- O Corpo Adorado, o Corpo Esquecido e as Ausências Reais da Comunhão, uma realidade em muitas Igrejas de hoje.
A missa estava pronta para começar. O povo já aguardava. Os horários haviam sido marcados, as equipes estavam reunidas e tudo indicava que mais uma atividade evangelizadora teria início. Mas ainda faltava um detalhe considerado indispensável: o fogo que acenderia o incenso. A fumaça precisava subir. O símbolo precisava cumprir seu papel. Somente depois disso a missão poderia começar. Logo veio à memória alguém, uma ministra leiga da Eucaristia, já idosa, marcada pelo peso dos anos e por uma longa história de serviço à comunidade, havia sido afastada por um jovem padre, sob a justificativa de que atrapalhava o andamento das atividades. Encontrava-se internada e, segundo alguém, reclamava da falta da visita dos irmãos e irmãs da sua fé. O contraste era inevitável. O fogo não podia faltar. O incenso não podia atrasar. O rito precisava acontecer. Mas uma pessoa que dedicara parte significativa de sua vida à Igreja pôde ser colocada de lado. A cena parece conter uma pergunta silenciosa sobre a ordem das prioridades na vida cristã. (Mt 25,31-46; Tg 2,1-9; CIC 1397).
Logo após o evento, ao abrir as redes sociais, soubemos que aquela ministra já não estava entre nós. Fez sua Páscoa definitiva. Sua voz está silenciada. Suas mãos envelhecidas, que durante tantos anos distribuíram a Eucaristia aos enfermos, aos idosos e aos fiéis da comunidade, repousaram definitivamente. Sua caminhada chegou ao fim. A morte, porém, possui uma estranha capacidade de iluminar aquilo que a rotina costuma esconder. Quando alguém parte, restam a memória e a consciência. Permanecem as lembranças dos serviços prestados, das dificuldades enfrentadas, das alegrias compartilhadas e também das feridas carregadas. Os mortos possuem uma força que os vivos frequentemente subestimam. Eles já não falam, mas sua história continua interrogando as consciências. A memória de uma servidora afastada torna-se uma pergunta que a comunidade não consegue sepultar. Muitas vezes as comunidades religiosas são generosas com homenagens póstumas e econômicas em gratidão cotidiana. As flores chegam quando já não podem ser vistas. Os elogios aparecem quando já não podem ser ouvidos. A memória transforma-se então numa espécie de juízo silencioso sobre as escolhas feitas durante a vida. (Eclo 44,1-15; Hb 13,7; Ap 14,13).
O Documento de Aparecida recorda que os idosos não são apenas destinatários da ação pastoral, mas guardiões de memória, experiência e sabedoria. Eles carregam a história viva da fé transmitida através das gerações. Quando uma comunidade deixa de ouvir seus idosos, não perde apenas colaboradores; perde parte de sua própria memória espiritual. A morte recente daquela ministra torna essa reflexão ainda mais profunda. Com ela desaparece uma voz, mas permanece uma pergunta. Como tratamos aqueles que dedicaram anos de suas vidas ao serviço do Evangelho? A resposta não será encontrada apenas nas homenagens prestadas após sua morte, mas na qualidade da comunhão que lhes oferecemos enquanto ainda caminhavam entre nós. (Documento de Aparecida, nn. 447-450, 458; Sl 92,13-16).
O caso torna-se ainda mais. significativo porque não parece tratar-se de um episódio isolado. Há relatos de outros afastamentos, de outras exclusões, de outros irmãos e irmãs que, por razões diversas, deixaram de encontrar espaço dentro da própria comunidade. Nem sempre existe um decreto formal de exclusão. Na maioria das vezes ela acontece silenciosamente:
- As pessoas deixam de ser chamadas, deixam de ser consultadas,
- Deixam de participar das decisões,
- deixam de receber responsabilidades que durante anos exerceram com dedicação.
Continuam sentadas nos bancos da igreja, mas já não ocupam lugar real na vida comunitária.
Podemos identificar esse fenômeno como uma das formas mais sutis de marginalização institucional. O pertencimento permanece na aparência, mas desaparece na prática. (1Cor 12,12-27; Rm 12,4-8; Documento de Aparecida, n. 161).
