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terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 11,28-30

 
O silêncio do Evangelho parece respirar mais profundamente quando a Igreja nos conduz a determinadas palavras de Jesus. Há frases que denunciam estruturas injustas como um trovão profético; outras chegam como brisa suave, restaurando corações exaustos. Entre essas últimas, poucas possuem a força e a beleza de Mateus 11,28-30: "Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos darei descanso." Não se trata de uma promessa de fuga da realidade, mas do convite para uma nova maneira de viver a própria realidade à luz do Reino de Deus. Não é por acaso que a Igreja reserva essa passagem para diversos momentos significativos do Ano Litúrgico. No Tempo Comum, ela é proclamada na quinta-feira da 15ª Semana, como continuidade da revelação do Pai aos pequeninos (Mt 11,25-27) e preparação para o debate sobre o verdadeiro sentido do sábado (Mt 12,1-8)  e na quarta-feira da 2ª semana do advento, no 14º Domingo do Tempo Comum do Ano A, integra a perícope de Mateus 11,25-30, tornando-se o centro da reflexão sobre a sabedoria do Reino, revelada aos humildes, e sobre o jugo suave e o fardo leve de Cristo. Também ilumina a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, quando a Igreja contempla o amor misericordioso do Filho, manso e humilde de coração, fonte inesgotável de descanso e esperança para a humanidade, quando somos chamados a desejar o descanso que vem com o Messias.  Frequentemente é escolhido nas celebrações pelos fiéis defuntos, anunciando o repouso definitivo prometido aos que confiam no Senhor. Em alguns calendários próprios, como o da Família Franciscana, ressoa na memória de São Francisco de Assis, cuja vida testemunhou que a verdadeira grandeza nasce da humildade, da pobreza evangélica e da confiança filial em Deus.
A própria tradição cristã confirma a centralidade desse texto. Sua oração encontra paralelo em Lucas 10,21-22, proclamado em diferentes momentos do calendário litúrgico das Igrejas do Oriente e do Ocidente, revelando que o descanso oferecido por Cristo nasce da comunhão com o Pai e da acolhida humilde da graça. Assim, a repetição desta perícope ao longo do ano não é mera coincidência litúrgica, mas uma verdadeira pedagogia espiritual: sempre que o povo de Deus se encontra cansado pelas exigências da existência, pelos pesos da religião mal compreendida ou pelas opressões da história, a Igreja faz ressoar novamente a voz do Mestre. Como uma mãe que conhece as feridas de seus filhos, ela nos reconduz continuamente ao coração do Evangelho, lembrando-nos de que Deus não é o autor dos fardos que esmagam a vida, mas aquele que caminha conosco para transformá-los em caminho de liberdade, comunhão e esperança. Podemos afirmar,  há ditos que são como pedras que profetas lançam, rachando as armaduras ideológicas  “Vinde a mim todos vós que estais cansados”  foram colocadas pela Igreja como remédio recorrente para nossos excessos, nossas pressas e nossas feridas.

O  Mateus 11,28-30 é desses que não devem ser lidos com pressa, pois não são convite para a fuga, mas para o encontro; não são anestesia espiritual, mas convocação para uma responsabilidade transformadora. O  contexto imediato do capítulo 11 revela Jesus decepcionado com a incapacidade de certas cidades de enxergar o Reino que despontava no cotidiano: Corozaim, Betsaida e Cafarnaum não reconheceram que o Cristo passava pelas suas ruas, talvez porque esperavam algo mais grandioso, mais pirotécnico, mais adaptado à expectativa dos que gostam de espiritualidade com glitter. Nesse ambiente, Ele louva o Pai por revelar Seu mistério não aos sábios e doutos, mas aos pequenos,  aqueles que não se apoiam na arrogância da interpretação oficial, mas na humildade de quem busca sentido na própria carne. Em seguida, irrompe o convite: “Vinde a mim”. A cena é quase paradoxal: enquanto certos mestres da lei multiplicavam exigências, como filhos inseguros tentando provar que o pai os ama mais quanto mais regras inventam o Cristo corta o novelo e apresenta o essencial: uma relação que cura o peso da existência.

