domingo, 22 de fevereiro de 2026

Um breve olhar sobre Mateus 25,31-46

O Evangelho de Mateus 25,31-46 é proclamado na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, encerrando o Ano Litúrgico, e também na Segunda-feira da 1ª Semana da Quaresma. A Igreja o coloca nesses dois momentos decisivos porque ele revela o horizonte último da história e, ao mesmo tempo, o critério concreto da conversão diária. No fim do ano, recorda que todo poder será julgado; no início da Quaresma, adverte que a penitência sem justiça é ilusão espiritual.

A cena do Filho do Homem que vem em glória retoma Daniel 7,13-14, onde aquele “como um filho de homem” recebe domínio após a queda dos impérios violentos. O trono evoca os Salmos que proclamam Deus juiz justo, como o Salmo 96. Não se trata de espetáculo apocalíptico, mas da revelação da verdade. O Catecismo da Igreja Católica ensina que o Juízo Final manifestará as consequências de todo bem praticado e de toda omissão consentida. A história não é absurda nem neutra; ela caminha para a manifestação plena da justiça divina. O discurso não surge isolado. Ele é o ápice de Mateus 24 e 25, onde Jesus fala da vigilância, da fidelidade do servo prudente, das virgens que mantêm o azeite, dos talentos que devem frutificar. A escatologia mateana não estimula fuga do mundo, mas responsabilidade. Lucas 12,48 recorda que a quem muito foi dado, muito será pedido. O tempo presente é espaço de decisão.

A separação entre ovelhas e cabritos ecoa Ezequiel 34, onde Deus denuncia pastores que exploram o rebanho e promete julgar entre animal e animal. Amós 5 rejeita liturgias vazias que ignoram o direito. Isaías 58 declara que o jejum agradável a Deus é repartir o pão com o faminto. Mateus 25 é a síntese dessa tradição profética. O culto que não se traduz em misericórdia é desmascarado.

O critério do julgamento surpreende pela simplicidade concreta. Não são mencionadas visões, êxtases ou acumulação de méritos religiosos. O centro está nas seis obras de misericórdia corporais, que a tradição da Igreja consolidou a partir deste texto e que o Catecismo recorda explicitamente. Elas são expressão histórica do amor.

  1. Dar de comer a quem tem fome é mais que gesto assistencial; é reconhecimento da dignidade. Isaías 58 e Provérbios 22 já apontavam que a justiça começa no pão partilhado. Em um mundo capaz de produzir abundância e ainda assim marcado pela fome estrutural, essa obra torna-se denúncia profética. A Doutrina Social da Igreja, desde Rerum Novarum até Fratelli Tutti, afirma a destinação universal dos bens. O pão acumulado enquanto outros passam fome contradiz o Reino preparado desde a fundação do mundo.
  2. Dar de beber a quem tem sede evoca o Deus que faz jorrar água da rocha em Êxodo 17. A água, símbolo de vida e também do Espírito em João 7, torna-se hoje objeto de disputa econômica e exclusão. Laudato Si’ denuncia a negação de acesso à água potável como violação grave da dignidade humana. Saciar a sede é participar da obra criadora que sustenta a vida.
  3. Acolher o estrangeiro remete a Levítico 19,34. Israel devia amar o estrangeiro porque conheceu a experiência do exílio. Em tempos de migrações forçadas, muros ideológicos e nacionalismos excludentes, esta obra revela o coração do Evangelho. Fratelli Tutti insiste na cultura do encontro e na fraternidade universal. O Cristo que julga identifica-se com o migrante rejeitado.
  4. Vestir o nu recorda Gênesis 3, quando Deus cobre a fragilidade humana. A nudez simboliza vulnerabilidade social. São Basílio Magno ensinava que a roupa guardada no armário pertence ao pobre. Gaudium et Spes afirma que tudo o que fere a dignidade humana clama ao céu. Restituir dignidade é gesto profundamente teológico.
  5. Visitar os doentes encontra eco na prática constante de Jesus que curava enfermos e se deixava tocar por eles. Em Marcos 6, Ele se compadece da multidão. Salvifici Doloris recorda que o sofrimento humano, unido a Cristo, adquire sentido redentor, mas jamais dispensa o cuidado concreto. A compaixão cristã não romantiza a dor; ela se inclina sobre ela.
  6. Visitar os presos evoca o Salmo 146 e a própria experiência apostólica narrada em Atos. No mundo antigo, o preso dependia da visita para sobreviver. Hoje, diante de sistemas penitenciários marcados por superlotação e violência, essa obra assume caráter profético. O Compêndio da Doutrina Social da Igreja insiste que a pena deve respeitar a dignidade humana. Nenhuma pessoa perde sua condição de imagem de Deus.

