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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 8,5-17

Na tradição litúrgica da Igreja Católica Romana, Mateus 8,5-17 ocupa um lugar significativo dentro da proclamação do Evangelho ao longo do ano. O texto completo é proclamado no Sábado da 12ª Semana do Tempo Comum, reunindo numa única narrativa a cura do servo do centurião, a cura da sogra de Pedro e o atendimento às multidões enfermas ao entardecer. Uma parte da mesma passagem, Mateus 8,5-11, também é proclamada na Segunda-feira da 1ª Semana do Advento, quando a liturgia destaca especialmente a fé do oficial romano como sinal da abertura universal da salvação e como preparação para acolher a vinda do Senhor.  O relato paralelo da cura do servo do centurião em Lucas 7,1-10 aparece em outros momentos do Lecionário Romano. É proclamado na Segunda-feira da 24ª Semana do Tempo Comum e também no 9º Domingo do Tempo Comum do Ano C, quando a Igreja percorre o Evangelho de Lucas. A narrativa lucana apresenta algumas particularidades importantes: o centurião não se dirige pessoalmente a Jesus, mas envia anciãos judeus e amigos para intercederem em seu favor, reconhecendo-se indigno de receber o Mestre em sua casa. Apesar das diferenças narrativas, o núcleo teológico permanece o mesmo: a extraordinária fé de um estrangeiro que confia plenamente na autoridade da palavra de Cristo.

Os relatos paralelos da cura da sogra de Pedro e das multidões enfermas também ocupam lugar relevante na liturgia. Marcos 1,29-39é proclamado na Quarta-feira da 1ª Semana do Tempo Comum e novamente no 5º Domingo do Tempo Comum do Ano B. Já Lucas 4,38-44 é proclamado na Quarta-feira da 22ª Semana do Tempo Comum. Dessa forma, a tradição litúrgica preserva continuamente a memória desse dia intenso do ministério de Jesus em Cafarnaum, apresentando-o sob diferentes perspectivas ao longo do ciclo anual das celebrações. A tradição oriental também confere grande importância a essas narrativas. Nas Igrejas Ortodoxas, o centurião é frequentemente apresentado como modelo de fé humilde e sinal da universalidade da salvação, enquanto a cura da sogra de Pedro e das multidões manifesta a compaixão de Cristo diante de toda forma de sofrimento humano. As tradições anglicana, luterana e demais Igrejas oriundas da Reforma igualmente preservam esses textos em seus calendários litúrgicos, associando-os à fé que ultrapassa fronteiras étnicas, culturais e religiosas.

A importância litúrgica dessa passagem é tão profunda que uma de suas frases tornou-se parte permanente da celebração eucarística católica. Pouco antes da comunhão, toda a assembleia repete as palavras do centurião: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo” (Mt 8,8). A oração expressa simultaneamente a humildade humana e a confiança absoluta na graça de Deus, tornando atual, em cada Eucaristia, a fé daquele oficial romano que reconheceu em Jesus uma autoridade maior do que a de qualquer império da terra.

Esse momento  ocorre logo após os capítulos iniciais  dedicados à infância de Jesus e depois do grande Sermão da Montanha (Mt 5–7), o evangelista passa a apresentar uma série de ações concretas que confirmam a autoridade daquele que havia ensinado as multidões. O sermão termina com uma observação significativa: “Ele ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas” (Mt 7,29). Em seguida, Mateus reúne diversos relatos de cura e libertação para mostrar que a autoridade de Jesus não se limita à palavra, mas alcança a doença, a exclusão, as forças do mal, a natureza e até mesmo a morte. A organização dessas narrativas não é aleatória. O capítulo 8 inicia-se com a cura de um leproso (Mt 8,1-4), alguém excluído da convivência religiosa e social. Logo depois aparece o centurião romano (Mt 8,5-13), representante do mundo gentio e da autoridade imperial. Em seguida surge a sogra de Pedro (Mt 8,14-15), uma mulher enferma inserida numa sociedade profundamente patriarcal. Mateus parece construir uma verdadeira catequese sobre o Reino de Deus: Jesus aproxima-se do excluído, acolhe o estrangeiro e restaura quem havia sido reduzido à invisibilidade. A ação divina manifesta-se precisamente onde as estruturas humanas produzem distância, sofrimento e marginalização.

Para compreender a profundidade desse encontro entre Jesus e o centurião, é necessário recordar o contexto histórico da Palestina do século I. A região encontrava-se sob domínio do Império Romano. A presença militar estrangeira, a cobrança de impostos, as desigualdades econômicas e as tensões políticas marcavam profundamente a vida cotidiana. Muitos judeus alimentavam a esperança de um Messias que libertasse Israel da dominação estrangeira e restaurasse sua autonomia nacional.

O centurião mencionado por Mateus representa justamente a presença concreta desse império. Um centurião era um oficial responsável por aproximadamente cem soldados. Embora não integrasse a elite política de Roma, possuía autoridade significativa e desempenhava funções importantes na manutenção da ordem imperial. Para muitos judeus, ele simbolizava a ocupação estrangeira e tudo aquilo que ela representava.