No pano de fundo exegético, o termo grego kopiôntes (cansados) remete ao cansaço físico e emocional, o desgaste profundo de quem trabalha até a alma ranger; e pefortisménoi (carregados) indica fardos colocados não pela vida, mas por outros, especialmente autoridades religiosas que tinham transformado a Torá em uma coleção de pesos espiritualmente inúteis. Jesus não está dizendo 

  • “venham porque a vida será fácil”; Ele está dizendo “venham porque Eu não coloc o pesos que vocês não podem carregar, e os pesos que realmente libertam são diferentes do que a religião oficial ensina”.

Esse contraste aparece nos Sinóticos de maneira expressiva. Em Marcos 2,27, Jesus afirma: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado.” Lucas 4,18-19 apresenta o programa messiânico como libertação dos oprimidos, anúncio aos pobres, visão aos cegos. O Cristo que fala em Mateus 11,28-30 é o mesmo que se recusa a transformar religião em controle social; sua mensagem é antagônica à fé como mercadoria, tão comum na teologia da prosperidade, que promete que Deus é o gerente financeiro do discípulo VIP, desde que este pague o dízimo como entrada para o camarote celestial. Contra essa perversão, Jesus diz: “Meu jugo é suave”. E não há nada mais anticapitalista do que um Deus que se recusa a transformar o humano em performance.

A antropologia bíblica percebe o jugo como símbolo de submissão. Em Jeremias 28, muitas disputas religiosas ocorrem em torno do jugo que Nabucodonosor imporia; a imagem aparece como dominação, opressão, controle. Em Mateus, porém, o jugo é ressignificado: não é opressão, é comunhão. Toda leitura teológica que transforma esse jugo em nova forma de domínio religioso trai o Evangelho. Por isso a teologia do domínio, que tenta justificar politicamente projetos autoritários dizendo que “o justo governará com vara de ferro”, precisa ser denunciada como heresia política e manipulação religiosa. Jesus não toma o poder; Jesus toma o fardo. Ele não põe cabresto; Ele põe cuidado. O Reino não vem na lógica da supremacia; vem na lógica da mansidão.

A  mansidão,  praus, não é passividade. É força domada, coração que não reage com ódio, mas também não se rende ao medo. Em Números 12,3, Moisés é chamado de manso; em Mateus 5,5, os mansos herdarão a terra. Essa mansidão não combina com líderes religiosos que tratam fiéis como clientes, como gado ou como massa de manobra política. Aqui cabe um grão de humor profético: se Jesus aparecesse hoje em algumas igrejas, provavelmente seria convidado a “não atrapalhar o louvor” porque não trouxe a camisa personalizada do congresso. E se tentasse pregar a mansidão, seria acusado de “fraqueza espiritual” por coachs pentecostais de palco que confundem fé com testosterona espiritual. Jesus, na contramão, diz: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração.” Não manda aprender com empresários da fé; não manda aprender com políticos messiânicos; manda aprender com Ele, cuja pedagogia é o toque nos leprosos, a escuta das mulheres marginalizadas, a mesa com pecadores e a crítica dura contra os que fazem da religião um espetáculo.

O horizonte exegético amplia-se quando lembramos que Mateus escreve para uma comunidade marcada pelo conflito entre farisaísmo e cristianismo nascente. Muitos convertidos se perguntavam se, ao abraçar Jesus, deveriam também abraçar todas as minúcias interpretativas da tradição rabínica da época. A resposta mateana é: o caminho cristão não é o da abolição da Lei, mas o da sua plenitude no amor, como dirá em Mateus 5,17. O jugo de Cristo é leve porque é coerente com a natureza humana; o jugo farisaico era pesado porque impunha comportamentos que não tocavam o coração. A psicologia moderna percebe aqui um eco profundo: um sistema religioso que opera pela culpa produz neuroses espirituais; um sistema que opera pela liberdade responsável produz maturidade. O jugo de Jesus não infantiliza; adultiza. Não cria dependência; gera autonomia espiritual enraizada no amor.

