Ao insistir nesse trecho, a liturgia indica que estamos diante de um núcleo revelador do Evangelho: o modo como Jesus vive sua relação com o Pai, sua proximidade radical com os doentes, os pobres e os possuídos, e sua recusa em reduzir a missão a sucesso, aplauso ou fixação em um único lugar. Marcos nos oferece, aqui, não apenas ações de Jesus, mas um retrato existencial: um Messias que se move entre a casa e a rua, entre o silêncio da oração e o clamor das multidões, entre a compaixão concreta e a liberdade interior que o impede de ser capturado pela lógica da demanda incessante.
Nesse sentido, a Palavra proclamada não apenas informa, mas conforma; não apenas narra, mas provoca deslocamentos interiores. Ela educa o olhar da Igreja, purifica suas práticas e questiona seus modelos pastorais. Ao retornar ciclicamente a esse texto, a liturgia recorda que a identidade cristã nasce desse equilíbrio sempre tenso entre intimidade com Deus e entrega à humanidade ferida, entre contemplação e missão, entre presença compassiva e liberdade profética. Marcos 1,29-39 não descreve apenas o que Jesus fez, mas revela quem Ele é 9 e, por isso mesmo, quem a Igreja é chamada a ser no coração do mundo.
O relato começa com um deslocamento que já é, em si, uma chave hermenêutica: Jesus sai da sinagoga e entra na casa. A sinagoga representa o espaço institucional da fé, da tradição interpretada, da Lei proclamada; a casa representa o espaço da vida concreta, das relações familiares, das fragilidades ocultas, do cotidiano onde a existência real se desenrola.
Marcos constrói, assim, uma teologia do limiar: o Reino não permanece encerrado no espaço do culto, mas atravessa a fronteira entre o sagrado e o profano. Essa dinâmica encontra eco direto na Dei Verbum, quando o Concílio Vaticano II afirma que Deus “fala aos homens como amigos e conversa com eles” na história concreta (DV 2). A revelação não se dá fora da vida, mas dentro dela.
Na casa de Simão e André, Jesus encontra a sogra de Simão prostrada por causa da febre. A linguagem é densa de significado. No horizonte bíblico, a doença não é apenas um dado clínico, mas uma experiência que afeta a totalidade da pessoa, comprometendo sua relação com Deus, com a comunidade e consigo mesma. A prostração indica alguém impedido de se levantar, de assumir sua posição na trama social e simbólica da vida. Textos como o Salmo 38,4 ou Isaías 1,5-6 expressam essa compreensão integral do adoecimento como sinal de desordem que ultrapassa o corpo físico.
Jesus não cura à distância. Ele se aproxima, toma-a pela mão e a levanta. Cada gesto carrega densidade cristológica e soteriológica. Aproximar-se rompe a lógica da distância religiosa; tocar desafia o medo da impureza ritual; levantar antecipa a linguagem pascal da ressurreição. O verbo grego egeírein, usado aqui, será o mesmo empregado para falar da ressurreição de Jesus (Mc 16,6). Desde o início do Evangelho, Marcos anuncia que a missão de Jesus consiste em colocar de pé os que foram derrubados pelas múltiplas formas de morte que atravessam a história.
Esse gesto de Jesus confronta frontalmente uma religião centrada na pureza legal e não na misericórdia. O Concílio Vaticano II, ao afirmar que “a pessoa humana é e deve ser o princípio, o sujeito e o fim de todas as instituições sociais” (Gaudium et Spes, 25), oferece uma chave de leitura para esse gesto evangélico. A cura não é um ato mágico, mas uma restauração da dignidade. Jesus devolve àquela mulher a capacidade de participar da vida comunitária.
Curada, ela se levanta e passa a servir. O serviço, longe de ser reduzido a uma função subalterna, é expressão de uma vida reintegrada. O mesmo verbo diaconia será usado para definir o próprio ministério de Jesus: “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mc 10,45). A cura gera missão, e a experiência do encontro com Cristo desdobra-se necessariamente em compromisso. O Documento de Aparecida expressa essa dinâmica ao afirmar que “todo encontro autêntico com Jesus Cristo desperta o discípulo para a missão” (DAp 11).
Ao entardecer, depois do pôr do sol, a cidade inteira se reúne à porta. O detalhe temporal não é secundário. Ele revela uma sociedade marcada por restrições religiosas que, muitas vezes, atrasam o cuidado com a vida. As pessoas esperam o fim do sábado para buscar cura. Jesus, porém, acolhe a todos. Cura muitos e expulsa demônios, mas impõe silêncio aos espíritos impuros. Ele não permite que forças ambíguas definam sua identidade. Aqui se revela uma crítica antecipada a toda tentativa de instrumentalizar Jesus para fins ideológicos, religiosos ou mercadológicos.
Essa dimensão crítica torna-se particularmente relevante no confronto com as teologias da prosperidade e do domínio. Tais correntes reduzem o Evangelho a um sistema de recompensas, no qual a fé se converte em investimento e Deus em garantidor de sucesso. O Evangelho de Marcos desmonta essa lógica ao apresentar um Jesus que cura por compaixão, não por barganha; que se retira quando é procurado por todos, recusando-se a transformar a fé em espetáculo. A Evangelii Gaudium denuncia com clareza essa perversão ao afirmar que “uma economia de exclusão e desigualdade mata” (EG 53), e o mesmo princípio pode ser aplicado a uma religiosidade que mercantiliza a graça.
