Mostrando postagens com marcador #FéSemViolência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #FéSemViolência. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Um breve olhar sobre João 1,45-51 - Festa de São Bartolomeu, Apóstolo

Na festa de São Bartolomeu, celebrada em 24 de agosto pela Igreja Católica Romana, a liturgia proclama como Evangelho João 1,45-51, a cena em que Filipe encontra Natanael, enfrenta sua resistência com um convite simples e o conduz ao encontroJoão 1,45-51 de Jesus. No calendário romano, esta perícope pertence especificamente à festa do apóstolo Bartolomeu que no cristianismo ocidental, especialmente na Igreja Católica Romana, na Comunhão Anglicana e em diversas Igrejas Luteranas, sua festa é celebrada em 24 de agosto.  Nas Igrejas Ortodoxas de tradição bizantina, sua principal comemoração ocorre em 11 de junho, juntamente com São Barnabé. A tradição bizantina também celebra a Transladação das Relíquias de São Bartolomeu em 25 de agosto e a Sinaxe dos Doze Apóstolos em 30 de junho, quando os Doze são recordados conjuntamente. Nas Igrejas Orientais Antigas, também chamadas não calcedonianas, a memória de Bartolomeu assume características próprias.

Na Igreja Apostólica Armênia, sua festa principal é celebrada no sábado mais próximo de 30 de novembro. Bartolomeu é venerado, juntamente com São Tadeu, como um dos grandes evangelizadores e fundadores da tradição cristã na Armênia. A tradição armênia também conserva outras comemorações relacionadas aos apóstolos em datas móveis ao longo do calendário litúrgico. 

Na Igreja Ortodoxa Copta do Egito, São Bartolomeu é recordado em 11 de setembro, correspondente ao primeiro dia do mês de Thout, que marca o início do ano no calendário copta. Nos anos bissextos do calendário copta, essa celebração pode ocorrer em 12 de setembro. Há ainda uma tradição local que o recorda em 1º de janeiro.Essas diferenças de datas não significam diferentes Bartolomeus, mas diferentes maneiras pelas quais as tradições cristãs preservaram sua memória. Cada Igreja, a partir de sua própria história, calendário e experiência cultural, desenvolveu formas particulares de celebrar o apóstolo.

Assim, 24 de agosto, 11 de junho, 25 de agosto, 30 de junho, 30 de novembro ou outras datas tradicionais fazem parte de diferentes memórias litúrgicas relacionadas a São Bartolomeu. Mais importante que a data é aquilo que sua memória representa: o testemunho de um discípulo que, segundo a tradição cristã, anunciou o Evangelho, enfrentou perseguições e entregou a própria vida por sua fé e a diversidade dos calendários revela, portanto, não apenas diferenças litúrgicas, mas também a riqueza histórica do cristianismo. Em diferentes povos, línguas e culturas, São Bartolomeu continua sendo lembrado como testemunha da missão apostólica e como símbolo da fidelidade ao Evangelho O núcleo, contudo, permanece profundamente significativo: a memória apostólica apresenta à Igreja um discípulo tradicionalmente identificado com Natanael e convida os cristãos a contemplar um caminho que vai do preconceito ao reconhecimento, da pergunta ao encontro, da primeira confissão de fé a uma revelação ainda maior. Celebrar Bartolomeu não é simplesmente recordar um santo distante, perdido numa história antiga. É permitir que sua memória, associada à figura bíblica de Natanael, interrogue nossos próprios preconceitos, nossas certezas religiosas, nossos mapas sociais e nossas maneiras de decidir antecipadamente de onde Deus pode ou não pode falar.

Antes de Natanael aparecer, o evangelista já abriu uma imensa janela sobre a identidade de Jesus. “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus, e a Palavra era Deus”, João 1,1. Aquele que Filipe apresentará como Jesus de Nazaré não é simplesmente mais um mestre religioso, um profeta entre outros ou um líder espiritual de grande importância. O Prólogo o apresenta como a Palavra por meio da qual todas as coisas foram feitas, como a vida que é luz dos seres humanos e como a luz verdadeira que vem ao mundo, João 1,3-9. O ponto culminante dessa revelação é a afirmação de que “a Palavra se fez carne e habitou entre nós”, João 1,14. Toda a narrativa posterior precisa ser compreendida à luz dessa encarnação. Deus não salva o mundo desprezando a matéria, fugindo da história ou abandonando a humanidade concreta. Deus aproxima-se. Deus entra na carne. Deus assume a condição humana. Por isso, qualquer espiritualidade que pretenda encontrar Deus afastando-se do sofrimento humano precisa confrontar-se com João 1,14.  Depois do Prólogo, João Batista aparece como testemunha. Ele não é a luz, mas testemunha da luz, João 1,6-8. Quando vê Jesus, proclama: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, João 1,29. Mais tarde, dois de seus discípulos começam a seguir Jesus. Jesus se volta e lhes pergunta: “Que procurais?”, João 1,38. Eles perguntam onde ele mora. Jesus responde: “Vinde e vede”, João 1,39. Um desses discípulos é André, que encontra seu irmão Simão e o leva até Jesus, João 1,40-42. Depois, Jesus encontra Filipe e simplesmente lhe diz: “Segue-me”, João 1,43. Filipe, alcançado pelo encontro, torna-se imediatamente alguém que conduz outro. Ele procura Natanael. A sequência é significativa: João Batista aponta para Jesus, os primeiros discípulos vão até ele, André chama Simão, Jesus chama Filipe, Filipe procura Natanael. A fé, no Evangelho de João, não é propriedade privada. Quem encontra Jesus não recebe um privilégio para guardar, mas uma responsabilidade de testemunhar. Filipe anuncia a Natanael: “Encontramos aquele de quem Moisés escreveu na Lei e de quem falaram os profetas: Jesus, filho de José, de Nazaré”, João 1,45. A frase é teologicamente carregada. “Moisés e os Profetas” não significam uma coleção de previsões soltas que podem ser usadas para provar qualquer tese. A Lei e os Profetas contam uma longa história de revelação, libertação, conflito, promessa e esperança. O Deus de Moisés é o Deus que ouve o grito dos escravizados no Egito e decide agir contra a estrutura que os mantém submetidos, Êxodo 3,7-10. É o Deus que conduz um povo pelo deserto e estabelece uma aliança fundada na responsabilidade comunitária. Os profetas, por sua vez, não foram especialistas em adivinhar o futuro, mas homens e mulheres de consciência histórica, capazes de confrontar reis, sacerdotes, proprietários e estruturas de exploração. Isaías denuncia mãos levantadas em oração quando a sociedade continua marcada pelo sangue e pela injustiça, Isaías 1,11-17. Amós rejeita celebrações religiosas quando elas não produzem direito e justiça, Amós 5,21-24. Miqueias resume a exigência divina na prática da justiça, no amor à misericórdia e na humildade diante de Deus, Miqueias 6,8. Quando Filipe afirma que encontrou aquele de quem falaram Moisés e os Profetas, está dizendo que Jesus pertence a essa grande história e a leva à sua plenitude.

