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terça-feira, 25 de novembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 21,5-11


No ritmo solene do final do Ano Litúrgico, quando a Igreja nos conduz a contemplar os derradeiros horizontes da história e da vida, este Evangelho ressoa como um chamado que atravessa os séculos e desmonta nossas ilusões. Lucas 21,5-11 é proclamado nesta 3ª-feira da 34ª Semana do Tempo Comum, mas também integra o Evangelho do 33º Domingo do Tempo Comum no Ano C, onde se lê Lc 21,5-19 (leia a reflexão para esse dia). É, portanto, uma palavra repetida pela liturgia em momentos decisivos, como se o Senhor quisesse gravar em nós: “Não vos deixeis enganar”. Cada vez que este texto aparece no lecionário, é porque atravessamos algum limiar espiritual. Não é apenas uma narrativa sobre o passado; é uma lente para interpretar nosso presente e uma convocação para transformar o futuro.

O cenário inicial é a admiração humana diante das pedras do Templo. Aquela arquitetura impressionante era para os judeus o coração religioso, político e identitário da nação. Em seu auge, o Templo de Herodes tinha blocos de pedra de até 600 toneladas — impossível ao olhar humano imaginar sua queda. Jesus, porém, olha além da aparência. Como os profetas antes dele — especialmente Miquéias (3,9-12), que anunciara que o Templo seria destruído pela corrupção dos seus líderes — Ele lê a paisagem espiritual e desvenda a falência das estruturas que se pretendem eternas. O eco de Ezequiel 10, quando a glória de Deus abandona o Templo por causa da injustiça, paira invisível sobre a cena. A mesma glória que flutua sobre Jerusalém agora permanece sobre o Filho do Homem, deslocando o eixo da sacralidade.

A exegese de Lucas mostra que Jesus não fala apenas do Templo físico; Ele denuncia a lógica religiosa que transforma a fé em monumento, vitrine, sistema de poder. Quando os discípulos louvam as pedras adornadas e as oferendas, estão ainda fascinados por uma religião centrada em obras humanas, cultos impecáveis, prestígio social, grandiosidade externa. Jesus, então, os chama ao realismo: tudo isso cairá. Não é profecia de terror, mas purificação. É o anúncio de que aquilo que não nasce do Espírito, aquilo que não brota da justiça, aquilo que não serve à vida, cedo ou tarde desmorona. O Templo, como diziam os profetas, tornou-se espaço de opressão aos empobrecidos. A exploração religiosa, a manipulação sacrificial e a busca de lucro eram condenadas já em Jeremias 7 e Isaías 1. Jesus simplesmente colhe as consequências históricas: toda religião que se descola da justiça se condena ao próprio colapso.

Os estudiosos notam que Lucas, ao escrever seu Evangelho, já conhecia a destruição do Templo no ano 70 d.C. Ele interpreta o acontecimento como confirmação das palavras de Jesus, mas recusa qualquer leitura fatalista ou punitiva. Diferente dos apocalipses pagãos ou de alguns círculos sectários judaicos, Lucas não apresenta o fim como ruptura caótica e violência divina arbitrária. Ele insere a destruição do Templo na pedagogia da história: Deus não abandona; Deus desmascara. É a mesma lógica profética: onde existe injustiça institucionalizada, Deus permite que a estrutura ruída revele a verdade oculta. Por isso, Jesus não alimenta medo. Ele combate o pânico coletivo. Ele sabe que o medo é arma de controle, tanto na política quanto na religião. Ele sabe que a psicologia da massa, como mostram autores modernos como Erich Fromm, transforma ansiedade em submissão e insegurança em idolatria. A pessoa amedrontada busca salvadores fáceis; a comunidade assustada busca respostas simplistas. O medo infantiliza a fé.

