segunda-feira, 6 de abril de 2026

Da Inquisição à Artemis II: Quem Fica de Fora do Progresso?

O voo de teste com quatro astronautas ao redor da Lua, utilizando a cápsula Orion no contexto do programa Artemis II, reacende na consciência humana algo que vai muito além da técnica e da engenharia aeroespacial. Trata-se de um movimento profundamente simbólico, que toca dimensões antigas da experiência religiosa, antropológica e existencial. Desde as primeiras civilizações, a Lua nunca foi apenas um corpo celeste, mas um signo carregado de significado, regulando calendários, marcando festas litúrgicas e sendo associada ao mistério do tempo, da fertilidade e do sagrado. No relato bíblico da criação em Livro do Gênesis, a Lua aparece como o “luminar menor” colocado por Deus para governar a noite e servir de sinal para os tempos e as estações, indicando que a cosmologia hebraica já compreendia o céu como linguagem divina, uma espécie de texto simbólico onde o Criador se comunica com a criação. Ao mesmo tempo, a tradição profética sempre advertiu contra a idolatria dos astros, como se vê em Livro de Deuteronômio 4,19, estabelecendo uma tensão permanente entre contemplação e absolutização, entre reverência e alienação religiosa.
Essa presença da Lua nas Escrituras se aprofunda quando percorremos a narrativa bíblica em sua totalidade. Nos Salmos, especialmente no Salmo 8, a contemplação dos céus provoca uma crise existencial: o ser humano se percebe pequeno diante da vastidão, mas simultaneamente investido de dignidade e responsabilidade. Já na linguagem apocalíptica do Livro do Apocalipse 12,1, a Lua aparece sob os pés da mulher vestida de sol, símbolo de uma realidade em transformação, onde o cosmos participa da história da salvação. Em Evangelho de Lucas 21,25, a Lua deixa de ser apenas sinal de ordem e se torna também sinal de crise, de ruptura histórica, indicando que a criação não é estática, mas atravessada por tensões que apontam para um cumprimento maior. Assim, a Lua bíblica não é divindade, mas linguagem: ora de harmonia, ora de juízo, ora de esperança.
No judaísmo, essa linguagem cósmica se traduz em uma teologia do tempo profundamente encarnada na história. A Lua regula o calendário litúrgico e determina o ritmo das festas, como a Páscoa, revelando que o tempo não é homogêneo, mas qualitativo, carregado de memória e promessa. A prática do Kiddush Levana, a bênção da Lua nova, expressa uma espiritualidade de renovação contínua, onde o ciclo lunar se torna metáfora da fidelidade de Deus que restaura seu povo mesmo após períodos de obscuridade. A Lua, portanto, não é objeto de culto, mas sinal pedagógico: ela ensina Israel a esperar, a recomeçar e a confiar. Essa perspectiva encontra eco em textos proféticos que utilizam imagens cósmicas para falar da restauração, reforçando que a criação participa do drama da aliança entre Deus e a humanidade.
No Islã, a Lua assume uma centralidade ainda mais visível na organização da vida religiosa e comunitária. O calendário islâmico é integralmente lunar, e a observação do crescente determina o início dos meses sagrados, especialmente o Ramadã. O Alcorão apresenta a Lua como um dos sinais (ayat) de Deus na criação, convidando à contemplação e à submissão ao ritmo divino. Diferentemente de uma sacralização autônoma do astro, há uma clara distinção entre Criador e criatura, mas também uma integração profunda entre cosmos e espiritualidade. A Lua, ao marcar o tempo do jejum, da oração e da celebração, estrutura a experiência religiosa de milhões de pessoas, lembrando que a fé não é abstrata, mas vivida no corpo, no tempo e na comunidade. Assim, o olhar islâmico sobre a Lua reforça uma espiritualidade de disciplina, dependência de Deus e harmonia com a ordem criada.
Na tradição cristã, a Lua é reinterpretada à luz de Cristo e da eclesiologia. Os Padres da Igreja, como Santo Agostinho, viram na Lua uma imagem da Igreja: ela não possui luz própria, mas reflete a luz do sol, assim como a comunidade cristã reflete Cristo no mundo. Essa leitura simbólica atravessou os séculos e encontrou nova formulação no magistério moderno. A constituição Gaudium et Spes afirma que o progresso humano deve ser orientado para o bem comum, enquanto Fides et Ratio insiste na harmonia entre fé e razão. A encíclica Laudato Si’ amplia essa visão ao propor uma ecologia integral, na qual o cuidado com a criação se torna critério ético para qualquer avanço tecnológico. Assim, a Lua deixa de ser apenas objeto de contemplação ou símbolo e passa a ser também um apelo à responsabilidade: refletir a luz de Cristo implica cuidar da casa comum.
Quando se amplia o olhar para as culturas chamadas pagãs da Europa antiga, bem como para as cosmologias africanas e indígenas, percebe-se que a Lua foi frequentemente vivida como presença ativa no tecido da realidade. Entre os Iorubás, ela participa da ordem simbólica que regula a vida comunitária e espiritual; entre os Guaranis e os Navajos, integra narrativas de origem e equilíbrio cósmico. Essas tradições, embora distintas da teologia bíblica, revelam uma percepção comum: o cosmos é relacional, e a Lua é um de seus mediadores simbólicos.
