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quinta-feira, 2 de abril de 2026

Um breve olhar sobre João 18,1 _19,42 / Sexta-feira da Paixão...

 
A  liturgia da Sexta-feira Santa nos introduz no núcleo mais denso da revelação cristã, onde a Palavra não apenas se proclama, mas se entrega. As leituras deste dia Livro de Isaías Is 52,13–53,12, Livro dos Salmos Sl 30(31), Carta aos Hebreus Hb 4,14–16; 5,7–9 e Evangelho de João Jo 18,1–19,42 formam uma tessitura teológica única, na qual sofrimento, obediência, entrega e glorificação se entrelaçam como linguagem viva de Deus na história.

O cântico do Servo sofredor em  Osaías Is 52,13–53,12,  apresenta uma figura desfigurada e rejeitada, que carrega as dores do povo e, paradoxalmente, realiza a salvação justamente por meio de sua entrega. A tradição cristã reconhece aqui uma chave hermenêutica fundamental para compreender a cruz, não como acidente trágico, mas como lugar onde a violência humana é assumida e transfigurada por Deus. 

O Salmos Sl 30(31) responsorial ecoa essa experiência existencial. “Em tuas mãos entrego o meu espírito” ressoa como expressão de confiança radical no meio da angústia, onde o abandono não anula a fé, mas a purifica.

A Carta aos Hebreus Hb 4,14–16; 5,7 aprofunda essa dinâmica ao apresentar Cristo como sumo sacerdote que não permanece distante, mas atravessa a condição humana até o limite. Sua obediência não é submissão cega, mas fidelidade encarnada que passa pelo sofrimento e se torna fonte de salvação. Aqui, a teologia sacerdotal rompe com qualquer clericalismo estéril. O verdadeiro mediador não é aquele que se protege do mundo, mas aquele que se expõe por amor.

No ápice, a narrativa da Paixão segundo João revela a cruz como entronização. O Cristo não é apenas vítima, mas sujeito soberano que entrega a própria vida. A “hora” joanina manifesta a glória que se revela na fraqueza, desestabilizando toda lógica de poder. Assim, as leituras convergem para um mesmo horizonte. Deus não intervém pela força, mas pela doação radical de si.

Historicamente, a celebração da Paixão na Sexta-feira Santa remonta às primeiras comunidades cristãs, especialmente em Jerusalém, onde já no século IV há registros de uma liturgia própria, centrada na proclamação da Paixão e na veneração da cruz. Diferentemente da Eucaristia, esta celebração se estrutura como memorial austero, marcado pelo silêncio, pela escuta da Palavra, pela oração universal e pela adoração do mistério da cruz. Trata-se de uma liturgia marcada pela ausência, que é, paradoxalmente, profundamente eloquente.

Por isso, neste dia, a Igreja não celebra sacramentos, exceto em situações extremas, como a unção dos enfermos ou a reconciliação em perigo de morte. A ausência da celebração eucarística não é uma lacuna funcional, mas um gesto teológico. A Igreja se coloca em jejum sacramental para expressar que o Esposo foi tirado. É o dia em que o Corpo é entregue e o Sangue é derramado, não sob a forma sacramental da ceia, mas na crueza do acontecimento histórico salvífico. Esse vazio litúrgico denuncia qualquer tentativa de domesticar o mistério. Ele impede que a cruz seja rapidamente absorvida por ritos que poderiam suavizar seu escândalo. A suspensão dos sacramentos expõe a radicalidade da entrega de Cristo e convida a Igreja a entrar no silêncio do mundo ferido. É um tempo de despojamento, onde a fé é chamada a permanecer sem apoios visíveis, sustentada apenas pela confiança.

A narrativa da Paixão em João 18–19, quando penetrada em sua densidade simbólica, revela-se como uma liturgia cósmica em movimento, na qual cada gesto, cada palavra e cada espaço ultrapassam o fato histórico e se tornam linguagem viva de Deus na história humana. Não se trata apenas de memória, mas de revelação. No ápice do Tríduo Pascal, proclamada na Sexta-feira Santa, essa narrativa expõe o coração da fé cristã: a cruz não como fracasso, mas como manifestação da glória. A “hora” anunciada é o momento em que o amor se revela em sua forma mais radical, desarmada e irreversível.

A travessia do Cedron não é simples deslocamento geográfico, mas rito de passagem existencial. Ali se atravessa o limite entre segurança e entrega, entre controle e abandono. Jesus entra conscientemente no território da rejeição, antecipando todas as travessias humanas marcadas pela dor e pela exclusão. Esse vale continua presente nas periferias esquecidas, nas vidas consideradas descartáveis, nos corpos feridos por sistemas que definem quem pode viver e quem deve morrer. Cristo não contorna esse lugar, Ele o atravessa e o assume.

