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sábado, 24 de maio de 2025

Um outro olhar sobre João 14,23-29

  •  A Paz Inquieta do Ressuscitado: Um Chamado Profético 

Em 2022  fizemos  o texto um  olhar  sobre  o texto de João 14,23-29  e uma  reflexão   em nosso canal e  hoje  voltamos ao  texto.    Recordamos que    6º Domingo da Páscoa  tem a seguinte liturgia:  
  • 1ª leitura:   Atos dos Apóstolos 15,1-2.22-29;  
  • Salmo 66(67),2-3.5.6 e 8 (R. 4); 
  • 2ª leitura: Apocalipse de São João  21,10-14.22-23  
  • Evangelho João 14,23-29

"Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz" (Jo 14,27)  que nos  ajuda a pensar, que paz é essa que Jesus nos oferece?

Certamente não é a Pax Romana, imposta pela força das espadas, sustentada por muros de exclusão e pela opressão dos povos. Não é o silêncio dos cemitérios, nem a estabilidade ilusória que nasce da injustiça e da conformidade. A paz de Cristo é o shalom bíblico: uma plenitude relacional que abarca a reconciliação integral entre Deus, a humanidade e toda a criação (cf. Is 32,17; Sl 85,10-13). É uma justiça restaurativa que não se contenta com a ausência de conflito, mas clama por dignidade onde a morte quis fazer morada.

O Cristo Ressuscitado, nos domingos anteriores, aparece aos discípulos desejando a paz: no primeiro dia da semana, ao entardecer, com as portas fechadas por medo (Jo 20,19); depois a Tomé, que duvida e precisa tocar as feridas (Jo 20,26); e aos caminhantes de Emaús, que, desiludidos, partem rumo à fuga (Lc 24,13-35). Em todas essas manifestações, a paz anunciada não é calmaria conformista, mas alento para os que caminham na noite escura da história. Essa paz ressuscitada é dom e missão, consolo e envio, presença e incômodo. O Ressuscitado não anestesia consciências; ele as desperta com o sopro do Espírito.

Como nos lembra o profeta Isaías, o Messias é o "Príncipe da Paz" (Is 9,6), e seu reinado será de "paz sem fim" (Is 9,7), fundamentado na justiça e no direito. Não se trata, portanto, de uma emoção confortável, mas de uma vocação profética que nos impulsiona à ação. É a paz de Jeremias (Jr 6,14), que denuncia os falsos profetas que “tratam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: ‘Paz! Paz!’, quando não há paz.”

O contexto joanino, marcado por perseguições externas, cisões internas, medo e desorientação na comunidade cristã primitiva, encontra eco perturbador em nossa própria realidade contemporânea. A Palavra de Deus ressoa hoje em uma sociedade fraturada pela desigualdade estrutural, corroída por ideologias de exclusão e ódio, e frequentemente capturada por uma extrema direita fundamentalista que manipula símbolos religiosos para sustentar projetos de poder, violência simbólica e dominação

Estamos diante de um fenômeno perigoso: a transformação do cristianismo em ideologia política, associando a fé ao controle moral, ao autoritarismo e à intolerância. Essa captura da fé pela lógica do mercado e do militarismo reatualiza o farisaísmo denunciado por Jesus (cf. Mt 23), que impõe fardos pesados sem mover um dedo para ajudar. Não se pode servir a Deus e ao poder (cf. Mt 6,24). Jesus promete o envio do Paráclito – o Defensor, o Consolador, o Espírito da Verdade (Jo 14,26). Este não é um espírito dócil à ordem vigente, que se acomoda às injustiças ou abençoa o status quo. Pelo contrário, é um sopro transformador que desinstala, que incomoda, que convoca à missão e à denúncia. Como em Pentecostes, Ele nos empurra para fora dos espaços de medo (At 2), para anunciar com ousadia o Reino. A antropologia bíblica entende shalom como bem-estar coletivo, harmonia social e comunhão plena entre Criador, criatura e criação. É uma paz com nome e endereço: paz no campo espoliado, na favela marginalizada, no quilombo ameaçado, no corpo ferido das vítimas da fome, da negligência e da violência. É a paz que se manifesta na "justiça que corre como um rio e a retidão como um ribeiro perene" (Am 5,24).

