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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

São Maximiliano Maria Kolbe, Mártire da II Guerra Mundial.


São Maximiliano Kolbe: a coragem que nasceu do amor

Quando iniciei a minha caminhada, ainda na década de 1990, uma história me foi contada e, por meio dela, comecei a conhecer um pouco da vida deste homem que hoje celebramos. Naquele período, talvez eu ainda não compreendesse toda a dimensão do testemunho de São Maximiliano Maria Kolbe, mas aquela história ficou guardada na memória. Com o passar dos anos, fui conhecendo melhor sua vida, sua espiritualidade, seu amor pela Imaculada, seu trabalho missionário e, principalmente, sua coragem diante de uma das maiores tragédias da história da humanidade. Por isso, ao recordar sua vida, não quero apenas apresentar uma biografia, mas registrar também a importância que esse testemunho teve na minha própria caminhada de fé. São Maximiliano não foi santo simplesmente porque morreu em um campo de concentração. Sua história é muito maior: foi a história de um homem que procurou fazer da fé uma experiência concreta de amor, serviço, evangelização e entrega.
Maximiliano Maria Kolbe nasceu em 8 de janeiro de 1894, em Zduńska Wola, na Polônia, filho de Júlio Kolbe e Maria Dąbrowska. Ainda criança, segundo a tradição ligada à sua vida, teria tido uma experiência diante de uma imagem da Virgem Maria que marcou profundamente sua vocação. Conta-se que Maria lhe teria apresentado duas coroas, uma branca, representando a pureza, e outra vermelha, representando o martírio, perguntando-lhe qual escolheria. Diante daquela difícil escolha, o menino teria respondido que queria as duas. Independentemente da maneira como esse episódio foi transmitido pela tradição devocional, a imagem das duas coroas acabou se tornando uma síntese muito significativa de sua vida: a coroa branca associada à consagração e à pureza de sua vida religiosa e a coroa vermelha associada ao martírio que encontraria muitos anos depois em Auschwitz.

Aos 13 anos, entrou no seminário dos Frades Menores Conventuais e recebeu o nome religioso de Maximiliano Maria. Ainda jovem, foi enviado a Roma, onde estudou filosofia e teologia, aprofundando sua formação intelectual e religiosa. Em 1917, juntamente com outros frades, participou da fundação da Milícia da Imaculada, movimento de apostolado mariano que expressava sua profunda devoção à Virgem Maria e seu desejo de levar o Evangelho a um número cada vez maior de pessoas. Foi ordenado sacerdote em 1918 e, de volta à Polônia, dedicou-se ao ensino, à formação dos religiosos e ao apostolado. Mas havia em Maximiliano uma característica que merece ser lembrada: ele compreendeu que a evangelização não poderia permanecer limitada aos espaços tradicionais. Era necessário utilizar também os meios de comunicação disponíveis em seu tempo para alcançar as pessoas e anunciar a mensagem cristã.

Foi nesse contexto que a imprensa adquiriu grande importância em seu apostolado. Em 1922 começou a publicação do “Cavaleiro da Imaculada”, que posteriormente alcançaria uma circulação extraordinária, chegando a aproximadamente um milhão de exemplares. Foram criadas também outras publicações destinadas a diferentes públicos, inclusive crianças. Em Niepokalanów, fundada por Kolbe em 1927, desenvolveu-se uma grande obra religiosa e editorial. Maximiliano compreendia a comunicação como instrumento de evangelização e procurava utilizar aquilo que a sociedade moderna colocava à sua disposição. Também se interessou pelo rádio, percebendo que a mensagem cristã poderia chegar a pessoas que talvez jamais entrassem em uma igreja. Por isso, quando pensamos nele como patrono da imprensa, não devemos imaginar apenas um religioso que publicava revistas; estamos diante de alguém que percebeu a força dos meios de comunicação e procurou colocá-los a serviço de sua missão.

Em 1930, partiu para o Japão como missionário. Em Nagasaki, iniciou uma nova experiência de evangelização e fundou uma edição japonesa do “Cavaleiro da Imaculada”. Seu trabalho missionário mostrou que seu desejo de anunciar o Evangelho não estava preso às fronteiras da Polônia. Ele queria levar sua mensagem para além de seu próprio país e, sobretudo, apresentar aquilo que acreditava ser a beleza da fé cristã e da devoção à Imaculada. Sua passagem pelo Japão, portanto, não foi um simples episódio de sua biografia, mas parte de um projeto missionário que pretendia utilizar todos os meios possíveis para alcançar pessoas diferentes, em culturas diferentes e em lugares diferentes.