Natanael responde: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?”, João 1,46. Essa frase precisa ser interpretada com cuidado. Não devemos imaginar simplesmente que Natanael tivesse uma antipatia irracional por uma cidade. Nazaré era uma pequena localidade da Galileia, distante do centro religioso e político de Jerusalém. A Galileia possuía características sociais e culturais próprias, com circulação comercial, presença estrangeira, diversidade populacional e tensões decorrentes da dominação romana. Além disso, as expectativas messiânicas estavam relacionadas à linhagem de Davi e à cidade de Belém. O próprio Evangelho de João registra, mais adiante, um debate sobre a origem do Messias. Alguns perguntam se o Cristo poderia vir da Galileia e recordam a tradição segundo a qual ele deveria ser descendente de Davi e vir de Belém, João 7,41-42. A pergunta de Natanael, portanto, revela um choque entre expectativas religiosas, referências geográficas e preconceitos sociais. Mas é precisamente nesse ponto que começa sua conversão. Natanael conhece as expectativas de sua tradição e, no entanto, ainda precisa aprender que Deus não está preso aos seus esquemas. Essa é uma das grandes tentações da religião. É possível conhecer as Escrituras e não reconhecer o Deus que as Escrituras testemunham. É possível decorar versículos e continuar prisioneiro de preconceitos. É possível falar da presença de Deus e decidir previamente quais pessoas, quais lugares e quais grupos seriam incapazes de manifestá-la. Natanael precisa descobrir que sua pergunta sobre Nazaré contém um limite. Ele conhece alguma coisa sobre o Messias, mas ainda não conhece plenamente o Messias.

  • Quantas Nazares existem hoje?
  • Quantas cidades, bairros, favelas e periferias são tratados como se dali não pudesse nascer nada de bom?
  •  Quantas crianças são consideradas promissoras ou fracassadas conforme o CEP em que nasceram?
  •  Quantos jovens são abordados pela polícia, pelo mercado de trabalho ou pela sociedade como suspeitos antes de serem reconhecidos como cidadãos? 
  • Quantas pessoas são desprezadas pelo sotaque, pela origem regional, pela profissão, pela escolaridade ou pela condição econômica? 
A desigualdade produz uma verdadeira geografia moral: alguns endereços se tornam certificados de valor, enquanto outros são transformados em marcas de desconfiança; alguns corpos são recebidos como promessa, enquanto outros são tratados como ameaça. É justamente nessa lógica que o Evangelho de João nos provoca ao perguntar: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?” (Jo 1,46). A pergunta de Natanael revela um preconceito social e territorial, pois Nazaré era uma pequena localidade da Galileia, sem o prestígio de grandes centros. O Evangelho, porém, desmonta essa lógica ao mostrar que Deus não se deixa orientar pelos mapas sociais construídos pelos seres humanos. Jesus vem de um lugar considerado insignificante e, justamente ali, manifesta-se a novidade de Deus.

Filipe não responde à pergunta de Natanael com um tratado teológico,  não o humilha, não o chama de ignorante e  não exige submissão intelectual. Ele diz simplesmente: “Vem e vê”, João 1,46. Essa frase é uma das mais importantes do Quarto Evangelho. Ela expressa uma pedagogia de encontro. Filipe não tenta ocupar o lugar de Jesus e ele  simplesmente aponta para Jesus. A evangelização autêntica não consiste em sequestrar consciências ou produzir dependência em relação ao evangelizador. Quem anuncia Cristo não é proprietário de Cristo. A missão não é fazer discípulos para a própria autoridade, mas conduzir pessoas ao encontro com o Senhor. Existe aqui uma profunda crítica ao proselitismo agressivo e à manipulação religiosa. Filipe não diz: venha para fortalecer o meu grupo. Não diz: venha porque somente nós possuímos a verdade e você deve abandonar imediatamente toda pergunta. Ele diz: vem e vê. A verdade cristã não tem medo do encontro. Ela pode ser examinada, vivida e experimentada. Isso não significa relativismo ou indiferença diante da mentira. Significa que a fé não pode ser construída pela violência. Jesus jamais precisa de coerção para revelar sua identidade. O caminho do discípulo passa pela liberdade de aproximar-se, ouvir, perguntar e deixar-se transformar.

