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terça-feira, 12 de agosto de 2025

O Brasil à Venda Com Frete Grátis: O Patriotismo à La Bolsonaros

Enquanto o Brasil tenta defender sua economia e sua democracia, há quem atravesse o continente para oferecer nossa soberania num bandejão de fastfood diplomático — e o comprador ainda é pago para levar. Este não é um tropeço qualquer: é a prova de que, no jogo de xadrez geopolítico, temos peças que empurram o próprio rei para o xeque-mate — e ainda distribuem a coroa de presente.

Mais do que um episódio pontual, é a repetição de um velho padrão de subserviência das elites brasileiras. Da carta régia de 1808 ao WhatsApp de 2025, o roteiro é o mesmo: elites locais buscando aprovação do poder estrangeiro enquanto dizem agir pelo bem do país.

Desde o período colonial, essa dinâmica está entranhada em nossa história. A elite colonial sempre resistiu à independência, temendo perder privilégios garantidos pela metrópole portuguesa. Após a independência, no século XIX, foi a vez da submissão à Inglaterra, que ditava as regras econômicas e políticas da jovem nação. A elite brasileira, então, passou a babar por essa potência estrangeira, abrindo mão de soberania para manter seus interesses e o status quo.

A Proclamação da República, em 1889, longe de representar uma ruptura com esse padrão, foi um movimento liderado pelas elites militares e civis que continuaram a preservar interesses estrangeiros e oligárquicos. Mais do que libertar o país, consolidou um sistema que manteve a dependência econômica e política do Brasil em relação a potências externas, especialmente os Estados Unidos e a Inglaterra.

Durante a ditadura militar (1964–1985), o discurso oficial era um tripé supostamente inabalável: “defesa do mundo livre”, “defesa da democracia” e “combate ao comunismo”. Hoje sabemos que tudo isso foi uma fake news — uma cortina de fumaça para encobrir o golpe e a repressão que se seguiram, que violaram direitos, assassinaram e silenciaram vozes democráticas. A história provou que a ditadura não foi defesa da democracia, mas seu sepultamento.

Agora, com Eduardo Bolsonaro, o método é o mesmo,  só trocaram a farda por stories no Instagram.

Na América Latina, o filme é repetido. Em 1954, na Guatemala, Jacobo Árbenz caiu porque contrariou a United Fruit Company. Em 1973, Salvador Allende foi derrubado sob cerco econômico e sabotagem política. E mais recentemente, Cuba e Venezuela sofrem embargos econômicos e tentativas de isolamento político que visam sufocar suas soberanias.

No governo Bolsonaro, a base espacial de Alcântara, localizada no Maranhão — uma das mais estratégicas do mundo devido à sua proximidade com o Equador, que facilita lançamentos com menor gasto de combustível — foi cedida para uso dos Estados Unidos. Essa entrega representa uma grave afronta à soberania nacional, pois permite que uma potência estrangeira controle uma instalação estratégica em nosso território, com potencial impacto militar e comercial.

Sempre com ajuda interna, sempre com um rosto local para legitimar a traição. Eduardo Bolsonaro não é inovador — é só mais um capítulo do manual do entreguista. Enquanto Eduardo negocia em Washington, o trabalhador brasileiro vê sua fábrica fechando, o pequeno comerciante apertar o cinto e a esperança de dias melhores fugir. 

Para quem serve esse entreguismo?

 Para o povo, certamente não.

Sociologicamente, o bolsonarismo fez do patriotismo um culto familiar. A lealdade não é à Constituição, mas a um sobrenome. Governadores que sonham com a faixa presidencial se calam, com medo de perder a bênção do clã. É o caudilhismo latino-americano, agora com filtro de rede social.

Politicamente, não é “oposição”. É lobby contra o próprio país. Eduardo pressiona o governo Trump para parar o julgamento de Jair por tentativa de golpe e para aprovar uma anistia feita sob medida. Usa tarifas e barreiras comerciais como chantagem. Em países sérios, isso se chama sabotagem. Aqui, ainda há quem aplauda.

Antropologicamente, é teatro. Muita bandeira, muito hino, mas, nos bastidores, a pátria é mercadoria de exportação. É patriotismo de fachada: a plateia canta o refrão enquanto o país é entregue em suaves prestações… ou de graça — e o comprador ainda é pago para levar.

A resposta de Eduardo é a cereja do bolo: diz que não controla a agenda de Bessent (como se alguém acreditasse), mas admite que Trump apresentou “razões para as tarifas” — inclusive suspender o julgamento do pai. Tradução: obedecer ordens de Washington. E já avisou que volta para mais reuniões, com R$ 2 milhões do pai para financiar a missão. Persistente, sim. Patriota, não.

