Na tradição judaica, os doze anos de idade marcam um limiar importante. Ainda que o Bar Mitzvah, ritual que marca a maioridade religiosa tenha se consolidado mais tarde no judaísmo rabínico, o número doze já evocava plenitude e transição:
- Os 12 filhos de Jacó, que deram origem às 12 tribos de Israel (Gn 35,22-26).
- As 12 pedras retiradas do rio Jordão por ordem de Josué, como memorial da travessia para a Terra Prometida (Js 4,1-9).
- As 12 pedras do peitoral do sumo sacerdote, representando as tribos de Israel (Ex 28,21).
- Os 12 pães da proposição colocados continuamente diante do Senhor no santuário (Lv 24,5-9).
- Os 12 bois que sustentavam o "mar de bronze" do Templo de Salomão (1Rs 7,25).
- O profeta Elias ergue um altar com 12 pedras, simbolizando a unidade de Israel diante da divisão política do reino (1Rs 18,31).
- Doze são as tribos de Israel
- Jesus escolhe 12 apóstolos (Lc 6,13), sinal da restauração do povo de Deus.
- A filha de Jairo tinha 12 anos (Lc 8,42).
- A mulher que sofria de hemorragia estava doente havia 12 anos (Lc 8,43). Lucas une as duas histórias, criando um paralelismo intencional.
- Aos 12 anos, Jesus permanece no Templo dialogando com os mestres (Lc 2,41-52).
- Na multiplicação dos pães, sobram 12 cestos cheios de pedaços (Mt 14,20), indicando abundância para todo o Israel renovado.
- Jesus afirma que poderia pedir ao Pai mais de 12 legiões de anjos (Mt 26,53)
- Após a morte de Judas, Matias é escolhido para restaurar o grupo dos 12 apóstolos (At 1,15-26),
- 144.000 múltiplo de 12.000 em (Ap 7,4)
- A mulher coroada com 12 estrelas (Ap 12,1).
- A Jerusalém celeste possui 12 portas (Ap 21,12).
- Sobre as portas estão escritos os nomes das 12 tribos de Israel.
- A cidade tem 12 fundamentos, com os nomes dos 12 apóstolos (Ap 21,14).
- A árvore da vida produz 12 colheitas de frutos (Ap 22,2).
- As medidas da cidade são múltiplos de 12, reforçando a ideia de plenitude do povo de Deus.
O Papa Paulo VI, na Marialis Cultus, recordava que Maria é “a Virgem que escuta, a Virgem que ora, a Virgem Mãe, a Virgem oferente e a Virgem educadora” (n. 57). E aqui, em Lucas 2, vemos essa maternidade educadora e crente em ação: Maria que busca, que pergunta, que sofre, que guarda. No plano teológico, essa passagem revela uma tensão criadora entre o humano e o divino, entre o “já” e o “ainda não” do Reino. Jesus volta com seus pais e lhes é submisso, mas não mais como criança qualquer, e sim como o Filho que se submete por amor, enquanto continua crescendo “em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens” (Lc 2,52). Há aqui uma pedagogia da encarnação: o Verbo se faz carne, mas não salta etapas; Ele entra na história, nas estruturas familiares e religiosas de seu tempo, sem se tornar prisioneiro delas. Por isso, este texto é proclamado tanto na liturgia do Imaculado Coração de Maria quanto na festa da Sagrada Família, pois revela um modo novo de viver os vínculos: não mais como posse, mas como missão partilhada.
Aqui observamos que Maria e José “não compreenderam” o que Jesus lhes disse (Lc 2,50). Esse não-compreender é chave hermenêutica da fé cristã: Deus se revela em rupturas, em ausências, em buscas. A fé autêntica não é a que tem todas as respostas, mas a que persevera mesmo na perplexidade. Nesse sentido, a pergunta de Maria pode ser lida não apenas como censura, mas como oração de quem ama e não entende:
- “Filho, por que nos fizeste passar por essa dor? Não percebes que te buscamos entre lágrimas e silêncio, como quem procura o sentido em meio à ausência?”
É a pergunta das mães que não desistem, das famílias dilaceradas pela violência, da Igreja que busca seu Senhor nos becos e nas encruzilhadas da história. É também o clamor da humanidade que interroga: Deus: onde estás quando tudo parece perdido?
