sábado, 6 de junho de 2026

Um outro olhar sobre Mateus 9,9-13 - 10⁰ Domingo do Tempo Comum

O Evangelho de Mateus 9,9-13 ocupa um lugar singular na tradição litúrgica da Igreja. Proclamado na Festa de São Mateus Apóstolo e Evangelista, celebrada em 21 de setembro, na sexta-feir 13ª Semana do Tempo Comum e no  10⁰ Domingo do Tempo Comum do Ano A,  com as leituras  Oseias 6,3-6, o Salmo 49(50) e Romanos 4,18-25. Essa convergência não é fruto de uma simples associação temática, mas da profunda unidade da revelação bíblica. As leituras conduzem o fiel ao coração da fé cristã, mostrando que a iniciativa da salvação pertence sempre a Deus, que vê antes de julgar, chama antes de exigir, acolhe antes de condenar e transforma pela misericórdia aqueles que a sociedade, a religião ou até eles próprios já consideravam perdidos. O chamado de Mateus não é apenas a história de um homem do passado. É uma síntese do modo como Deus age ao longo de toda a Escritura e continua agindo na história humana. O capítulo 9 de Mateus encontra-se em uma seção na qual o evangelista apresenta a autoridade de Jesus através de sinais concretos. Depois do Sermão da Montanha, aquele que ensinou como novo Moisés demonstra por suas ações aquilo que suas palavras já haviam anunciado. Ele toca o leproso que todos evitavam, acalma as forças ameaçadoras do mar, devolve liberdade aos possessos e perdoa os pecados do paralítico. O chamado de Mateus surge imediatamente após esse último episódio, e essa sequência possui extraordinária importância teológica. Primeiro, Jesus perdoa. Depois, chama. Em seguida, senta-se à mesa. Por fim, enfrenta a resistência daqueles que não conseguem compreender a lógica do Reino. O olhar gera vocação; a vocação gera transformação; a transformação gera comunhão; a comunhão provoca conflito; e o conflito torna-se ocasião para a revelação mais profunda da misericórdia divina. Toda a narrativa desenvolve-se segundo esse movimento.

Quando Jesus passa diante da coletoria e vê Mateus, o Evangelho introduz um tema que atravessa toda a história da salvação: o olhar de Deus. Não se trata de um simples ato de observação. Na Bíblia, o olhar divino sempre inaugura uma nova história. O Senhor vê a aflição de Israel no Egito e decide libertá-lo (Ex 3,7-8). Vê Agar abandonada no deserto e transforma sua solidão em esperança (Gn 16,13). Vê Davi quando ninguém o considerava digno de ser rei (1Sm 16,1-13). O salmista contempla maravilhado esse Deus que conhece cada pensamento, cada passo e cada palavra antes mesmo que seja pronunciada (Sl 139,1-16). O profeta Ezequiel apresentará o Senhor como o pastor que sai pessoalmente à procura das ovelhas dispersas, cura as feridas das machucadas e reconduz as perdidas ao rebanho (Ez 34,11-16). Quando Jesus vê Mateus, todos esses ecos bíblicos ressoam silenciosamente. O olhar de Cristo é o olhar do próprio Deus que procura seus filhos. Mateus era publicano. Trabalhava em uma coletoria ligada ao sistema tributário romano e, por isso, encontrava-se entre os grupos mais rejeitados da Palestina do século I. Os cobradores de impostos eram frequentemente associados à exploração econômica, à corrupção e à colaboração com o poder ocupante. Sua exclusão possuía dimensões religiosas, sociais e culturais. Muitos eram considerados impuros e indignos da convivência comunitária. Em uma sociedade organizada em torno dos códigos de honra e vergonha, essa condição atingia profundamente a identidade pessoal. A pessoa acabava reduzida ao rótulo que lhe era imposto. O publicano deixava de ser visto como um ser humano complexo para tornar-se apenas um símbolo de tudo aquilo que a comunidade rejeitava. Contudo, Jesus não vê apenas um cobrador de impostos. Vê um discípulo possível. Vê uma história ainda não realizada. Vê uma vocação escondida sob as camadas da exclusão e da culpa. O Senhor que ensinou Samuel que o homem vê as aparências enquanto Deus contempla o coração continua revelando essa verdade diante da coletoria de Cafarnaum.