É por isso que, em meio à admiração dos discípulos, Jesus introduz o tema dos falsos messias. A história confirma o que Ele diz: no período entre a morte de Jesus e a queda de Jerusalém, vários líderes se apresentaram como libertadores. Flávio Josefo relata isso com detalhes. Eram figuras que misturavam messianismo político, nacionalismo religioso e o desejo de retomada do poder. Não é distante de hoje. Em nossos tempos, falsos messias aparecem em forma de líderes políticos que usam a Bíblia para justificar violência, discriminação e ódio; pregadores digitais que transformam o Evangelho em produto; celebridades religiosas que vendem cura, prosperidade, privilégio e poder. Todos esses são versões contemporâneas dos “eu sou” que Jesus denuncia. A crítica aqui não é apenas moral; é teológica e antropológica. Todas as culturas, quando atravessam crises, geram líderes que se apresentam como salvadores. A antropologia das religiões mostra que narrativas apocalípticas são ativadas quando elites temem perder seus privilégios — por isso multiplicam discursos de ameaça, risco, caos e destruição. A sociologia lembra que, nessas horas, sistemas de poder se aproveitam do medo para reforçar autoridade. Jesus desmantela isso: Ele tira do medo a sua eficácia.

Gaudium et Spes, em seus números 63 a 66, denuncia com força as estruturas de exploração econômica que geram desigualdade e violência. O Concílio nos recorda que nenhuma instituição religiosa tem autoridade para legitimar o acúmulo injusto, nem para abençoar sistemas que transformam pessoas em mercadorias. Aqui o Evangelho se conecta com o Magistério: quando Jesus anuncia que “não ficará pedra sobre pedra”, ele não fala apenas do Templo, mas de toda estrutura que santifica o lucro e sacrifica o pobre. Evangelii Gaudium retoma esse mesmo espírito ao falar da mundanidade espiritual, que transforma a fé em espetáculo, e denuncia a teologia da prosperidade como deturpação do Evangelho. Francisco fala de uma Igreja chamada a ser servidora, não empresa; comunidade, não corporação; povo, não plateia. O clericalismo — que o Papa tanto denuncia — é precisamente o que Jesus confronta quando expulsa os vendilhões do Templo: um sistema religioso que se autoabsolvia enquanto esmagava os simples.

Aqui a patrística ilumina ainda mais o texto. Gregório Magno, ao dizer que “o pastor que se busca a si mesmo perde o rebanho”, antecipa o veredito de Cristo sobre líderes que se colocam como centro da fé. João Crisóstomo declarava com vigor que “a riqueza dos padres é o roubo dos pobres”, lembrando que o Evangelho não admite ostentação clerical. Ambrósio de Milão afirmava que “a riqueza acumulada é suor do pobre que clama diante de Deus”. Irineu, combatendo falsos mestres, dizia que o critério da verdade é a humildade e o serviço, não o carisma retórico. Todos esses ecos convergem na cena de Lucas 21: quando o sagrado é usado como instrumento de poder, Deus mesmo se afasta. Não porque abandona seu povo, mas porque se recusa a ser cúmplice da manipulação religiosa. Assim como a glória abandonou o Templo em Ezequiel, a graça abandona toda instituição que deixa de ser lugar de justiça. Mas não abandona o povo.

Jesus continua dizendo: “Quando ouvirdes falar de guerras e revoluções, não vos apavoreis. É preciso que isso aconteça primeiro, mas não será logo o fim.” Ele não apenas acalma; Ele corrige. Ele reconstrói nossa imaginação religiosa. Ele nos lembra que o fim do mundo não se confunde com as crises humanas. Guerras, catástrofes, conflitos e abalos não são sinais do fim, mas do processo histórico pelo qual o Reino amadurece. Essa é uma contribuição essencial do evangelista Lucas: deslocar a escatologia do campo do medo para o campo da esperança. Daniel 12 também fala de abalos e tribulações, mas acrescenta que os sábios brilharão como estrelas no firmamento. Isaías 2 mostra que, no fim, as nações acorrem ao monte de Deus para aprender a paz. O Apocalipse, em seu capítulo 21, apresenta o desfecho: Deus faz novas todas as coisas. Não é destruição; é recriação. Não é ruína; é parto. O fim, na Bíblia, não é o terror do colapso, mas o nascimento de algo maior.

A ciência histórica ajuda a entender por que Jesus fala desse modo. A Palestina do século I vivia em tensão constante. Havia revoltas populares, grupos sectários, exaltações messiânicas e repressão pesada por parte de Roma. Falar de guerras e terremotos não era mera metáfora; era realidade cotidiana. Mas Jesus recusa transformar o sofrimento histórico em sinal de desespero. Ele o transforma em oportunidade de discernimento. A psicologia moderna fala de “resiliência lúcida”: a capacidade de interpretar o caos não como ameaça destrutiva, mas como ocasião de crescimento. Jesus antecipa essa noção quando diz: “É preciso que isso aconteça primeiro”. É preciso, não porque Deus deseje a dor, mas porque Deus trabalha dentro da história, e não fora dela. Deus age na vulnerabilidade. Deus atravessa o caos para criar nova ordem. Essa é a pedagogia do Advento: aprender que Deus chega não apesar da noite, mas justamente nela.

