Mostrando postagens com marcador "Papa Leão XIV" "Conclave" "Evangelho". Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador "Papa Leão XIV" "Conclave" "Evangelho". Mostrar todas as postagens

domingo, 18 de maio de 2025

Homilia de Leão XIV na missa inaugural do Pontificado

Neste domingo, 18 de maio de 2025, durante a celebração do Jubileu das Confrarias, o Papa Leão XIV dirigiu-se ao mundo por meio dos meios de comunicação social e à multidão de 200 mil pessoas que se fazia presente na Praça de São Pedro. Na homilia da missa inaugural de seu pontificado, o Sucessor de Pedro pronunciou palavras que ressoaram com a herança espiritual do Papa Francisco, cuja recente partida encheu de saudade o coração da Igreja, mas também reacendeu a fé na promessa do Senhor, que nunca abandona o seu povo.

Inspirad.o pelo testemunho de seu predecessor, Leão XIV reafirmou que a missão do Papa não é dominar, mas servir na caridade, presidindo na comunhão e no amor oblativo. Com humildade tocante, reconheceu que iniciou seu ministério “sem mérito algum”, desejando ser um servo da fé e da alegria do povo de Deus, ecoando as palavras de Santo Agostinho: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Ti”.

O Evangelho proclamado neste V Domingo da Páscoa (Jo 13,31-33a.34-35) iluminou sua mensagem. Nele, Jesus oferece aos discípulos um novo mandamento: “Amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros”. Leão XIV destacou que esse amor mútuo é o sinal distintivo dos discípulos de Cristo e o fundamento de uma Igreja que deseja ser fermento de unidade e reconciliação no mundo.

O novo Pontífice fez também um forte apelo à paz, denunciando os males da guerra, da violência e das desigualdades. Com atenção pastoral, voltou-se aos migrantes e refugiados, exortando a Igreja e a humanidade a reconhecê-los como irmãos e irmãs. Defendeu uma Igreja sinodal, missionária e acolhedora, que se compromete com os pobres e com o cuidado da Casa Comum.

Seu apelo é simples e profundo: unidade e amor. Uma Igreja que, em comunhão com todos os homens e mulheres de boa vontade, se coloca como sinal da ternura de Deus e fermento de reconciliação no coração do mundo.

Você talvez goste  de ler


Abaixo publicamos  a homilia  na integra  segundo o site  Isto é  Dinheiro 

Boa leitura!

DNonato*

Homilia  de inicio do ministério  Petrino 

Queridos irmãos cardeais, irmãos do episcopado e do sacerdócio, distintas autoridades e membros do Corpo Diplomático, uma saudação. Os peregrinos, vindo. Os peregrinos, vindo para o jubileu das Irmandades. Irmãos, irmãs, saúdo a todos vocês, com um coração cheio de gratidão no início do ministério que me foi confiado.

Escreveu Santo Agostinho: fizeste-nos para vós, Senhor, e nosso coração está inquieto enquanto não repousar em vós.

Nos últimos dias, vivemos tempos particularmente intensos. A morte do Papa Francisco encheu os nossos corações de tristeza. E, naquelas horas difíceis, sentíamo-nos como as multidões, como o Evangelho diz: como ovelhas sem pastor. No entanto, precisamente no dia de Páscoa, recebemos a sua última bênção. E, à luz da ressurreição, enfrentamos esse momento na certeza de que o Senhor nunca abandona o seu povo, mas congrega-o quando se dispersa e guarda-o.

Nesse espírito de fé, o Colégio Cardinalício reuniu-se para o conclave. Chegando de histórias diferentes e a partir de caminhos diversos, colocamos nas mãos de Deus o desejo de eleger o novo sucessor de Pedro, Cristo de Roma, um pastor capaz de guardar o rico patrimônio da fé cristã e, ao mesmo tempo, de olhar para longe, para ir ao encontro das interrogações, das inquietações e dos desafios de hoje.