A fala de Jesus sobre Natanael: “Eis um verdadeiro israelita, em quem não há falsidade” (Jo 1,47), é mais do que um elogio moral. A palavra grega dolos, traduzida como falsidade, engano ou dolo, indica fraude, duplicidade e intenção enganadora. Jesus não apresenta Natanael como um homem perfeito: o próprio relato mostra seus limites e preconceitos. Sua característica é outra: ele é sincero, não esconde o que pensa atrás de uma máscara e, diante de uma revelação maior, é capaz de abandonar sua compreensão anterior sem permanecer no erro apenas por orgulho. Essa afirmação também estabelece uma importante ligação com a história de Jacó. O patriarca, que receberia o nome de Israel, está associado a episódios de astúcia e engano, especialmente na obtenção da bênção destinada a Esaú (Gn 27,1-36). Assim, ao chamar Natanael de “verdadeiro israelita, em quem não há falsidade”, João parece construir conscientemente um contraste e, ao mesmo tempo, uma continuidade com a história de Israel. Logo depois, Jesus anuncia a visão dos anjos subindo e descendo, retomando diretamente o sonho de Jacó em Betel (Gn 28,10-17). O Evangelho, portanto, insere Natanael na grande história bíblica e mostra que Jesus não destrói o passado de Israel, mas o reinterpreta e lhe confere nova profundidade. O verdadeiro pertencimento ao povo de Deus não se reduz a uma identidade fechada ou à simples tradição herdada, mas se manifesta na abertura sincera à revelação divina. Diante de Jesus, a história de Jacó e de Israel encontra seu novo horizonte: o passado não é abandonado, mas relido à luz daquele que revela plenamente Deus.

Natanael pergunta então: “De onde me conheces?”, João 1,48. Jesus responde: “Antes que Filipe te chamasse, quando estavas debaixo da figueira, eu te vi.” A figueira tornou-se uma das imagens mais comentadas do relato. O evangelista não explica o que Natanael fazia debaixo dela. Portanto, uma interpretação séria não deve inventar uma cena como se ela estivesse no texto. Não sabemos se Natanael estudava, orava, meditava ou simplesmente descansava. Contudo, a figueira possui diversas ressonâncias na tradição bíblica:

  • Sentar-se sob a própria videira e figueira pode representar paz, segurança e uma vida reconciliada, como encontramos em 1 Reis 5,5 e Miqueias 4,4. 
  • A figueira também aparece em outros contextos como imagem relacionada à vida e aos frutos de Israel. Há tradições posteriores que associam sua sombra ao estudo da Lei, mas essa possibilidade não pode ser transformada em informação explícita sobre João 1. 

O texto afirma com segurança que Jesus viu Natanael antes de ser apresentado a ele. Esse olhar antecede o encontro visível e revela um conhecimento que não oprime, vigia ou humilha, mas chama e abre novos caminhos. Como proclama o Salmo 139, Deus conhece profundamente a pessoa humana e seus caminhos (Sl 139,1-4); no Evangelho de João, porém, esse conhecimento está inseparavelmente ligado à revelação e ao convite. Jesus vê Natanael debaixo da figueira para conduzi-lo a uma realidade maior. A cena possui também forte ressonância contemporânea. Vivemos em uma sociedade que torna milhões de pessoas invisíveis, reconhecendo-as apenas como números, consumidores, mão de obra barata ou problemas sociais. Pobres, trabalhadores precarizados, moradores das periferias e pessoas em situação de rua são frequentemente privados de reconhecimento e dignidade. O olhar de Cristo segue em direção contrária: ele reconhece a singularidade da pessoa e a chama pelo horizonte de sua possibilidade. A reação de Natanael revela a força desse encontro: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel” (Jo 1,49). Aquele que inicialmente questionava se algo bom poderia vir de Nazaré agora reconhece Jesus com títulos messiânicos. Mas a confissão inicial não encerra o caminho. Jesus anuncia: “Verás coisas maiores do que estas” (Jo 1,50), mostrando que a fé precisa continuar crescendo. Por isso, a promessa culmina na visão do céu aberto e dos anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem (Jo 1,51), retomando a imagem bíblica de Jacó e apresentando Jesus como o lugar definitivo do encontro entre Deus e a humanidade.

A passagem do singular para o plural é significativa. Jesus deixa de falar apenas a Natanael e se dirige à comunidade dos discípulos: “Vereis”. A experiência pessoal de ser encontrado e conhecido por Deus abre-se, assim, para uma dimensão comunitária. A fé não se encerra na experiência individual, mas conduz a uma descoberta compartilhada e sempre maior..A promessa remete diretamente ao sonho de Jacó em Betel (Gn 28,10-17), onde ele vê uma ligação entre terra e céu e reconhece aquele lugar como a “casa de Deus” e a “porta do céu”. João, porém, desloca o centro dessa imagem: os anjos não sobem e descem sobre uma escada ou um lugar sagrado, mas “sobre o Filho do Homem” (Jo 1,51). Jesus torna-se, portanto, o lugar vivo e decisivo do encontro entre Deus e a humanidade, o novo Betel. Essa compreensão impede qualquer tentativa de transformar Deus em propriedade privada. Nenhuma instituição, grupo ou líder religioso pode monopolizar a graça ou controlar a consciência das pessoas. Igreja, sacramentos, ministérios e tradições encontram seu verdadeiro sentido quando servem ao encontro com Cristo e à vida do povo. Quando, porém, a instituição se coloca acima do Evangelho, a autoridade se transforma em privilégio e o poder religioso passa a proteger a si mesmo em vez de servir, a religião perde sua transparência evangélica e se distancia daquele que veio não para ser servido, mas para servir (Mc 10,45). O título “Filho do Homem” aprofunda ainda mais a revelação. Ele dialoga com Daniel 7,13-14, onde uma figura semelhante a um ser humano recebe domínio, glória e realeza. No Evangelho de João, porém, a grandeza do Filho do Homem será revelada por um caminho paradoxal. Aquele que possui autoridade não reproduz a lógica da dominação. Sua elevação será progressivamente ligada à cruz. Jesus fala do Filho do Homem elevado, João 3,14; 8,28; 12,32-34, e essa elevação será compreendida como glorificação. Por isso, é preciso evitar simplificações. João 1,51 não menciona diretamente a cruz, mas apresenta Jesus como a mediação definitiva entre céu e terra. O restante do Evangelho mostrará que essa mediação alcança sua plenitude na entrega de si, na morte e na ressurreição..

É precisamente aqui que precisamos explicar com honestidade a relação entre Natanael e Bartolomeu. 

