A perícope de João 17,11b-19 ocupa um lugar singular na vida litúrgica da Igreja. Na tradição litúrgica da Igreja Católica Romana, este trecho integra a chamada Oração Sacerdotal de Jesus e é proclamado no Tempo Pascal, especialmente na transição entre Ascensão e Pentecostes. No Lecionário Romano, suas diferentes seções aparecem ao longo da 7ª Semana da Páscoa, particularmente nas celebrações feriais e nos dias que sucedem a Solenidade da Ascensão do Senhor, quando a Igreja permanece em oração à espera do Espírito Santo (At 1,12-14). O texto também ressoa na Liturgia das Horas durante o Tempo Pascal, sobretudo no Ofício das Leituras e nas meditações que acompanham a expectativa pentecostal. Nas Igrejas do Oriente, especialmente na tradição bizantina, a Oração Sacerdotal relaciona-se ao Domingo dos Santos Padres do Concílio de Niceia, unindo a oração pela unidade à profissão da fé nicena. Nas Igrejas históricas do Ocidente, como Anglicanas, Luteranas, Reformadas e Metodistas, João 17 aparece frequentemente nos lecionários ecumênicos do período pascal e tornou-se um dos fundamentos bíblicos da espiritualidade ecumênica contemporânea.
A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos nasceu originalmente no hemisfério norte no início do século XX, celebrada entre 18 e 25 de janeiro, entre a antiga festa da Cátedra de Pedro e a conversão de Paulo (At 9,1-19; Gl 1,13-17). No hemisfério sul, especialmente na América Latina, foi deslocada pastoralmente para o período próximo a Pentecostes, entre Ascensão e Pentecostes, para favorecer a participação das comunidades e aproximar-se da experiência da Igreja nascente reunida no Cenáculo (At 1,13-14; At 2,1-11). No Brasil, sua organização acontece por meio do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, que reúne a Igreja Católica Apostólica Romana, a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, a Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia e a Aliança de Batistas do Brasil. O fundamento da Semana permanece a oração de Cristo: “Que todos sejam um” (Jo 17,21), ecoando também a visão profética de Ezequiel sobre os dois pedaços de madeira tornados um só povo (Ez 37,15-28).
João 17,11b-19 nos conduz ao centro do mistério joanino. Não estamos diante de uma parábola, de um milagre ou de um discurso moral, mas diante da intimidade do Filho com o Pai. É o momento em que o Verbo encarnado (Jo 1,14), prestes a atravessar a paixão (Jo 18,1-11), eleva ao Pai a súplica pela comunidade que permanecerá no mundo.
O pré-texto imediato começa em João 13. A ceia inicia-se com o lava-pés (Jo 13,1-17). O gesto possui força simbólica extraordinária. O Senhor assume a condição do servo, cumprindo o cântico do Servo Sofredor (Is 52,13–53,12). Aquele que é “imagem do Deus invisível” (Cl 1,15) toma a toalha e se abaixa diante dos discípulos. Realiza concretamente aquilo que Paulo descreverá como kenosis: “Esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo” (Fl 2,6-8).
Após o lava-pés, vêm o anúncio da traição (Jo 13,21-30), o mandamento novo (Jo 13,34-35), a promessa do Paráclito (Jo 14,15-26), a videira verdadeira (Jo 15,1-17) e o anúncio das perseguições (Jo 15,18–16,4). Assim, a oração sacerdotal não surge no vazio. Ela nasce depois do amor servido, da fragilidade revelada e da iminência da cruz.
“Pai santo, guarda-os em teu nome que me deste, para que sejam um como nós somos um” (Jo 17,11).
O verbo “guardar” remete ao cuidado divino presente em toda Escritura. O salmista proclama: “O Senhor te guardará de todo mal” (Sl 121,7). O Nome, no pensamento hebraico, é presença e identidade. Quando Deus revela seu Nome a Moisés (Ex 3,13-15), manifesta sua proximidade histórica. Guardar no Nome significa permanecer sob a presença viva do Deus da Aliança (Dt 6,4-9).
Jesus não pede riqueza, prestígio ou triunfo. Pede unidade. Aqui encontramos profunda ressonância com a oração do Shemá: “Ouve, Israel, o Senhor é um” (Dt 6,4). A unidade da comunidade deve espelhar a unidade divina.
