- Quando a dúvida toca o mistério: Tomé e o Deus ferido
- Quem nunca duvidou?
- Quem nunca precisou de um sinal concreto para crer?
A cena de hoje é recorte do 2⁰ domingo de Páscoa quando a comunidade esta reunida e Tomé não estava presente conforme a nossa reflexão de João 20, 19-31 que retrata a presença de Jesus após a ressurreição
Como Tomé, somos todos peregrinos da fé, buscando o rosto ferido do Deus que se faz carne e que não se esconde na abstração. No oitavo dia depois da Páscoa, quando a comunidade ainda se refazia do espanto pascal, Jesus aparece novamente entre os discípulos (Jo 20,26). Esse “oitavo dia” é mais que uma data; é o símbolo da nova criação, do tempo em que Deus recomeça sua obra e inaugura a eternidade no meio da história (cf. 2Cor 5,17). É ali, neste novo tempo, que Tomé entra em cena.
Tomé, ou Dídimo, “gêmeo” em grego (Jo 11,16), não era apenas um apóstolo comum, mas um homem marcado pela busca intensa. Provavelmente pescador ou artesão, como muitos discípulos de Jesus na Galileia, tornou-se missionário da Síria, Pérsia e Índia, onde o testemunho de sua fé permanece vivo. Sua morte martirial na Índia, transpassado por lanças, sela uma vida que precisou tocar para crer. Ele é o patrono daqueles que lutam com a dúvida, daqueles que enxergam com o coração e daqueles que constroem pontes — arquitetos de fé e humanidade.
No Evangelho de João, ver é importante, mas Tomé quer mais: ele deseja tocar, porque o toque é convite à intimidade, é a comunhão que revela o mistério de um Deus vulnerável. Jesus não se apresenta como um ser intocável, mas oferece suas feridas (Jo 20,27). É o Deus que permite ser tocado, que se deixa ferir para curar. O toque de Tomé é como o raio de sol que atravessa a nuvem densa da dúvida, iluminando as feridas que, paradoxalmente, são portas para a vida.
Quando Tomé declara: “Se eu não vir... e não tocar... não acreditarei” (Jo 20,25), ele não está fechando a porta, mas abrindo um espaço sagrado para o encontro. Sua dúvida não é ausência de fé, mas seu grito mais profundo. Como clamava o salmista: “Até quando, Senhor, te esquecerás de mim?” (Sl 13,2), assim Tomé expressa a angústia da ausência e a esperança de um encontro que confirme a vida. Jesus, longe de rejeitá-lo, acolhe sua busca. Como o Bom Pastor que deixa as noventa e nove ovelhas para buscar a perdida (Lc 15,4), Ele aparece especialmente para Tomé e lhe oferece exatamente o que pede: o toque das feridas vivas. Essa experiência culmina na confissão que é o coração teológico do Evangelho de João: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28). Reconhecer Jesus não apesar, mas por causa das feridas, é a mais alta expressão da fé encarnada. Tomé nos ensina que a fé nasce na carne ferida do outro, no reconhecimento do Deus que sofre conosco, que não se esconde da dor do mundo.
Essa fé é sempre comunitária. Tomé não está sozinho em sua dúvida; ele é a voz da Igreja que sofre, da comunidade que espera e precisa de sinais. A fé acontece no encontro com o outro, na memória viva do Ressuscitado entre os irmãos. Como afirma a carta aos Hebreus, “a fé é a certeza daquilo que se espera, a convicção de realidades que não se veem” (Hb 11,1). Por isso, crer sem ver não é crer sem corpo, mas é crer na presença que habita a comunidade, que se revela nos gestos concretos de amor. A fé também deve dialogar com o grito ético dos que hoje, como Tomé, questionam a ausência de Deus diante do sofrimento. O ateísmo existencial é muitas vezes um clamor por justiça e sentido. Tomé nos lembra que o Deus verdadeiro não é o Deus das fórmulas vazias, mas o Deus das feridas abertas, do amor encarnado, da cruz. Ele é o Deus que se deixa tocar, que se faz carne sofredora e redentora.
Ao tocar as chagas do Ressuscitado, Tomé antecipa o gesto litúrgico da Eucaristia — a entrega do corpo pelo amor (Lc 22,19). Crer é reconhecer Cristo nas feridas dos pobres, nos rostos marginalizados, nos clamores de justiça e paz. Essa fé não é fuga da realidade, mas compromisso profético e ético.
Estamos prontos para tocar as feridas do mundo e, nelas, reconhecer o Senhor vivo?
