terça-feira, 21 de setembro de 2021

Um olhar sobre Mateus 9,9-13 - Festa de S. Mateus, Apóstolo e Evangelista.


A passagem de Mateus 9,9-13 é proclamada de modo particularmente solene na liturgia romana em 21 de setembro, na Festa de São Mateus, Apóstolo e Evangelista,  na sexta-feira 13ª Semana do Tempo Comum e no 10⁰ Domingo do Tempo Comum do Ano A. No calendário romano, a celebração possui grau de festa e apresenta a memória do apóstolo associada à vocação, ao discipulado e à missão evangelizadora. A tradição cristã oriental também guarda a memória de Mateus, embora os calendários litúrgicos das Igrejas históricas não coincidam em todos os detalhes de datas e formulações. O que permanece comum é a memória de um homem chamado por Cristo a partir de sua condição concreta e transformado em testemunha do Evangelho. A Igreja, ao celebrar Mateus, não recorda simplesmente uma personagem distante da história, mas coloca diante de nós uma pergunta que continua profundamente atual: quem é visto por Cristo quando todos os outros já decidiram quem aquela pessoa é? Quem permanece sentado à margem porque foi reduzido ao seu pecado, à sua profissão, à sua reputação, à sua condição social ou ao pior momento de sua história? E que espécie de comunidade cristã nasce quando Jesus atravessa as fronteiras sociais, religiosas e morais que os seres humanos estabelecem para decidir quem merece aproximação, respeito, perdão e pertencimento? O Evangelho começa com um movimento aparentemente simples, mas carregado de uma profunda ruptura antropológica, social e religiosa: Jesus passa, vê um homem e o chama. Mateus 9,9 afirma que Jesus viu um homem chamado Mateus sentado na coletoria de impostos e lhe disse: “Segue-me”. O verbo ver é fundamental para compreender toda a narrativa, porque antes que Mateus faça qualquer coisa, antes que apresente uma confissão de fé, antes que demonstre arrependimento ou ofereça qualquer obra religiosa, Jesus o vê. A iniciativa parte de Cristo, e isso significa que a graça não começa na performance do pecador, mas no olhar daquele que reconhece a possibilidade de uma existência nova. O homem que a sociedade identificava principalmente por sua função é chamado pelo nome, e nesse detalhe existe uma das grandes afirmações antropológicas do Evangelho: ninguém pode ser reduzido àquilo que faz, ao lugar que ocupa, ao dinheiro que possui, ao erro que cometeu ou à reputação que recebeu. Mateus era publicano, mas não era apenas publicano; carregava uma história, uma dignidade e uma possibilidade de futuro que o olhar social de sua época provavelmente não conseguia enxergar.

Para compreender a força desse chamado é necessário considerar o contexto histórico, econômico, religioso e social da Galileia do primeiro século. A região estava submetida ao domínio romano e inserida em uma complexa estrutura de tributação, circulação de mercadorias e cobrança de taxas. Os cobradores de impostos estavam associados à administração fiscal e, por essa razão, eram frequentemente percebidos como colaboradores de uma ordem política estrangeira, além de serem alvo de desconfiança por possíveis práticas abusivas. Não podemos afirmar, apenas a partir de Mateus 9,9, exatamente quanto Mateus cobrava ou se praticava extorsão, pois o texto não fornece esses detalhes, mas podemos compreender que sua profissão o colocava em uma posição social moralmente suspeita. O Evangelho, entretanto, não ignora essa realidade nem transforma sua condição em virtude; o que ele faz é impedir que a profissão e a reputação tenham a última palavra sobre sua pessoa. Essa distinção é fundamental, porque a misericórdia de Jesus não significa declarar que o mal não existe, mas recusar a ideia de que o ser humano possa ser definitivamente identificado com o mal que praticou, com o rótulo que recebeu ou com a estrutura da qual participou.  O episódio também precisa ser lido à luz do que acontece antes dele. Mateus 8 e 9 apresentam uma sequência de ações de Jesus nas quais o Reino de Deus se manifesta justamente pela restauração daqueles que se encontram feridos, marginalizados ou socialmente desvalorizados. 