Às vezes, poucas experiências humanas são tão dolorosas quanto a sensação de não pertencer mais ao grupo que ajudou a construir. O sofrimento não nasce apenas da perda de uma função. Surge da perda do reconhecimento. O ser humano necessita sentir-se visto, valorizado e acolhido. Quando isso não acontece, especialmente em ambientes religiosos, a dor pode ser ainda maior, porque não afeta apenas a dimensão social da pessoa, mas também sua identidade espiritual. A comunidade que deveria ser espaço de comunhão transforma-se em lugar de invisibilidade. O templo permanece aberto, mas as portas simbólicas se fecham. (Gn 16,13; Lc 15,1-32; Documento de Aparecida, nn. 226, 368).
A própria Igreja, através do Código de Direito Canônico, oferece critérios importantes para refletir sobre essas situações:
- cânon 208 afirma que entre todos os fiéis existe verdadeira igualdade na dignidade e na ação em virtude do Batismo. Essa igualdade não elimina a diversidade dos ministérios, mas recorda que ninguém pode ser reduzido à sua utilidade prática ou à função que desempenha. O fiel não é um instrumento descartável da organização eclesial. É sujeito da missão da Igreja. (CDC, cân. 208; Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, 32).
- O cânon 212 reconhece que os fiéis têm o direito e, por vezes, até o dever de manifestar aos seus pastores aquilo que consideram importante para o bem da Igreja. (CDC, cân. 212 §3).
- cânon 213 afirma que possuem direito aos bens espirituais da Igreja. (CDC, cân. 213).
- cânon 214 garante o direito de prestar culto a Deus segundo as normas legítimas da própria Igreja. (CDC, cân. 214).
Tudo isso recorda que a comunhão eclesial não é mera concessão da autoridade, mas expressão da dignidade batismal comum a todos. (Gl 3,28; Ef 4,1-6; Lumen Gentium, 9). Nesse contexto, cresce uma questão que merece reflexão profunda. Em muitos ambientes eclesiais observa-se uma legítima valorização da adoração eucarística. Multiplicam-se horas santas, procissões, bênçãos do Santíssimo Sacramento, vigílias e momentos de oração diante da presença real de Cristo na Eucaristia. Trata-se de uma riqueza autêntica da tradição católica. A Igreja sempre ensinou que Jesus Cristo está verdadeira, real e substancialmente presente no Sacramento do Altar. (Catecismo da Igreja Católica, nn. 1373-1377; Concílio de Trento, Sessão XIII; Sacrosanctum Concilium, 7).
O Catecismo da Igreja Católica apresenta a Eucaristia como "fonte e ápice de toda a vida cristã". (CIC 1324; Lumen Gentium, 11). A adoração eucarística constitui um dos tesouros espirituais mais profundos do catolicismo. (CIC 1378-1381). O problema não é o excesso de adoração. Nunca haverá adoração demais a Cristo. O problema surge quando a adoração deixa de produzir conversão. O problema aparece quando a devoção não transforma o adorador. O problema manifesta-se quando a reverência diante do sacrário não se converte em reverência diante da dignidade humana. (Is 58,6-10; Os 6,6; Mt 9,13; 1Jo 4,20).
A questão torna-se inevitável:
- Que sentido possui ajoelhar-se diante do ostensório enquanto irmãos e irmãs da própria comunidade são afastados ou tratados como inconvenientes? (Tg 2,1-9).
- Que significado possui permanecer longos períodos em contemplação diante da hóstia consagrada enquanto pessoas concretas carregam feridas produzidas pela exclusão? (Mt 25,40; Is 58,7).
- Que coerência existe entre proclamar a presença real de Cristo na Eucaristia e não reconhecer a presença do mesmo Cristo na pessoa idosa, no leigo, no pobre, no esquecido e no marginalizado? (Mt 25,31-46; Lc 4,18-19; Documento de Aparecida, nn. 391-398).
A tradição cristã sempre respondeu a essas perguntas de maneira exigente. Os profetas de Israel denunciaram repetidamente uma religião que preservava os ritos enquanto abandonava a justiça. Isaías proclamava que o jejum agradável a Deus consiste em libertar os oprimidos, repartir o pão com os famintos e acolher os necessitados. (Is 58,6-10). Amós transmitia a severa crítica divina contra celebrações desacompanhadas de justiça: "Corra o direito como água e a justiça como um rio perene." (Am 5,21-24). Jesus retomou a mesma denúncia ao confrontar uma religiosidade preocupada com aparências e pouco sensível à misericórdia. (Mt 23,23-28; Mc 7,6-13).