Tomás de Aquino, refletindo sobre esse trecho, afirma que o jugo de Cristo é leve porque é jugo de caridade, e a caridade transforma o peso em alegria. Agostinho ecoa esse sentido ao dizer: “Ama e faze o que quiseres”, não como libertinagem, mas como afirmação de que o amor verdadeiro cria normas mais exigentes que qualquer lei externa, porém ao mesmo tempo mais leves, porque brotam do interior transformado. Orígenes afirma que Jesus não livra o discípulo do trabalho, mas do excesso inútil de fardos que a religião acumulou. Isso se torna ainda mais claro quando lembramos de Atos 15, no Concílio de Jerusalém, quando Pedro declara: “Por que impor aos discípulos um jugo que nem nossos pais puderam carregar?” A Igreja nascente entendeu que a lei de Cristo não é carga mortificante, mas vida vivificante.

O  texto fala dos pesos internos: culpas carregadas por décadas, expectativas inalcançáveis que famílias, igrejas e sociedades colocam sobre indivíduos, medos que transformam a existência em sobrevivência. O chamado “Vinde a mim” pode ser visto como movimento terapêutico de encontro com a verdade sobre si. Jesus não é psicólogo no sentido moderno, mas sua postura é profundamente terapêutica: acolhe, escuta, nomeia feridas, expulsa fantasmas interiores, devolve dignidade. E, ao contrário de certas linhas religiosas que culpabilizam a vítima — como a teologia da prosperidade, que diz que você não alcançou a benção porque “sua fé é pequena".  Jesus não coloca culpa sobre quem sofre; Ele se coloca ao lado, carregando junto. Diríamos hoje: Ele valida o sofrimento, não o espiritualiza indevidamente.

 O jugo pesado que Jesus denuncia não é apenas religioso; é social. 

  • É o sistema que produz pobres e depois culpa os pobres por serem pobres 
  • É a sociedade que exige produtividade, enquanto esmaga subjetividades 
  • É o discurso meritocrático que transforma cansaço em fracasso moral
Jesus se dirige aos: 

  •  Que carregam saco de farinha para sustentar famílias inteiras,
  •  As mulheres sobrecarregadas por múltiplas tarefas invisíveis 
  • Aos pescadores endividados 
  • Aos doentes tratados como malditos. 
Quando Ele diz “Vinde a mim”, está criando espaço de resistência contra a lógica excludente que define quem é digno de descanso. Em sua época, descanso era privilégio de poucos; em nossa época também. No mundo neoliberal, descanso é luxo; para Jesus, descanso é direito espiritual. O descanso (anapausis) como antecipação escatológica do descanso de Deus no sétimo dia. Hebreus 4 desenvolve esse tema de maneira fascinante: o repouso prometido continua aberto, e aqueles que escutam a voz do Senhor entram nesse descanso. Mateus 11,28-30 ecoa esse chamado para entrar no ritmo de Deus  e não no ritmo da ansiedade moderna. Não é por acaso que, em Êxodo 33,14, Deus diz a Moisés: “Minha presença irá contigo e te darei descanso.” O descanso não é geográfico; é relacional. Da mesma forma, o jugo leve de Cristo não é ausência de compromissos, mas presença de amor.

Esse texto foi frequentemente lido como consolo aos pobres e perseguidos. Padres do deserto o repetiam como mantra. Inácio de Antioquia via nele o núcleo da imitação de Cristo. Ao longo dos séculos, místicos o utilizaram para lembrar que a vida espiritual não é ginástica olímpica para ver quem faz piruetas mais belas. Santa Teresinha dizia que a pequena via é jugo leve porque é via do amor, não da autopunção. E Francisco de Assis demonstrou que o jugo leve pode nos levar à radicalidade, mas radicalidade sem violência, sem arrogância e sem condenação.

Na  Gaudium et Spes denuncia sistemas que esmagam o humano e afirma, nos números 63-66, que a ordem econômica deve servir à pessoa humana, não o contrário. Evangelii Gaudium, ao criticar a “mundanidade espiritual”, aponta para o risco de transformar religião em peso; e Fratelli Tutti insiste no cuidado mútuo como caminho de salvação histórica. Tudo isso dialoga diretamente com Mateus 11,28-30: Jesus não convida ao descanso privatizado, mas ao descanso que nasce da fraternidade. O jugo leve é comunitário. A carga suave se torna suave porque é partilhada. Aqui entra uma crítica dolorosa, mas necessária: o clericalismo transforma o jugo de Cristo em jugo da instituição. Padres, bispos e líderes que se colocam como donos da fé  e não como servidores,  criam uma religião pesada, castradora, moralista, distante da vida real. Jesus não disse “Vinde a mim, porque quero controlar vocês”; disse “Vinde a mim, porque quero aliviar vocês”. Quando o ministério ordenado se esquece disso, deixa de ser sinal de Cristo para se tornar obstáculo a Ele. O povo sente esse peso e se afasta não de Deus, mas do modelo opressor de religião que lhe foi apresentado.

