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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Um breve olha sobre Marcos 6,1-6

A Boa Nova de Jesus segundo Marcos 6,1-6 nos introduz num dos núcleos mais delicados e provocadores da cristologia evangélica: o escândalo da encarnação vivido não apenas como mistério teológico, mas como experiência concreta de rejeição. Antes mesmo de qualquer elaboração doutrinal, o texto nos situa no terreno da vida cotidiana, onde vozes são desacreditadas não por falta de verdade, mas por excesso de familiaridade e Jesus ja tinha  passado pelo conflito familiar em Marcos 3, 31-35.  Quem nunca experimentou falar e não ser ouvido exatamente porque todos achavam já saber quem somos? É nesse chão humano, psicológico e social que a Palavra de Deus se deixa ouvir ou silenciar,  como já advertia a Sabedoria: “Armemos ciladas contra o justo, porque ele nos incomoda” (Sb 2,12)

A liturgia da Igreja, ao proclamar este texto tanto na quarta-feira da 4ª semana do Tempo Comum quanto no 14º Domingo do Tempo Comum do Ano B, constrói uma verdadeira arquitetura hermenêutica. Ezequiel 2,2-5 apresenta o profeta enviado a um povo de fronte dura e coração obstinado, ecoando o drama de Moisés diante da resistência do povo no deserto (cf. Ex 5–6); o Salmo 122(123) traduz a atitude espiritual da espera humilde, semelhante à do pobre que clama e não é ouvido (cf. Sl 34,7); 2Coríntios 12,7-10 revela a força paradoxal da graça que se manifesta na fraqueza; e Marcos 6,1-6 encarna tudo isso na pessoa de Jesus. Não se trata de leituras justapostas, mas de um único drama salvífico que atravessa toda a Escritura: Deus insiste em falar mesmo quando sua Palavra encontra resistência, como aconteceu com Isaías (Is 6,9-10) e Jeremias (Jr 1,17-19).

Jesus retorna à sua pátria. O detalhe é decisivo. Nazaré não é apenas o lugar de origem, mas o espaço simbólico da memória compartilhada, das categorias já definidas, dos rótulos consolidados. A questão cultural nos ensina que comunidades pequenas tendem a proteger seus sistemas de sentido rejeitando aquilo que ameaça a estabilidade simbólica. Jesus ameaça porque rompe expectativas. Não corresponde ao imaginário messiânico dominante, nem aos critérios de autoridade religiosa vigentes. Sua palavra carrega autoridade (cf. Mc 1,22), mas não vem revestida de poder institucional.

O questionamento dos conterrâneos — “Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria?” — revela mais do que curiosidade,  indicando  alguém ligado ao trabalho manual, ao esforço cotidiano, distante das elites cultuais. Aqui emerge uma crítica estrutural: a dificuldade histórica das religiões em reconhecer a revelação quando ela surge fora dos centros legitimados. Trata-se de um mecanismo recorrente na história bíblica. Davi é esquecido por seu próprio pai quando Samuel procura o ungido (1Sm 16,6-13); Amós é desqualificado por não pertencer ao corpo profético oficial (Am 7,10-15); Jeremias é ridicularizado por sua juventude (Jr 1,6). A Palavra de Deus insiste em nascer à margem, como o Servo sofredor que “não tinha aparência nem beleza” (Is 53,2).

Nazaré encarna o processo de desqualificação simbólica do próximo, periferias das periferias. A familiaridade gera a ilusão do domínio: achamos que conhecemos o outro por completo e, assim, anulamos sua capacidade de nos surpreender. A fé, porém, exige abertura ao excesso de sentido. Deus não cabe na biografia que construímos sobre alguém. “Meus pensamentos não são os vossos pensamentos” (Is 55,8) torna-se aqui chave hermenêutica para compreender a incredulidade travestida de religiosidade.

Marcos introduz então uma afirmação desconcertante: Jesus não pôde realizar ali muitos milagres. Longe de indicar impotência divina, o evangelista revela a lógica do Reino, já anunciada em outras passagens: a fé precede o sinal (cf. Mc 5,34; Mc 10,52). O milagre não é imposição, nem espetáculo, nem instrumento de convencimento. Ele supõe relação, confiança, acolhida. Aqui se desmonta radicalmente a teologia da prosperidade e toda espiritualidade do resultado, pois Jesus se recusa a fazer do poder um meio de autopromoção (cf. Mt 4,1-11).

