Mostrando postagens com marcador #MemóriaVerdadeJustiça. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #MemóriaVerdadeJustiça. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Ditadura com imprensa livre, congresso funcionando e etc?

Quando os que relativizam a ditadura se dizem perseguidos: a memória que o  Brasil não pode esquecer

Há uma contradição que precisa ser enfrentada com seriedade no debate político brasileiro: pessoas que invocam constantemente a palavra “ditadura” para contestar decisões das instituições democráticas parecem, muitas vezes, esquecer o que significou viver sob uma ditadura de verdade. Quando Flávio e Eduardo Bolsonaro apresentam o Brasil como um país submetido a uma tirania, é necessário perguntar se estão falando de uma experiência concreta de repressão política ou se utilizam a palavra como instrumento de disputa, mobilização de apoiadores e deslegitimação das instituições. A democracia comporta críticas ao Judiciário, ao governo e às decisões das autoridades, mas a crítica perde consistência quando apaga a história, transforma adversários em inimigos e trata qualquer consequência institucional como prova automática de perseguição. Para compreender a diferença entre contestar uma decisão e viver sob um regime autoritário, precisamos recuperar a memória daqueles que conheceram a violência do Estado brasileiro durante a ditadura militar, entre 1964 e 1985, e daqueles que, mesmo sob ameaças, tiveram coragem de denunciar a tortura, a censura e a perseguição aos que lutavam por liberdade e justiça social. Luiz Inácio Lula da Silva foi preso em 1980 eleito em 2026 para o 4⁰ mandato de Presidente, durante a ditadura, em razão de sua atuação na greve dos metalúrgicos do ABC paulista. Sua prisão não deve ser confundida com exílio: Lula foi detido e encarcerado por sua liderança sindical, em um contexto no qual a organização dos trabalhadores era tratada pelas autoridades como ameaça à ordem política e Dilma Rousseff ex-presidente do Brasil, por sua vez, foi presa e submetida a torturas por sua militância contra o regime. Leonel Brizola que foi governador  do Rio de Janeiro  na decada de 80 enfrentou a perseguição política e o exílio. Essas trajetórias são diferentes, mas revelam a disposição da ditadura de restringir a participação política, silenciar a oposição e punir pessoas consideradas inconvenientes ao poder. Não se trata de afirmar que todas as situações históricas são idênticas, tampouco de considerar qualquer político acima de críticas. Trata-se de reconhecer que prisão política, tortura, exílio e supressão de direitos não são expressões retóricas: foram experiências reais, impostas a pessoas que enfrentaram um Estado autoritário.

Essa memória ganha contornos ainda mais concretos quando nos aproximamos da história da Baixada Fluminense e da Diocese de Nova Iguaçu. Sob a atuação pastoral de Dom Adriano Mandarino Hypólito, a Igreja local desenvolveu uma presença importante junto às populações pobres, aos trabalhadores e às comunidades atingidas pela violência e pela desigualdade. Em uma região marcada por carências sociais, conflitos fundiários, violência política e abandono do poder público, setores da Igreja compreenderam que evangelizar não significava permanecer indiferente às condições de vida do povo. A defesa dos direitos humanos, a organização comunitária e a denúncia das violações colocaram agentes pastorais em rota de colisão com interesses poderosos. Essa história é indispensável para compreender que a repressão não se limitou aos grandes centros políticos do país: ela também atingiu comunidades, lideranças religiosas, trabalhadores e pessoas que procuravam construir formas de solidariedade e participação popular. Dom Adriano tornou-se um símbolo dessa resistência. Em setembro  de 1976, foi sequestrado, agredido e abandonado em uma estrada, em uma ação que representou uma grave intimidação contra o bispo e contra a atuação da Igreja de Nova Iguaçu. O ataque não pode ser separado do ambiente de perseguição a religiosos, agentes pastorais e defensores dos direitos humanos que denunciavam a violência e a exclusão social. A mensagem implícita era brutal: quem se colocasse ao lado dos perseguidos também poderia ser perseguido. Ainda assim, Dom Adriano e outras lideranças religiosas não abandonaram a preocupação com a dignidade humana. A experiência da Diocese demonstra que a fé cristã pode tornar-se uma força de resistência quando se recusa a abençoar a injustiça e assume o compromisso de defender aqueles que não encontram proteção nas estruturas de poder. A violência alcançou também o próprio espaço sagrado. Em 20 de dezembro de 1979, uma bomba explodiu sob o altar da Catedral de Santo Antônio de Jacutinga, em Nova Iguaçu. O atentado atingiu um lugar de culto e atingiu, simbolicamente, uma comunidade que havia transformado a defesa dos direitos humanos em parte de sua missão pastoral. O registro do episódio encontra-se documentado no acervo da Diocese de Nova Iguaçu preservado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, que reúne mensagens recebidas por Dom Adriano por ocasião da explosão. Esse documento é importante porque permite recuperar a reação de pessoas e instituições diante de um ataque que não pode ser reduzido a uma lembrança vaga ou a uma disputa de versões. A bomba na catedral permanece como sinal de que, durante a ditadura, a intimidação podia alcançar até os lugares destinados à oração e à reunião da comunidade. Quando a violência invade uma igreja porque sua atuação incomoda interesses políticos, não estamos diante de uma simples divergência: estamos diante de uma ameaça à liberdade religiosa, à participação cidadã e à própria vida democrática.