  • Mateus 8,1-4, Jesus toca um leproso. 
  • Mateus 8,5-13, acolhe a fé de um centurião.
  • Mateus 8,14-17, aproxima-se dos enfermos.
  • Mateus 8,28-34, enfrenta forças que aprisionam e desfiguram a existência
  • Mateus 9,1-8, perdoa os pecados e cura um paralítico. 

A tradição cristã antiga compreendeu que o Evangelho é uno, embora tenha quatro testemunhos canônicos. Santo Irineu, no século II, relacionou os quatro Evangelhos aos quatro seres vivos de Ezequiel 1 e Apocalipse 4, compreendendo essa diversidade como expressão da ação de um único Espírito. Essa tradição antiga é importante porque nos recorda que a Igreja não precisa destruir a diversidade para preservar a unidade. Mateus, Marcos, Lucas e João não são quatro evangelhos concorrentes, mas quatro testemunhos que convergem na proclamação de Jesus Cristo. 

  • Mateus apresenta Jesus profundamente ligado às Escrituras de Israel e à realização do Reino
  • Marcos destaca o caminho do Messias sofredor
  • Lucas evidencia a misericórdia, os pobres, os marginalizados e a ação do Espírito
  • João contempla o Verbo encarnado e a revelação do Pai no Filho. 
A diversidade das formas não destrói a unidade da Boa Nova, assim como a diversidade das pessoas não deveria destruir a unidade da comunidade cristã. Em Mateus, a citação de Oseias 6,6 reaparece em Mateus 12,7, quando os discípulos são criticados por colher espigas no sábado. Isso demonstra que “misericórdia quero e não sacrifício” não é uma frase decorativa, mas um princípio hermenêutico utilizado por Jesus para interpretar a própria Lei. Em Marcos 2,27, encontramos formulação semelhante: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado”. A Lei é dom, não instrumento de desumanização. Quando uma norma que deveria proteger a vida passa a ser utilizada para esmagar a pessoa, sua finalidade foi perdida. Essa é uma advertência permanente para toda instituição religiosa, porque nenhuma estrutura está imune à tentação de transformar meios em fins e de defender regras enquanto esquece as pessoas para as quais essas regras deveriam existir.

Vale a pema ressaltar que a vocação de Mateus não aparece, portanto, como episódio isolado, mas como parte de uma narrativa maior na qual Jesus manifesta uma autoridade que não consiste em dominar, excluir ou humilhar, mas em levantar aquilo que está caído. O mesmo Cristo que cura corpos restaura identidades, o mesmo que perdoa pecados rompe estigmas e o mesmo que anuncia o Reino reorganiza relações humanas. Quando chega à coletoria, Jesus continua fazendo aquilo que já vinha fazendo: aproxima-se de uma pessoa cuja vida estava presa a uma condição social controversa e abre diante dela uma possibilidade de futuro. A coletoria de impostos pode ser compreendida também como uma imagem poderosa da existência humana submetida à lógica da cobrança, do cálculo e da classificação. Ali circulavam mercadorias, moedas, taxas, documentos e obrigações, e Mateus estava sentado dentro desse sistema. O Evangelho constrói uma imagem extremamente significativa: um homem sentado diante de uma estrutura que o aprisionava até que uma palavra o colocasse novamente em movimento. Jesus não diz simplesmente que Mateus deve melhorar sua situação; diz “segue-me”, convocando-o para uma nova direção. Na Bíblia, conversão não é apenas uma mudança abstrata de opinião, mas mudança de caminho, de vínculos, de prioridades e de prática. 