Os sinóticos retomam a mesma cena com acentos próprios, oferecendo um rico paralelo hermenêutico. Mateus 13,53-58 e Lucas 8, 19-21 sublinha explicitamente que “não realizou ali muitos milagres por causa da incredulidade deles”, reforçando o vínculo entre fé e acolhida. Lucas 4,16-30 amplia dramaticamente o episódio ao situá-lo no início do ministério público e ao associar Jesus aos profetas Elias e Eliseu, lembrando que a graça alcança estrangeiros — a viúva de Sarepta (1Rs 17,8-16) e Naamã, o sírio (2Rs 5,1-14). A tentativa de lançá-lo do precipício revela que a rejeição do profeta pode rapidamente transformar-se em violência, como já ocorrera com Zacarias (2Cr 24,20-22) e como Jesus denunciará mais tarde: “Jerusalém, que matas os profetas” (Mt 23,37).

É exatamente contra essa lógica de controle religioso que Jesus ensina a oração em Lucas 11,1-4. O Pai-Nosso não forma indivíduos dominadores, mas filhos confiantes. O pedido do pão cotidiano evoca o maná do deserto (Ex 16), alimento suficiente e não acumulável; o perdão rompe a cadeia da violência, ecoando a ética do Levítico (Lv 19,18); e o pedido para não cair em tentação recorda a fragilidade humana diante do poder, tema recorrente na história de Israel (cf. Dt 8). Nazaré fracassa porque quer um Deus previsível; a oração ensina a acolher um Deus livre.

O Salmo 122(123) ecoa essa espiritualidade: olhos erguidos, mãos vazias, espera paciente, como em Lamentações 3,31-33. Trata-se de uma fé que resiste à tentação da mercantilização. Paulo, em 2Coríntios 12,7-10, aprofunda essa lógica ao afirmar que a força de Deus se manifesta na fraqueza, em consonância com a teologia da cruz desenvolvida em 1Coríntios 1,18-25. Aqui se revela o coração do Evangelho: não há glória sem cruz, nem autoridade sem serviço (cf. Mc 10,42-45).

Historicamente, Nazaré era uma aldeia periférica, sem relevância política ou religiosa, confirmando o escândalo expresso em João 1,46: “De Nazaré pode sair coisa boa?”. A ciência histórica mostra que o messianismo popular esperava sinais grandiosos e restauração política (cf. At 1,6). Jesus frustra essas expectativas ao revelar um Reino que cresce como semente lançada na terra (Mc 4,26-29) e como grão de mostarda (Mc 4,30-32). Essa frustração permanece atual sempre que a fé é instrumentalizada para projetos de poder.

Nazaré rejeita Jesus não apenas por conhecê-lo, mas por ele não pertencer ao sistema autorizado de mediação religiosa. Aqui se antecipa a intuição do Concílio Vaticano II ao afirmar que todo o povo de Deus participa da missão profética de Cristo (Lumen Gentium, 12), retomada com vigor pelos documentos latino-americanos de Medellín, Puebla e Aparecida, que denunciam uma Igreja autorreferencial e chamam à escuta dos pobres como lugar teológico. Sempre que a Igreja silencia essas vozes, repete a lógica de Nazaré.

Marcos conclui dizendo que Jesus se admirou da falta de fé deles. Essa admiração é lamento amoroso, semelhante ao pranto sobre Jerusalém (Lc 19,41). Deus não se impõe. Assume o risco da encarnação até o fim, inclusive o risco do fracasso aparente. Aqui se revela uma verdadeira escatologia do fracasso: o Reino avança não apesar da rejeição, mas através dela, como o grão que morre para dar fruto (Jo 12,24). A ausência de milagres torna-se sinal da fidelidade de Deus à liberdade humana.

Celebrar Marcos 6,1-6 no Tempo Comum é reconhecer que o ordinário da vida é o lugar privilegiado da revelação, como em Emaús (Lc 24,13-35). Não há fé madura sem revisão constante de nossas imagens de Deus, de nossas práticas religiosas e de nossas estruturas eclesiais. Nazaré não é apenas um lugar do passado; é uma tentação permanente. Onde quer que a Palavra seja silenciada por não corresponder às expectativas, ali Nazaré se repete.