  • Os Evangelhos Sinóticos e os Atos dos Apóstolos mencionam Bartolomeu nas listas dos Doze, Mateus 10,3; Marcos 3,18; Lucas 6,14; Atos 1,13. 
  • O Evangelho de João, entretanto, não apresenta Bartolomeu nessas narrativas e menciona Natanael em João 1,45-51 e novamente em João 21,2. Neste último texto, Natanael é identificado como sendo de Caná da Galileia
A tradição cristã antiga e amplamente recebida identificou Natanael com Bartolomeu. Uma das principais razões dessa associação é que Bartolomeu aparece ligado ou próximo de Filipe nas listas sinóticas, enquanto no Evangelho de João é Filipe quem conduz Natanael até Jesus Essa identificação, contudo, não é afirmada explicitamente pelos textos canônicos.  é provavelmente um patronímico derivado de Bar Tolmai, “filho de Tolmai”, enquanto Natanael é um nome pessoal hebraico que pode ser compreendido como “Deus deu” ou “dom de Deus”. É perfeitamente possível que uma mesma pessoa fosse conhecida por um nome próprio e por uma designação familiar. Mas possibilidade não é demonstração absoluta. A honestidade histórica exige reconhecer que a identificação é uma tradição muito antiga e plausível, mas não uma informação expressamente declarada pelo Evangelho. A fé não precisa inventar certezas onde as fontes preservam perguntas. Pelo contrário, a verdade histórica honra melhor a memória cristã. Podemos celebrar Bartolomeu como a tradição o recebeu e, ao mesmo tempo, reconhecer com precisão o que os textos afirmam e o que a tradição posterior desenvolveu. A Igreja não perde nada quando distingue Escritura, memória e hagiografia. Perde, isto sim, quando confunde piedade com fabricação de fatos. Também as tradições posteriores sobre a missão e o martírio de Bartolomeu precisam ser recebidas com essa distinção. Memórias cristãs antigas e posteriores associam sua atividade missionária a diferentes regiões, especialmente à Índia, à Armênia e a outros territórios orientais. As tradições sobre sua morte variam, e a narrativa de que teria sido esfolado tornou-se particularmente influente na devoção e na arte cristã ocidental. Essas tradições possuem importância na construção da memória do santo, mas não são descrições fornecidas pelos Evangelhos. A tradição pode preservar uma memória venerável sem que todos os seus detalhes sejam historicamente verificáveis.

João 21,2 acrescenta uma informação importante: Natanael era de Caná da Galileia. Esse dado cria uma ligação interessante com o próprio Evangelho. Caná é o lugar onde Jesus realiza seu primeiro sinal, transformando água em vinho durante uma festa de casamento, João 2,1-11. A Galileia, frequentemente vista a partir de Jerusalém como região periférica e religiosamente menos prestigiosa, torna-se no Quarto Evangelho espaço de manifestação. Jesus reúne discípulos, realiza sinais e revela sua glória em lugares que não correspondem necessariamente ao centro estabelecido de poder. A geografia, portanto, também se torna teologia. Deus continua contrariando aqueles que imaginam que a revelação só pode acontecer onde os poderosos decidiram procurar. Os Evangelhos Sinóticos ajudam a ampliar a compreensão do chamado apostólico. Mateus 4,18-22 e Marcos 1,16-20 narram o chamado de pescadores junto ao mar da Galileia e destacam a força da palavra de Jesus e a resposta dos discípulos. Lucas 5,1-11 desenvolve a cena de modo próprio, colocando no centro a pesca abundante e a reação de Pedro diante da santidade de Jesus. João constrói o início do discipulado de outra maneira. Ele valoriza perguntas, testemunhos e encontros progressivos. “Que procurais?”, pergunta Jesus, João 1,38. “Vinde e vede”, responde aos primeiros discípulos, João 1,39. “Encontramos”, anuncia Filipe, João 1,45. “Vem e vê”, convida Natanael, João 1,46. As tradições convergem em algo fundamental: o discipulado nasce da iniciativa de Deus e produz deslocamento. Ninguém encontra verdadeiramente Jesus para permanecer fechado em si mesmo. As diferenças estão na maneira como cada evangelista narra e interpreta o processo. Mateus e Marcos destacam a urgência do chamado. Lucas desenvolve a experiência de indignidade e missão. João aprofunda o reconhecimento progressivo da identidade de Jesus. Nos Sinóticos, Bartolomeu aparece como nome apostólico dentro da comunidade dos Doze. Em João, Natanael aparece como pessoa concreta, com pergunta, preconceito, surpresa, confissão e amadurecimento. Se a identificação tradicional estiver correta, o apóstolo das listas encontra no Evangelho de João um rosto humano e uma história espiritual. A força profética da passagem nasce precisamente desse movimento. Natanael não é chamado porque já compreende tudo. É chamado enquanto ainda possui limites. Jesus não o encontra depois que ele resolveu todos os seus preconceitos. O encontro com Jesus é aquilo que começa a desmontar seus preconceitos. Esta é uma diferença decisiva para a vida cristã. Muitas pessoas imaginam que primeiro precisam tornar-se espiritualmente perfeitas e depois poderão aproximar-se de Deus. O Evangelho mostra o contrário. Aproximamo-nos com nossas perguntas, nossos medos, nossas contradições e nossos limites. Mas não para permanecer como estamos. Cristo acolhe para transformar.

Os profetas de Israel conheciam bem essa necessidade de transformação:

