quinta-feira, 4 de junho de 2026

Um breve olhar sobre Marcos 12,35-37

 Marcos 12,35-
37 que  diz: "  ³⁵ Jesus ensinava no Templo, dizendo: «Como é que os doutores da Lei falam que o Messias é filho de Davi?  ³⁶ O próprio Davi, movido pelo Espírito Santo, falou: ‘O Senhor disse ao meu Senhor: sente-se à minha direita, até que eu ponha seus inimigos debaixo de seus pés’. ³⁷Portanto, o próprio Davi chama o Messias de Senhor. Como é que ele pode então ser seu filho?".  E uma grande multidão o escutava com gosto.  É proclamado na liturgia da Igreja Católica Romana na sexta-feira da nona semana do Tempo Comum, no interior do ciclo dos ensinamentos de Jesus em Jerusalém que antecedem diretamente sua paixão, morte e ressurreição. Seus paralelos em Mateus 22,41-46 e Lucas 20,41-44 pertencem ao mesmo bloco de controvérsias no Templo, sendo lidos ao longo do ano litúrgico nas diversas tradições cristãs históricas, como a Igreja Ortodoxa, a Comunhão Anglicana e as Igrejas oriundas da Reforma, em ciclos que destacam a identidade messiânica de Jesus e a tensão entre expectativa religiosa e revelação divina. Na tradição litúrgica anterior à reforma do Concílio Vaticano II, o paralelo de Mateus era proclamado no décimo sétimo domingo depois de Pentecostes, evidenciando a centralidade desta questão na formação da fé cristã. O que está em jogo nesta breve passagem não é apenas uma disputa interpretativa sobre um salmo antigo, mas a revelação do próprio núcleo da cristologia neotestamentária e a purificação de toda imagem reduzida de Deus construída a partir de expectativas humanas.

A cena ocorre no Templo de Jerusalém, espaço onde convergem todas as tensões religiosas, políticas e sociais de Israel. O Templo não é apenas um edifício, mas o símbolo da aliança entre Deus e seu povo, descrito desde 1 Reis 8 como lugar da habitação do Nome divino. É também o centro econômico e administrativo da vida judaica do século I, onde sacrifícios, tributos e controle sacerdotal estruturavam uma complexa rede de poder. Jerusalém, por sua vez, é a cidade de Davi, aquela que o próprio rei conquistou e transformou em capital (2Sm 5,6-10), tornando-se assim o eixo simbólico da promessa de Deus em 2 Samuel 7,12-16, quando o Senhor garante a Davi uma descendência duradoura e um reino que não será destruído. Essa promessa atravessa toda a história bíblica posterior e se torna o fio condutor da esperança messiânica de Israel.

O desenvolvimento dessa esperança pode ser acompanhado ao longo de toda a Escritura. O Salmo 89 reafirma a fidelidade da aliança davídica mesmo em tempos de crise. Isaías 9,1-6 anuncia o nascimento de um filho que receberá o trono de Davi e estabelecerá um reino de justiça e paz sem fim. Isaías 11,1-9 descreve o rebento do tronco de Jessé sobre quem repousará o Espírito do Senhor, instaurando uma ordem de reconciliação cósmica. Jeremias 23,5-6 promete um “germe justo” da casa de Davi que exercerá o direito e a justiça na terra. Ezequiel 34,23-24 apresenta Deus suscitando um pastor davídico que reunirá o povo disperso. Miqueias 5,1-4 localiza em Belém o nascimento daquele que governará Israel com a força do Senhor. Zacarias 9,9 acrescenta a dimensão paradoxal de um rei humilde que entra em Jerusalém montado num jumento. Em todos esses textos, a figura messiânica vai sendo progressivamente ampliada, passando de uma expectativa política imediata para uma realidade teológica mais profunda, marcada pela justiça, pela paz e pela presença direta de Deus no meio do seu povo.