A palavra seguinte é tão breve quanto revolucionária: “Segue-me”. Com ela, Mateus é inserido na grande corrente dos chamados bíblicos. Abraão ouviu uma voz que o convidava a deixar sua terra, sua parentela e suas seguranças para caminhar rumo a um futuro que ainda não podia enxergar (Gn 12,1-4). Moisés foi chamado diante da sarça ardente para libertar um povo escravizado (Ex 3,10-12). Isaías escutou a pergunta divina e respondeu: “Eis-me aqui, envia-me” (Is 6,8). Jeremias descobriu que Deus o conhecia antes mesmo de sua formação no ventre materno (Jr 1,5). Pedro abandonou as redes para tornar-se pescador de pessoas (Lc 5,1-11). Em todos esses casos, a vocação não nasce da perfeição humana, mas da iniciativa divina. Deus não escolhe porque alguém já é plenamente capaz; escolhe porque deseja tornar possível aquilo que ainda não existe. Essa dinâmica encontra profunda sintonia com a teologia de Paulo em Romanos 4. O apóstolo apresenta Abraão como aquele que acreditou contra toda esperança, confiando naquele que “dá vida aos mortos e chama à existência aquilo que não existe” (Rm 4,17). A mesma lógica está presente no chamado de Mateus. Abraão acreditou quando a esterilidade parecia tornar impossível a promessa. Mateus respondeu quando sua própria história parecia torná-lo improvável como discípulo. Em ambos os casos, a graça revela possibilidades invisíveis aos olhos humanos. Deus vê descendência onde existe esterilidade. Vê apostolado onde todos enxergam apenas pecado. Vê futuro onde os homens percebem apenas fracasso. A fé bíblica nasce precisamente dessa confiança radical na capacidade de Deus de criar novos começos.

A resposta de Mateus é descrita em poucas palavras: “Ele se levantou e o seguiu”. O evangelista utiliza um verbo carregado de significado pascal. O ato de levantar-se evoca a ressurreição. Não se trata apenas de mudar de posição física. Mateus ergue-se de uma antiga forma de existência para iniciar uma vida nova. Seu gesto recorda o próprio movimento do Êxodo. Assim como Israel precisou levantar-se da escravidão para caminhar rumo à liberdade prometida, Mateus abandona sua coletoria para iniciar o êxodo interior do discipulado. O seguimento de Jesus nunca consiste apenas em deslocamento geográfico. O verbo grego akolouthein expressa adesão existencial. Seguir Cristo significa reorganizar toda a vida a partir dele, aprender a olhar o mundo com seus olhos, assumir seus valores, participar de sua missão e deixar-se conduzir por sua lógica de amor e serviço..A narrativa desloca-se então para uma refeição. Esse detalhe possui enorme importância. Na tradição bíblica, a mesa é um dos grandes símbolos da aliança. A libertação de Israel é celebrada através da refeição pascal (Ex 12). Os profetas anunciam a plenitude dos tempos como um banquete preparado por Deus para todos os povos (Is 25,6-9). Os salmos celebram a mesa preparada pelo Senhor diante dos inimigos (Sl 23,5). Mais tarde, Jesus utilizará repetidamente a imagem do banquete para falar do Reino (Lc 14,15-24), e o Apocalipse apresentará a consumação da história como as núpcias do Cordeiro (Ap 19,9). Toda refeição de Jesus possui, portanto, um significado que ultrapassa o simples ato de alimentar-se. A mesa torna-se espaço de reconciliação, pertença e comunhão.

