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sexta-feira, 27 de junho de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 2,41-51 - Imaculado Coração de Maria


No coração do Evangelho de Lucas 2,41-51 pulsa o mistério de uma infância sagrada que, longe de ser mero retrato idealizado, confronta as estruturas humanas com a liberdade do Espírito. Jesus, aos doze anos, entre os mestres do Templo, já revela uma consciência messiânica em germe e uma identidade que transcende as convenções familiares e religiosas. Não se trata de desobediência, mas de uma fidelidade radical ao Pai que, desde cedo, provoca rupturas e, ao mesmo tempo, ilumina os vínculos humanos com uma nova densidade de amor e escuta.

Na tradição judaica, os doze anos de idade marcam um limiar importante. Ainda que o Bar Mitzvah,  ritual que marca a maioridade religiosa  tenha se consolidado mais tarde no judaísmo rabínico, o número doze já evocava plenitude e transição: 

  • Os 12 filhos de Jacó, que deram origem às 12 tribos de Israel (Gn 35,22-26).
  • As 12 pedras retiradas do rio Jordão por ordem de Josué, como memorial da travessia para a Terra Prometida (Js 4,1-9).
  • As 12 pedras do peitoral do sumo sacerdote, representando as tribos de Israel (Ex 28,21).
  • Os 12 pães da proposição colocados continuamente diante do Senhor no santuário (Lv 24,5-9).
  • Os 12 bois que sustentavam o "mar de bronze" do Templo de Salomão (1Rs 7,25).
  • O profeta Elias ergue um altar com 12 pedras, simbolizando a unidade de Israel diante da divisão política do reino (1Rs 18,31).
  • Doze são as tribos de Israel
  • Jesus escolhe 12 apóstolos (Lc 6,13), sinal da restauração do povo de Deus.
  • A filha de Jairo tinha 12 anos (Lc 8,42).
  • A mulher que sofria de hemorragia estava doente havia 12 anos (Lc 8,43). Lucas une as duas histórias, criando um paralelismo intencional.
  • Aos 12 anos, Jesus permanece no Templo dialogando com os mestres (Lc 2,41-52).
  • Na multiplicação dos pães, sobram 12 cestos cheios de pedaços (Mt 14,20), indicando abundância para todo o Israel renovado.
  • Jesus afirma que poderia pedir ao Pai mais de 12 legiões de anjos (Mt 26,53)
  • Após a morte de Judas, Matias é escolhido para restaurar o grupo dos 12 apóstolos (At 1,15-26),
  • 144.000  múltiplo de 12.000 em (Ap  7,4)
  • A mulher coroada com 12 estrelas (Ap 12,1).
  • A Jerusalém celeste possui 12 portas (Ap 21,12).
  • Sobre as portas estão escritos os nomes das 12 tribos de Israel.
  • A cidade tem 12 fundamentos, com os nomes dos 12 apóstolos (Ap 21,14).
  • A árvore da vida produz 12 colheitas de frutos (Ap 22,2).
  • As medidas da cidade são múltiplos de 12, reforçando a ideia de plenitude do povo de Deus.
(O Doze  se  somar os dois  numeros: 1+2= 3. Número  atribuído  a Trindade Santa,  se observa  todos os números de plenitude  ou totalidade  são  múltiplos de 3 ou do numero 4 ou a soma de ambos  Por exemplo 3×4=12 e 3+4 = 7 dias da semana  que mais tarde vai se torna 7 sacramentos. Mas deixemos isso para  outro momento.)

