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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Da Bomba no Quartel ao Banco Master passando pela facada e o desastre presidencial: O Filme

O Cavalo Negro, o Banco Master e o Apocalipse em Câmera Lenta
Crônica de DNonato - Graduado em História 

Alguns filmes nascem clássicos. Outros nascem cult. Outros já nascem processo judicial com trilha sonora. E existe uma categoria ainda mais rara: o filme que nasce meme antes mesmo da estreia. “Dark Horse”, o épico internacional sobre Bolsonaro, pertence exatamente a essa categoria sagrada do desastre cinematográfico brasileiro. Porque tudo nele parece concebido não para contar uma história, mas para convencer o público de que aquilo é “importante”. Título em inglês. Diretor norte-americano. Pôster escuro. Trilha grave. Drone sobre Brasília ao pôr do sol. Câmera lenta até em cena de gente entrando no carro. Tudo precisa parecer, internacional  até o constrangimento ganha legenda. Existe um tipo muito específico de brasileiro deslumbrado que acredita que basta colocar nome em inglês para transformar delírio em sofisticação. O golpe vira “plot”. O cercadinho vira “grassroots movement”. O fanatismo vira “patriot movement”. A fake news vira “alternative narrative”. Só esqueceram de traduzir a realidade.

E a realidade brasileira tem uma crueldade que nenhum roteirista consegue superar. Enquanto tentam vender Bolsonaro como “azarão perseguido”, o país acompanha investigações, joias sauditas, cartão de vacina, mensagens apagadas, minuta golpista, reuniões conspiratórias, operações da Polícia Federal e aquele permanente cheiro de fumaça institucional pairando sobre Brasília como incenso de apocalipse tropical. E no meio disso tudo explode o roteiro paralelo: Flávio Bolsonaro negociando cifras cinematográficas com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Reportagens recentes apontam pedidos de cerca de R$ 134 milhões para financiar “Dark Horse”, incluindo áudios e mensagens divulgados pela imprensa.

 Com mais  R$ 100 milhões  da prefeitura  de São  Paulo o orçamento  supostamente  a  R$ 234 milhões. Duzentos e trinta e quatro milhões de reais. Meu irmão… isso já não é orçamento de filme. Isso é valor que faz produtor brasileiro ter vertigem espiritual. E aí começa a parte mais engraçada da tragédia: o cinema brasileiro inteiro olhou para isso como quem vê alguém chegando de helicóptero numa pelada de bairro.

No Brasil  teve orçamento de filme: 

  •  estimaco em cerca de R$ 16 milhões e virou fenômeno cultural nacional.
  •   teve filme orçamento aproximado de R$ 26 milhões e se transformou numa das maiores bilheterias da história do cinema brasileiro. 
  • teve custo em torno de R$ 18 milhões em valores da época e virou referência mundial indicada ao Oscar. 
  • custou muito menos que isso e levou o cinema brasileiro ao topo do prestígio internacional.  citado recentemente como símbolo da retomada internacional do cinema brasileiro
 Também teve orçamento muito inferior ao “Dark Horse”.
Aí você olha para R$ 234 milhões e percebe que o Cavalo Negro praticamente custaria:
  •  — quatorze Tropa de Elite,
  • — treze Cidade de Deus,
  • — vários Ainda Estou Aqui,

 E talvez dinheiro suficiente para financiar metade da cinematografia brasileira contemporânea e ainda sobrar para comprar drone patriótico em câmera lenta, CGI de bandeira tremulando e trilha sonora épica narrada por coach nacionalista. aí vem a comparação mais cruel de todas: , um dos filmes religiosos mais famosos do planeta, custou cerca de R$ 150 milhões em valores aproximados atuais. Ou seja: o sofrimento inteiro de Jesus nas telas, chicotada, cruz, Roma, multidão, figurino épico, tempestade e ressurreição cinematográfica saíram mais baratos do que o orçamento patriótico tropical do Cavalo Negro.

Nem  precisou disso tudo para ganhar Oscar.

Nem , que humilhou Hollywood inteira com crítica social de verdade.

Nem , que virou clássico mundial praticamente na raça.