No século I, essa expectativa convive com uma situação histórica concreta de dominação imperial. Israel está sob o poder de Roma, conforme descrito em diversos relatos históricos como os de , que testemunha a tensão social, religiosa e política do período. O peso dos impostos, a exploração agrária, a concentração de terras e a marginalização dos camponeses criam um ambiente de expectativa messiânica intensa. Grupos como os fariseus, os saduceus e os zelotas representam respostas diferentes a essa crise. Enquanto alguns enfatizam a pureza da Lei, outros defendem a centralidade do Templo ou a resistência armada. Nesse contexto, a figura do Messias é frequentemente interpretada como um libertador político, um novo Davi capaz de restaurar a soberania nacional e derrotar os opressores. É nesse horizonte saturado de expectativas que Jesus insere sua pergunta. Antes dela, o Evangelho de Marcos constrói uma sequência narrativa em que Jesus confronta sucessivamente as estruturas religiosas e políticas de seu tempo. Ele purifica o Templo em Marcos 11,15-17, citando Isaías 56,7 e Jeremias 7,11 ao denunciar a transformação da casa de oração em covil de ladrões. Ele narra a parábola dos vinhateiros homicidas em Marcos 12,1-12, retomando Isaías 5,1-7 para denunciar a infidelidade das lideranças de Israel. Ele responde à questão do tributo a César em Marcos 12,13-17, afirmando que se deve dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, evocando implicitamente Gênesis 1,27 ao recordar que a verdadeira imagem pertence a Deus. Ele debate com os saduceus sobre a ressurreição em Marcos 12,18-27, reinterpretando Êxodo 3,6 ao afirmar que Deus é Deus de vivos e não de mortos. Ele sintetiza a Lei no amor a Deus e ao próximo em Marcos 12,28-34, em continuidade com Deuteronômio 6,5 e Levítico 19,18. Toda essa sequência prepara o momento em que Jesus desloca o centro da discussão. A pergunta “Como dizem os escribas que o Cristo é filho de Davi?” não nega a tradição, mas a conduz a um ponto de ruptura. A descendência davídica é reconhecida em outras passagens, como em Mateus 1,1, em Lucas 1,32 e em Romanos 1,3, onde Paulo afirma que Jesus nasceu da linhagem de Davi segundo a carne. Contudo, Jesus introduz uma questão mais profunda ao citar o Salmo 110,1: “Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita até que eu ponha teus inimigos debaixo de teus pés”. Esse salmo, retomado em Atos 2,34-36 por Pedro, em Hebreus 1,13 e em Efésios 1,20-23, torna-se uma das chaves centrais da cristologia apostólica. O ponto decisivo está na relação entre Davi e o Messias. Se Davi, considerado o maior rei de Israel, chama o Messias de Senhor, então o Messias não pode ser reduzido a uma figura sucessória ou meramente política. Ele transcende a lógica dinástica e se inscreve numa realidade que ultrapassa o horizonte humano imediato. Essa interpretação encontra eco em toda a tradição do Novo Testamento. Em Filipenses 2,6-11, Cristo é apresentado como aquele que, existindo em condição divina, assume a forma de servo e é exaltado acima de todo nome. Em Colossenses 1,15-20, ele é a imagem do Deus invisível e o primogênito de toda criação. Em Hebreus 1,1-4, ele é o resplendor da glória divina e a expressão exata do ser de Deus. Em João 1,1-14, ele é o Verbo eterno que se faz carne e habita entre nós.