É exatamente por isso que o encontro narrado por Mateus possui força extraordinária. As relações entre judeus e romanos eram frequentemente marcadas por desconfiança, ressentimento e conflitos. Além das diferenças políticas, existiam barreiras culturais e religiosas. Os gentios eram frequentemente vistos como ritualmente impuros, e a convivência entre os grupos nem sempre era simples. A expectativa de muitos contemporâneos de Jesus apontava para um Messias que derrotaria os inimigos de Israel. Jesus, porém, segue um caminho diferente. Em vez de rejeitar o oficial romano por sua origem ou função, acolhe seu pedido e responde ao seu sofrimento com compaixão. O relato paralelo de Lucas (Lc 7,1-10) acrescenta detalhes importantes. Lucas informa que o centurião mantinha boas relações com a comunidade judaica local e havia contribuído para a construção da sinagoga. Também relata que ele envia intermediários para falar com Jesus. Mateus simplifica a narrativa e coloca o próprio oficial diante do Mestre. Não se trata de contradição, mas de uma opção teológica. Enquanto Lucas enfatiza a mediação comunitária e os vínculos estabelecidos entre o centurião e o povo judeu, Mateus concentra toda a atenção na fé extraordinária daquele homem e em seu significado para a missão universal do Reino.

A primeira fala do centurião já revela um aspecto surpreendente de sua personalidade: “Senhor, meu servo está em casa, paralítico, sofrendo horrivelmente” (Mt 8,6). Num mundo em que os servos eram frequentemente tratados como propriedade, o oficial demonstra preocupação sincera por alguém socialmente inferior. Sua autoridade não elimina sua capacidade de compaixão. A dor do servo torna-se sua própria dor. A resposta de Jesus é imediata: “Eu irei curá-lo” (Mt 8,7). O evangelho não registra qualquer investigação sobre a origem do sofrimento, a situação moral do enfermo ou a identidade religiosa do oficial. A necessidade humana basta para despertar a compaixão divina. Esse traço atravessa todo o ministério de Jesus: diante da dor, a misericórdia precede qualquer julgamento e a vida possui prioridade sobre qualquer formalismo religioso. A resposta do centurião constitui uma das mais belas profissões de fé de todo o Evangelho: “Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa. Dize apenas uma palavra e meu servo será curado” (Mt 8,8). Nela encontram-se reunidas duas atitudes fundamentais da espiritualidade bíblica: a humildade e a confiança. O oficial reconhece seus limites, mas não duvida do poder de Cristo. Não exige sinais extraordinários, não impõe condições e não busca garantias adicionais. Sua esperança repousa inteiramente na eficácia da palavra de Jesus.

Para a mentalidade bíblica, a palavra não é mera comunicação verbal. Desde as primeiras páginas das Escrituras, ela aparece como força criadora e transformadora. “Deus disse: Faça-se a luz. E a luz se fez” (Gn 1,3). O Salmo 33 proclama que os céus foram criados pela palavra do Senhor (Sl 33,6), enquanto Isaías afirma que a palavra divina jamais retorna sem produzir fruto (Is 55,10-11). O prólogo do Evangelho de João levará essa compreensão ao seu ponto mais alto ao identificar Jesus como o Verbo eterno de Deus feito carne (Jo 1,1-14). Ao acreditar que uma única palavra de Cristo seria suficiente para curar seu servo, o centurião reconhece, ainda que intuitivamente, a presença da própria autoridade criadora de Deus agindo em Jesus.

A explicação que ele oferece nasce de sua experiência militar. Acostumado à lógica da autoridade, sabe que uma ordem legítima produz efeitos concretos. Se seus subordinados obedecem às suas palavras, quanto mais as enfermidades, as forças do mal e tudo aquilo que ameaça a vida humana estariam submetidos à autoridade daquele que ele reconhece como Senhor. O centurião percebe que existe em Jesus um poder que ultrapassa o dos exércitos, dos governantes e dos impérios. A reação de Jesus é surpreendente. O evangelista afirma que ele se admirou. Os Evangelhos registram poucas ocasiões em que Jesus manifesta admiração. Em Nazaré, ele se admira da incredulidade de seus conterrâneos (Mc 6,6); aqui, admira-se da fé de um estrangeiro. “Em verdade vos digo: em ninguém de Israel encontrei fé tão grande” (Mt 8,10). Essa declaração não deve ser interpretada como rejeição de Israel. Mateus escreve para uma comunidade profundamente marcada por suas raízes judaicas. O que Jesus questiona não é a identidade do povo da aliança, mas qualquer pretensão de que a proximidade com Deus possa ser garantida simplesmente pela pertença religiosa, cultural ou institucional. A fé não é herança automática nem privilégio de grupo algum. Ela floresce onde existe abertura sincera à ação de Deus.

A fé do centurião possui ainda um significado que ultrapassa o episódio imediato narrado por Mateus. Ela antecipa o horizonte universal que será plenamente revelado ao final do Evangelho. Aquele estrangeiro que confia na palavra de Jesus torna-se uma espécie de prenúncio da missão confiada aos discípulos após a ressurreição: “Ide, pois, e fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28,19). O mesmo Evangelho que apresenta um gentio como modelo de confiança culminará com o envio da Igreja a todos os povos da terra. Por isso, Jesus prossegue com uma das afirmações mais universais de todo o Novo Testamento: “Muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugar à mesa com Abraão, Isaac e Jacó no Reino dos Céus” (Mt 8,11). A imagem remete às promessas proféticas de Isaías (Is 25,6-8), nas quais todas as nações são convidadas para o banquete preparado por Deus. O Reino anunciado por Jesus não se limita a um povo, uma cultura ou uma fronteira. Ele aponta para a reconciliação de toda a humanidade. Essa visão conserva extraordinária atualidade. Em um mundo marcado por nacionalismos excludentes, preconceitos étnicos, xenofobia e polarizações, o Evangelho recorda que Deus não constrói muros, mas convida à comunhão. O Reino não se organiza a partir da pureza identitária, da superioridade cultural ou da exclusão dos diferentes. A mesa preparada por Deus permanece aberta a homens e mulheres vindos de todas as direções da terra. A figura do centurião continua sendo um desafio para a Igreja de todos os tempos. Ela recorda que a graça divina frequentemente surpreende nossas expectativas e que Deus pode suscitar exemplos luminosos de fé onde menos se espera encontrá-los. O Evangelho convida continuamente os discípulos a abandonarem toda forma de autossuficiência religiosa e a reconhecerem que o Espírito de Deus continua agindo com liberdade na história humana. 

