chave da casa de Davi”. A chave representa autoridade administrativa: quem a recebe pode abrir e fechar, mas não se torna proprietário da casa. A autoridade é delegada; a casa continua pertencendo ao rei.
Essa imagem ilumina profundamente Mateus 16,19: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus”. Pedro recebe uma missão, não a propriedade do Reino. Recebe responsabilidade, não soberania absoluta. Jesus afirma: “Eu edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18). O sujeito último da ação continua sendo Cristo. A comunidade pertence a ele. Nenhum papa, bispo, padre, pastor, fundador, dirigente ou movimento pode reivindicar propriedade sobre aquilo que pertence ao Senhor.
Aqui está uma distinção essencial: Pedro recebe as chaves, mas não recebe o lugar de Cristo. Quem recebe uma chave recebe uma responsabilidade e deverá prestar contas do modo como a utiliza. A autoridade cristã, portanto, não pode ser compreendida como privilégio pessoal nem como licença para controlar consciências. Ela existe em função da comunidade, da missão e do serviço.
A tradição católica reconhece em Pedro uma missão singular entre os apóstolos e considera esse texto fundamental para a compreensão do ministério petrino e da unidade da Igreja. As Igrejas Ortodoxas também reconhecem a importância de Pedro, embora desenvolvam uma compreensão mais conciliar e sinodal da autoridade. As tradições provenientes da Reforma deram maior ênfase à confissão de fé e a Cristo como fundamento da Igreja. As diferenças são históricas, teológicas e relevantes. Entretanto, há um princípio que deveria ser comum: nenhuma autoridade cristã ocupa o lugar de Cristo. Toda autoridade ministerial é relativa ao Senhor e deve permanecer submetida ao Evangelho.
O próprio Pedro demonstra isso. Ele recebe uma missão extraordinária, mas continua sendo um homem em processo de conversão. Será o discípulo que não compreende a cruz e, mais tarde, negará Jesus durante a paixão (Mt 26,69-75). A Escritura não esconde essa fragilidade. Pelo contrário, preserva-a como parte da própria memória da Igreja. Os apóstolos não são apresentados como uma elite de homens impecáveis, colocados acima da condição humana. São pessoas chamadas pela graça, marcadas por contradições e continuamente convocadas à conversão. Pedro pode receber uma revelação e continuar necessitando de transformação.
Essa perspectiva é fundamental para compreender o clericalismo. O problema não está na existência do ministério ordenado, nem na diversidade dos ministérios e serviços eclesiais. A deformação acontece quando o serviço se transforma em superioridade, privilégio, controle de consciências ou imunidade diante da crítica. Jesus estabelece outro princípio: “Entre vós não deverá ser assim” (Mt 20,26). A grandeza cristã não consiste em ocupar o topo, mas em servir. “Quem quiser tornar-se grande entre vós, será aquele que vos serve” (Mt 20,26).
A autoridade cristã não deve ser medida pelo número de pessoas que obedecem, mas pela quantidade de vidas que conseguem florescer por causa de um serviço responsável. O Bom Pastor não utiliza as ovelhas para construir sua própria grandeza: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (Jo 10,11). O ministério deixa de ser evangélico quando aqueles que deveriam cuidar começam a exigir que sejam cuidados, venerados ou protegidos.
O Salmo 137(138) acrescenta uma perspectiva decisiva: “O Senhor é excelso, mas olha para o humilde” (Sl 138,6). A grandeza de Deus não produz desprezo pelos pequenos; ao contrário, o Deus Altíssimo inclina seu olhar para quem está embaixo. Essa lógica deve orientar a espiritualidade cristã. Quanto maior a responsabilidade, maior deveria ser a capacidade de enxergar os que estão por baixo; quanto maior a autoridade, maior deveria ser a disposição para escutar.
Quando uma instituição religiosa se torna tão preocupada com sua própria imagem, prestígio e autopreservação que deixa de perceber quem sofre, ela se distancia do movimento do Deus revelado nas Escrituras. Uma Igreja preocupada apenas em preservar estruturas pode esquecer justamente aqueles que o Evangelho coloca no centro.
