Mostrando postagens com marcador #CríticaSocial. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #CríticaSocial. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Além do Conservadorismo: O Evangelho de Jesus

Jesus não pode ser aprisionado em categorias ideológicas modernas, mas podemos afirma com todas as letras que não seria ligado ao neoconservadorismo. Embora  saibamos  que Ele  é  maior  que os  rótulos políticos porque sua identidade e missão nascem de uma realidade histórica concreta e, ao mesmo tempo, transcendem qualquer sistema fechado de pensamento. Reduzi-lo a conservador, progressista, revolucionário ou tradicionalista não é apenas impreciso; é hermeneuticamente empobrecedor. A pergunta decisiva não é se ele confirma nossas posições, mas se nossas posições resistem ao crivo do Reino de Deus que ele anunciou e encarnou.

Para tratar da relação entre Jesus ideologia com rigor, é necessário articular três eixos inseparáveis:

  •  o contexto histórico do século I, 
  • a hermenêutica que ele aplicou às Escrituras de Israel e
  • efeitos sociopolíticos concretos de sua prática. 

Sem esse tripé, a reflexão degenera em projeção contemporânea sobre um judeu galileu inserido em conflitos muito específicos de seu tempo.

Historicamente, Jesus vive sob ocupação romana. A Galileia do século I era marcada por tributação pesada, concentração fundiária crescente e empobrecimento camponês. Estudos arqueológicos revelam contrastes entre grandes propriedades e pequenas aldeias rurais. O império extraía impostos por meio de sistemas indiretos, frequentemente exploratórios. Nesse cenário, a memória fundante de Israel não era de acomodação ao poder imperial, mas de libertação. Em Êxodo 3,7-10, Deus se apresenta como aquele que vê a opressão e escuta o clamor dos escravizados. O Deuteronômio insiste na responsabilidade comunitária para com pobres, viúvas, órfãos e estrangeiros (Dt 15,7-11; 24,17-22). Levítico 25 institui o Jubileu como mecanismo de interrupção da perpetuação da miséria, devolvendo terras e libertando endividados. Isaías 58, Amós 5 e Miquéias 6 denunciam culto desvinculado de justiça. Jesus se move dentro dessa tradição crítica e profética; ele não inaugura um conservadorismo religioso preocupado em preservar estruturas, mas radicaliza a linha libertadora das Escrituras.

Quando afirma em Mateus 5,17 que não veio abolir a Lei, mas cumpri-la, utiliza o verbo grego plēróō, que indica levar à plenitude, realizar plenamente o sentido. Cumprir não é congelar; é revelar o telos, a finalidade última. No Sermão da Montanha (Mt 5–7), a fórmula “Ouvistes o que foi dito… Eu, porém, vos digo” (Mt 5,21-48) manifesta autoridade interpretativa. Ele não descarta a Torá; reconduz sua finalidade à humanização radical. A Lei deixa de ser instrumento de controle e retorna a ser caminho de vida. Em Mateus 22,37-40, resume Lei e Profetas no amor a Deus e ao próximo. Em Mateus 23,23, denuncia a inversão que absolutiza minúcias enquanto negligencia justiça, misericórdia e fidelidade. Sua hermenêutica é ética e teleológica: toda norma deve servir à vida que Deus deseja.

Essa chave interpretativa aparece de modo explícito quando confronta tradições que anulavam o mandamento. Em Marcos 7,1-13, distingue Torá de parádosis. O problema não é a tradição em si, mas sua absolutização a ponto de contradizer o próprio mandamento divino. Ao declarar que nada que entra pela boca torna o ser humano impuro (Mc 7,14-23), desloca a pureza do ritual para o coração. Ele atinge o sistema simbólico que sustentava fronteiras identitárias no judaísmo do Segundo Templo. Em Marcos 2,23-28, afirma que o sábado foi feito para o ser humano, e não o contrário. Em Lucas 13,10-17, cura no sábado e chama a mulher encurvada de “filha de Abraão”, reintegrando-a à dignidade da promessa. A Lei não pode ser usada contra a vida que pretende proteger.

No episódio da mulher adúltera (Jo 8,1-11), a legislação de Levítico 20,10 previa punição severa. Jesus não relativiza o pecado; a exortação final é clara: “vai e não peques mais”. No entanto, rompe com a lógica punitiva seletiva e expõe a hipocrisia coletiva. Ele desloca o foco da punição para a consciência. Sua hermenêutica é restaurativa, não legalista. O centro não é preservar honra institucional, mas restaurar pessoas.

