"Um amigo fiel é uma poderosa proteção: quem o encontrou, descobriu um tesouro. Nada se compara a um amigo leal; o ouro e a prata não merecem ser postos em paralelo com a sinceridade da sua fé. Um amigo verdadeiro é um remédio de vida e imortalidade; quem teme ao Senhor encontrará esse companheiro. Quem teme ao Senhor cultivará também amizades excelentes, pois seu amigo lhe será semelhante.”²
O livro do Eclesiástico, também conhecido como Sirácida, foi escrito por Jesus Ben Sirá, no início do século II a.C., em um período de profundas transformações culturais provocadas pela influência do mundo helenista. Seu propósito era transmitir às novas gerações a sabedoria de Israel, mostrando que a verdadeira felicidade não nasce do poder, da riqueza ou do prestígio, mas da fidelidade a Deus. Entre os seus ensinamentos mais belos está a reflexão sobre a amizade, apresentada não como um sentimento passageiro, mas como fruto da sabedoria, da virtude e do temor do Senhor.
"Um amigo fiel é uma poderosa proteção: quem o encontrou, descobriu um tesouro. Nada se compara a um amigo leal; o ouro e a prata não podem ser comparados com a sinceridade da sua fidelidade. Um amigo verdadeiro é remédio para a vida; os que temem o Senhor o encontrarão. Quem teme o Senhor saberá escolher bem os seus amigos, porque tal como ele é, assim será o seu amigo."**²
A Palavra de Deus revela que a amizade não é um simples encontro de interesses, mas uma vocação para a comunhão. Em uma época marcada pelo isolamento, pela rapidez das relações e pela superficialidade dos vínculos, a Escritura continua proclamando uma verdade que atravessa os séculos: um amigo fiel é um tesouro.
Esse tesouro não pode ser comprado nem acumulado. É um dom que Deus concede e que precisa ser cultivado com paciência, verdade e fidelidade. Enquanto o ouro e a prata podem ser perdidos ou roubados, uma amizade autêntica permanece como riqueza que atravessa as alegrias e as provações da vida. O texto do Sirácida afirma que "quem teme o Senhor encontrará esse companheiro". Na linguagem bíblica, porém, o temor do Senhor não significa medo de Deus, mas reverência, confiança e disposição para viver segundo sua vontade. Quem orienta a própria vida pela verdade aprende também a reconhecer pessoas verdadeiras. A amizade nasce da afinidade das virtudes antes de nascer da afinidade dos gostos.. A amizade atravessa toda a história da salvação. Desde as alianças narradas no Antigo Testamento até a revelação plena em Jesus Cristo, Deus manifesta que ninguém foi criado para caminhar sozinho. O ser humano, feito à imagem de um Deus que é comunhão, encontra na amizade uma das expressões mais nobres de sua vocação ao amor. A Bíblia inteira confirma essa sabedoria. O livro dos Provérbios ensina: "Há amigos mais unidos que um irmão" (Pv 18,24) e "O ferro afia o ferro; assim um homem afia o outro" (Pv 27,17). O verdadeiro amigo não apenas acompanha; ele nos ajuda a crescer, corrige nossos erros, fortalece nossas virtudes e nos torna melhores.
Curiosamente, a palavra amigo aparece centenas de vezes nas Escrituras, enquanto tesouro é frequentemente utilizada para indicar aquilo que possui valor permanente, embora variem conforme a tradução utilizada.³ Essa recorrência demonstra que Deus deseja ensinar que a verdadeira riqueza não está naquilo que possuímos, mas nas pessoas com quem caminhamos. Ao longo da vida descobrimos o amor em suas diferentes manifestações. Conhecemos o storgē, o amor familiar entre pais e filhos; experimentamos o éros, marcado pelo encanto e pela paixão; e amadurecemos na philía, a amizade construída sobre a confiança, o respeito e a reciprocidade. Cada uma dessas formas revela uma dimensão do amor humano, mas é a amizade que nos ensina a acolher o outro não como propriedade, e sim como companheiro de caminhada.. Todos precisamos de amigos, mas o Evangelho nos recorda que também somos chamados a ser amigos e a amizade não nasce pronta; ela é construída. Exige tempo, escuta, disponibilidade, perdão e perseverança, ela transforma o simples colega em irmão de caminhada. O verdadeiro amigo chega discretamente muitas vezes não percebemos quando sua presença começa a fazer parte da nossa história, mão depende da frequência das mensagens nem da proximidade física. Sustenta-se pela confiança, pelo respeito e pela certeza de que existe alguém com quem podemos contar.