Romanos 11,33-36 aprofunda ainda mais essa crítica. Depois de uma longa reflexão sobre a história da salvação, Paulo não termina exaltando seu próprio grupo nem apresentando sua teologia como propriedade definitiva. Ele termina em adoração: “Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus!” (Rm 11,33). E pergunta: “Quem conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro?” (Rm 11,34).
Essa passagem deveria produzir humildade em toda teologia. Se Paulo termina sua reflexão diante do mistério, nenhum cristão pode tratar suas próprias interpretações como se fossem o próprio Deus. “Dele, por ele e para ele são todas as coisas” (Rm 11,36). Deus não pertence à Igreja; a Igreja pertence a Deus. Deus não pertence a uma ideologia; todas as ideologias devem ser submetidas ao discernimento da verdade, da justiça e da dignidade humana. O poder político não pertence a Deus como instrumento de uma determinada legenda, mas também está submetido ao juízo ético. O Evangelho não é propriedade da esquerda nem da direita.
O cristão não precisa abandonar a participação política. A fé possui consequências sociais e éticas. O que precisa ser abandonado é a transformação de um partido, de um líder ou de um projeto político na encarnação do Reino de Deus. Quando a fé é instrumentalizada pelo poder, acontece uma inversão perigosa: em vez de o Evangelho julgar o poder, o poder seleciona versículos para legitimar seus interesses. O profeta deixa de confrontar os poderosos e transforma-se em cabo eleitoral; o púlpito deixa de formar consciências e transforma-se em palanque; a Bíblia deixa de ser Palavra que nos julga e torna-se repertório de frases destinadas a confirmar aquilo que já decidimos.
Esse princípio vale para todos os campos políticos. Entretanto, quando setores da extrema direita utilizam símbolos cristãos para legitimar autoritarismo, violência, xenofobia, culto ao líder, desumanização de adversários ou nostalgia de regimes autoritários, precisam ser confrontados pelo próprio Evangelho. Não porque o cristianismo pertença a outro partido, mas porque Cristo não pode ser utilizado como justificativa para práticas que contradizem seu modo de viver e ensinar. Da mesma maneira, qualquer setor da esquerda que instrumentalize pessoas, abandone a verdade, relativize a dignidade humana ou transforme o outro em simples objeto ideológico também precisa ser confrontado pelo Evangelho.
Cristo não cabe dentro de uma bandeira partidária. A profecia cristã não pergunta primeiro se determinada prática pertence à esquerda ou à direita; pergunta se ela produz vida, justiça, verdade, misericórdia e dignidade. A Igreja perde sua liberdade profética quando passa a escolher quais poderes pode criticar e quais deve proteger.
A mesma medida precisa ser aplicada à teologia da prosperidade. O desejo de uma vida digna é legítimo, e ninguém deveria romantizar a pobreza. O problema surge quando a bênção divina é transformada em contrato financeiro e a riqueza passa a ser apresentada como prova automática de fé. Essa lógica pode produzir profunda violência psicológica. A pessoa desempregada, endividada ou doente pode concluir que sua situação é consequência de fracasso espiritual, enquanto a desigualdade econômica e as estruturas sociais que produzem vulnerabilidade são ignoradas.
O livro de Jó desmonta explicações simplistas desse tipo. Seus amigos tentam explicar o sofrimento como consequência direta do pecado, mas a narrativa mostra que a realidade humana não pode ser reduzida a uma equação entre prosperidade e mérito, sofrimento e culpa. Jesus também adverte: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). O Evangelho não demoniza os recursos materiais nem condena uma vida digna; denuncia a transformação do dinheiro em senhor.
A chamada teologia do domínio também precisa ser confrontada pela lógica do serviço. Gênesis apresenta o ser humano como responsável pela criação, mas Gênesis 2,15 utiliza a linguagem de cultivar e guardar. Responsabilidade não significa autorização para destruir. Domínio não pode ser confundido com posse absoluta. Quando uma leitura religiosa transforma o mandato bíblico em autorização para conquistar instituições, controlar pessoas ou impor determinado projeto político em nome de Deus, é preciso ouvir novamente as palavras de Jesus: “Entre vós não será assim”.
