quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 21,12-19

No Evangelho proclamado na quarta-feir da 34ª Semana do Tempoc Comum, Lucas 21,12-19 sendo a continuação  do Evangelho  da terça-feira  da 34ª Semana do Tempo Comum diante de uma das realidades mais profundas do seguimento de Cristo: a fidelidade diante da perseguição. Este trecho, também ecoando no 33º Domingo do Tempo Comum do Ano C, se insere no grande discurso apocalíptico lucano, onde Jesus anuncia não apenas destruições futuras, mas a experiência constante de permanecer fiéis ao serviço de Deus, mesmo quando isso exige enfrentar a perda de bens, da honra ou até da própria vida. A liturgia nos coloca neste momento para refletirmos sobre a radicalidade do discipulado: uma fidelidade que não se mede por conforto ou segurança, mas pelo amor e entrega ao Reino. O  Evangelho começa com palavras duras, mas ao mesmo tempo consoladoras: “Haverá dias em que sereis entregues, perseguidos, sendo mortos; e todos os povos vos odiarão por causa do meu nome” (Lc 21,12). Lucas nos apresenta uma realidade que não pertence apenas à experiência histórica do cristianismo primitivo, mas que atravessa os séculos, acompanhando todo discípulo que decide seguir Cristo com coerência. Os paralelos nos Evangelhos sinóticos reforçam esta mensagem: em Mateus 10,16-23, Jesus instrui seus discípulos a serem prudentes como serpentes e simples como pombos, prometendo que o Espírito Santo falará por eles diante das autoridades. Marcos 13,9-13 repete a promessa de perseguição e de fidelidade, mostrando que até o martírio se torna ocasião de anúncio universal do Evangelho. Em Mateus 10,28-31, Cristo ensina a não temer os que matam o corpo, mas não podem tocar a alma. As Bem-aventuranças também reforçam este ensinamento: “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,10). Paulo, em Atos 14,22, nos lembra que “é necessário passar por muitas tribulações para entrar no Reino de Deus”, evidenciando que a fidelidade sempre terá custo, mas produz frutos eternos.

O relato lucano contém símbolos profundos. Ser entregue às autoridades, sofrer ódio pelo nome de Jesus, não é apenas perseguição física; é a expressão do confronto com estruturas de poder injustas, sistemas sociais e culturais que se levantam contra a verdade e a justiça. Historicamente, essas imagens evocam a perseguição do Império Romano, os martírios dos primeiros cristãos e também a hostilidade que tantas vezes os fiéis enfrentam em contextos contemporâneos, seja na marginalização social, na difamação ou na exclusão econômica. Psicologicamente, essas situações provocam medo e ansiedade, mas a promessa de Lucas é clara: “Não necessitareis de vos preocupar em vossa defesa; porque eu vos darei boca e sabedoria, à qual nenhum dos vossos adversários poderá resistir nem contradizer” (Lc 21,15). O dom da sabedoria e da fortaleza não elimina a fraqueza humana, mas dá coragem, discernimento e firmeza para enfrentar o perigo e permanecer fiel.

A patrística ilumina este Evangelho com clareza e profundidade. Santo Agostinho afirma que a coragem verdadeira nasce da confiança em Deus, não da ausência de medo. São João Crisóstomo louva aqueles que se expõem pelo bem do rebanho, aproximando-os da figura do Bom Pastor que entrega a vida pelas ovelhas. Tertuliano e Orígenes destacam que a fidelidade diante da adversidade é expressão de santidade e que cada ato de coragem pelo Reino é uma oferenda que Deus valoriza infinitamente. Lucas evidencia que a ocasião de uma bela morte, seja no serviço missionário, no cuidado dos doentes ou na fidelidade diária, acumula méritos espirituais incomensuráveis, transformando o sofrimento em testemunho luminoso do Evangelho.