O amigo / amiga é aquela pessoa que conhece nossas limitações e, ainda assim, permanece. Alegra-se com nossas vitórias sem inveja e sofre com nossas dores sem fugir e tem coragem de dizer a verdade quando todos preferem o silêncio ou o falso elogio, corrige sem humilhar, consola sem iludir e permanece sem exigir recompensas, nos defende diante das injustiças, não alimenta fofocas nem participa da destruição da reputação alheia, não assume nossas responsabilidades, mas oferece apoio para que possamos recomeçar. Ele / Ela é uma presença discreta e firme, uma mão estendida quando faltam forças, uma seta que aponta o caminho e uma escada que ajuda a subir.
O amigo verdadeiro permanece tanto nos dias de festa quanto nas noites de solidão, sua amizade não depende da utilidade, da conveniência ou das circunstâncias. Ela nasce da liberdade de quem escolhe amar e permanece fiel mesmo quando a vida impõe distâncias, sofrimentos e provações.
A Sagrada Escritura oferece exemplos luminosos dessa amizade: Davi e Jônatas estabeleceram uma aliança marcada por amor, lealdade e entrega (1Sm 18–20). A amizade entre eles superou interesses políticos, rivalidades e expectativas humanas. Jônatas, herdeiro natural do trono, reconheceu a eleição de Davi e permaneceu fiel a ele, mesmo sabendo que isso lhe custaria a oposição do próprio pai, o rei Saul. A amizade, quando fundada na verdade e na vontade de Deus, é capaz de vencer o egoísmo e o desejo de poder. Também Jesus revela, em sua própria vida, o rosto da amizade. Em Betânia, encontra em Marta, Maria e Lázaro um lar de acolhida, descanso e afeto. Diante da morte de Lázaro, o Evangelho registra o menor e um dos mais profundos versículos da Bíblia: "Jesus chorou" (Jo 11,35), suas lágrimas revelam que Deus não permanece indiferente ao sofrimento humano; Ele participa de nossa dor e santifica a amizade com sua própria compaixão.
Na Última Ceia, Jesus surpreende os discípulos ao afirmar: "Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; eu vos chamo amigos." (Jo 15,15) :om essas palavras, Cristo eleva a amizade à sua máxima dignidade. Os discípulos deixam de ser apenas seguidores para participarem da intimidade do próprio Deus. A amizade torna-se caminho de comunhão, de confiança e de amor recíproco. A Revelação vai além ao apresentar o próprio Deus como amigo do ser humano. O Senhor falava com Moisés "face a face, como um homem fala com seu amigo" (Ex 33,11). O livro da Sabedoria afirma que os justos tornam-se "amigos de Deus" (Sb 7,27). Em Cristo, essa amizade alcança sua plenitude, pois Deus já não apenas fala conosco como amigos: Ele caminha conosco.
