quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 1,29-39

 
A Boa-Nova proclamada em Marcos 1,29-39, retomada pela liturgia tanto na primeira quarta-feira do Tempo Comum nos anos pares quanto no 5º Domingo do Tempo Comum do Ano B, não nos apresenta apenas um fragmento cronológico da atividade inicial de Jesus, mas desvela um verdadeiro eixo estruturante de sua identidade e missão. Trata-se de um texto-matriz, no qual se entrelaçam cristologia, espiritualidade, pastoral e antropologia de modo inseparável. A repetição litúrgica dessa perícope não é casual nem meramente pedagógica; ela obedece à lógica própria do Ano Litúrgico, no qual a Palavra não é simples memória de um passado venerável, mas acontecimento vivo que se atualiza e interpela a comunidade crente em cada tempo e contexto histórico.

Ao insistir nesse trecho, a liturgia indica que estamos diante de um núcleo revelador do Evangelho: o modo como Jesus vive sua relação com o Pai, sua proximidade radical com os doentes, os pobres e os possuídos, e sua recusa em reduzir a missão a sucesso, aplauso ou fixação em um único lugar. Marcos nos oferece, aqui, não apenas ações de Jesus, mas um retrato existencial: um Messias que se move entre a casa e a rua, entre o silêncio da oração e o clamor das multidões, entre a compaixão concreta e a liberdade interior que o impede de ser capturado pela lógica da demanda incessante.

Nesse sentido, a Palavra proclamada não apenas informa, mas conforma; não apenas narra, mas provoca deslocamentos interiores. Ela educa o olhar da Igreja, purifica suas práticas e questiona seus modelos pastorais. Ao retornar ciclicamente a esse texto, a liturgia recorda que a identidade cristã nasce desse equilíbrio sempre tenso entre intimidade com Deus e entrega à humanidade ferida, entre contemplação e missão, entre presença compassiva e liberdade profética. Marcos 1,29-39 não descreve apenas o que Jesus fez, mas revela quem Ele é 9 e, por isso mesmo, quem a Igreja é chamada a ser no coração do mundo.

O relato começa com um deslocamento que já é, em si, uma chave hermenêutica: Jesus sai da sinagoga e entra na casa. A sinagoga representa o espaço institucional da fé, da tradição interpretada, da Lei proclamada; a casa representa o espaço da vida concreta, das relações familiares, das fragilidades ocultas, do cotidiano onde a existência real se desenrola. 

Marcos constrói, assim, uma teologia do limiar: o Reino não permanece encerrado no espaço do culto, mas atravessa a fronteira entre o sagrado e o profano. Essa dinâmica encontra eco direto na Dei Verbum, quando o Concílio Vaticano II afirma que Deus “fala aos homens como amigos e conversa com eles” na história concreta (DV 2). A revelação não se dá fora da vida, mas dentro dela.

Na casa de Simão e André, Jesus encontra a sogra de Simão prostrada por causa da febre. A linguagem é densa de significado. No horizonte bíblico, a doença não é apenas um dado clínico, mas uma experiência que afeta a totalidade da pessoa, comprometendo sua relação com Deus, com a comunidade e consigo mesma. A prostração indica alguém impedido de se levantar, de assumir sua posição na trama social e simbólica da vida. Textos como o Salmo 38,4 ou Isaías 1,5-6 expressam essa compreensão integral do adoecimento como sinal de desordem que ultrapassa o corpo físico.

Jesus não cura à distância. Ele se aproxima, toma-a pela mão e a levanta. Cada gesto carrega densidade cristológica e soteriológica. Aproximar-se rompe a lógica da distância religiosa; tocar desafia o medo da impureza ritual; levantar antecipa a linguagem pascal da ressurreição. O verbo grego egeírein, usado aqui, será o mesmo empregado para falar da ressurreição de Jesus (Mc 16,6). Desde o início do Evangelho, Marcos anuncia que a missão de Jesus consiste em colocar de pé os que foram derrubados pelas múltiplas formas de morte que atravessam a história.