Após o encontro com o centurião, Mateus  nos conduz  para um ambiente completamente diferente. Se a narrativa anterior acontece no contexto do diálogo entre um representante do império e um mestre judeu, agora a ação desloca-se para o interior de uma casa simples em Cafarnaum. A mudança de cenário não diminui a importância do acontecimento. Pelo contrário, revela que a misericórdia de Deus atua tanto nos grandes conflitos da história quanto nas fragilidades silenciosas da vida cotidiana..“Jesus entrou na casa de Pedro e viu a sogra dele de cama, com febre” (Mt 8,14). A brevidade da narrativa não deve esconder sua profundidade teológica. No mundo mediterrâneo do século I, a casa constituía o centro da vida familiar, econômica e social. A enfermidade de um de seus membros afetava toda a dinâmica doméstica. Além disso, a mulher ocupava uma posição social limitada dentro das estruturas patriarcais da época. A sogra de Pedro aparece sem nome, sem prestígio e sem voz própria na narrativa. Ainda assim, torna-se destinatária da atenção de Jesus.

O evangelista destaca que Jesus a viu. Nos Evangelhos, o olhar de Jesus nunca é indiferente. Ele vê aqueles que frequentemente permanecem invisíveis para a sociedade. Vê os pobres, os enfermos, os pecadores, os marginalizados e todos os que foram reduzidos ao esquecimento pelas estruturas sociais e religiosas. Ver, em linguagem evangélica, significa reconhecer dignidade e restaurar humanidade. Essa dimensão conserva enorme relevância para a realidade contemporânea. Muitas formas de exclusão começam quando uma pessoa deixa de ser percebida como sujeito e passa a ser tratada apenas como problema, estatística ou peso social. Os pobres, os idosos abandonados, os migrantes, os moradores de rua e tantas outras populações vulneráveis conhecem essa dolorosa experiência da invisibilidade. O olhar de Jesus rompe essa lógica ao devolver centralidade à pessoa concreta. Mateus prossegue: “Jesus tocou sua mão, e a febre a deixou” (Mt 8,15). O toque possui profundo significado simbólico. O mesmo Cristo que havia tocado o leproso considerado impuro agora toca uma mulher enferma. Em ambos os casos, a lógica da pureza ritual é superada pela lógica da misericórdia. Em vez de ser contaminado pela fragilidade humana, Jesus comunica vida, saúde e restauração..A tradição bíblica apresenta repetidamente Deus como aquele que se aproxima do sofrimento de seu povo. No relato do Êxodo, o Senhor declara: “Eu vi a aflição do meu povo, ouvi seu clamor e conheço seus sofrimentos” (Ex 3,7). Em Jesus, essa proximidade torna-se concreta e visível. Deus não permanece distante da dor humana; entra nela, compartilha-a e trabalha por sua transformação.

A cura da sogra de Pedro apresenta um detalhe particularmente importante: “Ela se levantou e começou a servi-lo” (Mt 8,15). O verbo utilizado por Mateus remete ao serviço que caracteriza o discipulado cristão. O evangelista não está descrevendo simplesmente o retorno às atividades domésticas, mas a resposta de quem experimentou a ação libertadora de Deus. A cura conduz ao serviço; a graça transforma-se em missão. Esse princípio atravessa toda a espiritualidade cristã. Jesus não restaura as pessoas apenas para devolvê-las à situação anterior. Sua ação inaugura uma nova forma de existência. A salvação bíblica não consiste somente na remoção da enfermidade, mas na recuperação da capacidade de amar, servir e participar da vida da comunidade. Quem foi alcançado pela misericórdia torna-se chamado a ser instrumento de misericórdia. Nesse sentido, a sogra de Pedro torna-se uma figura exemplar do discipulado. Sua primeira reação após a cura não é voltar-se para si mesma, mas colocar-se a serviço. O Evangelho sugere que a verdadeira experiência de Deus não conduz ao fechamento individualista, mas à abertura para os outros. A gratidão transforma-se em disponibilidade; a restauração torna-se compromisso..A tradição cristã reconheceu nessa passagem uma imagem da própria Igreja. Também ela é continuamente curada por Cristo para servir. Sua missão não consiste em buscar prestígio, poder ou privilégios, mas em colocar-se a serviço da vida, especialmente onde ela se encontra ameaçada. Sempre que a comunidade cristã esquece essa vocação, afasta-se do modelo apresentado pelo Evangelho.

A narrativa da sogra de Pedro funciona, portanto, como complemento da história do centurião:

  1. Na primeira, Jesus ultrapassa fronteiras étnicas e religiosas
  2.  Na segunda, supera barreiras sociais e culturais. 
  • Em ambas, revela-se o mesmo Reino de Deus: uma realidade que restaura a dignidade humana, reintegra os excluídos e transforma a experiência da graça em caminho de serviço.