O encontro com a samaritana (Jo 4) revela outra dimensão dessa prática. Judeus e samaritanos viviam tensões históricas profundas (cf. 2Rs 17). Um rabino não dialogava publicamente com mulher desconhecida. Ainda assim, Jesus atravessa barreiras étnicas, religiosas e de gênero. Oferece “água viva” a quem estava fora do centro religioso e revela sua identidade messiânica na margem. A revelação não se restringe aos guardiões oficiais da tradição.

As sociedades mediterrâneas eram estruturadas por códigos rígidos de pureza e honra. Tocar um leproso (Mc 1,40-45), permitir ser tocado por uma mulher com hemorragia (Mc 5,25-34) ou sentar-se à mesa com publicanos (Mc 2,15-17) eram gestos socialmente disruptivos. Comer junto significava reconhecimento e pertencimento. A mesa de Jesus é espaço de reconstrução social. Ele redefine quem pode participar da comunhão. Conservadorismos identitários, ao contrário, tendem a reforçar fronteiras como mecanismo de autopreservação.

No campo de gênero, a prática de Jesus confronta estruturas patriarcais. Ele legitima Maria aos seus pés como discípula (Lc 10,38-42), inclui mulheres na missão (Lc 8,1-3) e confia a Maria Madalena o anúncio pascal (Jo 20,11-18). Em Marcos 10,2-12, ao tratar do divórcio, impede o uso da Lei como instrumento de descarte feminino. Ele retoma Gênesis 1,27 e 2,24 para afirmar dignidade e reciprocidade. Sua ética não reforça patriarcado; confronta-o à luz do projeto criacional.

No campo econômico, sua palavra é direta: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). A parábola do rico insensato (Lc 12,15-21) denuncia a ilusão da acumulação; a do rico e Lázaro (Lc 16,19-31) revela a indiferença estrutural que naturaliza desigualdades. Em Lucas 19,1-10, a conversão de Zaqueu implica restituição concreta e reparação econômica. Em Mateus 25,31-46, o critério escatológico é o cuidado com os vulneráveis. O Reino não legitima desigualdade como ordem divina; submete riqueza e poder ao julgamento da misericórdia.

Quanto ao poder político, Jesus recusa dominar reinos (Mt 4,8-10), redefine autoridade como serviço (Mc 10,42-45) e relativiza César (Mc 12,13-17). Em João 18,36, afirma que seu Reino não nasce da lógica imperial. A cruz, sob acusação política de sedição, revela o choque entre o projeto do Reino e alianças entre poder religioso e império. Ele não morre defendendo o status quo; morre porque sua visão de Reino ameaça estruturas consolidadas

Ele redefine família (Mc 3,35), relativiza laços sanguíneos em hipérbole semítica (Lc 14,26) e lembra que a cidadania última não se esgota nas estruturas terrenas (Fp 3,20). Em Lucas 4,18-19, assume Isaías 61 como programa jubilar: boas-novas aos pobres, libertação aos cativos, restauração da vista aos cegos. Ele encarna o Deus do Êxodo e ecoa o Jubileu. Seu Reino é fermento que transforma por dentro (Mt 13,33), semente que cresce além do controle humano (Mc 4,26-32). A lógica não é de imposição pela força, mas de transformação orgânica.

As prática de Jesus  desestabilizava as  hierarquias fixas.  Desmontando os  mecanismos de bode expiatório, como no cálculo político de João 11,50, onde a morte de um é vista como solução para preservar a ordem. Ele reconstrói identidade não por etnia, tradição ou poder, mas pela adesão ao Reino. O pertencimento deixa de ser herança automática e torna-se resposta ética, lendo tais fatos com a cabeça  da época  podemos afirmar que Jesus  rompia com um tradicionalismo  que escraviza,  rompendo com o moralismo  hipocrita

O problema, portanto, não é conservar valores; é absolutizá-los acima da vida. Não é possuir tradição; é idolatrá-la. Não é defender moralidade; é transformá-la em arma. Jesus coloca misericórdia no centro (Mt 9,13; Os 6,6). Seu conflito não é com pecadores arrependidos, mas com sistemas religiosos endurecidos (Mt 23). A religião que se torna mecanismo de autopreservação institucional perde sua vocação profética. 