Como dizia Chico Buarque, “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia” — mas só se deixarmos o entreguismo de lado.

 Até quando aceitaremos que nossos representantes negociem nossa soberania como mercadoria de feira? 

Quem realmente serve ao Brasil nessa história?

A elite empresarial, que defende a “pauta liberal”, aplaude quando governadores culpam Lula por problemas criados pela extrema direita. Mas se fosse um político de esquerda articulando contra um governo de direita, já teríamos capa de jornal e contagem regressiva para o impeachment. Dois pesos, duas medidas.

A omissão da mídia e de líderes conservadores é cúmplice. Democracias não caem só por golpes: apodrecem por dentro, corroídas por quem acha que o próprio cargo vale mais que o país.

Num mundo multipolar, perder autonomia para interesses externos é retroceder décadas. O Brasil já resistiu a pressões externas e soube dizer não. Merece líderes que entendam que soberania não se negocia. Quem a vende é traidor.

Hoje, defender o Brasil significa exigir que Eduardo Bolsonaro perca o mandato, seja exonerado e responda por crime de lesa-pátria. O cidadão comum pode cobrar isso de seus representantes, apoiar movimentos pela democracia e não se calar diante do entreguismo.

Quem a vende é traidor. E no caso de Eduardo, nem precisa vender: o comprador leva de graça, é pago para isso e ainda recebe em casa com frete grátis.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

domingo, 13 de julho de 2025

A Face Oculta do Brasil: Golpismo, Tarifaço e o Comunismo Inventado


A música “Brasil”, de Cazuza, lançada em 1988 no calor da redemocratização, não é apenas um grito artístico, mas um chamado profético que continua a ecoar com a mesma urgência nos dias de hoje. “Brasil, mostra tua cara / Quero ver quem paga pra gente ficar assim” — esse verso é uma denúncia direta contra uma elite que mantém o país em uma festa pobre, onde a miséria e a exclusão social são convidadas não admitidas. Um país que se sustenta no cinismo, no medo e na manipulação da fé para perpetuar privilégios.

Essa denúncia ganha maior sentido quando olhamos para o chamado “tarifaço” de Donald Trump, que, a partir de 1º de agosto de 2025, impõe uma tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos. Essa medida, anunciada com a clara motivação de defender Jair Bolsonaro, acusado de tentativa de golpe, é uma ameaça direta à economia brasileira e à soberania nacional. Trump, em sua carta pública no X e em declarações recentes, deixou explícito que essa escalada tarifária serve para pressionar o governo Lula e proteger seus aliados políticos no Brasil.

O impacto econômico já é sentido na inflação dos preços básicos: a cesta básica aumentou em 15% nos últimos seis meses, o gás de cozinha subiu 25% e a energia elétrica 18%, elevando o custo de vida e aprofundando a pobreza das camadas mais vulneráveis. Esse “tarifaço” lembra o verso de Cazuza: “Brasil, mostra tua cara”. A cara que se mostra é a de um país vulnerável, exposto às chantagens internacionais e ao jogo político sujo que sacrifica a população para manter privilégios. É a face de um Brasil cuja economia depende da exportação, mas que é punido por sua resistência democrática. Enquanto isso, Bolsonaro e sua base celebram um patriotismo de fachada, incapaz de proteger o povo e que apenas reproduz o ciclo da exclusão e do sofrimento.

Essa mesma lógica do “nacionalismo” falacioso e protecionista foi importada para o Brasil pelo bolsonarismo, que com um discurso de “Brasil acima de tudo” promoveu um “tarifaço social” que atingiu brutalmente a população mais vulnerável: alta de preços no gás, na energia e nos alimentos, enquanto desmontava o Estado e entregava os setores estratégicos ao capital especulativo.

O bolsonarismo revelou-se uma aliança perversa entre o agronegócio predatório, milícias digitais, setores golpistas e lideranças religiosas fundamentalistas, que instrumentalizaram a fé para legitimar o autoritarismo e o ódio. Essa aliança não é um mero acidente: é o projeto consciente de uma teocracia autoritária, onde o moralismo hipócrita se transforma em ferramenta de dominação. O patriotismo, que deveria ser amor ao povo e à justiça, virou máscara para a necropolítica — política da morte que silencia diante da fome, da destruição da Amazônia e da violência contra os jovens negros e pobres. 