Ao cair da tarde, a narrativa amplia seu horizonte. O que começou com o pedido de um centurião e prosseguiu no ambiente doméstico da casa de Pedro transforma-se agora numa cena coletiva: “Ao entardecer, levaram-lhe muitos endemoninhados. Ele expulsou os espíritos com sua palavra e curou todos os doentes” (Mt 8,16). O evangelista apresenta uma verdadeira convergência do sofrimento humano em direção a Jesus. O detalhe temporal possui importância histórica. O entardecer marcava o fim do sábado judaico. Muitas pessoas aguardavam o término das restrições sabáticas para conduzir os enfermos até Jesus. Diante da casa de Pedro forma-se uma multidão composta por homens e mulheres marcados pelas mais diversas formas de sofrimento. Ali estão os doentes físicos, os perturbados em seu espírito, os marginalizados e todos aqueles para quem as estruturas sociais e religiosas haviam se mostrado insuficientes.

Mateus não se detém na descrição individual de cada enfermidade. Seu interesse é mais profundo. O sofrimento aparece em sua dimensão universal. A cena simboliza uma humanidade ferida que busca em Cristo aquilo que não encontra em nenhum outro lugar: restauração, acolhimento e esperança. O evangelista deseja mostrar que nenhuma dor humana está fora do alcance da misericórdia divina. A afirmação de que Jesus expulsava os espíritos com sua palavra retoma um tema central de toda a passagem: a autoridade de Cristo. A mesma palavra que o centurião reconheceu como capaz de curar à distância agora manifesta seu poder diante das forças que desfiguram a vida humana. A autoridade de Jesus não se impõe pela violência nem pelo medo. Ela se revela como força libertadora que devolve às pessoas sua dignidade e sua liberdade.

A linguagem dos espíritos impuros deve ser compreendida com cuidado hermenêutico. O mundo bíblico não separava rigidamente as dimensões física, psicológica, social e espiritual da existência humana. Muitas formas de sofrimento eram expressas mediante a linguagem da possessão porque afetavam profundamente a integridade da pessoa. O objetivo principal do texto não é oferecer uma explicação médica ou psicológica, mas afirmar que Deus deseja libertar o ser humano de tudo aquilo que o escraviza e o desumaniza. Essa perspectiva permite reconhecer que a ação libertadora de Cristo continua atual. Existem forças que ultrapassam a esfera individual e assumem dimensão coletiva. A violência estrutural, a pobreza persistente, o racismo, a corrupção, a exploração econômica, a cultura do descarte, a manipulação ideológica e todas as formas de negação da dignidade humana podem ser compreendidas como expressões de realidades que se opõem ao projeto de vida querido por Deus. O Evangelho proclama que nenhuma dessas forças possui a palavra definitiva sobre a história. Nesse ponto, Mateus introduz uma chave decisiva de interpretação ao citar o profeta Isaías: “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças” (Mt 8,17; cf. Is 53,4). Essa referência conecta toda a atividade de Jesus à figura do Servo Sofredor. O evangelista não vê as curas como demonstrações espetaculares de poder, mas como sinais da solidariedade de Deus com a humanidade ferida.

A imagem do Servo, presente em Isaías, surgiu num contexto de sofrimento coletivo, exílio e esperança de restauração. O Servo participa da dor do povo e assume sobre si seus sofrimentos. Mateus reconhece em Jesus o cumprimento pleno dessa profecia. Cristo não permanece distante da fragilidade humana; aproxima-se dela, toca-a e a assume. Sua compaixão não é sentimentalismo, mas participação concreta na condição daqueles que sofrem. Essa dinâmica alcançará sua expressão máxima na cruz. As curas realizadas em Cafarnaum já antecipam o mistério pascal. O mesmo Jesus que toma sobre si as enfermidades carregará também o peso do pecado, da violência e da rejeição humana. Sua missão não consiste apenas em aliviar dores individuais, mas em inaugurar uma nova criação reconciliada com Deus.

A psicologia da espiritualidade frequentemente observa que uma das experiências mais dolorosas do sofrimento é a sensação de abandono. A dor torna-se ainda mais pesada quando parece não encontrar compreensão nem companhia. O Evangelho responde a essa realidade apresentando um Deus que não observa o sofrimento à distância. Em Jesus, Deus entra na história humana e compartilha suas feridas. A esperança cristã nasce precisamente dessa solidariedade divina. A cena diante da casa de Pedro torna-se, assim, uma imagem antecipada da própria missão da Igreja. A comunidade cristã é chamada a ser lugar de acolhida para os feridos da história, não um espaço de autorreferência ou privilégio. Sua identidade não se constrói pelo poder, mas pelo serviço; não pela exclusão, mas pela hospitalidade; não pelo controle das pessoas, mas pelo testemunho da misericórdia.

Por isso, a Igreja permanece fiel ao Evangelho quando prolonga no mundo o olhar que vê os invisíveis, a mão que levanta os abatidos e a palavra que anuncia esperança. Sempre que se afasta dessa vocação, corre o risco de perder de vista aquele que veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância (Jo 10,10). A liturgia  ao nos trazer o os  relatos:  do centurião, a sogra de Pedro e a multidão de enfermos  revela, portanto, um único movimento teológico. O Reino de Deus avança em direção às periferias humanas. Ele alcança o estrangeiro, restaura a pessoa esquecida e acolhe os que carregam o peso do sofrimento. Em cada encontro, Jesus manifesta a mesma verdade fundamental: o poder de Deus se revela não na dominação, mas na misericórdia que cura, liberta e devolve vida.