Em Mateus 25, o critério decisivo do julgamento não é a perfeição ritual, mas o reconhecimento de Cristo no faminto, no sedento, no estrangeiro, no enfermo e no preso. "Todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes." (Mt 25,40). A grande pergunta do Evangelho nunca foi apenas como os homens tratam os símbolos sagrados, mas também como tratam as pessoas nas quais Deus se manifesta. (1Jo 4,20-21; Tg 2,14-17).
A própria teologia católica oferece um caminho para compreender essa tensão. Cristo está presente de modo único e substancial na Eucaristia. Essa presença possui uma singularidade que nenhuma outra forma de presença possui. (CIC 1374). Contudo, a Igreja também reconhece a presença de Cristo na Palavra proclamada, na assembleia reunida em seu nome, nos pobres, nos sofredores e na própria comunidade eclesial. (Sacrosanctum Concilium, 7; Mt 18,20; Mt 25,40). Não se trata de presenças idênticas, mas de presenças inseparáveis.
A mesma presença do Senhor que é adorada no altar continua a encontrar os fiéis nos rostos concretos dos irmãos. É por isso que a tradição cristã jamais permitiu uma separação absoluta entre culto e vida, entre liturgia e ética, entre adoração e fraternidade. O mesmo Cristo que se oferece sacramentalmente na Eucaristia continua a manifestar-se misteriosamente naqueles que carregam as marcas da fragilidade humana. (Mt 25,31-46; Lc 10,25-37; Sacrosanctum Concilium, 7).
Por isso, alguns princípios emergem com força do próprio Evangelho:
- Quem aprende a ajoelhar-se diante do sacrário deve aprender também a não humilhar aquele que carrega a imagem de Deus. (Gn 1,26-27; Tg 3,9-10; Mt 25,40).
- Quem beija o ostensório deve aprender a respeitar a dignidade daqueles que o próprio Cristo chamou de seus irmãos menores. (Mt 25,40; 1Jo 4,20-21).
- Quem honra o Corpo Eucarístico é chamado igualmente a honrar o Corpo Eclesial, formado pelos irmãos e irmãs reunidos pelo Batismo. (1Cor 12,12-27; Ef 4,4-6).
São Paulo enfrentou problema semelhante na comunidade de Corinto. Enquanto celebravam a Ceia do Senhor, os cristãos reproduziam divisões sociais e humilhações entre si. Por isso escreveu palavras duríssimas em sua Primeira Carta aos Coríntios. Não bastava repetir corretamente o rito. Era necessário discernir o Corpo. (1Cor 11,17-34). A interpretação cristã ao longo dos séculos compreendeu que discernir o Corpo significa reconhecer a presença de Cristo não apenas no pão e no vinho consagrados, mas também na comunidade reunida. Uma Eucaristia celebrada em meio à humilhação dos irmãos transformava-se numa contradição do próprio mistério que pretendia celebrar. (1Cor 11,29; 1Cor 12,26-27).
Os Padres da Igreja aprofundaram essa compreensão:
- Santo Agostinho ensinava aos fiéis que eles recebiam aquilo que eram chamados a ser: Corpo de Cristo. "Recebei o que sois e tornai-vos aquilo que recebeis." (Santo Agostinho, Sermão 272).
- São João Crisóstomo advertia que não se podia honrar Cristo com vasos preciosos no altar e abandoná-lo na pobreza e no sofrimento dos irmãos. "Queres honrar o Corpo de Cristo? Não o desprezes quando o vires nu." (Homilia sobre Mateus 50,3-4).
A tradição patrística jamais separou a adoração do compromisso com a fraternidade. O altar e a vida caminhavam juntos. O culto e a justiça eram partes da mesma realidade espiritual.