Acompanhados pela vossa oração, sentimos a ação do Espírito Santo, que harmonizou os diferentes instrumentos musicais e fez vibrar as cordas do nosso coração numa única melodia.

Fui escolhido sem qualquer mérito e com temor e tremor. Venho até vós como um irmão que deseja fazer-se servo da vossa fé e da vossa alegria, percorrendo convosco o caminho do amor de Deus, que nos quer a todos unidos numa única família.

Amor e unidade. Essas são as duas dimensões da missão que Jesus confiou a Pedro. É o que nos narra o trecho do Evangelho que nos leva ao lago de Tiberíades, o mesmo onde Jesus iniciou a missão recebida do Pai: pescar a humanidade para salvá-la das águas do mal e da morte.

Passando pela margem daquele lago, chama Pedro e os outros primeiros discípulos para serem, como ele, pescadores de homens. E agora, após a Ressurreição, cabe precisamente a eles levar em frente esta missão: lançar sempre novamente a rede, emergindo nas águas do mundo a esperança do Evangelho, e navegar no mar da vida, para que todos se possam reencontrar no abraço de Deus.

Como pode Pedro levar adiante esta tarefa? 

O Evangelho diz-nos que isso só é possível porque ele experimentou, na própria vida, o amor infinito e incondicional de Deus, mesmo na hora do fracasso e da negação. Por isso, quando Jesus se dirige a Pedro, o Evangelho usa o verbo grego agapáō, que se refere ao amor que Deus tem por nós: a sua entrega, sem reservas nem cálculos. Diferente do usado na resposta de Pedro, que descreve o amor de amizade que cultivamos entre nós.

Quando Jesus pergunta: “Pedro, Simão, filho de João, tu amas-me?”, refere-se ao amor do Pai. É como se Jesus lhe dissesse: “Só se conheceste e experimentaste este amor de Deus, que nunca falha, poderás apascentar as minhas ovelhas.” Só no amor de Deus Pai poderás amar os teus irmãos com algo mais, isto é, oferecendo a vida por eles.

A Pedro, portanto, é confiada a tarefa de amar mais e dar a sua vida pelo rebanho. O ministério de Pedro é marcado precisamente por esse amor oblativo. Porque a Igreja de Roma preside na caridade, e a sua verdadeira autoridade é a caridade de Cristo.

Não se trata nunca de capturar os outros com a prepotência, com a propaganda religiosa ou com os meios do poder. Mas trata-se sempre — e apenas — de amar como fez Jesus. Ele, afirma o próprio apóstolo Pedro, é a pedra que vós, os construtores, desprezastes e que se transformou em pedra angular.

E, se a pedra é Cristo, Pedro deve apascentar o rebanho sem nunca ceder à tentação de ser um líder solitário ou um chefe colocado acima dos outros, tornando-se dominador das pessoas que lhe foram confiadas. Pelo contrário, é-lhe pedido que sirva à fé dos irmãos, caminhando com eles.

Todos nós, com efeito, somos pedras vivas, chamados pelo nosso batismo a construir o edifício de Deus na comunhão fraterna, na harmonia do espírito, na convivência das diversidades. Como afirma Santo Agostinho: a Igreja é constituída por todos aqueles que mantêm a concórdia com os irmãos e que amam o próximo.

Esse, irmãos, gostaria que fosse o nosso primeiro grande desejo: uma Igreja unida, sinal de unidade e comunhão, que se torne fermento para um mundo reconciliado. No nosso tempo, ainda vemos demasiada discórdia, demasiadas feridas causadas pelo ódio, pela violência, pelos preconceitos, pelo medo do diferente; por um paradigma econômico que explora os recursos da terra e marginaliza os mais pobres.

E nós queremos ser, dentro dessa massa, um pequeno fermento de unidade, de comunhão, de fraternidade. Queremos dizer ao mundo, com humildade e alegria: olhai para Cristo, aproximai-vos d’Ele. Acolhei a Sua Palavra, que ilumina e consola. Escutai a Sua proposta de amor, com a qual vos tornareis a Sua única família. No único Cristo, somos um.