A narrativa de Mateus 8,5-17 revela um eixo teológico consistente: a autoridade de Jesus manifesta-se como poder de restauração da vida. Não se trata de um poder dominador, mas de uma força que reorganiza a existência humana a partir da misericórdia. O centurião reconhece essa autoridade na palavra; a sogra de Pedro a experimenta no corpo; e a multidão de enfermos a recebe como libertação concreta. O texto constrói, assim, uma cristologia em ato, onde a identidade de Jesus é percebida menos por definições abstratas e mais por sua ação histórica. Essa sequência também desmonta qualquer leitura religiosa centrada em privilégios ou garantias institucionais. 

  • A fé do centurião, a fragilidade da mulher enferma e a condição marginal dos doentes formam um contraponto direto a qualquer sistema que pretenda monopolizar o acesso a Deus. O Evangelho insiste em deslocar o centro: não está nas estruturas religiosas, mas na abertura concreta à ação divina.

Nesse ponto, o texto lucano e mateano convergem num elemento decisivo: a fé não é propriedade cultural, nem herança automática, nem resultado de pertencimento social. Trata-se de uma abertura existencial à palavra de Deus que pode emergir em contextos inesperados. Isso implica uma crítica interna às próprias comunidades religiosas quando estas passam a confundir identidade com superioridade espiritual. A tradição profética de Israel já havia denunciado esse risco. Isaías, Amós e Jeremias insistem que culto sem justiça torna-se vazio e até contraditório. A religião, quando desligada da vida concreta, pode converter-se em linguagem sacralizada de opressão. Essa tensão atravessa toda a Escritura e reaparece de forma incisiva no ministério de Jesus, especialmente em sua aproximação dos marginalizados e na crítica implícita às formas de religiosidade que excluem em nome da pureza.

O texto evidencia um princípio recorrente: instituições religiosas tendem, ao longo do tempo, a produzir mecanismos de autopreservação. Quando isso ocorre, há o risco de deslocamento do centro da fé, que deixa de ser o serviço à vida e passa a ser a manutenção de estruturas. O Evangelho opera continuamente como força de desestabilização desse movimento, recolocando no centro os que foram colocados à margem. Esse deslocamento tem consequências diretas para a compreensão de autoridade. Em Mateus 8, a autoridade de Jesus não se assemelha à lógica militar do centurião nem à hierarquia religiosa do templo. Trata-se de uma autoridade paradoxal: quanto mais ela se exerce, mais vida ela gera; quanto mais se manifesta, mais restaura relações. Isso rompe com modelos de poder baseados em controle, medo ou imposição. E  revela algo estrutural: o ser humano não se realiza isoladamente, mas em redes de relação e cuidado. O servo do centurião, a sogra de Pedro e a multidão enferma representam diferentes formas de vulnerabilidade humana. Em todos os casos, a ação de Jesus não apenas resolve uma condição individual, mas reintegra a pessoa a um tecido relacional mais amplo. A cura, nesse sentido, é também reinserção social.

Ao conectar o texto de Mateus com Isaías 53, que apresenta o Servo Sofredor, desloca-se a compreensão da salvação de uma lógica meramente funcional para uma lógica de solidariedade radical: Deus não apenas intervém na história, mas assume por dentro a condição ferida da humanidade. Em continuidade, Mateus 8 mostra que essa solidariedade se torna critério e medida da própria vida eclesial, de modo que a Igreja só permanece fiel ao Evangelho quando não se separa do sofrimento humano, mas o assume como lugar teológico de sua missão. Nesse horizonte, toda forma de clericalismo ou autorreferencialidade religiosa aparece como desvio, pois rompe a dinâmica do serviço e obscurece a centralidade da misericórdia como expressão concreta da autoridade divina. Por fim, a abertura do Reino ao “oriente e ao ocidente” impede qualquer apropriação identitária da fé e afirma seu caráter universal: a graça não se deixa aprisionar por fronteiras culturais, institucionais ou religiosas, mas se manifesta como força que reúne, cura e reconcilia a humanidade ferida em torno da vida que Deus quer para todos.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 29 de junho de 2025

Um breve um olhar sobre Mateus 8,18-22

 


Os Mortos e a Barca: Quando o chamado não Pode Esperar.

Na tradição litúrgica do Tempo Comum, a Igreja proclama Mateus 8,18-22 na segunda-feira da 13ª semana  do Tempo Comum anualmente, inserindo esse pequeno bloco narrativo dentro de uma sequência de sinais e ensinamentos que revelam a identidade itinerante e desconfortável do discipulado de Jesus. Não se trata de uma perícope isolada, mas de um texto que se articula com paralelos sinóticos em em Lucas Lucas 9,51-62 proclamado no Domingo da 13º semana do Tempo Comum -Ano C onde a travessia do lago, os chamados radicais e o confronto com as exigências do Reino aparecem como um eixo teológico comum. É importante observar que o Evangelho de São Marcos não possui um texto paralelo a Mateus 8,18-22 (nem ao conjunto de Lucas 9,57-62). Marcos não registra o diálogo com o mestre da Lei que promete seguir Jesus, tampouco o encontro com o discípulo que pede para primeiro sepultar seu pai. Por isso, essa passagem específica nunca é proclamada a partir de Marcos na liturgia da Igreja. Essa ausência não é casual, mas resulta do projeto teológico próprio de cada evangelista:
  •  Mateus e Lucas preservam uma série de ensinamentos de Jesus sobre a radicalidade do discipulado que, segundo muitos estudiosos, provêm de uma tradição comum de ditos de Jesus, conhecida como Fonte Q. Nessa tradição, o foco recai sobre as exigências do seguimento e sobre a urgência do Reino de Deus.
  • Marcos, por sua vez, é o Evangelho mais antigo e também o mais conciso. Sua narrativa privilegia o dinamismo da ação de Jesus: os milagres, os conflitos e o caminho que conduz à cruz. Em vez de longos discursos sobre as condições para seguir o Mestre, Marcos apresenta essas exigências por meio dos próprios acontecimentos e das atitudes dos discípulos.
sso, porém, não significa que Marcos apresente um discipulado menos exigente. Ao contrário, a radicalidade do seguimento aparece distribuída em diferentes momentos do Evangelho e é proclamada pela liturgia ao longo do Ano B, dedicado a Marcos. Logo no início da missão de Jesus em Marcos 1,16-20 proclamado no 3º Domingo do Tempo Comum no Ano B*, ouvimos o chamado dos primeiros discípulos, que deixam imediatamente as redes, o barco e até mesmo seu pai, Zebedeu, para segui-lo. Mais adiante, no centro do Evangelho Marcos  8,34-35 proclamado  no 24º Domingo do Tempo Comum  no Ano B, Jesus formula uma das exigências mais fortes do discipulado: "Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me." Assim, embora Marcos não conserve o episódio de Mateus 8,18-22, ele transmite a mesma verdade teológica: seguir Jesus exige uma decisão radical, sem reservas, colocando o Reino de Deus acima de qualquer segurança, vínculo ou projeto pessoal.