A filosofia política crítica, de inspiração kantiana e pós-marxista, também nos ajuda a compreender que a paz verdadeira é fruto de estruturas justas, não apenas de boa vontade individual. Paulo Freire afirmava que “a paz é fruto da justiça e não da acomodação”. Hannah Arendt denunciava os perigos do totalitarismo e da banalização do mal, sempre que a cidadania se cala diante da violência institucionalizada.

Este ano marca os 10 anos da encíclica Laudato Si’, um grito profético do Papa Francisco que denunciou o colapso ambiental como sintoma evidente de um colapso espiritual e ético. A paz verdadeira não será possível enquanto continuarmos a destruir os ecossistemas e a descartar vidas humanas como lixo. A justiça climática é inseparável da justiça social.

Neste horizonte de esperança e desafio, ressoa a homilia de início do pontificado do Papa Leão XIV, o cardeal Robert Francis Prevost, que no último 18 de maio assumiu o ministério petrino. Suas palavras ecoam como continuidade encarnada do Evangelho pascal: “Esta é a hora do amor! Olhem para Cristo e aproximem-se Dele. A paz cristã é caminho de solidariedade entre os povos e reconciliação com a terra ferida.”

Ao evocar o amor como bússola da paz, Leão XIV denuncia com elegância, mas com firmeza, os sistemas que promovem o medo do diferente e erguem os muros do preconceito. Sua fala não é neutra; é profundamente comprometida com a causa do Reino. Ele fala de uma Igreja que não se curva à extrema direita que, em diversas partes do mundo, tenta transformar o cristianismo em ideologia de dominação, pureza étnico-moral e exclusão. Leão XIV recusa também os vícios do clericalismo e da autorreferencialidade eclesiástica, quando lembra que o Papa é antes de tudo “irmão e servo da fé”, e não gestor de dogmas ou senhor de palácios. Seu gesto simbólico de não se instalar nos aposentos pontifícios tradicionais é um sinal de uma Igreja que deseja descer dos tronos e subir ao calvário dos povos.

A teologia da paz, que perpassa os profetas do Antigo Testamento até o Apocalipse, exige uma conversão estrutural e um compromisso radical com a justiça. A Nova Jerusalém descrita por João (Ap 21,10-14.22-23) não é uma miragem celestial distante, mas uma proposta política e espiritual para o aqui e agora. Ela surge onde a justiça floresce, onde os portões se abrem à diversidade e à acolhida, onde não há templo porque Deus habita diretamente no povo (cf. Ap 21,3), em cada pessoa e em cada relação fraterna. Mas, para que ela emerja, é preciso denunciar e derrubar as Babilônias modernas: os sistemas financeiros desumanos que geram miséria, os altares do consumo desenfreado que destroem a criação, os púlpitos do moralismo excludente que condenam em vez de acolher. Como alertava o teólogo alemão Johann Baptist Metz, a fé cristã deve manter viva a “memória perigosa” do Crucificado, que questiona todos os poderes estabelecidos.

Dizia Dom Pedro Casaldáliga, profeta latino-americano da esperança encarnada e da luta pela libertação: “A paz que o mundo promete é a paz do cemitério. A paz que Jesus nos dá é a paz da luta, da entrega, do amor que não recua.” Essa é a paz que perturba os acomodados e consola os crucificados. Não é tolerância passiva diante da injustiça, mas resistência amorosa e ativa que se manifesta em gestos concretos de solidariedade.

Jesus nos chama à fidelidade que se faz morada de Deus. E essa fidelidade não se mede por discursos vazios ou por uma fé meramente intelectual, mas por gestos concretos de amor e serviço (cf. Mt 25,31-46). Somos templos do Espírito Santo (1Cor 6,19), e esse Espírito nos envia aos caminhos da vida, não às vitrines da ostentação religiosa. Ele clama contra uma espiritualidade de aparência, que mascara a ausência de compaixão com reverências estéreis e liturgias vazias (cf. Is 1,11-17).

Como diz o Papa Francisco na Evangelii Gaudium: “Não podemos viver numa eterna sexta-feira santa.” A ressurreição não é apenas um consolo para a dor, mas uma rebelião contra toda forma de morte que assola a humanidade e a criação. Cada gesto de solidariedade, cada ato de partilha, cada denúncia profética contra a injustiça é Páscoa. Cada justiça conquistada é uma pedra removida do túmulo da história.