Entretanto, o Evangelho também mostra que a amizade conhece a dor da traição. Judas entrega Jesus com um beijo, enquanto Pedro o nega por medo. Mesmo assim, diante do traidor, Jesus pronuncia uma palavra surpreendente: "Amigo, é para isso que vieste?" (Mt 26,50). Mesmo ferido, Cristo não deixa de tratar Judas com a dignidade que lhe era própria. A fidelidade de Deus permanece maior do que a infidelidade humana. Assim, aprendemos que a amizade cristã não é ingenuidade, mas capacidade de amar sem deixar que o ódio tenha a última palavra. Essa compreensão inspirou também a tradição cristã. Santo Tomás de Aquino afirma que a caridade é a amizade do homem com Deus (Suma Teológica, II-II, q. 23), toda amizade verdadeira, portanto, participa do amor divino e torna-se um caminho de santificação.
Santo Agostinho, por sua vez, ao recordar a morte de um amigo nas Confissões, descreve a profunda dor de quem perde alguém que caminhava ao seu lado. Seu testemunho revela que a amizade toca as profundezas da alma humana e que o amor vivido com autenticidade jamais é inútil, pois deixa marcas permanentes na história de quem ama.
Infelizmente, nossa época atravessa uma profunda crise dos relacionamentos. Vivemos a cultura do descarte, na qual pessoas são tratadas como produtos e relações são avaliadas pela utilidade. Multiplicam-se contatos, seguidores e curtidas, mas diminuem os vínculos verdadeiros. Há comunicação em abundância, porém comunhão cada vez mais escassa. Nunca estivemos tão conectados e, paradoxalmente, tão solitários, as Redes sociais multiplicam contatos, mas não substituem abraços, escuta, silêncio compartilhado e presença. O algoritmo aproxima perfis; a amizade aproxima pessoas.
A lógica do mercado ensina a consumir; a lógica do Evangelho ensina a permanecer, enquanto o mundo valoriza aquilo que produz lucro ou prestígio, Cristo revela o valor da fidelidade, onde tudo parece descartável, a amizade torna-se um ato de resistência e uma forma concreta de profecia. Permanecer quando todos vão embora, cuidar quando ninguém percebe, reconciliar quando é mais fácil romper: eis a lógica do Reino de Deus. Por isso, antes de perguntarmos se temos bons amigos, talvez devêssemos perguntar se estamos nos tornando amigos fiéis.
- Sabemos ouvir?
- Guardamos confidências?
- Corrigimos com amor?
- Permanecemos ao lado de quem sofre, mesmo quando nada podemos resolver?
- Somos capazes de nos alegrar sinceramente com a felicidade do outro ou permitimos que a inveja ocupe espaço em nosso coração?
Se desejamos amizades verdadeiras, devemos começar oferecendo aquilo que esperamos receber. Entre colegas de trabalho, vizinhos, membros da comunidade, da escola, da universidade ou da paróquia, Deus continua colocando pessoas em nosso caminho. Toda grande amizade começa com pequenos gestos de acolhida, confiança e cuidado. Tijolo por tijolo, ergue-se um santuário que, com o tempo, transforma-se em uma verdadeira catedral. A Igreja primitiva cresceu porque seus membros não eram apenas frequentadores das celebrações. Tornaram-se irmãos, partilharam a vida, os bens, a oração e o pão (cf. At 2,42-47). A amizade cristã sempre foi uma das formas mais convincentes de evangelização.
A música brasileira também soube traduzir essa verdade. No final da década de 1980, a banda Legião Urbana eternizou um verso que continua atual: "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque, se você parar pra pensar, na verdade não há."ais adiante, a canção prossegue:
"Sou uma gota d'água, sou um grão de areia."
Esses versos recordam a fragilidade da existência humana. A vida passa rapidamente e, por isso, o amor não pode ser adiado: Quem espera o momento perfeito para amar quase sempre chega tarde demais. Sem amizades verdadeiras, corremos o risco de atravessar a existência como uma gota perdida no oceano ou um grão de areia levado pelo vento. Mas, quando escolhemos viver a fidelidade, o cuidado e a comunhão, deixamos de ser indivíduos isolados. Tornamo-nos rios que saciam a sede de quem sofre, terra firme para quem busca descanso e sinais vivos do amor de Deus no mundo.
