quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Um breve olhar nos evangelhos do dia de Natal Lucas 2,15-20 e João 1, 1-18


O Natal, tal como a Igreja o celebra, não é um evento comprimido em um instante devocional, nem um simples aniversário litúrgico marcado por afetos ou símbolos domesticados. Trata-se de um mistério que se desdobra no tempo, na história e na consciência, exigindo da comunidade um caminho progressivo de assimilação. Desde os primeiros séculos, a tradição cristã percebeu que a encarnação não poderia ser capturada por um único gesto litúrgico nem por uma única linguagem teológica. Por isso, a liturgia romana estruturou o Natal em três missas — na noite, na aurora e durante o dia — não como repetição piedosa, mas como verdadeira pedagogia espiritual e hermenêutica. A Igreja conduz o povo da escuridão à luz, do acontecimento histórico ao seu significado último, da narrativa situada à contemplação do mistério que sustenta toda a criação. É nesse itinerário que se inserem Lucas 2,15-20, proclamado na Missa da Aurora, e João 1,1-18, proclamado na Missa do Dia. Não são textos concorrentes nem redundantes, mas profundamente complementares: falam do mesmo Cristo a partir de registros distintos, um desde a história marginal e concreta, outro desde o princípio eterno; um desde a terra pisada pelos pobres, outro desde o horizonte cósmico onde tudo foi criado.

Lucas situa o nascimento de Jesus no chão da vida real, longe de qualquer idealização. Pastores que vigiam seus rebanhos durante a noite escutam um anúncio que rompe a lógica da sobrevivência cotidiana. Esses pastores não são figuras românticas, mas sujeitos socialmente desprezados, considerados impuros, suspeitos de práticas ilícitas, excluídos da plena participação religiosa. A escolha lucana é teologicamente decisiva. O anúncio do nascimento do Salvador não começa no Templo, nem no palácio de Herodes, nem no círculo dos escribas ou sacerdotes, mas na periferia social e religiosa. Lucas se insere, assim, na grande tradição profética de Israel, na qual Deus escuta o clamor dos oprimidos (cf. Ex 3,7), escolhe o menor e não o mais forte (cf. 1Sm 16,7) e derruba os poderosos de seus tronos (cf. Lc 1,52). O Natal, desde sua origem, carrega uma inversão de valores que desestabiliza qualquer teologia alinhada ao poder.

O movimento dos pastores — ouvir, ir, ver e anunciar — constitui um itinerário discipular completo. Eles escutam a Palavra, colocam-se a caminho sem garantias, reconhecem o sinal precisamente na fragilidade e tornam-se anunciadores. Não recebem mandato institucional, não passam por mediações clericais, não reivindicam autoridade: anunciam porque viram e ouviram. Esse dinamismo dialoga com toda a estrutura dos evangelhos sinóticos. Em Marcos, o discipulado começa com um chamado que exige deixar redes, barcos e seguranças (cf. Mc 1,16-20). Em Mateus, os magos também se colocam a caminho, vindos de fora, estrangeiros à fé de Israel, guiados não por instituições religiosas, mas por um sinal frágil no céu (cf. Mt 2,1-12). Em ambos os casos, o encontro com Cristo provoca deslocamento, risco e transformação. O Natal, portanto, não é repouso espiritual nem confirmação de certezas; é desinstalação.

A manjedoura, sinal oferecido aos pastores, possui densidade simbólica extraordinária. Lugar destinado ao alimento dos animais, torna-se o primeiro espaço onde o Verbo se deixa encontrar. Não se trata de um detalhe pitoresco, mas de uma linguagem teológica. Ali se anuncia, de forma silenciosa, que aquele menino será alimento para a vida do mundo, antecipando a lógica eucarística que atravessará todo o Evangelho (cf. Jo 6,35). Lucas não suaviza a humilhação do cenário; assume-a como revelação. Esse dado encontra eco em Mateus, quando o recém-nascido se torna ameaça ao poder estabelecido, provocando a violência de Herodes (cf. Mt 2,13-18). O mesmo menino que não encontra lugar na hospedaria (cf. Lc 2,7) será mais tarde aquele que não terá onde reclinar a cabeça (cf. Lc 9,58). A encarnação já contém o conflito que marcará toda a vida pública de Jesus. À luz de Marcos, esse caminho conduz inevitavelmente à cruz: o Cristo que nasce fora dos muros morrerá fora da cidade (cf. Hb 13,12).

Maria, que guarda e medita tudo no coração, aparece como figura hermenêutica central. Enquanto os pastores exteriorizam o anúncio, ela interioriza o mistério. Sua atitude dialoga profundamente com a tradição sapiencial de Israel, que valoriza a escuta, a memória e o discernimento (cf. Pr 2,1-5). Maria não transforma o acontecimento em espetáculo nem em consumo religioso. Psicologicamente, sua postura revela maturidade espiritual: ela integra experiência, emoção e sentido, sem ansiedade por respostas imediatas. Sociologicamente, sua atitude é resistência silenciosa a uma cultura que transforma tudo em produto, inclusive a fé. Maria não consome o mistério; deixa-se lentamente configurar por ele.