Neste último domingo da Páscoa, invoquemos com ousadia e fé:

Vem, Espírito da Verdade! Sopra sobre os desertos do nosso tempo: sobre a Igreja que teme a profecia e se apega ao poder, sobre os governos que oprimem os pobres e desconsideram a vida, sobre os povos que se esquecem de sonhar e de lutar por um mundo mais justo. Faz de nós morada do Ressuscitado, santuário do amor revolucionário, fermento de um mundo novo, onde a vida plena seja para todos. Arranca de nossas mãos os ídolos do comodismo e da indiferença, rasga as liturgias vazias de sentido e de compromisso, purifica os altares da conveniência e da hipocrisia. Não queremos uma paz de fachada, que silencia as vítimas e abençoa a injustiça, mas o shalom que transforma a história, que incomoda e que liberta.

Queremos amar com gestos concretos, viver com os pés na terra ferida e os olhos fixos no Reino que vem, construindo-o dia a dia. Ensina-nos a guardar a Palavra de Jesus: não como doutrina decorada e estéril, mas como caminho de justiça, ternura, compaixão e partilha.

E que um dia, entre lágrimas enxugadas e feridas curadas, possamos reconhecer a Nova Jerusalém nascendo entre nós, em cada ato de amor que transforma o mundo.

DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano e um sonhador da Paz.



domingo, 18 de maio de 2025

Homilia de Leão XIV na missa inaugural do Pontificado

Neste domingo, 18 de maio de 2025, durante a celebração do Jubileu das Confrarias, o Papa Leão XIV dirigiu-se ao mundo por meio dos meios de comunicação social e à multidão de 200 mil pessoas que se fazia presente na Praça de São Pedro. Na homilia da missa inaugural de seu pontificado, o Sucessor de Pedro pronunciou palavras que ressoaram com a herança espiritual do Papa Francisco, cuja recente partida encheu de saudade o coração da Igreja, mas também reacendeu a fé na promessa do Senhor, que nunca abandona o seu povo.

Inspirad.o pelo testemunho de seu predecessor, Leão XIV reafirmou que a missão do Papa não é dominar, mas servir na caridade, presidindo na comunhão e no amor oblativo. Com humildade tocante, reconheceu que iniciou seu ministério “sem mérito algum”, desejando ser um servo da fé e da alegria do povo de Deus, ecoando as palavras de Santo Agostinho: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Ti”.

O Evangelho proclamado neste V Domingo da Páscoa (Jo 13,31-33a.34-35) iluminou sua mensagem. Nele, Jesus oferece aos discípulos um novo mandamento: “Amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros”. Leão XIV destacou que esse amor mútuo é o sinal distintivo dos discípulos de Cristo e o fundamento de uma Igreja que deseja ser fermento de unidade e reconciliação no mundo.

O novo Pontífice fez também um forte apelo à paz, denunciando os males da guerra, da violência e das desigualdades. Com atenção pastoral, voltou-se aos migrantes e refugiados, exortando a Igreja e a humanidade a reconhecê-los como irmãos e irmãs. Defendeu uma Igreja sinodal, missionária e acolhedora, que se compromete com os pobres e com o cuidado da Casa Comum.

Seu apelo é simples e profundo: unidade e amor. Uma Igreja que, em comunhão com todos os homens e mulheres de boa vontade, se coloca como sinal da ternura de Deus e fermento de reconciliação no coração do mundo.

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Abaixo publicamos  a homilia  na integra  segundo o site  Isto é  Dinheiro 

Boa leitura!

DNonato*

Homilia  de inicio do ministério  Petrino 

Queridos irmãos cardeais, irmãos do episcopado e do sacerdócio, distintas autoridades e membros do Corpo Diplomático, uma saudação. Os peregrinos, vindo. Os peregrinos, vindo para o jubileu das Irmandades. Irmãos, irmãs, saúdo a todos vocês, com um coração cheio de gratidão no início do ministério que me foi confiado.

Escreveu Santo Agostinho: fizeste-nos para vós, Senhor, e nosso coração está inquieto enquanto não repousar em vós.

