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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Mestres do Universo: quando a modernização esquece a alma de He-Man

Mestres do Universo não fracassou  nos  cinemas  por modernizar He-Man e na Prime todos podem  conferir  a aberração  que  ficou a adaptação, sendo a obra mais  vista,  a quem diga que é  um sucesso, posso dizer que é  a curiosidade  pra ver uma  franquia  violada.  Sim,  toda grande obra precisa dialogar com novas gerações, e personagens que atravessam décadas só permanecem vivos porque conseguem encontrar novas formas de serem apresentados ao público, o Justiceiro da Marvel  saiu da Guerra do Vietnã para a guerra do golfo  e  depois do Iraque se adaptando para  novas gerações, a DC vive de rebult para  novas  gerações, mas  o problema de uma adaptação não está em mudar elementos da narrativa, atualizar conceitos ou propor novas interpretações. O problema aparece quando a mudança parece nascer menos de uma compreensão profunda da obra original e mais de uma necessidade de se afastar dela. Em diversos momentos, o filme transmite a sensação de estar desconfortável com a própria franquia original que carrega no título, como se precisasse demonstrar que os elementos responsáveis por transformar He-Man em um fenômeno mundial seriam ultrapassados, infantis ou inadequados para o público atual. A impressão deixada é a de uma produção que abriu um antigo baú da Mattel, retirou de dentro dele os nomes dos personagens, a Espada do Poder, o Castelo de Grayskull, Esqueleto, Teela, Mentor, Pacato e toda a iconografia de Eternia, mas decidiu construir uma história que pouco conversa com o espírito que tornou esses elementos memoráveis. É como reformar uma antiga catedral preservando apenas a fachada externa, enquanto todo o interior é substituído por outra construção. Quem observa de longe reconhece o prédio, mas quem entra percebe que a arquitetura original desapareceu. O filme utiliza a marca He-Man, mas em muitos momentos parece esquecer aquilo que fez esse personagem permanecer relevante durante mais de quarenta anos.

Quando a série animada de 1983 chegou à televisão, He-Man e os Mestres do Universo conquistou uma geração não apenas pelos músculos exagerados, pelos combates contra Esqueleto ou pelos brinquedos produzidos pela Mattel. A força da franquia estava na construção de um herói que entendia o poder como responsabilidade. He-Man era forte, mas sua força nunca era apresentada como um fim em si mesma. Ele não era admirado simplesmente porque podia derrotar inimigos ou levantar grandes pesos, mas porque escolhia usar sua capacidade para proteger os outros. A verdadeira grandeza do personagem estava no caráter. Essa é a essência que muitas adaptações parecem esquecer. He-Man nunca foi apenas um homem musculoso segurando uma espada. Ele era a representação de um princípio heroico clássico: aquele que recebe poder precisa demonstrar dignidade para utilizá-lo. Adam poderia usar a Espada do Poder para conquistar, dominar ou buscar reconhecimento, mas escolhia servir. A transformação não era uma recompensa de vaidade; era uma convocação para uma missão.

A própria estrutura do personagem carregava esse simbolismo. O Príncipe Adam, na animação original, não era simplesmente um homem fraco que precisava virar um guerreiro poderoso. Ele era alguém que escondia uma responsabilidade enorme. Sua aparência descontraída, sua postura mais leve e seu comportamento brincalhão serviam como contraste com o peso da missão que carregava. Quando levantava a espada e dizia "Pelos poderes de Grayskull!", não acontecia apenas uma mudança física. Sua voz mudava, sua postura mudava, sua presença mudava. O príncipe revelava o herói que existia dentro dele e ganhava um.brozeado. A transformação era, portanto, um rito de passagem. Era o momento em que Adam deixava de lado a insegurança e assumia publicamente aquilo que sempre esteve dentro dele: coragem, liderança e disposição para proteger Eternia. A Espada do Poder não criava o herói. Ela apenas revelava alguém que já possuía os valores necessários para empunhá-la. 