 A Boa Nova de Jesus não promete sucesso, mas sentido. Não oferece domínio, mas comunhão. Não vende milagres, mas convida à conversão do olhar. Diante d’Ele, não somos chamados a aplaudir prodígios, mas a rever certezas, desmontar preconceitos e atravessar o escândalo de um Deus que se faz comum. O problema de Nazaré não foi a falta de poder em Jesus, mas o excesso de familiaridade que cegou o coração. Quando Deus não cabe mais em nossos esquemas, preferimos reduzi-lo ao conhecido, neutralizá-lo, torná-lo inofensivo. A incredulidade, aqui, não é ateísmo declarado, mas fechamento existencial: é quando já sabemos demais sobre Deus para ainda nos deixarmos interpelar por Ele. Por isso Jesus se admira — não da miséria humana, mas da recusa em crer que o Mistério possa habitar o ordinário, o chão da vida, a carpintaria do cotidiano. Onde tudo parece controlado, Deus não impõe sua graça; respeita a liberdade, mesmo quando ela se transforma em barreira.

Quem tem fé, permita-se surpreender. A fé não é posse, é abertura; não é garantia, é risco; não é conforto, é travessia. Deus continua falando — quase sempre a partir de onde menos esperamos: das periferias da história, das vozes desacreditadas, das realidades desprezadas, das pessoas que “já conhecemos demais”. E talvez o maior milagre ainda hoje não seja o extraordinário que impressiona, mas o ordinário acolhido com olhos novos, capaz de devolver sentido, dignidade e esperança à vida.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

quinta-feira, 31 de julho de 2025

Um breve olhar sobre Mateus 13,54-58

O Evangelho de Mateus 13,54-58, proclamado na sexta-feira da 17ª Semana do Tempo Comum do Ano Par e também na Festa de São José Operário, apresenta Jesus retornando a Nazaré, a cidade onde cresceu. O texto nos conduz às ruas da infância, à simplicidade da casa de José e Maria e ao ofício aprendido na carpintaria. Mais do que um retorno geográfico, trata-se de um momento decisivo da narrativa evangélica é a continuação  da leitura  do evangelho  do.dia anterior Mateus 13, 47-53 e antecede  o evangelho  do sábado  Mateus 14, 1-12
Esta perícope encerra o capítulo 13 e conclui o terceiro grande discurso de Mateus, o Livro das Parábolas do Reino . Depois de revelar o Reino por meio de imagens como a semente, o fermento, o tesouro escondido, a pérola preciosa e a rede lançada ao mar, o evangelista mostra que toda revelação exige uma resposta concreta. Não basta admirar a mensagem; é preciso acolhê-la. A reação dos habitantes de Nazaré torna-se, assim, um retrato da incredulidade daqueles que estiveram mais próximos de Jesus, mas permaneceram incapazes de reconhecer, na simplicidade de sua humanidade, a presença do próprio Deus.  A cena marca uma importante transição narrativa e teológica. O Reino foi anunciado e explicado; agora começam a aparecer, de forma cada vez mais evidente, as consequências de sua proclamação. A rejeição sofrida em Nazaré antecipa a oposição crescente que culminará em Jerusalém e abre caminho para o quarto grande bloco do Evangelho, no qual o discipulado será apresentado como resposta à recusa do Messias por parte de muitos dos seus. Jesus retorna ao lugar onde, humanamente, tudo começou. Ali, onde o rosto é conhecido, onde a mãe tem nome, os irmãos são lembrados pelos vizinhos e as mãos conservam os calos do trabalho na carpintaria, o Verbo encarnado encontra o escândalo da proximidade. Não o escândalo da cruz, mas o da encarnação. Deus tornou-se próximo demais, humano demais, comum demais para corresponder às expectativas religiosas de seu povo. Por isso Mateus registra, com impressionante sobriedade: "Não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles
O evangelista  mostra  Jesus voltando  à sua terra, em  Nazaré, traz a memória dos vizinhos, às calçadas da infância, ao ofício herdado de José.  Este trecho finaliza o capítulo 13 e, com ele, encerra também o terceiro livro do Evangelho segundo Mateus, a seção das parábolas do Reino. É um ponto de transição, um limiar teológico e narrativo. O Reino foi anunciado, revelado em imagens poéticas, como semente, fermento, tesouro e rede, mas agora se exige uma resposta. A acolhida ou a rejeição revelam o tipo de solo que somos. A cena em Nazaré, portanto, não é apenas um detalhe narrativo: é o juízo sobre a incredulidade dos que tiveram tudo para crer, mas escolheram fechar-se. É o prenúncio de uma recusa mais ampla, que culminará em Jerusalém. E é também o início do quarto livro, onde se acirra a tensão entre o Messias rejeitado e o caminho para o discipulado verdadeiro.

