terça-feira, 25 de novembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 21,5-11


No ritmo solene do final do Ano Litúrgico, quando a Igreja nos conduz a contemplar os derradeiros horizontes da história e da vida, este Evangelho ressoa como um chamado que atravessa os séculos e desmonta nossas ilusões. Lucas 21,5-11 é proclamado nesta 3ª-feira da 34ª Semana do Tempo Comum, mas também integra o Evangelho do 33º Domingo do Tempo Comum no Ano C, onde se lê Lc 21,5-19 (leia a reflexão para esse dia). É, portanto, uma palavra repetida pela liturgia em momentos decisivos, como se o Senhor quisesse gravar em nós: “Não vos deixeis enganar”. Cada vez que este texto aparece no lecionário, é porque atravessamos algum limiar espiritual. Não é apenas uma narrativa sobre o passado; é uma lente para interpretar nosso presente e uma convocação para transformar o futuro.

O cenário inicial é a admiração humana diante das pedras do Templo. Aquela arquitetura impressionante era para os judeus o coração religioso, político e identitário da nação. Em seu auge, o Templo de Herodes tinha blocos de pedra de até 600 toneladas — impossível ao olhar humano imaginar sua queda. Jesus, porém, olha além da aparência. Como os profetas antes dele — especialmente Miquéias (3,9-12), que anunciara que o Templo seria destruído pela corrupção dos seus líderes — Ele lê a paisagem espiritual e desvenda a falência das estruturas que se pretendem eternas. O eco de Ezequiel 10, quando a glória de Deus abandona o Templo por causa da injustiça, paira invisível sobre a cena. A mesma glória que flutua sobre Jerusalém agora permanece sobre o Filho do Homem, deslocando o eixo da sacralidade.

A exegese de Lucas mostra que Jesus não fala apenas do Templo físico; Ele denuncia a lógica religiosa que transforma a fé em monumento, vitrine, sistema de poder. Quando os discípulos louvam as pedras adornadas e as oferendas, estão ainda fascinados por uma religião centrada em obras humanas, cultos impecáveis, prestígio social, grandiosidade externa. Jesus, então, os chama ao realismo: tudo isso cairá. Não é profecia de terror, mas purificação. É o anúncio de que aquilo que não nasce do Espírito, aquilo que não brota da justiça, aquilo que não serve à vida, cedo ou tarde desmorona. O Templo, como diziam os profetas, tornou-se espaço de opressão aos empobrecidos. A exploração religiosa, a manipulação sacrificial e a busca de lucro eram condenadas já em Jeremias 7 e Isaías 1. Jesus simplesmente colhe as consequências históricas: toda religião que se descola da justiça se condena ao próprio colapso.

Os estudiosos notam que Lucas, ao escrever seu Evangelho, já conhecia a destruição do Templo no ano 70 d.C. Ele interpreta o acontecimento como confirmação das palavras de Jesus, mas recusa qualquer leitura fatalista ou punitiva. Diferente dos apocalipses pagãos ou de alguns círculos sectários judaicos, Lucas não apresenta o fim como ruptura caótica e violência divina arbitrária. Ele insere a destruição do Templo na pedagogia da história: Deus não abandona; Deus desmascara. É a mesma lógica profética: onde existe injustiça institucionalizada, Deus permite que a estrutura ruída revele a verdade oculta. Por isso, Jesus não alimenta medo. Ele combate o pânico coletivo. Ele sabe que o medo é arma de controle, tanto na política quanto na religião. Ele sabe que a psicologia da massa, como mostram autores modernos como Erich Fromm, transforma ansiedade em submissão e insegurança em idolatria. A pessoa amedrontada busca salvadores fáceis; a comunidade assustada busca respostas simplistas. O medo infantiliza a fé.