No novo filme, essa dimensão simbólica é enfraquecida. Adam e He-Man parecem praticamente a mesma pessoa. A transformação deixa de representar uma mudança profunda de identidade e passa a funcionar principalmente como uma alteração visual. A diferença entre o príncipe e o campeão de Eternia, que era um dos elementos mais interessantes da animação, perde impacto. Quando não existe uma verdadeira passagem entre quem Adam é e quem He-Man representa, a transformação deixa de ser um momento de descoberta e se torna apenas uma cena de ação. O mesmo problema aparece em Pacato. Na série clássica, o pequeno tigre verde não era apenas um animal de estimação engraçado. Ele possuía uma função simbólica dentro da narrativa. Pacato era medroso, inseguro e muitas vezes fugia diante do perigo, mas ao se transformar no Gato Guerreiro demonstrava que coragem não significa nunca sentir medo. Coragem significa enfrentar o medo quando existe uma razão maior para lutar, assim como Adam precisava assumir o chamado de He-Man, Pacato também precisava superar suas limitações e essa mensagem era simples, mas poderosa. A transformação não apagava aquilo que eles eram; revelava uma força que já existia dentro deles. No novo filme, esse significado praticamente desaparece. Pacato surge mais como uma referência para agradar aos fãs do que como um personagem com uma trajetória própria. O elemento que antes simbolizava crescimento e superação passa a ser apenas uma lembrança daquilo que a franquia já foi.

Curiosamente, algumas produções recentes compreenderam melhor essa relação entre passado e presente. Masters of the Universe: Revelation / Mestres do Universo: Salvando Eternia  e Masters of the Universe: Revolution / Mestres do Universo: A Revolução  propuseram mudanças importantes, exploraram novos conflitos e apresentaram uma abordagem mais moderna, mas mantiveram a compreensão de que He-Man não é definido apenas pela força física. Essas versões entenderam que por trás da armadura existe Adam, e que por trás da espada existe uma responsabilidade. Elas conseguiram atualizar a narrativa sem abandonar a alma do personagem. Esse é o ponto central da discussão. Modernizar não significa rejeitar. Uma boa adaptação não precisa tratar a obra anterior como algo vergonhoso para justificar sua própria existência. Grandes personagens não sobrevivem porque negam sua história, mas porque encontram novas formas de expressar aquilo que sempre foram.

O problema de Mestres do Universo de 2026 é justamente essa sensação de afastamento. Em vez de olhar para o passado e perguntar "o que fez esse personagem conquistar tantas pessoas?", o filme parece perguntar "como podemos transformar esse personagem em algo diferente?". E essa diferença muda tudo. He-Man poderia ser atualizado. Poderia enfrentar novos dilemas. Poderia ter uma abordagem mais complexa. Mas jamais deveria perder aquilo que sempre o tornou especial: a ideia de que o maior poder não está na força que alguém possui, mas na responsabilidade de como escolhe utilizá-la.O distanciamento em relação à identidade original também aparece na maneira como o filme trata o próprio nome "He-Man". Em vez de compreender que aquele nome, apesar de carregar uma estética típica dos anos 1980, se tornou um símbolo reconhecido mundialmente, o roteiro parece enxergá-lo como algo que precisa ser ironizado. A sensação transmitida é que a produção quer demonstrar ao público que entende como aquele universo pode parecer exagerado ou antigo, como se fosse necessário fazer uma espécie de pedido de desculpas antes de apresentar a própria história. O problema é que existe uma contradição nessa escolha. Se o nome, a estética e os símbolos de He-Man são tratados como ultrapassados, por que justamente esses elementos são utilizados para vender o filme e atrair os fãs que cresceram com a franquia?  Essa relação ambígua com o passado também atinge o público que acompanhou a animação original. Muitos fãs não esperavam uma simples repetição da série de 1983. Eles sabiam que uma nova produção precisaria encontrar sua própria linguagem. O que muitos desejavam era perceber que aqueles personagens foram compreendidos, que suas características fundamentais foram respeitadas e que a nostalgia não seria usada apenas como uma ferramenta de marketing. O problema surge quando a obra parece utilizar a memória afetiva dos fãs como porta de entrada, mas depois trata parte dessa memória como algo que precisa ser superado ou ridicularizado.