Nem muito filme da DC conseguiu justificar orçamento tão delirante sem pelo menos entregar explosão digital, céu destruído, três dimensões paralelas e cidade explodindo no terceiro ato..Aliás, talvez estejam guardando isso para o final do filme: Brasília em CGI, nuvens escuras, trilha dramática, Bolsonaro olhando para o horizonte enquanto toca violoncelo triste e Flávio surge numa sala escura negociando milhões como se fosse personagem secundário de  misturado com executivo da .

Porque “Dark Horse” parece acreditar que quanto maior o orçamento, mais fácil fica transformar WhatsApp em mitologia nacional. E a pergunta começa a ecoar na cabeça do brasileiro médio: “Que filme é esse, meu Deus?” Porque R$ 234 milhões é valor que faz até produtor de Hollywood perguntar se estão gravando um épico político ou comprando um pequeno país. E ainda aparecem relatos sobre cerca de R$ 100 milhões ligados a contratos da produtora com a Prefeitura de São Paulo, tudo cercado por investigação, suspeitas e manchetes que parecem roteiro descartado de série sobre corrupção premium..No Brasil, quando alguém fala “não teve dinheiro público”, automaticamente metade da população segura a carteira e a outra metade procura o extrato. Porque ninguém dá dinheiro de graça para ninguém. Ninguém. Ainda mais cifras capazes de financiar filme, campanha, série, spin-off e até universo cinematográfico patriótico completo. Nem Hollywood acredita em investidor tão apaixonado assim por cinebiografia política. Imaginar um banqueiro largando R$ 234 milhões sorrindo e dizendo “não quero nada em troca, é só porque acredito muito na arte” é uma cena que até roteirista bêbado cortaria por falta de realismo.

E agora surgem informações de que o filme começaria justamente mostrando o desligamento de Bolsonaro do Exército. Aí vem a pergunta inevitável: Será que vão contar a história inteira? 

Porque toda cinebiografia patriótica adora transformar punição disciplinar em “perseguição ideológica”. O problema é que a realidade histórica é teimosa. Afinal, existe todo o episódio envolvendo acusações relacionadas ao plano “Beco Sem Saída”, publicado pela revista Veja nos anos 1980, no qual Bolsonaro foi investigado por suspeita de participação em um plano de explosões em unidades militares como forma de pressionar por reajustes salariais. Depois houve absolvição no Superior Tribunal Militar por insuficiência de provas quanto à autoria direta do plano, mas o caso virou uma das histórias mais controversas de sua trajetória militar.

Agora imagine essa cena no filme. Vai ter trilha dramática? Chuva caindo? Oficial olhando pela janela? Bolsonaro caminhando lentamente pelo quartel enquanto toca música de mártir injustiçado? Porque dependendo do roteirista, daqui a pouco vão filmar investigação militar como se fosse perseguição ao protagonista rebelde de . Só falta colocar um coronel gritando em câmera lenta:

“Ele era bom demais para este sistema!”

Quando na prática o público brasileiro provavelmente vai ficar pensando:

“Peraí… o filme vai romantizar até suspeita de bomba em quartel?”

E o mais surreal: enquanto o roteiro tenta construir um supervilão cinematográfico em torno de Adélio, a realidade atual dele parece muito menos Hollywood e muito mais burocracia penal brasileira. Mas no imaginário épico do filme provavelmente vão tratá-lo como se fosse mistura de terrorista internacional, vilão de HQ e antagonista metafísico enviado pelas forças do mal para interromper a “missão histórica” do protagonista. Porque nenhum épico político ruim resiste à tentação de criar um inimigo quase mítico. Então dá para imaginar Adélio aparecendo no roteiro como uma mistura de Barba Negra com agente secreto internacional de baixo orçamento, filmado em câmera escura, respirando pesado, cercado de sombras, enquanto a trilha toca como se  tivesse sido reescrito por administrador de grupo patriótico no Telegram. Em algum momento certamente alguém vai sugerir que ele apareça surgindo lentamente na chuva, igual vilão de filme da DC, enquanto Bolsonaro olha para frente como mártir cinematográfico da pátria.