Jesus, com doze anos, já se move no espaço da responsabilidade religiosa. Não está “perdido” no Templo, mas situado  como diz o texto: “nos negócios do Pai” (Lc 2,49), uma expressão aberta, provocadora, quase enigmática. Ele se posiciona como alguém que tem clara consciência de que sua origem e missão transcendem o lar doméstico e o Templo institucional. Essa cena acontece no contexto da Páscoa — festa da libertação — e se insere na memória de uma peregrinação que lembra o Êxodo. Maria e José sobem a Jerusalém com o povo, como milhares de famílias. Mas o Filho realiza sua própria travessia: Ele inicia, de forma silenciosa, seu próprio êxodo interior, sua Páscoa pessoal. Ele se ausenta por três dias — antecipando simbolicamente a perda e o reencontro da ressurreição. O túmulo vazio começa a ser anunciado no Templo cheio. O Cristo buscado pela mãe aflita já é aquele que será buscado, mais tarde, pelas mulheres junto ao sepulcro: ausente, mas vivo, oculto, mas presente. Essa ausência de Jesus seja, também, um tempo pedagógico. Deus se esconde para que possamos crescer. Como ensinam os místicos,  João da Cruz, Teresa de Ávila, Etty Hillesum, o silêncio de Deus não é sua negação, mas uma outra forma de presença. Maria vive, nesse momento, uma noite escura da fé: busca o Filho, sem compreendê-lo, e nele aprende a amar sem possuir. É uma mística da ausência fecunda, onde Deus se deixa encontrar depois da perda. O coração mariano é contemplativo porque é fiel no escuro.


O contexto histórico-social desse relato é profundamente marcado por uma religiosidade patriarcal, onde a obediência filial era absoluta e onde as mulheres e crianças ocupavam espaços periféricos. No entanto, Lucas nos apresenta uma mãe que não apenas questiona:  “Filho, por que agiste assim conosco?”  mas que também guarda e medita tudo em seu coração (cf. Lc 2,51). O Imaculado Coração de Maria, celebrado no dia seguinte ao Sagrado Coração de Jesus, não é um símbolo de sentimentalismo ou passividade, mas de contemplação ativa, de resistência silenciosa, de uma fé que busca compreender mesmo o incompreensível. Esse coração é o lugar teológico onde a Palavra encarnada é acolhida, ruminada, ressignificada — é o ventre que não apenas gerou Jesus na carne, mas continua gerando-o na fé..E o coração que guarda é o mesmo que um dia cantou: “Derrubou do trono os poderosos, exaltou os humildes” (Lc 1,52). O Magnificat já prefigurava o modo com que Maria enfrenta o mistério: com firmeza interior, com fé crítica, com lucidez espiritual. Esse coração imaculado não se fecha na dor, mas se expande na esperança..José também está presente. Seu silêncio é eloquente. Ele sofre calado, como tantos homens impedidos de chorar. O silêncio de José é também o silêncio de uma masculinidade ferida que precisa reaprender a amar, não como domínio, mas como presença que busca e espera. José, homem justo, ensina que a autoridade verdadeira não grita nem se impõe; apenas caminha junto, mesmo sem entender.

O Papa Paulo VI, na Marialis Cultus, recordava que Maria é “a Virgem que escuta, a Virgem que ora, a Virgem Mãe, a Virgem oferente e a Virgem educadora” (n. 57). E aqui, em Lucas 2, vemos essa maternidade educadora e crente em ação: Maria que busca, que pergunta, que sofre, que guarda. No plano teológico, essa passagem revela uma tensão criadora entre o humano e o divino, entre o “já” e o “ainda não” do Reino. Jesus volta com seus pais e lhes é submisso, mas não mais como criança qualquer, e sim como o Filho que se submete por amor, enquanto continua crescendo “em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens” (Lc 2,52). Há aqui uma pedagogia da encarnação: o Verbo se faz carne, mas não salta etapas; Ele entra na história, nas estruturas familiares e religiosas de seu tempo, sem se tornar prisioneiro delas. Por isso, este texto é proclamado tanto na liturgia do Imaculado Coração de Maria quanto na festa da Sagrada Família, pois revela um modo novo de viver os vínculos: não mais como posse, mas como missão partilhada.

Aqui observamos que Maria e José “não compreenderam” o que Jesus lhes disse (Lc 2,50). Esse não-compreender é chave hermenêutica da fé cristã: Deus se revela em rupturas, em ausências, em buscas. A fé autêntica não é a que tem todas as respostas, mas a que persevera mesmo na perplexidade. Nesse sentido, a pergunta de Maria pode ser lida não apenas como censura, mas como oração de quem ama e não entende:

  • “Filho, por que nos fizeste passar por essa dor? Não percebes que te buscamos entre lágrimas e silêncio, como quem procura o sentido em meio à ausência?”

É a pergunta das mães que não desistem, das famílias dilaceradas pela violência, da Igreja que busca seu Senhor nos becos e nas encruzilhadas da história. É também o clamor da humanidade que interroga:  Deus: onde estás quando tudo parece perdido?