Filipenses 2,5-11 apresenta o movimento de Cristo como esvaziamento, serviço e entrega. A lógica cristã não é a da soberba de quem pretende dominar o mundo em nome de Deus, mas a do Senhor que assume a condição de servo. A cruz desmonta a fantasia de que o poder, por si mesmo, seja sinal de bênção divina.
Essa lógica atravessa toda a história bíblica. No Êxodo, Deus declara: “Eu vi a aflição do meu povo, ouvi o seu clamor” (Ex 3,7). Os profetas exigem justiça: “Aprendei a fazer o bem, procurai a justiça, corrigí o opressor” (Is 1,17). Amós proclama: “Corra o direito como a água” (Am 5,24). Miqueias resume a vontade divina na prática da justiça, no amor à misericórdia e na humildade diante de Deus (Mq 6,8). Maria canta um Deus que derruba poderosos, eleva humildes e enche de bens os famintos (Lc 1,52-53). Jesus apresenta sua missão como Boa-Nova aos pobres e liberdade aos oprimidos (Lc 4,18-19). Tiago denuncia comunidades que honram os ricos e humilham os pobres (Tg 2,1-6).
A opção pelos pobres, portanto, não é um acréscimo estranho à Bíblia. Ela decorre da própria maneira como Deus se revela. E os pobres não são uma categoria abstrata. Eles têm rosto: a mãe que calcula o alimento até o fim do mês; o trabalhador submetido à precariedade; o idoso que envelhece sem companhia; a criança exposta à violência; o jovem que procura emprego e encontra portas fechadas; a pessoa em situação de rua que atravessa a cidade sem ser percebida; o migrante que chega carregando sua história; a vítima de violência que procura proteção e encontra indiferença; o preso cuja dignidade não desapareceu com sua liberdade.
Quando Jesus afirma: “Tive fome e me destes de comer” (Mt 25,35), não oferece uma metáfora decorativa. Estabelece um critério para reconhecer sua presença. O Cristo que Pedro confessa é o mesmo Cristo que se deixa encontrar no faminto, no sedento, no estrangeiro, no enfermo e no encarcerado (Mt 25,31-46).
Essa Palavra possui enorme força diante da realidade contemporânea. Vivemos uma época de extraordinário desenvolvimento tecnológico, mas também de desigualdade, solidão, desinformação e polarização. A comunicação aproximou pessoas e, simultaneamente, criou novos ambientes para a manipulação, o medo e o ódio. A religião pode ser espaço de acolhimento e reconstrução de sentido, mas também pode oferecer respostas simplistas para sofrimentos que possuem causas psicológicas, econômicas, políticas, culturais e históricas complexas.
O ser humano procura segurança. Em contextos de medo e instabilidade, grupos ameaçados podem buscar figuras fortes, inimigos claramente definidos e narrativas que reduzam a complexidade da realidade. Quando manipulada, a religião pode fornecer linguagem sagrada para esse mecanismo. Por isso, a espiritualidade cristã precisa formar consciência, liberdade interior e capacidade de discernimento.
Fundamentalismo religioso não deve ser confundido simplesmente com fé intensa ou convicção doutrinal. O problema aparece quando nossas interpretações passam a ser tratadas como se fossem o próprio Deus, quando deixamos de distinguir a revelação divina dos limites históricos e humanos de nossa compreensão. Romanos 11 oferece um antídoto poderoso contra essa arrogância: “Quem conheceu o pensamento do Senhor?” (Rm 11,34). A verdadeira fé não elimina a humildade. Quanto mais profundamente conhecemos o Deus vivo, mais reconhecemos que nossas certezas permanecem pequenas diante do mistério.
Por isso, Mateus 16,13-20 não é apenas um texto sobre Pedro. É um espelho colocado diante da Igreja e de cada discípulo: quem é Jesus para nós e que Igreja estamos construindo em seu nome?
Se uma comunidade fala de Cristo, mas despreza o pobre, precisa se interrogar. Se defende a autoridade, mas não aceita prestação de contas, precisa se interrogar. Se proclama a família, mas abandona famílias vulneráveis, precisa se interrogar. Se fala de verdade, mas protege privilégios pelo silêncio, precisa se interrogar. Se utiliza Deus para alimentar ódio político, precisa reconhecer que alguma coisa essencial foi perdida.