Aqui entra a crítica bíblica profunda, que denuncia a hipocrisia do falso culto: Isaías alerta com veemência que Deus não quer “jejum em que o homem se aflige, inclina a cabeça como junco e se deita sobre cilícios e cinzas” se não vier acompanhado da justiça social, da defesa dos oprimidos e da promoção do direito (Isaías 58). Amós condena os que “pisam os pobres no pó da terra” e “arruinam o destino dos humildes” enquanto entoam louvores vazios (Amós 5). Jesus confrontou duramente os fariseus, denunciando sua religiosidade hipócrita que “fecham o reino dos céus diante dos homens” e vivem a “explorar os indefesos” (Mateus 23). Essa tradição profética é a base para entender a rejeição da religião vazia e do moralismo instrumentalizado pelo bolsonarismo.

A tentativa explícita de golpe em 2022 escancarou o caráter golpista desse projeto. A existência comprovada da Abin paralela — um órgão clandestino usado para perseguir adversários políticos e manipular informações — demonstra o grau de aparelhamento e subversão institucional. Isso ocorreu com a cumplicidade de setores militares, empresariais e religiosos, que apoiaram a tentativa de destruir a democracia brasileira e impor um regime autoritário disfarçado de cristianismo. Mais recentemente, na primeira semana de julho de 2025, o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump publicou uma carta em sua conta no X (antigo Twitter) em defesa explícita de Jair Bolsonaro, atacando o governo Lula e questionando sua legitimidade. Essa manifestação pública internacionaliza o golpismo brasileiro, revelando que o bolsonarismo não é um fenômeno isolado, mas parte de uma rede global de extrema-direita que busca minar democracias e impulsionar agendas autoritárias em vários países. Essa aliança internacional fortalece os setores que tentam manter Bolsonaro relevante e desestabilizar o Brasil democraticamente eleito.

É preciso esclarecer o que é o comunismo histórico e o que é o “comunismo da mente louca” vendido pela extrema direita. O comunismo real nasceu da crítica racional à exploração capitalista e propôs a construção de uma sociedade sem classes, fundamentada na justiça social. Apesar dos erros históricos de regimes autoritários, foi um projeto político concreto e teorizado. Já o comunismo da extrema direita é uma invenção delirante, que mistura qualquer forma de contestação ou luta por direitos com um inimigo imaginário. Basta discordar de Bolsonaro para ser tachado de comunista — como ocorreu com a Rede Globo, Sérgio Moro, Alexandre Frota e tantos outros.

Esse rótulo serve para criminalizar o pensamento crítico, sufocar o debate e justificar perseguições políticas. É o novo inquisidor digital e real, que ataca a educação pública, a ciência, a cultura e a solidariedade. É a versão tropical do fascismo, que usa a fé como arma para espalhar o ódio.

A festa pobre que Cazuza denunciou segue presente, mas agora institucionalizada como política de Estado. O bolsonarismo transformou o país em palco para um espetáculo de morte, intolerância e desinformação. A Constituição é rasgada, a democracia ameaçada, e a fé usada como cortina de fumaça.

A crítica ao clericalismo não pode ser esquecida. O bolsonarismo soube articular com setores religiosos — pastores, bispos e líderes — que instrumentalizaram a fé para vender prosperidade vazia, legitimar a violência e alimentar o ódio contra minorias. Essa religião de fachada desfigura o Evangelho libertador, traindo a missão profética de justiça e paz. 

Mas não há profecia sem esperança. O Evangelho nos chama a denunciar os falsos profetas, a enfrentar os poderes opressores e a anunciar a justiça do Reino de Deus. Como Jesus que confrontou os fariseus hipócritas, somos convocados a romper com as falsas religiões que legitimam a opressão.

A resistência existe e é plural: movimentos sociais, indígenas, jovens das periferias, artistas, intelectuais e tantas vozes que negam o silêncio e lutam por um Brasil livre. Eles são a verdadeira face do país que Cazuza desejava — um Brasil que conhece a verdade e, por isso, se liberta.

Não podemos esquecer que a liberdade e a democracia exigem luta diária. É tempo de resistência ativa, de engajamento na defesa dos direitos, da educação pública, da justiça social e da solidariedade. A fé autêntica se traduz em compromisso com a vida plena para todos.

Fechamos com as palavras fortes do presidente Lula, ditas em março de 2025 durante a inauguração do Hospital Universitário do Ceará:

“Esse país não tem dono. O dono do país é o povo brasileiro. E quanto melhor estiver o povo, melhor estará o Brasil.”

Que essa verdade nos inspire a continuar a luta contra o bolsonarismo, o fascismo e a religião vazia, em defesa de um Brasil justo, solidário e soberano.

DNonato – Teólogo do Cotidiano