A história da Diocese, entretanto, não deve ser contada apenas por meio dos episódios mais conhecidos. É necessário recuperar o trabalho das comunidades de base, das pastorais sociais, da Pastoral Operária, da Juventude Operária Católica, dos sindicatos e de tantas pessoas que se organizaram para enfrentar a exploração e o medo. Padres, religiosas, leigos e lideranças comunitárias participaram de iniciativas de conscientização, solidariedade e defesa dos trabalhadores. Essa atuação não significava que toda a Igreja pensasse da mesma maneira, pois havia divergências internas e setores religiosos alinhados ao conservadorismo ou favoráveis ao regime. Significava, porém, que parte importante da comunidade católica reconhecia uma incompatibilidade entre o Evangelho e a perseguição sistemática de seres humanos.

Entre as histórias que a memória da ditadura militar brasileira precisa preservar está a do padre Natanael de Moraes Campos, ligado à Juventude Operária Católica (JOC), e da jovem militante Estrella Dalva Bohadana, ambos submetidos à violência da repressão no antigo 1º Batalhão de Infantaria Blindada (BIB), em Barra Mansa. Preso no início de 1971, padre Natanael foi levado ao quartel, onde sofreu choques elétricos, espancamentos e humilhações. Em uma das cenas mais cruéis, os militares despiram Estrella diante do sacerdote, numa tentativa deliberada de humilhar e destruir a dignidade de ambos. Contudo, diante daquela violência, Estrella afirmou ao padre Natanael que não estava nua, mas vestida de sonhos. Suas palavras, pronunciadas em meio à brutalidade, expressavam uma resistência que os torturadores não conseguiam controlar: podiam expor seu corpo à humilhação, mas não tinham o poder de aprisionar sua consciência, seus ideais e sua esperança de um Brasil mais justo. Estrella sofreu choques elétricos, espancamentos e queimaduras de cigarro e, segundo os relatos sobre sua prisão, perdeu um filho em consequência das agressões. A história dos dois se inscreve na memória do antigo quartel, onde outros presos também sofreram torturas. Em 1972, cerca de quinze soldados foram detidos sob acusação de tráfico de maconha, e quatro morreram em consequência das agressões: Geomar Ribeiro da Silva, Roberto Vicente da Silva, Juarez Monção, conhecido como Virote, e Wanderlei de Oliveira. Décadas depois, esse espaço de sofrimento foi ressignificado com a criação do Museu do Trabalho e dos Direitos Humanos (MTDH), cuja primeira exposição, Corpo-Memória: Uma luta vestida de sonhos, foi inaugurada em 3 de outubro de 2025. Fruto da mobilização de sobreviventes, familiares de vítimas, militantes dos direitos humanos e pesquisadores do Centro de Memória do Sul Fluminense da UFF (CEMESF), o museu transforma o antigo cenário de repressão em lugar de memória, reflexão e compromisso com a verdade.  A memória da repressão também precisa incluir os que foram mortos, desapareceram ou tiveram suas vidas destruídas pela perseguição política. A Comissão Nacional da Verdade identificou 434 mortos e desaparecidos políticos dentro do recorte de investigação estabelecido por seu trabalho, número que não representa a totalidade de todas as pessoas atingidas pela repressão no país. Entre os nomes que marcam essa história estão Rubens Paiva, Vladimir Herzog, Carlos Marighella, Carlos Lamarca, Edson Luís, Manuel Fiel Filho, Santo Dias, Alexandre Vannucchi Leme, Iara Iavelberg e tantos outros. Cada nome corresponde a uma existência concreta, a uma família atingida e a uma história que não pode ser apagada por conveniência ideológica. Rubens Paiva foi preso por agentes do regime em 1971, torturado e morto, e seus restos mortais não foram encontrados. Vladimir Herzog, jornalista, foi morto nas dependências do DOI-CODI de São Paulo em 1975, e a versão oficial que tentou apresentar sua morte como suicídio tornou-se um dos símbolos mais conhecidos da mentira institucional utilizada para encobrir a violência do Estado. Recordar essas vítimas não é alimentar ressentimentos; é reconhecer que a democracia exige verdade, responsabilidade e compromisso para que práticas semelhantes não se repitam.