Em Mateus, o evangelista condensa duas cenas de vocação e deslocamento logo após o impacto das curas em Cafarnaum (Mt 8,1-17), criando um contraste deliberado entre o sucesso pastoral de Jesus junto às multidões e a exigência silenciosa de uma adesão não domesticada. Marcos e Lucas preservam a mesma tensão, embora com variações redacionais: em todos, porém, o discipulado é apresentado como um processo de desinstalação, não como acomodação religiosa.
A “ordem de passar para a outra margem” (Mt 8,18) funciona como marcador narrativo de transição teológica. Essa travessia não é apenas geográfica, mas simbólica: deslocamento do centro para a periferia, da previsibilidade religiosa para o risco existencial, da segurança institucional para a exposição ao imprevisível do Reino.
A liturgia, ao inserir este texto no ciclo anual, impede que o discipulado cristão seja reduzido a moralismo privado ou a espiritualidade intimista. Pelo contrário, ela reinscreve a fé no horizonte pascal da travessia: sair de Cafarnaum espaço de reconhecimento e eficácia  para enfrentar a alteridade radical da “outra margem”, onde o puro e o impuro, o incluído e o excluído, o religioso e o marginalizado se encontram sob o juízo do Reino.
Nesse sentido, a proclamação litúrgica não apenas recorda um episódio do passado, mas atualiza uma crise permanente da fé: 
  • A tensão entre seguimento e segurança, 
  • Entre Reino e instituição, entre profecia e acomodação. 
Essa tensão atravessa também a história da Igreja, especialmente quando estruturas clericais ou sistemas religiosos se fecham em autorreferencialidade, perdendo a capacidade de escuta dos clamores sociais e das feridas históricas do povo.
Precisamos  lembrar que já  refletimos no you tube pelo menos 3 vezes sobre esse tema:  em 2020 em plena pandemiaem 2021 em pleno desemprego  2024 

Jesus estava cercado por uma multidão em Cafarnaum, após curas e exorcismos. A cena parece triunfante, um momento alto de sua missão pública. No entanto, nesse contexto, o evangelista nos conduz a um gesto inesperado: Jesus “mandou passar para a outra margem” (Mt 8,18).

É sobre essa travessia, e os encontros que nela ocorrem, que iremos refletir, à luz do evangelho segundo Mateus 8,18-22 proclamado  na 2ª-feira da 13ª semana do Tempo Comum.

À primeira vista, pode parecer uma simples decisão logística para evitar o tumulto das multidões, mas o evangelho de Mateus, como os demais sinóticos, é teologicamente elaborado. Cada movimento de Jesus, sobretudo nas transições geográficas, carrega profundidade simbólica e escatológica. Ir para “a outra margem” não é apenas atravessar um lago, mas um gesto pascal de deslocamento: da zona de conforto para a zona de conflito, do centro para a periferia, da pureza ritual para o contato com o impuro. Trata-se de uma travessia teológica, social, existencial.

Jesus sai de Cafarnaum, cidade com um núcleo judaico, rumo à região dos gadarenos ou gerasenos (cf. Mt 8,28; Mc 5,1; Lc 8,26), uma terra gentia, marcada por práticas consideradas impuras, como a criação de porcos. O movimento de Jesus não é neutro; é provocativo. Atravessar o lago é atravessar fronteiras étnicas, religiosas e simbólicas. É uma recusa de qualquer fé que se isole em seus próprios muros. O Cristo que atravessa o mar de Tiberíades antecipa sua cruz, porque se expõe à impureza, à alteridade e à incompreensão. Ele abandona a “segurança do sagrado” para mergulhar no caos do outro, do marginalizado, do que foi excluído pela religião oficial. Esta cena, à luz do Êxodo, ressignifica a travessia não mais como fuga da escravidão, mas como descida solidária ao lugar onde vivem os escravizados. Jesus, o novo Moisés, não caminha rumo à Terra Prometida, mas em direção ao território da impureza, onde a dor é mais bruta e a presença de Deus parece mais ausente. Há, nesse gesto, um contraste implícito com o profeta Jonas, que foge da missão e tenta evitar a cidade estrangeira. Jesus é o antijonas: ele atravessa em direção ao que é impuro, hostil, estrangeiro — porque o Reino de Deus não conhece fronteiras étnicas, religiosas ou morais. A travessia de Jesus não foge da alteridade; ela a assume como campo de encarnação. O lago, como no Êxodo, separa o povo da escravidão e da liberdade. Mas aqui, a liberdade está na margem do outro. O discipulado cristão não começa na segurança, mas na travessia.