Para quem cresceu acompanhando He-Man, a questão não é apenas ver novamente uma espada, um castelo ou um personagem conhecido. Existe uma relação emocional construída ao longo do tempo. A série fazia parte de uma época em que histórias de aventura também transmitiam valores. As batalhas contra Esqueleto eram importantes, mas também eram importantes as mensagens sobre amizade, coragem, responsabilidade e respeito. O público não se conectou apenas com um guerreiro poderoso; conectou-se com um ideal de heroísmo. É justamente por isso que a descaracterização dos personagens causa tanto estranhamento. O problema não é apresentar novas versões de Adam, Teela ou Mentor. O problema é modificar aquilo que sustentava suas identidades.

Na animação clássica, Adam nunca foi um personagem sem importância esperando se tornar alguém relevante apenas quando segurasse a espada. Essa interpretação reduz a complexidade do protagonista. O Príncipe Adam era alguém que vivia dividido entre duas realidades. De um lado, era herdeiro do trono de Eternia; de outro, carregava secretamente a responsabilidade de ser seu maior defensor. Sua aparente descontração escondia uma escolha difícil: possuir um poder extraordinário e, ainda assim, permanecer humilde. A grandeza de Adam estava justamente nisso. Ele poderia revelar sua identidade e receber reconhecimento, mas preferia permanecer anônimo porque entendia que o heroísmo não deveria depender de aplausos,  He-Man não lutava para ser admirado. Lutava porque era necessário.

No filme, entretanto, essa construção perde força. Em muitos momentos, Adam parece funcionar mais como alguém que acompanha os acontecimentos do que como o personagem que deveria conduzi-los. Em vez de representar o centro moral da narrativa, ele frequentemente parece ser colocado em posição de inferioridade diante dos demais personagens. O resultado é uma inversão curiosa: o personagem que deveria inspirar os outros passa boa parte da história precisando ser validado por eles. Essa escolha prejudica o próprio conceito de He-Man. Um protagonista não precisa ser perfeito, nem invencível, nem incapaz de errar. Grandes heróis possuem dúvidas e fragilidades. O problema é quando suas características fundamentais são enfraquecidas a ponto de perderem aquilo que os tornava especiais. Humanizar um personagem é diferente de esvaziá-lo.

O mesmo acontece com Teela. Na série dos anos 1980, ela era uma das personagens femininas mais importantes da animação. Era uma guerreira habilidosa, inteligente, corajosa e independente, capitã da guarda, em tempo que  ainda havia certa de dificuldade de ter mulher.no comando, não que essa realidade ja tenha mudado em 100%.  Sua força nunca dependia de diminuir os homens ao seu redor. Ela podia ser uma grande combatente e, ao mesmo tempo, respeitar Mentor, valorizar sua história e reconhecer a importância de Adam. Esse equilíbrio era uma das qualidades da obra original. A presença de personagens femininas fortes não era construída como uma disputa permanente contra personagens masculinos. Cada um possuía seu papel, suas virtudes e suas limitações. A narrativa entendia que diferentes personagens poderiam ser poderosos de maneiras diferentes.

No filme, a questão não é Teela ser forte,  isso ela sempre foi. O problema está na maneira como essa força é construída,  em diversos momentos, o roteiro parece valorizar a personagem através da diminuição de Adam. Sua inteligência é destacada enquanto o protagonista é colocado como alguém menos preparado; sua autoridade cresce enquanto a figura de He-Man é enfraquecida. Uma boa representação não precisa transformar um personagem em obstáculo para que outro brilhe. Personagens fortes não precisam existir às custas da fragilidade de outros. A própria animação clássica já demonstrava que era possível apresentar mulheres determinadas e homens heroicos sem criar uma relação de competição entre eles.