Essa unidade encontra eco em inúmeras passagens. Paulo exorta: “Há um só corpo e um só Espírito... um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef 4,4-6). Em Gálatas, rompe as fronteiras sociais e religiosas: “Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher” (Gl 3,28). Em Atos, a comunidade nascente aparece “unida e possuindo tudo em comum” (At 2,42-47; At 4,32-35).
Essa visão confronta diretamente as divisões denunciadas por Paulo em Corinto: “Acaso Cristo está dividido?” (1Cor 1,13). Também recorda a oração do salmista: “Oh, como é bom e agradável viverem unidos os irmãos” (Sl 133,1).
A antropologia bíblica mostra que o ser humano foi criado para a comunhão. “Façamos o ser humano à nossa imagem” (Gn 1,26-27). O plural divino aponta para uma dimensão relacional. Por isso “não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18). A ruptura da comunhão aparece logo após a queda (Gn 3,7-12), quando surgem medo, acusação e distanciamento.
“Não peço que os tires do mundo” (Jo 17,15).
A oração de Jesus rejeita qualquer espiritualidade alienante. O Filho não pede retirada da história, mas presença transformadora. Isso já estava presente na vocação de Israel: “Sereis para mim reino sacerdotal e nação santa” (Ex 19,6). A santidade bíblica nunca significou isolamento, mas testemunho.
Jeremias já exortava os exilados a buscarem o bem da cidade (Jr 29,7). O profeta Miqueias resume a espiritualidade autêntica: “Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com Deus” (Mq 6,8).
Jesus reafirma isso nos sinóticos. Em Mateus, os discípulos são “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,13-16). Em Lucas, a missão inclui anunciar libertação aos cativos (Lc 4,18-19; Is 61,1-2). Em Marcos, o seguimento passa pela cruz (Mc 8,34-35).
João aprofunda esta dimensão dizendo que os discípulos permanecem no mundo, mas não pertencem às estruturas que negam a vida (Jo 17,14.16).
“Santifica-os na verdade; tua Palavra é a verdade” (Jo 17,17).
Santificar significa consagrar para missão. Em Levítico, Deus declara: “Sede santos porque eu sou santo” (Lv 19,2). Contudo, o próprio capítulo explica o significado dessa santidade: não explorar o pobre (Lv 19,13), não oprimir o estrangeiro (Lv 19,33-34), praticar justiça (Lv 19,15).
Os profetas retomam essa crítica. Isaías denuncia o culto vazio (Is 1,11-17). Amós rejeita liturgias divorciadas da justiça: “Corra o direito como água” (Am 5,24). Oseias afirma: “Quero misericórdia e não sacrifícios” (Os 6,6).
Jesus cita Oseias contra o legalismo religioso (Mt 9,13; Mt 12,7).
A verdade em João é Cristo. “Eu sou a verdade” (Jo 14,6). A Palavra que santifica remete também ao prólogo joanino: “A graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1,17).
Essa verdade não é ideológica. É existencial. Ela liberta (Jo 8,32). Revela o Pai (Jo 1,18). Desmascara o poder opressor (Jo 18,37-38).
Por isso João 17 confronta a instrumentalização religiosa.
Quando a religião legitima violência, trai o Evangelho (Mt 23,13-36).
Quando transforma fé em prosperidade econômica, esquece que Jesus “não tinha onde reclinar a cabeça” (Lc 9,58).
Quando se aproxima do poder autoritário, ignora que o Reino não vem pela espada (Mt 26,52; Jo 18,36).
Quando abraça o clericalismo, esquece que “quem quiser ser o primeiro torne-se servo” (Mc 10,42-45).
A crítica profética reaparece em Ezequiel contra os pastores que exploram o rebanho (Ez 34,1-16). Jeremias denuncia líderes que dispersam as ovelhas (Jr 23,1-4). Jesus retoma essa tradição ao apresentar-se como Bom Pastor (Jo 10,11-18).
“Eu os enviei ao mundo” (Jo 17,18).