E aí o roteiro entra naquele terreno perigoso em que cinebiografia deixa de ser narrativa histórica e vira tentativa de canonização política com orçamento premium. Porque o filme não quer apenas contar fatos. Quer fabricar mitologia. Quer criar aura messiânica. Quer transformar episódio político em batalha espiritual com elenco internacional, fotografia sombria e trilha de fim dos tempos. É praticamente um universo expandido do bolsonarismo cinematográfico. Hoje é “Dark Horse”. Amanhã vem spin-off do cercadinho, série do cartão de vacina e documentário dramático sobre mensagens apagadas.

Mas nada, absolutamente nada, supera o casting. Chamaram justamente o ator que interpretou Jesus em  para viver Bolsonaro. Aquele mesmo ator que tomou um raio durante as filmagens, deslocou o ombro, sangrou de verdade, enfrentou tempestades e suportou um sofrimento cinematográfico tão absurdo que parecia maldição veterotestamentária em IMAX. Na época parecia apenas dedicação artística. Hoje parece treinamento espiritual antecipado. Era como se o universo estivesse avisando: “Meu filho… guarda essa experiência. Um dia você vai precisar interpretar algo muito mais difícil.” Porque uma coisa é interpretar o Cristo carregando o peso simbólico da humanidade. Outra é interpretar um personagem que transforma live de WhatsApp em pronunciamento messiânico e motociata em liturgia nacionalista. Da cruz ao cercadinho. Do Calvário à live. Do Evangelho ao algoritmo. Da via-sacra ao via-Zap. O homem que representou aquele que carregava o mundo nas costas agora precisa carregar um roteiro que talvez nem mil milagres consigam ressuscitar.

Dizem que o filme quer mostrar “o homem por trás do mito”. Mas o mito já virou corrente de Telegram narrada por tio aposentado com foto da bandeira no perfil. E aí entra o verdadeiro protagonista simbólico da história: o Cavalo Negro. Tentam vender o título como metáfora do “azarão improvável”, mas olhando direito o que aparece é outra coisa. O Cavalo Negro surge quase como criatura apocalíptica do bolsonarismo tardio: relincha soberania, tropeça em investigação, derruba cerca narrativa, escorrega em contradição e segue cansado tentando manter pose de puro-sangue patriótico enquanto afunda no próprio barro ideológico. É um cavalo suado de desfile cívico fracassado. Entra em cena ao som de trombetas épicas, mas transmite energia de carro de som parado em posto de gasolina vendendo adesivo patriótico e água mineral quente.

E o roteirista segue deslumbrado pela própria fantasia. Em algum momento da produção certamente existiu um assistente de direção dizendo: “Mais emoção nessa cena da live! Bolsonaro ainda não parece perseguido o suficiente!” E alguém deve ter respondido: “Coloca mais câmera lenta. O público confunde lentidão com profundidade.” Porque esse tipo de produção acredita sinceramente que drone substitui roteiro. O sujeito fala do filme como se estivesse escrevendo . Cita Hollywood, fala em “linguagem universal”, quer iluminação dramática, silêncio contemplativo e atmosfera histórica, mas entrega algo entre especial patriótico de TV aberta, vídeo motivacional de coach nacionalista, documentário financiado por empresário que posta frase em latim no Instagram e PowerPoint ideológico com orçamento internacional.

Existe ainda o problema central de toda tentativa de transformar político em messias: cedo ou tarde o roteiro começa a exigir milagres. E milagres costumam desaparecer misteriosamente quando entram auditorias, extratos, investigações, quebras de sigilo, mensagens recuperadas e depoimentos à Polícia Federal. A verdade é que o cinema tenta construir epopeia, mas a realidade brasileira destrói qualquer heroísmo porque sempre aparece alguém apagando mensagem, negando reunião, culpando assessor, pedindo PIX ou dizendo: “Não lembro.”