O Catecismo da Igreja Católica reforça essa visão ao ensinar que a Eucaristia fortalece a caridade e compromete os cristãos com os pobres. (CIC 1394; CIC 1397). Não é por acaso que afirma que o amor da Igreja pelos pobres pertence à sua tradição constante. (CIC 2444). Se uma comunidade multiplica suas devoções eucarísticas, mas não cresce simultaneamente em misericórdia, acolhimento e sensibilidade para com os vulneráveis, existe uma tensão que precisa ser examinada à luz do Evangelho. A verdadeira adoração não termina diante do ostensório. Ela continua na forma como se trata o próximo. (1Jo 4,20; Tg 2,14-17; Mt 25,40).
Sob a perspectiva das ciências da religião, o que se observa em muitos contextos é uma espécie de deslocamento do sagrado. O sagrado concentra-se progressivamente nos objetos, nos gestos, nas vestes e nos detalhes rituais, enquanto as relações humanas perdem centralidade. A comunidade desenvolve enorme sensibilidade para identificar possíveis irreverências contra símbolos religiosos, mas reduz sua capacidade de perceber feridas humanas concretas. A hóstia é cuidadosamente protegida. O ostensório é cuidadosamente venerado. O sacrário é cuidadosamente preservado. Entretanto, pessoas concretas podem ser esquecidas, afastadas ou silenciadas sem que isso provoque a mesma inquietação moral. (Mt 23,23-24; Is 1,11-17).
Talvez seja justamente aqui que surja uma reflexão necessária sobre a própria ideia de profanação. Frequentemente a palavra é utilizada para designar atos de desrespeito contra a Eucaristia. E de fato a Igreja possui razões legítimas para proteger o Santíssimo Sacramento contra abusos e irreverências. (CIC 2120; CDC cân. 1367 do antigo código, atualmente reorganizado na legislação penal canônica). Contudo, a tradição bíblica sugere uma compreensão mais profunda. Quando o culto é separado da justiça, algo sagrado também é profanado. Quando a dignidade humana é ferida em nome de uma religiosidade formal, algo da própria mensagem de Cristo é desfigurado. (Am 5,21-24; Is 58,1-10; Mt 23,13-36).
Quando a comunidade se acostuma a excluir pessoas enquanto intensifica práticas devocionais, instala-se uma contradição espiritual que nenhuma solenidade litúrgica consegue esconder. (1Cor 11,17-34; CIC 1397; Documento de Aparecida, nn. 161, 368 e 537). Não porque a Eucaristia perca sua santidade, mas porque aqueles que a celebram deixam de testemunhar plenamente aquilo que ela significa.
Nesse contexto aparecem também orientações insistentes para que os fiéis recebam a comunhão de joelhos e na boca. Sem dúvida, trata-se de uma prática legítima e venerável da tradição católica. Muitos cristãos expressam dessa maneira sua profunda reverência diante do Sacramento. Entretanto, a Igreja também reconhece outras formas legítimas de recepção da comunhão, conforme as normas aprovadas pela autoridade competente. (Instrução Geral do Missal Romano; Redemptionis Sacramentum, nn. 90-92). O problema não está na prática em si, mas na transformação de uma opção legítima em critério de superioridade espiritual ou em instrumento de distinção religiosa.
Em determinados contextos, a forma de receber a comunhão, o modo de vestir, a linguagem utilizada e determinadas sensibilidades litúrgicas acabam funcionando como marcadores de pertencimento. Pouco a pouco, alguns passam a ser vistos como os verdadeiramente fiéis, enquanto outros são percebidos como espiritualmente inferiores. O Evangelho, porém, não instituiu castas de santidade. (Gl 3,28; Rm 2,11). A Carta de Tiago adverte severamente contra qualquer acepção de pessoas dentro da assembleia cristã. (Tg 2,1-9). Ajoelhar-se diante da Eucaristia é belo. Mas o Evangelho recorda que também é necessário curvar-se diante da dignidade do irmão.
É nesse ponto que surge o fenômeno que Aparecida e o magistério contemporâneo identificam como clericalismo e fechamento comunitário. O clericalismo não consiste apenas na concentração de autoridade por parte do clero. Ele nasce sempre que funções se tornam mais importantes que pessoas, quando estruturas se tornam mais importantes que relações e quando a manutenção da ordem vale mais do que a promoção da comunhão. O clericalismo transforma irmãos em subordinados, carismas em ameaças e diferenças em problemas. Pouco a pouco instala-se uma cultura de exclusão revestida de linguagem religiosa. Aparecida insiste que a Igreja deve ser casa e escola de comunhão, lugar onde ninguém se sinta descartado, invisível ou estrangeiro. (Documento de Aparecida, nn. 158, 161, 368, 524; Lumen Gentium, 9).
