Isaías inaugura o sonho: povos acorrem ao monte do Senhor, espadas tornam-se relhas, lanças viram foices — e a humanidade aprende o caminho da paz. Em Romanos, Paulo reforça que “já é hora”: a noite vai adiantada, o dia se aproxima, e viver na luz significa abandonar as obras que obscurecem o coração. Quando chegamos a Mateus 24,37-44, sentimos a vibração escatológica que amarra tudo: Jesus pede vigilância, lucidez, sensibilidade espiritual. Não como ameaça, mas como convite a viver desperto em meio a um mundo que adormece nas ilusões.
O Evangelho começa evocando os “dias de Noé”. É uma imagem poderosa. A hermenêutica judaica entende Noé não apenas como um personagem histórico, mas como símbolo da geração que perdeu o senso do sagrado, que normalizou o caos, que naturalizou a violência estrutural e a insensibilidade. A sociedade pré-diluviana não era marcada por pecados “extraordinários”, mas pela mais terrível das atitudes: a indiferença. Comer, beber, casar, negociar, empreender — tudo isso é legítimo, mas, quando vivido sem consciência, sem ética, sem memória dos vulneráveis, sem abertura ao Outro, transforma-se em anestesia espiritual. O Evangelho não condena o cotidiano, mas o cotidiano vivido sem transcendência.
A antropologia bíblica revela que “dias de Noé” é expressão que aponta para uma humanidade desconectada de sua vocação, vivendo apenas no chrónos, no tempo repetitivo, consumido pela roda do imediato. Jesus convoca ao kairós, ao tempo que rasga o cronológico e introduz a novidade de Deus. Assim como o dilúvio veio não para destruir arbitrariamente, mas para revelar a verdade que ninguém mais queria enxergar, a vinda do Filho do Homem não é catástrofe, mas revelação. O que estava oculto aparece; o que parecia sólido mostra sua fragilidade; o que era idolatrado revela sua inconsistência.
A psicologia profunda ajuda a compreender essa cena: quando uma sociedade se fixa em rotinas de sobrevivência sem sentido, cria defesas psíquicas coletivas que evitam o encontro consigo mesma. Mecanismos de negação, repressão, fuga — tudo isso aparece nos “dias de Noé”. A sociologia da religião aponta que, quando a fé é reduzida à funcionalidade, ela se torna mecanismo de acomodação ao sistema, não força de transformação. É o que Jesus denuncia: a normalidade perversa que impede a percepção do essencial.
Os símbolos do texto são ricos. Dois homens no campo: campo é lugar de produção, economia, esforço, construção de futuro. Duas mulheres no moinho: moinho é lugar de repetição, cotidiano, sustento básico da vida. Os personagens são pares simétricos, mas não idênticos: representam o cotidiano em sua ambiguidade. Um é levado, outro deixado — não como punição moralista, mas como revelação da diferença entre quem vive desperto e quem vive anestesiado. A distinção não é externa; é interna. Não se trata de Deus separando bons e maus, mas do próprio coração revelando sua disposição ou sua recusa.
Esse paralelismo encontra eco profundo em Amós 5,18-24, onde o profeta denuncia o povo que deseja o “dia do Senhor” sem compreender que esse dia revela injustiças, desmonta privilégios e expõe a religião vazia. Isaías 2 também ressoa aqui: somente quem caminha na luz aprende a transformar armas em instrumentos de vida. Em Sabedoria 18, vemos a surpresa da noite em que Deus intervém, trazendo libertação aos oprimidos e desestabilizando os poderosos. Em 1 Tessalonicenses 5,1-6, Paulo reforça a mesma imagem: o “ladrão de noite” não é ameaça, mas metáfora da irrupção inesperada da graça. E em Apocalipse 3,1-3, a vigilância é apresentada como condição para manter a dignidade do coração. A Escritura forma um grande mosaico no qual vigilância significa despertar humano, despertar ético, despertar espiritual.
O símbolo do “ladrão que chega de noite” é um dos mais provocadores. Jesus toma a figura de um transgressor para expressar o modo pelo qual Deus rompe nossa ilusão de controle. João Crisóstomo dizia que Deus “nos surpreende para nos salvar de nós mesmos”, e Gregório de Nissa compreendia a vigilância como êxodo interior, deslocamento constante que impede a alma de se endurecer. Agostinho, ao refletir sobre o tempo nas Confissões (XI), afirma que a alma é distensão, tensão contínua, e que viver desperto é habitar esse fluxo com sensibilidade. O “ladrão” é aquele que rasga nossas seguranças falsas, desmonta nossas construções narcisistas e nos devolve à realidade. O Advento, nesse sentido, é a estação da vulnerabilidade que se abre à visita inesperada.
