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quinta-feira, 15 de maio de 2025

Um breve olhar em João 13,16-20

"Em verdade, em verdade vos digo: o servo não é maior que o seu senhor, nem o enviado é maior do que aquele que o enviou." (Jo 13,16)

Num mundo onde a lógica dominante é a da autopromoção, onde o algoritmo premia o egocentrismo, e o sucesso é medido por curtidas, seguidores e poder de influência, Jesus insiste num caminho escandalosamente oposto: o servo não é maior que o seu Senhor. E o Senhor é aquele que lava os pés, que serve, que se dá. Não se trata de um ato simbólico — é uma pedagogia da existência.


Recordemos as palavras do Concílio Vaticano II: “A Igreja sabe que deve caminhar pelo mesmo caminho trilhado por Cristo, o caminho da pobreza, da obediência, do serviço e do sacrifício” (Lumen Gentium, 8).

A liturgia de hoje nos convida a mergulhar nesse trecho do Evangelho de João, situado no contexto da Última Ceia, quando Jesus entrega aos seus discípulos, não apenas um mandamento, mas um modo de ser. Ele está consciente da traição iminente, da dispersão dos amigos, da solidão da cruz. E mesmo assim, não recua do gesto: ajoelha-se e lava os pés dos discípulos. É aí que está o escândalo do Evangelho: Deus se curva diante do humano.

Jesus se fez estrangeiro — como diz a meditação patrística — para nos desinstalar. O Reino não se impõe por força, mas por entrega. A partir disso, é possível afirmar que a espiritualidade cristã autêntica nasce da margem, não do centro do poder.

Tal compreensão ecoa em Evangelii Gaudium, quando o Papa Francisco alertava: “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, do que uma Igreja enferma pelo fechamento e pela comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (EG, 49)

Cristo não fundou uma instituição de prestígio, mas uma comunidade de irmãos lavadores de pés. E é por isso que devemos desconfiar de toda forma de clericalismo — que, segundo o próprio Papa Francisco, “é uma perversão do ministério”.

A idolatria do poder dentro da Igreja é uma negação prática do Evangelho. A cruz, que deveria ser sinal de serviço e entrega, tornou-se em alguns ambientes símbolo de domínio. Isso não é novidade: desde o século IV, quando a fé cristã deixou de ser perseguida e passou a ocupar os palácios, iniciou-se uma tensão constante entre o seguimento radical de Jesus e a tentação do poder eclesial.

Hoje vivemos em meio a uma guerra cultural travestida de religiosidade. Jesus se torna mascote de projetos ideológicos, e seu Evangelho é distorcido para justificar a exclusão, o autoritarismo e o moralismo vazio. Não é raro ver cristãos justificando a fome em nome do “mérito”, a violência em nome da “ordem”, a desigualdade como “vontade de Deus”.

Mas Jesus foi claro: “Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois, se as praticardes” (Jo 13,17). A bem-aventurança está no fazer, não no dizer. A fé não é um conjunto de slogans, mas um modo de vida.

Do ponto de vista antropológico, esse gesto de Jesus devolve ao humano sua dignidade fundamental: não somos feitos para dominar, mas para comungar. O ato de lavar os pés é a desconstrução da lógica do prestígio, e a construção de uma ética do cuidado.

Na sociologia dos gestos, o ato de ajoelhar-se é profundamente revolucionário. Ele desfaz hierarquias. Quando um líder se abaixa, a estrutura do poder se reconfigura. O servo que lava os pés não é inferior: é superior no amor

Nas tradições de muitos povos indígenas do Brasil, a autoridade verdadeira nunca se impõe por força, mas é reconhecida pela comunidade a partir do cuidado, da escuta e do serviço. O cacique ou pajé não é aquele que grita mais alto, mas o que escuta mais fundo. Como dizia um velho ancião do povo Tikuna: “Só pode guiar quem primeiro aprendeu a seguir o caminho dos outros.”

Para muitos desses povos, o mais sábio é o que serve em silêncio, o mais forte é o que sabe esperar, o mais digno é o que reparte o que tem. Essa espiritualidade da reciprocidade e da escuta profunda ressoa como eco do gesto de Jesus ao lavar os pés dos seus discípulos.