Aplicar isso ao nosso tempo é inevitável. Vivemos sob a sedução de discursos apocalípticos manipulados: pregadores que prometem proteção mágica em troca de oferta; políticos que se apresentam como salvadores da pátria; influencers religiosos que apelam ao medo para ganhar seguidores; teologias que exaltam riqueza, poder, domínio e supremacia de um grupo sobre outros. A extrema direita global se aproveita do imaginário apocalíptico para justificar violência, culpar minorias, demonizar adversários e se apresentar como messianismo nacionalista. Essa lógica é anticristã e anticatólica. Gaudium et Spes é clara: “os cristãos não podem usar o nome de Deus para legitimar interesses particulares”. O uso da fé para manipular consciências é pecado contra o primeiro mandamento: idolatria. A idolatria não é apenas adorar estátuas; é transformar Deus em instrumento do ego. É fazer do Templo uma vitrine de vaidade. É transformar o Evangelho em produto. É fazer da liturgia espetáculo. É vestir o corpo clerical com brilho enquanto o povo veste dor.

A antropologia nos ajuda a entender por que isso acontece. Em tempos de insegurança — econômica, afetiva, política — as pessoas buscam narrativas que lhes ofereçam controle. O apocalipse, nesse sentido, funciona como explicação totalizadora: “o mundo está acabando porque…”. Mas Jesus diz: “não será o fim”. Ele desconstrói a fantasia do controle. Ele desfaz os mecanismos psicológicos que tornam o medo um refúgio. Ele nos ensina a caminhar pela fé madura, não pela fé infantil. A fé infantil busca respostas prontas e líderes infalíveis. A fé adulta discerne, escuta, espera, persevera. A fé infantil precisa de espetáculo; a fé adulta precisa de silêncio. A fé infantil busca templos imponentes; a fé adulta reconhece que Deus escolhe manjedouras. A fé infantil idolatra quem grita; a fé adulta segue quem serve.

Tudo isso nos traz de volta à pergunta dos discípulos: “Mestre, quando será isso?” A humanidade quer datas, marcadores, seguranças cronológicas. Jesus responde com vigilância, não com cronograma. Ele não nos dá calendário; Ele nos dá critério. O critério não é tempo, é qualidade de vida espiritual. O critério não é previsão, é perseverança. O critério não é medo, é confiança. É por isso que Lucas, mais do que os outros sinóticos, enfatiza que não devemos nos deixar enganar. Mateus 24 e Marcos 13 apresentam a mesma cena, mas Lucas explicita a pedagogia cristã da vigilância. Ele nos convida à sobriedade, não ao pânico; à fidelidade, não à paranoia; ao compromisso, não à fuga. A escatologia cristã é ativa: não espera passivamente; constrói justiça.

Quando aplicamos essa visão às comunidades e à Igreja, o texto se torna ainda mais urgente. Hoje vemos templos enormes e igrejas menores disputando poder; vemos pastores, padres e bispos que se comportam como celebridades; vemos competições por likes, por popularidade, por influência; vemos liturgias transformadas em show; vemos sacramentos vendidos; vemos pastores cobrando para orar e padres cobrando para aparecer. Tudo isso é a mesma lógica do Templo que Jesus denuncia. O clericalismo — que faz do padre um semideus e do bispo um príncipe — é idolatria. A teologia da prosperidade — que promete riqueza em nome de Jesus — é idolatria. A teologia do domínio — que usa a fé para justificar autoritarismo político — é idolatria. A fé como mercadoria — que reduz a graça a coaching espiritual — é idolatria. Toda idolatria cai. Toda pedra que sustenta idolatria, cai. Todo altar construído sobre poder humano, cai