A experiência de Tomé continua ecoando na história da Igreja e na vida de cada discípulo. A fé cristã não nos afasta das dores humanas; ao contrário, conduz-nos ao encontro delas. O Ressuscitado conserva as marcas da cruz porque o amor verdadeiro não apaga a história do sofrimento, mas a transforma em fonte de vida. Por isso, quem deseja encontrar Cristo não pode ignorar as feridas da humanidade: os pobres, os excluídos, os refugiados, as vítimas da violência, da fome, das guerras, do racismo, das injustiças sociais e de toda forma de exclusão. É nesse corpo ferido da humanidade que o Senhor continua a esperar por nossas mãos, nossa compaixão e nosso compromisso.nA fé de Tomé nos desafia a sermos corajosos e compassivos, não espectadores da dor, mas presença solidária junto aos que sofrem. A comunidade cristã é chamada a ser o lugar onde as dúvidas não são condenadas, mas acolhidas; onde as perguntas encontram escuta; onde o testemunho dos irmãos fortalece os que vacilam; e onde o Espírito Santo continua conduzindo o povo de Deus pelos caminhos da verdade. A Igreja somente será sinal do Reino quando deixar de oferecer respostas prontas para caminhar ao lado daqueles que procuram sentido para a vida, revelando, por meio do amor concreto, o rosto misericordioso de Cristo. A verdadeira fé não nasce do isolamento nem da certeza arrogante de quem pensa possuir todas as respostas. Ela floresce na comunhão, na escuta da Palavra, na fração do pão, na oração e no serviço. Crer é abrir-se continuamente ao Mistério que é Amor, permitindo que Deus transforme nossas próprias feridas em lugares de misericórdia. Assim como Tomé passou da dúvida à mais alta profissão de fé do Evangelho — "Meu Senhor e meu Deus!" (Jo 20,28) — também nós somos convidados a fazer da fé um compromisso ético e profético: tocar o Cristo nas chagas do mundo, defender a dignidade humana, promover a justiça, construir a paz e testemunhar a esperança onde tantos experimentam o desespero.
Como recorda Santo Agostinho: "Se compreendes, não é Deus" (Sermo 117,3,5). O Mistério que nos salva jamais poderá ser reduzido às categorias da razão ou aprisionado em fórmulas religiosas. Deus sempre nos ultrapassa, mas escolheu revelar-se na fragilidade da carne, na vulnerabilidade da cruz e nas feridas gloriosas do Ressuscitado. Por isso, toda espiritualidade que se afasta do sofrimento humano corre o risco de fabricar um deus à nossa imagem, distante do Evangelho de Jesus Cristo. Ao contemplarmos Tomé ajoelhado diante do Ressuscitado, compreendemos que a maior prova da presença de Deus não é a ausência de cicatrizes, mas a vitória do amor sobre elas. As chagas de Cristo permanecem abertas como memória permanente de um Deus que jamais abandona seus filhos. Elas se tornam a porta pela qual entramos no mistério da redenção e aprendemos que nenhuma dor, nenhuma queda e nenhuma noite são definitivas para quem caminha com o Senhor. É por isso que a promessa do Apocalipse permanece viva: "Eis que ele vem com as nuvens, e todo olho o verá, até mesmo os que o transpassaram" (Ap 1,7). Até esse dia, somos enviados a tornar visível o Cristo Ressuscitado por meio de uma fé encarnada, comprometida com a justiça, alimentada pela esperança e transbordante de caridade. Que, como Tomé, tenhamos a coragem de transformar nossas dúvidas em encontro, nosso encontro em testemunho e nosso testemunho em serviço, para que o mundo possa reconhecer, através de nossas vidas, o Senhor vivo que continua caminhando entre nós.
- Que o Deus da esperança os encha de toda alegria e paz, por sua confiança nele (Rm 15,13).
O testemunho de Tomé permanece atual porque revela que Deus não exige uma fé cega, mas convida a uma confiança que amadurece no encontro com Cristo vivo. As feridas gloriosas do Ressuscitado recordam que a dor não tem a última palavra e que o amor é mais forte que a morte. Também hoje, Jesus continua dizendo: "Não sejas incrédulo, mas fiel" (Jo 20,27), não como uma repreensão, mas como um convite a ultrapassar o medo, o ceticismo e a indiferença. A verdadeira profissão de fé — "Meu Senhor e meu Deus!" (Jo 20,28) — não termina nos lábios; transforma-se em compromisso com os crucificados da história, com a justiça, a misericórdia e a paz. Que, fortalecidos pelo Espírito Santo, sejamos uma comunidade que acolhe as dúvidas, testemunha a esperança e reconhece o Cristo vivo nas chagas do mundo, vivendo uma fé encarnada, profética e libertadora até o dia em que o veremos face a face.
DNonato – Teólogo do Cotidiano

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