Ao mesmo tempo, não podemos ignorar que também há pesos autoimpostos, alimentados pelo individualismo contemporâneo. Alguns rejeitam o jugo de Cristo porque querem ser completamente autônomos,  mas descobrem que a autonomia sem amor vira solidão. O jugo que Jesus propõe é o jugo da relação, da interdependência, da caminhada conjunta. O descanso prometido não é spa espiritual, mas experiência de pertença.

No final, o texto de Mateus 11,28-30 é revolução disfarçada de ternura. Ele destrói o legalismo sem destruir a Lei. Ele supera o moralismo sem abolir a ética. Ele dissolve a culpa sem baratear a responsabilidade. Ele denuncia sistemas opressores com a suavidade de quem conhece os ritmos do coração humano. E nos lembra que Deus não é fardo, mas presença; não é cobrança, mas abraço; não é peso, mas caminho; não é gerente, mas companheiro. Somos convidados a colocar nossos cansaços existenciais, históricos, sociais, religiosos, nas mãos daquele que nos entende não porque lê nossa alma, mas porque carregou nossa carne.

Ao final desta contemplação, percebemos que Mateus 11,28-30 não é apenas um dos textos mais consoladores do Novo Testamento; é também um dos mais revolucionários. Jesus não promete eliminar toda dificuldade da existência, mas transformar completamente a maneira de carregá-la. Seu descanso não nasce da fuga do mundo, mas da descoberta de que ninguém precisa caminhar sozinho. Seu jugo não escraviza; une. Seu fardo não oprime; educa para o amor. Nele, autoridade se torna serviço, poder se converte em cuidado, e a religião deixa de ser mecanismo de controle para tornar-se experiência de encontro com o Deus vivo. Por isso, este Evangelho continua desafiando tanto os sistemas religiosos que multiplicam culpas quanto as estruturas sociais que naturalizam o sofrimento humano. Ele denuncia o clericalismo que transforma ministros em donos da fé, a espiritualidade mercantilizada que vende bênçãos como produtos, o moralismo que sufoca consciências e toda ideologia que faz do ser humano instrumento de poder. Diante dessas distorções, Cristo permanece oferecendo o mesmo caminho: aprender dele, que é manso e humilde de coração. A verdadeira força do Reino não está na imposição, mas na misericórdia; não na dominação, mas na compaixão; não na violência, mas na fidelidade ao amor.

Talvez seja precisamente por isso que a Igreja nunca deixe de proclamar este Evangelho. Em cada geração surgem novos fardos, novas formas de opressão e novos cansaços, mas permanece o mesmo convite do Senhor. Enquanto houver pessoas esmagadas pela culpa, pelo medo, pela pobreza, pela solidão, pelo excesso de trabalho, pela religião sem misericórdia ou pela desesperança, continuará ecoando a voz daquele que conhece profundamente a condição humana: "Vinde a mim." Visualizabdo uma imagem simples, mas profundamente evangélica. Se hoje perguntassem onde encontrar Cristo, talvez não fosse nos lugares onde se disputam prestígio, poder ou influência religiosa. Muito provavelmente Ele estaria sentado ao lado dos cansados, escutando os que perderam as forças, acolhendo os que foram feridos pela própria religião e repartindo com eles o único jugo que realmente liberta: o amor que serve, a misericórdia que restaura e a esperança que jamais decepciona. Porque, no Reino de Deus, o descanso prometido por Jesus não é a recompensa dos perfeitos, mas o dom oferecido gratuitamente a todos os que, humildemente, têm a coragem de caminhar até Ele.