A questão não é possuir símbolos cristãos suficientes. É verificar se esses símbolos correspondem à vida de Jesus.
Por isso, precisamos voltar à imagem das chaves: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus” (Mt 16,19). A chave não é uma arma. É responsabilidade. Não foi entregue para aprisionar consciências, mas para abrir caminhos; não é sinal de prestígio, mas de serviço; não autoriza ninguém a ocupar o lugar de Cristo nem a transformar a Igreja em propriedade pessoal.
Quem recebe uma chave deveria perguntar quais portas precisa abrir: a porta da reconciliação, da escuta, da participação, da misericórdia e da justiça; a porta que conduz o pobre ao centro da comunidade; a porta que permite ao ferido recuperar sua dignidade; a porta que impede que a religião se transforme em refúgio de privilégios.
Então a pergunta de Jesus volta para nós: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15). Talvez a resposta mais verdadeira não seja aquela que pronunciamos dentro da igreja, mas aquela que nossa existência oferece fora dela. Confessar Jesus como Cristo significa reconhecer seu senhorio também sobre nossas relações, escolhas e formas de exercer poder. Significa aceitar que o Cristo confessado por Pedro não pode ser separado do Cristo que caminha para Jerusalém. A cruz julga nossas fantasias de triunfo, e o pobre não é um assunto externo à fé, porque o próprio Jesus se identifica com ele.
Pedro recebe as chaves, mas continua discípulo. Recebe autoridade, mas continua necessitado de conversão. Recebe uma missão, mas não recebe o lugar de Cristo. Essa é uma das grandes salvaguardas do Evangelho contra o autoritarismo religioso. A Igreja existe para testemunhar Jesus, não para substituí-lo. O ministério existe para servir, não para dominar. A teologia existe para conduzir ao mistério, não para fabricar arrogância. A liturgia existe para formar um povo capaz de viver aquilo que celebra, não para esconder injustiças atrás de solenidades. A fé existe para produzir vida.
Assim, a primeira leitura coloca uma chave diante de nós e pergunta como a administramos. O salmo revela o Deus que olha para o humilde e pergunta se nossos olhos aprenderam a fazer o mesmo. Paulo nos conduz diante do mistério e desmonta nossa pretensão de possuir Deus. Mateus nos leva a Cesareia de Filipe e nos coloca diante do Cristo.
A resposta de Pedro — “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” — continua sendo a confissão da Igreja. Mas ela somente se torna verdadeira quando passa da boca para a existência. O mundo não precisa de uma Igreja que apenas repita que Jesus é o Cristo; precisa de uma Igreja cuja maneira de viver revele algo do modo de viver de Jesus.
No fim,  nao permanece  apenas uma pergunta “Quem é Jesus?”, surge  outras  que precisamos  responder,    são  ela:
  • “Qual Jesus estamos anunciando?”. 
  • O Jesus dos Evangelhos ou aquele que fabricamos para confirmar nossos interesses?
  •  O Cristo servo ou o Cristo transformado em símbolo de poder? 
  • O Filho do Deus vivo ou uma divindade domesticada por nossas ideologias? 
  • O Messias que passa pelo Calvário  e a cruz ou um salvador imaginado para garantir privilégios?
A resposta de Pedro continua sendo a nossa: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Mas essa confissão precisa atravessar a existência. Então a chave deixa de ser instrumento de controle e se torna serviço; a autoridade deixa de ser pedestal e se torna responsabilidade; a fé deixa de ser refúgio contra o mundo e se torna compromisso com a vida; e a Igreja deixa de construir pequenos reinos ao redor de homens para voltar a ouvir a voz daquele que afirma: “Eu edificarei a minha Igreja”. 
  • A casa é de Cristo. 
  • As chaves são para o serviço e  a autoridade é para a responsabilidade. 
  • Os pobres devem ser vistos e  os poderosos precisam ser confrontados. 
  • A religião precisa permanecer aberta à conversão. 
  • E o Reino, em sua profundidade insondável, pertence somente a Deus: 
Porque dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele, a glória para sempre. Amém” (Rm 11,36).

DNonato - Teólogo do Cotidiano