E esse é o caminho a percorrer juntos: entre nós, mas também com as Igrejas cristãs e irmãs; com aqueles que percorrem outros caminhos religiosos; com quem cultiva a inquietação da busca de Deus; com todas as mulheres e todos os homens de boa vontade — para construirmos um mundo novo, onde rime a paz.

Esse é o espírito missionário que deve animar-nos, sem nos fecharmos no nosso pequeno grupo, nem nos sentirmos superiores ao mundo. Somos chamados a oferecer a todos o amor de Deus, para que se realize aquela unidade que não anula as diferenças, mas valoriza a história pessoal de cada um e a cultura social e religiosa de cada povo.

Irmãos e irmãs, esta é a hora do amor: a caridade de Deus, que faz de nós irmãos, é o coração do Evangelho. E, como meu predecessor Leão XIII, podemos hoje perguntar-nos: não se viria, em breve prazo, a estabelecer a pacificação, se esses ensinamentos pudessem vir a prevalecer nas sociedades?

Com a luz e a força do Espírito Santo, construamos uma Igreja fundada no amor de Deus — e será dom de unidade. Uma Igreja missionária, que abre os braços ao mundo, que anuncia a Palavra, que se deixa inquietar pela história e que se torna fermento de concórdia para a humanidade.

Juntos, como um único povo, todos irmãos, caminhemos ao encontro de Deus e amemo-nos uns aos outros.”

Praça de São Pedro, 18 de maio de 2025 – 5º Domingo da Páscoa

Pp Leão XIV

----------------------

DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano,  membro do Movimento  de Cursilhos, esteve  5 anos  secretário do CNLB  Regional Leste I 


sexta-feira, 9 de maio de 2025

Um breve olhar sobre João 6,52-59

Comer o Corpo, beber o Sangue: entre o escândalo e a comunhão”