O jardim da prisão reconfigura o Éden. Se no princípio o ser humano se esconde por medo, agora Deus se expõe por amor. A antropologia é invertida: não mais o medo como princípio, mas a entrega como plenitude. Essa revelação confronta diretamente a subjetividade contemporânea, marcada pela autopreservação, pelo isolamento e pela incapacidade de comunhão. A verdadeira humanidade não se realiza no fechamento, mas na vulnerabilidade assumida. O Ressuscitado confundido com o jardineiro confirma que a nova criação já começou, silenciosa e concreta.

As lanternas e tochas carregadas pelos soldados denunciam a pretensão humana de controlar a verdade. São luzes artificiais que não iluminam, apenas reforçam a cegueira. Essa cena se prolonga nas ideologias que manipulam narrativas, nos discursos religiosos que absolutizam interpretações e nos sistemas econômicos que reduzem vidas a estatísticas. A prisão de Jesus continua sempre que a verdade é capturada por interesses e instrumentalizada pelo poder. Quando Jesus pronuncia “Sou eu”, não oferece apenas identificação, mas revelação. O Nome irrompe na história e desestabiliza estruturas. A queda dos soldados indica que a verdade não é neutra, ela confronta, desorganiza e expõe. A resistência a ela não é apenas intelectual, mas existencial, pois ameaça identidades construídas sobre dominação, privilégio e exclusão. 

A reação de Pedro com a espada revela a tentação permanente de defender Deus com violência. A orelha ferida simboliza uma humanidade incapaz de escutar. Onde há imposição, a escuta morre. A fé, porém, nasce da escuta e se sustenta na abertura. A negação de Pedro, por sua vez, expõe a ambiguidade do coração humano. Amar e negar coexistem. O canto do galo não é condenação, mas despertar. Toda conversão começa quando a consciência se deixa ferir pela verdade.

O interrogatório religioso revela a falência de uma religião sem profecia. Quando o poder religioso se organiza para silenciar a verdade, ele deixa de ser mediação de Deus e se torna mecanismo de controle. Essa denúncia permanece atual. Sempre que a instituição protege a si mesma em detrimento da vida, sempre que a autoridade se impõe sem serviço, o Evangelho é traído. A fé perde sua força quando se separa da justiça. Diante de Pilatos, a narrativa atinge seu ponto político. O poder pergunta o que é a verdade, não para buscá-la, mas para evitá-la. A omissão de quem reconhece a inocência e ainda assim consente com a injustiça revela uma consciência fragmentada. A escolha por Barrabás não é episódio isolado, mas padrão sociológico. Sociedades feridas tendem a optar pela violência quando perdem a esperança de transformação. A multidão continua escolhendo a morte sempre que legitima sistemas excludentes.

A coroação de espinhos expõe uma realeza invertida. A humilhação se torna entronização. “Eis o homem” não é ironia, mas revelação antropológica. Ali está o ser humano pleno, não no domínio, mas na entrega. A cruz se torna critério para discernir o que é verdadeiramente humano. Toda forma de poder que desumaniza se revela falsa diante dela.

O Gólgota, espaço de exclusão, torna-se lugar de revelação universal. A inscrição em múltiplas línguas indica que nenhuma dimensão da realidade permanece intacta. Fé, política e cultura são confrontadas. A cruz desmascara sistemas que se pretendem absolutos e revela suas contradições.

A divisão das vestes denuncia a fragmentação da dignidade humana. A túnica indivisível aponta para uma unidade que não se constrói pela imposição, mas pela comunhão. Em um mundo marcado por polarizações, desigualdades e disputas, essa imagem revela a violência de dividir aquilo que deveria permanecer íntegro: a vida, a verdade e a dignidade. As mulheres permanecem. Elas encarnam a fidelidade que não foge diante da dor. Ali nasce uma nova comunidade, não fundada em laços biológicos ou institucionais, mas na escuta e na relação. Essa é a base de uma eclesiologia autêntica: comunhão que resiste, que permanece e que cuida.

Os crucificados ao lado de Jesus revelam a divisão fundamental da existência humana. A abertura ou o fechamento à graça não é abstração, mas decisão concreta. Essa cena continua na história. Os crucificados de hoje não são metáfora. Estão nas vítimas da violência estrutural, nos pobres descartados, nos marginalizados por sistemas econômicos e religiosos. A cruz deixa de ser símbolo e se torna critério ético inescapável. 

A sede de Jesus não é apenas física. É sede de justiça, de reconhecimento, de plenitude da vida. Essa sede permanece enquanto houver estruturas que negam dignidade. “Tudo está consumado” não expressa derrota, mas plenitude. A vida foi entregue até o fim, sem reservas. O amor alcançou sua forma total.

Do lado aberto brota vida. Sangue e água não são apenas sinais, mas origem. Cristo se revela como novo templo, fonte inesgotável. Onde há abertura, essa vida continua a fluir. Onde há fechamento, ela é impedida. A dureza do coração se torna obstáculo à graça.

