quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Um breve olhar sobre Lucas 15,1–10

Jesus se encontra diante de dois grupos bem distintos: de um lado, os críticos religiosos — fariseus e escribas —, e de outro, os pecadores e publicanos que se aproximam para ouvi-lo. Lucas, o evangelista da misericórdia e da compaixão, é também o que mais observa as reações humanas diante da bondade de Deus. Ele escreve a um mundo marcado por fronteiras morais e religiosas, onde a pureza era moeda de prestígio e o pecado, motivo de exclusão. Nesse cenário, Jesus desestabiliza o sistema e faz emergir uma nova lógica: a do amor que busca, a do cuidado que se move em direção ao que está perdido. É um amor que não se satisfaz com noventa e nove, se uma única vida ainda está ferida à beira do caminho.

A liturgia proclama na quinta-feira da 31ª Semana do Tempo Comum texto não apenas neste dia, mas também em momentos em que a Igreja convida à conversão e ao reencontro com o Deus da ternura — como no 24º Domingo do Tempo Comum (Ano C), em que a parábola da ovelha e da moeda perdidas é lida antes do retorno do filho pródigo. São três parábolas unidas pela mesma música interior: a alegria de Deus por quem se reencontra, a festa que começa quando alguém volta a viver. Essa tríade lucana compõe o coração do Evangelho da Misericórdia. A liturgia nos devolve esse texto em tempos de recomeço, como se dissesse: “Volta a ouvir. Ainda há algo aqui que você não escutou.”

Jesus fala de ovelhas e moedas porque conhece a alma dos que o escutam. Muitos ali viviam do comércio e da criação de rebanhos. Ele não fala em linguagem teológica ou abstrata, mas em imagens do cotidiano — a ovelha que se afasta, a moeda que cai —, para que a verdade divina se revele naquilo que é humano. O pastoreio e a economia eram experiências concretas de valor e perda. Assim, o Evangelho se faz carne, a teologia se torna narrativa, e a salvação deixa de ser conceito para ser encontro. A ovelha representa a vida que se perde por distração, medo ou sedução; a moeda, a pessoa que se apaga sem sair do lugar, que está dentro de casa, mas fora da comunhão. São dois modos distintos de se perder: um pela distância, outro pelo esquecimento.

Na parábola da ovelha, há movimento: o pastor sai, busca, arrisca, e quando a encontra, coloca-a sobre os ombros. A imagem evoca o profeta Ezequiel, quando Deus diz: “Eis que eu mesmo procurarei minhas ovelhas e as cuidarei” (Ez 34,11). Aqui, Jesus se apresenta como o próprio rosto desse Deus-pastor, que não delega a outros o cuidado de quem se perde. Já na parábola da moeda, o cenário é doméstico: a mulher acende a lâmpada, varre a casa e procura até encontrar. A mulher — símbolo da comunidade — ilumina o interior da casa e mobiliza suas forças para restaurar o valor que se perdeu no silêncio da poeira. Essa mulher é figura da Igreja, chamada a acender a luz da Palavra e da oração, para reencontrar o que perdeu dentro de si mesma.

A ovelha se perde fora; a moeda, dentro. Quantos de nós estamos “moedas perdidas” dentro da própria comunidade? Cumprimos ritos, participamos de grupos, mas já não vibramos com a vida do Evangelho. Vivemos no mesmo espaço, mas já não somamos no amor. Há também “ovelhas perdidas” que se afastaram, às vezes por feridas provocadas por lideranças clericais rígidas, por comunidades que excluem, por teologias que prometem prosperidade, mas negam compaixão. Jesus denuncia a lógica que celebra a exclusão em nome da pureza. Quantas vezes, nas estruturas eclesiais, há quem agradeça por ter “menos trabalho” quando alguém se afasta? Quantas vezes a pastoral vira uma vitrine de números, e não um espaço de reencontro?