Esse coração de Maria é também o coração das mães das periferias, das que choram filhos desaparecidos, assassinados, encarcerados por um sistema penal racista e classista que insiste em reduzir a maioridade penal enquanto ignora a maioridade ética dos governantes e do próprio Estado. Muitos desses filhos e filhas só têm Deus como Pai, pois os homens, muitas vezes, se ausentam, negam-se à responsabilidade da paternidade, deixando que as mães assumam sozinhas a dupla função de pai e mãe, sustentando famílias inteiras com coragem e amor indomável. Essa realidade histórica e social clama por uma Igreja que seja casa acolhedora, que reconheça e apoie essas mulheres guerreiras, que denuncie as estruturas de poder que perpetuam essa ausência masculina e que revele o verdadeiro rosto do Pai celeste, que jamais abandona seus filhos e filhas

Se esus, se nascesse hoje;

  • Seria uma criança palestina, nascida sob ocupação militar, cercada por muros e drones. Poderia está entre os escombros de uma escola bombardeada em Rafah ou entre os corpos das crianças soterradas em Khan Younis ou em  em outro território ocupado,  
  • Seria um filhoi de uma favela no Rio de Janeiro, talvez  fosse confundido com um suspeito, carregando livros ou balas de gude, mas alvejado por balas “achadas” pela polícia.
  •  Poderia ser um menino do tráfico, não por escolha, mas por falta de mundo. 
  • Poderia ser mais um corpo negro, caído no chão quente, enquanto o coração de sua mãe fosse atravessado, não por espada simbólica, mas por rajadas de metralhadora real.

Simeão profetizou: “uma espada transpassará tua alma” (Lc 2,35). Mas hoje essa espada tem nome de fuzil, de caveirão, de drone armado, de silêncio institucional. O corpo de Cristo continua sendo perfurado,.  não apenas em sacramentos mal celebrados, mas na carne dos inocentes abandonados à lógica da guerra, do lucro e do medo. Na contramão de quem clama por punição para crianças pobres, esta cena evangélica nos confronta com um adolescente que ensina no Templo. E se ele tivesse nascido em nossos dias, em um bairro marginalizado e fosse encontrado dialogando em uma escola ocupada, em uma biblioteca comunitária, em um centro cultural periférico. 

  • Seria reconhecido como mestre ou rotulado como ameaça?

 A extrema-direita, com sua ideologia punitivista e antievangélica, tenta apagar o sagrado dos corpos juvenis, sobretudo os corpos negros e pobres, reduzindo a infância a estatística de segurança pública. Mas Jesus, ainda menino, nos ensina que a infância é lugar teológico. Deus fala também através das crianças e muitas vezes contra os sistemas adultos de poder, seja no Império Romano, seja nas teocracias clericais ou nos populismos autoritários de hoje.  O Templo de Jerusalém era o centro do culto, mas havia se tornado espaço de controle e exclusão. Jesus, ao ensinar ali, antecipa sua futura ação profética: ele se colocará contra os mercadores da fé, denunciará os hipócritas, anunciará o Reino aos pequenos. A Igreja, hoje, deve reaprender com essa infância divina: não se trata de manter o poder sagrado nas mãos de poucos, mas de abrir espaço para o discernimento comunitário, para a escuta do novo, para a sabedoria dos jovens  especialmente daqueles que são silenciados por uma liturgia fria e por pastores que se aliam ao poder em vez de cuidar do rebanho.

A  identidade se constrói no confronto entre o pertencimento e a autonomia. Jesus não rejeita sua família, mas amplia seu horizonte. A pergunta de Maria,  essa dor transformada em interrogação,. recebe como resposta uma inversão simbólica: “Não sabíeis que eu devia estar na casa de meu Pai?” (Lc 2,49). Ele nomeia um outro Pai, não para anular José, mas para revelar que todo pai humano está chamado a abrir caminho para que o filho se reconheça filho do Eterno. Esse é o desafio contemporâneo da paternidade e da maternidade: não projetar nos filhos suas expectativas, mas ajudá-los a discernir a vocação única que o Espírito lhes confia.