A missão nasce do envio trinitário. O Pai envia o Filho (Jo 3,16-17). O Filho envia os discípulos (Mt 28,18-20; Jo 20,21). O Espírito impulsiona a Igreja (At 1,8).
A missão bíblica possui direção preferencial para os vulneráveis. Jesus anuncia bem-aventurança aos pobres (Lc 6,20). Identifica-se com famintos, estrangeiros e presos (Mt 25,31-46). Narra a parábola do rico e Lázaro (Lc 16,19-31). Exalta o samaritano que interrompe sua rota para cuidar do ferido (Lc 10,25-37).
Tiago dirá que a religião pura consiste em cuidar dos órfãos e viúvas (Tg 1,27). João afirmará que não se pode amar a Deus ignorando o irmão (1Jo 4,20).
Essa missão exige leitura dos sinais dos tempos (Mt 16,3). Hoje ela implica denunciar racismo estrutural, exclusão social, feminicídio, devastação ambiental e manipulação religiosa.
Laudato Si’ ecoa Romanos 8,22: “Toda criação geme”. Apocalipse sonha com nova criação (Ap 21,1-5). Isaías já anunciava novos céus e nova terra (Is 65,17).
Os clamores contemporâneos recordam o êxodo. Deus escuta o grito dos escravizados (Ex 3,7-8). Maria canta a derrubada dos poderosos e a exaltação dos humildes (Lc 1,46-55). Jesus proclama bem-aventurados os que têm fome de justiça (Mt 5,6).
O diálogo com os sinóticos amplia a compreensão.
Mateus enfatiza o Reino e a justiça (Mt 6,33).
Marcos ressalta o discipulado da cruz (Mc 8,31-38).
Lucas apresenta misericórdia e inclusão (Lc 15).
João mergulha na comunhão trinitária.
No Getsêmani dos sinóticos, Jesus ora em angústia (Mt 26,36-46; Mc 14,32-42; Lc 22,39-46). João desloca o foco para a glorificação e a unidade.
Ambos, porém, convergem na entrega: “Faça-se tua vontade” (Mt 26,39) e “Pai, glorifica teu Filho” (Jo 17,1).
Celebrar os 1700 anos do Concílio de Niceia torna tudo ainda mais significativo. O Credo afirma Cristo como “Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro”, ecoando Jo 1,1-5 e Hb 1,1-3. A unidade ali professada continua desafio atual.
A divisão cristã contradiz a oração de Cristo.
Unitatis Redintegratio afirma que as divisões “contradizem abertamente a vontade de Cristo”.
Ut Unum Sint recorda que a busca da unidade é exigência evangélica.
João 17 permanece, portanto, como profecia.
Num mundo marcado por polarizações, ele recorda Efésios 2,14: “Cristo é nossa paz; dos dois povos fez um”.
Num mundo de muros, recorda Isaías 58,6-7: romper correntes e repartir pão.
Num mundo de violência, recorda Romanos 12,21: vencer o mal pelo bem.
Num mundo de idolatria do poder, recorda Filipenses 2,5-11.
Num mundo de exclusão, recorda Apocalipse 7,9: uma multidão de todas as nações reunida diante do Cordeiro.
A oração sacerdotal continua ecoando.
Ela atravessa Jerusalém, Antioquia (At 11,26), Éfeso (At 19), Roma (Rm 1,7), Medellín, Puebla, Aparecida e as periferias do presente.
Continua perguntando à Igreja se deseja realmente ser uma.
Uma como a Trindade.
Uma como o corpo de Cristo (1Cor 12,12-27).
Uma como o rebanho do Bom Pastor (Jo 10,16).
Uma como o povo reunido no Pentecostes (At 2,1-11).
Uma como a Jerusalém nova, onde Deus enxugará toda lágrima (Ap 21,4).
“Que sejam um”.
Essa oração continua viva enquanto houver pobres clamando como Israel no Egito (Ex 2,23-25), viúvas esperando justiça como em Lucas 18,1-8, Lázaros à porta dos palácios (Lc 16,19-31), e ossos ressequidos esperando o sopro do Espírito (Ez 37,1-14).