“Minha carne é verdadeira comida, e meu sangue, verdadeira bebida” (Jo 6,55). 
A perícope de João 6,52-59 é proclamada na liturgia da Igreja Católica na sexta-feira da terceira semana do Tempo Pascal, particularmente, quando a comunidade é conduzida a aprofundar o discurso do Pão da Vida iniciado após o sinal da multiplicação dos pães. No rito romano, essa leitura aparece no ciclo ferial, inserida no caminho mistagógico que ajuda os fiéis a compreenderem o mistério celebrado na Vigília Pascal. Em outras tradições cristãs históricas, especialmente nas Igrejas orientais, esse mesmo núcleo teológico é retomado nas catequeses pós-batismais, ligando a Eucaristia à vida nova recebida na iniciação cristã. Também na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, a Igreja volta a esse discurso, não como memória distante, mas como atualização viva da presença do Senhor no meio do seu povo.
O texto se abre com uma tensão que revela o limite humano diante do mistério. “Como pode este dar-nos a sua carne a comer?” (Jo 6,52). Essa pergunta nasce de uma lógica religiosa marcada por interditos bem definidos. A tradição de Israel, expressa em Levítico 17,10-14, proibia o consumo de sangue, pois nele estava a vida, pertencente somente a Deus. Jesus não ignora essa tradição, mas a leva à sua plenitude. Ele não relativiza a vida, ele a entrega. Ao afirmar que sua carne é verdadeira comida e seu sangue verdadeira bebida (Jo 6,55), ele desloca a compreensão da relação com Deus do campo da observância para o campo da participação.
Nos versículos anteriores, o verbo utilizado para comer é phagein, mais genérico. A partir de João 6,54, o evangelista utiliza trógein, que significa mastigar, comer de forma concreta, quase crua. Não se trata de um recurso estilístico irrelevante, mas de uma intensificação teológica. O discurso deixa de admitir leituras puramente simbólicas e insiste na concretude da relação. A fé cristã não se sustenta em abstrações desencarnadas. Ela se ancora na realidade do corpo, da história, da vida entregue.
Esse escândalo só pode ser compreendido à luz do caminho narrativo do capítulo. O ponto de partida é a multiplicação dos pães (Jo 6,1-15), um sinal que dialoga diretamente com o maná no deserto (Ex 16,4-15). No entanto, o próprio Antigo Testamento já reinterpretava o maná não apenas como alimento físico, mas como pedagogia espiritual. “O homem não vive só de pão, mas de toda palavra que sai da boca do Senhor” (Dt 8,3). A tradição sapiencial também amplia esse horizonte. “Vinde, comei do meu pão” (Pr 9,5), diz a Sabedoria. E o profeta convida: “Vinde comprar e comer, sem dinheiro” (Is 55,1-3). João retoma essas tradições e as concentra na pessoa de Jesus. Ele não apenas oferece algo, ele se oferece.
O cenário de Cafarnaum (Jo 6,59) não é neutro. Trata-se de uma cidade situada em uma rota comercial importante, marcada por diversidade cultural e tensões sociais. No contexto do século I, sob dominação romana, a alimentação estava diretamente ligada à sobrevivência e à estrutura social. Comer não era apenas um ato biológico, mas um marcador de pertencimento. As mesas definiam quem era incluído e quem era excluído. Jesus rompe essa lógica ao propor uma mesa que não se organiza por pureza ritual, mérito moral ou posição social. Ele se oferece como alimento universal, o que desestabiliza qualquer sistema de privilégios.
A carne, no pensamento bíblico, não é apenas matéria, mas a condição humana em sua vulnerabilidade. Quando o prólogo afirma que o Verbo se fez carne (Jo 1,14), está dizendo que Deus assumiu a totalidade da condição humana. Em João 6, essa carne se torna alimento. A encarnação se prolonga na doação. O sangue, por sua vez, remete à vida oferecida. Ele evoca a aliança do Sinai (Ex 24,8), mas também aponta para a cruz. Em João 19,34, do lado aberto de Cristo jorram sangue e água, sinal de uma vida totalmente entregue. Assim, o discurso do pão da vida não pode ser separado da cruz. Trata-se de um único movimento: encarnar, entregar-se, permanecer.