Por isso o escândalo provocado pela presença de Jesus entre publicanos e pecadores é tão intenso. O problema não era apenas conversar com eles. Era partilhar a mesa. Em uma cultura onde comer juntos significava reconhecer laços de comunhão, aquele gesto equivalia a afirmar publicamente que aquelas pessoas possuíam lugar no Reino de Deus. A refeição na casa de Mateus antecipa, de certo modo, todas as refeições futuras de Jesus. Antecipará a multiplicação dos pães, onde multidões serão alimentadas sem distinção. Antecipará a Última Ceia, na qual o Mestre oferecerá seu corpo e seu sangue pela vida do mundo. Antecipará a Eucaristia, sacramento da misericórdia oferecida aos pecadores em caminho de conversão. A mesa da casa de Mateus já contém em germe a universalidade da mesa eucarística..A reação dos fariseus expressa uma visão religiosa baseada na separação entre puros e impuros. Não se trata de simples hipocrisia, mas de uma compreensão da santidade construída ao longo de séculos. Muitos acreditavam que a fidelidade a Deus exigia distância rigorosa daquilo que pudesse contaminar. Jesus propõe uma lógica diferente. Sua santidade não se protege pela exclusão. Ela se comunica pela proximidade. A luz não teme a escuridão porque existe para iluminá-la. O médico não evita os doentes para preservar sua saúde; aproxima-se deles para restaurá-la. É precisamente essa imagem que Jesus utiliza ao responder aos seus críticos: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes”.

A metáfora médica possui raízes profundas nas Escrituras: 

  •  Deus é aquele que cura todas as enfermidades (Sl 103,3).
  •  Jeremias clama: “Cura-me, Senhor, e serei curado” (Jr 17,14).
  •  Isaías apresenta o Servo Sofredor cujas feridas trazem cura para muitos (Is 53,5).
  •  Ezequiel fala do pastor que fortalece a ovelha fraca, cura a ferida e procura a perdida (Ez 34,16). 
Em Jesus, essa ação terapêutica de Deus torna-se visível e concreta. Sua missão não consiste em administrar um clube dos perfeitos, mas em restaurar aqueles que carregam as feridas da existência humana..É nesse contexto que surge a declaração decisiva: “Ide aprender o que significa: misericórdia eu quero e não sacrifício” (Os 6,6). Essa frase constitui a chave interpretativa de toda a passagem. O profeta Oseias denunciava um povo que continuava realizando cerimônias religiosas enquanto sua vida permanecia distante da justiça e da fidelidade. A religião permanecia ativa, mas a aliança estava ferida. O problema não era o culto em si, mas a tentativa de substituir a conversão do coração por práticas exteriores. A palavra hebraica utilizada por Oseias, hesed, expressa fidelidade amorosa, compaixão concreta, solidariedade e compromisso. Não se trata de um sentimento passageiro, mas de uma forma de viver as relações.

A mesma crítica atravessa toda a tradição profética;

  • Amós denuncia celebrações religiosas que coexistem com a opressão dos pobres (Am 5,21-24). 
  • Isaías rejeita sacrifícios que não produzem justiça (Is 1,11-17). 
  • Miqueias recorda que Deus deseja justiça, misericórdia e humildade mais do que ofertas cultuais (Mq 6,6-8). 
  • Zacarias exorta o povo a praticar a misericórdia e não oprimir a viúva, o órfão, o estrangeiro e o pobre (Zc 7,9-10). 
Jesus não rompe com essa tradição. Pelo contrário, leva-a ao seu pleno cumprimento. Sua crítica não é dirigida à fé, mas ao seu esvaziamento ético. Não combate a religião, mas sua transformação em instrumento de exclusão..O Salmo 49 reforça essa mesma mensagem. Deus recorda ao seu povo que não necessita de sacrifícios como se dependesse deles. Toda a criação já lhe pertence. O verdadeiro culto nasce da gratidão, da fidelidade e da justiça. A religião torna-se estéril quando se reduz a formalidades desconectadas da vida. A adoração autêntica manifesta-se em uma existência transformada pela misericórdia.