Observando os  fenômenos contemporâneos em que fé, identidade e poder político se entrelaçam. No Carnaval de 2026, a Acadêmicos de Niterói apresentou a alegoria “Família em Conserva”, dentro de um enredo que dialogava criticamente com setores identificados como neoconservadores. A reação pública foi intensa. Lideranças políticas, entre ela  a ex-primeira dama ( que foi mãe  solteira,  alguns afirmam foi amante  de homem  casado, está  casada  com   um homem que já foi casado 2 vezes: tais praticas  fogem do padrão defendido de  conservadorismo em outros tempos) 

Querem classificar  o desfile como escárnio à fé cristã e à família tradicional. Parlamentares responderam com imagens geradas por inteligência artificial, ressignificando a metáfora das latas. Independentemente da avaliação estética ou política do episódio, ele revela um dado sociológico importante: para determinados grupos, a noção de família tornou-se símbolo identitário absoluto, associado à defesa de um projeto moral e político específico. Qualquer crítica é percebida como ameaça existencial. A fronteira simbólica entre “nós” e “eles” se endurece. Psicologicamente, isso reforça coesão interna; politicamente, mobiliza bases. No entanto, à luz do Evangelho, a pergunta permanece: a família cristã é ícone intocável ou comunidade de amor que se mede pela prática da justiça?

Podemos  responder Olhando  na avenida da vida e Sapucai  quando uma  Escola de Samba revela, com cores e ritmos, muito mais do que alegria: verdades que incomodam. A “família neoconservadora e  enlatada” que desfilou  críticada por evangélicos  e católicos não diz de qual religião ou grupo social,  mas eles assumiram  como uma crítica a lata deles.  Eles se apegam a questão  ideológicas, com  uma postura ideológica que se agarra ao passado, recusando evolução, abraçando hipocrisia e preconceito e ignorando a  questão de fé

Entre alegorias e fantasias, podemos ver esse comportamento como máscaras: corpos presentes, mas corações e mentes fechados. A escola de samba nos mostra que a tradição e a alegria podem conviver com crítica e reflexão. E assim, como na crítica ao neoconservadorismo, percebemos que muitas vezes o que é exaltado como virtude familiar é, na verdade, um conservadorismo de conveniência,  rígido, artificial e resistente à transformação. O desfile nos lembra que a vida e a sociedade avançam; quem se fecha em “conservas” ideológicas perde o compasso da realidade, enquanto o mundo gira, dança e evolui.

A tradição bíblica aponta para uma expansão progressiva do povo de Deus. Gênesis 12 inaugura promessa a Abraão que culmina em Isaías 56,6-8, onde estrangeiros são incluídos. Jesus, ao afirmar que quem faz a vontade de Deus é sua verdadeira família (Mc 3,35), desloca o eixo da pertença. Ele não destrói a família, mas impede sua absolutização. Quando a família se torna instrumento de exclusão ou capital político, deixa de refletir o Reino.

O episódio carnavalesco evidencia como símbolos religiosos podem ser instrumentalizados em disputas culturais. Conservadorismos contemporâneos frequentemente fundem fé com nacionalismo, transformam Bíblia em arma cultural e tratam adversários como inimigos morais. Hermeneuticamente, privilegiam textos de controle e ignoram o fio condutor da justiça. Jesus, porém, lê toda Escritura à luz do amor a Deus e ao próximo (Mc 12,29-31). Qualquer leitura que produza exclusão sistemática dos vulneráveis contradiz esse eixo.

A história demonstra que a religião pode legitimar dominação ou confrontá-la. No caso de Jesus, vemos confronto. Ele purifica o templo (Jo 2,13-17), denuncia hipocrisias, chama à metanoia. Ele restaura Pedro (Jo 21), inaugura nova criação (2Cor 5,17) e promete consumação escatológica (Ap 21). Seu horizonte é mais amplo que qualquer plataforma ideológica.

Se estivesse no cenário atual, confrontaria o uso da fé para manter privilégios, denunciaria idolatria do mercado que produz pobreza (Mt 6,24), criticaria lideranças que transformam religião em capital político e exigiria coerência daqueles que falam em valores, mas negligenciam justiça, misericórdia e fidelidade (Mt 23,23). Não se alinharia a projetos que absolutizam tradição como se fosse intocável.