Essa permanência é explicitada quando Jesus afirma: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6,56). O verbo permanecer é central na teologia joanina e reaparece em João 15,4. Não se trata de um contato momentâneo, mas de uma comunhão estável, transformadora. A Eucaristia não é um gesto isolado, mas uma forma de existência.
Os Evangelhos Sinóticos apresentam a instituição da Eucaristia no contexto da última ceia (Mt 26,26-28; Mc 14,22-24; Lc 22,19-20), com palavras sobre o pão e o vinho como corpo e sangue. João, por sua vez, não narra esse momento, mas desenvolve uma teologia mais extensa no capítulo 6 e no gesto do lava-pés (Jo 13,1-15). Enquanto os sinóticos enfatizam o rito, João enfatiza o sentido existencial. Não há oposição, mas complementaridade. A Eucaristia é ao mesmo tempo sacramento e estilo de vida.
Essa dimensão aparece de forma contundente na tradição apostólica. Em 1Coríntios 11,17-34, Paulo denuncia uma comunidade que celebra a ceia do Senhor enquanto reproduz desigualdades. Alguns comem em abundância, enquanto outros passam fome. Para o apóstolo, isso não é Eucaristia. Trata-se de uma contradição grave, pois o sacramento da unidade está sendo vivido como instrumento de divisão. Essa crítica permanece atual. Não há coerência em comungar o corpo de Cristo e, ao mesmo tempo, sustentar estruturas que ferem esse mesmo corpo na história.
A Eucaristia responde às múltiplas formas de fome que atravessam a experiência humana. Há a fome biológica, que continua sendo uma realidade escandalosa em um mundo de abundância desigual. Há a fome de sentido, que se manifesta em uma cultura marcada pelo vazio existencial. Há a fome de reconhecimento, própria de sociedades que excluem e invisibilizam. E há a fome de comunhão, frequentemente frustrada por relações superficiais e fragmentadas. O pão eucarístico não elimina magicamente essas fomes, mas inaugura uma lógica que as enfrenta: a lógica do dom, da partilha, da presença.
O Concílio Vaticano II afirma que a Eucaristia é fonte e ápice da vida cristã. Essa afirmação não pode ser compreendida de forma abstrata. Se é fonte, dela brota um modo de viver. Se é ápice, ela revela o sentido de toda a existência. Documentos latino-americanos, como o de Aparecida, insistem que a Eucaristia impulsiona à solidariedade e à transformação social. Não se trata de uma espiritualidade intimista, mas de uma força que desinstala.
Nesse ponto, a dimensão profética se torna inevitável. Ao longo da história, a religião foi frequentemente instrumentalizada para legitimar estruturas de poder. Hoje, isso se manifesta de diversas formas. Há discursos religiosos que sacralizam a desigualdade econômica, apresentando a riqueza como sinal de bênção e a pobreza como falha individual. Há uma retórica moral seletiva que se concentra em determinados temas enquanto ignora a fome, a violência e a exclusão. Há também a tentativa de capturar a fé para projetos políticos autoritários, muitas vezes associados a ideologias que negam a dignidade de grupos inteiros.
Essa instrumentalização não é compatível com o Evangelho. Os profetas já denunciavam um culto desvinculado da justiça (Am 5,21-24; Is 1,11-17). Jesus retoma essa tradição ao afirmar que a reconciliação com o irmão é condição para a oferta (Mt 5,23-24). A Eucaristia, quando vivida de forma autêntica, desmonta as lógicas de dominação. Ela não legitima privilégios, ela os questiona.
Aqui vale o alerta, quando o ministério eclesial  se transforma em poder e não em serviço, a lógica eucarística é traída. O pão que deveria ser partilhado se torna símbolo de controle. A tradição da Igreja, no entanto, aponta em outra direção. Santo Agostinho dizia aos neófitos: torna-te aquilo que recebes
Santo Inácio de Antioquia chamava a Eucaristia de remédio de imortalidade. Essas expressões indicam que o sacramento não é um objeto a ser administrado, mas uma realidade a ser vivida.
A crítica se estende também às formas de religiosidade que reduzem a fé a uma lógica de troca, quando Deus é apresentado como garantidor de sucesso individual, a cruz é esvaziada e a Eucaristia perde seu sentido de entrega. Da mesma forma, a chamada teologia do domínio, que associa fé a controle político e cultural, contradiz o Evangelho daquele que veio para servir (Mc 10,45).