  • Quantas vezes hoje em nossaa Igrejas. os jovens, como Jesus, permanecem incompreendidos em suas buscas espirituais, em seus questionamentos éticos, em sua sede de sentido? 
  • Quantas vezes seu desejo de justiça é ridicularizado, sua espiritualidade é tratada como rebeldia? 
O Coração Imaculado de Maria, que guarda tudo no silêncio da fé, nos convida a uma pedagogia da escuta e da confiança. Maria não entende, mas não impõe sua lógica; ela guarda, ela medita, ela espera. Numa época em que tudo exige resposta imediata e controle absoluto, esse coração nos ensina o caminho da maturidade espiritual. E tantos jovens hoje continuam  mesmo sem nomear  nas coisas do Pai. Quando cuidam da terra, criam arte no gueto, alfabetizam crianças nas comunidades, resistem às armas com poesia e afeto, eles também estão, como Jesus, entre os mestres. Precisamos reaprender a reconhecê-los e a escutá-los. E não apenas os jovens cristãos. Há busca de Deus nas dobras de outras tradições, outras linguagens, outras resistências. A experiência da ausência divina não é exclusividade da Igreja: ela ressoa nos terreiros, nas mesquitas, nos povos originários. Maria representa a humanidade que busca, e sua pergunta é universal: “Onde está o Filho?”

Neste dia, pois, contemplamos não apenas a mãe dolorosa ou a mulher obediente, mas a discípula que acompanha o crescimento do Verbo no silêncio, na tensão, na esperança. Maria não tutela a fé de Jesus, mas caminha com Ele. E o acompanha até a cruz, onde novamente o perde, para novamente reencontrá-lo na manhã da ressurreição. Que também nós, diante das ausências e dos desencontros da vida, saibamos esperar, guardar, meditar. Porque o coração de Maria pulsa com o mesmo ritmo do coração de Deus: um amor que educa sem possuir, que confia sem dominar, que se alegra em ver o outro crescer, mesmo quando isso significa perdê-lo por um tempo.

A Igreja será mariana ou não será. Será escuta ou será ruído. Será espaço para que os jovens estejam “nas coisas do Pai” ou será apenas templo vazio com paredes cheias de normas. Que aprendamos com Maria a guardar, com José a confiar, com Jesus a crescer  até que toda ausência se converta em reencontro e todo silêncio se faça Palavra.

DNonato – Teólogo do Cotidiano

sábado, 21 de junho de 2025

Israel: Terra Prometida, Terra Ferida.


DNonato  graduado em História

A Terra de Israel, ao longo dos séculos, tornou-se mais que um território: converteu-se em símbolo, mito, campo de disputa e instrumento ideológico. Desde a promessa feita a Abraão até a criação do moderno Estado de Israel em 1948, essa terra passou por rupturas, reformulações e, sobretudo, profundas distorções do que originalmente simbolizava uma aliança com a humanidade. A terra prometida, na narrativa bíblica, nunca foi apenas uma posse, mas uma herança condicionada pela justiça, pela fidelidade e pela prática da misericórdia.

A promessa feita a Abraão (Gn 12,1-3; 15,18)¹ era acompanhada de um propósito ético: “em ti serão abençoadas todas as famílias da terra”. O chamado de Abraão não era para fundar um império, mas para se tornar pai de uma fé que abençoasse a humanidade. A terra era parte dessa promessa, mas nunca foi um direito absoluto ou militarizado. A posse da terra estava sempre condicionada à fidelidade ao Deus da justiça (cf. Dt 8,11-20)².

A entrada de Josué em Canaã é descrita na Bíblia como um ato de conquista divina, mas a análise histórica e arqueológica contemporânea problematiza essa narrativa, vendo-a menos como uma invasão típica da antiguidade — marcada por violência, deslocamento e imposição cultural — e mais como um processo gradual, envolvendo migrações, assimilação cultural e conflitos locais, e não uma invasão rápida e total⁴. O livro de Josué relata a destruição de cidades como Jericó e Ai (Josué 6-8), ações que são interpretadas por muitos estudiosos como episódios simbólicos ou ideologizados para afirmar a soberania do Deus de Israel sobre a terra³.