No fim, “Dark Horse” talvez seja apenas isso: um esforço cinematográfico gigantesco para vender decadência política como jornada heroica. Só que existe um problema fatal quando se tenta filmar um mito em pleno colapso narrativo: a realidade invade o set sem pedir autorização e rouba todas as cenas. A luz do cinema se apaga. E você entende que não é para criar atmosfera dramática. É apenas para ver se, no escuro, o desastre parece menor. Quando a sessão termina, sobra somente o som da pipoca esmagada no chão e aquela sensação melancólica de quem percebeu tarde demais que não assistiu a um épico. Assistiu a um PowerPoint patriótico em câmera lenta tentando cavalgar um delírio político até Hollywood.

E talvez o verdadeiro “Dark Horse” nunca tenha sido o azarão. Talvez tenha sido o próprio cinema tentando transformar caos nacional em lenda internacional.

O protagonista  esta preso por ato contra da democracia   condenado a 27  anos de prisão  e foi preso  em  22 de novembro e foi condenado em 25 de novembro, hoje  está  cumprindo prisão domiciliar. 

domingo, 23 de novembro de 2025

Do Banheiro do Quartel à Tornozeleira Danificada: O Mito Desmitificado

 

Há coisas no Brasil que parecem roteiro de sátira política, mas que insistem em se apresentar como realidade nua, crua e às vezes até mal diagramada. É como se o país tivesse um contrato vitalício com o surrealismo e, de vez em quando, resolvesse entregar temporadas especiais, spin-offs inesperados e episódios bônus que ninguém pediu, mas que a nação assiste porque, afinal, é isso ou acompanhar novela das nove. A prisão de Jair Messias Bolsonaro — na modalidade jurídica que for, preventiva, domiciliar ou “recolhido com tornozeleira em posição fetal” — entra direto nessa galeria de cenas que o Brasil contempla com aquele misto de cansaço, alívio e a inevitável sobrancelha arqueada de “não é possível que esse homem fez isso mesmo”. E, para alguém que se vendeu como guardião da lei e da ordem, tudo fica ainda mais saboroso quando lembramos que essa relação dele com regras sempre foi, digamos… tumultuada, com a mesma estabilidade de um guarda-chuva em vendaval ou de uma Kombi sem freio descendo a Serra das Araras.

Lá atrás, quando ainda vestia verde-oliva e fazia continência torta, Bolsonaro já dava sinais de que o Exército não seria exatamente seu lar definitivo. Em 1988, viveu seu pequeno momento “preso”, detido após envolvimento num plano quase pastelão: cogitou explodir bombas em quartéis para pressionar por reajuste salarial. Lula foi preso por organizar greves de trabalhadores; Bolsonaro, por querer explodir banheiro de quartel. Um defendia direitos sociais; o outro defendia o direito de fazer barulho. A comparação histórica é tão absurda que parece piada pronta — e, como toda boa piada, sobra para o capitão o papel mais constrangedor, aquele personagem que acha que está num filme de ação, mas que, na verdade, foi escalado para o elenco de Os Trapalhões Perdem a Linha.

E,  não foi uma detenção qualquer. O julgamento militar registrou insubordinação, comportamento inadequado, temperamento explosivo (literalmente) e incompatibilidade com a hierarquia. Em vez de subir na carreira, Bolsonaro desceu a rampa do quartel expulso, devolvido ao mundo como quem devolve à loja um produto que veio com defeito. O Exército não puniu um gênio incompreendido; apenas liberou espaço no alojamento e suspirou em alívio coletivo. Ele não saiu como mártir — saiu como alívio. E, como sabemos, nada é mais eloquente do que o silêncio agradecido de uma instituição inteira.