Entretanto, a história de Maximiliano seria profundamente marcada pelos acontecimentos que levaram à Segunda Guerra Mundial. Em setembro de 1939, depois da invasão da Polônia pelas tropas alemãs, Kolbe e outros religiosos foram presos. Depois de algum tempo, foram libertados e ele retornou a Niepokalanów, onde continuou seu trabalho. Porém, a situação política e militar se agravava, e o regime nazista intensificava a perseguição contra aqueles que considerava seus inimigos. Em fevereiro de 1941, Maximiliano foi novamente preso pela Gestapo e levado para a prisão de Pawiak, em Varsóvia. Poucos meses depois, em maio de 1941, foi deportado para Auschwitz, recebendo o número 16670. A partir daquele momento, sua vida estaria ligada para sempre à história daquele campo de concentração que se tornou um dos símbolos mais terríveis da perseguição, da desumanização e do assassinato em massa praticados pelo regime nazista.

É importante compreender Auschwitz dentro de seu contexto histórico. Não se tratava simplesmente de uma prisão onde pessoas eram mantidas em condições difíceis. Era parte de um sistema de terror, exploração e extermínio construído pelo nazismo. Judeus foram perseguidos e assassinados em massa, assim como prisioneiros políticos, pessoas consideradas indesejáveis pelo regime, prisioneiros de guerra, religiosos e diversos outros grupos perseguidos. O ser humano era reduzido a um número, privado de sua dignidade e submetido à fome, à violência, ao trabalho forçado, às doenças e à morte. Foi nesse ambiente de desumanização que Maximiliano Kolbe continuou procurando viver aquilo que acreditava. Seu sacerdócio não desapareceu porque estava em um campo de concentração; sua fé não desapareceu porque estava cercado pela violência; e sua capacidade de olhar para o outro como ser humano não foi destruída pelo sistema que pretendia transformar pessoas em coisas.

Os testemunhos sobre sua permanência em Auschwitz apresentam Maximiliano como alguém que procurava ajudar os companheiros, partilhar o pouco que possuía e oferecer palavras de esperança em meio ao sofrimento. Mesmo diante da brutalidade, permaneceu fiel àquilo que havia aprendido e pregado. É atribuída a ele a frase: “O ódio não é a força criativa; a força criativa é o amor”. Essa afirmação ganha um significado muito mais profundo quando lembramos o lugar onde foi vivida. Não era uma frase pronunciada em circunstâncias confortáveis, mas uma compreensão que encontrou sua prova máxima diante da violência. O Evangelho que ele havia anunciado durante toda a vida encontrava agora sua hora mais difícil: amar quando seria muito mais fácil odiar, perdoar quando tudo ao redor convidava à vingança e permanecer humano quando o próprio sistema procurava destruir a humanidade.

No final de julho de 1941, um prisioneiro conseguiu fugir do bloco onde Maximiliano estava. Como represália, o comandante decidiu selecionar dez prisioneiros para morrer de fome. Entre os escolhidos estava Franciszek Gajowniczek, que, desesperado, lamentou que nunca mais veria sua esposa e seus filhos. Foi então que Maximiliano saiu da fila e se ofereceu para morrer em seu lugar. O comandante perguntou quem era aquele homem que se apresentava e, ao saber que era um sacerdote católico, aceitou a troca. Maximiliano não conhecia Gajowniczek como alguém próximo de sua família ou de seu círculo de amizades. Era simplesmente um ser humano condenado à morte. E foi justamente diante daquela situação que sua fé deixou de ser apenas palavra e tornou-se ação. Ele ofereceu a própria vida para que outro pudesse viver.

Os dez prisioneiros foram levados para o chamado bunker da fome, uma cela subterrânea onde deveriam morrer de inanição. Durante os dias seguintes, segundo os testemunhos preservados, Maximiliano procurou rezar e encorajar os outros prisioneiros. Mesmo naquela situação extrema, sua presença procurava transmitir alguma forma de esperança. Enquanto outros morriam, ele continuava vivo. Depois de mais de duas semanas, ainda permanecia consciente. No dia 14 de agosto de 1941, recebeu uma injeção letal de ácido carbólico e morreu. Tinha 47 anos. No dia seguinte, 15 de agosto, festa da Assunção de Nossa Senhora, seu corpo foi cremado. Assim terminou sua existência terrena, mas não terminou sua história.

Ao final da guerra, sua fama de santidade cresceu e seu testemunho passou a ser reconhecido pela Igreja. Foi beatificado pelo Papa Paulo VI em 17 de outubro de 1971 e canonizado pelo Papa João Paulo II em 10 de outubro de 1982, na presença de Franciszek Gajowniczek, o homem por quem havia oferecido a própria vida. João Paulo II o proclamou mártir da caridade. A Igreja reconheceu naquele gesto algo que ultrapassava a simples coragem humana: reconheceu um testemunho cristão levado até as últimas consequências. Maximiliano Kolbe tornou-se também uma referência para o apostolado da comunicação e é tradicionalmente reconhecido como patrono da imprensa.

Quando penso em sua história, volto inevitavelmente ao início da minha própria caminhada. Foi na década de 1990 que ouvi falar desse homem e comecei a conhecer sua história. Naquele momento, eu talvez enxergasse principalmente a coragem daquele sacerdote que havia entrado no lugar de outro condenado. Hoje, ao recordar aquela experiência, percebo que sua história possui muitas outras dimensões. Existe o jovem que buscou sua vocação, o religioso que estudou, o sacerdote que serviu, o missionário que atravessou o mundo, o comunicador que utilizou a imprensa e o rádio para evangelizar e, finalmente, o homem que diante da morte escolheu não abandonar o amor. Todas essas dimensões fazem parte da mesma pessoa.