  • Abraão deixa sua terra em Gênesis 12,1-4
  • Israel sai da escravidão em Êxodo 12,31-42
  • os profetas levantam-se diante dos poderes para anunciar a Palavra
  •  Os discípulos abandonam suas redes, barcos e mesas para acompanhar Jesus. 
Em Mateus 9,9, o corpo participa da conversão: Mateus estava sentado e levantou-se. A fé deixa de ser uma ideia e torna-se movimento. A tradição sinótica preservou essa memória com diferenças que enriquecem a leitura. 

  1. Marcos 2,13-17: enfatiza o chamado e o conflito em torno da mesa; 
  2.  Lucas 5,27-32:  Lucas destaca o grande banquete oferecido por Levi;
Ambos autores apresentam uma narrativa semelhante, chamando  o personagem de Levi, Mateus identifica o discípulo diretamente com a figura do publicano. As diferenças redacionais não anulam a unidade da tradição, mas mostram como cada evangelista contempla a mesma realidade a partir de uma perspectiva teológica própria. A tradição cristã antiga passou a identificar Mateus e Levi, e o próprio Evangelho segundo Mateus coloca Mateus entre os Doze em Mateus 10,3, acrescentando significativamente a expressão “o publicano”. Essa autodesignação possui grande força teológica porque o evangelista não apaga sua origem para construir uma biografia idealizada. Ele conserva a memória de sua condição anterior e, dessa maneira, demonstra que a graça não precisa falsificar o passado para produzir um testemunho. A pessoa transformada pela misericórdia não precisa negar de onde veio, porque a memória, quando iluminada pela graça, pode deixar de ser apenas motivo de vergonha e tornar-se testemunho da ação de Deus. 

A mesa possui uma importância decisiva nessa narrativa, porque no mundo mediterrâneo antigo comer com alguém significava muito mais do que compartilhar alimentoo e a refeição expressava proximidade, reconhecimento, pertencimento e comunhão. Quando Jesus se senta à mesa com publicanos e pecadores, ele não está simplesmente escolhendo um lugar para comer, mas atravessando uma fronteira social e religiosa. É por isso que os fariseus perguntam: “Por que o vosso mestre come com cobradores de impostos e pecadores?” A questão profunda não é gastronômica, mas comunitária: 

  1. Quem pode pertencer à comunidade formada em torno de Jesus? 
  2. Quem pode aproximar-se da mesa? 
  3. Quem merece ser recebido? 
  4. Quem pode ser considerado digno de convivência? 
Jesus responde com a imagem do médico: “Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas os doentes”. A comparação não transforma a doença em virtude, mas revela a finalidade da missão. Se a comunidade religiosa só aceita pessoas consideradas moralmente saudáveis, ela deixa de ser espaço de cura e transforma-se em clube de autorreferência. O Evangelho, ao contrário, parte da realidade concreta da fragilidade humana e anuncia uma misericórdia que chama à transformação. Nesse momento Jesus apresenta a chave hermenêutica de toda a passagem: “Quero misericórdia e não sacrifício”, citando Oseias 