É nesse contexto que ganha significado a homenagem pública de Jair Bolsonaro ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff, em 17 de abril de 2016. Ao justificar seu voto, Bolsonaro invocou a memória de Ustra e o descreveu como “o pavor de Dilma Rousseff”. Ustra comandou o DOI-CODI de São Paulo durante parte dos anos mais duros da repressão e foi reconhecido judicialmente como torturador. A frase de Bolsonaro não foi uma referência neutra a um personagem militar: ao transformar o medo de uma mulher torturada em elogio, converteu o sofrimento de uma vítima em instrumento de provocação política. É legítimo discutir a história das Forças Armadas e reconhecer a participação de militares em diferentes momentos da vida nacional, mas isso não exige minimizar a tortura nem homenagear quem esteve associado a ela. A tortura não se torna aceitável porque a vítima pertence a uma corrente política rejeitada por quem a pratica, e a dignidade humana não pode depender da preferência ideológica de quem ocupa o poder.

É justamente por isso que a retórica política dos Bolsonaro precisa ser examinada à luz dos fatos. Quando Eduardo Bolsonaro e outros integrantes desse campo político afirmam que o Brasil vive uma ditadura, precisam explicar em que sentido empregam a palavra e demonstrar suas alegações, em vez de utilizá-la como rótulo para toda decisão judicial desfavorável. Democracias podem atravessar crises, cometer erros e produzir decisões contestáveis; por isso existem instrumentos legais de recurso, fiscalização pública, imprensa, oposição política e debate social. Reconhecer a importância dessas garantias não significa defender que autoridades estejam acima da crítica. Significa distinguir o questionamento legítimo de uma decisão da tentativa de desacreditar todo o sistema democrático quando ele contraria determinado grupo. A história ensina que o autoritarismo se fortalece quando a linguagem deixa de descrever a realidade e passa a servir apenas à mobilização emocional, ao culto de líderes e à fabricação de inimigos.

A saída de Flávio Bolsonaro do Brasil, noticiada em 28 de outubro de 2026, acrescentou um novo capítulo a essa contradição política. Segundo informações publicadas pela Agência Brasil e por outros veículos, o senador e sua família atravessaram a fronteira com a Argentina e seguiram viagem em direção aos Estados Unidos, depois de sua derrota eleitoral e em meio à controvérsia sobre o cumprimento de uma ordem judicial relativa à entrega de passaportes. As circunstâncias jurídicas devem ser descritas com precisão, e qualquer responsabilização depende dos procedimentos legais cabíveis. Ainda assim, politicamente, a imagem de um líder que denuncia suposta tirania no Brasil e deixa o país em meio a uma disputa com as autoridades suscita uma pergunta legítima: se acredita que está sendo injustiçado, por que não enfrenta as acusações e utiliza os meios legais disponíveis para provar sua posição? Chamar o episódio de “fuga” expressa uma interpretação política que ganhou força nas notícias e no debate público, mas não substitui a descrição dos fatos nem autoriza antecipar uma condenação criminal. A crítica mais contundente é aquela que se sustenta em informações verificáveis e cobra coerência entre discurso e comportamento.

O contraste entre essa controvérsia contemporânea e a história dos perseguidos pela ditadura não deve servir para estabelecer equivalências automáticas entre pessoas ou períodos. As circunstâncias são diferentes, e a análise responsável precisa reconhecer essas diferenças. Mas a comparação permite evidenciar uma questão essencial: não é coerente invocar a memória de um passado autoritário apenas quando ela favorece a própria narrativa, enquanto se relativiza a tortura, se homenageiam torturadores ou se desqualificam as instituições democráticas sem apresentar provas suficientes. Quem reivindica liberdade precisa defendê-la também para os adversários; quem invoca a Constituição deve aceitar que ela estabelece direitos, deveres e procedimentos; quem fala em perseguição deve apresentar evidências e permitir que os fatos sejam examinados. A democracia não exige silêncio diante do poder, mas exige responsabilidade ao acusá-lo. Também não exige concordância com decisões judiciais, mas pressupõe que a discordância seja exercida por meios legais e com respeito às garantias comuns.

