O relato lucano contém símbolos profundos. Ser entregue às autoridades, sofrer ódio pelo nome de Jesus, não é apenas perseguição física; é a expressão do confronto com estruturas de poder injustas, sistemas sociais e culturais que se levantam contra a verdade e a justiça. Historicamente, essas imagens evocam a perseguição do Império Romano, os martírios dos primeiros cristãos e também a hostilidade que tantas vezes os fiéis enfrentam em contextos contemporâneos, seja na marginalização social, na difamação ou na exclusão econômica. Psicologicamente, essas situações provocam medo e ansiedade, mas a promessa de Lucas é clara: “Não necessitareis de vos preocupar em vossa defesa; porque eu vos darei boca e sabedoria, à qual nenhum dos vossos adversários poderá resistir nem contradizer” (Lc 21,15). O dom da sabedoria e da fortaleza não elimina a fraqueza humana, mas dá coragem, discernimento e firmeza para enfrentar o perigo e permanecer fiel.
A patrística ilumina este Evangelho com clareza e profundidade. Santo Agostinho afirma que a coragem verdadeira nasce da confiança em Deus, não da ausência de medo. São João Crisóstomo louva aqueles que se expõem pelo bem do rebanho, aproximando-os da figura do Bom Pastor que entrega a vida pelas ovelhas. Tertuliano e Orígenes destacam que a fidelidade diante da adversidade é expressão de santidade e que cada ato de coragem pelo Reino é uma oferenda que Deus valoriza infinitamente. Lucas evidencia que a ocasião de uma bela morte, seja no serviço missionário, no cuidado dos doentes ou na fidelidade diária, acumula méritos espirituais incomensuráveis, transformando o sofrimento em testemunho luminoso do Evangelho.
O Antigo Testamento oferece paralelos que enriquecem a leitura: Daniel, na cova dos leões, mostra fidelidade absoluta à Lei de Deus (Dn 6). Os mártires macabeus escolheram obedecer à Lei acima da própria vida (2 Mac 7), e os profetas, como Amós, sofreram perseguição por denunciar injustiças (Am 7,10-17). Os Salmos, em suas expressões de confiança e esperança, afirmam: “Ainda que um exército acampe contra mim, meu coração não temerá” (Sl 27,3). Estes textos nos mostram que a fidelidade a Deus transcende qualquer ameaça terrena, transformando o sofrimento em crescimento espiritual e testemunho da verdade. Lucas apresenta a perseguição também como símbolo do conflito entre o Reino de Deus e a lógica mundana da mentira, da violência e da exploração. Psicologicamente, a perseguição é uma oportunidade de desenvolver resiliência; sociologicamente, revela que a fidelidade ética e moral desafia estruturas de poder e provoca hostilidade. A filosofia ética, de Aristóteles a Tomás de Aquino, demonstra que a virtude se realiza na coerência com a verdade, mesmo diante de adversidade, enquanto a psicologia contemporânea confirma que enfrentar desafios com propósito fortalece a identidade, o sentido de vida e a integridade pessoal.
A reflexão sobre este Evangelho nos alerta para as distorções contemporâneas da fé. As teologias da prosperidade, do domínio e da fé como mercadoria deturpam a radicalidade evangélica. Lucas 21 nos lembra que a fidelidade não é medida pelo lucro, prestígio ou sucesso, mas pelo serviço humilde, pela perseverança e pela coragem diante do ódio. O clericalismo, que valoriza títulos, posições hierárquicas e reconhecimento humano, se opõe à lógica evangélica que valoriza humildade, serviço e coragem em obediência a Deus.
A promessa de Lucas é clara: aqueles que permanecem fiéis serão preservados e fortalecidos pelo Espírito, que lhes dará sabedoria, coragem e perseverança. Outros textos bíblicos reforçam esta certeza: em Romanos 8,35-39, Paulo assegura que nada nos separa do amor de Deus; em Mateus 10,28, Jesus ensina a não temer os que matam o corpo, mas não podem tocar a alma; em 2 Timóteo 3,12, o apóstolo nos lembra que todos os que desejam viver piamente sofrerão perseguição. A fidelidade transforma perda em crescimento e sofrimento em testemunho luminoso do Evangelho.
Historicamente, esta mensagem se confirma nos mártires cristãos, nos profetas e nos santos que enfrentaram perseguições políticas, sociais e religiosas. No contexto contemporâneo, ela nos desafia a viver nossa vocação diária: no serviço aos doentes, na educação, no cuidado familiar, na missão e na defesa da justiça. Cada gesto de fidelidade, coragem e generosidade expressa concretamente o Reino de Deus, transformando sofrimento em ocasião de graça.
O Evangelho de Lucas nos desafia ainda a refletir sobre os dons do Espírito: sabedoria, fortaleza, discernimento e perseverança. Estes capacitam o discípulo a enfrentar o ódio, a injustiça e a perseguição, testemunhando a verdade sem se submeter à lógica do poder ou do lucro. O discípulo fiel aprende que a verdadeira segurança não está na acumulação de bens, mas na confiança plena em Deus, que transforma cada prova, cada perda e cada sacrifício em ocasião de crescimento espiritual e testemunho luminoso.
A tradição patrística reforça que o discípulo não busca reconhecimento humano, mas coloca sua vida nas mãos de Deus, confiando que cada ato de generosidade é valorizado infinitamente pelo Senhor. O Concílio Vaticano II, em Lumen Gentium, exorta os fiéis à participação ativa e humilde na missão da Igreja, rejeitando o clericalismo e a lógica mercantil da fé. O Papa Francisco, em Evangelii Gaudium e Fratelli Tutti, lembra que generosidade, coragem e fidelidade superam qualquer lógica de lucro, domínio ou sucesso pessoal, e que a missão cristã se realiza no serviço ao próximo, na defesa da justiça e na entrega ao Reino.
Finalmente, Lucas 21,12-19 nos chama a reconhecer nossas fraquezas, confiar no Espírito e permanecer fiéis até o fim. A fidelidade cotidiana — no serviço aos irmãos, na missão, no cuidado familiar, no cuidado dos doentes ou na denúncia da injustiça — é ocasião de crescimento espiritual e construção do Reino. Cada ato de coragem, generosidade e perseverança se transforma em testemunho vivo do Evangelho, rejeitando a lógica da prosperidade, do domínio, do individualismo e da fé como mercadoria. Assim, a Boa Nova nos desafia a viver uma fé radical, corajosa e transformadora, conscientes de que cada sacrifício, cada prova e cada perda é contado como luz do Reino de Deus neste mundo.
DNonato - Teólogo do Cotidiano


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