Este padrão de “invasão” é reflexo das lógicas bélicas das sociedades antigas, que legitimavam a posse da terra pelo uso da força, associando-a à bênção divina condicionada à obediência. Contudo, o texto bíblico também contém advertências severas sobre a fidelidade a essa aliança, sinalizando que a terra é um dom precário, dependente da justiça social e do compromisso com o Deus da aliança (Josué 23,12-16)⁵

Com a monarquia, Israel se aproxima dos modelos de poder das outras nações. A centralização política sob Davi e Salomão traz estabilidade, mas também opressão, desigualdade e idolatria. A aliança tornou-se uma formalidade religiosa, e o profetismo emerge como denúncia: “Este povo se aproxima de mim com a boca... mas o coração está longe” (Is 29,13)⁶. A fé é reduzida a aparato estatal, e a justiça social se esvai.

A infidelidade leva à tragédia: o Reino do Norte cai diante da Assíria (722 a.C.); o Sul é deportado à Babilônia (586 a.C.). O Exílio rompe o vínculo direto com a terra, e a fé se reinventa: nasce o judaísmo da Torá, da memória e da esperança. Surge um novo Israel, espalhado, errante, mas guardando consigo a promessa — não mais como território, mas como identidade espiritual. A terra não está mais sob os pés, mas na liturgia, nos salmos, na oração voltada a Jerusalém. Começa assim a diáspora, a dispersão que moldaria a alma judaica por mais de dois milênios.


A Terra Prometida não pode ser discutida sem recordar a origem dos povos semitas na Bíblia: Abraão, pai de muitos povos, teve dois filhos — Ismael e Isaac (cf. Gn 16 e 21)⁷ Ismael, o primogênito, é considerado pelos muçulmanos como seu ancestral direto. Isaac, filho da promessa, é pai de Jacó, que recebe o nome de Israel. Mas o texto bíblico não apresenta a bênção de Isaac como anulação da bênção de Ismael. Ao contrário: Deus abençoa ambos, promete fazer de Ismael uma grande nação (Gn 21,13.18)⁸ e o acompanha no deserto.

A Bíblia não coloca Ismael como amaldiçoado, mas como irmão. O conflito entre seus descendentes é posterior, fruto de interpretações enviesadas que instrumentalizaram a genealogia para justificar exclusões políticas e teológicas. O mesmo vale para os filhos de Isaac: Esaú, o mais velho, e Jacó, o mais novo. O direito de primogenitura é negociado e depois tomado com astúcia, o que gera rancor e exílio. No entanto, mais tarde, Jacó e Esaú se reconciliam (Gn 33)⁹ , e Esaú torna-se também um grande povo.

Ora, se a herança fosse exclusivamente do mais velho, ela pertenceria a Ismael e Esaú. A Bíblia, no entanto, subverte essa lógica patriarcal e nos mostra que a herança de Deus não segue critérios humanos de mérito, sangue ou posse. A bênção, quando autêntica, é sempre vocação para servir, e não direito para dominar.

Ao recordar que todos descendem de Abraão, e que todos foram abençoados — ainda que por caminhos distintos — o texto sagrado desmonta o uso excludente da genealogia. O Deus de Abraão não é monopolizável. Sua promessa é maior que fronteiras políticas, maior que etnias, maior que exércitos. Ao longo da história, os judeus viveram como minoria perseguida em diversos impérios: do helenismo à Roma, da Inquisição às proibições em guetos europeus. A mística da terra prometida permaneceu viva, não como plano militar, mas como saudade, como símbolo escatológico de retorno e reconciliação. Mas a modernidade traria uma ruptura.

O sionismo do século XIX emerge em meio ao nacionalismo europeu, buscando dar ao povo judeu um território onde pudesse existir como nação soberana. Laico, político e inspirado por modelos ocidentais de Estado-nação, o sionismo rompe com o tempo litúrgico da promessa e entra no tempo cronológico da geopolítica. A fundação do Estado de Israel em 1948, após a partilha da Palestina pelas Nações Unidas, é a concretização dessa visão política — não da promessa bíblica. É uma criação moderna, com exército, fronteiras e interesses econômicos. Contudo, como toda criação política, ela foi marcada por exclusões inerentes: a Nakba (“catástrofe” em árabe) representou o deslocamento forçado de mais de 700 mil palestinos.