  •  Isaías denunciou um culto separado da justiça, Isaías 1,11-17. 
  • Jeremias confrontou a confiança mágica no templo, quando as pessoas acreditavam que a existência do santuário poderia protegê-las enquanto praticavam injustiças, Jeremias 7,1-11. 
  • Amós recusou uma religiosidade musicalmente intensa e socialmente indiferente, Amós 5,21-24. 
  • Jesus permanece nessa tradição profética quando denuncia a hipocrisia, questiona práticas religiosas que esquecem a misericórdia e anuncia a proximidade do Reino, Mateus 23; Marcos 11,15-17.
Por isso, João 1,45-51 não pode ser reduzido a uma reflexão intimista sobre uma experiência individual, porque o “vem e vê” possui consequências sociais
  • Ver exige abandonar preconceitos e caminhar em direção às realidades que nossos grupos sociais preferem não enxergar. É fácil falar de Deus entre pessoas semelhantes a nós; mais difícil é permitir que o encontro com os pobres, os marginalizados, as vítimas da violência e os invisibilizados corrija nossa maneira de compreender o mundo. Jesus vê Natanael debaixo da figueira, e esse olhar também se torna denúncia contra uma sociedade que deixa multidões invisíveis. O Evangelho, porém, não autoriza uma compaixão abstrata.
  •  Ver é reconhecer, reconhecer é assumir responsabilidade. Jesus vê as multidões cansadas e dispersas e sente compaixão (Mt 9,36); vê a viúva que perdeu o filho e aproxima-se de sua dor (Lc 7,11-17); vê Zaqueu e o chama para uma nova relação com a vida (Lc 19,1-10); vê aqueles que a sociedade classificou como indignos e lhes devolve dignidade. 
A desigualdade social é uma das grandes Nazares contemporâneas, pois muitos seres humanos nascem em territórios aos quais a sociedade já atribuiu um destino de fracasso, crianças recebem oportunidades radicalmente diferentes conforme a renda familiar, jovens pobres enfrentam uma permanente presunção de culpa, trabalhadores produzem riqueza sem participar proporcionalmente dela, pessoas sem moradia são transformadas em parte da paisagem urbana e famílias destruídas pela violência descobrem que algumas mortes provocam comoção pública enquanto outras desaparecem no silêncio. Contra essa normalização, o Evangelho afirma que Deus continua fazendo nascer vida justamente onde a sociedade desistiu de procurar. Isso não significa romantizar a pobreza, pois a pobreza produzida pela injustiça não é virtude, mas escândalo. 
  • Jesus proclama bem-aventurados os pobres (Lc 6,20) não porque a miséria seja desejável, mas porque o Reino de Deus se coloca contra uma ordem que trata pessoas como descartáveis. 
  • A comunidade apostólica procura enfrentar as necessidades concretas para que ninguém seja abandonado (At 2,42-47; 4,32-35).
  • Tiago denuncia a preferência pelos ricos dentro da própria assembleia e questiona uma fé incapaz de responder ao sofrimento concreto (Tg 2,1-17). 
A justiça, portanto, não é um adorno político acrescentado posteriormente ao cristianismo, mas pertence à própria forma bíblica do amor. Por isso, torna-se urgente denunciar a manipulação da religião quando símbolos, palavras e referências cristãs são usados como vitrine, enquanto o Evangelho é negado na prática. A cruz não pode servir de enfeite para discursos que abandonam os pobres, nem o nome de Deus justificar preconceitos, violências, exclusões ou projetos de poder eleitoral, econômico e cultural. A repetição de palavras religiosas não é critério de fidelidade ao Evangelho. Jesus é explícito: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai” (Mt 7,21). Também a violência precisa ser confrontada, especialmente quando a força é apresentada como resposta para problemas humanos complexos e a defesa da ordem se transforma em justificativa para o descarte dos vulneráveis. Jesus rompe com a lógica dos governantes que dominam e fazem sentir o seu poder, afirmando que, entre os seus discípulos, a verdadeira autoridade deve assumir a forma do serviço (Mc 10,42-45). Por isso, embora Natanael reconheça Jesus como “Rei de Israel” (Jo 1,49), o Evangelho impede que esse título seja reduzido a nacionalismo, militarismo ou autoritarismo: quando a multidão tenta fazê-lo rei à força, Jesus se retira (Jo 6,14-15). O reinado de Cristo não é um projeto de dominação, mas de serviço, justiça e vida. É precisamente nesse horizonte que a memória de São Bartolomeu ganha uma dimensão histórica dolorosa, mas profundamente necessária.

Séculos depois da morte do apóstolo, seu nome ficaria associado, não por causa de sua missão, mas por causa de uma das páginas mais sangrentas da história religiosa europeia. Na madrugada de 24 de agosto de 1572, dia da festa de São Bartolomeu no calendário ocidental, começou em Paris o massacre que ficaria conhecido como a Noite, ou Massacre, de São Bartolomeu. Protestantes franceses, especialmente huguenotes, foram assassinados num contexto explosivo em que diferenças confessionais se misturavam com disputas políticas, rivalidades dinásticas, interesses de poder e os traumas acumulados pelas Guerras de Religião na França. É essencial compreender a motivação dessas mortes sem simplificá-la. O massacre não nasceu de uma única causa nem pode ser explicado como resultado de uma simples ordem religiosa contra pessoas de outra religião. 

A França vivia um período de profundas guerras religiosas entre católicos e protestantes, agravadas pelas disputas entre facções da nobreza e pela fragilidade da monarquia diante dos conflitos pelo poder. Nesse contexto, o casamento de Henrique de Navarra, protestante e futuro Henrique IV, com Margarida de Valois, irmã do rei Carlos IX, celebrado poucos dias antes do massacre, pretendia também favorecer a reconciliação política entre grupos rivais. A cerimônia reuniu em Paris importantes líderes huguenotes, entre eles Gaspard de Coligny, almirante da França e uma das principais lideranças políticas e militares protestantes. Em 22 de agosto de 1572, Coligny foi vítima de uma tentativa de assassinato e ficou ferido, elevando ainda mais a tensão na capital. O temor de uma reação huguenote, as disputas internas da corte e a crescente influência política de Coligny criaram um ambiente marcado pelo medo, pela hostilidade religiosa e pelo cálculo político. Nesse cenário, decidiu-se eliminar lideranças protestantes presentes em Paris. A violência, porém, rapidamente ultrapassou esse objetivo inicial: Coligny foi assassinado, e o massacre espalhou-se pela cidade, atingindo milhares de protestantes nos dias seguintes e estendendo-se posteriormente a outras regiões da França.