O  Antigo Testamento oferece paralelos que enriquecem a leitura: Daniel, na cova dos leões, mostra fidelidade absoluta à Lei de Deus (Dn 6). Os mártires macabeus escolheram obedecer à Lei acima da própria vida (2 Mac 7), e os profetas, como Amós, sofreram perseguição por denunciar injustiças (Am 7,10-17). Os Salmos, em suas expressões de confiança e esperança, afirmam: “Ainda que um exército acampe contra mim, meu coração não temerá” (Sl 27,3). Estes textos nos mostram que a fidelidade a Deus transcende qualquer ameaça terrena, transformando o sofrimento em crescimento espiritual e testemunho da verdade. Lucas apresenta a perseguição também como símbolo do conflito entre o Reino de Deus e a lógica mundana da mentira, da violência e da exploração. Psicologicamente, a perseguição é uma oportunidade de desenvolver resiliência; sociologicamente, revela que a fidelidade ética e moral desafia estruturas de poder e provoca hostilidade. A filosofia ética, de Aristóteles a Tomás de Aquino, demonstra que a virtude se realiza na coerência com a verdade, mesmo diante de adversidade, enquanto a psicologia contemporânea confirma que enfrentar desafios com propósito fortalece a identidade, o sentido de vida e a integridade pessoal.

A reflexão sobre este Evangelho nos alerta para as distorções contemporâneas da fé. As teologias da prosperidade, do domínio e da fé como mercadoria deturpam a radicalidade evangélica. Lucas 21 nos lembra que a fidelidade não é medida pelo lucro, prestígio ou sucesso, mas pelo serviço humilde, pela perseverança e pela coragem diante do ódio. O clericalismo, que valoriza títulos, posições hierárquicas e reconhecimento humano, se opõe à lógica evangélica que valoriza humildade, serviço e coragem em obediência a Deus.

A  promessa de Lucas é clara: aqueles que permanecem fiéis serão preservados e fortalecidos pelo Espírito, que lhes dará sabedoria, coragem e perseverança. Outros textos bíblicos reforçam esta certeza: em Romanos 8,35-39, Paulo assegura que nada nos separa do amor de Deus; em Mateus 10,28, Jesus ensina a não temer os que matam o corpo, mas não podem tocar a alma; em 2 Timóteo 3,12, o apóstolo nos lembra que todos os que desejam viver piamente sofrerão perseguição. A fidelidade transforma perda em crescimento e sofrimento em testemunho luminoso do Evangelho.

Historicamente, esta mensagem se confirma nos mártires cristãos, nos profetas e nos santos que enfrentaram perseguições políticas, sociais e religiosas. No contexto contemporâneo, ela nos desafia a viver nossa vocação diária: no serviço aos doentes, na educação, no cuidado familiar, na missão e na defesa da justiça. Cada gesto de fidelidade, coragem e generosidade expressa concretamente o Reino de Deus, transformando sofrimento em ocasião de graça.

O Evangelho de Lucas nos desafia ainda a refletir sobre os dons do Espírito: sabedoria, fortaleza, discernimento e perseverança. Estes capacitam o discípulo a enfrentar o ódio, a injustiça e a perseguição, testemunhando a verdade sem se submeter à lógica do poder ou do lucro. O discípulo fiel aprende que a verdadeira segurança não está na acumulação de bens, mas na confiança plena em Deus, que transforma cada prova, cada perda e cada sacrifício em ocasião de crescimento espiritual e testemunho luminoso.

A tradição patrística reforça que o discípulo não busca reconhecimento humano, mas coloca sua vida nas mãos de Deus, confiando que cada ato de generosidade é valorizado infinitamente pelo Senhor. O Concílio Vaticano II, em Lumen Gentium, exorta os fiéis à participação ativa e humilde na missão da Igreja, rejeitando o clericalismo e a lógica mercantil da fé. O Papa Francisco, em Evangelii Gaudium e Fratelli Tutti, lembra que generosidade, coragem e fidelidade superam qualquer lógica de lucro, domínio ou sucesso pessoal, e que a missão cristã se realiza no serviço ao próximo, na defesa da justiça e na entrega ao Reino.

Finalmente, Lucas 21,12-19 nos chama a reconhecer nossas fraquezas, confiar no Espírito e permanecer fiéis até o fim. A fidelidade cotidiana — no serviço aos irmãos, na missão, no cuidado familiar, no cuidado dos doentes ou na denúncia da injustiça — é ocasião de crescimento espiritual e construção do Reino. Cada ato de coragem, generosidade e perseverança se transforma em testemunho vivo do Evangelho, rejeitando a lógica da prosperidade, do domínio, do individualismo e da fé como mercadoria. Assim, a Boa Nova nos desafia a viver uma fé radical, corajosa e transformadora, conscientes de que cada sacrifício, cada prova e cada perda é contado como luz do Reino de Deus neste mundo.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

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