Nos últimos dias, vivemos tempos particularmente intensos. A morte do Papa Francisco encheu os nossos corações de tristeza. E, naquelas horas difíceis, sentíamo-nos como as multidões, como o Evangelho diz: como ovelhas sem pastor. No entanto, precisamente no dia de Páscoa, recebemos a sua última bênção. E, à luz da ressurreição, enfrentamos esse momento na certeza de que o Senhor nunca abandona o seu povo, mas congrega-o quando se dispersa e guarda-o.

Nesse espírito de fé, o Colégio Cardinalício reuniu-se para o conclave. Chegando de histórias diferentes e a partir de caminhos diversos, colocamos nas mãos de Deus o desejo de eleger o novo sucessor de Pedro, Cristo de Roma, um pastor capaz de guardar o rico patrimônio da fé cristã e, ao mesmo tempo, de olhar para longe, para ir ao encontro das interrogações, das inquietações e dos desafios de hoje.

Acompanhados pela vossa oração, sentimos a ação do Espírito Santo, que harmonizou os diferentes instrumentos musicais e fez vibrar as cordas do nosso coração numa única melodia.

Fui escolhido sem qualquer mérito e com temor e tremor. Venho até vós como um irmão que deseja fazer-se servo da vossa fé e da vossa alegria, percorrendo convosco o caminho do amor de Deus, que nos quer a todos unidos numa única família.

Amor e unidade. Essas são as duas dimensões da missão que Jesus confiou a Pedro. É o que nos narra o trecho do Evangelho que nos leva ao lago de Tiberíades, o mesmo onde Jesus iniciou a missão recebida do Pai: pescar a humanidade para salvá-la das águas do mal e da morte.

Passando pela margem daquele lago, chama Pedro e os outros primeiros discípulos para serem, como ele, pescadores de homens. E agora, após a Ressurreição, cabe precisamente a eles levar em frente esta missão: lançar sempre novamente a rede, emergindo nas águas do mundo a esperança do Evangelho, e navegar no mar da vida, para que todos se possam reencontrar no abraço de Deus.

Como pode Pedro levar adiante esta tarefa? 

O Evangelho diz-nos que isso só é possível porque ele experimentou, na própria vida, o amor infinito e incondicional de Deus, mesmo na hora do fracasso e da negação. Por isso, quando Jesus se dirige a Pedro, o Evangelho usa o verbo grego agapáō, que se refere ao amor que Deus tem por nós: a sua entrega, sem reservas nem cálculos. Diferente do usado na resposta de Pedro, que descreve o amor de amizade que cultivamos entre nós.

Quando Jesus pergunta: “Pedro, Simão, filho de João, tu amas-me?”, refere-se ao amor do Pai. É como se Jesus lhe dissesse: “Só se conheceste e experimentaste este amor de Deus, que nunca falha, poderás apascentar as minhas ovelhas.” Só no amor de Deus Pai poderás amar os teus irmãos com algo mais, isto é, oferecendo a vida por eles.

A Pedro, portanto, é confiada a tarefa de amar mais e dar a sua vida pelo rebanho. O ministério de Pedro é marcado precisamente por esse amor oblativo. Porque a Igreja de Roma preside na caridade, e a sua verdadeira autoridade é a caridade de Cristo.

Não se trata nunca de capturar os outros com a prepotência, com a propaganda religiosa ou com os meios do poder. Mas trata-se sempre — e apenas — de amar como fez Jesus. Ele, afirma o próprio apóstolo Pedro, é a pedra que vós, os construtores, desprezastes e que se transformou em pedra angular.

E, se a pedra é Cristo, Pedro deve apascentar o rebanho sem nunca ceder à tentação de ser um líder solitário ou um chefe colocado acima dos outros, tornando-se dominador das pessoas que lhe foram confiadas. Pelo contrário, é-lhe pedido que sirva à fé dos irmãos, caminhando com eles.

Todos nós, com efeito, somos pedras vivas, chamados pelo nosso batismo a construir o edifício de Deus na comunhão fraterna, na harmonia do espírito, na convivência das diversidades. Como afirma Santo Agostinho: a Igreja é constituída por todos aqueles que mantêm a concórdia com os irmãos e que amam o próximo.