Corta para o presente, e o destino — esse roteirista perverso que trabalha sem dó, sem pausa e aparentemente sob influência de substâncias literárias — decide criar uma sequência tardia desse enredo infantil mal contado. A prisão preventiva — que não é pena, castigo, retaliação, nem a vingança de um juiz mal-humorado — existe para evitar riscos enquanto o processo anda. Exige indícios de autoria (fumus delicti) e perigo concreto derivado da liberdade do investigado (periculum libertatis). Ou seja: nada a ver com perseguição ideológica; tudo a ver com o comportamento do investigado. E Bolsonaro, nesse quesito, é um funcionário exemplar da autossabotagem. Ele entrega material o suficiente para a Justiça encher três pendrives, dois HDs externos e ainda sobrar espaço para um documentário. E, mais uma vez, Bolsonaro ajuda. Parece até que treina para isso. Tentou adulterar a tornozeleira eletrônica num esquema que faria vergonha até em mecânico de esquina sem alvará. O ex-presidente que prometia ser o xerife da nação virou o vilão patético do episódio, flagrado tentando enganar justamente o dispositivo que lhe permitia estar em casa vendo TV e comendo pão com leite condensado. É de uma ironia tão fina que poderia entrar no Porta dos Fundos sem ajustes. Um homem que repetiu exaustivamente que “bandido bom é bandido morto” agora tenta sobreviver como bandido que não consegue nem derreter uma tornozeleira sem queimar a própria panturrilha. Quem diria que o destino teria um senso de humor tão ácido?

Lula,  o fantasma incômodo permanente no inconsciente do bolsonarismo. Porque essa turma, que passou anos berrando “Lula ladrão, Lula preso, Lula na Papuda”, agora precisa se contentar com o plot twist mais humilhante da política recente: Lula saiu inocentado, voltou, se elegeu, governa e recebe líderes mundiais; Bolsonaro tenta burlar tornozeleira com ferro de solda emprestado. Lula enfrentou o sistema; Bolsonaro enfrentou um monitor eletrônico e perdeu. Lula atravessou a história como quem volta de um exílio; Bolsonaro virou subtrama de comédia pastelão. Um é reconhecido internacionalmente; o outro tenta explicar por que sua tornozeleira parece ter passado por oficina de funilaria clandestina. Há diferenças que nem o algoritmo mais fiel do Telegram consegue apagar.

A narrativa do bolsonarismo, antes tão confiante, derrete igual cola quente no sol. O “mito” agora é réu com tornozeleira adulterada. O “paladino da moralidade” agora responde por fraude rudimentar que nem adolescente de 14 anos tentaria com medo da mãe descobrir. E o homem que gritava aos quatro ventos “bandido bom é bandido morto” agora torce para que a frase não seja interpretada literalmente, porque se for, a autodefinição é automática. A vida tem dessas ironias que nem Aristófanes, no auge, teria coragem de escrever.

O Brasil, que assistiu à prisão de Lula com tensão, debates internacionais, júris morais e editoriais infindáveis, agora assiste à prisão de Bolsonaro com um suspiro do tipo: “Finalmente o enredo fez sentido.” A sensação é de que o sujeito cavou o próprio buraco com a persistência de quem faz lives diárias, mas não lê nem bula de remédio. Lula saiu maior do cárcere; Bolsonaro sai menor da tornozeleira. Lula deu a volta completa; Bolsonaro trocou a volta por curto-circuito artesanal. Lula voltou ao poder; Bolsonaro tenta voltar da própria trapalhada. Se fosse corrida, Lula completou a maratona; Bolsonaro se embananou ao tentar amarrar o cadarço.

E enquanto isso, a democracia respira. Não porque Lula venceu e Bolsonaro perdeu — mas porque a lei, às vezes, funciona. Lula foi preso por mobilizar trabalhadores; Bolsonaro por tentar dobrar um equipamento eletrônico que nem o estagiário da Polícia Civil teria coragem de mexer. Lula voltou; Bolsonaro, por enquanto, tenta voltar do próprio fiasco. A vida política brasileira sabe criar personagens, mas só alguns sobrevivem ao teste do tempo — e à prova da inteligência. Enquanto seus seguidores choram, gravam vídeos tremendo o celular, fazem promessas, convocam vigílias e tentam racionalizar o irracional, a crônica nacional sorri. Porque no fundo — no fundo mesmo — a verdade mais dolorosa para o bolsonarismo é simples, direta e inevitável: não é perseguição. É consequência. E a lei, quando funciona, não pergunta quem é mito, quem tem fã clube ou quem faz motociata. Ela simplesmente age. Mesmo que doa. Mesmo que destrua narrativas. Mesmo que transforme quem se achava herói em figura permanente de meme.