Na madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levanta e vai para um lugar deserto para rezar. Esse movimento revela a fonte de sua ação. A intensa atividade não nasce do ativismo, mas da oração. O deserto, na tradição bíblica, é lugar de reencontro com Deus e de redefinição da missão, como em Êxodo 3, 1 Reis 19 e Oséias 2,16. Jesus revela que sua identidade messiânica não se constrói a partir da aclamação popular, mas da intimidade com o Pai.
Lucas 11,1-4 ilumina profundamente essa cena ao mostrar que a oração de Jesus provoca nos discípulos o desejo de aprender a rezar. O Pai-Nosso não é apenas uma fórmula devocional, mas uma pedagogia do Reino. Chamar Deus de Pai redefine a imagem do sagrado; pedir o pão cotidiano questiona a lógica da acumulação; suplicar o perdão reconstrói relações sociais; pedir para não cair em tentação denuncia as seduções do poder. Trata-se de uma oração profundamente existencial, social e política.
Quando os discípulos dizem: “Todos te procuram”, Jesus responde com uma decisão que rompe expectativas: ir a outros lugares. Ele não se fixa onde é reconhecido, não constrói um centro de poder religioso. Sua autoridade nasce do envio. Aqui se revela uma crítica estrutural ao clericalismo, entendido como apropriação do sagrado e concentração de poder. O Concílio Vaticano II recorda que a Igreja é, por sua própria natureza, missionária (Ad Gentes, 2), e que todos os batizados participam dessa missão (Lumen Gentium, 31). O Documento de Medellín reforça essa perspectiva ao denunciar estruturas eclesiais que se afastam do povo e de suas dores (Medellín, Justiça, 6).
Do ponto de vista antropológico e sociológico, o texto revela um Jesus atento às estruturas que adoecem corpos e subjetividades. A doença não é apenas individual, mas também social. A exclusão, o legalismo e a desigualdade produzem corpos prostrados e histórias interrompidas. Ao tocar, curar e levantar, Jesus realiza uma libertação integral, antecipando a visão conciliar segundo a qual “não há nada verdadeiramente humano que não encontre eco no coração dos discípulos de Cristo” (GS 1).
Santo Agostinho afirmava que a oração sustenta a ação e impede que o serviço se torne vazio. João Crisóstomo insistia que a autoridade de Cristo não provém do aplauso, mas da comunhão com o Pai. Orígenes via na ida ao deserto um convite permanente à Igreja para não se deixar capturar pelo ruído do mundo. Essas leituras permanecem atuais diante de uma Igreja tentada pela autorreferencialidade.
A CNBB, em seus documentos pastorais, insiste que a espiritualidade cristã deve integrar fé, vida e compromisso social. As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora afirmam que “não há evangelização autêntica sem compromisso com a vida plena para todos” (DGAE, n. 32). As Campanhas da Fraternidade, ao longo das décadas, ecoam a mesma dinâmica evangélica: oração que se transforma em ação e ação que retorna à oração.
Jesus percorre toda a Galileia, pregando nas sinagogas e expulsando demônios. O movimento é contínuo, itinerante, aberto. A fé cristã não se reduz a práticas individualistas nem a experiências privadas. Ela se constrói no encontro e na missão. O Documento de Aparecida denuncia o individualismo religioso e convoca a Igreja a uma conversão pastoral permanente (DAp 365).
Assim, Marcos 1,29-39, proclamado na primeira quarta-feira do Tempo Comum e no 5º Domingo do Ano B, impõe-se como um espelho incômodo, crítico e profundamente profético para a Igreja de hoje. O texto não permite neutralidade nem leituras domesticadas. Ele nos constrange a discernir a origem de nossa ação pastoral, a perguntar se ela brota da intimidade com o Pai ou da lógica da eficiência, do sucesso religioso e da visibilidade. Obriga-nos também a confrontar a imagem de Deus que anunciamos: o Deus que se aproxima, toca, cura e liberta, ou um deus funcional, instrumentalizado para legitimar projetos de poder, prosperidade e controle.
Diante desse Evangelho, somos chamados a romper com toda forma de fé mercantilizada, que transforma o sofrimento humano em palco, a graça em produto e a missão em espetáculo. Somos igualmente convocados a denunciar o clericalismo que centraliza, silencia e se apropria da ação de Deus, esquecendo que Jesus não monopoliza o Reino, mas o inaugura em saída, em movimento, em constante deslocamento. Em Jesus, oração e compromisso histórico não se opõem: a madrugada solitária diante do Pai é o lugar onde se purifica a missão e se redefine o rumo, para que a compaixão não se perca em ativismo nem a oração se converta em fuga da realidade.
Marcos 1,29-39 recorda à Igreja que a autoridade de Jesus nasce da coerência entre intimidade com Deus e entrega radical ao sofrimento humano. Não há anúncio autêntico sem escuta profunda, nem verdadeira espiritualidade que não desemboque em compromisso concreto com os doentes, os pobres, os invisibilizados e os descartados. Por isso, retomar o caminho do Reino exige coragem profética para sair de Cafarnauns confortáveis, recusar aplausos fáceis e seguir adiante, mesmo quando isso implica atravessar desertos, incompreensões e conflitos.
A vitalidade da missão, ontem como hoje, não nasce das estratégias mais eficientes, das estruturas mais robustas ou dos discursos mais sedutores, mas do encontro fiel, silencioso e transformador com o Pai, que nos envia sempre de novo para anunciar, curar, libertar e servir. É nesse movimento pascal — da oração ao caminho, do silêncio à palavra, do encontro com Deus ao encontro com os irmãos — que a Igreja reencontra sua verdade, sua autoridade e sua esperança.
DNonato - Teólogo do Cotidiano


Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado pelo seu comentário.