É por isso que, em meio à admiração dos discípulos, Jesus introduz o tema dos falsos messias. A história confirma o que Ele diz: no período entre a morte de Jesus e a queda de Jerusalém, vários líderes se apresentaram como libertadores. Flávio Josefo relata isso com detalhes. Eram figuras que misturavam messianismo político, nacionalismo religioso e o desejo de retomada do poder. Não é distante de hoje. Em nossos tempos, falsos messias aparecem em forma de líderes políticos que usam a Bíblia para justificar violência, discriminação e ódio; pregadores digitais que transformam o Evangelho em produto; celebridades religiosas que vendem cura, prosperidade, privilégio e poder. Todos esses são versões contemporâneas dos “eu sou” que Jesus denuncia. A crítica aqui não é apenas moral; é teológica e antropológica. Todas as culturas, quando atravessam crises, geram líderes que se apresentam como salvadores. A antropologia das religiões mostra que narrativas apocalípticas são ativadas quando elites temem perder seus privilégios — por isso multiplicam discursos de ameaça, risco, caos e destruição. A sociologia lembra que, nessas horas, sistemas de poder se aproveitam do medo para reforçar autoridade. Jesus desmantela isso: Ele tira do medo a sua eficácia.

Gaudium et Spes, em seus números 63 a 66, denuncia com força as estruturas de exploração econômica que geram desigualdade e violência. O Concílio nos recorda que nenhuma instituição religiosa tem autoridade para legitimar o acúmulo injusto, nem para abençoar sistemas que transformam pessoas em mercadorias. Aqui o Evangelho se conecta com o Magistério: quando Jesus anuncia que “não ficará pedra sobre pedra”, ele não fala apenas do Templo, mas de toda estrutura que santifica o lucro e sacrifica o pobre. Evangelii Gaudium retoma esse mesmo espírito ao falar da mundanidade espiritual, que transforma a fé em espetáculo, e denuncia a teologia da prosperidade como deturpação do Evangelho. Francisco fala de uma Igreja chamada a ser servidora, não empresa; comunidade, não corporação; povo, não plateia. O clericalismo — que o Papa tanto denuncia — é precisamente o que Jesus confronta quando expulsa os vendilhões do Templo: um sistema religioso que se autoabsolvia enquanto esmagava os simples.

Aqui a patrística ilumina ainda mais o texto. Gregório Magno, ao dizer que “o pastor que se busca a si mesmo perde o rebanho”, antecipa o veredito de Cristo sobre líderes que se colocam como centro da fé. João Crisóstomo declarava com vigor que “a riqueza dos padres é o roubo dos pobres”, lembrando que o Evangelho não admite ostentação clerical. Ambrósio de Milão afirmava que “a riqueza acumulada é suor do pobre que clama diante de Deus”. Irineu, combatendo falsos mestres, dizia que o critério da verdade é a humildade e o serviço, não o carisma retórico. Todos esses ecos convergem na cena de Lucas 21: quando o sagrado é usado como instrumento de poder, Deus mesmo se afasta. Não porque abandona seu povo, mas porque se recusa a ser cúmplice da manipulação religiosa. Assim como a glória abandonou o Templo em Ezequiel, a graça abandona toda instituição que deixa de ser lugar de justiça. Mas não abandona o povo.

Jesus continua dizendo: “Quando ouvirdes falar de guerras e revoluções, não vos apavoreis. É preciso que isso aconteça primeiro, mas não será logo o fim.” Ele não apenas acalma; Ele corrige. Ele reconstrói nossa imaginação religiosa. Ele nos lembra que o fim do mundo não se confunde com as crises humanas. Guerras, catástrofes, conflitos e abalos não são sinais do fim, mas do processo histórico pelo qual o Reino amadurece. Essa é uma contribuição essencial do evangelista Lucas: deslocar a escatologia do campo do medo para o campo da esperança. Daniel 12 também fala de abalos e tribulações, mas acrescenta que os sábios brilharão como estrelas no firmamento. Isaías 2 mostra que, no fim, as nações acorrem ao monte de Deus para aprender a paz. O Apocalipse, em seu capítulo 21, apresenta o desfecho: Deus faz novas todas as coisas. Não é destruição; é recriação. Não é ruína; é parto. O fim, na Bíblia, não é o terror do colapso, mas o nascimento de algo maior.