A tragédia do Holocausto, em que cerca de seis milhões de judeus foram exterminados pela Alemanha nazista, fortaleceu o apelo do sionismo: nunca mais um povo sem pátria, sem defesa. O trauma da Shoá tornou-se parte fundante da identidade israelense moderna. Mas aqui reside o paradoxo: o Estado criado para garantir a sobrevivência de um povo perseguido tornou-se, ele mesmo, instrumento de perseguição e exclusão de outro povo — os palestinos. A terra que deveria acolher virou fronteira vigiada. A herança da dor foi usada como licença para o domínio.

O uso da Bíblia para legitimar o moderno Estado de Israel é uma operação ideológica, não teológica. Os textos que prometem terra são transformados em escritura notarial, como se Deus fosse corretor imobiliário. Mas os profetas já diziam: “A terra será tirada de vós, porque pisastes os pobres e oprimistes o inocente” (Am 5)¹⁰. A terra, na Bíblia, nunca é posse individual ou étnica: é dom condicional, dependente da justiça.

Essa distorção, porém, não é novidade. Nas Cruzadas medievais, a mesma instrumentalização da fé aconteceu. Convocadas entre os séculos XI e XIII pela Igreja latina, as Cruzadas foram vendidas como missão espiritual, mas movidas por interesses políticos, econômicos e expansionistas. A ideia de “libertar Jerusalém” dos muçulmanos era envolta por mística escatológica: acreditava-se que o retorno de Cristo só se daria após a purificação da Terra Santa. Peregrinos viraram soldados. A cruz virou espada. Massacres de muçulmanos, judeus e cristãos orientais foram cometidos em nome de Deus. A fé foi pervertida em bandeira imperial. A Cruzada era, ao mesmo tempo, penitência e violência — uma alucinação sagrada que santificava o sangue.

Curiosamente, essa escatologia também está presente no Islã. Para os muçulmanos, Jerusalém (Al-Quds) é a terceira cidade mais sagrada, depois de Meca e Medina. Ali, segundo a tradição, o profeta Muhammad ascendeu aos céus na chamada Noite da Ascensão (Isra e Mi'raj). Na escatologia islâmica, Jerusalém será palco dos eventos finais, quando o Mahdi (o “Guiado por Deus”) retornará para restaurar a justiça antes do fim dos tempos. Assim como para judeus e cristãos, Jerusalém tem peso apocalíptico no Islã: não apenas geográfico, mas cósmico. Isso explica por que os conflitos em torno da cidade ultrapassam o plano político — são guerras carregadas de misticismo, símbolos e memórias do fim.

Hoje, Israel é um Estado moderno, com cerca de 74% da população identificada como judia, 18% muçulmana e 2% cristã. Mas a convivência é marcada por apartheid, vigilância militar, colonatos ilegais e humilhação cotidiana. A mística da promessa virou doutrina de segurança nacional. A terra virou ídolo. A fé, retórica bélica. O outro, inimigo.

O Israel bíblico era chamado a ser luz para as nações (Is 49,6); o moderno Estado de Israel tornou-se reflexo das trevas do mundo: segregação, domínio e impunidade. A verdadeira terra prometida não é uma questão de controle, mas de comunhão. “Ai dos que transformam o direito em veneno e lançam por terra a justiça!” (Am 5)¹¹.

A Terra Prometida não é herança de quem a domina pela força, mas de quem caminha com humildade, compartilha o pão, respeita o estrangeiro e não oprime o fraco. Entre a terra prometida e a terra ferida, que a humanidade possa reencontrar a memória do sagrado: não aquela que abençoa impérios, mas a que ouve o clamor do oprimido e faz brotar a justiça como rio caudaloso.

Notas

[^1]: BIBLIA. Gênesis 12,1-3; 15,18. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^2]: DEUTERONÔMIO 8,11-20. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^3]: BIBLIA. Josué 6-8. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^4]: FINKELSTEIN, Israel; SILBERMAN, Neil Asher. The Bible Unearthed: Archaeology’s New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts. New York: Free Press, 2001.

[^5]: BIBLIA. Josué 23,12-16. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^6]: BIBLIA. Isaías 29,13. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^7]: BIBLIA. Gênesis 16 e 21. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^8]: BIBLIA. Gênesis 21,13.18. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^9]: BIBLIA. Gênesis 33. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^10]: BIBLIA. Amós 5. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.

[^11]: BIBLIA. Amós 5,7. Tradução da Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1994.