Essa voltar ao lugar onde, humanamente, tudo começou. Ali, onde o rosto é conhecido, onde a mãe tem nome, os irmãos são chamados pelo apelido e as mãos guardam calos de carpinteiro. Ali, o Verbo se depara com o escândalo: não da cruz, mas do cotidiano. Escândalo de ser humano demais. De estar perto demais. De não parecer sagrado o suficiente para ser levado a sério. Ali, Jesus experimenta não o ódio direto, mas o desprezo gelado. E Mateus registra, com sobriedade cortante: “Não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles.” A incredulidade narrada aqui é sofisticada. Não se trata de uma dúvida intelectual, mas de um bloqueio existencial. 

De onde lhe vem essa sabedoria?”  Perguntam os conterrâneos. Mas a pergunta não busca resposta; ela serve apenas como cortina para esconder o preconceito: 

  • “Não é este o filho do carpinteiro?” 
  • Como pode o comum revelar o eterno? 
  • Como pode o trabalhador pobre, vizinho de porta, conter a autoridade de Deus?
 A grande objeção não está no conteúdo do que Jesus diz, mas no lugar de onde ele fala: fala de dentro, fala de baixo, fala como um dos nossos. E isso, para quem ama o prestígio religioso, é inaceitável..Essa recusa ecoa a profecia de Isaías: “desprezado e rejeitado pelos homens, homem das dores, habituado ao sofrimento” (Is 53,3). Jesus carrega o rosto do Servo Sofredor: não tem aparência de glória, nem títulos, nem púlpito dourado. Seu rosto é comum, seu sotaque é galileu, sua profissão é manual. Sua presença é um escândalo:  skandalon, tropeço, porque desmonta toda estética da religião do prestígio. A encarnação é a ruína da teologia da prosperidade. Deus fez-se carne, e não luxo. Fez-se operário, e não CEO religioso. Fez-se servo, e não senhor dos palácios. O escândalo da encarnação persiste até hoje nas formas mais sutis de incredulidade eclesial. A Igreja contemporânea repete Nazaré:   
  • Quando idolatra os pregadores performáticos, mas desconfia da sabedoria dos simples. 
  • Quando rejeita o profeta de dentro por não ter “perfil institucional”. Quando privilegia o título acadêmico em detrimento da escuta espiritual. 
  • Quando recusa o Jesus que vive no sem-teto, no quilombola, na mulher violentada, no migrante queimado vivo. 
  • Quando Rejeitamos o Cristo vivo sempre que buscamos um Cristo idealizado, encaixado, domesticado, de acordo com os nossos gostos litúrgicos ou nossas doutrinas doutrinárias.

Não é à toa que o Papa Francisco denunciava o clericalismo como perversão espiritual (Evangelii Gaudium, n. 102). Porque o clericalismo é a versão contemporânea da incredulidade de Nazaré: acredita em Deus, mas não acredita que Deus fale através do vizinho. Crê na Eucaristia, mas não vê o corpo de Cristo no pobre. Ama o Papa desde que ele diga o que agrada à elite. O clericalismo vive do espetáculo, não da encarnação. Vive da sacralização das formas, não da santidade dos gestos.

José o Pai de Jesus como operário, é o grande antídoto contra essa fé superficial. Ele é o modelo do homem justo que serve sem aparecer, que protege sem dominar, que silencia sem omissão. Ele transgride a masculinidade patriarcal ao acolher um filho que não gerou, ao viver do trabalho com as mãos, ao sonhar caminhos alternativos para sua família. José é figura do homem novo, do pastor sem púlpito, do santo da carpintaria. Em sua casa, o Verbo aprendeu a andar, a chorar, a esperar, a obedecer. E foi exatamente isso que o tornaria escandaloso aos olhos dos seus.