Esse coração de Maria é também o coração das mães das periferias, das que choram filhos desaparecidos, assassinados, encarcerados por um sistema penal racista e classista que insiste em reduzir a maioridade penal enquanto ignora a maioridade ética dos governantes e do próprio Estado. Muitos desses filhos e filhas só têm Deus como Pai, pois os homens, muitas vezes, se ausentam, negam-se à responsabilidade da paternidade, deixando que as mães assumam sozinhas a dupla função de pai e mãe, sustentando famílias inteiras com coragem e amor indomável. Essa realidade histórica e social clama por uma Igreja que seja casa acolhedora, que reconheça e apoie essas mulheres guerreiras, que denuncie as estruturas de poder que perpetuam essa ausência masculina e que revele o verdadeiro rosto do Pai celeste, que jamais abandona seus filhos e filhas
Se esus, se nascesse hoje;
- Seria uma criança palestina, nascida sob ocupação militar, cercada por muros e drones. Poderia está entre os escombros de uma escola bombardeada em Rafah ou entre os corpos das crianças soterradas em Khan Younis ou em em outro território ocupado,
- Seria um filhoi de uma favela no Rio de Janeiro, talvez fosse confundido com um suspeito, carregando livros ou balas de gude, mas alvejado por balas “achadas” pela polícia.
- Poderia ser um menino do tráfico, não por escolha, mas por falta de mundo.
- Poderia ser mais um corpo negro, caído no chão quente, enquanto o coração de sua mãe fosse atravessado, não por espada simbólica, mas por rajadas de metralhadora real.
Simeão profetizou: “uma espada transpassará tua alma” (Lc 2,35). Mas hoje essa espada tem nome de fuzil, de caveirão, de drone armado, de silêncio institucional. O corpo de Cristo continua sendo perfurado,. não apenas em sacramentos mal celebrados, mas na carne dos inocentes abandonados à lógica da guerra, do lucro e do medo. Na contramão de quem clama por punição para crianças pobres, esta cena evangélica nos confronta com um adolescente que ensina no Templo. E se ele tivesse nascido em nossos dias, em um bairro marginalizado e fosse encontrado dialogando em uma escola ocupada, em uma biblioteca comunitária, em um centro cultural periférico.
- Seria reconhecido como mestre ou rotulado como ameaça?
A extrema-direita, com sua ideologia punitivista e antievangélica, tenta apagar o sagrado dos corpos juvenis, sobretudo os corpos negros e pobres, reduzindo a infância a estatística de segurança pública. Mas Jesus, ainda menino, nos ensina que a infância é lugar teológico. Deus fala também através das crianças e muitas vezes contra os sistemas adultos de poder, seja no Império Romano, seja nas teocracias clericais ou nos populismos autoritários de hoje. O Templo de Jerusalém era o centro do culto, mas havia se tornado espaço de controle e exclusão. Jesus, ao ensinar ali, antecipa sua futura ação profética: ele se colocará contra os mercadores da fé, denunciará os hipócritas, anunciará o Reino aos pequenos. A Igreja, hoje, deve reaprender com essa infância divina: não se trata de manter o poder sagrado nas mãos de poucos, mas de abrir espaço para o discernimento comunitário, para a escuta do novo, para a sabedoria dos jovens especialmente daqueles que são silenciados por uma liturgia fria e por pastores que se aliam ao poder em vez de cuidar do rebanho.
A identidade se constrói no confronto entre o pertencimento e a autonomia. Jesus não rejeita sua família, mas amplia seu horizonte. A pergunta de Maria, essa dor transformada em interrogação,. recebe como resposta uma inversão simbólica: “Não sabíeis que eu devia estar na casa de meu Pai?” (Lc 2,49). Ele nomeia um outro Pai, não para anular José, mas para revelar que todo pai humano está chamado a abrir caminho para que o filho se reconheça filho do Eterno. Esse é o desafio contemporâneo da paternidade e da maternidade: não projetar nos filhos suas expectativas, mas ajudá-los a discernir a vocação única que o Espírito lhes confia.
- Quantas vezes hoje em nossaa Igrejas. os jovens, como Jesus, permanecem incompreendidos em suas buscas espirituais, em seus questionamentos éticos, em sua sede de sentido?
- Quantas vezes seu desejo de justiça é ridicularizado, sua espiritualidade é tratada como rebeldia?
Neste dia, pois, contemplamos não apenas a mãe dolorosa ou a mulher obediente, mas a discípula que acompanha o crescimento do Verbo no silêncio, na tensão, na esperança. Maria não tutela a fé de Jesus, mas caminha com Ele. E o acompanha até a cruz, onde novamente o perde, para novamente reencontrá-lo na manhã da ressurreição. Que também nós, diante das ausências e dos desencontros da vida, saibamos esperar, guardar, meditar. Porque o coração de Maria pulsa com o mesmo ritmo do coração de Deus: um amor que educa sem possuir, que confia sem dominar, que se alegra em ver o outro crescer, mesmo quando isso significa perdê-lo por um tempo.
A Igreja será mariana ou não será. Será escuta ou será ruído. Será espaço para que os jovens estejam “nas coisas do Pai” ou será apenas templo vazio com paredes cheias de normas. Que aprendamos com Maria a guardar, com José a confiar, com Jesus a crescer até que toda ausência se converta em reencontro e todo silêncio se faça Palavra.
DNonato – Teólogo do Cotidiano



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