Porque a unidade pela qual Jesus ora não é apenas eclesiológica. Ela certamente alcança a Igreja e interpela suas estruturas, ministérios e relações, mas não se reduz à organização institucional ou à busca de consensos administrativos. Em João 17, a unidade nasce do próprio coração da Trindade e se torna vocação para todo o Povo de Deus. Por isso, a Igreja não é chamada a reproduzir esquemas de poder, clericalismos autorreferenciais ou centralizações que sufocam a corresponsabilidade, mas a tornar-se sinal visível da comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Jo 17,21; Ef 4,1-6). Numa sociedade marcada por polarizações, tribalismos ideológicos e fragmentações sociais, a unidade cristã torna-se testemunho contracultural, podemos dizer que a oração pela unidade é:
- Escatológica: porque aponta para o horizonte último da história, quando Deus será “tudo em todos” (1Cor 15,28), quando a criação inteira, hoje marcada por gemidos e dores de parto (Rm 8,22-23), será reconciliada e encontrará sua plenitude no Reino definitivo, onde haverá “um novo céu e uma nova terra” (Ap 21,1-5). A oração de Jesus em João 17 não permanece fechada no presente imediato dos discípulos reunidos no Cenáculo, mas projeta o olhar para a consumação da história humana e cósmica, para o momento em que toda divisão será vencida, toda lágrima enxugada (Ap 21,4), toda injustiça julgada (Mt 25,31-46) e toda a criação restaurada naquele que faz novas todas as coisas (Ap 21,5). Contudo, essa esperança escatológica não é fuga da realidade, nem espiritualidade alienante voltada apenas para o além. A tradição profética e o próprio Evangelho recusam qualquer escatologia que se transforme em resignação diante do sofrimento histórico. Jesus anuncia um Reino já presente e ainda por vir (Mc 1,15; Lc 17,21). O “já” da presença do Reino convive com o “ainda não” de sua plenitude. Por isso, a escatologia cristã é esperança ativa, compromisso histórico e resistência profética. Em tempos marcados por guerras, deslocamentos forçados, crises ambientais, colapso ecológico, desigualdades crescentes, perda de sentido e uma cultura global atravessada pela desesperança, a oração de Cristo recorda que a última palavra da história não pertence à morte (1Cor 15,54-57), nem aos impérios que absolutizam o poder (Dn 7,1-14), nem ao mercado transformado em ídolo (Mt 6,24), nem à violência que destrói vidas e povos (Is 2,4). A última palavra pertence ao Deus da vida, que escuta o clamor dos oprimidos (Ex 3,7-8), ressuscita os crucificados da história e permanece fiel às suas promessas (Hb 10,23). Por isso, a unidade desejada por Cristo possui dimensão escatológica: ela antecipa, já no presente, o banquete do Reino anunciado pelos profetas (Is 25,6-9), realizado simbolicamente nas mesas de Jesus com pecadores e excluídos (Lc 5,29-32; Lc 14,12-24) e consumado na visão do Apocalipse, onde povos, línguas e nações estarão reunidos diante do Cordeiro (Ap 7,9). A unidade torna-se, assim, sinal antecipado do futuro de Deus na história, profecia viva de uma humanidade reconciliada e anúncio de que o Reino já germina silenciosamente no meio do mundo (Mc 4,26-29), mesmo entre as ruínas, as feridas e as esperas do tempo presente.
- Missionária: porque não permanece encerrada dentro dos muros eclesiais nem reduzida às suas estruturas. A oração de Jesus desemboca imediatamente no envio: “Assim como tu me enviaste ao mundo, eu também os enviei ao mundo” (Jo 17,18). A unidade, portanto, não é ponto de chegada nem realidade estática; é condição e impulso para a missão. Uma Igreja fechada em disputas internas, autorreferencial ou preocupada apenas com sua própria manutenção corre o risco de trair sua vocação apostólica. A comunhão autêntica nunca se esgota em si mesma: ela transborda em serviço, diaconia, anúncio e compromisso concreto com a vida. Hoje, viver essa missão significa sair ao encontro das periferias existenciais e humanas; escutar o clamor dos pobres, como Deus ouviu o grito do seu povo no Egito (Ex 3,7); defender os descartados, acolher migrantes, amparar os feridos da história e responder às novas formas de pobreza — sociais, emocionais, espirituais e relacionais. A missão da Igreja continua sendo a mesma de Cristo: “anunciar a Boa Nova aos pobres” (Lc 4,18). Isso exige uma fé encarnada, profética e comprometida com a dignidade humana, porque o Evangelho não foi dado para ser preservado entre muros, mas para ser levado às estradas da .