O sepulcro em um jardim revela o paradoxo da esperança. O que parece fim é gestação. O silêncio não é ausência, mas profundidade. Deus age no oculto, fora das lógicas imediatas. A ressurreição não elimina a cruz, mas a atravessa e a transforma.

Essa narrativa não pertence ao passado. Ela expõe estruturas permanentes. O poder que manipula, a religião que se corrompe, a sociedade que escolhe a violência continuam operando. Quando a fé se alia a projetos autoritários, repete-se o grito que nega o Reino e absolutiza o poder. A  cruz permanece como linguagem viva. Ela denuncia toda forma de opressão, desmascara falsas seguranças e convoca à conversão. Não é objeto de contemplação passiva, mas critério de discernimento e compromisso. Seguir esse caminho não é exaltar o sofrimento, mas assumir a verdade, a justiça e a vida como horizonte inegociável.

Resta o silêncio. Não o silêncio cúmplice que encobre a injustiça, mas o silêncio fecundo que escuta, discerne e se abre à ação de Deus. No jardim, no Gólgota e no túmulo, esse silêncio revela que, mesmo quando tudo parece encerrado, a vida continua sendo gestada. E a história, ferida e contraditória, permanece convocada a renascer.

A  cruz, portanto, não pode ser reduzida a objeto estático de veneração, domesticado por discursos religiosos que a esvaziam de sua força crítica. Ela é linguagem viva de Deus na história, signo que revela e julga. Nela se manifesta o paradoxo central da fé cristã: o poder que se faz fraqueza, a glória que se revela na entrega, a realeza que se expressa no serviço. À luz de João 18 e 19, a cruz não apenas narra um acontecimento, mas interpreta a realidade, desmascarando as alianças entre poder político, religião institucional e interesses que sacrificam a vida em nome da ordem. O pretório, o templo e a multidão se entrelaçam numa trama que continua a se repetir na história.

Seguir Jesus, como afirma Lucas 9,23, implica assumir a cruz como caminho existencial. Não se trata de espiritualizar o sofrimento nem de sacralizar a dor, mas de comprometer-se radicalmente com a verdade que liberta, como em João 8,32, e com a justiça do Reino que se opõe a toda forma de opressão. A cruz torna-se, assim, critério hermenêutico para discernir a autenticidade da fé. Onde há exclusão, violência legitimada e silenciamento dos vulneráveis, ali a cruz está sendo novamente erguida, não como sinal de salvação, mas como denúncia do pecado estrutural.

Diante desse mistério, o silêncio se impõe, não como fuga, mas como atitude profundamente teológica. É o silêncio do jardim onde a prisão acontece, o silêncio do Gólgota onde a violência atinge seu ápice, o silêncio do túmulo onde tudo parece encerrado. Esse silêncio, porém, não é vazio. Ele é carregado de sentido, espaço onde Deus continua agindo de modo oculto, como sugerem as tradições sapienciais e a própria dinâmica pascal. É o silêncio que escuta o clamor dos crucificados da história e recusa a indiferença que sustenta sistemas de morte.

O sepulcro, por sua vez, rompe a lógica da desesperança. Em contextos marcados pela crise das instituições, pela banalização da vida e pela instrumentalização da fé, ele se apresenta como sinal escatológico de que a última palavra não pertence à morte. A ressurreição, anunciada já na entrelinha da narrativa joanina, não anula a cruz, mas a atravessa e a ressignifica. Como em João 12,24, o grão de trigo que morre é condição para a fecundidade da vida. Assim, o túmulo vazio torna-se proclamação de que Deus subverte as lógicas estabelecidas e faz emergir vida onde tudo parecia perdido.

A Paixão segundo João, portanto, ultrapassa a dimensão de memória litúrgica e se configura como leitura crítica da realidade. Ela revela um Deus que não se alinha com os poderes que oprimem, mas que se solidariza com os que sofrem. Nesse sentido, a cruz permanece no centro da história como critério de verdade e lugar teológico por excelência. Ela aponta para onde Deus está, nos corpos feridos, nas vidas descartadas, nas periferias existenciais e sociais, e denuncia toda forma de cristianismo que se acomoda ao poder e se distancia da vida concreta.

A Igreja, ao contemplar esse mistério, é chamada à conversão contínua. Não pode se refugiar em ritos vazios nem em discursos que justificam privilégios. Sua vocação é estar aos pés da cruz, como o discípulo amado e as mulheres, não para legitimar a dor, mas para testemunhar a fidelidade de Deus e anunciar a esperança que brota mesmo nas situações mais sombrias. Fora dessa postura, corre o risco de repetir, ainda que com linguagem piedosa, o clamor que atravessa os séculos e legitima a morte.