Essa decisão de partir gera uma ruptura interna. A barca está prestes a partir, e com ela o sinal de um discipulado exigente. Nesse momento, aproximam-se dois homens. O primeiro, um escriba — conhecedor da Lei, alguém de dentro da instituição religiosa — declara com entusiasmo: “Mestre, eu te seguirei para onde quer que vás.” Mas Jesus, com a lucidez de quem conhece os corações, responde com uma frase que corta como espada: “As raposas têm tocas, e as aves do céu ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.” A advertência é clara: seguir Jesus não é aderir a um projeto de estabilidade, mas lançar-se num caminho de desinstalação. A referência ao “Filho do Homem” remete ao livro de Daniel (7,13-14), onde esta figura messiânica recebe domínio eterno. Contudo, em Jesus, esse título ganha conotação de vulnerabilidade e entrega. Ele é o Filho do Homem que não domina com poder, mas redime com serviço e despojamento. O discipulado, aqui, exige o abandono da expectativa de segurança institucional, de benefícios sociais ou reconhecimento religioso. O escriba, símbolo da religião da letra, parece querer ajustar o seguimento ao seu mundo de certezas. Mas Jesus o desilude: não há Escritura sem esvaziamento. Não há Reino com estabilidade. Não há discipulado sem kenosis. Como lembra a carta aos Filipenses, Cristo “esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo” (Fl 2,7).

O segundo personagem é mais ambíguo. Ele já é um discípulo, alguém que segue Jesus, mas ainda preso a estruturas do passado. “Senhor, deixa-me primeiro ir sepultar meu pai.” O pedido parece legítimo, até mesmo sagrado. Na cultura judaica do século I, enterrar os pais era uma das obrigações mais sagradas, derivada diretamente do mandamento de honrar pai e mãe (cf. Ex 20,12). Não só era um dever familiar, mas uma responsabilidade comunitária, religiosa, e até escatológica, pois muitos judeus acreditavam que a sepultura familiar preservava a identidade e a bênção da linhagem. Negar o sepultamento seria visto como afronta à memória e ao vínculo com a tradição. No entanto, Jesus responde: “Segue-me, e deixa que os mortos sepultem os seus mortos.” Essa resposta, embora chocante, deve ser compreendida à luz do uso simbólico da palavra “mortos”. Ele não se refere aos cadáveres, mas aos vivos que estão espiritualmente mortos — aos que, mesmo respirando, estão presos às estruturas caducas, a uma religião sem compaixão, a uma tradição fossilizada. É a mesma lógica que aparece em Lucas 15,24, quando o pai do filho pródigo diz: “Este meu filho estava morto e voltou à vida.” Morte, aqui, é alienação do Reino. É a idolatria do passado, a fé paralisada em ritos que não geram vida. Como em Mateus 23, Jesus denuncia os que se tornaram “sepulcros caiados”: vivos por fora, mas mortos por dentro. É o eco direto da denúncia de Isaías: “Que me importa a multidão dos vossos sacrifícios?” (Is 1,11). A fé que se reduz a rituais, desconectada da justiça e da compaixão, torna-se cemitério da presença divina.

A frase de Jesus é uma convocação à urgência. Não é desrespeito aos pais, mas um chamado a não adiar o seguimento com desculpas piedosas. O “deixa” é um verbo de ruptura. Ele convida à liberdade de um discipulado não mais condicionado pelo “primeiro deixa-me...”, mas enraizado no “segue-me” incondicional. Essa tensão entre tradição e missão, entre luto legítimo e adiamento espiritual, é perene. Ela atravessa os séculos da fé cristã. A religião, quando perde a dimensão do Reino, torna-se obstáculo. A fé que adia é a fé dos mortos. A religião, quando perde o Espírito, torna-se necroespiritualidade: sepulta os vivos com dogmas sem amor, com liturgias sem compaixão, com estruturas que protegem os poderosos e silenciam os pequenos. É essa religião que Jesus desmascara.

Esse ensinamento se alinha à doutrina social da Igreja, que sempre defendeu que a caridade concreta é inseparável do seguimento real. O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes, recorda que “as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens de hoje são também as dos discípulos de Cristo” (GS 1). O discipulado é sensível à urgência do agora. A missão da Igreja não pode ser retardada por apegos a ritos ou estruturas que já não comunicam vida. A Evangelii Gaudium de Francisco afirma com força que a Igreja deve sair, que “prefere uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (EG 49). A Lumen Gentium, ao definir a Igreja como “sacramento universal da salvação” (LG 48), implica que sua missão é dinâmica, encarnada, concreta — não ritualizada ou institucionalizada em si mesma. Paulo VI já dizia em Evangelii Nuntiandi que “o homem contemporâneo escuta mais as testemunhas do que os mestres” (EN 41), e Francisco amplia isso ao lembrar, em Laudato Si’, que “tudo está interligado”: a vida espiritual autêntica se reconhece pela capacidade de ir ao encontro do que sofre, de romper com as bolhas de proteção religiosa. Como nos recorda a carta aos Hebreus, os verdadeiros discípulos são aqueles que vivem como peregrinos e estrangeiros nesta terra, “porque esperam uma pátria melhor, isto é, a pátria celeste” (Hb 11,16). Mas não a esperam passivamente. Eles a inauguram, aqui e agora, na travessia concreta do Reino.