O texto de Lucas nos convida a uma revisão profunda: quem somos hoje? Os pecadores que buscam ouvir Jesus, ou os religiosos que o criticam por sentar-se à mesa com eles? Essa mesa é o lugar do escândalo e da revelação. Nela, o Evangelho destrói fronteiras: Deus come com quem tem fome. O banquete é o sacramento da inclusão, não o prêmio dos puros. Como no Salmo 23, o pastor “prepara uma mesa diante dos inimigos”, e a alegria de Deus é ver os que antes estavam distantes sentarem-se de novo à sua presença. Essa mesa é também o altar da Eucaristia, onde o Cristo se oferece por todos, inclusive — e sobretudo — pelos que as estruturas religiosas consideram indignos.

A hermenêutica de Lucas é da reversão: o perdido é achado, o pequeno é valorizado, o pecador é acolhido. Jesus desestabiliza o eixo da religião da pureza e o substitui pela religião da misericórdia. Esse deslocamento tem peso antropológico: revela um Deus que não se define por sua perfeição, mas por sua compaixão. O Deus de Jesus é vulnerável ao amor. Ele sofre com o afastamento e se alegra com o reencontro. Aqui, o antropólogo René Girard ajuda a compreender o movimento: a sociedade humana se constrói pela exclusão do “bode expiatório”; Jesus rompe esse mecanismo, recusando-se a identificar um inimigo e assumindo a culpa para salvar o culpado. A ovelha perdida não é condenada — é procurada. A moeda não é desprezada — é reencontrada. A comunidade que vive o Evangelho é chamada a imitar esse movimento: buscar sem julgar, iluminar sem ferir.

O símbolo da luz é central. Quando a mulher acende a lâmpada, ela desperta a consciência e convoca à ação. A luz é a Palavra (Sl 119,105), é o discernimento que faz enxergar onde algo se perdeu. Acender a lâmpada é fazer teologia, é refletir, é confrontar-se com o Evangelho sem medo das sombras. Na psicologia, poderíamos dizer que é o gesto da individuação — reconhecer o que se esconde no inconsciente, varrer a casa interior para recuperar o que estava esquecido. A moeda representa o valor que cada ser humano tem aos olhos de Deus, valor que não se perde pelo tempo, pela queda ou pela poeira da história. Mesmo quando esquecida, ela continua sendo de prata. O problema não é perder o valor, mas perder a visibilidade do valor. A graça restaura a consciência da dignidade.

Essa restauração tem também uma dimensão social e política. O pastor e a mulher representam a Igreja que vai ao encontro das periferias, não apenas geográficas, mas existenciais. O Papa Francisco insiste que o pastor deve “ter o cheiro das ovelhas”, e a comunidade deve ser hospital de campanha, não alfândega espiritual. A Evangelii Gaudium denuncia a “mundanidade espiritual” de quem transforma a fé em poder e a religião em mercado. A Gaudium et Spes (n. 63–66) recorda que o progresso humano deve estar a serviço da pessoa e da comunhão, não da idolatria econômica. O Evangelho de hoje, portanto, é denúncia contra a teologia da prosperidade, que reduz Deus a gerente de sucesso; contra a teologia do domínio, que confunde fé com poder político; contra o individualismo, que transforma a salvação em projeto pessoal; e contra o clericalismo, que monopoliza a graça e expulsa quem pensa diferente.

A ovelha perdida é o pobre esquecido, o migrante sem acolhida, o jovem descartado, a mulher silenciada. A moeda perdida é o valor ético sufocado pela ganância, a compaixão apagada pelo medo, a solidariedade substituída pela competição. Ambas pedem uma Igreja que saia de si, que acenda a luz da profecia e varra o pó das estruturas mortas. Santo Agostinho dizia que “Deus nos ama como se fôssemos o único a amar” (Confissões, X,27). Para ele, cada alma vale mais do que o mundo inteiro. São Gregório Magno interpretava a ovelha sobre os ombros como a humanidade carregada pela cruz: “Ele encontrou e carregou, porque se fez homem para redimir o homem.” A patrística vê nessas parábolas o núcleo da encarnação: Deus procura o que é seu, e ao encontrar, se alegra, não por tê-lo de volta, mas por tê-lo amado.