A identificação de Jesus com os pequenos é o ponto culminante. Tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes. Aqui ressoa João 1,14, o Verbo que se fez carne, e Filipenses 2, o Cristo que se esvazia. Em Atos 9, o Ressuscitado pergunta a Saulo por que o persegue. Tocar o irmão é tocar Cristo. 1 João 4,20 declara que quem não ama o irmão que vê não pode amar a Deus que não vê. A mística cristã desemboca inevitavelmente na ética do cuidado.

Essa perspectiva confronta frontalmente a teologia da prosperidade. 1 Timóteo 6 adverte contra o amor ao dinheiro. Mateus 6 afirma que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Lucas 12 narra a parábola do rico insensato que acumula para si e perde a vida. Evangelii Gaudium denuncia uma economia que mata e transforma o mercado em ídolo. O juízo de Mateus 25 não mede sucesso econômico, mas misericórdia praticada. A espiritualidade individualista vivida em nosso tempo é questionada. Mateus 22 une amor a Deus e ao próximo. Tiago 2 proclama que a fé sem obras é morta. 1 Coríntios 11 denuncia a Eucaristia celebrada sem partilha. Ecclesia de Eucharistia recorda que o sacramento do altar exige coerência com o amor aos pobres. Não há adoração verdadeira que não se traduza em justiça.

O fogo eterno mencionado no texto dialoga com Isaías 66 e Apocalipse 20. O Catecismo ensina que o inferno é consequência da recusa definitiva ao amor. Deus quer que todos se salvem, como afirma 1 Timóteo 2,4, mas respeita a liberdade humana. Psicologicamente, o fechamento radical ao outro já constitui experiência de isolamento destrutivo. O juízo não é vingança divina, é revelação da verdade das escolhas.

A herança do Reino preparado desde a fundação do mundo remete a Gênesis 1, onde o ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus. Negar dignidade ao irmão é obscurecer essa imagem. Romanos 8 fala da criação que geme aguardando redenção. O juízo final está ligado à nova criação anunciada em Apocalipse 21, onde Deus enxuga toda lágrima. A justiça última não é destruição, mas restauração da comunhão.

No cenário contemporâneo de desigualdade estrutural, migração forçada, encarceramento em massa e indiferença social, este Evangelho ressoa como voz profética. Isaías 1 convoca a aprender a fazer o bem. Jeremias 22 afirma que defender o pobre é conhecer o Senhor. Conhecer Deus não é acumular discursos religiosos, mas participar de sua misericórdia histórica.

Efésios 2 recorda que somos salvos pela graça para as boas obras que Deus preparou. A graça não anula a responsabilidade; ela a fundamenta. No entardecer da história, o Rei que foi crucificado revelará que cada gesto de misericórdia construiu eternidade. O trono do Juiz está misteriosamente presente nas periferias do mundo. A pergunta final não será sobre poder, prestígio ou êxtase espiritual, mas sobre o amor que se fez pão, água, acolhida, roupa, visita e presença. O Reino já começa onde a misericórdia venceu a indiferença...

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

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