A ciência histórica ajuda a entender por que Jesus fala desse modo. A Palestina do século I vivia em tensão constante. Havia revoltas populares, grupos sectários, exaltações messiânicas e repressão pesada por parte de Roma. Falar de guerras e terremotos não era mera metáfora; era realidade cotidiana. Mas Jesus recusa transformar o sofrimento histórico em sinal de desespero. Ele o transforma em oportunidade de discernimento. A psicologia moderna fala de “resiliência lúcida”: a capacidade de interpretar o caos não como ameaça destrutiva, mas como ocasião de crescimento. Jesus antecipa essa noção quando diz: “É preciso que isso aconteça primeiro”. É preciso, não porque Deus deseje a dor, mas porque Deus trabalha dentro da história, e não fora dela. Deus age na vulnerabilidade. Deus atravessa o caos para criar nova ordem. Essa é a pedagogia do Advento: aprender que Deus chega não apesar da noite, mas justamente nela.

Aplicar isso ao nosso tempo é inevitável. Vivemos sob a sedução de discursos apocalípticos manipulados: pregadores que prometem proteção mágica em troca de oferta; políticos que se apresentam como salvadores da pátria; influencers religiosos que apelam ao medo para ganhar seguidores; teologias que exaltam riqueza, poder, domínio e supremacia de um grupo sobre outros. A extrema direita global se aproveita do imaginário apocalíptico para justificar violência, culpar minorias, demonizar adversários e se apresentar como messianismo nacionalista. Essa lógica é anticristã e anticatólica. Gaudium et Spes é clara: “os cristãos não podem usar o nome de Deus para legitimar interesses particulares”. O uso da fé para manipular consciências é pecado contra o primeiro mandamento: idolatria. A idolatria não é apenas adorar estátuas; é transformar Deus em instrumento do ego. É fazer do Templo uma vitrine de vaidade. É transformar o Evangelho em produto. É fazer da liturgia espetáculo. É vestir o corpo clerical com brilho enquanto o povo veste dor.

A antropologia nos ajuda a entender por que isso acontece. Em tempos de insegurança — econômica, afetiva, política — as pessoas buscam narrativas que lhes ofereçam controle. O apocalipse, nesse sentido, funciona como explicação totalizadora: “o mundo está acabando porque…”. Mas Jesus diz: “não será o fim”. Ele desconstrói a fantasia do controle. Ele desfaz os mecanismos psicológicos que tornam o medo um refúgio. Ele nos ensina a caminhar pela fé madura, não pela fé infantil. A fé infantil busca respostas prontas e líderes infalíveis. A fé adulta discerne, escuta, espera, persevera. A fé infantil precisa de espetáculo; a fé adulta precisa de silêncio. A fé infantil busca templos imponentes; a fé adulta reconhece que Deus escolhe manjedouras. A fé infantil idolatra quem grita; a fé adulta segue quem serve.

Tudo isso nos traz de volta à pergunta dos discípulos: “Mestre, quando será isso?” A humanidade quer datas, marcadores, seguranças cronológicas. Jesus responde com vigilância, não com cronograma. Ele não nos dá calendário; Ele nos dá critério. O critério não é tempo, é qualidade de vida espiritual. O critério não é previsão, é perseverança. O critério não é medo, é confiança. É por isso que Lucas, mais do que os outros sinóticos, enfatiza que não devemos nos deixar enganar. Mateus 24 e Marcos 13 apresentam a mesma cena, mas Lucas explicita a pedagogia cristã da vigilância. Ele nos convida à sobriedade, não ao pânico; à fidelidade, não à paranoia; ao compromisso, não à fuga. A escatologia cristã é ativa: não espera passivamente; constrói justiça.