Essa cristologia não é abstrata, mas profundamente enraizada na história concreta de Israel e na experiência humana. A antropologia bíblica revela que o ser humano tende a projetar sobre Deus suas expectativas mais profundas. Em Gênesis 11, a torre de Babel simboliza essa tentativa de construir segurança a partir de si mesmo. Em Êxodo 32, o bezerro de ouro revela a necessidade de um deus manipulável. Em 1 Samuel 8, a instituição da monarquia mostra a tentação de substituir a confiança em Deus por estruturas humanas de poder. Essa dinâmica continua ao longo da história religiosa e social, onde o sagrado pode ser instrumentalizado para legitimar desejos de controle, segurança ou dominação. Jesus rompe esse movimento ao revelar um Messias que não corresponde às projeções humanas. Sua autoridade não se manifesta na força, mas no serviço, conforme Marcos 10,45. Sua identidade não se impõe pela violência, mas pela entrega, como se manifesta na última ceia em Lucas 22,27 e no gesto do lava-pés em João 13,1-15. Sua realeza não se expressa no domínio, mas na cruz, conforme Marcos 15,39, onde o centurião reconhece que aquele crucificado é Filho de Deus. Isaías 53 ilumina essa lógica ao apresentar o Servo Sofredor que salva através do sofrimento assumido em solidariedade com os pecadores. Essa inversão tem consequências diretas para a compreensão da religião. Em Marcos 12,38-40, imediatamente após esta passagem, Jesus denuncia os escribas que exploram as casas das viúvas, enquanto ostentam religiosidade exterior. Em seguida, em Marcos 12,41-44, apresenta a viúva pobre como modelo de verdadeira fé. Essa sequência revela que a verdadeira adoração não está ligada ao prestígio religioso, mas à entrega total e à justiça concreta. Essa crítica encontra continuidade em Amós 5,21-24, Isaías 58,1-12, Jeremias 7,1-15 e Miqueias 6,6-8, onde o culto vazio é rejeitado em favor da justiça, da misericórdia e da fidelidade. No horizonte contemporâneo, essa palavra permanece profundamente atual. O risco de instrumentalização da fé aparece quando a religião é usada para legitimar projetos de poder, identidades políticas ou sistemas econômicos excludentes. A tradição bíblica, entretanto, insiste que nenhum poder humano pode ocupar o lugar de Deus. O Concílio Vaticano II, em Gaudium et Spes, recorda que a Igreja deve discernir os sinais dos tempos à luz do Evangelho. Lumen Gentium compreende a Igreja como povo de Deus em caminho. Dei Verbum afirma que a Palavra de Deus continua viva e atuante na história. Na América Latina, Medellín denuncia estruturas de injustiça, Puebla fala dos rostos concretos dos pobres, e Aparecida afirma que a opção preferencial pelos pobres pertence ao coração da fé cristológica. A pergunta de Jesus permanece como eixo interpretativo de toda a existência cristã: quem é o Cristo (Mc 12,35-37)? Não se trata de uma questão encerrada em fórmulas conceituais, mas de uma interrogação que atravessa toda a Escritura e desestabiliza continuamente as seguranças religiosas e humanas. O próprio Jesus, ao citar o Salmo 110,1, reinscreve a identidade messiânica num horizonte que ultrapassa a lógica da sucessão davídica e abre o sentido da realeza divina para uma dimensão de transcendência e serviço que já se anuncia nos cânticos do Servo em Isaías 52–53, onde aquele que é exaltado é precisamente o que se fez ferido pela história e solidário com os últimos.