Fratelli Tutti, especialmente no n. 215, diz que os conflitos e as crises revelam quem somos e quem queremos nos tornar. A queda de um templo — seja de pedra, seja de prestígio religioso, seja de ídolos modernos — revela o vazio que havia dentro. Mas também revela a oportunidade de reconstrução. Não reconstrução de muros, mas de vínculos. Não reconstrução de templos opulentos, mas de comunidades vivas. Não reconstrução de status clerical, mas de relações fraternas. Jesus nos convida a atravessar as ruínas com esperança. Ele não nega que existam guerras, catástrofes, traições, divisões. O que Ele nega é que isso seja o fim. O fim é outra coisa: é o encontro definitivo com Deus, que se faz pelo caminho da misericórdia, da justiça e do amor. O fim é o início da plenitude. O fim não é a explosão do mundo, mas o florescimento do Reino. O fim não é destruição, é revelação. E, no meio dessa travessia, Jesus nos diz: “Erguei a cabeça”. Este é talvez o verso mais forte da escatologia cristã. Erger a cabeça é gesto de dignidade. É gesto de quem não se deixa abater pelo medo, pela manipulação, pela violência, pela mentira, pelo abuso religioso. É gesto de quem sabe que o Templo pode cair, mas Deus permanece. Que os sistemas humanos ruem, mas o Evangelho não. Que os poderosos passam, mas a mansidão herda a terra.

No final de tudo, o que resta é o que sempre esteve no coração do cristianismo: fidelidade. Perseverança. Discernimento. Amor. Uma fé que não se deixa enganar porque não se deixa seduzir. Uma fé que não se deixa manipular porque não se fundamenta no medo. Uma fé que não se apoia em pedras, mas no Espírito. Uma fé que não precisa de templos grandiosos porque se torna templo vivo. Uma fé que não se curva diante dos falsos messias porque reconhece, na fragilidade do Crucificado, o único Messias verdadeiro.

O Evangelho desta terça-feira é, portanto, o convite final do Ano Litúrgico a abandonar as ilusões. A deixar cair nossos próprios templos interiores — feitos de orgulho, de vaidade, de segurança mundana, de máscaras religiosas. É convite a transformar o medo do fim em desejo de plenitude. É convite a atravessar a história com esperança ativa, com lucidez crítica, com coragem profética. É convite a resistir à sedução dos falsos salvadores, a rejeitar a manipulação religiosa, a denunciar toda forma de idolatria clerical, política ou espiritual. É convite a permanecer firmes quando o mundo treme. É convite a viver, desde já, a experiência da reconstrução do coração.

E assim, ao terminar o ano litúrgico e aproximar-nos do Advento, este Evangelho nos prepara para reconhecer o verdadeiro Templo: não o que se ergue em pedras, mas o que nasce numa manjedoura. O Deus que derruba monumentos nasce entre pobres. O Deus que derruba idolatrias se revela na simplicidade. O Deus que supera os falsos messias se manifesta como Servo. Aquele que anuncia que o Templo cairá é o mesmo que constrói um Templo novo: seu Corpo, sua Igreja, seu povo. Um Templo vivo, forte, resiliente, profético, pobre, fraterno, livre. Um Templo que ninguém pode derrubar. Porque nele não há idolatria — há amor.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 12,54-59

Há palavras de Jesus que não se limitam ao instante de sua proclamação; atravessam séculos, corações, culturas e crises, clamando por discernimento e ação. Lucas 12,54-59 é uma dessas passagens. Na liturgia da sexta-feira da 29ª Semana do Tempo Comum, o Evangelho nos confronta com o desafio de reconhecer os sinais de Deus no tempo presente, compreender a urgência de nossas escolhas e avaliar a responsabilidade de nossa fé diante do mundo. Este texto nos convida a uma leitura não apenas intelectual, mas existencial, social e espiritual da realidade que nos cerca, combinando exegese, hermenêutica, patrística, filosofia, sociologia, psicologia, antropologia e a sabedoria do Magistério da Igreja. “Quando vedes uma nuvem subir do ocidente, logo dizeis: vai chover. E assim acontece. E quando sopra o vento do sul, dizeis: haverá calor. E acontece. Hipócritas! Sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu; como não sabeis discernir este tempo?” (Lc 12,54-56). Aqui, Jesus não fala simplesmente de meteorologia; Ele fala de percepção, atenção e leitura da realidade. O povo que escutava essas palavras vivia sob a opressão do Império Romano, em meio a líderes religiosos muitas vezes mais preocupados com regras e aparências do que com a justiça e a misericórdia. A nuvem do ocidente, sinal de chuva e fertilidade, e o vento do sul, que traz calor e secas, eram experiências concretas que todos podiam interpretar. Jesus utiliza símbolos familiares para revelar a cegueira espiritual: o mesmo povo capaz de ler os fenômenos naturais não consegue discernir os sinais do tempo de Deus, o kairos, o momento oportuno em que o Reino se manifesta.

