A institucionalização definitiva do Dia de Ação de Graças (Thanksgiving) acontece em 1863, durante a Guerra Civil norte-americana, quando Abraham Lincoln, a partir de insistentes campanhas da escritora Sarah Josepha Hale, proclamou o feriado nacional como um momento de súplica, gratidão e reconciliação em meio a uma nação dilacerada. É particularmente significativo que a celebração tenha sido oficializada no contexto de guerra: a gratidão aqui não surge da abundância, mas da necessidade profunda de esperança e reconstrução moral. A partir de então, o caráter religioso e cívico se entrelaça e o Thanksgiving passa a orientar a memória social americana, lembrando não apenas colheitas fartas, mas a convicção teológica — especialmente protestante — de que Deus intervém na história, abençoa a nação, sustenta o povo e convoca a solidariedade.
No século XX, a data ganhou elementos culturais que se tornaram característicos. Entre eles, o famoso “perdão ao peru”, uma cerimônia realizada anualmente pelo presidente dos Estados Unidos. Embora muitos acreditem que essa prática tenha origem nos tempos dos primeiros peregrinos, seu formato atual é relativamente recente. Há registros pontuais de presidentes recebendo perus como presentes desde o século XIX, mas o ato formal de “perdoar” o animal só se consolidou a partir de 1989, com George H. W. Bush, tornando-se um rito performático que mistura humor, tradição e política. O perdão ao peru não possui um significado teológico, mas funciona simbolicamente como uma dramatização pública da clemência, numa nação acostumada a articular política com espetacularização. É um gesto que humaniza a figura presidencial e, ao mesmo tempo, reforça a narrativa de continuidade histórica do feriado.
O Dia de Ação de Graças (Thanksgiving) é uma das datas mais importantes para compreender a cultura norte-americana. Ele funciona como dispositivo de coesão social, capaz de unir famílias dispersas, criar rituais domésticos e fortalecer identidades. Pesquisas mostram que é o feriado que mais provoca deslocamentos internos nos Estados Unidos, superando o Natal. O retorno ao lar e a mesa partilhada enfatizam valores como família, comunidade, reconhecimento e gratidão. Em certo sentido, o feriado funciona como ritual de “reencantamento da vida”: diante do ritmo acelerado da sociedade americana, marcada por produtividade, competição e individualismo, o Thanksgiving se apresenta como pausa simbólica para recuperar o sentido do comum. Entretanto, nem tudo é harmonia. Há também tensões históricas profundas: para diversas comunidades indígenas, o dia é lembrado como “National Day of Mourning” — Dia Nacional de Luto —, denunciando a violência, a perda territorial e o apagamento cultural decorrentes da colonização. Assim, o feriado possui também dimensão crítica, revelando como memórias coletivas podem ser celebradas ou lamentadas conforme o lugar social de quem as vive.
No Dia de Ação de Graças (Thanksgiving) é predominantemente moldada pela matriz protestante, especialmente o puritanismo e o calvinismo. Os peregrinos enxergavam a própria travessia como êxodo, assumindo categorias bíblicas de povo eleito, terra prometida, providência divina e pacto comunitário. A gratidão, nesse contexto, não é mero sentimento, mas resposta espiritual à ação de Deus na história. A Bíblia oferece inúmeras referências que fundamentam essa prática: “Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus” (1Ts 5,18), “Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueças de nenhum dos seus benefícios” (Sl 103,2) ou ainda “Ofereçam sacrifícios de louvor e proclamem as obras do Senhor” (Sl 107,22). A tradição cristã, tanto protestante quanto católica, compreende a gratidão como reconhecimento de que a criação é dom, e não conquista humana. Portanto, a mesa do Thanksgiving ecoa a simbologia da mesa bíblica: partilha, reconhecimento da providência, compromisso com o outro e memória agradecida.
Do ponto de vista antropológico, o Dia de Ação de Graças (Thanksgiving) articula elementos universais presentes em rituais de gratidão ao redor do mundo. Quase todas as culturas possuem celebrações ligadas à colheita, ao ciclo agrícola e ao reconhecimento pela vida. No Brasil, por exemplo, algumas festas populares — como festas de colheita ou festas de padroeiros vinculadas à terra — carregam dimensão semelhante, ainda que distintas na origem. Na antropologia, esses rituais são interpretados como mecanismos que reafirmam a ordem social, criam vínculos de reciprocidade e reforçam a ideia de que o alimento conecta o humano ao sagrado. Comer juntos é, antes de tudo, um ato comunitário que gera pertencimento. Assim, o Thanksgiving intensifica aquilo que Marcel Mauss chamaria de “dádiva”: ao partilhar, cria-se um laço moral que sustenta a vida em comum.
Comparar o Dia de Ação de Graças (Thanksgiving) com o Natal revela tanto proximidades quanto contrastes interessantes. Ambos giram em torno da mesa, da família, da comida e da memória. Ambos são feriados que convocam retorno ao lar e evocam valores como amor, perdão, reconciliação e esperança. No entanto, o Natal possui fundamento explicitamente cristológico e universal, enquanto o Thanksgiving é mais político e identitário, vinculado à história dos Estados Unidos. O Natal celebra o mistério do Deus que se faz carne; o Thanksgiving celebra a memória de um povo que se compreende abençoado e chamado a agradecer. O Natal fala de encarnação; o Thanksgiving fala de providência. Em muitas famílias norte-americanas, porém, as fronteiras se misturam e o feriado na quarta quinta-feira de novembro funciona como preparação emocional para a temporada natalina. Sociologicamente, o Thanksgiving reforça uma sensibilidade mais laica, enquanto o Natal mantém forte dimensão religiosa, mesmo quando marcado pelo consumo.