Assim, a cruz não encerra a história, mas a reabre. Ela convoca à responsabilidade, à lucidez e à ação. É convite a uma fé encarnada, crítica e comprometida, que lê os sinais dos tempos à luz do Evangelho e se posiciona diante das injustiças. No horizonte da ressurreição, a cruz deixa de ser escândalo paralisante e se torna caminho de transformação. E é nesse entrelaçamento de dor e esperança que Deus continua a escrever sua história com a humanidade, chamando-a, incessantemente, à vida. A  Paixão não é mera recordação, mas participação. Ela insere a comunidade no drama da história, onde os crucificados continuam a clamar. Ao silenciar os sacramentos, a Igreja escuta mais intensamente esse clamor e se confronta com sua própria vocação. Não reproduzir estruturas de morte, mas testemunhar, mesmo no silêncio, a esperança que brota da entrega.

DNonato - Teólogo dos Cotidiano 

sábado, 21 de março de 2026

Um outro olhar sobre João 11,1-45 - 5⁰ domingo da Quaresma

 

A liturgia do 5º Domingo da Quaresma, no ciclo A, nos coloca diante de um dos momentos mais densos de todo o itinerário quaresmal, já à beira da chamada “semana das semanas”, quando a Igreja mergulha no mistério central da fé. As leituras proclamadas são Ezequiel 37,12-14; o Salmo 129(130),1-2.3-4ab.5-6.7-8; Romanos 8,8-11; e o Evangelho de João 11,1-45 ou sua forma breve 11,3-7.17.20-27.33b-45 Não se trata de uma justaposição de textos, mas de uma arquitetura teológica profundamente integrada. 

  •   Ezequiel 37,12-14:  fala dos  túmulos que se abrem na história de um povo esmagado pelo exílio, revelando que Deus não aceita a morte coletiva como destino final. 
  • O salmo 129 (130): clama das profundezas, trazendo à tona a dimensão existencial de quem experimenta o abismo da dor e da culpa. 
  • Romanos 8,8-11:  Paulo desloca a esperança para o presente ao afirmar que o Espírito que ressuscitou Jesus já habita nos corpos mortais.

O Evangelho de João, 11,1-45, nosso objetivo  principal  da reflexão  nesse 5⁰ domingo da Quaresma é  uma síntese encarnada e  apresenta a resposta definitiva: a vida não é uma ideia, nem apenas uma promessa futura, mas uma pessoa concreta. Jesus de Nazaré, texto que  passou outras  vezes em nosso canal  do  YouTube, em nosso Facebook e aqui no blog pelo menos  3 vezes: nos textos de forna plena ou em parte: 

  1. Como se fez uma hermenêutica,   
  2.   Um breve  olhar sobre  João  11,v19-27 Memória  dos Stos Marta, Maria e Lázaro 
  3. Um olhar  sobre  João 11,1-45 - 5⁰ domingo da Quaresma
Este texto ocupa um lugar privilegiado não apenas no calendário romano, mas também na tradição catecumenal restaurada pelo Concílio Vaticano II em Sacrosanctum Concilium 64-66, sendo proclamado nos escrutínios que antecedem o Batismo na Vigília Pascal. Nas Igrejas orientais, especialmente na tradição bizantina, a ressurreição de Lázaro é celebrada no sábado de Lázaro, o  anterior ao Domingo de Ramos, indicando que este sinal é a chave hermenêutica para compreender a paixão e a ressurreição de Cristo. Trata-se, portanto, de um texto axial que articula vida, morte e esperança no interior da fé cristã.

É  preciso saber que vivemos dias em que a realidade social, política e econômica revela sinais evidentes de morte. Discursos públicos que banalizam a verdade, estruturas econômicas que concentram riqueza nas mãos de poucos enquanto multidões permanecem excluídas, e episódios de violência que atravessam o cotidiano são mais do que fatos isolados. São expressões de um sistema que naturaliza a morte social. Nesse cenário, a Palavra proclamada não é neutra. Ela ilumina e julga. Ela revela que, ainda hoje, Lázaro continua sendo sepultado. Não apenas nos túmulos de pedra, mas nas periferias, nas filas do desemprego, nas dependências químicas, nas prisões invisíveis da desesperança. A liturgia, então, não nos convida a escapar da realidade, mas a lê-la à luz do Deus da vida. O Evangelho de João se insere nesse horizonte como uma catequese profunda. O capítulo 11 não é apenas um relato de milagre, mas o sétimo sinal, a plenitude dos sinais, dentro da estrutura joanina. Desde Caná (Jo 2,1-11), onde a água se transforma em vinho, até Betânia, onde a morte se transforma em vida, há um caminho progressivo de revelação. E não por acaso, após este sinal, as autoridades decidem matar Jesus (Jo 11,53). A vida revelada por Cristo ameaça diretamente os sistemas que administram a morte.

A narrativa se inicia com a doença de Lázaro (Jo 11,1-3), mas rapidamente desloca o olhar. “Esta doença não é para a morte, mas para a glória de Deus” (Jo 11,4). Aqui já se estabelece um conflito hermenêutico. A realidade visível aponta para a morte, mas Jesus lê a situação a partir de uma lógica mais profunda. Ele permanece dois dias onde está (Jo 11,6), o que escandaliza qualquer expectativa imediatista. Em um mundo que exige respostas rápidas, Deus parece “atrasar”. Mas esse atraso não é ausência. É pedagogia. É condução à fé madura, aquela que não depende do milagre instantâneo, mas da confiança no mistério.