E,  podemos ousar com um toque final com humor profético: se Jesus abrisse hoje uma igreja, provavelmente se chamaria algo como “Paróquia do Jugo Leve e da Carga Suave”, aberta 24h, com entrada gratuita, sem taxas extras, sem plano premium, sem culto-show e sem venda de água ungida. Ali, ao invés de brigar por quem tem mais unção, as pessoas disputariam para ver quem acolhe e apoia  mais o  outro. Ali, o único peso permitido seria o da responsabilidade amorosa. E ali, quem chegasse cansado não ouviria sermão moralista, mas a frase que atravessa séculos como brisa que cura: “Vinde a mim.”

DNonato – Teólogo do Cotidiano

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 22,1-14

O evangelho de Mateus 22,1-14, proclamado na quinta-feira da 20ª semana do Tempo Comum  e no 28º Domingo do Tempo Comum do Ano A,  nos coloca diante da parábola do banquete nupcial, onde um rei prepara as bodas de seu filho, envia convites e se depara com a recusa dos primeiros convidados. Esse texto é proclamado liturgicamente no 28º Domingo do Tempo Comum (ano A) e também na quinta-feira da 20ª semana do Tempo Comum nos anos ímpares, revelando a sua força perene em desvelar as tensões entre o chamado universal de Deus e as resistências humanas. Trata-se de uma parábola de caráter escatológico, que remete tanto ao presente da missão quanto ao horizonte último da história, à festa do Reino que será consumada no fim dos tempos.

O texto aponta para a densidade da imagem do banquete. Na tradição bíblica, o banquete é símbolo de comunhão, aliança e vida em plenitude. Isaías 25,6-8 anuncia que o Senhor preparará, sobre este monte, um festim para todos os povos, com manjares saborosos e vinhos refinados, e nesse banquete enxugará as lágrimas de todos os rostos e destruirá a morte para sempre. A promessa profética encontra eco no Salmo 23, onde o Senhor prepara a mesa diante dos inimigos, unge a cabeça com óleo e faz transbordar o cálice. O banquete aponta para a hospitalidade divina, mas também para a exigência de se acolher o convite com o coração disponível. O próprio Jesus se apresenta nos Evangelhos como aquele que come com pecadores e publicanos (Mt 9,10; Lc 15,2), desafiando os sistemas de pureza e exclusão. O banquete do Reino é, portanto, sinal de uma graça aberta e inclusiva. A recusa dos primeiros convidados, que preferem ir ao campo ou aos negócios, revela o perigo do fechamento egoísta diante da oferta de Deus. Marcos 12,1-12 e Lucas 14,15-24 apresentam parábolas semelhantes, evidenciando que a tradição sinóptica quis sublinhar a mesma realidade: os primeiros chamados rejeitam, e Deus abre o convite aos pobres, aleijados, cegos, coxos e estrangeiros. Aqui se cumpre a inversão do Reino, onde “os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos” (Mt 20,16). O banquete é para todos, mas exige resposta concreta. A dimensão escatológica se evidencia na exigência de vigilância: “Felizes os convidados para o banquete das núpcias do Cordeiro” (Ap 19,9). O Apocalipse mostra que o banquete definitivo é a união esponsal entre Cristo e a Igreja, e a parábola antecipa essa realidade.

A presença do homem sem veste nupcial pode parecer, à primeira vista, um excesso de rigor, mas revela a seriedade do chamado. A veste, no horizonte bíblico, simboliza a conversão e a vida nova. Paulo escreve: “Revesti-vos de Cristo” (Gl 3,27), “revesti-vos do homem novo” (Ef 4,24), e no Apocalipse os salvos aparecem com vestes lavadas no sangue do Cordeiro (Ap 7,14). A veste é símbolo da resposta ética e existencial ao convite divino. Aceitar o convite e permanecer sem transformação é reduzir a graça a mero rito externo, sem compromisso interior. Aqui entra a crítica de Jesus contra a religião vazia, que honra com os lábios, mas tem o coração longe (Mt 15,8; Is 29,13).

Essa parábola denuncia a lógica das elites religiosas e políticas de Israel que, confortáveis em seus privilégios, rejeitaram o convite para um Reino que subverte as hierarquias e inclui os marginalizados. O banquete não é a sala de poder de César, mas a mesa larga dos pobres. A psicologia nos ajuda a compreender que a recusa dos convidados nasce do apego às seguranças materiais, da fuga do risco da novidade, do medo de perder status. O inconsciente humano tende a se apegar ao conhecido, mesmo que vazio, em vez de arriscar-se na festa de um Reino onde todos são iguais. A filosofia, especialmente em Kierkegaard, recorda que o convite de Deus exige decisão existencial: não basta ouvir, é preciso escolher e arriscar-se.