O kairos, distinto do chronos, nos fala de urgência, oportunidade e abertura à ação de Deus. É tempo de conversão e compromisso. Paulo ecoa essa urgência: “Conheceis o tempo: é hora de despertar do sono” (Rm 13,11). A Escritura insiste em diversos pontos sobre a leitura dos tempos: em Mateus 16,2-3, encontramos a mesma crítica: “Sabeis discernir o aspecto do céu, mas não os sinais dos tempos.” Em Lucas, a advertência é clara: saber prever o clima e não perceber a ação de Deus é hipocrisia. É a religião que conhece os rituais e ignora o amor, que calcula fenômenos e esquece a misericórdia.

O contexto histórico e social reforça essa crítica. Os discípulos e as multidões viviam em comunidades marcadas por desigualdade, exploração e medo. Precisavam de líderes capazes de interpretar o tempo com sabedoria, mas, muitas vezes, encontravam religiosos comprometidos com poder, status e riqueza. É nesse cenário que Jesus denuncia a cegueira e a omissão. Hoje, como ontem, é comum ouvir interpretações apocalípticas para eventos naturais ou crises sociais. Muitos relacionam desastres ambientais à iminência do fim do mundo ou atribuem tragédias pessoais ao juízo final. O discernimento, porém, não se mede por previsões espetaculares, mas pela capacidade de agir com responsabilidade e consciência no tempo presente.

Jesus amplia a crítica, dirigindo-se também aos líderes religiosos: “Quando fores com teu adversário ao magistrado, procura reconciliar-te com ele no caminho, para que o juiz não te entregue ao oficial de justiça e este te lance na prisão” (Lc 12,58). A parábola do adversário e do juiz é uma chamada à reconciliação e à justiça. A vida é um caminho em direção ao tribunal. Não é ameaça distante, mas metáfora da responsabilidade moral cotidiana. Reconhecer a dívida, reconciliar-se e agir com justiça enquanto ainda há tempo é a mensagem central. É um convite à conversão ativa, à reconciliação com Deus, com o próximo e consigo mesmo.

O Evangelho nos ensina que a responsabilidade do cristão não se limita à esfera privada; ela é social, política e ecológica. Ignorar o sofrimento do outro, a destruição da criação ou a injustiça social é forma de omissão, um pecado silencioso. A modernidade trouxe desafios novos: a idolatria do consumo, a fé mercantilizada, o clericalismo, o individualismo religioso. A teologia da prosperidade oferece bênçãos como mercadoria, enquanto a teologia do domínio busca poder e controle. Ambas distorcem o Evangelho. Lucas 12,54-59 nos lembra que discernir os sinais do tempo significa confrontar essas distorções, assumir responsabilidade ética e espiritual, e praticar a justiça e o amor na vida cotidiana.

 Santo Agostinho, comentando o tempo e a eternidade, afirma que o tempo existe como distensão da alma entre passado e futuro, mas o presente é o único momento que permite ação verdadeira. São João Crisóstomo, em suas homilias, advertia que muitos sabiam interpretar as nuvens e os ventos, mas não reconheciam Cristo em meio ao povo. Orígenes sublinhava que a leitura dos sinais do tempo exige disciplina espiritual, atenção e discernimento da vontade de Deus. Essa tradição fortalece a exortação de Jesus: olhar o mundo com olhos abertos, mas com coração vigilante e sensível.

A cegueira espiritual e social muitas vezes corresponde à resistência humana à mudança e ao confronto com a própria responsabilidade. Freud chamaria isso de projeção, Jung de sombra; a teologia chama de pecado. A incapacidade de discernir o tempo revela medos, preconceitos e dificuldade de enfrentar limitações próprias. O Evangelho nos convida a superar essas barreiras, perceber os sinais de Deus na história e na vida cotidiana, agir com consciência e liberdade.