Hoje, a moeda perdida pode estar na própria casa eclesial — nas comunidades que deixaram de ser sinais de comunhão, tornando-se clubes espirituais ou arenas de disputa ideológica. A pastoral se perde quando busca likes e influência mais do que almas. A liturgia se empobrece quando vira espetáculo. A fé se torna mercadoria quando vendida como amuleto de sucesso. E a profecia morre quando o altar se cala diante da injustiça. O pastor que não busca a ovelha perdida trai sua vocação. A mulher que não acende a luz deixa que a poeira esconda o tesouro do Evangelho. O discípulo que se conforma à maioria se torna mais uma moeda apagada no chão do templo. É por isso que Jesus provoca os fariseus: a verdadeira religião não é a dos que se acham dentro, mas a dos que se deixam encontrar.

Na sociologia, poderíamos ler esse texto como denúncia do fechamento institucional. As estruturas de poder tendem a excluir os que não se encaixam, e Jesus subverte essa lógica com gestos simbólicos. Ele não apenas conta histórias: encena o que narra. Sua prática é parábola viva. Ele come com os pecadores para ensinar que o Reino começa à mesa, não no trono. A alegria final das duas parábolas é comunitária: o pastor chama os amigos, a mulher chama as vizinhas. A salvação não é evento solitário, é festa compartilhada. Deus é comunhão e quer comunhão. Quando alguém volta, todos são chamados a celebrar. A alegria do céu é reflexo da alegria da terra reconciliada. O pecado rompe laços; a graça os refaz. 

A parábola, portanto, é também uma crítica filosófica à lógica utilitarista. No mundo do lucro, perder um é aceitável se os noventa e nove estão seguros. No Reino de Deus, perder um é insuportável, porque cada vida é absoluta. Jesus devolve o valor ontológico à pessoa. Nenhuma existência é meio, todas são fim. A dignidade humana, fundamento da Fratelli Tutti, é reafirmada na figura da ovelha e da moeda. Essa encíclica recorda que “ninguém se salva sozinho” (n. 32), e que “o amor que rompe as fronteiras é o verdadeiro motor da fraternidade” (n. 222). Deus não contabiliza fiéis; Ele busca filhos. A Igreja, portanto, deve abandonar a contabilidade pastoral e assumir a mística do encontro. Buscar o perdido exige coragem espiritual e lucidez histórica. A exegese mostra que Lucas escreveu em um contexto de tensões entre judeu-cristãos e pagãos convertidos. O tema do “perdido” é também metáfora da inclusão dos gentios. Deus não tem fronteiras étnicas nem religiosas. Hoje, esse horizonte se atualiza na necessidade de diálogo inter-religioso, de abertura às diferenças, de hospitalidade com os marginalizados da fé. A teologia contemporânea nos convida a reconhecer o Espírito agindo também fora das fronteiras visíveis da Igreja. O pastor que busca fora e a mulher que varre dentro representam, juntos, a dinâmica do Espírito que atua dentro e fora das instituições. O Espírito sopra onde quer (Jo 3,8).

Assim, Lucas 15,1–10 é um espelho da missão da Igreja hoje. Pastores que não saem, comunidades que não iluminam, crentes que não festejam — todos precisam redescobrir a alegria do Evangelho. “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus” (Evangelii Gaudium, 1). Quando essa alegria se perde, resta apenas estrutura. Quando o amor se apaga, sobra doutrina sem alma. Quando a profecia silencia, instala-se o clericalismo. É tempo de reacender a lâmpada, de varrer o chão do coração e das instituições, de sair ao encontro da ovelha ferida que grita nas periferias, nas ruas, nos hospitais, nas prisões e nos desertos digitais.

O céu se alegra por um só pecador que se converte. Essa alegria é critério de autenticidade espiritual. Onde não há festa pelo reencontro, há farisaísmo disfarçado de zelo. A parábola nos chama à conversão da sensibilidade. Precisamos sentir de novo o peso da ovelha nos ombros, o brilho da moeda reencontrada nas mãos. Precisamos reaprender a chorar por quem se perdeu e a cantar por quem voltou. O amor é a luz que não se apaga. E Deus continua varrendo o chão do mundo, à procura do brilho que somos, à procura do rosto que se apagou na poeira da pressa e da indiferença. Quem o encontra, encontra a si mesmo — e descobre que a festa do céu começa quando a terra se comove.



DNonato – Teólogo do Cotidiano

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