Esse gesto de Jesus confronta frontalmente uma religião centrada na pureza legal e não na misericórdia. O Concílio Vaticano II, ao afirmar que “a pessoa humana é e deve ser o princípio, o sujeito e o fim de todas as instituições sociais” (Gaudium et Spes, 25), oferece uma chave de leitura para esse gesto evangélico. A cura não é um ato mágico, mas uma restauração da dignidade. Jesus devolve àquela mulher a capacidade de participar da vida comunitária.

Curada, ela se levanta e passa a servir. O serviço, longe de ser reduzido a uma função subalterna, é expressão de uma vida reintegrada. O mesmo verbo diaconia  será usado para definir o próprio ministério de Jesus: “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mc 10,45). A cura gera missão, e a experiência do encontro com Cristo desdobra-se necessariamente em compromisso. O Documento de Aparecida expressa essa dinâmica ao afirmar que “todo encontro autêntico com Jesus Cristo desperta o discípulo para a missão” (DAp 11).

Ao entardecer, depois do pôr do sol, a cidade inteira se reúne à porta. O detalhe temporal não é secundário. Ele revela uma sociedade marcada por restrições religiosas que, muitas vezes, atrasam o cuidado com a vida. As pessoas esperam o fim do sábado para buscar cura. Jesus, porém, acolhe a todos. Cura muitos e expulsa demônios, mas impõe silêncio aos espíritos impuros. Ele não permite que forças ambíguas definam sua identidade. Aqui se revela uma crítica antecipada a toda tentativa de instrumentalizar Jesus para fins ideológicos, religiosos ou mercadológicos.

Essa dimensão crítica torna-se particularmente relevante no confronto com as teologias da prosperidade e do domínio. Tais correntes reduzem o Evangelho a um sistema de recompensas, no qual a fé se converte em investimento e Deus em garantidor de sucesso. O Evangelho de Marcos desmonta essa lógica ao apresentar um Jesus que cura por compaixão, não por barganha; que se retira quando é procurado por todos, recusando-se a transformar a fé em espetáculo. A Evangelii Gaudium denuncia com clareza essa perversão ao afirmar que “uma economia de exclusão e desigualdade mata” (EG 53), e o mesmo princípio pode ser aplicado a uma religiosidade que mercantiliza a graça.

Na madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levanta e vai para um lugar deserto para rezar. Esse movimento revela a fonte de sua ação. A intensa atividade não nasce do ativismo, mas da oração. O deserto, na tradição bíblica, é lugar de reencontro com Deus e de redefinição da missão, como em Êxodo 3, 1 Reis 19 e Oséias 2,16. Jesus revela que sua identidade messiânica não se constrói a partir da aclamação popular, mas da intimidade com o Pai.

Lucas 11,1-4 ilumina profundamente essa cena ao mostrar que a oração de Jesus provoca nos discípulos o desejo de aprender a rezar. O Pai-Nosso não é apenas uma fórmula devocional, mas uma pedagogia do Reino. Chamar Deus de Pai redefine a imagem do sagrado; pedir o pão cotidiano questiona a lógica da acumulação; suplicar o perdão reconstrói relações sociais; pedir para não cair em tentação denuncia as seduções do poder. Trata-se de uma oração profundamente existencial, social e política.

Quando os discípulos dizem: “Todos te procuram”, Jesus responde com uma decisão que rompe expectativas: ir a outros lugares. Ele não se fixa onde é reconhecido, não constrói um centro de poder religioso. Sua autoridade nasce do envio. Aqui se revela uma crítica estrutural ao clericalismo, entendido como apropriação do sagrado e concentração de poder. O Concílio Vaticano II recorda que a Igreja é, por sua própria natureza, missionária (Ad Gentes, 2), e que todos os batizados participam dessa missão (Lumen Gentium, 31). O Documento de Medellín reforça essa perspectiva ao denunciar estruturas eclesiais que se afastam do povo e de suas dores (Medellín, Justiça, 6).