Os discípulos revelam uma compreensão limitada. Recordam a ameaça de apedrejamento (Jo 11,8) e temem retornar à Judeia. Tomé, com sua frase ambígua “vamos também nós para morrermos com ele” (Jo 11,16), expressa um discipulado ainda imaturo, mas já marcado por uma disposição de seguir. Aqui se revela uma antropologia eclesial. A comunidade não é perfeita. Ela caminha entre o medo e a fidelidade.

Ao chegar a Betânia, Jesus encontra um cenário marcado pelo luto. Lázaro está morto há quatro dias (Jo 11,17). Este detalhe não é secundário. Na mentalidade judaica da época, acreditava-se que a alma permanecia próxima ao corpo por três dias. O quarto dia significava a decomposição irreversível. Ou seja, não há mais esperança humana. O evangelista constrói deliberadamente um cenário onde toda possibilidade foi esgotada. É nesse lugar que a revelação acontece.

Marta sai ao encontro de Jesus (Jo 11,20). Sua fé é real, mas ainda marcada por uma compreensão escatológica futura. “Eu sei que ele ressuscitará no último dia” (Jo 11,24). Jesus então desloca radicalmente essa expectativa. “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11,25). Não se trata apenas de um evento futuro, mas de uma presença atual. Esta afirmação ecoa o nome divino revelado em Êxodo 3,14. Jesus não apenas fala de Deus. Ele se identifica com a ação de Deus. Ele é a vida.

A profissão de fé de Marta (Jo 11,27) constitui um dos centros do Evangelho. Assim como Pedro nos sinóticos (Mt 16,16), ela reconhece Jesus como o Cristo, o Filho de Deus. Mas aqui há um aprofundamento. A fé não é apenas reconhecimento, é adesão existencial.

Maria, ao encontrar Jesus, traz outra dimensão. Ela chora (Jo 11,32). Sua dor é visceral. Jesus, ao vê-la, “comove-se profundamente” (Jo 11,33). O verbo grego indica uma agitação interior intensa, quase uma indignação. E então, o versículo mais curto e talvez mais revolucionário: “Jesus chorou” (Jo 11,35). Deus chora. Esta afirmação rompe com qualquer teologia de um Deus distante. Aqui se revela uma teologia da compaixão. Em consonância com Hebreus 4,15, temos um Deus que participa da dor humana.

Ao chegar ao túmulo, o cenário é descrito como uma gruta fechada por uma pedra (Jo 11,38). A pedra é símbolo poderoso. Representa não apenas a morte física, mas tudo aquilo que impede a vida. Dureza de coração (Ez 36,26), incredulidade (Mc 16,14), estruturas sociais que aprisionam. Quando Jesus ordena “Tirai a pedra” (Jo 11,39), Ele convoca a comunidade. Deus não age sozinho. Há uma corresponsabilidade. A fé sem ação é morta (Tg 2,17).

A objeção de Marta “já cheira mal” revela o realismo da morte. A decomposição já começou. Quantas vezes também naturalizamos a morte social. Quantas vidas consideramos “casos perdidos”. O Evangelho confronta essa lógica. Não há situação irreversível para Deus.

Jesus reza (Jo 11,41-42), não para ser ouvido, mas para revelar. E então pronuncia a palavra criadora: “Lázaro, vem para fora” (Jo 11,43). Assim como em Gênesis 1, a Palavra cria. Em João 5,25, Ele já havia anunciado que os mortos ouviriam sua voz. Agora isso se concretiza.

Lázaro sai. Mas sai ainda envolto em faixas (Jo 11,44). Este detalhe é decisivo. Ele voltou à vida, mas ainda não está plenamente livre. Diferente de Jesus, cujo túmulo ficará vazio com as faixas deixadas para trás (Jo 20,6-7), Lázaro ainda precisa ser desatado. Por isso, a ordem final: “Desatai-o e deixai-o ir”. A comunidade é chamada a completar o processo de libertação. Aqui está uma das mais profundas implicações pastorais do texto. Ressuscitar não é apenas devolver a vida, é reintegrar, libertar, devolver dignidade.

A conexão com Ezequiel se torna evidente. “Abrirei vossos túmulos” (Ez 37,12). Não apenas individuais, mas coletivos. Trata-se de uma ressurreição histórica. A mesma lógica aparece em Isaías 58, onde o verdadeiro culto está ligado à libertação dos oprimidos. O Salmo 130 reforça que essa experiência nasce do abismo. E Romanos 8 afirma que essa vida é sustentada pelo Espírito.