Quando a liturgia do dia proclama João 1,1-18, o horizonte se amplia radicalmente. O menino visto pelos pastores é agora confessado como o Logos eterno, aquele que estava no princípio, junto de Deus, e por quem tudo foi feito. João não narra o nascimento; interpreta-o. Seu prólogo dialoga com a filosofia helenista, sobretudo com a noção de Logos como princípio racional do cosmos, mas a subverte de modo decisivo: o Logos não permanece ideia, nem conceito, nem energia abstrata. Ele se faz carne, isto é, assume a condição humana frágil, histórica, vulnerável. Essa afirmação tem consequências antropológicas, sociais e políticas profundas. Deus não se revela fora da história nem acima dela, mas dentro dela, assumindo seus limites e contradições.

A expressão “armou sua tenda entre nós” retoma a experiência do Êxodo, quando a presença divina acompanhava o povo no deserto (cf. Ex 33,7-11). Agora, essa presença não está mais confinada a um espaço sagrado controlado por uma elite sacerdotal. Ela habita a carne humana. Isso relativiza qualquer sacralização de estruturas eclesiais e fundamenta uma crítica radical ao clericalismo. Se Deus escolhe habitar na carne, nenhuma mediação institucional pode se absolutizar. O acesso a Deus não passa pelo poder religioso, mas pela humanidade assumida. A encarnação desautoriza toda lógica de apropriação do sagrado.

João explicita também o conflito: a luz brilha nas trevas, e as trevas não a acolheram. O Natal não inaugura um conto de fadas, mas uma história marcada por resistência e rejeição. Esse tema atravessa todos os evangelhos. Em Marcos, Jesus é incompreendido inclusive pelos discípulos. Em Mateus, é rejeitado em sua própria terra. Em Lucas, é levado à beira do precipício (cf. Lc 4,29). A rejeição ao Logos não é acidente; é estrutural. Isso desmonta qualquer teologia da prosperidade que promete sucesso automático aos que “recebem Jesus”. Receber o Logos não garante privilégios; inaugura um caminho de filiação que envolve responsabilidade, compromisso e conflito.

Quando João afirma que aos que o acolhem é dado o poder de se tornarem filhos de Deus, não se trata de poder como domínio, mas de capacidade relacional. Ser filho é entrar numa nova lógica de pertencimento e fraternidade. Aqui se rompe definitivamente o individualismo religioso. Ninguém se torna filho sozinho. A filiação é sempre comunitária, como Paulo desenvolverá ao falar da Igreja como corpo (cf. 1Cor 12). A encarnação funda uma antropologia relacional que se opõe frontalmente à fé como mercadoria, orientada para a satisfação individual e o sucesso pessoal.

Os Padres da Igreja compreenderam com clareza essa densidade do mistério. Irineu de Lião falará da recapitulação: em Cristo, toda a humanidade é assumida e curada. Atanásio afirmará que Deus se fez humano para que o humano participasse da vida divina, não como domínio, mas como comunhão. Agostinho insistirá que a humildade da encarnação é o remédio para o orgulho humano. Nenhum deles associa o Natal a triunfo político, riqueza ou poder. Pelo contrário, veem na manjedoura o escândalo que desmonta as pretensões humanas e revela a verdadeira glória de Deus.

A crítica profética que emerge desses textos é inevitável. Toda teologia do domínio, que associa Deus ao poder político ou econômico, trai o Natal. Toda teologia da prosperidade, que transforma a bênção em recompensa financeira, ignora a lógica da encarnação. Toda fé individualista, que reduz o mistério a conforto emocional, esvazia sua força transformadora. E todo clericalismo que se coloca como dono do sagrado esquece que os primeiros anunciadores foram pastores sem autorização institucional.

Os documentos do Magistério retomam e aprofundam essa leitura. A Gaudium et Spes afirma que o mistério do ser humano só se esclarece à luz do Verbo encarnado (GS 22) e insiste que a fé cristã tem implicações históricas, sociais e políticas. A Evangelii Gaudium denuncia uma economia que mata e uma fé reduzida a consumo espiritual. A Fratelli Tutti afirma que ninguém se salva sozinho e que a fraternidade é o horizonte ético que brota diretamente da encarnação.

Celebrar Lucas 2,15-20 na aurora e João 1,1-18 durante o dia é, portanto, entrar num processo de conversão do olhar. Da noite ao dia, da periferia ao princípio, da manjedoura ao Logos, a Igreja confessa que Deus se revela na fragilidade e chama a humanidade a uma nova forma de existir. O Natal, assim compreendido, não anestesia consciências, não legitima opressões, não alimenta ilusões triunfalistas. Ele inaugura um caminho exigente, profundamente humano e radicalmente profético, no qual a glória de Deus não se manifesta no domínio, mas na vida que insiste em nascer mesmo em meio às trevas.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

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