A Bíblia inteira aponta para um Deus que toma partido da vida. Deuteronômio 15 convoca ao cuidado com o pobre; Miquéias 6,8 resume a vontade divina em praticar justiça, amar misericórdia e caminhar humildemente. Jesus sintetiza essa tradição. Reduzi-lo a ícone do conservadorismo moderno é ignorar sua prática histórica e sua hermenêutica profética. Ele não foi ideólogo da preservação de estruturas injustas, mas anunciador de um Reino que subverte lógicas de poder e chama todos à conversão profunda.

Segui Jesus  exige mais que conservar costumes, Ele mecmo rompia com tradições hipocritas. Ele  Exige de todos o  discernimento histórico, a honestidade hermenêutica e a coragem profética. Exige submeter nossas ideologias; quaisquer que sejam  a luz do Evangelho. O Reino que ele anunciou coloca justiça, misericórdia e fidelidade acima de qualquer sistema ideológico, religioso ou cultural. Ele permanece, ontem e hoje, a favor da vida abundante (Jo 10,10).

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 13 de julho de 2025

A Face Oculta do Brasil: Golpismo, Tarifaço e o Comunismo Inventado


A música “Brasil”, de Cazuza, lançada em 1988 no calor da redemocratização, não é apenas um grito artístico, mas um chamado profético que continua a ecoar com a mesma urgência nos dias de hoje. “Brasil, mostra tua cara / Quero ver quem paga pra gente ficar assim” — esse verso é uma denúncia direta contra uma elite que mantém o país em uma festa pobre, onde a miséria e a exclusão social são convidadas não admitidas. Um país que se sustenta no cinismo, no medo e na manipulação da fé para perpetuar privilégios.

Essa denúncia ganha maior sentido quando olhamos para o chamado “tarifaço” de Donald Trump, que, a partir de 1º de agosto de 2025, impõe uma tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos. Essa medida, anunciada com a clara motivação de defender Jair Bolsonaro, acusado de tentativa de golpe, é uma ameaça direta à economia brasileira e à soberania nacional. Trump, em sua carta pública no X e em declarações recentes, deixou explícito que essa escalada tarifária serve para pressionar o governo Lula e proteger seus aliados políticos no Brasil.

O impacto econômico já é sentido na inflação dos preços básicos: a cesta básica aumentou em 15% nos últimos seis meses, o gás de cozinha subiu 25% e a energia elétrica 18%, elevando o custo de vida e aprofundando a pobreza das camadas mais vulneráveis. Esse “tarifaço” lembra o verso de Cazuza: “Brasil, mostra tua cara”. A cara que se mostra é a de um país vulnerável, exposto às chantagens internacionais e ao jogo político sujo que sacrifica a população para manter privilégios. É a face de um Brasil cuja economia depende da exportação, mas que é punido por sua resistência democrática. Enquanto isso, Bolsonaro e sua base celebram um patriotismo de fachada, incapaz de proteger o povo e que apenas reproduz o ciclo da exclusão e do sofrimento.

Essa mesma lógica do “nacionalismo” falacioso e protecionista foi importada para o Brasil pelo bolsonarismo, que com um discurso de “Brasil acima de tudo” promoveu um “tarifaço social” que atingiu brutalmente a população mais vulnerável: alta de preços no gás, na energia e nos alimentos, enquanto desmontava o Estado e entregava os setores estratégicos ao capital especulativo.

O bolsonarismo revelou-se uma aliança perversa entre o agronegócio predatório, milícias digitais, setores golpistas e lideranças religiosas fundamentalistas, que instrumentalizaram a fé para legitimar o autoritarismo e o ódio. Essa aliança não é um mero acidente: é o projeto consciente de uma teocracia autoritária, onde o moralismo hipócrita se transforma em ferramenta de dominação. O patriotismo, que deveria ser amor ao povo e à justiça, virou máscara para a necropolítica — política da morte que silencia diante da fome, da destruição da Amazônia e da violência contra os jovens negros e pobres. 

