Historicamente, o Natal nunca foi um evento confortável. O relato bíblico insiste em lembrar que Deus escolheu o improviso, a periferia, a ausência de lugar. “Não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7). Belém não era centro religioso nem político; era margem. Sociologicamente, a encarnação já nasce como denúncia: Deus entra na história sem privilégios, fora do sistema, longe das garantias do Império Romano, que prometia “paz” à custa da opressão e da exclusão. O nascimento de Jesus acontece sob ocupação militar, censos injustos e deslocamentos forçados — temas que atravessam séculos e continuam atuais.
Mas nós fizemos do Natal o seu avesso. Transformamos o nascimento de um menino pobre em uma celebração de abundância seletiva. Criamos um Papai Noel que só presenteia os bons, os comportados, os produtivos, os que “merecem”. Um Natal meritocrático, moralista, excludente. Não é difícil perceber o conflito: o Deus que nasce na manjedoura veio para todos; o bom velhinho, não. Ele julga, classifica, pune e recompensa. Deus se doa sem planilha de desempenho.
Esse imaginário dialoga perfeitamente com o neoliberalismo contemporâneo e com uma meritocracia religiosa que o legitima. O mercado ensina que só merece viver bem quem produz, quem vence, quem se adapta. Parte da religião repete o mesmo discurso, batizando o sucesso como bênção e o fracasso como falta de fé. O desempregado vira culpado, a mãe solo endividada vira irresponsável, o trabalhador informal que não “prosperou” é acusado de não ter rezado o suficiente. Assim, a graça é substituída pelo desempenho espiritual, a salvação vira recompensa, e Deus passa a funcionar como gerente moral do sistema. O Evangelho, porém, nunca foi sobre vencer — sempre foi sobre levantar quem caiu.
Essa pedagogia não é neutra. Ela educa o olhar e endurece o coração. Ensina desde cedo que amor precisa ser merecido, que dignidade é prêmio, que quem falha deve ser esquecido. É a mesma gramática que sustenta políticas que culpam os pobres por sua pobreza, que criminalizam a miséria, que tratam direitos como favores. O Papai Noel seletivo é catequese social: acostuma crianças e adultos a aceitarem desigualdades como naturais e a chamarem exclusão de justiça.
O mercado, claro, agradece. Ele precisa de um Natal que premie quem pode comprar e silencie quem não pode. O shopping vira templo, a vitrine vira altar, o cartão de crédito assume o lugar que antes era da esperança. A ceia cresce, mas a mesa encurta. Come-se muito, partilha-se pouco. A promessa já não é “paz na terra”, mas “últimas unidades”. A salvação é parcelada em doze vezes sem juros — com juros ocultos na alma.
Infelizmente o natal hoje tornou-se, no resultado é previsível: um Natal que amplia desigualdades e legitima exclusões. Para quem tem renda, é festa; para quem falta, é constrangimento. Para quem mora em condomínios iluminados, sobra luz; para quem vive nas periferias, falta energia, segurança, transporte. Para quem está acompanhado, confraternização; para quem está só, o espelho cruel da ausência. Não por acaso, este também é um tempo em que a depressão se intensifica. O Natal virou uma encenação coletiva de felicidade obrigatória, enquanto o Estado se ausenta, as políticas públicas falham e a solidariedade é terceirizada para campanhas pontuais.
A Bíblia, porém, insiste em outro roteiro. O Menino da manjedoura cresce e se reconhece no faminto, no doente, no preso, no estrangeiro. O presépio se desloca. Ele deixa de ser objeto decorativo e se transforma em critério de julgamento da história. Onde há exclusão, ali falta Natal. Onde há acúmulo obsceno, ali o Evangelho foi traído. Onde a fé serve para justificar privilégios, o presépio já foi desmontado — ainda que reste a palha.
É preciso fazer uma pausa aqui. Respirar. Silenciar.
Lembro de um Natal vivido longe das mesas fartas, no setor de emergência de um hospital público. Não havia ceia nem música ambiente. Havia corpos feridos, crianças machucadas, mães chorando, trabalhadores exaustos, corredores lotados, improviso institucionalizado. Ali, o Natal não foi discurso — foi urgência. E, estranhamente, foi ali que ele aconteceu. Não nas luzes, mas nas mãos que tentavam salvar. Não nos presentes, mas na presença. A manjedoura reaparecia onde o Estado falhava e a humanidade insistia.
Historicamente, o cristianismo nasceu assim: em casas simples, em comunidades que repartiam o pão, em gente que sabia que fé não se mede por recompensa, mas por partilha. “Eles tinham tudo em comum” (At 2,44). Não havia bons o suficiente para merecer; havia gente suficiente para ser amada. O Evangelho nunca foi aliado do acúmulo, mas da comunhão. Nunca foi cúmplice da indiferença, mas sua denúncia.
Talvez o nosso maior problema contemporâneo seja este: desaprendemos a linguagem do dom. Preferimos o prêmio ao presente, o mérito à graça, o Papai Noel ao Menino Deus. Um sustenta a lógica da competição; o outro inaugura a lógica do cuidado. Um combina perfeitamente com discursos autoritários, moralistas e excludentes; o outro sempre incomoda o poder, porque insiste em amar sem condição.
Por isso, todo ano o Natal volta — e nem sempre acontece. Ele passa pelas ruas iluminadas, mas para em lugares que não aparecem nas propagandas. Ele insiste em nascer onde a vida está frágil, onde a dignidade foi ferida, onde ainda é possível amar sem barganha, resistir sem ódio e partilhar sem holofotes.
Talvez o verdadeiro escândalo do Natal não seja Deus ter nascido homem,
mas ter nascido sem exigir que alguém fosse bom o bastante para isso.
E enquanto continuarmos trocando graça por consumo, presença por presente, encarnação por espetáculo, o Natal seguirá chegando…
mas a manjedoura continuará vazia,
à espera de quem ainda tenha coragem de abrir a porta.
DNonato – Teólogo do Cotidiano


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