Aqui emerge criticamente um paralelo necessário com o clericalismo. O “dono da casa” que acha que controla tudo, que organiza a religião para servir a si mesmo, que administra o sagrado como se fosse propriedade exclusiva, é imagem clara do líder religioso que esquece que Deus é livre. O ladrão que invade é o próprio Deus, subvertendo estruturas rígidas, desmontando sacralidades possessivas, rompendo com poderes que domesticam o Evangelho. O clericalismo teme o Deus-ladrão, pois prefere a religião que garante privilégios. Mas o Advento proclama que Deus chega sem pedir permissão.
As teologias da prosperidade, do domínio e do individualismo são variações modernas da mesma anestesia dos “dias de Noé”. Elas transformam a fé em produto, culto em espetáculo, espiritualidade em mecanismo de autopromoção. São versões religiosas da lógica neoliberal que promete ascensão pessoal enquanto desumaniza o coletivo. Ao idealizarem um Deus que legitima riqueza, sucesso e conquista, acabam apagando o Deus bíblico, que se revela na fragilidade, no deserto, na noite, no encontro inesperado. E ao pregarem “domínio espiritual” sobre territórios, cidades e estruturas, sequestram o Evangelho para justificar projetos autoritários. A fé como mercadoria é justamente a paródia da vigilância: vende a sensação de segurança, mas impede o coração de despertar.
Em contraste, a vigilância evangélica é sempre ética, sempre pública, sempre comunitária. Romanos 13 recorda que “a salvação está mais perto do que quando abraçamos a fé”, chamando à responsabilidade histórica: renunciar à desordem interior e vestir as armas da luz. São Paulo fala de uma vigilância que se traduz em escolhas concretas: justiça, sobriedade, cuidado com o próximo. O Advento, portanto, não é tempo de fuga espiritualista, mas de compromisso com a transformação real da sociedade. Na linguagem da Gaudium et Spes, especialmente nos números 63 a 66, a Igreja é chamada a discernir os sinais dos tempos e a confrontar tudo o que desumaniza — estruturas econômicas injustas, políticas excludentes, discursos de ódio, manipulações religiosas. Em Evangelii Gaudium, Francisco denuncia claramente a “economia que mata” e a “mundanidade espiritual” que torna líderes religiosos autossuficientes e insensíveis. Em Fratelli Tutti, a vigilância se converte em fraternidade ativa, em atenção aos encontros e desencontros (n. 215), em compromisso com o bem comum e com a democracia como espaço de proteção dos mais fracos.
A sociologia crítica da religião ajuda a entender que muitos grupos vivem vigilantes não por virtude, mas por sobrevivência. A juventude periférica, os trabalhadores informais, as mulheres negras que carregam múltiplos pesos, as pessoas em situação de rua — todos vigiam, mas vigiando contra a violência, contra o medo, contra a fome. O Evangelho redimensiona essa vigilância: não a elimina, mas a transforma em esperança. Deus não ignora os corpos que dormem com um olho aberto; Ele se faz presente na madrugada deles.
O Advento é tempo de madrugada. Não a madrugada do desespero, mas a madrugada bíblica em que “das profundezas clamo a ti, Senhor” (Sl 130), e onde “as misericórdias se renovam a cada manhã” (Lm 3,22-23). É madrugada grávida, como diziam os Padres do Deserto: silêncio úmido em que o coração aprende a esperar. Em Isaías 21, o sentinela grita: “Vem a manhã, mas também a noite”. A vigilância cristã é exatamente isso: habitar o intervalo entre noite e dia, permanecendo atentos ao modo pelo qual Deus atravessa a história.
No final, tudo se liga: dois homens no campo, duas mulheres no moinho, o ladrão de noite, os dias de Noé — tudo aponta para a mesma convocação. Deus chega não quando estamos preparados, mas quando estamos verdadeiros. O Advento inaugura um ano novo que não é calendário, mas conversão. Em um mundo saturado de vozes que vendem futuro, Jesus chama à vigilância que lê o presente com olhos purificados. Em uma sociedade que idolatra controle, Ele chega como ladrão. Em um tempo que anestesia a alma com excesso de ruídos, Ele fala no silêncio maduro. Em meio a discursos religiosos que prometem poder, Ele convida ao despojamento. Em um planeta ferido por violências e desigualdades, Ele abre o sonho de Isaías: um mundo onde nenhuma espada encontre mais corpo, e onde todo coração encontre caminho.
No primeiro domingo do Advento, tudo começa de novo. E começa no escuro, porque é no escuro que a luz tem mais força. Nós caminhamos, como diz o salmo, “alegres, porque nos disseram: vamos à casa do Senhor”. Não caminhamos sozinhos. Caminhamos despertos. Caminhamos vigilantes. Caminhamos com esperança que não adormece.
DNonato – Teólogo do Cotidiano


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