Esse, irmãos, gostaria que fosse o nosso primeiro grande desejo: uma Igreja unida, sinal de unidade e comunhão, que se torne fermento para um mundo reconciliado. No nosso tempo, ainda vemos demasiada discórdia, demasiadas feridas causadas pelo ódio, pela violência, pelos preconceitos, pelo medo do diferente; por um paradigma econômico que explora os recursos da terra e marginaliza os mais pobres.

E nós queremos ser, dentro dessa massa, um pequeno fermento de unidade, de comunhão, de fraternidade. Queremos dizer ao mundo, com humildade e alegria: olhai para Cristo, aproximai-vos d’Ele. Acolhei a Sua Palavra, que ilumina e consola. Escutai a Sua proposta de amor, com a qual vos tornareis a Sua única família. No único Cristo, somos um.

E esse é o caminho a percorrer juntos: entre nós, mas também com as Igrejas cristãs e irmãs; com aqueles que percorrem outros caminhos religiosos; com quem cultiva a inquietação da busca de Deus; com todas as mulheres e todos os homens de boa vontade — para construirmos um mundo novo, onde rime a paz.

Esse é o espírito missionário que deve animar-nos, sem nos fecharmos no nosso pequeno grupo, nem nos sentirmos superiores ao mundo. Somos chamados a oferecer a todos o amor de Deus, para que se realize aquela unidade que não anula as diferenças, mas valoriza a história pessoal de cada um e a cultura social e religiosa de cada povo.

Irmãos e irmãs, esta é a hora do amor: a caridade de Deus, que faz de nós irmãos, é o coração do Evangelho. E, como meu predecessor Leão XIII, podemos hoje perguntar-nos: não se viria, em breve prazo, a estabelecer a pacificação, se esses ensinamentos pudessem vir a prevalecer nas sociedades?

Com a luz e a força do Espírito Santo, construamos uma Igreja fundada no amor de Deus — e será dom de unidade. Uma Igreja missionária, que abre os braços ao mundo, que anuncia a Palavra, que se deixa inquietar pela história e que se torna fermento de concórdia para a humanidade.

Juntos, como um único povo, todos irmãos, caminhemos ao encontro de Deus e amemo-nos uns aos outros.”

Praça de São Pedro, 18 de maio de 2025 – 5º Domingo da Páscoa

Pp Leão XIV

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DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano,  membro do Movimento  de Cursilhos, esteve  5 anos  secretário do CNLB  Regional Leste I 


quinta-feira, 8 de maio de 2025

Leão XIV: Entre a Palavra e a Graça

 

Neste artigo, apresento um paralelo entre Paulo, missionário entre mundos, Agostinho, inquieto buscador de Deus, e Leão XIII, profeta da justiça. Acredita-se que esses legados tenham influenciado o cardeal Prevost, nascido nos EUA, mas que consolidou sua fé e vocação no Peru. Gerado no Norte, mas amadurecendo no Sul, o nome Leão XIV sugere que ele pode ser a voz das periferias que tanto esperamos de um novo Papa do século XXI.

Boa leitura 

*DNonato 

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Um Legado de Missão, Interioridade e Justiça Social para as Periferias