Ben Sirá iniciou sua reflexão afirmando que um amigo fiel é um tesouro. Ao final dessa caminhada, compreendemos que esse tesouro não é encontrado por acaso, ele é construído com verdade, paciência, perdão, fidelidade e temor do Senhor. As maiores riquezas da vida não podem ser compradas; elas são cultivadas. E entre todas elas, poucas são tão preciosas quanto um amigo fiel, verdadeiro reflexo da amizade que Deus oferece à humanidade.
Talvez, ao final desta leitura, a pergunta mais importante não seja quantos amigos possuímos, mas de quantas vidas nos tornamos abrigo, o amigo fiel é um tesouro porque reflete o próprio coração de Deus. Quem encontra um amigo descobre uma riqueza; quem se torna amigo participa da obra do Criador, que continua reunindo seus filhos para que ninguém caminhe sozinho. Afinal, onde existe uma amizade verdadeira, ali já começa a florescer o Reino de Deus.
Oração da amizade.
Senhor, dá-nos um coração capaz de amizade verdadeira.
Ensina-nos a amar sem exigir retorno,
a caminhar com fidelidade,
a dizer a verdade com ternura
e a permanecer, mesmo quando o outro não tem mais forças.
Faz de nós pontes, escadas, abrigo e mão estendida.
Amém.
.Notas
¹ Texto elaborado por Edson Oliveira e Daniel Nonato, inspirado no livro Carta aos Jovens (SERPAL/Edições Vozes) e na mensagem de autoria de Edson Oliveira apresentada no programa Questões de Fé, transmitido pela Rádio Catedral FM 106,7, em 16 de julho de 2011, às 16h10. O programa foi produzido pela PASCOM da Diocese de Nova Iguaçu, com a participação de Daniel Nonato, Edson Oliveira, Eloy Bezerra e Moisés Arantes. A presente reflexão retoma e amplia aquela mensagem, incorporando elementos bíblicos, teológicos e pastorais.
² Eclesiástico 6,14–17. Texto bíblico conforme a Bíblia Ave-Maria.
³ As referências às ocorrências das palavras "amigo" e "tesouro" baseiam-se na Bíblia Sagrada – Tradução Oficial da CNBB. A quantidade pode variar conforme a tradução, o idioma e os critérios de indexação.
⁴ "Pais e Filhos", composição de Dado Villa-Lobos, Renato Russo e Marcelo Bonfá, gravada pela Legião Urbana e lançada em 1989 no álbum As Quatro Estações. A canção aborda diferentes fases da existência humana e convida a viver o amor no tempo presente, sintetizado no verso: "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã."
Bibliografia
AGOSTINHO. Confissões. Tradução da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). São Paulo: Paulus.
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. II-II, questão 23. Diversas edições em português.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Antônio de Castro Caeiro. São Paulo: Atlas.
BÍBLIA SAGRADA. Tradução Oficial da CNBB. Brasília: Edições CNBB.
BÍBLIA SAGRADA. Bíblia Ave-Maria. São Paulo: Editora Ave-Maria.
OLIVEIRA, Edson. Mensagem apresentada no programa Questões de Fé. Rádio Catedral FM 106,7, Rio de Janeiro, 16 jul. 2011.
VILLA-LOBOS, Dado; RUSSO, Renato; BONFÁ, Marcelo. Pais e Filhos. Intérprete: Legião Urbana. Álbum As Quatro Estações. EMI-Odeon, 1989.


Ainda posso acrescentar uma parte do texto do Apostolo Paulo em 1Coríntios 13, 1 - 13, destaco o versículo 13 "Agora, portanto, permanecem estas três coisas: A fé, a esperança e o amor. A maior de delas, é o amor".
ResponderExcluirUm abraço Ronildo Burity.
Grande amigo
ExcluirEdinho foi morar com Deus no ultimo dia 22 de janeiro, deixando aqui essa reflexão para nossa vida e lida diária.
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