6,6. A frase não deve ser compreendida como rejeição simplista de todo culto, liturgia ou sacrifício, pois a própria tradição bíblica conhece a importância do culto, da oração e da adoração. O que Jesus denuncia é uma religiosidade que preserva o rito enquanto abandona a justiça, que conhece a linguagem do sagrado mas não conhece a compaixão. O profeta Oseias já havia denunciado uma relação com Deus baseada em práticas externas sem fidelidade interior. Miqueias 6,8 proclama que Deus exige justiça, misericórdia e humildade; Isaías 1,17 ordena buscar a justiça e defender o oprimido; Isaías 58,6-7 denuncia o jejum que não liberta os acorrentados nem reparte o pão com o faminto; Amós 5,21-24 rejeita celebrações religiosas quando a justiça está ausente. Jesus se coloca dentro dessa tradição profética e afirma que a relação com Deus não pode ser separada da maneira como tratamos o ser humano. Por isso, Mateus 9,9-13 permanece profundamente profético para a Igreja e para a sociedade contemporânea. Há uma religião que conhece ritos, discursos, títulos, vestes, cerimônias e estruturas, mas não sabe sentar-se à mesa com quem sofre. Há ambientes religiosos nos quais a aparência institucional vale mais que a verdade, o silêncio dos feridos vale mais que a escuta, a reputação vale mais que a justiça e a preservação do poder vale mais que a dignidade humana. Jesus atravessa justamente esse tipo de fronteira. Ele não destrói a santidade, mas revela que a santidade de Deus não se confunde com isolamento social. A santidade bíblica aproxima-se do ferido para restaurá-lo. Levítico 19,18 ordena amar o próximo; Provérbios 31,8-9 manda falar em favor daqueles que não conseguem defender-se; Salmo 82,3-4 exige defesa do fraco e do necessitado. A verdadeira religião não pode ser medida apenas pela quantidade de ritos realizados, mas também pela quantidade de vidas que somos capazes de proteger, restaurar e dignificar..É importante, porém, evitar uma interpretação historicamente equivocada que transforme os fariseus em uma caricatura de toda a tradição judaica. O farisaísmo era uma corrente judaica complexa, marcada pelo zelo pela Torá e por diferentes interpretações da Lei. Jesus e seus interlocutores compartilhavam as Escrituras de Israel, discutiam dentro de um universo religioso comum e participavam da mesma história de fé. O conflito dos Evangelhos precisa ser compreendido dentro do judaísmo do Segundo Templo, e não utilizado para alimentar preconceitos contra os judeus. Jesus era judeu, seus discípulos eram judeus e as Escrituras que fundamentavam sua missão eram as Escrituras de Israel. O problema denunciado pelo Evangelho não é uma religião específica como se estivesse condenada pela origem, mas a possibilidade permanente de qualquer comunidade religiosa transformar a norma em instrumento de exclusão e perder o coração da aliança. O fariseu também pode reaparecer dentro de nós quando utilizamos a religião para nos considerarmos superiores aos outros.