O próprio Direito Canônico oferece um antídoto importante contra essa deformação. A Igreja não vê os fiéis como meros destinatários passivos das decisões eclesiais. Pelo Batismo, todos participam da missão da Igreja e possuem dignidade própria, deveres e direitos reconhecidos pelo ordenamento canônico. (CDC, câns. 204-223; Lumen Gentium, 31-33). A finalidade do Direito Canônico não é proteger formalismos vazios nem criar castas dentro da Igreja. O princípio que o inspira é a dignidade comum dos batizados. Seu meio é a organização justa da vida eclesial. Seu fim último é a salvação das almas. Não por acaso, o último cânon do Código afirma que a salvação das almas deve ser sempre a lei suprema da Igreja. (CDC, cân. 1752).
Nenhuma norma encontra seu verdadeiro sentido quando serve para humilhar, marginalizar ou descartar pessoas. A autoridade existe para construir comunhão. A disciplina existe para favorecer a missão. A liturgia existe para glorificar a Deus e santificar o povo. (Mt 20,25-28; Lc 22,24-27; Christus Dominus, 16).
Por isso, a morte daquela ministra idosa permanece como uma interrogação silenciosa para todos os que permaneceram. Talvez tenha recebido homenagens após sua partida. Talvez tenham sido pronunciadas palavras de gratidão. Talvez tenham sido lembrados seus anos de dedicação. Mas a pergunta mais importante não se dirige aos mortos; dirige-se aos vivos. Ela pergunta se a comunidade soube reconhecer sua dignidade enquanto ela ainda estava presente. Pergunta se houve espaço para sua experiência, sua história e sua humanidade. Pergunta se o Cristo adorado na Eucaristia foi realmente reconhecido naquela mulher que serviu durante tantos anos. (Mt 25,40; 1Jo 4,20; Documento de Aparecida, 447-450).
No fim, a questão não é o incenso. Não é o ostensório. Não é a comunhão na boca. Não é a comunhão de joelhos. Não é a adoração eucarística. Tudo isso possui lugar legítimo e precioso na vida da Igreja. As questões decisivas são outras:
Enquanto a fumaça do incenso subia aos céus, quantos irmãos permaneciam invisíveis na terra? (Is 58,6-10; Mt 25,42-45).
Enquanto se defendia a honra de Cristo presente na hóstia, quem defendia a dignidade de Cristo presente nos excluídos da comunidade? (Mt 25,40; 1Jo 4,20).
Enquanto se falava de reparação pelas ofensas cometidas contra o Santíssimo Sacramento, quem se preocupava em reparar as feridas causadas pelos afastamentos, pelas exclusões e pelos silêncios? (Mt 5,23-24; Ef 4,31-32).
Todos aguardavam o fogo que consumiria o incenso. Talvez poucos tenham percebido que o fogo mais importante do Evangelho é o da caridade. (1Cor 13,1-13). Sem ele, o incenso sobe, os cânticos ecoam, as procissões acontecem, os ostensórios brilham e os ritos se multiplicam, mas a missão corre o risco de perder sua alma. Porque o fogo do altar jamais foi destinado a substituir o fogo do amor. Onde a caridade se apaga, a religião corre o risco de tornar-se uma bela estrutura sem coração. Onde a caridade permanece acesa, até mesmo os gestos mais simples tornam-se verdadeira adoração. (1Jo 4,7-21; Mt 22,34-40).
Talvez seja exatamente isso que o Evangelho continua a recordar a cada geração: não existe oposição entre adorar Cristo na Eucaristia e servir Cristo nos irmãos. Existe, ao contrário, uma profunda unidade. Quando uma dessas dimensões é esquecida, a outra também começa a adoecer. Quando ambas caminham juntas, a Igreja torna-se aquilo que foi chamada a ser: sacramento de comunhão, casa de misericórdia, povo de Deus a caminho e sinal vivo do Reino de Deus na história. (Lumen Gentium, 1 e 9; Documento de Aparecida, nn. 158, 161 e 368; Jo 13,34-35).
DNonato - Pecador Público, por motivos que ainda não posso postar.
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