A tradição dos Evangelhos sinóticos também ilumina essa leitura. A ressurreição do filho da viúva de Naim (Lc 7,11-17) e da filha de Jairo (Mc 5,21-43) revelam a compaixão de Jesus diante da morte. Contudo, João aprofunda essa tradição ao apresentar o sinal como revelação da identidade do próprio Cristo. Não é apenas o que Ele faz, mas quem Ele é.

Diante dessa revelação, a dimensão profética se impõe. A Palavra não pode ser neutralizada. Uma fé que não toca a realidade dos pobres é denunciada pela tradição bíblica. Amós 5,21-24 rejeita um culto sem justiça. Isaías 1,13-17 denuncia práticas religiosas vazias. Jesus retoma essa crítica em Mateus 23. Nesse horizonte, a voz de Óscar Romero ressoa com força. Uma religião de domingo que não transforma a semana é uma fé sepultada.

A idolatria contemporânea assume formas sutis. Quando estruturas econômicas são tratadas como absolutas, mesmo produzindo fome, estamos diante de uma idolatria. O Salmo 115 já denunciava ídolos que têm boca e não falam, olhos e não veem. Hoje, são sistemas que produzem riqueza sem gerar vida. A teologia da prosperidade, ao reduzir Deus a um garantidor de sucesso financeiro, esvazia o Evangelho. O clericalismo, ao concentrar poder, silencia a comunidade e impede que ela cumpra sua missão de desatar os que estão presos.

A antropologia do texto revela diferentes respostas humanas. Marta representa a fé racional. Maria, a fé afetiva. Os discípulos, a fé em construção. Os judeus, a ambiguidade social entre solidariedade e incredulidade. Lázaro representa a condição humana marcada pela finitude e pela dependência da graça. E Jesus integra todas essas dimensões, revelando uma humanidade plena unida à divindade.

A dimensão psicológica também é profunda. O luto, a espera, a frustração, a esperança são experiências universais. O Evangelho não nega essas realidades, mas as atravessa com sentido. A esperança cristã não é fuga, mas resistência. A missão da comunidade é clara. Tirar a pedra, desatar as faixas, chamar à vida. Isso implica ação concreta. Mateus 25,31-46 deixa claro que o critério final é a vida do outro. Atos 2,44-47 mostra que a comunidade primitiva vivia essa realidade na partilha.

Ao final, muitos creem (Jo 11,45), mas outros endurecem o coração. A vida oferecida exige decisão. Não há neutralidade diante do Evangelho. Ao nos aproximarmos da Semana Santa, este texto nos convida a uma conversão radical. O Batismo (Rm 6,4) já nos inseriu no mistério pascal. Já começamos a ressuscitar. A Páscoa não será apenas celebrada. Ela já começou onde alguém decide viver, amar, libertar.

A voz de Jesus continua ecoando. “Vem para fora”. Não apenas para Lázaro, mas para cada realidade de morte. A pergunta permanece. 

  • Quais são as pedras que ainda mantemos?
  • Quais são as faixas que ainda prendem nossos irmãos?

A fé cristã não pode ser reduzida a uma contemplação passiva, intimista ou alienada da história. Ela nasce do encontro com Aquele que atravessou a morte e inaugura uma nova criação (2Cor 5,17), e por isso se torna necessariamente compromisso concreto com a vida em todas as suas dimensões. Crer na ressurreição, à luz de João 11, não é apenas afirmar um dogma, mas assumir uma prática: é ouvir hoje a voz que continua a clamar “vem para fora” (Jo 11,43) e responder com gestos que rompem as estruturas de morte.

Onde a vida está ameaçada, seja pela fome que desumaniza (Mt 25,35), pela exclusão que invisibiliza, pela violência que silencia, ou por sistemas que transformam pessoas em números, ali a Igreja não pode hesitar. Sua vocação é tornar visível, no tempo presente, a força da ressurreição. Não como discurso, mas como prática libertadora. Não como retórica religiosa, mas como encarnação do Reino que Jesus anunciou (Lc 4,18-19). A neutralidade diante da morte é, em si mesma, uma forma de cumplicidade. E o Evangelho não permite cumplicidade com aquilo que nega a vida. A ressurreição de Lázaro nos revela que Deus age, mas não dispensa a comunidade. A ordem “tirai a pedra” (Jo 11,39) e “desatai-o” (Jo 11,44) permanece atual. Há pedras que continuam sendo colocadas todos os dias, pedras econômicas, culturais, religiosas, ideológicas, que sepultam sonhos e sufocam existências. Há também faixas que continuam aprisionando, preconceitos, medos, estruturas injustas, espiritualidades alienantes. A Igreja, se quer ser fiel ao seu Senhor, não pode apenas orar diante do túmulo. Ela deve agir para abri-lo.