Outro caso emblemático é Mentor, ou Man-At-Arms. Na série original, ele era uma das figuras mais respeitadas de Eternia. Mais do que um inventor ou guerreiro, era um conselheiro, estrategista e uma referência paterna para Adam e Teela. Sua importância não vinha apenas de suas habilidades técnicas, mas de sua sabedoria e equilíbrio. Mentor representava uma figura de orientação,  era aquele personagem que transmitia conhecimento, experiência e segurança e em uma franquia construída sobre mestres e aprendizes, ele ocupava um lugar essencial..Por isso, a transformação desse personagem no filme causa tanto impacto,  a nova versão apresenta um Mentor marcado pela decadência e pelo alcoolismo, muito distante da figura honrada que os fãs conheciam. A mudança não apenas altera sua personalidade, mas modifica completamente sua função dentro da narrativa. Também é necessário observar a questão da representação, a escolha de um ator negro para interpretar Mentor não é um problema é até um avanço que merecem ser reconhecido em sociedade onde ao negro é  reservado  alguns papeis secundário. A diversidade de atores dentro de universos tradicionais  enriquecem uma obra e apresentar novas possibilidades,  a questão está na decisão narrativa de associar justamente esse personagem, que historicamente simbolizava sabedoria, liderança e dignidade, a uma imagem de fracasso e dependência de um bêbado. Mesmo que não exista uma intenção consciente de reforçar qualquer estereótipo, escolhas de representação possuem impacto cultural. Um homem  negro  como um bêbado passa um mensagem  indireta ou direta  nada boa,  ele  entra no grupo de  personagens historicamente sub-representados que também merecem ocupar papéis associados à grandeza, à inteligência, à liderança e à nobreza. Mentor sempre foi um personagem definido por sua honra. Retirar essa característica e transforma em um bêbado  significa perder uma parte fundamental de sua identidade.

No universo de He-Man, os mestres sempre tiveram importância porque transmitiam algo às gerações seguintes,  a força não vinha apenas dos músculos de He-Man, mas também do conhecimento de personagens como Mentor. Quando essa dimensão desaparece, Eternia perde uma de suas bases. A descaracterização de personagens também aparece na forma como o filme utiliza Esqueleto, um dos maiores símbolos de Mestres do Universo, na animação clássica, ele era muito mais do que um vilão de aparência assustadora. Sua presença misturava ameaça, inteligência, arrogância e uma dose de humor exagerado que fazia parte do estilo da época. Esqueleto podia ser teatral e até engraçado, mas nunca deixava de representar um perigo real para Eternia. Ele era o oposto de tudo aquilo que He-Man defendia. Enquanto Adam recebia um poder extraordinário e escolhia utilizá-lo para proteger os outros, Esqueleto desejava esse mesmo poder para controlar, dominar e impor sua vontade. Essa oposição era uma das forças centrais da franquia. O conflito entre He-Man e Esqueleto nunca foi apenas uma disputa física entre herói e vilão, era também um confronto entre duas formas de compreender o poder. De um lado, alguém que via a força como responsabilidade; do outro, alguém que via a força como instrumento de superioridade. O vilão funcionava como um alerta sobre aquilo que acontece quando o poder perde qualquer compromisso moral.

No filme, porém, essa dimensão parece enfraquecida. O Esqueleto passa boa parte do tempo mais interessado em comentar e ironizar os elementos da própria franquia do que em funcionar como uma ameaça dentro da história,  o personagem parece consciente de que está dentro de um universo considerado exagerado e, em alguns momentos, age como se a principal função dele fosse fazer observações sobre aquilo que o público já conhece. O problema é que uma obra não precisa destruir seus próprios símbolos para demonstrar que possui consciência sobre eles. O humor pode existir sem transformar os elementos clássicos em motivo de vergonha. O Esqueleto original era divertido justamente porque acreditava em sua própria grandiosidade, ele era exagerado, dramático e cheio de planos absurdos, mas dentro daquele universo tudo fazia sentido.

O novo filme frequentemente confunde desconstrução com profundidade. Existe uma diferença entre reconhecer as características exageradas de uma obra e tratar essas características como algo que precisa ser ridicularizado. A primeira atitude demonstra compreensão; a segunda demonstra distância. Essa questão aparece de forma ainda mais evidente no tratamento dado ao próprio He-Man, o personagem sempre teve uma estética grandiosa, com músculos exagerados, pouca roupa e uma aparência inspirada nos heróis de fantasia dos anos 1970 e 1980. Essa imagem fazia parte da linguagem visual da época, influenciada por artistas como Frank Frazetta, pelas histórias de espada e magia e pela cultura do fisiculturismo e do heavy metal. Era uma fantasia assumidamente exagerada e ninguém olhava para He-Man esperando realismo.