E se ainda faltava um detalhe final, aqui está: no balanço geral, a culpa é dos filhos, claro — cada um com sua parcela de caos administrativo, seu conselho torto e sua live criminosa. Mas também é de quem emprestou o ferro de solda, protagonista involuntário desta ópera cômica da decadência. Se existe justiça poética, esse ferro deveria depor como testemunha ocular da burrice. Se existe ironia divina, o capitão deveria ser lembrado eternamente como o homem que tentou driblar a Justiça e perdeu para uma tornozeleira.

Porque, no fim, bandido bom não é bandido morto; bandido bom é bandido preso, monitorado, recolhido… e proibido de chegar perto de qualquer ferramenta elétrica.

E, no fim do episódio, quando o Brasil inteiro já está de pijama, rindo ou revirando os olhos, sobra aquela conclusão que ninguém pediu, mas que o destino entregou com a pontaria de um humorista cruel: a prisão do capitão está doente. Precisando de repouso, hidratação, olhar no horizonte e talvez até um chá de camomila institucional. Porque, convenhamos, prisão preventiva é como febre democrática — aparece quando o corpo político detecta uma infecção grave. E Bolsonaro, coitado, já está acostumado com esse tipo de diagnóstico: sempre que a lei aperta, ele descobre sintomas, apresenta atestados, pede descanso e declara publicamente que está “abalado”.

Mas é curioso: para disputar eleição, para comandar um país, para fazer motociata, para imitar gente agonizando por falta de ar ou para receitar cloroquina ao mundo inteiro, ele tinha “histórico de atleta”. Pulmão de aço, moral de titânio, coluna de granito. Agora, diante de uma tornozeleira e de um mandado judicial, o histórico de atleta vira histórico de atleta que não passou no TAF da honestidade. A saúde política do ex-presidente está tão debilitada que qualquer medida cautelar vira UTI moral — e, para a vida pública, ele está clinicamente inapto desde 1988, quando confundiu reivindicação salarial com explosão de banheiro de quartel.

Se depender do currículo, Bolsonaro tem mesmo histórico de atleta: atleta especializado em salto triplo — salta regras, salta leis e salta para a primeira oportunidade de se vitimizar. Um verdadeiro velocista moral, fugindo sempre do próprio rastro. Só faltava agora pedir aposentadoria por invalidez democrática.

Mas, olhando bem, talvez seja isso que a história está tentando dizer: a prisão dele não está doente — está apenas em plena forma. E, ironicamente, é o capitão que não aguenta mais uma volta na pista da legalidade. Porque para presidente ele tinha histórico de atleta; para enfrentar a Justiça, aparentemente, não tem nem o histórico de quem sabe apertar um botão de tornozeleira sem buscar um ferro de solda.

Para fechar essa ópera tragicômica que o Brasil insiste em encenar, fica o recado que não veio de live, nem de gabinete paralelo, nem de coach patriótico de internet. Veio de mais alto — não daquele “acima de tudo” falsificado em slogan de campanha, mas do Deus real, o que não se deixa sequestrar por ideologias atravessadas, nem por delírios messiânicos de quem confunde fé com fake news. E Deus mandou informar que está acima de tudo, sim — mas acima de tudo isso que enlouquece o país: acima da histeria digital, acima das manipulações baratas, acima dessa fábrica tóxica de mentiras que transformou meia dúzia de frases feitas em dogma e transformou um capitão em caricatura. Deus está acima até dessa loucura ideológica que ainda tenta sobreviver à base de corrente de WhatsApp, fanatismo histérico e notícia inventada em porões de ressentimento. Porque, no fim, o divino não se dobra a tornozeleira adulterada, nem a rota de fuga mal planejada, nem ao mito rachado pela própria incoerência. E se existe uma ordem que permanece, mesmo quando tudo parece entrar em curto-circuito, é esta: a verdade, cedo ou tarde, se impõe. Mesmo que doa. Mesmo que derrube ídolos. Mesmo que desmascare o que nunca passou de encenação. E, diante dela, não há fake news que resista, nem solda que conserte, nem narrativa que esconda o óbvio: mito desmitificado, caso encerrado.

Prof: DNonato - De ressaca  na preventiva, disposto  a beber mais na  definitiva