Do ponto de vista antropológico e sociológico, o texto revela um Jesus atento às estruturas que adoecem corpos e subjetividades. A doença não é apenas individual, mas também social. A exclusão, o legalismo e a desigualdade produzem corpos prostrados e histórias interrompidas. Ao tocar, curar e levantar, Jesus realiza uma libertação integral, antecipando a visão conciliar segundo a qual “não há nada verdadeiramente humano que não encontre eco no coração dos discípulos de Cristo” (GS 1).

Santo Agostinho afirmava que a oração sustenta a ação e impede que o serviço se torne vazio. João Crisóstomo insistia que a autoridade de Cristo não provém do aplauso, mas da comunhão com o Pai. Orígenes via na ida ao deserto um convite permanente à Igreja para não se deixar capturar pelo ruído do mundo. Essas leituras permanecem atuais diante de uma Igreja tentada pela autorreferencialidade.

A CNBB, em seus documentos pastorais, insiste que a espiritualidade cristã deve integrar fé, vida e compromisso social. As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora afirmam que “não há evangelização autêntica sem compromisso com a vida plena para todos” (DGAE, n. 32). As Campanhas da Fraternidade, ao longo das décadas, ecoam a mesma dinâmica evangélica: oração que se transforma em ação e ação que retorna à oração.

Jesus percorre toda a Galileia, pregando nas sinagogas e expulsando demônios. O movimento é contínuo, itinerante, aberto. A fé cristã não se reduz a práticas individualistas nem a experiências privadas. Ela se constrói no encontro e na missão. O Documento de Aparecida denuncia o individualismo religioso e convoca a Igreja a uma conversão pastoral permanente (DAp 365).

Assim, Marcos 1,29-39, proclamado na primeira quarta-feira do Tempo Comum e no 5º Domingo do Ano B, impõe-se como um espelho incômodo, crítico e profundamente profético para a Igreja de hoje. O texto não permite neutralidade nem leituras domesticadas. Ele nos constrange a discernir a origem de nossa ação pastoral, a perguntar se ela brota da intimidade com o Pai ou da lógica da eficiência, do sucesso religioso e da visibilidade. Obriga-nos também a confrontar a imagem de Deus que anunciamos: o Deus que se aproxima, toca, cura e liberta, ou um deus funcional, instrumentalizado para legitimar projetos de poder, prosperidade e controle.

Diante desse Evangelho, somos chamados a romper com toda forma de fé mercantilizada, que transforma o sofrimento humano em palco, a graça em produto e a missão em espetáculo. Somos igualmente convocados a denunciar o clericalismo que centraliza, silencia e se apropria da ação de Deus, esquecendo que Jesus não monopoliza o Reino, mas o inaugura em saída, em movimento, em constante deslocamento. Em Jesus, oração e compromisso histórico não se opõem: a madrugada solitária diante do Pai é o lugar onde se purifica a missão e se redefine o rumo, para que a compaixão não se perca em ativismo nem a oração se converta em fuga da realidade.

Marcos 1,29-39 recorda à Igreja que a autoridade de Jesus nasce da coerência entre intimidade com Deus e entrega radical ao sofrimento humano. Não há anúncio autêntico sem escuta profunda, nem verdadeira espiritualidade que não desemboque em compromisso concreto com os doentes, os pobres, os invisibilizados e os descartados. Por isso, retomar o caminho do Reino exige coragem profética para sair de Cafarnauns confortáveis, recusar aplausos fáceis e seguir adiante, mesmo quando isso implica atravessar desertos, incompreensões e conflitos.

A vitalidade da missão, ontem como hoje, não nasce das estratégias mais eficientes, das estruturas mais robustas ou dos discursos mais sedutores, mas do encontro fiel, silencioso e transformador com o Pai, que nos envia sempre de novo para anunciar, curar, libertar e servir. É nesse movimento pascal — da oração ao caminho, do silêncio à palavra, do encontro com Deus ao encontro com os irmãos — que a Igreja reencontra sua verdade, sua autoridade e sua esperança.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

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