- Profética: Ela é profética porque denuncia tudo aquilo que contradiz o Reino. A oração de Cristo não busca uma paz construída sobre silêncios cúmplices, neutralidades convenientes ou conformismos religiosos. Os profetas ensinaram que não existe verdadeira unidade onde reina injustiça. Amós denuncia um culto incapaz de gerar justiça e proclama: “Corra o direito como água e a justiça como um rio perene” (Am 5,24). Isaías rejeita o jejum vazio e anuncia que o verdadeiro culto consiste em romper as correntes da opressão, repartir o pão com o faminto e acolher o pobre sem abrigo (Is 58,6-9). Jeremias denuncia os pastores que dispersam o rebanho (Jr 23,1-4) e Ezequiel condena os líderes que apascentam a si mesmos em vez das ovelhas (Ez 34,1-16). A unidade cristã exige, portanto, confrontar estruturas de pecado, denunciar manipulações religiosas, resistir ao uso político-partidário da fé e desmascarar teologias que absolutizam riqueza, poder ou dominação. O Evangelho perde sua força quando se torna instrumento ideológico, quando o altar se curva aos projetos autoritários, quando a religião abandona a misericórdia para abraçar o ódio, ou quando o discipulado é substituído pela lógica da conquista e da guerra cultural. Jesus já havia advertido contra o legalismo que negligencia “a justiça, a misericórdia e a fidelidade” (Mt 23,23), contra os que transformam a religião em aparência (Mt 6,1-18) e contra a tentação do poder que se impõe sobre os outros (Mc 10,42-45). A crítica profética permanece atual diante da desigualdade social, do racismo estrutural, da devastação ambiental, do feminicídio, da violência urbana, das guerras, das migrações forçadas e da cultura do descarte denunciada reiteradamente pelo magistério recente. O clamor da terra e o clamor dos pobres continuam unidos (Rm 8,22; Sl 85,11-14). A Casa Comum geme (Gn 2,15; Ap 11,18) enquanto os crucificados da história continuam esperando libertação.
- Pascal: porque nasce da cruz e da ressurreição. A oração de João 17 ecoa à sombra do Calvário, no limiar entre a entrega e a glorificação. A unidade pela qual Jesus suplica ao Pai não se ergue sobre vitórias humanas, prestígio ou poder, mas sobre o amor que “amou até o fim” (Jo 13,1). É uma unidade que atravessa a cruz antes de alcançar a manhã da ressurreição..Por isso, ela passa necessariamente pela kenosis (Fl 2,6-8): o esvaziamento de si, a renúncia ao ego que busca centralidade, o abandono das lógicas de domínio e a escolha radical do serviço. Não há comunhão autêntica onde prevalecem a vaidade, o clericalismo, a disputa por espaços ou a sede de reconhecimento. O caminho de Cristo é descendente: descer para servir, servir para amar e amar até entregar-se..Num mundo marcado pelo narcisismo social, pela cultura da performance, pelo individualismo e pela necessidade constante de visibilidade, a Páscoa permanece profundamente contracultural. Ela confronta a lógica do sucesso a qualquer custo e recorda que a fecundidade nasce da entrega, que a vida brota do dom e que o verdadeiro poder é serviço (Mc 10,42-45). A ressurreição não nega a cruz; ela a atravessa e a transfigura. Por isso, o Evangelho continua proclamando que é precisamente onde tudo parecia perdido, onde o fracasso parecia definitivo e onde a esperança parecia sepultada, que Deus faz nascer vida nova. A Páscoa é o anúncio profético de que o amor entregue jamais é estéril.