Essa advertência é particularmente importante diante do clericalismo e de toda forma de poder religioso que transforma serviço em domínio. O Jesus de Mateus não cria uma elite espiritual destinada a controlar os demais. Ele chama pessoas frágeis e diversas e lhes confia uma missão. Em Marcos 10,42-45, quando os discípulos discutem grandeza, Jesus afirma que os governantes dominam sobre seus povos, mas entre os seus seguidores não deve ser assim. Quem quiser ser grande deve servir. A autoridade cristã encontra sua legitimidade no serviço. Pedro recebe sua missão em João 21,15-17 depois de experimentar sua própria fragilidade, e Paulo reconhece em 2Coríntios 4,7 que o tesouro do Evangelho é carregado em vasos de barro. A Igreja perde sua força evangélica quando aqueles que deveriam servir passam a exigir reverência, quando a função se torna instrumento de prestígio ou quando a instituição passa a defender sua própria imagem em detrimento das pessoas feridas. A mensagem de Mateus também ilumina diretamente a desigualdade social. Os publicanos não podem ser compreendidos simplesmente como uma categoria moral, porque a sociedade contemporânea possui mecanismos muito mais sofisticados de classificação e exclusão. 

  • Existem pessoas reduzidas ao seu salário, ao emprego que perderam, ao lugar onde moram, à roupa que vestem, ao passado criminal, à situação econômica, à aparência ou ao nível de escolaridade. 
  • Existem trabalhadores submetidos à precarização, pessoas sem moradia, famílias atingidas pela fome, idosos abandonados, jovens sem oportunidades, mulheres vítimas de violência, migrantes discriminados e comunidades inteiras submetidas a diferentes formas de abandono. 
O Evangelho não apresenta um programa econômico detalhado, mas apresenta um princípio inegociável: a pessoa possui uma dignidade que não depende de sua utilidade para o mercado. Gênesis 1,26-27 afirma que o ser humano é criado à imagem de Deus, enquanto Marcos 8,36 pergunta de que adianta ganhar o mundo inteiro e perder a própria vida. A economia, a política e a religião precisam ser julgadas também por sua capacidade de preservar a vida humana. Há, portanto, uma coletoria contemporânea construída sobre metas, produtividade, consumo, algoritmos e desempenho. Muitas pessoas continuam sentadas diante de sistemas que calculam seu valor em números. Hoje talvez não estejamos diante de uma alfândega romana, mas podemos estar presos à necessidade de produzir continuamente, competir permanentemente e demonstrar sucesso o tempo inteiro. O Evangelho atravessa essa lógica quando Jesus olha para Mateus antes de perguntar qualquer coisa sobre sua produtividade. Cristo vê a pessoa antes da função. A antropologia cristã não permite que o ser humano seja reduzido ao que possui ou produz. “Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua vida?” pergunta Jesus em Marcos 8,36. A crise contemporânea não é apenas econômica ou política; é também uma crise de sentido, porque uma sociedade pode possuir enorme capacidade de produzir bens e, ao mesmo tempo, produzir solidão, ansiedade, violência, descartabilidade e ausência de significado. A violência também precisa ser confrontada à luz dessa passagem. Quando uma sociedade transforma pessoas em categorias, torna-se mais fácil justificar sua exclusão e sua eliminação. Jesus, entretanto, aproxima-se do outro como pessoa. Isso não significa negar a responsabilidade individual, ignorar crimes ou abandonar as vítimas, mas significa rejeitar a ideia de que a violência seja automaticamente transformada em justiça. A cruz de Cristo revela até onde pode chegar uma sociedade quando transforma o condenado em objeto. Jesus foi torturado e executado pelo poder político e religioso de seu tempo, e sua ressurreição desmascara a pretensão de qualquer sistema de transformar a morte do outro em solução moral. Mateus 5,38-48 rompe a lógica da vingança e Romanos 12,17-21 insiste que o mal não deve ser respondido com o mal. A justiça cristã não é ausência de responsabilidade, mas busca de uma resposta que não reproduza indefinidamente a mesma violência que pretende combater.

A história de Mateus também ilumina a crise de sentido porque seu chamado começa quando alguém o vê verdadeiramente. Vivemos numa época em que as pessoas são observadas constantemente, classificadas por dados, avaliadas por números e expostas nas redes sociais, mas isso não significa que sejam realmente vistas. Há uma diferença profunda entre observar e enxergar. O olhar social muitas vezes serve para controlar, comparar, consumir ou julgar, enquanto o olhar de Cristo reconhece a pessoa e abre uma possibilidade de futuro. Mateus estava sentado diante de uma estrutura que o definia e, naquele momento, descobriu que sua identidade não terminava ali. O Evangelho continua fazendo essa pergunta à nossa sociedade: quantas pessoas foram convencidas de que são apenas o que fizeram, o que perderam ou aquilo que os outros dizem sobre elas? Quantas desistiram de si mesmas porque ninguém lhes anunciou a possibilidade de recomeço? O chamado de Mateus também impede uma espiritualidade baseada na perfeição aparente. O discípulo não surge de um currículo impecável. A própria tradição apostólica é formada por pessoas marcadas por contradições. Pedro negou Jesus e depois recebeu uma missão; Paulo perseguiu a Igreja e posteriormente tornou-se um de seus grandes anunciadores; Zaqueu encontrou-se com Jesus e foi levado à reparação, conforme Lucas 19,1-10. A graça não elimina a responsabilidade pelo passado, mas impede que o passado tenha a última palavra. O cristianismo é uma religião da memória e da esperança, porque recorda aquilo que aconteceu sem transformar aquilo que aconteceu em sentença eterna. A misericórdia não apaga a verdade, mas abre um caminho para que a verdade não termine em condenação sem possibilidade de transformação.