Essa verdade continua profundamente atual. Os mecanismos de exclusão assumem formas diferentes em cada época, mas permanecem presentes. Hoje os publicanos podem ser encontrados entre: os pobres das periferias, os migrantes, os refugiados, os encarcerados, os dependentes químicos, os desempregados, os descartados pela lógica econômica ou todos aqueles cuja dignidade é negada por preconceitos e desigualdades. O Evangelho continua escandaloso porque insiste em aproximar-se precisamente desses lugares de vulnerabilidade. Cristo permanece identificando-se com os famintos, os sedentos, os estrangeiros, os enfermos e os presos, como recorda Mateus 25. A misericórdia não é um tema periférico da fé cristã. É a forma concreta assumida pelo amor de Deus dentro da história.

Também a Igreja é continuamente chamada a examinar-se à luz dessa passagem. A pergunta permanece atual: reproduzimos o olhar misericordioso de Cristo ou reconstruímos as barreiras que ele veio derrubar? Sempre existe o risco de substituir a compaixão pelo moralismo, a proximidade pelo controle, a missão pela autopreservação institucional. A fé pode degenerar em ideologia. A doutrina pode ser utilizada como instrumento de exclusão. A autoridade pode transformar-se em privilégio. Por isso o Evangelho permanece permanentemente crítico diante de toda forma de clericalismo, autoritarismo religioso ou instrumentalização da fé para projetos de poder. Jesus jamais utilizou a religião para construir inimigos. Seu caminho foi sempre o da reconciliação, da verdade e da misericórdia. Ao longo da história, homens e mulheres procuraram viver essa lógica evangélica.

  1.  Francisco de Assis aproximou-se dos leprosos. 
  2. Bartolomeu de Las Casas defendeu os povos indígenas. 
  3. Dom Hélder Câmara denunciou a miséria estrutural. 
  4. Dom Oscar Romero entregou a própria vida ao lado dos pobres. 
  5. Dorothy Stang testemunhou a defesa da Amazônia e dos pequenos até o martírio.
 Em todos eles, a mesa de Mateus continuou aberta. Em todos eles, a misericórdia mostrou-se mais forte que os mecanismos de exclusão.

Ao final da narrativa, Mateus permanece diante de nós como um espelho da condição humana. Cada pessoa possui suas próprias coletorias: lugares de culpa, medo, acomodação, fracasso, vergonha ou sofrimento onde permanece sentada há anos. Todos carregamos experiências que parecem definir nossa identidade e limitar nosso futuro. O Evangelho anuncia que Cristo continua passando por essas estradas interiores. Ele não vê apenas aquilo que fomos. Não nos reduz aos nossos pecados nem às nossas feridas. Vê aquilo que podemos nos tornar pela ação da graça. O Deus que chamou Abraão quando a promessa parecia impossível, que libertou Israel da escravidão, que procurou as ovelhas dispersas através dos profetas e que enviou seu Filho para buscar os perdidos continua agindo na história. Seu olhar permanece criador. Sua misericórdia permanece transformadora. Sua graça continua abrindo caminhos onde tudo parecia encerrado..O Cristo que passou diante da coletoria continua percorrendo as estradas do mundo e os caminhos ocultos do coração humano. Continua vendo aqueles que ninguém vê. Continua chamando aqueles que muitos consideram indignos. Continua sentando-se à mesa com os esquecidos. Continua revelando o Deus que faz nascer vida onde parecia haver apenas morte e esperança onde predominava o desespero. E continua repetindo, a cada geração, a palavra que transformou a vida de Mateus, atravessou a fé de Abraão, iluminou a voz dos profetas e permanece capaz de renovar a nossa existência: “Segue-me”.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

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