Essa ação, porém, não é ativismo vazio. Ela brota do Espírito que vivifica (Rm 8,11), da escuta da Palavra que desinstala, da Eucaristia que forma um corpo comprometido com a história (1Cor 10,16-17). É uma ação enraizada na contemplação, mas que não se esgota nela. É uma espiritualidade que une joelhos dobrados e mãos estendidas, oração e justiça, fé e compromisso. Num mundo marcado por discursos que confundem, por poderes que oprimem e por uma religiosidade muitas vezes domesticada, a fé cristã precisa recuperar sua densidade profética. Não se trata de aderir a projetos ideológicos, mas de ser fiel ao Evangelho que sempre toma partido da vida, especialmente da vida ferida. Como já afirmava a tradição profética, “aprendei a fazer o bem, buscai a justiça, socorrei o oprimido” (Is 1,17). E como reafirma Jesus, não basta dizer “Senhor, Senhor” (Mt 7,21), é preciso fazer a vontade do Pai, que é sempre vida plena para todos (Jo 10,10).

Ao nos aproximarmos da Páscoa, a Igreja é chamada a renovar sua identidade mais profunda. Somos um povo pascal, marcado pela passagem da morte para a vida (Jo 5,24). Não fomos salvos para permanecer nos túmulos, nem para nos adaptar às estruturas que produzem morte. Fomos chamados a viver e a fazer viver. A esperança cristã não é fuga para o além, mas força para transformar o agora. PPor isso, não há adiamento possível. A ressurreição não é apenas promessa futura, ela irrompe no presente sempre que a vida é defendida, restaurada, promovida. Cada gesto de justiça, cada ação de solidariedade, cada palavra que denuncia a mentira e anuncia a verdade é já um sinal pascal no meio da história.

A Igreja será fiel ao seu Senhor na medida em que se tornar, concretamente, lugar onde os mortos voltam a viver, onde os excluídos são reintegrados, onde os que estavam presos são libertos. Este é o critério. Este é o julgamento. Este é o Evangelho.  Hoje, não amanhã. Agora, não depois. Porque a voz que chamou Lázaro continua ecoando, e a história continua esperando por comunidades que tenham coragem de remover pedras, desatar amarras e testemunhar, com a própria vida, que a morte não tem a última palavra.



DNonato - Teólogo do Cotidiano 

sexta-feira, 23 de maio de 2025

Um breve olhar sobre João 15, 18-21

 “Se o mundo vos odeia, sabei que, antes de vós, odiou a mim.” (Jo 15,18)

Este versículo é mais do que uma advertência. É um chamado à fidelidade radical. Jesus alerta seus discípulos de que o caminho do Reino não se alinha com os valores deste mundo. A fé cristã autêntica não busca aplausos, mas se enraíza na cruz, símbolo de escândalo (cf. 1Cor 1,23), resistência e amor não domesticado. O ódio do mundo não é acidente de percurso, mas resposta à luz que incomoda as trevas (cf. Jo 3,19-20). A rejeição é a marca do discipulado fiel.

Na 5ª Semana da Páscoa a Igreja ler o Evangelho de João os  capítulos 14 e 15 e no  sabado   proclama   João 15,18-21 encerrando  a semana, onde Jesus prepara os discípulos para a dureza do testemunho fiel: “Se o mundo vos odeia, sabei que, antes de vós, odiou a mim”. Não se trata de um convite ao vitimismo religioso, mas de uma convocação à fidelidade radical ao Reino de Deus. Cristo revela que o Evangelho entra inevitavelmente em choque com as estruturas de poder, mentira e injustiça que sustentam o mundo quando este se fecha à verdade de Deus. A Palavra proclamada neste dia pascal recorda que a fé cristã autêntica não procura aplausos nem prestígio social. Ela nasce da cruz e permanece marcada pelo escândalo do Crucificado (cf. 1Cor 1,23), sinal de amor não domesticado, resistência profética e entrega total. A rejeição sofrida pelos discípulos não é acidente de percurso, mas consequência da luz que denuncia as trevas (cf. Jo 3,19-20). O mundo odeia aquilo que desmascara sua violência, sua hipocrisia religiosa e seus sistemas de exclusão.

Jesus deixa claro que o discípulo não pode esperar tratamento diferente daquele dado ao Mestre: “Se perseguiram a mim, também perseguirão a vós” (Jo 15,20). Em tempos marcados pelo clericalismo, pelo uso ideológico da fé e pela banalização do Evangelho, esta Palavra ressoa como denúncia e chamado. O seguimento de Cristo exige coragem para permanecer na verdade, mesmo quando ela incomoda poderes religiosos, políticos e econômicos. A rejeição, nesse sentido, torna-se marca do discipulado fiel e sinal de pertença Àquele que foi crucificado fora dos muros da cidade. A liturgia deste sábado da 5ª Semana da Páscoa não exalta o sofrimento pelo sofrimento, mas anuncia a esperança daqueles que permanecem unidos a Cristo em meio às perseguições da história. O Ressuscitado continua caminhando com os que não negociam a dignidade humana, a justiça e a verdade do Evangelho.