A força daquela estética estava justamente no excesso. Eternia nunca pretendeu ser um mundo comum, era um lugar onde castelos medievais conviviam com tecnologia avançada, onde magia dividia espaço com máquinas futuristas e onde guerreiros enfrentavam criaturas fantásticas e o exagero era parte da identidade.

Por isso, existe uma diferença importante entre reconhecer essa estética e transformá-la em motivo de insinuação ou deboche, em determinado momento, o filme utiliza uma provocação do Esqueleto envolvendo os músculos, a espada e as pernas de He-Man com um duplo sentido sexual bastante evidente,  a cena desnecessária chama atenção não porque exista humor em uma obra de fantasia, mas porque esse tipo de abordagem parece completamente distante do espírito que sempre definiu a franquia.

O desenho original jamais precisou fazer esse tipo de comentário para construir o personagem,  He-Man era um símbolo de força e coragem, não um objeto de piada sobre sua aparência física, a sensualidade ou exagero visual da estética nunca foi o centro da narrativa. O foco estava no heroísmo e transformar um elemento visual clássico em uma provocação sexual acaba deslocando a discussão para um lugar que não acrescenta nada ao personagem,  em vez de aprofundar He-Man, a cena parece apenas brincar com aquilo que sempre foi uma característica superficial da franquia.

Outro ponto que causa frustração é a maneira como os uniformes clássicos são utilizados, durante décadas, os trajes de He-Man, Teela, Esqueleto e dos demais personagens foram parte essencial do reconhecimento visual da marca. Eles não eram apenas roupas; eram símbolos. O uniforme de um herói representa sua identidade, o público reconhece o personagem antes mesmo de ouvir seu nome e quando uma adaptação escolhe esconder esses elementos durante quase toda a narrativa e apresentá-los apenas nos momentos finais, transmite uma mensagem curiosa: como se aquilo que os fãs esperavam ver fosse algo que precisasse ser guardado ou tratado como uma surpresa.  Essa escolha lembra um caminho já percorrido por outras adaptações. Em X-Men (2000), por exemplo, o uniforme amarelo clássico dos quadrinhos era tratado como algo que não funcionaria no cinema. A ideia transmitida era que os elementos tradicionais precisavam ser abandonados para que a obra fosse considerada mais séria. Com o passar dos anos, porém, o próprio público passou a valorizar novamente esses símbolos. O que parecia infantil ou ultrapassado revelou-se parte da identidade dos personagens. O mesmo acontece com Mestres do Universo. O problema não é mudar o visual. Grandes adaptações sempre fazem isso, o problema é tratar o visual original como algo inferior e depois precisar recorrer justamente a ele para recuperar a emoção perdida.

Essa contradição aparece nos momentos finais do filme, quando finalmente surgem os elementos clássicos, a música cresce, a atmosfera muda e a produção parece encontrar aquilo que estava procurando durante toda a sua duração. Por alguns segundos, o público reconhece novamente a energia de He-Man. Isso demonstra algo importante: a força desses elementos não está apenas na nostalgia, existe uma razão pela qual eles permanecem vivos. Eles carregam uma identidade emocional construída ao longo de décadas.

O Castelo de Grayskull, a Espada do Poder, os uniformes, a trilha sonora e o grito de "He-Man" não são apenas referências para agradar antigos fãs,   são símbolos que comunicam imediatamente uma ideia de aventura, coragem e fantasia heroica.

O problema é que o filme parece descobrir essa verdade tarde demais.A maior ironia de Mestres do Universo talvez esteja justamente no fato de que os melhores momentos do filme aparecem quando ele finalmente abandona a tentativa de se afastar da própria origem e decide abraçar aquilo que tornou He-Man um personagem inesquecível. Nos instantes finais, quando os elementos clássicos surgem, a trilha sonora ganha força, as guitarras e os sintetizadores recuperam a atmosfera épica dos anos 1980 e um coral de vozes anuncia "HE-MAN!", acontece algo que a produção deveria ter buscado desde o início.