A famosa  noite de São Bartolomeu, portanto, tornou-se símbolo de algo terrível: quando religião, medo, poder e interesse político se misturam, a diferença do outro pode ser transformada em justificativa para sua eliminação. As mortes não podem ser explicadas apenas por uma discussão doutrinal. O conflito envolvia a luta pelo poder dentro da monarquia francesa, a rivalidade entre famílias nobres, o temor de uma reação política, as consequências das guerras religiosas anteriores e o ódio confessional acumulado. A religião oferecia identidade e linguagem para a violência, enquanto interesses políticos ajudavam a determinar decisões e alianças. Quando essas dimensões se combinaram, o resultado foi uma tragédia humana. O número exato de mortos permanece objeto de debate entre historiadores. As fontes e as estimativas variam, especialmente quando se considera a violência ocorrida em Paris e sua expansão para outras cidades nas semanas seguintes. O que não está em dúvida é a escala do massacre e o fato de que milhares de pessoas foram mortas. Não é necessário inflar números para compreender a gravidade moral do acontecimento. Cada vítima era uma vida humana. Cada morte representava o fracasso da convivência e a transformação da identidade religiosa em instrumento de perseguição. 

Essa memória torna a festa de São Bartolomeu profundamente incômoda. O nome de um apóstolo, associado pela tradição a um homem que foi conduzido a Jesus pelo convite “vem e vê”, passou a designar uma data lembrada pelo derramamento de sangue entre cristãos. A contradição é terrível. 

  • O Evangelho daquele que ensinou “amai os vossos inimigos”, Mateus 5,44, tornou-se parte do universo simbólico de sociedades capazes de matar em nome da verdade religiosa. 
  • O Cristo que proclama bem-aventurados os que promovem a paz, Mateus 5,9, foi invocado dentro de um mundo no qual diferenças confessionais podiam ser convertidas em motivos para o extermínio. 
Mas a lembrança da Noite de São Bartolomeu não deve ser usada para alimentar uma nova disputa sectária, como se um grupo pudesse simplesmente apontar o dedo para outro e declarar-se inocente. A história do cristianismo possui páginas dolorosas de perseguição e violência praticadas em diferentes contextos por diferentes grupos e tradições. 

  • Católicos perseguiram e também foram perseguidos.
  •  protestantes perseguiram e também foram perseguidos. 
Ao longo da história, poderes religiosos e políticos frequentemente utilizaram a linguagem da fé para legitimar projetos de dominação. Por isso, a memória histórica deve produzir humildade, consciência e compromisso com a paz, e não triunfalismo ou novas formas de condenação. 

A pergunta profética é outra: como a religião, que deveria conduzir à misericórdia, pode tornar-se instrumento de morte? 

Isso acontece, em parte, quando a identidade religiosa deixa de servir à verdade e passa a servir ao poder, quando o adversário deixa de ser visto como pessoa e passa a ser tratado como ameaça absoluta, tornando sua exclusão aparentemente justificável. Quando uma instituição acredita que precisa eliminar pessoas para defender Deus, já esqueceu quem é Deus. Quando a ortodoxia se separa da misericórdia, a verdade pode transformar-se em arma; quando a fé é capturada pelo medo, qualquer diferença passa a ser apresentada como perigo.Filipe responde a Natanael: “Vem e vê.” A lógica do Evangelho é oposta à lógica da eliminação. Aproxima-te e conhece. Caminha e vê. Permite que a realidade destrua teu preconceito. O encontro precede o julgamento definitivo. A fé não precisa produzir inimigos para confirmar a própria identidade. Cristo não pede aos discípulos que defendam o Evangelho matando aqueles que discordam deles. Ao contrário, quando Pedro reage violentamente no momento da prisão de Jesus, a tradição evangélica registra a recusa da espada, Mateus 26,52; João 18,10-11. A memória do massacre deve, portanto, funcionar como exame de consciência para todas as comunidades cristãs. Não basta dizer que aquilo aconteceu há séculos. A lógica que tornou possível aquela violência não desapareceu. Ela reaparece sempre que líderes religiosos transformam adversários em inimigos de Deus, sempre que políticos utilizam símbolos religiosos para mobilizar ódio, sempre que diferenças doutrinais são convertidas em autorização para humilhar pessoas, sempre que a identidade do grupo vale mais que a dignidade humana. A tecnologia mudou, os discursos mudaram, as instituições mudaram, mas a tentação continua.

Hoje talvez não se convoque uma multidão para uma noite de massacre religioso em muitas sociedades democráticas, mas existem outras formas de eliminação. Há campanhas de ódio. Há perseguição de minorias. Há desumanização de pobres. Há discursos que apresentam determinadas populações como descartáveis. Há violência física legitimada por preconceitos morais. Há pessoas que se consideram cristãs e celebram a destruição pública de quem pensa diferente. Há comunidades religiosas que tratam a compaixão como fraqueza e a crueldade como sinal de coragem. A história de 1572 não pertence apenas ao passado quando sua lógica continua viva. A religião vazia pode multiplicar símbolos e abandonar a misericórdia. É possível celebrar missas, cultos, procissões e festas enquanto se permanece indiferente ao sofrimento humano. É possível defender a família e tolerar violência dentro de casa. É possível falar obsessivamente de determinados pecados e silenciar diante da fome, da exploração, do racismo e da corrupção. É possível condenar os erros do mundo enquanto se escondem os próprios abusos. É possível repetir o nome de Deus milhares de vezes e produzir pouco amor. 

  • O profeta Isaías continua perguntando: de que vale levantar as mãos em oração quando elas permanecem comprometidas com a injustiça? Isaías 1,15-17. 
  • Amós continua perguntando: de que valem os cânticos quando o direito não corre como um rio? Amós 5,23-24. 
  • Jesus continua perguntando: por que me chamais Senhor e não fazeis o que eu digo? Lucas 6,46. 
Natanael é chamado de homem sem falsidade porque o encontro com Deus exige abandonar as máscaras e a necessidade de aparentar aquilo que não somos, e essa atitude também ilumina o problema do clericalismo. A passagem de Filipe e Natanael apresenta uma rede de encontros, testemunhos e caminhos, não uma pirâmide de privilégios. Filipe não é proprietário de Jesus, mas testemunha; por isso, não diz “venha admirar minha autoridade”, mas simplesmente: “vem e vê”. Natanael também não é obrigado a renunciar à própria consciência: ele questiona, caminha e encontra. Jesus conhece sem controlar, revela sem anular e chama sem humilhar. O clericalismo surge quando o ministério deixa de ser serviço e se transforma em posição de superioridade, quando alguns batizados passam a ser tratados como se possuíssem maior dignidade que outros e quando os leigos são reduzidos à função de obedecer, sustentar estruturas ou ocupar espaços previamente determinados. Jesus, porém, adverte contra a busca de títulos, lugares de honra e superioridade religiosa (Mt 23,1-12), deixando claro que, no Reino de Deus, a verdadeira autoridade não se mede pelo poder exercido sobre os outros, mas pela capacidade de servir: “Quem quiser ser o primeiro entre vós seja servo de todos” (Mc 10,43-44).