É nesse ponto que a mesa de Mateus se torna uma imagem da própria Igreja. A comunidade cristã não existe para reunir pessoas que já consideram ter alcançado a perfeição, mas para caminhar com pecadores em direção à santidade. Isso não significa relativizar o pecado ou dizer que todas as escolhas são moralmente equivalentes. Significa reconhecer que todos dependemos da graça. Lucas 18,9-14 apresenta o fariseu e o publicano no templo, e o publicano, reconhecendo sua necessidade da misericórdia, retorna para casa justificado. A mesma lógica aparece em Mateus 9. O publicano não é transformado em modelo porque sua profissão tenha sido automaticamente boa, mas porque se deixa alcançar por uma palavra que muda sua existência. A graça verdadeira nunca é estéril. Ela produz conversão, responsabilidade, reparação e serviço. Essa dimensão fica ainda mais clara em Lucas 5, quando Levi oferece um grande banquete depois de seu chamado. A conversão não termina quando alguém deixa a antiga mesa; ela conduz à construção de uma nova mesa. Zaqueu apresenta movimento semelhante em Lucas 19,8, quando promete devolver aquilo que havia tomado injustamente. O encontro com Cristo alcança a relação com o dinheiro e com o próximo. Não basta dizer que mudou interiormente quando a vida concreta continua reproduzindo injustiça. Tiago 2,14-17 pergunta de que adianta dizer que alguém tenha fé se não oferece ajuda concreta ao necessitado. 1João 3,17-18 insiste que o amor não pode permanecer apenas em palavras. O Evangelho transforma relações, e uma conversão que nunca alcança o modo como tratamos as pessoas, o dinheiro, o trabalho, o poder e os vulneráveis precisa ser seriamente questionada.

Por isso, a Igreja que celebra Mateus precisa perguntar quem são hoje os publicanos e pecadores sentados diante de suas portas. Quem recebeu uma etiqueta antes de ser ouvido? Quem foi transformado em inimigo antes de ser reconhecido como pessoa? Quem carrega um passado que a sociedade não permite superar? Quem está preso, endividado, desempregado, dependente, migrando, adoecido, abandonado ou marcado por alguma história que o tornou indesejável? Jesus não manda celebrar o pecado, mas também não permite que a pessoa seja descartada por causa dele. A misericórdia cristã não significa ausência de verdade, mas verdade acompanhada de possibilidade de transformação. É por isso que Jesus pode dizer simultaneamente “segue-me” e “quero misericórdia”. O chamado exige mudança, mas a mudança começa porque alguém foi visto e acolhido. Aqui aparece novamente a voz dos profetas. O profeta bíblico não é simplesmente alguém que prevê acontecimentos futuros, mas aquele que interpreta o presente à luz da aliança de Deus. Jeremias 22,13 denuncia quem constrói sua casa com injustiça e explora o trabalhador; Amós 5,11-24 denuncia a exploração dos pobres e a religiosidade sem justiça; Miqueias 3,1-4 denuncia governantes que deveriam cuidar do povo, mas praticam violência; Isaías 58,6-7 denuncia uma espiritualidade que jejua sem libertar. Jesus assume essa tradição e, em Mateus 23, denuncia líderes religiosos que colocam fardos pesados sobre os outros. Portanto, celebrar São Mateus não pode significar apenas recordar um santo distante. A festa se torna verdadeira quando a comunidade permite que a Palavra julgue suas próprias estruturas, seus privilégios, suas omissões e suas práticas.