Por alguns segundos, o filme encontra sua identidade. Não é apenas uma questão de nostalgia. É uma questão de reconhecimento, aquele som, aquela imagem e aquela energia despertam uma memória coletiva construída por uma geração inteira. Não é necessário explicar ao público o significado da Espada do Poder ou do Castelo de Grayskull naquele momento, os símbolos falam por si mesmos. É como se, finalmente, a produção lembrasse quem era o personagem que estava adaptando.

O problema é que essa sensação dura pouco. Logo depois, surgem os créditos, e permanece uma impressão difícil de ignorar: aqueles poucos segundos conseguiram transmitir melhor o espírito de Mestres do Universo do que grande parte das horas anteriores. Essa é talvez a maior frustração de uma adaptação, não é quando ela muda. É quando ela demonstra que conhece o caminho correto, mas escolhe segui-lo apenas no final.

A série animada de 1983 permanece relevante não apenas porque apresentou personagens marcantes ou porque ajudou a vender uma enorme quantidade de brinquedos, ela permaneceu porque entendia que uma aventura infantil também podia carregar valores importantes. Cada episódio terminava com uma pequena reflexão, ensinando lições sobre honestidade, amizade, coragem, responsabilidade e respeito..Para muitas crianças daquela época, He-Man não era apenas alguém que derrotava Esqueleto. Era alguém que mostrava que força e bondade deveriam caminhar juntas. Essa talvez seja a maior diferença entre compreender uma franquia e apenas utilizar sua aparência.

A aparência de He-Man está nos músculos, na espada, no uniforme, no Castelo de Grayskull e nos personagens conhecidos, a essência está no motivo pelo qual ele empunha a espada. O verdadeiro poder de Grayskull nunca esteve simplesmente na capacidade de vencer batalhas. Estava na escolha de usar esse poder para proteger aqueles que não tinham força para se defender e essa ideia é o coração do personagem.

Adam poderia usar sua posição como príncipe para buscar privilégios. Poderia usar sua força para impor sua vontade. Poderia transformar-se em alguém superior aos outros. Mas escolhe o caminho contrário. Ele recebe poder e, justamente por isso, assume uma responsabilidade maior, sendo uma mensagem que continua atual. Em um mundo onde muitas vezes poder é associado a domínio, influência e superioridade, He-Man representava uma ideia diferente: o verdadeiro poder revela o caráter de quem o possui.

Por isso, o problema do filme não está em apresentar um He-Man diferente, personagens clássicos podem e devem ser reinterpretados. O problema está em alterar justamente aquilo que tornava o personagem reconhecível. Uma nova versão pode trazer novos conflitos, novas abordagens e até novos questionamentos. O que ela não pode fazer é esquecer a pergunta fundamental: por que esse personagem conquistou tantas pessoas?

No caso de He-Man, a resposta nunca foi apenas sua força física. Foi sua humanidade,  a sua relação entre Adam e He-Man e a ideia de que alguém comum poderia receber uma grande responsabilidade e escolher fazer o bem.

Foi a amizade entre os Mestres do Universo, a presença de personagens que, apesar de suas diferenças, formavam uma equipe unida por um propósito maior.  Quando uma adaptação abandona esses elementos, ela pode até manter o nome, os rostos e os símbolos, mas perde aquilo que dava sentido a tudo.

Talvez o maior problema de Mestres do Universo seja que ele parece querer convencer o público de que o passado precisava ser deixado para trás, quando a verdadeira força da franquia sempre esteve justamente na capacidade de dialogar com diferentes gerações sem negar suas raízes. He-Man não precisava ser desconstruído para continuar relevante, ele precisava ser compreendido.

O personagem não precisava pedir desculpas por sua origem, não precisava abandonar sua estética e não precisava tratar sua própria história como algo ultrapassado. Ele precisava apenas ser lembrado pelo que sempre foi.

Um herói que descobriu que a maior força não estava em possuir o poder de Grayskull, mas em ter sabedoria para utilizá-lo.  No final, essa continua sendo a grande lição da franquia e a espada pode ser empunhada por muitos. Mas somente aqueles que entendem a responsabilidade que ela representa são dignos de levantá-la.

Esse sempre foi o verdadeiro poder de Grayskull.

DNonato - Quase um Mestre de um Universo 

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