A influência protestante no desenvolvimento do feriado é particularmente perceptível na ênfase moral, na disciplina comunitária e na interpretação teológica da história. Os sermões de ação de graças foram fundamentais na formação da consciência americana. Ali se pregava que a prosperidade era sinal da bênção divina — um elemento que, deslocado, mais tarde alimentaria mentalidades próximas à teologia da prosperidade. Mas, no puritanismo original, a prosperidade não era conquista individual, e sim responsabilidade comunitária, exigindo solidariedade, ética do trabalho e justiça. Com o tempo, especialmente nos séculos XIX e XX, o feriado se secularizou, mas nunca perdeu totalmente sua estrutura discursiva protestante, que liga gratidão a moralidade pública.
Os alimentos da celebração também se tornaram símbolos culturais. O peru assado, o purê de batatas, o molho de cranberry, a torta de abóbora e o recheio (stuffing) compõem uma liturgia doméstica que transcende o sabor: representam continuidade, memória familiar e tradição. Para muitos imigrantes, o primeiro Thanksgiving é uma espécie de rito de passagem, sinal de assimilação à cultura americana. No entanto, a comida não é apenas tradição: é também economia. A preparação para o feriado movimenta setores alimentícios, redes de varejo, campanhas publicitárias e estratégias de marketing. O imaginário da “mesa farta” se converte em mercadoria, reforçando uma lógica de consumo que muitas vezes contrasta com a proposta original de simplicidade e gratidão.
É nesse ponto que aparece o fenômeno da Black Friday, que se conecta diretamente ao Dia de Ação de Graças (Thanksgiving) e revela uma das maiores contradições culturais associadas ao feriado. A Black Friday nasceu na Filadélfia, nos anos 1950 e 1960, quando policiais usavam o termo para descrever o caos no trânsito e a multidão de consumidores que descia às ruas no dia seguinte ao feriado. A expressão se popularizou nacionalmente a partir dos anos 1980, quando varejistas passaram a reinterpretá-la como o momento em que as lojas “saem do vermelho” e entram no “preto”, isto é, no lucro. Atualmente, é o maior evento de consumo do mundo. Nos Estados Unidos, movimenta anualmente centenas de bilhões de dólares, gerando filas, disputas, acampamentos em frente a lojas e impactos significativos na economia. No Brasil, a Black Friday foi incorporada a partir de 2010, inicialmente com desconfiança devido a práticas de preços inflados (“metade do dobro”), mas ao longo dos anos consolidou-se como evento de grande impacto comercial, expandindo-se para o e-commerce e influenciando o Natal, que passou a ser planejado financeiramente a partir das promoções de novembro. Do ponto de vista sociológico, a Black Friday apresenta o paradoxo de colocar lado a lado, sem intervalo simbólico, o dia da gratidão e o dia do consumo extremo. Essa justaposição revela muito sobre a sociedade contemporânea: a gratidão dá lugar à ansiedade por adquirir, a mesa partilhada se transforma em vitrine, e a comunhão é substituída pela corrida por descontos. No Brasil, esse processo é ainda mais complexo, pois mistura desejo de ascensão econômica, influência cultural norte-americana e uso publicitário massivo.
Na atualidade, o Dia de Ação de Graças (Thanksgiving) continua sendo um dos feriados mais significativos dos Estados Unidos, mas também se expande globalmente, ainda que de forma mais simbólica que oficial. Em terras brasileiras, embora o feriado tenha sido instituído por lei em 1949 — através do embaixador Joaquim Nabuco, que desejava aproximar o Brasil da cultura norte-americana —, nunca se enraizou com a mesma força. Ainda assim, algumas comunidades religiosas, especialmente protestantes e evangélicas, celebram a data com cultos de gratidão, reforçando a espiritualidade do agradecimento. Em escolas, igrejas, instituições e famílias, o feriado se adapta, perde elementos, ganha outros, mas mantém sua essência: agradecer pela vida, pelos vínculos, pelo sustento e pela presença do outro. Em sociedades marcadas pela pressa, pelo individualismo e pela fragmentação, esse gesto se torna profundamente contracultural.
Ao longo de sua história, o Dia de Ação de Graças (Thanksgiving) tornou-se mais do que memória do passado: tornou-se espelho do presente. Nele encontramos tensões entre gratidão e consumo, tradição e mercado, memória e espetáculo, espiritualidade e política, celebração e luto. É um feriado que evoca a necessidade de reconhecer a dádiva, mas também de enfrentar com honestidade as sombras da história. Talvez sua força esteja exatamente nesse duplo movimento: agradecer não apagando dores, mas reconhecendo caminhos. A gratidão não é negação da realidade; é coragem de ver a vida como dom mesmo quando a vida é frágil.
Assim, o Dia de Ação de Graças (Thanksgiving) permanece como convite à humildade, ao diálogo, à memória justa, ao cuidado com a terra, ao compromisso com o próximo e à superação das lógicas de indiferença. Em tempos em que o mundo parece cada vez mais polarizado, veloz e desumanizante, recuperar a dimensão profunda da gratidão pode ser uma forma de resistir. Agradecer é reconhecer que ninguém vive sozinho. É compreender que a mesa só é mesa porque é compartilhada. É admitir que a vida, apesar das contradições, ainda é um milagre cotidiano. E quando a gratidão se torna prática — não apenas palavra —, ela tem o poder de transformar relações, curar feridas e reacender esperanças. Talvez seja essa a maior herança do Thanksgiving: lembrar que o verdadeiro sentido da abundância nunca esteve na quantidade de alimentos ou nas promoções da Black Friday, mas na capacidade humana de olhar para a existência e dizer, com sinceridade, que ainda há motivos para agradecer.
DNonato - Agradeço pela graça da vida

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