A religião também pode ser manipulada para justificar poder, dinheiro, preconceito e dominação. O Evangelho de Mateus apresenta Jesus rejeitando a tentação de transformar poder em espetáculo em Mateus 4,1-11, afirmando que não se pode servir simultaneamente a Deus e ao dinheiro em Mateus 6,24 e ensinando que entre seus discípulos não deve existir a lógica dos governantes que dominam em Mateus 20,25-28. Por isso, Jesus não pode ser utilizado como instrumento de legitimação de qualquer projeto de poder. O Cristo do Evangelho não cabe confortavelmente em sistemas que exaltam a riqueza, naturalizam a desigualdade, glorificam a violência ou transformam o adversário político em inimigo absoluto. A Boa Nova relativiza todos os poderes humanos diante do Reino de Deus e recoloca a pessoa humana, especialmente o vulnerável, no centro da responsabilidade ética. Mateus nos apresenta, assim, uma passagem da lógica da cobrança para a lógica da graça. Na coletoria, cada pessoa possui uma obrigação a ser calculada; na mesa de Jesus, a primeira pergunta é quem precisa de misericórdia. Na lógica da cobrança, a identidade pode ser reduzida a um débito; na lógica do Reino, a pessoa é maior que sua dívida. Isso não elimina justiça, responsabilidade ou reparação, mas impede que alguém seja reduzido definitivamente ao seu erro. A graça não é uma licença para continuar praticando injustiça, mas uma força que permite interromper o ciclo da injustiça. É exatamente por isso que a misericórdia possui dimensão profundamente política, social e histórica: ela recusa a ideia de que determinados seres humanos possam ser descartados para preservar a tranquilidade dos demais.  A Igreja precisa reaprender essa linguagem. Não há coerência em proclamar misericórdia enquanto se pratica humilhação. Não há verdade cristã em falar de perdão e alimentar vingança. Não há autenticidade na celebração da Eucaristia quando se ignora o faminto. Paulo denuncia essa contradição em 1Coríntios 11,17-29 ao perceber que a própria celebração da Ceia havia sido contaminada pela desigualdade entre os irmãos. A mesa de Mateus e a mesa eucarística pertencem à mesma lógica de comunhão. A liturgia cristã só encontra sua verdade quando conduz à fraternidade, à partilha e à reconciliação. Caso contrário, o rito corre o risco de tornar-se aquilo que os profetas já denunciaram: uma celebração religiosa separada da justiça.

O chamado de Mateus também revela que Deus não espera condições ideais para iniciar uma vocação. Jesus entra na vida concreta. O chamado acontece no trabalho, na rotina, no lugar onde Mateus está. Essa dimensão é essencial para uma teologia do cotidiano, porque Deus não se manifesta apenas nos templos, retiros ou momentos extraordinários. O Senhor passa pela casa, pela rua, pelo ônibus, pelo escritório, pela fábrica, pela cozinha, pela universidade, pelo hospital, pelo campo e pelas redes sociais. A questão não é escapar da realidade para encontrar Deus, mas reconhecer sua presença dentro dela e permitir que essa presença transforme nossas relações. A santidade cristã não consiste em fugir do mundo, mas em viver no mundo de tal maneira que a presença do Reino se torne perceptível. A apostolicidade de Mateus também precisa ser compreendida como missão. O apóstolo não é proprietário de uma cadeira, de um título ou de uma posição. É alguém enviado. Efésios 4,11-13 apresenta diferentes ministérios como dons destinados à edificação do corpo de Cristo, e Mateus 28,19-20 envia os discípulos a todas as nações. O ministério cristão existe para servir ao Evangelho e edificar o povo de Deus. Quando a missão é transformada em carreira, quando o serviço se converte em privilégio ou quando a estrutura passa a existir para preservar a própria estrutura, o centro foi deslocado. A autoridade cristã precisa voltar constantemente à pergunta de Jesus em Marcos 10,45: o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida.