O  kairos é o instante decisivo, o momento da autenticidade. Discernir o tempo é assumir a responsabilidade de agir, não adiar decisões. A ação ética, a reconciliação e o compromisso com o bem são a realização concreta do discernimento. A vida não é apenas contemplação; é decisão, caminho, tribunal, reconciliação. 

A sociologia da religião mostra que a fé que não lê os sinais torna-se irrelevante. Uma igreja que ignora justiça, solidariedade e cuidado com a criação perde a vitalidade do Evangelho. A indiferença às crises sociais e ambientais reflete espiritualidade fragmentada, centrada no ritual e no conforto, não no serviço e no amor. A Laudato Si’ lembra que tudo está interligado e que a ação ética na vida social e ecológica é expressão de fé viva. A Fratelli Tutti acrescenta que o amor social transforma a história; a fé não pode se restringir ao privado nem ser reduzida a produto de consumo.

O clericalismo é outra distorção que impede o discernimento. Líderes que se colocam acima do povo, transformando serviço em privilégio, bloqueiam a leitura do tempo de Deus. O Papa Francisco, em Evangelii Gaudium, alerta que a autoridade ministerial deve ser serviço, não poder. O discernimento do tempo depende da humildade, da escuta e da proximidade com os necessitados.

No plano litúrgico, a proclamação deste Evangelho nos prepara para o domingo seguinte. A liturgia nos chama à vigilância e à consciência do momento presente, à prática da justiça e da reconciliação, à atenção aos sinais de Deus na história. O Evangelho não é espetáculo, não é previsão de desastres; é convite a assumir o presente como campo de ação e conversão. Discernir o tempo é ouvir Deus no clamor dos pobres, na dor da natureza, no grito silencioso da humanidade. O Evangelho também nos desafia culturalmente. Muitos ainda rejeitam músicas, artes ou expressões culturais como “mundanas”, esquecendo que tudo pertence a Deus. O discernimento do tempo implica perceber a presença de Deus no mundo, transformando-o em espaço de graça e serviço. A fé encarnada não se separa da vida; ilumina, denuncia e reconcilia. O cristão é chamado a agir com coragem, ser fermento e luz no mundo, reconhecer que o juízo acontece a cada escolha, cada ação, cada omissão.

Lucas 12 lembra que a omissão é pecado silencioso. Ignorar injustiças, sofrer calado ou permanecer neutro diante de crises sociais é faltar com o Evangelho. Jesus nos chama a sair do comodismo, a agir antes que seja tarde. A reconciliação, a justiça e a misericórdia não podem esperar. O tempo do discernimento é agora. A história da Igreja adverte sobre os riscos de uma fé transformada em tribunal e punição. A Inquisição católica, formalizada no século XIII por Gregório IX e consolidada no século XV com Tomás de Torquemada, perseguiu com rigor heréticos e dissidentes, aplicando censura, prisões e execuções. Paralelamente, a Inquisição protestante, durante a Reforma e a Contra-Reforma nos séculos XVI e XVII, com figuras como João Calvino e em Genebra puritana, perseguiu hereges e opositores com processos, confinamentos e mortes. Ambos os movimentos transformaram a fé em instrumento de poder e controle, eclipsando misericórdia e justiça. Hoje, embora raramente de forma oficial, esses mecanismos persistem veladamente: tribunais morais internos, censuras digitais, exclusões e perseguições ideológicas ainda ocorrem em muitas comunidades de fé, criando medo e silenciamento. O Concílio Vaticano II, em Dignitatis Humanae, e a Gaudium et Spes 14 recordam que a liberdade de consciência é princípio inviolável da dignidade humana; qualquer tentativa de coagir, punir ou silenciar em nome da fé contradiz o Evangelho que Jesus proclama. Que saibamos discernir essas continuidades históricas e atuais, reconhecendo sinais de autoridade desviada e poder injusto, e escolhamos agir com coragem, justiça e misericórdia, para que nossa fé seja instrumento de vida e não de opressão. 

Que a liturgia de hoje nos desperte para o discernimento do kairos, que saibamos ler os sinais de Deus no mundo, que possamos reconciliar-nos enquanto há tempo, e que a fé nos conduza a agir com justiça, coragem e amor, transformando o presente e preparando o encontro definitivo com o Senhor.



DNonato – Teólogo do Cotidiano