É justamente por isso que sua história continua sendo tão forte para mim. Maximiliano Kolbe mostra que a fé não pode ser reduzida a palavras bonitas ou a uma devoção desligada da realidade. Sua devoção à Imaculada não o afastou das pessoas; ao contrário, conduziu-o ao serviço. Seu sacerdócio não foi utilizado para buscar privilégios, mas para permanecer ao lado daqueles que sofriam. Sua fé não serviu para justificar o ódio contra aqueles que pensavam diferente; foi justamente sua fé que o levou a oferecer a própria vida por outro ser humano. Diante de um sistema que dizia, na prática, que determinadas pessoas podiam ser eliminadas, Kolbe respondeu afirmando, com seu próprio gesto, que nenhuma vida humana deveria ser tratada como descartável.

Talvez seja essa uma das grandes perguntas que sua vida deixa para nós: de que vale uma fé que não se transforma em amor? Jesus afirma no Evangelho: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15,13). Maximiliano levou essas palavras a sério. Não as deixou apenas no campo da reflexão espiritual. Naquele momento extremo, colocou-se entre a morte e outro ser humano. E é justamente aí que compreendemos a profundidade de seu testemunho. Ele não venceu os nazistas pela força das armas, não venceu pela violência e não respondeu ao ódio com outro ódio. Sua resposta foi permanecer humano.

Por isso, ao recordar São Maximiliano Maria Kolbe, não quero apenas repetir uma história que ouvi há tantos anos. Quero recordar um testemunho que marcou minha caminhada. Desde a década de 1990, quando comecei a conhecer sua vida, até este registro que faço em 2013, sua história continua me ensinando que a verdadeira coragem cristã não está em gritar mais alto, dominar o outro ou vencer uma discussão, mas em permanecer fiel ao Evangelho quando a vida exige uma escolha concreta. Kolbe escolheu o amor quando poderia ter escolhido apenas a própria sobrevivência. Escolheu o outro quando poderia ter pensado somente em si. Escolheu permanecer fiel àquilo em que acreditava quando tudo ao seu redor parecia dizer que a fé não tinha mais sentido.

As duas coroas que fazem parte da tradição de sua história:  a branca e a vermelha,  podem ser entendidas, então, como uma síntese de sua existência:  A branca representa a vida consagrada, a busca da pureza e a entrega a Deus; a vermelha representa o martírio e a entrega final de sua própria vida, sem deixar  de aludir tais cores a Mãe Imaculada e ao Espírito Santo, ainda recordo que tais cores  estão  na bandeira polonesa.  Mas existe algo que une as duas cores: o amor que sustentou sua vocação, que alimentou seu apostolado, que o levou a atravessar fronteiras para anunciar o Evangelho e que, finalmente, o levou a colocar-se no lugar de outro condenado.

Quando iniciei minha caminhada, uma história me foi contada. Hoje, olhando para trás, compreendo por que aquela história permaneceu na minha memória. São Maximiliano Kolbe não foi apenas um nome apresentado em uma catequese ou uma figura encontrada em um calendário litúrgico. Foi o testemunho de um homem que, em meio a um dos períodos mais sombrios da história, mostrou que o mal pode destruir corpos, pode perseguir pessoas e pode tentar apagar nomes, mas não consegue transformar o amor em ódio quando alguém decide permanecer fiel à própria consciência e ao Evangelho. É por isso que, em 2013, ao recordar este homem que a Igreja chama de santo e mártir da caridade, faço questão de deixar registrada também a minha memória pessoal. Antes de conhecer profundamente sua biografia, eu conheci sua história como quem recebe de outra pessoa uma semente. Com o tempo, essa história foi ganhando significado. E talvez seja isso que acontece com tantos testemunhos de fé: alguém nos conta uma história, nós a guardamos, caminhamos com ela e, muitos anos depois, percebemos que aquela história também passou a fazer parte da nossa própria caminhada.

São Maximiliano Maria Kolbe, homem de fé, sacerdote, franciscano, missionário, comunicador e mártir da caridade, continua sendo para mim um exemplo de que a fé verdadeira não se mede somente pelo que dizemos acreditar, mas também pelo que somos capazes de fazer quando a vida coloca diante de nós a necessidade de escolher entre o egoísmo e a solidariedade, entre o ódio e o amor, entre a indiferença e a compaixão. Sua história começou muito antes de Auschwitz e não pode ser resumida à sua morte. Mas foi em Auschwitz, diante da morte, que sua vida revelou de maneira definitiva aquilo que havia aprendido durante toda a sua caminhada: que o amor é capaz de permanecer de pé mesmo quando tudo ao redor parece ter sido construído para destruí-lo.

DNonato.