A recente eleição de Robert Francis Prevost, agora Leão XIV, evoca uma linhagem de papas que marcaram a história da Igreja. Leão I, o Magno, defendeu a fé com firmeza em tempos de crise. Leão XIII, com a Rerum Novarum, abriu um diálogo profético com o mundo moderno, lançando as bases da Doutrina Social da Igreja. Contudo, o retrato que emerge deste novo pontificado parece ir além, buscando raízes ainda mais profundas no ardor missionário de São Paulo, na inquieta busca interior de Santo Agostinho, e na urgência social que ecoou no pontificado do Papa Francisco.
São Paulo, cuja identidade complexa moldou seu apostolado, nasceu judeu, possuía a cidadania romana e era imerso na cultura helenística. Essa rica tapeçaria de origens permitiu que ele transitasse por diversos mundos, levando o Evangelho tanto às sinagogas quanto aos areópagos. De forma análoga, a própria história de Leão XIV parece marcada por uma rica dualidade: nascido em Chicago, no coração da América do Norte, seu coração e sua alma se enraizaram profundamente no Peru, forjando nele uma ponte natural entre o Norte e o Sul global. Essa vivência em diferentes realidades culturais pode conferir a Leão XIV uma perspectiva única sobre as desigualdades mundiais e uma profunda identificação com as lutas dos povos periféricos da América Latina e de todo o Sul. Assim como Paulo não temeu confrontar as injustiças de seu tempo, Leão XIV, inspirado por esse legado e por sua própria trajetória como elo entre o Norte e o Sul, pode ser uma voz profética contra as novas formas de exclusão que afetam os mais vulneráveis, com um olhar especial para as dinâmicas de poder e as injustiças históricas entre essas duas realidades do mundo.
Santo Agostinho, com sua profunda jornada interior narrada nas Confissões, revela uma busca incessante por Deus que se manifesta também na sede de justiça e na compaixão pelos que sofrem. Sua experiência de "periferia da alma" antes da conversão o torna um modelo para aqueles que buscam sentido em meio à marginalização. O Papa Francisco enfatizou a importância de um encontro pessoal com Cristo que transforma a vida e nos impulsiona ao encontro do outro, especialmente dos mais necessitados. Leão XIV, bebendo dessa espiritualidade agostiniana e da sensibilidade que marcou o pontificado de Francisco, pode convidar a Igreja a um mergulho na própria interioridade para encontrar a força de ir ao encontro das periferias, reconhecendo ali o rosto sofredor de Cristo.
Leão XIII, com a Rerum Novarum, demonstrou uma coragem profética ao denunciar as injustiças sociais da Revolução Industrial e ao defender os direitos dos trabalhadores. Sua encíclica lançou as bases da Doutrina Social da Igreja, um legado que o Papa Francisco atualizou com vigor em suas encíclicas Laudato Si' e Fratelli Tutti, abordando questões como a ecologia integral, a fraternidade universal e a crítica a um sistema econômico que gera exclusão. A profunda preocupação de Leão XIII com a dignidade humana já se manifestava de forma contundente em sua Encíclica In Plurimis, de 1888, na qual ele condenou veementemente a escravidão, um tema que infelizmente ainda encontra ecos nas formas contemporâneas de exploração presentes nas periferias globais, afetando de maneira particular as populações do Sul. Leão XIV, cuja alma e coração se forjaram nessa ponte entre o Norte e o Sul, herda diretamente a preocupação social de Leão XIII e a paixão que moveu o pontificado de Francisco pelos pobres, certamente dando continuidade a essa linha profética, denunciando as novas formas de desigualdade e defendendo os direitos dos marginalizados nas periferias do século XXI, com uma sensibilidade aguçada para as relações desiguais entre o Norte e o Sul global.
Assim, o retrato de Leão XIV que emerge não é uma mera repetição do passado, mas uma síntese dinâmica de legados que ressoam profundamente com os desafios do presente. Como Paulo, ele será um missionário nas fronteiras da exclusão, com uma compreensão profunda das dinâmicas interculturais e das dificuldades enfrentadas pelos povos da periferia global, sendo ele próprio uma ponte viva entre o Norte e o Sul. Como Agostinho, ele beberá profundamente da espiritualidade do bispo de Hipona, uma tradição que também marcou a vida de Martinho Lutero, figura central da Reforma Protestante, cujas ações no século XVI levaram a uma ruptura na unidade da Igreja. Enquanto Lutero trilhou um caminho de separação e contestação de dogmas centrais, Leão XIV, embora condivida a herança agostiniana, parece inclinado a um caminho oposto: o da unidade e do serviço, especialmente voltado para as periferias do mundo, seguindo o exemplo de proximidade e misericórdia que caracterizou o ministério de Francisco. Que seu pontificado seja um farol de esperança, iluminando os caminhos da justiça e da misericórdia a partir das margens para toda a Igreja e para o mundo, buscando a reconciliação e a fraternidade universal, em contraste com as divisões que marcaram outros momentos da história cristã, e construindo pontes de diálogo e justiça entre o Norte e o Sul.

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* DNonato – Leigo católico, graduado em História, vivendo o sacerdócio comum dos fiéis, com o olhar fixo no legado dos santos e na realidade das periferias globais.