O texto também provoca uma crítica contundente às teologias distorcidas. A teologia da prosperidade, que transforma a fé em barganha e o Evangelho em negócio, não cabe no banquete do Reino, porque aqui não se compra lugar à mesa: é pura graça. A teologia do domínio, que instrumentaliza Deus para legitimar poder político e violência, é desmascarada, pois o Reino não se impõe pela força, mas se oferece como convite livre. O individualismo, que transforma a fé em experiência privada e intimista, cai por terra, porque o banquete é comunitário, não solitário. A fé como mercadoria é denunciada, porque o convite não é um produto, mas dom gratuito. O clericalismo, por sua vez, é severamente criticado, pois quando a Igreja transforma o banquete eucarístico em privilégio de poucos, quando faz da mesa espaço de poder e exclusão, trai o sentido original da parábola.

Santo Agostinho, comentando esta parábola, afirma que a veste nupcial é a caridade: sem ela, nada vale, nem mesmo estar na Igreja. São Gregório Magno acrescenta que a veste é também a perseverança na vida cristã. São João Crisóstomo recorda que o banquete é a Eucaristia, mas que não basta comungar exteriormente: é preciso viver a fé interiormente. A veste, portanto, não é formalismo, mas conversão que se traduz em amor concreto.

O Concílio de Trento sublinhou a necessidade da disposição interior para participar dignamente da Eucaristia. O Vaticano II, na Lumen Gentium, insiste que a Igreja é chamada a ser sinal do banquete universal de salvação (LG 1), e a Sacrosanctum Concilium recorda que a liturgia é antecipação da festa eterna (SC 8). O Papa Bento XVI, em sua encíclica Deus Caritas Est, afirmou que o cristianismo não é uma ideia, mas um encontro de amor que gera comunhão. O Papa Francisco insiste que a Eucaristia não é prêmio para os perfeitos, mas alimento para os fracos, desde que haja abertura sincera ao convite de Deus.

O  banquete aponta para o juízo final, quando os convidados que rejeitaram serão julgados, e os que aceitaram, mas sem conversão, serão confrontados com sua incoerência. O “haverá choro e ranger de dentes” (Mt 22,13) recorda a seriedade da liberdade humana. Não se trata de um Deus vingativo, mas da consequência de rejeitar a vida. Como diz Daniel 12,2, “uns ressuscitarão para a vida eterna, outros para a vergonha eterna”. O convite é universal, mas a resposta é pessoal e intransferível.

A parábola nos convoca hoje a discernir se estamos realmente acolhendo o convite de Deus ou se estamos apegados a nossos negócios, ideologias, confortos e interesses. A Igreja, como serva do Reino, é chamada a ir às encruzilhadas e convidar todos, sobretudo os descartados. Mas para isso precisa abandonar o clericalismo, a tentação de poder, a lógica da exclusão e a idolatria do dinheiro. Precisa ser sinal de uma mesa aberta, onde pobres, migrantes, mulheres, negros, povos originários, LGBTs e marginalizados sejam reconhecidos como irmãos e não como intrusos. No fundo, esta parábola é um alerta contra a banalização da graça. Deus nos chama a um banquete de vida, de justiça e de amor, mas muitos preferem os negócios da morte. A veste nupcial é a justiça (Is 61,10), a fé atuando pela caridade (Gl 5,6), o amor que cobre a multidão dos pecados (1Pd 4,8). Sem essa veste, não há lugar no banquete, mesmo que estejamos dentro da sala. O Evangelho nos lembra que “muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mt 22,14), não porque Deus seja seletivo, mas porque muitos se fecham à conversão que o convite exige.

Assim, Mateus 22,1-14 nos coloca diante de uma escolha radical: ou permanecemos no mercado dos negócios que mata, ou aceitamos o convite para a festa do Reino que salva. O banquete já começou, e a mesa está posta. O que falta é decidir se vamos entrar com a veste da caridade, ou se continuaremos vestidos da indiferença.



✍️ DNonato – Teólogo do Cotidiano