Uma Igreja que teme perguntas sinceras pode acabar produzindo falsidade, pois Natanael é importante justamente porque fala antes de compreender tudo: sua primeira opinião é limitada, mas ele não finge possuir uma certeza que ainda não tem. O caminho do discipulado não consiste em esconder dúvidas, preconceitos ou crises, mas em levá-los ao encontro com Cristo e permitir que o Evangelho nos corrija. A hipocrisia, ao contrário, preserva a aparência enquanto protege os próprios interesses, e Jesus denuncia essa duplicidade em Mateus 23,23-28. O mesmo princípio vale para a sociedade, onde há pessoas que se apresentam como defensoras dos valores cristãos e, ao mesmo tempo, celebram a humilhação dos adversários, desprezam os pobres, relativizam a tortura ou tratam a violência como solução. Existem discursos religiosos que prometem prosperidade sem questionar a exploração econômica, pregadores que pedem paciência aos trabalhadores explorados, mas raramente confrontam os exploradores, e uma moralidade seletiva que examina minuciosamente a vida privada dos outros enquanto permanece silenciosa diante das estruturas que produzem sofrimento e morte. Essa seletividade pode transformar-se em uma forma moderna de idolatria, uma falsidade que utiliza a religião como máscara para proteger interesses, privilégios e relações de poder.

O verdadeiro israelita de João 1,47 torna-se uma provocação porque Natanael não é grande por nunca errar, mas por não permanecer prisioneiro do próprio erro. Ele começa perguntando se de Nazaré poderia sair algo bom, mas encontra Jesus e reconhece uma realidade maior. Sua transformação não acontece porque Filipe o venceu em um debate, mas porque ele aceitou caminhar, ver e deixar-se surpreender. Essa pedagogia é especialmente necessária em um tempo de polarização, no qual muitas pessoas entram nas discussões não para buscar a verdade, mas para destruir o outro. As redes sociais frequentemente recompensam a indignação permanente, a simplificação e a caricatura do adversário, enquanto o Evangelho propõe outro caminho: “Vem e vê”. Isso não significa abandonar convicções nem tratar todas as ideias como moralmente equivalentes, pois Jesus e os profetas denunciam com firmeza a injustiça. O amor cristão não exige neutralidade entre vítima e agressor, verdade e mentira, justiça e opressão. A denúncia profética, porém, não autoriza a desumanização: podemos confrontar estruturas de morte sem desejar a morte de pessoas, rejeitar discursos autoritários sem reproduzir sua lógica e combater o racismo, a misoginia, a violência e a exploração sem transformar o adversário em objeto de ódio.

A justiça bíblica não é vingança travestida de religião. O Deus do Êxodo ouve o clamor das vítimas e conduz a libertação em direção à vida, enquanto Jesus enfrenta a injustiça sem construir seu Reino pela eliminação dos inimigos. Ele revela um poder que serve, uma verdade que liberta e uma autoridade que se entrega: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). A verdade de Jesus não aprisiona consciências nem serve para controlar pessoas, mas produz libertação. Por isso, também precisamos recuperar a imagem do céu aberto contra toda espiritualidade de fuga, pois existem discursos religiosos que prometem o céu para que as pessoas aceitem passivamente o inferno social da terra, consolam os pobres para que não questionem a pobreza, exigem submissão dos oprimidos e raramente convocam os opressores à conversão, oferecendo uma recompensa futura para evitar o compromisso com a justiça presente. Em João 1,51, porém, o céu se abre sobre o Filho do Homem, mostrando que Deus não abre o céu para retirar a humanidade da história, mas para revelar sua presença justamente naquele que entrou profundamente na história humana.

A encarnação impede o cristianismo de desprezar o mundo, porque o Deus que se fez carne dignifica a vida concreta e nos recorda que o pão importa, a casa importa, o trabalho importa, a saúde importa, a segurança importa e a dignidade importa. Uma fé que não se interessa pelo sofrimento humano corre o risco de transformar-se em ideologia religiosa. João pergunta como alguém pode amar a Deus, a quem não vê, se não ama o irmão que vê (1Jo 4,20), enquanto Paulo denuncia a contradição de uma comunidade que celebra a Ceia do Senhor e, ao mesmo tempo, humilha irmãos e irmãs e despreza aqueles que têm menos (1Cor 11,17-34). Por isso, a Eucaristia não pode ser separada da mesa social: não há coerência em adorar o Cristo presente no sacramento e desprezar o Cristo identificado com o faminto, o sedento, o estrangeiro, o nu, o enfermo e o preso (Mt 25,31-46). A liturgia não termina quando a celebração acaba; ela deve transformar a maneira como a comunidade vive na história, porque a oração verdadeira amplia nossa capacidade de enxergar e a contemplação autêntica produz responsabilidade. O Cristo que encontramos no altar precisa ser reconhecido também nas pessoas que a sociedade prefere não ver, pois uma Igreja que celebra o Corpo de Cristo enquanto ignora corpos feridos pela fome, pela pobreza, pela violência e pela exclusão corre o risco de transformar a Eucaristia em ritual sem conversão. A fé cristã não nos retira da realidade, mas nos envia para dentro dela com olhos abertos, mãos dispostas a servir e coragem para confrontar tudo aquilo que nega a dignidade humana.