Hoje, como ontem, muitos vivem esse dilema. Quantos desejam seguir Jesus, mas querem primeiro sepultar suas tradições, terminar seus projetos, esperar a estabilidade. Desejam o Reino, mas sem ruptura. Esperam condições ideais, uma fé sem travessia. A teologia da prosperidade alimenta essa ilusão: uma fé que promete bênçãos, mas recusa a cruz. Uma religião que oferece ninhos e tocas, mas não barcas em movimento. Os mortos continuam sepultando os mortos: são os que vivem de aparências, presos ao moralismo, ao clericalismo, à idolatria institucional.

Mateus 8,18-22 permanece como um dos mais incisivos testes espirituais do Evangelho: ele desmonta qualquer tentativa de reduzir o seguimento de Jesus a adesão confortável, a pertencimento institucional ou a identidade religiosa estabilizada. A travessia proposta não é metáfora decorativa, mas ruptura concreta com formas de vida que absolutizam segurança, tradição sem vida e religiosidade sem justiça.

O ser humano  não pode ser   definido por pertença fixa, mas por movimento: o discípulo é aquele que atravessa. E essa travessia revela uma teologia do risco, onde fé não é proteção, mas exposição ao outro; não é fechamento identitário, mas abertura ao estrangeiro, ao excluído, ao impuro socialmente produzido.

Este conflito revela que as comunidades religiosas podem facilmente reproduzir lógicas de poder, distinção e exclusão, transformando o sagrado em capital simbólico, é nesse ponto, que  o Evangelho se torna denúncia profética contra qualquer forma de religião que legitime desigualdades, silencie a dor dos pobres ou se alinhe a projetos políticos que absolutizam ordem, controle e hierarquia como se fossem vontade divina. A crítica não se dirige apenas a estruturas internas da Igreja, mas também a leituras ideológicas,  inclusive de extrema direita  que instrumentalizam o nome de Deus para justificar exclusões, violência simbólica ou indiferença social.

Jesus, porém, desestabiliza essas construções. Ele não oferece abrigo ideológico nem segurança institucional. Sua resposta ao escriba e ao discípulo em luto revela que o Reino não tolera adiamentos, nem sacraliza estruturas mortas. O “segue-me” rompe o tempo da procrastinação religiosa e inaugura o tempo da decisão.

A tradição profética bíblica sustenta essa mesma lógica: Isaías denuncia culto vazio (Is 1), Amós rejeita liturgias desconectadas da justiça (Am 5), e os profetas insistem que Deus não habita ritos sem ética. No Novo Testamento, essa linha culmina na denúncia dos “sepulcros caiados” (Mt 23), onde a aparência religiosa encobre morte interior. Assim, a travessia para a outra margem não é apenas deslocamento geográfico de Jesus, mas convocação permanente da Igreja e de cada discípulo. Permanecer na margem conhecida é, em última instância, recusar o Reino que se faz encontro com o outro.

As perguntas que  precisamos  nos fazer  não é teórica, mas existencial: 

  • Que tipo de fé se está vivendo? 
  • Uma fé que protege estruturas?
  • Uma fé que atravessa fronteiras?
 O Evangelho não permite neutralidade. Ele obriga decisão.

E enquanto houver multidões, instituições, tradições e ideologias tentando fixar Deus em uma margem segura, o Cristo de Mateus continuará  atravessando para a outra margem. E essa margem hoje são os presídios superlotados, os hospitais sem atendimento, as favelas esquecidas, as travestis na rua, os povos indígenas acuados, os refugiados ignorados. A travessia hoje se faz na escuta dos que não têm voz, no abraço dos indesejados, na coragem de romper com a religião domesticada. Por isso, a barca continua partindo. E nela estão os que optaram por seguir, mesmo sem garantias: as Conferências Vicentinas, que batem nas portas dos pobres com o rosto da ternura; os irmãos da Toca de Assis, que vivem entre os rejeitados; padres como Júlio Lancellotti, que atua na cidade de São Paulo, especialmente na região da Mooca e do Brás, na Pastoral do Povo da Rua, enfrentando diariamente a indiferença institucional e a hostilidade urbana com o evangelho do acolhimento; e Renato Chiera, que fundou e conduz a Casa do Menor São Miguel Arcanjo em Miguel Couto, distrito de Nova Iguaçu (RJ), lugar onde a esperança brota do asfalto quente e das vielas feridas, acolhendo adolescentes marcados pela violência, pelo tráfico e pela exclusão. Ambos recusam os altares dourados e preferem a calçada e o barraco como sacrário, como espaço sagrado onde o Cristo abandonado é tocado, lavado, alimentado e chamado pelo nome. A Pastoral Carcerária, que enfrenta o sistema penal e enxerga Cristo em cada cela, é outra expressão dessa travessia pascal. Esses homens e mulheres não sepultam os vivos. Eles os libertam. São parábolas encarnadas do Evangelho. Testemunhos que desmascaram uma fé que se esconde atrás de desculpas. Eles não estão apenas no templo, mas na travessia. E nos interrogam com força:

  • Que margem ainda me prende? 
  • Que morte me paralisa? 
  • Que desculpa piedosa me  impede de dizer sim ao chamado?

No Reino, os mortos vivem, e os vivos sepultados na religião morrem.

Por isso, não há tempo para desculpas. O seguimento é hoje. Nunca amanhã. Não se trata de saber mais, mas de seguir. Não de sentir, mas de andar. Não de venerar, mas de viver.

Jesus continua a dizer: “Segue-me.” E a barca segue. Com ou sem você.

DNonato – Teólogo do Cotidiano - “O discipulado é sempre hoje. Nunca amanhã.”