Quando aplicamos essa visão às comunidades e à Igreja, o texto se torna ainda mais urgente. Hoje vemos templos enormes e igrejas menores disputando poder; vemos pastores, padres e bispos que se comportam como celebridades; vemos competições por likes, por popularidade, por influência; vemos liturgias transformadas em show; vemos sacramentos vendidos; vemos pastores cobrando para orar e padres cobrando para aparecer. Tudo isso é a mesma lógica do Templo que Jesus denuncia. O clericalismo — que faz do padre um semideus e do bispo um príncipe — é idolatria. A teologia da prosperidade — que promete riqueza em nome de Jesus — é idolatria. A teologia do domínio — que usa a fé para justificar autoritarismo político — é idolatria. A fé como mercadoria — que reduz a graça a coaching espiritual — é idolatria. Toda idolatria cai. Toda pedra que sustenta idolatria, cai. Todo altar construído sobre poder humano, cai

Fratelli Tutti, especialmente no n. 215, diz que os conflitos e as crises revelam quem somos e quem queremos nos tornar. A queda de um templo — seja de pedra, seja de prestígio religioso, seja de ídolos modernos — revela o vazio que havia dentro. Mas também revela a oportunidade de reconstrução. Não reconstrução de muros, mas de vínculos. Não reconstrução de templos opulentos, mas de comunidades vivas. Não reconstrução de status clerical, mas de relações fraternas. Jesus nos convida a atravessar as ruínas com esperança. Ele não nega que existam guerras, catástrofes, traições, divisões. O que Ele nega é que isso seja o fim. O fim é outra coisa: é o encontro definitivo com Deus, que se faz pelo caminho da misericórdia, da justiça e do amor. O fim é o início da plenitude. O fim não é a explosão do mundo, mas o florescimento do Reino. O fim não é destruição, é revelação. E, no meio dessa travessia, Jesus nos diz: “Erguei a cabeça”. Este é talvez o verso mais forte da escatologia cristã. Erger a cabeça é gesto de dignidade. É gesto de quem não se deixa abater pelo medo, pela manipulação, pela violência, pela mentira, pelo abuso religioso. É gesto de quem sabe que o Templo pode cair, mas Deus permanece. Que os sistemas humanos ruem, mas o Evangelho não. Que os poderosos passam, mas a mansidão herda a terra.

No final de tudo, o que resta é o que sempre esteve no coração do cristianismo: fidelidade. Perseverança. Discernimento. Amor. Uma fé que não se deixa enganar porque não se deixa seduzir. Uma fé que não se deixa manipular porque não se fundamenta no medo. Uma fé que não se apoia em pedras, mas no Espírito. Uma fé que não precisa de templos grandiosos porque se torna templo vivo. Uma fé que não se curva diante dos falsos messias porque reconhece, na fragilidade do Crucificado, o único Messias verdadeiro.

O Evangelho desta terça-feira é, portanto, o convite final do Ano Litúrgico a abandonar as ilusões. A deixar cair nossos próprios templos interiores — feitos de orgulho, de vaidade, de segurança mundana, de máscaras religiosas. É convite a transformar o medo do fim em desejo de plenitude. É convite a atravessar a história com esperança ativa, com lucidez crítica, com coragem profética. É convite a resistir à sedução dos falsos salvadores, a rejeitar a manipulação religiosa, a denunciar toda forma de idolatria clerical, política ou espiritual. É convite a permanecer firmes quando o mundo treme. É convite a viver, desde já, a experiência da reconstrução do coração.

E assim, ao terminar o ano litúrgico e aproximar-nos do Advento, este Evangelho nos prepara para reconhecer o verdadeiro Templo: não o que se ergue em pedras, mas o que nasce numa manjedoura. O Deus que derruba monumentos nasce entre pobres. O Deus que derruba idolatrias se revela na simplicidade. O Deus que supera os falsos messias se manifesta como Servo. Aquele que anuncia que o Templo cairá é o mesmo que constrói um Templo novo: seu Corpo, sua Igreja, seu povo. Um Templo vivo, forte, resiliente, profético, pobre, fraterno, livre. Um Templo que ninguém pode derrubar. Porque nele não há idolatria — há amor.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pelo seu comentário.