No contexto latino-americano, marcado por desigualdades profundas, a Eucaristia assume um caráter ainda mais desafiador. Celebrar o corpo de Cristo implica reconhecer esse corpo nos corpos feridos dos pobres, dos migrantes, das vítimas da violência. A opção preferencial pelos pobres não é uma ideologia, mas uma consequência do Evangelho. “Tive fome e me destes de comer” (Mt 25,35) não é uma metáfora, é um critério.
Ao mesmo tempo, é preciso evitar reduções. A Eucaristia não se esgota em sua dimensão social, assim como não pode ser reduzida a um rito desvinculado da vida. Ela é mistério que integra transcendência e história. Nela, Deus se dá e nos chama a responder. No mundo contemporâneo, marcado por polarizações e crises de sentido, o discurso de João 6 continua a provocar. Muitos ainda perguntam como isso é possível. Muitos ainda se escandalizam. A proposta de Jesus continua exigente porque implica uma transformação profunda. Não se trata apenas de acreditar, mas de participar, de deixar-se assimilar.
A conclusão dessa caminhada nos conduz ao núcleo mais exigente do discurso do Pão da Vida (Jo 6,52-59): não se trata de metáfora confortável, mas de uma adesão concreta ao modo de viver de Jesus. Quando Ele afirma: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna” (Jo 6,54), o verbo utilizado — trogein no grego joanino — carrega um realismo desconcertante, quase físico, que rompe com qualquer espiritualização vazia. A vida eterna, aqui, não é fuga do mundo, mas inauguração de uma nova forma de existir no mundo, marcada pela comunhão, pela justiça e pela entrega. Essa vida começa agora. Ela se torna visível quando o ódio cede lugar à reconciliação (Mt 5,23-24), quando a lógica da acumulação é confrontada pela partilha (At 2,42-47), quando os últimos deixam de ser invisíveis (Lc 4,18). A Eucaristia, portanto, não é um rito isolado, mas um evento que desestabiliza as estruturas de morte e denuncia toda forma de fé cúmplice da opressão. Como recorda o apóstolo, “quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe a própria condenação” (1Cor 11,29). Discernir o corpo é reconhecer Cristo não apenas no pão consagrado, mas também nos corpos feridos da história.
Receber o Corpo de Cristo implica tornar-se corpo entregue. Aqui está o escândalo permanente: não há como separar altar e vida, liturgia e ética, culto e compromisso. A mesa eucarística se torna julgamento de nossas práticas sociais. Uma comunidade que comunga, mas mantém estruturas excludentes, contradiz o próprio sacramento que celebra. Nesse sentido, a crítica profética de Is 58 ressoa com força: de que vale o culto, se ele não se traduz em libertação concreta? 
Diante disso, a Eucaristia permanece como um chamado radical — e profundamente político no sentido mais nobre do termo: reorganizar a vida comum segundo o Reino de Deus. Não é convite a uma religiosidade confortável, moldada por interesses ideológicos ou capturada por discursos de poder, mas a uma fé que desinstala, que rompe com o clericalismo estéril e com a religião vazia denunciada pelos profetas (Am 5,21-24). É uma convocação a reconstruir a mesa — não como espaço de privilégio, mas de comunhão real, onde ninguém sobra e ninguém é descartado.
Talvez seja exatamente isso que continua a escandalizar: Deus não se impõe pela força, mas se oferece como pão. E mais ainda: confia à humanidade a continuidade desse gesto. Em um mundo atravessado por desigualdades brutais, polarizações e indiferença, a Eucaristia se torna memória perigosa — porque lembra que o verdadeiro poder está em partir-se e repartir-se.
No fim, a pergunta que permanece não é apenas se cremos na presença real, mas se estamos dispostos a nos tornar presença real. Porque Cristo continua a se fazer pão — e insiste, silenciosa e radicalmente, em nos convidar a fazer o mesmo com a própria vida (Jo 6,57).
DNonato – Leigo católico, graduado em História, vivendo o sacerdócio comum dos fiéis