Celebrar São Bartolomeu é aceitar essa desinstalação, sair debaixo da figueira quando ela se transforma em esconderijo, abandonar a Nazaré imaginária que construímos para justificar nossos preconceitos e recusar qualquer forma de religião utilizada como arma. É também aprender com a tragédia da Noite de São Bartolomeu que nenhuma doutrina, nenhum interesse político e nenhuma identidade de grupo pode justificar o assassinato ou a perseguição de seres humanos, reconhecendo que a história cristã precisa conservar sua memória para não repetir suas próprias sombras. A festa do apóstolo e a memória do massacre carregam juntas uma advertência poderosa: o mesmo nome, Bartolomeu, está associado ao testemunho apostólico e, séculos depois, à lembrança de uma tragédia ocorrida em uma sociedade profundamente marcada pelo cristianismo. Essa aproximação deveria produzir humildade e não triunfalismo, porque pertencer a uma tradição cristã não garante que nossas atitudes sejam cristãs, carregar uma cruz não significa necessariamente seguir o Crucificado e citar a Bíblia não significa, por si só, obedecer ao Evangelho. A verdadeira fidelidade cristã se revela quando a fé se transforma em misericórdia, justiça, serviço, defesa da dignidade humana e compromisso com a vida.

A pergunta decisiva continua sendo a de Jesus, ainda que expressa de diferentes formas ao longo dos Evangelhos: quem somos diante dele e até que ponto somos capazes de permitir que ele nos veja como viu Natanael, reconhecer nossos preconceitos, abandonar certezas que contradizem a dignidade humana e olhar para aqueles que consideramos inimigos sem abandonar a defesa da justiça, denunciando o mal sem transformar a violência em objeto de culto? Filipe continua dizendo à Igreja e ao mundo: “Vem e vê”. Vem sair da bolha dos teus preconceitos, ver a periferia que desprezas, ouvir o pobre que classificaste, conhecer antes de condenar e descobrir que Deus pode falar por meio de pessoas que teu grupo jamais escolheria. Vem e vê que Nazaré não é o lugar sem valor que imaginavas. E Jesus continua dizendo: “Eu te vi”. Eu te vi antes que alguém pronunciasse teu nome; eu te vi em tua figueira, em tua solidão, em tua pergunta, em teu medo e em tua busca. O Evangelho não começa com o ser humano encontrando Deus por sua própria capacidade, mas com Deus vendo, chamando e vindo ao encontro da humanidade. Natanael descobre, então, que existe uma realidade maior do que sua primeira impressão e que o encontro com Cristo pode desmontar os mapas sociais, religiosos e culturais que utilizamos para classificar pessoas. O céu está aberto, e os anjos sobem e descem sobre o Filho do Homem, sinal de que a distância entre Deus e a humanidade é atravessada em Cristo. Se o céu está aberto, porém, a terra não pode permanecer fechada para os pobres, os feridos, os excluídos e os invisibilizados. Uma Igreja que contempla o céu aberto precisa abrir suas portas; uma sociedade que afirma defender a dignidade humana precisa abrir caminhos de justiça; e uma religião que proclama o amor de Deus não pode organizar sua existência em torno do desprezo, da exclusão ou da violência. O céu aberto em Cristo torna-se, portanto, uma convocação para abrir a história à misericórdia, à justiça e à dignidade, porque o Deus que vê Natanael também nos chama a enxergar aqueles que a sociedade prefere manter invisíveis.

A memória de São Bartolomeu, tradicionalmente identificado com Natanael, e a dolorosa lembrança do massacre ocorrido em seu dia litúrgico exigem, portanto, uma conversão profunda, porque, de um lado, está o discípulo que supera o preconceito e aceita ver e, de outro, está uma história que revela até onde a humanidade pode chegar quando transforma a diferença em motivo de perseguição e eliminação. Entre a figueira e o céu aberto encontra-se a escolha humana: podemos permanecer presos às nossas certezas, construindo inimigos e reproduzindo a lógica da violência, ou podemos caminhar ao encontro de Cristo e permitir que ele desmascare a falsidade existente em nós. Que São Bartolomeu nos recorde que a verdadeira fé não tem medo da verdade, que Natanael nos ensine a rever nossos preconceitos, que Filipe nos ensine a evangelizar sem dominar e que a Noite de São Bartolomeu nos impeça de esquecer o preço humano da religião quando ela se alia ao ódio e ao poder; que os profetas nos devolvam a paixão pela justiça e que Jesus de Nazaré, precisamente aquele de quem alguns duvidavam que pudesse sair algo bom, continue desmentindo nossas classificações e abrindo nossos olhos. O mundo continua cheio de Nazares desprezadas, de figueiras sob as quais pessoas esperam, sofrem, pensam e procuram sentido, e de céus aparentemente fechados pela violência, pela fome e pelo medo, mas o Evangelho proclama outra realidade: Cristo vê, Cristo chama, Cristo reúne e Cristo abre. Quem verdadeiramente o encontra não pode continuar vivendo como antes, porque a fé madura não é aquela que constrói muros mais altos em nome de Deus, mas aquela que, sem abandonar a verdade, recusa a falsidade; sem abandonar a justiça, recusa a crueldade; e, sem abandonar sua própria identidade, reconhece no outro uma vida que nenhuma religião, ideologia ou poder tem o direito de eliminar. “Vem e vê” continua sendo a resposta cristã ao preconceito, ao medo e à manipulação religiosa, mas o convite só alcança sua plenitude quando, depois de ver, nos deixamos transformar. Talvez a maior conversão de Natanael tenha sido descobrir que Deus estava justamente onde ele imaginava que nada de bom poderia existir, e talvez nossa maior conversão comece quando deixamos de perguntar quem merece ser visto e aprendemos, finalmente, a olhar o mundo com os olhos daquele que viu Natanael debaixo da figueira e abriu sobre a humanidade o céu da misericórdia, da verdade, da justiça e da paz.

Pois, a  verdadeira fé não pergunta de onde o outro veio para decidir se ele merece ser visto; aprende a olhar o outro com os olhos de Cristo.

DNonato - Teólogo do Cotidiano