Jesus não promete estabilidade institucional, ascensão social ou hegemonia cultural. Pelo contrário: “Sereis odiados de todos por causa do meu nome” (Mt 10,22). E Paulo reafirma com clareza: “Todos os que quiserem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos.” (2Tm 3,12). A opção pelo Evangelho é opção pela contramão, pelo confronto com os poderes que, ontem e hoje, se sustentam sobre a injustiça.

Historicamente, os mártires não foram mortos por defenderem doutrinas, mas por denunciarem estruturas opressoras. Jesus foi crucificado por dizer que o Templo havia se tornado um “covil de ladrões” (Mt 21,13), por curar em dia de sábado (Mc 3,1-6), por afirmar que “os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus” (Mt 21,31). Não morreu por ser “religioso”, mas por ser profundamente humano — e, por isso mesmo, profundamente divino.

A Igreja dos mártires sempre foi uma Igreja pobre, peregrina e profética. Dom Helder Câmara perguntava: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, me chamam de comunista.” A perseguição nasce da denúncia. E como denunciamos, hoje, um sistema global onde 1% da população concentra quase metade da riqueza do planeta?

A antropologia social ensina que todo grupo tende a rejeitar o que não compreende ou ameaça sua coesão. O discípulo de Jesus é, por definição, um “estrangeiro e peregrino” (Hb 11,13). Ele não se molda ao esquema deste mundo (cf. Rm 12,2). Ele não consome o que todos consomem, não odeia os inimigos, não busca o primeiro lugar. Isso o torna estranho. Ser cristão é, hoje, ser exilado cultural. A cultura do capital, do descarte e da meritocracia não compreende o louvor da partilha, da mansidão e da gratuidade.

A cruz de Cristo não é instrumento de opressão, mas de libertação. No entanto, o cristianismo muitas vezes foi cooptado por interesses de classe, nacionalismo e poder. O Papa Francisco denuncia o clericalismo como uma das maiores pragas eclesiais: “O clericalismo esquece que a visibilidade e a sacramentalidade da Igreja pertencem a todo o povo de Deus e não apenas a uns poucos eleitos.” (EG 102). Clericalismo é idolatria do cargo, é o anti-Evangelho disfarçado de piedade. Quando ministros ordenados se tornam corretores da fé a serviço de elites, eles traem o Cristo pobre e perseguido. Quando o altar se transforma em palanque ideológico e os sacramentos em instrumentos de controle, perdemos o Espírito. Onde há aliança entre púlpito e autoritarismo, há apostasia.

Essa é a denúncia profética que o Magistério latino-americano fez desde Medellín: “A Igreja deve denunciar, a partir da fé e do Evangelho, tudo aquilo que destrói o ser humano e ameaça sua dignidade.” (Medellín, Justiça, n. 3). Puebla foi ainda mais incisiva ao afirmar que há “estruturas de pecado que geram miséria, exclusão e morte” (Puebla, 28). A Igreja que caminha com os pobres será sempre incômoda para os que lucram com a injustiça.

A extrema-direita radical, com sua retórica de ódio, armamentismo, xenofobia e racismo, representa uma grave distorção do cristianismo. Usar o nome de Jesus para justificar políticas excludentes é profanação. A mesma cruz que hoje aparece em comícios e slogans políticos foi a cruz usada pelo Império para eliminar um subversivo galileu que lavava os pés dos pobres e acolhia pecadoras. “Ai dos que chamam ao mal bem e ao bem mal!” (Is 5,20).

Jesus se colocou sempre ao lado dos descartados. Tocou leprosos, defendeu adúlteras, acolheu estrangeiros. O Reino que Ele anunciou é incompatível com o neoliberalismo que transforma tudo em mercadoria. “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt 6,24) é uma sentença. Não há conciliação possível entre o Evangelho e um sistema que tolera a fome de muitos para sustentar o excesso de poucos.

A Conferência de Aparecida denuncia: “A idolatria do mercado e do dinheiro nega a dignidade da pessoa humana” (DAp 395). O Papa Francisco, no mesmo espírito, afirma com veemência: “Essa economia mata” (EG 53). Quem ousa denunciar isso será perseguido. Mas o silêncio diante dessas estruturas é cumplicidade.

A perseguição não é sinal de derrota, mas de autenticidade. Como nos lembra Paulo: “Somos entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal.” (2Cor 4,11). Não estamos sós. O Espírito anima a resistência. A memória dos mártires nos guia: Dom Oscar Romero, profeta da América Latina, assassinado enquanto celebrava a Eucaristia; Martin Luther King, morto por sonhar com justiça racial; Irmã Dorothy Stang, tombada por defender a floresta e os pobres do Pará

“Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.” (Mt 5,10). Ser odiado pelo mundo, quando se vive o Evangelho, não é maldição. É sinal de bem-aventurança.

DNonato – Graduado em História, teólogo do cotidiano, indigente do sagrado.