Aqui entra a crítica bíblica profunda, que denuncia a hipocrisia do falso culto: Isaías alerta com veemência que Deus não quer “jejum em que o homem se aflige, inclina a cabeça como junco e se deita sobre cilícios e cinzas” se não vier acompanhado da justiça social, da defesa dos oprimidos e da promoção do direito (Isaías 58). Amós condena os que “pisam os pobres no pó da terra” e “arruinam o destino dos humildes” enquanto entoam louvores vazios (Amós 5). Jesus confrontou duramente os fariseus, denunciando sua religiosidade hipócrita que “fecham o reino dos céus diante dos homens” e vivem a “explorar os indefesos” (Mateus 23). Essa tradição profética é a base para entender a rejeição da religião vazia e do moralismo instrumentalizado pelo bolsonarismo.

A tentativa explícita de golpe em 2022 escancarou o caráter golpista desse projeto. A existência comprovada da Abin paralela — um órgão clandestino usado para perseguir adversários políticos e manipular informações — demonstra o grau de aparelhamento e subversão institucional. Isso ocorreu com a cumplicidade de setores militares, empresariais e religiosos, que apoiaram a tentativa de destruir a democracia brasileira e impor um regime autoritário disfarçado de cristianismo. Mais recentemente, na primeira semana de julho de 2025, o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump publicou uma carta em sua conta no X (antigo Twitter) em defesa explícita de Jair Bolsonaro, atacando o governo Lula e questionando sua legitimidade. Essa manifestação pública internacionaliza o golpismo brasileiro, revelando que o bolsonarismo não é um fenômeno isolado, mas parte de uma rede global de extrema-direita que busca minar democracias e impulsionar agendas autoritárias em vários países. Essa aliança internacional fortalece os setores que tentam manter Bolsonaro relevante e desestabilizar o Brasil democraticamente eleito.

É preciso esclarecer o que é o comunismo histórico e o que é o “comunismo da mente louca” vendido pela extrema direita. O comunismo real nasceu da crítica racional à exploração capitalista e propôs a construção de uma sociedade sem classes, fundamentada na justiça social. Apesar dos erros históricos de regimes autoritários, foi um projeto político concreto e teorizado. Já o comunismo da extrema direita é uma invenção delirante, que mistura qualquer forma de contestação ou luta por direitos com um inimigo imaginário. Basta discordar de Bolsonaro para ser tachado de comunista — como ocorreu com a Rede Globo, Sérgio Moro, Alexandre Frota e tantos outros.

Esse rótulo serve para criminalizar o pensamento crítico, sufocar o debate e justificar perseguições políticas. É o novo inquisidor digital e real, que ataca a educação pública, a ciência, a cultura e a solidariedade. É a versão tropical do fascismo, que usa a fé como arma para espalhar o ódio.

A festa pobre que Cazuza denunciou segue presente, mas agora institucionalizada como política de Estado. O bolsonarismo transformou o país em palco para um espetáculo de morte, intolerância e desinformação. A Constituição é rasgada, a democracia ameaçada, e a fé usada como cortina de fumaça.

A crítica ao clericalismo não pode ser esquecida. O bolsonarismo soube articular com setores religiosos — pastores, bispos e líderes — que instrumentalizaram a fé para vender prosperidade vazia, legitimar a violência e alimentar o ódio contra minorias. Essa religião de fachada desfigura o Evangelho libertador, traindo a missão profética de justiça e paz. 

Mas não há profecia sem esperança. O Evangelho nos chama a denunciar os falsos profetas, a enfrentar os poderes opressores e a anunciar a justiça do Reino de Deus. Como Jesus que confrontou os fariseus hipócritas, somos convocados a romper com as falsas religiões que legitimam a opressão.

A resistência existe e é plural: movimentos sociais, indígenas, jovens das periferias, artistas, intelectuais e tantas vozes que negam o silêncio e lutam por um Brasil livre. Eles são a verdadeira face do país que Cazuza desejava — um Brasil que conhece a verdade e, por isso, se liberta.

Não podemos esquecer que a liberdade e a democracia exigem luta diária. É tempo de resistência ativa, de engajamento na defesa dos direitos, da educação pública, da justiça social e da solidariedade. A fé autêntica se traduz em compromisso com a vida plena para todos.

Fechamos com as palavras fortes do presidente Lula, ditas em março de 2025 durante a inauguração do Hospital Universitário do Ceará:

“Esse país não tem dono. O dono do país é o povo brasileiro. E quanto melhor estiver o povo, melhor estará o Brasil.”

Que essa verdade nos inspire a continuar a luta contra o bolsonarismo, o fascismo e a religião vazia, em defesa de um Brasil justo, solidário e soberano.

DNonato – Teólogo do Cotidiano