- Histórica, porque se realiza no concreto da vida humana e jamais fora dela. Deus não permanece distante nem indiferente à realidade: entra na história, caminha com o seu povo na travessia do deserto (Ex 13,21), assume a carne e a condição humana (Jo 1,14), chora diante da dor e da morte (Jo 11,35) e continua presente e sofredor nas vítimas da história (Mt 25,31-46). O Deus bíblico não habita uma espiritualidade alienada; revela-se no chão da existência, nos conflitos, nas esperanças e nas lutas do povo. Por isso, a unidade desejada por Jesus não pode permanecer apenas no discurso ou restrita aos espaços eclesiais. Ela precisa tocar a realidade concreta: as periferias urbanas marcadas pela exclusão, os povos originários ameaçados, os sem-terra, os sem-teto, os encarcerados, os jovens sem horizonte, os idosos abandonados e todos aqueles que perderam o sentido da vida. A oração de Jesus — “para que todos sejam um” (Jo 17,21) — exige uma comunhão que se traduza em justiça, solidariedade e compromisso histórico. A espiritualidade cristã não pode tornar-se abstração desencarnada nem refúgio intimista. A encarnação rompe toda tentativa de fuga da realidade. Como recordou a Conferência de Medellín, “a miséria, como fato coletivo, é uma injustiça que clama ao céu”. Assim, a história continua sendo lugar teológico, espaço da revelação, campo da missão e território onde o Reino de Deus é anunciado e discernido. É na vida concreta que a fé se verifica e onde o Evangelho é chamado a tornar-se prática libertadora.
- Reino de Deus: em gestação no meio da humanidade (Mc 1,15; Lc 17,21). Não um reino de dominação, mas de serviço. Não um império religioso, mas uma mesa partilhada. Não uma hegemonia cultural, mas o fermento escondido na massa (Mt 13,33), silencioso e transformador. O Reino cresce discretamente, como a semente que germina sem alarde (Mc 4,26-29). Manifesta-se no pão repartido e nos olhos que se abrem ao Ressuscitado (Lc 24,30-32); no cuidado com o ferido à beira do caminho, onde a compaixão vence a indiferença (Lc 10,25-37); na justiça que floresce e produz paz (Is 32,16-18); no clamor dos pobres que Deus escuta (Sl 34,7); e no Espírito que sopra onde quer, rompendo fronteiras e estruturas fechadas (Jo 3,8). O Reino não se impõe pela força, cresce pela misericórdia. Não nasce do poder, mas da partilha. Não se constrói por privilégios, mas pela solidariedade. Ele está em gestação no cotidiano: no gesto de cuidado, na defesa da dignidade humana, na mesa que acolhe, na esperança que resiste e na fé que se traduz em justiça. Porque o Reino de Deus não é fuga da história; é Deus fecundando a história por dentro.
Porque a unidade pela qual Jesus ora não é apenas eclesiológica. Ela certamente alcança a Igreja e interpela suas estruturas, ministérios e relações, mas não se reduz à organização institucional ou à busca de consensos administrativos. Em João 17, a unidade nasce do próprio coração da Trindade e se torna vocação para todo o Povo de Deus. Por isso, a Igreja não é chamada a reproduzir esquemas de poder, clericalismos autorreferenciais ou centralizações que sufocam a corresponsabilidade, mas a tornar-se sinal visível da comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Jo 17,21; Ef 4,1-6). Numa sociedade marcada por polarizações, tribalismos ideológicos e fragmentações sociais, a unidade cristã torna-se testemunho contracultural e profético, a oração de Jesus permanece aberta na história.
Ea continua ecoando nas Igrejas divididas, nas comunidades feridas, nos povos em guerra, nas periferias esquecidas e nos corações fragmentados.
“Que sejam um” (Jo 17,21) não é apenas uma súplica litúrgica
- É programa de vida. (Mt 5–7)
- É projeto do Reino. (Mc 1,15)
- É convocação profética. (Lc 4,18-19)
- É horizonte escatológico. (Ap 21,1-5)
- É missão da Igreja. (Mt 28,19-20)
- É memória da Páscoa. (Lc 22,19; 1Cor 11,26)
- É compromisso histórico com os pobres e a justiça.(Mt 25,31-46) .
E continua sendo esperança para um mundo que ainda espera reconciliação.
DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, Discípulo do Verbo na poeira dos caminhos. Fermento de comunhão na massa sofrida do mundo. Na contramão da indiferença, a favor do Reino.


Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado pelo seu comentário.