Para os cristãos, essa reflexão possui uma dimensão ainda mais profunda. O Evangelho não pode ser reduzido a um símbolo partidário, nem usado para transformar líderes políticos em figuras intocáveis. Jesus aproximou-se dos pobres, dos doentes, dos marginalizados e daqueles que eram desprezados pelas estruturas religiosas e sociais de seu tempo. Quando afirmou que o amor a Deus está inseparavelmente ligado ao amor ao próximo, estabeleceu um critério que não permite justificar a humilhação, a tortura ou a indiferença diante do sofrimento humano. A tradição profética denunciou o culto que convive com a injustiça, e a mensagem cristã exige que a fé seja demonstrada em obras de misericórdia, serviço e defesa da dignidade. Não basta erguer a Bíblia, rezar em público ou exibir símbolos religiosos se, ao mesmo tempo, se transforma a dor de uma vítima em motivo de escárnio ou se trata a violência estatal como uma ferramenta aceitável contra quem pensa diferente.

A memória de Dom Adriano Hypólito, das comunidades de Nova Iguaçu, dos agentes pastorais perseguidos e das vítimas da ditadura nos obriga, portanto, a olhar para além dos discursos convenientes. A Igreja que denunciou o atentado à catedral e acolheu os atingidos pela violência não estava defendendo uma abstração: estava defendendo pessoas concretas, famílias ameaçadas e o direito de viver sem medo. Sua história recorda que a fé pode ser uma voz profética quando não se submete aos interesses dos poderosos e quando compreende que a dignidade humana não depende de classe social, partido, religião ou posição ideológica. Essa memória pertence à comunidade e à história do país, não a um grupo político específico. Por isso, deve ser preservada com documentos, pesquisa, testemunhos e disposição para reconhecer a complexidade dos acontecimentos sem relativizar os crimes comprovados.

Diante das tentativas de reescrever o passado e das disputas do presente, recordar a ditadura é um dever democrático. Não se trata de impedir críticas ao governo, ao Supremo Tribunal Federal ou a qualquer instituição; trata-se de impedir que a palavra “ditadura” perca seu significado histórico e seja usada como recurso automático para desacreditar decisões desfavoráveis. Tampouco se trata de afirmar que todos os conservadores, todos os eleitores de direita ou todos os cristãos compartilham as mesmas posições. O debate democrático exige distinguir pessoas, ideias e responsabilidades. O que não pode ser relativizado é a dignidade humana, assim como não se pode transformar a tortura em homenagem, o sofrimento em piada ou a memória das vítimas em obstáculo à conveniência política. A história de Nova Iguaçu, a bomba na Catedral de Santo Antônio, a perseguição a Dom Adriano e a memória de tantos brasileiros mostram o preço pago quando o poder tenta calar a consciência crítica. Que essa lembrança nos ajude a reconhecer os riscos do autoritarismo em qualquer campo e a defender, com coragem e coerência, a liberdade, a verdade, a justiça e os direitos humanos. Ditadura nunca mais não é uma frase para ser repetida apenas em cerimônias: é um compromisso diário com a democracia e com a vida.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 


Fontes e referências

TEÓLOGO DO COTIDIANO  -  Origem da Diocese de Nova Iguaçu.” Blog DNonato, 14 nov. 2012.

Diocese de Nova Iguaçu. “Mensagens recebidas por Dom Adriano Hypólito, Bispo de Nova Iguaçu, por ocasião da explosão da bomba na Catedral de Nova Iguaçu.” Documento de dezembro de 1979, preservado no Repositório de Múltiplos Acervos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro: https://rima.ufrrj.br/jspui/handle/20.500.14407/44

Comissão Nacional da Verdade. Relatório Final. Brasília, 2014.

Agência Brasil. “Após derrota eleitoral, Flávio Bolsonaro embarca em voo para os EUA.” 28 out. 2026. https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/geral/audio/2026-10/apos-derrota-eleitoral-flavio-bolsonaro-embarca-em-voo-para-aos-eua