A festa de São Mateus nos coloca, portanto, diante de uma pergunta que não pode ser respondida apenas com palavras religiosas: o que significa misericórdia em nossa vida concreta? Significa aproximar-se sem humilhar, corrigir sem destruir, responsabilizar sem desumanizar, perdoar sem apagar a verdade, acolher sem abandonar a justiça, proteger vítimas sem transformar a vingança em virtude, ouvir sem preconceito e reconstruir relações sempre que isso for possível. Misericórdia não é fraqueza nem ingenuidade; é a força capaz de interromper ciclos de violência e devolver humanidade a relações marcadas pela hostilidade. É reconhecer que o outro não deixa de ser pessoa porque errou, porque pensa diferente, porque é pobre, porque perdeu sua reputação ou porque pertence a um grupo social que aprendemos a desprezar. BSão Mateus permanece sentado diante da coletoria até que o olhar de Cristo atravesse a classificação social que o aprisionava. Essa cena continua acontecendo. Existem pessoas sentadas porque foram convencidas de que não podem mais mudar; existem outras porque a sociedade não lhes oferece oportunidade de recomeço; existem comunidades sentadas porque se acostumaram ao medo; existem Igrejas sentadas porque transformaram tradição em imobilidade; existem cristãos sentados porque preferem uma religião confortável à aventura do Evangelho. A palavra de Jesus continua sendo exigente: “Segue-me”. Ele não promete um caminho sem conflitos, mas chama para um caminho de transformação. Seguir Cristo significa aceitar que o caminho da misericórdia muitas vezes será contrário aos caminhos do poder, do dinheiro, do preconceito e da indiferença. Por isso, celebrar São Mateus é permitir que Jesus passe diante de nossas próprias coletorias. Algumas estão dentro de nós e podem assumir a forma de ressentimentos, ambições, preconceitos, medos, desejos de controle ou necessidade de aprovação. Outras estão fora de nós e aparecem nas estruturas econômicas, sociais, políticas e religiosas que produzem exclusão e sofrimento. O Cristo que chamou Mateus continua vendo, e seu olhar não é uma vigilância destinada a condenar, mas uma misericórdia que convoca à vida. Ele não pergunta primeiro quantos títulos acumulamos, quantas obras realizamos ou quantas pessoas conseguimos impressionar. Ele chama pelo nome e convida a caminhar. A conversão começa quando deixamos de perguntar apenas quem merece nossa misericórdia e começamos a reconhecer que nós também somos pessoas necessitadas dela. A tradição cristã guarda Mateus como apóstolo e evangelista, testemunha de uma história na qual um homem socialmente marcado foi alcançado pela graça e transformado em servidor da Boa Nova. Sua história não deve ser usada para romantizar a marginalidade nem para negar a responsabilidade moral, mas para afirmar que nenhuma pessoa deve ser condenada a permanecer eternamente dentro do rótulo que recebeu. O Deus revelado por Jesus chama pessoas reais, em situações reais, dentro de histórias reais, e oferece-lhes a possibilidade de uma existência nova. A graça não apaga a história; redime sua direção. Não destrói a responsabilidade; dá-lhe um horizonte novo. Não elimina a verdade; impede que a verdade seja utilizada como instrumento de desumanização. Que a festa de São Mateus, portanto, não seja apenas uma celebração de calendário, mas uma convocação da consciência cristã. Que a Igreja leia Oseias 6,6 não como frase decorativa, mas como critério de discernimento. Que Mateus 9,9-13 nos liberte de uma religião alimentada pela exclusão e nos conduza à santidade que se aproxima dos feridos. Que a mesa de Jesus nos ensine a construir comunidades onde ninguém seja descartado por sua história, sua condição social ou seu passado. Que a autoridade seja serviço, que a liturgia conduza à justiça, que a doutrina permaneça inseparável da caridade e que a missão jamais seja separada da dignidade humana. Que aprendamos a reconhecer os Mateus de nosso tempo, não para condená-los ou idealizá-los, mas para anunciar-lhes a possibilidade de recomeço e, sobretudo, para permitir que sua presença também converta a nossa própria comunidade. Porque o Evangelho continua atravessando nossas coletorias, continua chamando pessoas pelo nome, continua derrubando muros e continua anunciando que a misericórdia pode transformar histórias. Jesus continua passando, continua vendo e continua chamando, e a questão decisiva permanece diante de cada geração: quando ele disser “segue-me”, teremos coragem de levantar, abandonar aquilo que nos aprisiona e caminhar com ele até onde a misericórdia se transforma em justiça, a fé se transforma em serviço e a Boa Nova se transforma em vida para todos.

DNonato - Teólogo do Cotidiano 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pelo seu comentário.