quarta-feira, 7 de maio de 2025

" O Papa ideal"

Em tempos de sucessão petrina, as apostas se dividem. Alguns desejam um conservador que, segundo eles, representa uma tradição com "t" minúsculo, ligada a costumes e rigores que nem sempre refletem o coração do Evangelho. Outros buscam um moderado, que tente equilibrar as tensões sem assumir posicionamentos claros, gerando por vezes insegurança.

Há ainda os que pedem um progressista, compreendido aqui como um liberal em matéria religiosa, propenso a relativizar a doutrina em nome da modernidade.

As limitações inerentes a cada uma dessas visões isoladas apontam para a urgência de um pastor que transcenda essas fronteiras, reunindo em si o que há de melhor em cada uma delas. Assim, a primeira característica desse líder que transcende as visões limitadas é um conservadorismo autêntico. A fidelidade à Tradição viva da Igreja (com "T" maiúsculo), que transmite desde os Apóstolos tudo o que a Igreja é e crê (Catecismo, n. 83), constitui esse conservadorismo essencial, diferenciando-se de tradições meramente humanas.

No exercício prático de seu ministério, essa fidelidade à Tradição deve ser temperada pela moderação, expressa em equilíbrio, prudência e um olhar atento à dignidade intrínseca de cada pessoa humana. A moderação é essencial no exercício do ministério papal, em consonância com a exortação do Concílio Vaticano II em Gaudium et Spes (n. 22): "A verdade é que somente no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente o mistério do homem".

E essa atenção à dignidade humana naturalmente impulsiona o Papa ideal a ser Progressista (com "P" maiúsculo de Povo e de Papa) no sentido evangélico. Esse progressismo se traduz em um engajamento ativo na luta pela paz e na defesa da Verdade (com "V" maiúsculo), a exemplo de Jesus, que revolucionou seu tempo ao dialogar abertamente com mulheres (cf. Jo 4,7-30) e valorizar a presença das crianças (cf. Mc 10,13-16). Essa postura ecoa a visão de Bento XVI de que caridade e verdade são intrinsecamente ligadas (Caritas in Veritate, n. 2).

Em vez de erguer muralhas, o Papa ideal, inflamado pelo zelo pela paz e pela Verdade, empenha-se em construir pontes de diálogo com a humanidade, a exemplo de São Paulo, que se fez ponte entre culturas para anunciar o Evangelho (cf. 1 Cor 9,19-23). Consciente de sua vocação como "pontífice" – aquele que constrói pontes entre o humano e o divino, como recorda o Catecismo da Igreja Católica (n. 882) ao descrever o papel do Romano Pontífice como princípio e fundamento perpétuo e visível da unidade da Igreja –, ele serve a Igreja (cf. Direito Canônico, cân. 331) e escuta suas dores e anseios (cf. Gaudium et Spes, n. 1), consciente da vocação da Igreja para o anúncio e a escuta.

O Papa ideal distingue claramente: a liturgia é vida da fé, não formalidade; seu papel é o de pastor, não de CEO de uma empresa religiosa. Infelizmente, em nossa realidade, percebemos essa mentalidade empresarial em algumas dioceses, com bispos que infelizmente conhecemos, focados em metas financeiras e gestão de recursos como executivos; e em paróquias, com padres que convivem bem próximo da gente, atuando mais como gerentes de serviços religiosos, preocupados com dinheiro e com seu conforto, fazendo do presbitério um palco, e estão longe de ser pastores próximos de suas dioceses e comunidades paroquiais. Essa perspectiva ressoa com os alertas do Papa Francisco, que sempre alertou para os perigos da mundanidade espiritual (Evangelii Gaudium, n. 93).

Embora líder na Igreja Católica, o Papa ideal sabe que Cristo é o verdadeiro Comandante (cf. Mc 4,35-41). Longe de posturas extremistas ou de uma moderação negligente, busca o equilíbrio essencial para cumprir sua missão única: "Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, como um leão que ruge, anda ao redor, procurando a quem devorar. Resisti-lhe firmes na fé" (1 Pe 5,8-9), confirmando assim a fé dos irmãos (cf. Lc 22,32), protegendo a unidade eclesial, promovendo a justiça e a paz, e apontando para o horizonte do Reino. Na busca por um pastor segundo o Coração de Cristo – firme na fé, manso na escuta, audaz no amor e fiel à missão –, confiemos na guia do Espírito Santo, que age onde quer (cf. Jo 3,8).

Santa Catarina de Sena, doutora da Igreja, nos disse: "Se fordes aquilo que deveis ser, colocareis fogo no mundo inteiro" (Carta 368, a fra’ Raimondo da Capua).

Que o Espírito Santo nos conceda um novo Papa que seja fogo que ilumina, aquece e purifica, sendo ponte de diálogo, voz da Verdade e presença viva de Cristo em nosso meio; que Mãe de Guadalupe possa ser presença nesse pontificado que se iniciará com a eleição de um novo Papa possível, mais próximo do ideal e segundo o coração de Deus.

DNonato – Leigo católico, graduado em História, compromissado com sacerdócio batismal.