Entre os povos Guarani, há o costume de caminhar juntos na floresta em silêncio, porque ouvir é mais importante que falar. Essa pedagogia da escuta, que valoriza o tempo e o ritmo do outro, nos provoca: será que nós, batizados, ainda sabemos escutar? Ou nos tornamos apenas anunciadores de nós mesmos, surdos ao sofrimento real do povo?

Não há trono entre os povos originários: há roda. E na roda, todos se veem, todos se ouvem. Talvez seja essa a conversão que o Evangelho nos propõe: sair do púlpito e voltar à roda; trocar a cátedra pelo círculo do cuidado.

A advertência de Jesus — “o servo não é maior que o seu senhor” — também serve como antídoto contra a autossuficiência dos que se dizem "representantes de Deus". A missão cristã é serviço, não domínio. É anúncio, não imposição. Somos discípulos, não donos da Verdade 

A CNBB, em diversas notas e diretrizes, tem insistido em uma Igreja sinodal, pobre para os pobres, fiel ao Evangelho e à dignidade humana. A atualidade exige de nós uma fé encarnada, comprometida com a justiça, a paz e os direitos humanos.

Hoje, muitos cristãos procuram um Cristo triunfante, mas fogem do Cristo de avental, ajoelhado diante do irmão. Mas é este Cristo que nos julgará — não pelo número de versículos que decoramos, mas pelos pés que lavamos.

Que nos seja dado o dom da humildade, da escuta e da entrega. Que recordemos — como disse Santo Agostinho — que “com os pés de seus discípulos, foi o mundo que Ele lavou”.

No fim, quando o Reino for revelado em plenitude, não haverá tronos, púlpitos, vestes douradas ou títulos honoríficos. Haverá apenas mãos estendidas, olhos misericordiosos, e uma bacia de água limpa nos convidando: “Vinde, benditos do meu Pai” (Mt 25,34).


DNonato – graduado em História, teólogo do cotidiano, indigente do sagrado.

domingo, 30 de abril de 2023

Um olhar no texto de João 10,1-10 - Domingo do Bom Pastor.

 


No  domingo do Bom Pastor somos convidados  a pensar sobre a nossa vocação em relação a tudo que vivemos no campo religioso e profissional.  Na sexta-feira  houve o encerramento da 60º Assembleia Geral da CNBB e foi a semana das  eleições para todas as funções  de direção dentro da CNBB  incluindo para o Rio de Janeiro e certamente diante do quadro no campo macro e micro o resultado não devia nos surpreender,   aqui entre nós  acreditamos que a Igreja ainda tem o Espírito Santo e esse mesmo Espírito que conduz nesses tempos de pós-verdade onde as vestes (rendas da vovó)  são mais que a causa do evangelho, sem deixar de citar a Carta aberta de um irmão que se manifestou referente as transferências pastorais diante   da falta de tato e de zelo com o povo e aqui entre nós talvez nos falte a consciência de Moisés (retirar as sandálias) ,  no aspecto geral quando se assume uma missão, sobretudo de Pastorear se faz necessário respeitar  a realidade do povo  as suas lutas, sofrimento e esperanças, sentir o ambiente.  Esse é o contexto que sou tentado a entrar no espaço sagrado sem retirar as sandálias e impor todo nosso carisma.

 Um tempo atrás em um congresso conversando com um Padre  do centro-oeste Brasileiro ele dizia que a disputa entre eles sobre quem tem o carro, a casa e paróquia melhor no aspecto de beleza  é algo que ocorre de forma  direta e indireta  e  isso deve ser combatido, pois ser Pastor envolve viver no meio do povo e ainda ousamos dizer que muitos lideres Religiosos tem mais de mercenários que  do Pastor, pois a preocupação  gerenciar  buscando o lucro  como verdadeiros empresários   e não tem o mínimo vocação de pastor, fazendo do seu ministério uma profissão que deve ter o retorno financeiro que dar o lucro. Mas ainda cremos que essa Igreja tem o Espirito de Deus e isso nos ajuda  a continuar

Que essa temática do  Domingo de Bom Pastor que tem a seguinte liturgia Atos 2,14a.36-41, Salmo 22 (23) O Senhor é meu pastor: nada me faltará; 1 Pedro 2,20b-25, João 10,1-10.