Reconhecer Jesus como Senhor de Davi (Sl 110,1; At 2,34-36) é reconhecer que a promessa feita a Davi em 2 Samuel 7,12-16 não se esgota em um projeto político ou dinástico, mas se cumpre na irrupção de um Reino que não se fundamenta na força, pois “o meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36), nem se sustenta na lógica de dominação dos impérios, mas na inversão radical proclamada nas bem-aventuranças (Mt 5,3-12; Lc 6,20-23), onde os pobres, os mansos e os que choram são declarados portadores da promessa de Deus. Nesse horizonte, a autoridade do Messias se manifesta como serviço que lava os pés (Jo 13,1-15), como entrega que se consuma na cruz (Mc 15,39; Fl 2,6-11) e como vida nova que vence a lógica da morte (1Cor 15,20-28). A multidão, segundo Marcos, o escutava com prazer, porque nele reconhecia uma palavra que desarmava falsas seguranças e abria um horizonte novo de sentido (Mc 12,37). Essa escuta, porém, não é apenas um dado do passado narrativo; ela se prolonga na história como crise permanente de discernimento. Em cada época, o Evangelho confronta as formas pelas quais a religião pode ser capturada por interesses de poder, como já denunciavam os profetas quando rejeitavam um culto sem justiça (Is 1,11-17; Am 5,21-24; Mq 6,6-8), e como Jesus retoma ao confrontar estruturas religiosas que exploram os vulneráveis enquanto exibem aparência de piedade (Mc 12,38-40; Mt 23,23-28). Na atualidade, essa palavra continua a interpelar sociedades marcadas por desigualdade estrutural, exclusões múltiplas e crises de sentido. Quando a fé é instrumentalizada para legitimar projetos de poder, ela se afasta do Cristo que “anunciou boas novas aos pobres, libertação aos cativos e vista aos cegos” (Lc 4,18-19; Is 61,1-2). Quando a religião é reduzida a instrumento de ascensão individual ou prosperidade material, ela se distancia daquele que “não tinha onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20) e que advertiu contra a lógica de acumulação que obscurece o Reino (Mt 6,19-24). Quando o nome de Deus é associado a discursos de exclusão, violência simbólica ou absolutização de identidades políticas, perde-se a centralidade do mandamento do amor que resume toda a Lei e os Profetas (Mt 22,37-40; Rm 13,8-10). Por isso, a tradição da Igreja, em sua leitura crítica da história, insiste continuamente na conversão das estruturas e da consciência. O Concílio Vaticano II recorda que “as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens de hoje são também as dos discípulos de Cristo” (Gaudium et Spes 1), e que a Igreja existe como sinal e instrumento de comunhão com Deus e entre os homens (Lumen Gentium 1). Na mesma direção, o magistério latino-americano, ao contemplar a realidade concreta dos povos, reconhece que o seguimento de Jesus passa necessariamente pela defesa da dignidade dos pobres e pela transformação das estruturas injustas que geram exclusão e sofrimento (Medellín, Puebla, Aparecida), em continuidade com a lógica bíblica segundo a qual o verdadeiro culto inseparável da justiça é aquele que liberta o oprimido e partilha o pão com o faminto (Is 58,6-7). Nesse sentido, a pergunta de Jesus não permanece apenas como questão teológica, mas como discernimento histórico permanente. Ela atravessa as crises contemporâneas da humanidade, marcadas por novas formas de idolatria que já não se apresentam como estátuas de ouro, como em Êxodo 32, mas como sistemas econômicos que absolutizam o lucro, tecnologias que ampliam desigualdades, discursos religiosos que se alinham a projetos de poder e estruturas sociais que naturalizam a exclusão. Diante disso, a afirmação de que Cristo é Senhor (Rm 10,9; Fl 2,11) não pode ser reduzida a confissão verbal, mas implica adesão existencial a um caminho que rompe com a lógica da violência e inaugura práticas de justiça, reconciliação e cuidado com a vida em todas as suas formas.

Assim, reconhecer o Cristo de Marcos 12,35-37 é entrar num movimento contínuo de desinstalação interior e comunitária, no qual toda imagem fixa de Deus é purificada pela cruz e pela ressurreição. É deixar-se conduzir por aquele que é “o mesmo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8), mas que jamais se deixa aprisionar pelas expectativas humanas. É descobrir, com os discípulos de Emaús, que a presença de Deus se revela muitas vezes onde menos se espera, na fração do pão e na travessia das dores da história (Lc 24,13-35). E é compreender que o verdadeiro poder divino se manifesta precisamente naquilo que o mundo considera fraqueza (1Cor 1,25), pois é ali que o amor se mostra mais forte do que a morte (Ct 8,6-7; Rm 8,38-39).  ,Diante disso, a interrogação de Jesus permanece aberta, não como lacuna, mas como espaço de liberdade. Ela chama cada geração a discernir se o Cristo que se anuncia é aquele que confirma as estruturas de dominação ou aquele que as atravessa com a força silenciosa do amor que serve, perdoa e recria a existência. Nesse horizonte, a fé cristã não é adesão a uma ideia, mas participação na vida daquele que, sendo Senhor de Davi, se fez servo de todos, e que, exaltado à direita do Pai (Sl 110,1; At 7,55-56), continua a conduzir a história para a plenitude do Reino onde Deus será tudo em todos (1Cor 15,28).

DNonato- Teólogo do Cotidiano 

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