Entretanto, a relação entre fé e cosmos não foi isenta de conflitos na história, especialmente no contexto da revolução científica. Em 1543, Nicolau Copérnico publicou De revolutionibus orbium coelestium, propondo o heliocentrismo. A partir de 1609, Galileu Galilei, com o uso do telescópio, observou as fases da Lua e outros fenômenos que confirmavam essa visão. Em 1616, o heliocentrismo foi considerado incompatível com a interpretação dominante das Escrituras, e em 1633 Galileu foi julgado e condenado. Com o tempo, porém, houve revisão: em 1822, a Igreja permitiu a publicação dessas ideias, e em 1992, sob João Paulo II, reconheceu-se o erro no tratamento do caso, afirmando a necessidade de diálogo entre fé e ciência.
É nesse horizonte que o voo preparatório para a Artemis III se torna um sinal ambíguo do nosso tempo. Por um lado, revela a capacidade humana de transcendência; por outro, expõe as contradições de um mundo desigual. A crítica de Amós, Isaías e Jeremias permanece atual.
No plano existencial, experiências como a da Apollo 11 mostram que olhar a Terra de fora pode transformar a consciência humana, ecoando Carta aos Romanos 8.
Diante desse percurso histórico que atravessa sombras e luzes, a conclusão não pode se encerrar em afirmações seguras, mas deve permanecer aberta, inquieta, como a própria consciência humana diante de Deus e da história. Que humanidade é essa que se prepara para habitar simbolicamente o espaço, evocando projetos como o Artemis Program, mas ainda não aprendeu a habitar com justiça a Terra que lhe foi confiada como jardim e responsabilidade, conforme o mandato de cuidar e guardar em Gênesis 2:15. De que serve alcançar a Lua se continuamos incapazes de reconhecer no outro a imagem e semelhança do Criador, como ensina Gênesis 1:27, reduzindo o próximo a estatística, ameaça ou descartável?
A história nos adverte. Quando a fé se divorcia da justiça, ela se torna instrumento de opressão, como nos períodos sombrios da Inquisição, em que o zelo sem amor produziu morte em nome de Deus. Hoje, quando a técnica avança sem uma ética do cuidado, corremos o risco de repetir a mesma lógica, agora não mais com fogueiras, mas com exclusões estruturais, desigualdades globais e novas formas de invisibilização. A pergunta então se aprofunda. Estaremos levando para além da Terra a lógica de Babel, descrita em Gênesis 11:1-9, marcada pela pretensão de grandeza sem comunhão, ou seremos capazes de aprender a linguagem do Espírito que em Atos 2 rompe as barreiras e faz nascer uma comunidade onde todos se compreendem?
A tecnologia que nos impulsiona para o alto está sendo acompanhada por uma conversão ética que nos enraíza no cuidado com os pobres, como exige a tradição profética em Isaías 1:17, ou apenas amplia o abismo entre os que têm acesso ao futuro e os que permanecem excluídos dele? A Lua, silenciosa e constante, permanece como sinal. Ela não se deixa possuir, não se submete ao domínio humano, apenas reflete a luz que recebe. Nessa contemplação, ecoa uma dimensão profundamente espiritual e antropológica: fomos criados não para absorver toda a luz em nós mesmos, mas para refletir uma luz que nos transcende, como lembra 2 Coríntios 3:18.
A questão decisiva, portanto, não é tecnológica, mas profundamente teológica, ética e humana. Seremos capazes de refletir algo além de nós mesmos, ou continuaremos projetando no cosmos nossas sombras, nossas estruturas de poder e nossos mecanismos de exclusão? Ao olhar a Terra de longe, como já fizeram astronautas que testemunharam a fragilidade e unidade do planeta, teremos coragem de retornar convertidos, com uma nova consciência de fraternidade universal, como sugere Mateus 25:40, ou voltaremos apenas mais poderosos, mais sofisticados e igualmente indiferentes?
No fim, a pergunta permanece como juízo e esperança. O verdadeiro progresso não será medido pela distância que conseguimos percorrer no universo, mas pela profundidade da justiça que conseguimos instaurar entre nós. Porque, se não aprendermos a habitar a Terra com dignidade compartilhada, levaremos ao infinito apenas a repetição ampliada de nossas próprias injustiças. E então, não será o céu que conquistaremos, mas apenas a expansão de um mundo que ainda não aprendeu a ser, de fato, humano.

Aqui convidamos  você a responder nos comentários;
  1. Estamos expandindo as fronteiras da vida ou apenas ampliando as fronteiras da desigualdade?
  2. Se Deus se revela no rosto do outro, como afirma Mateus 25:40, o que significa ignorar os pobres enquanto olhamos para as estrelas?
  3. Estamos construindo uma nova criação marcada pela justiça ou apenas sofisticando as torres de Babel em linguagem tecnológica?
DNonato - Teólogo do Cotidiano 



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