Temos consciência que todos gostam de citar João 10,10 mas não percebem que o texto esta de forma intima ligado aquilo que aconteceu no capitulo 9 de João, a cura do cego e aqui Jesus se coloca como porta e apresenta a proposta que ele conhece cada um pelo nome, que  as ovelhas do Bom Pastor sabem que ele é.  Fazendo criticas a modelo religioso daquele contexto,  onde a preocupação era com  o rito, com a observação da lei.   Ser Pastor é algo que nos faz desenhar na nossa mente  um homem forte,  quando de verdade o Pastor  é uma pessoa simples e devido a vida que levava  era excluídos do convívio social,algumas vezes eram  não, são crianças que são colocadas para cuidar das ovelhas junto com seus pais, pois a ovelha conhece o cheiro do seu Pastor, se chegar um estranho ela não seguirá   e nesse evangelho Jesus se apresenta como Pastor  e a porta e fala dos mercenário que  só visam explorar as ovelhas. 

Seguir o Bom Pastor é ouvi-Lo e seguir e aceitar as devidas correções, seguindo o Senhor mesmo diante das nossas dores. A bíblia apresenta de Abel, Abraão, Isaac, Jaco , Moises, Davi  como pastores e Jesus se  identifica também como Pastor, agora nos resta nos identificarmos como ovelhas e ser Ovelha é esta dentro do redil,  ser Pastor é ter atitude de Davi  que enfrentou leão e urso para proteger o rebanho, talvez nos falte essa disposição, pois basta ouvir um rumor que abandonamos o rebanho a própria sorte e muitos quadros  pintam as ovelhas brancas, limpas e  bonitas, quando na verdade muitas ovelhas tem sua pelagem são amarelada e de verdade o cheiro que exalam não é nenhum perfume, ainda tem o contexto de Jacó que deu golpe no sogro e  ficou com as ovelhas manchadas.

Ser Pastor é ter profundo amor pelas ovelhas e ser Ovelha é se deixar  guiar pelo Pastor e discernir quem de fato é o verdadeiro Pastor. Diante de uma realidade ilusória onde  a religião virou um produto, que usa como embalagem a fé, onde se fala de amor  de respeito e a pratica  é outra, sem deixar de mencionar a realidades daqueles que se promovem e buscam alguma espécie de retorno financeiro pela escolha de vida que fez, que fogem da vocação de pastor sendo verdadeiros mercenários, sagrando e maltratando as ovelhas.  Parando por aqui nesta data do domingo do Pastor que é celebrado não somente pela Igreja Romana, mas também pelos Anglicanos e Luteranos era celebrado  no 2º domingo de Páscoa  até 1970 e  depois foi para o 4º Domingo  dedicando também a oração pelas  vocações, sobretudo neste ano vocacional quando a Igreja toma consciência em relação a vocação do leigo e clero. 

Temos no texto algumas palavras: ovelha, o pastor, porta  e o ladrão, sejamos ovelhas sempre, pastores quando necessários  a porta da inclusão da acolhida e nunca o ladrão. Hoje de fora especial rezemos pelas vocações.

Oração para o Ano vocacional

Senhor Jesus,  enviado do Pai e Ungido do Espírito Santo, que fazeis os corações arderem e os pés se colocarem a caminho, ajudai-nos a discernir a graça do vosso chamado e a urgência da missão. 

 Continuai a encantar famílias, crianças, adolescentes, jovens e adultos, para que sejam capazes de sonhar e se entregar, com generosidade e vigor, a serviço do Reino, em vossa Igreja e no mundo.

 

Despertai as novas gerações para a vocação aos Ministérios Leigos, ao Matrimônio, à Vida Consagrada e aos Ministérios Ordenados.

 

Maria, Mãe, Mestra e Discípula Missionária,

ensinai-nos a ouvir o Evangelho da Vocação

e a responder com alegria.

 

Amém!