A recusa em Nazaré ecoa também a observação de João: “Veio para os seus, mas os seus não o receberam” (Jo 1,11). A recusa dos “de dentro” é constante ao longo da história bíblica: 

  • Abel é morto pelo irmão
  •  José é vendido pelos irmãos
  • Moisés é desafiado pelo próprio povo
  • Jeremias é preso pelos sacerdotes
  • Amós é expulso do santuário
  • Jesus será crucificado por um conluio entre religião e império. 
A história da fé verdadeira é sempre a história da rejeição proféticaA cena em Nazaré nos desafia antropologicamente, como sociedade, temos dificuldade de reconhecer grandeza na familiaridade e valorizamos o que vem de longe, o que tem sotaque estrangeiro, o que custa caro. Preferimos gurus internacionais a líderes comunitários, seguimos influencers e desprezamos catequistas, Idolatramos quem sobe ao altar com voz de comando, mas ignoramos quem lava o chão da igreja. Como já apontou a psicologia social, o viés do reconhecimento nos cega para a beleza do comum. E, no entanto, é no comum que Deus insiste em manifestar-se. Ele vem no feijão com arroz, no carpinteiro, na mulher samaritana, na criança com cinco pães. Não se impõe com poder, mas se insinua com presença. Mas se a fé não for humildade, ela se torna orgulho disfarçado. E, então, já não há lugar para milagres.

A Gaudium et Spes nos recorda que “o mistério do homem só se esclarece à luz do Verbo encarnado” (n. 22). E que as dores e alegrias do mundo são também as dores e alegrias da Igreja (n. 1). Uma Igreja que rejeita a carne do mundo rejeita também a carne de Cristo. E uma fé que não se deixa escandalizar pela humanidade do Filho não é fé, mas idolatria religiosa.

Hoje a Nazaré que nos interpela. Não como um vilarejo da Galileia, mas como figura teológica. Nazaré é o lugar onde tudo começa e  onde tudo pode ser recusado. Nazaré é cada espaço eclesial onde o profeta é desprezado, onde a encarnação é desacreditada, onde o divino é condicionado ao brilho. Nazaré somos nós,  quando preferimos o Cristo dourado ao Cristo do chão. Nazaré é a paróquia onde o operário da Palavra é visto como “demais igual”, e por isso desprezado. Nazaré é a mesa onde a carne de Cristo é adorada na hóstia e ignorada no povo. Mas é também de Nazaré que pode brotar o milagre, se houver fé. Fé não como crença formal, mas como abertura radical ao mistério de um Deus que escolhe os fracos, os pequenos, os operários, os vizinhos, é  a Fé que aceita a ternura de um Deus que, ao invés de aparecer nos templos dos reis, escolhe crescer no quintal da periferia.

Por isso, hoje, Nazaré continua a nos interpelar. Ela não é apenas um pequeno povoado da Galileia, mas um símbolo permanente da resposta humana ao Deus que se faz próximo. Nazaré é toda comunidade que prefere o prestígio ao serviço, o espetáculo à simplicidade, a aparência religiosa à força transformadora do Evangelho. É toda Igreja que honra Cristo nos discursos, mas resiste em reconhecê-lo na vida concreta dos pequenos, dos trabalhadores, dos pobres e daqueles que não possuem títulos nem poder Ao mesmo tempo, Nazaré permanece como lugar de esperança. É precisamente ali, na aparente insignificância, que Deus escolheu iniciar a história da salvação. O Filho de Deus não desprezou a oficina de José, nem a vida escondida, nem o trabalho cotidiano. Santificou a existência comum e revelou que o extraordinário de Deus floresce no ordinário da vida.   A pergunta decisiva permanece aberta para cada discípulo: somos capazes de reconhecer Deus quando Ele vem sem brilho, sem privilégios e sem aparência de poder? A resposta não depende de mais argumentos, mas de um coração disponível à ação do Espírito, somente a Fé, entendida como abertura humilde ao mistério, é capaz de enxergar no carpinteiro de Nazaré o Emanuel, o Deus conosco e somente essa Fé transforma a incredulidade em encontro, o preconceito em discipulado e o cotidiano no lugar onde o Reino continua a acontecer.

E então, talvez, possamos olhar de novo para aquele carpinteiro e dizer, não com escândalo, mas com esperança: “Ele é um dos nossos  e por isso mesmo, é Deus conosco.”

DNonato – Teólogo do Cotidiano